A Jornada do Escritor

Christopher Vogler · Capítulo 21 de 23

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A Jornada do Escritor

Estágio Doze: Retorno com o Elixir

 

"Não, tia Em, era um lugar vivo, de verdade. E eu lembro

que umas partes dele não eram muito boas. Mas a maioria era

muito bonita. Só que, de qualquer modo, eu ficava o tempo

todo dizendo a todo mundo: 'Eu quero voltar para casa'."

O Mágico de Oz

Tendo sobrevivido a todas as provações e passado pela morte, os heróis regressam a seu ponto de partida, voltam para casa ou continuam a Jornada. Mas prosseguem com a sensação de que estão começando uma nova vida, que, por causa do caminho que acabaram de percorrer, jamais voltará a ser como antes. Se são heróis mesmo, Retornam com o Elixir do Mundo Especial, trazem algo para compartilhar com os outros, alguma coisa com o poder de curar a terra ferida.

Nós, Buscadores, finalmente voltamos para casa, purgados, purificados, trazendo os frutos de nossa jornada. Dividimos com todos de Nossa Tribo o alimento e o tesouro que trouxemos, além de uma boa história sobre como isso foi conquistado. Fechou-se um círculo, dá para sentir. Pode-se ver que nossas lutas na Estrada dos Heróis trouxeram nova vida a nossa terra. Haverá outras aventuras, mas esta está completa, pois termina trazendo uma cura em profundidade, o bem-estar e a integração para nosso mundo. Os Buscadores voltaram para casa.

 

Retorno

A guerra do fogo tem uma sequência de Retorno magnífica, que mostra como, provavelmente, os humanos começaram a contar histórias, com os caçadores/colhedores brigando para narrar suas aventuras no mundo lá de fora. Os heróis do filme se deleitam com o fruto de sua busca durante um churrasco à volta da fogueira. O palhaço Pícaro do grupo de caça, agora, encarna o contador de histórias, representando uma aventura da fase de Testes, completa, com efeitos sonoros e uma imitação engraçada de um mamute, Guardião de Limiar, que eles encontraram no caminho. Um caçador ferido ri, enquanto seus ferimentos são tratados — em linguagem fílmica, uma declaração dos poderes curativos das histórias. Retornar com o Elixir significa introduzir a mudança na vida cotidiana e usar as lições da aventura para curar as feridas.

Denouement

Outro nome dado ao retorno é denouement, palavra francesa que significa "desatamento" ou "desenlace, desfecho" (noue quer dizer nó). Uma história é como uma tessitura em que as vidas dos personagens estão entrelaçadas num padrão coerente. As linhas do enredo são reunidas em uma série de nós, para criar conflito e tensão, e geralmente é conveniente aliviar essa tensão e resolver esses conflitos desmanchando os nós. Também falamos em "amarrar as pontas" das linhas de uma história, num desfecho. Amarrando ou desamarrando, essas expressões sugerem a ideia de que uma história é uma tessitura e deve ser rematada de modo adequado, para não se embaralhar ou se desfiar. Por isso, é importante, no Retorno, cuidar dos enredos secundários e de todas as questões levantadas na história. Um Retorno pode levantar novas questões — é até desejável que isto ocorra —, mas todas as antigas devem ser retomadas. Em geral, os escritores esforçam-se para criar uma sensação de estarem fechando um círculo, em todas essas linhas de histórias e temas.

 

Duas formas de histórias

Há duas vertentes para se concluir a Jornada do Herói. A maneira mais convencional de chegar ao fim, preferida na cultura ocidental e especialmente nos filmes americanos, é a forma circular, na qual se produz a sensação de algo sendo fechado e completado. A outra maneira, mais popular na Ásia e em filmes europeus e australianos, é o final aberto, no qual permanece uma sensação de perguntas não respondidas, ambiguidades e conflitos não resolvidos. Os heróis podem ter ampliado sua consciência, em ambas as formas. Mas, na forma aberta, seus problemas podem não estar tão claramente amarrados.

 

A forma circular

O esquema mais popular de uma história parece ser o circular, ou fechado, no qual a narrativa volta ao ponto de partida. Nessa estrutura, pode-se trazer o herói literalmente de volta, fechando um círculo, até a locação ou ao mundo de onde ele partiu. O Retorno pode ser circular de um modo visual ou metafórico, com a repetição da imagem inicial ou de uma determinada linha do diálogo ou uma situação vivida no primeiro ato. Esta é uma maneira de amarrar os fios e fazer com que a história pareça estar completa. As imagens ou frases podem ter adquirido um novo sentido agora que o herói completou sua Jornada. A declaração original do tema pode ser reavaliada no Retorno. Muitas composições musicais retornam ao tema inicial quando estão terminando.

Quando se faz o herói Retornar ao ponto de partida, ou relembrar como tudo começou, consegue-se fazer com que a plateia disponha de uma comparação. Dá-se a medida de até onde avançou o herói, de como ele se transformou e como o mundo velho parece diferente agora. Para transmitir essa sensação de comparação e de círculo completo, muitas vezes os escritores fazem com que seus heróis passem, no Retorno, por uma experiência que, no início da história, era muito difícil ou parecia impossível para eles. Assim o público pode ver como os heróis se transformaram. Em Ghost: Do outro lado da vida, o herói não conseguia dizer "Eu te amo" enquanto esteve no Mundo Comum. Mas no Retorno, tendo morrido e passado por vários testes na terra da morte, ele surge capaz de dizer essas palavras importantes, de modo que a mulher dele, ainda viva, as consegue ouvir.

Em Gente como a gente, o jovem herói Conrad está tão deprimido em seu Mundo Comum que nem consegue comer a torrada que a mãe faz. É um sinal externo de um problema interno, um sinal de sua incapacidade de aceitar amor, porque Conrad odeia a si mesmo, por ter sobrevivido ao irmão. No Retorno, tendo passado por várias provações de morte-e-renascimento, ele pedirá desculpas à namorada por ter se portado como um bobo. Quando ela o convida a entrar e tomarem juntos o café da manhã, ele agora descobre que tem apetite. Sua capacidade de comer é um sinal externo de sua mudança interna. Essa mudança concreta no comportamento é muito mais eficiente, do ponto de vista dramático, do que se Conrad apenas dissesse que se sente diferente, ou se alguém notasse que ele cresceu e fizesse essa observação. A narrativa comunica aquela mudança num nível simbólico, e atinge a plateia de modo indireto, no entanto mais poderoso do que uma declaração óbvia qualquer. De modo sutil, produz a sensação de que ali teve fim uma fase da vida do jovem, fechou-se um círculo, e outra etapa está a ponto de começar.

 

Conquista da perfeição

Os "finais felizes" dos filmes de Hollywood ligam esses filmes ao mundo dos contos de fadas, narrativas que, muitas vezes, tratam da conquista da perfeição. É comum que os contos de fadas terminem com uma declaração de perfeição do tipo "e viveram felizes para sempre". Os contos de fadas reequilibram a família abalada, trazem-na de volta a algo completo.

Uma maneira comum de terminar as histórias é encerrá-las com um casamento. O casamento sempre significa um novo começo e o término da vida antiga de solteiro. É o início de uma nova vida como parte de uma nova unidade. Os novos começos são perfeitos e imaculados em sua forma ideal.

O início de uma nova relação é outro modo de mostrar um começo a surgir nos atos finais de uma história. Em Casablanca, Humphrey Bogart submete-se a um difícil sacrifício de Ressurreição, ao desistir da mulher amada. Sua recompensa, o Elixir que Bogart traz daquela experiência, é sua nova aliança com Claude Rains. Como ele diz, numa das frases mais famosas de um diálogo em toda a história do cinema: "Louie, eu acho que isto é o começo de uma bela amizade."

 

A forma de final aberto

Os contadores de histórias têm desenvolvido muitas maneiras de criar uma sensação circular, de fechamento. Basicamente, trata-se das questões dramáticas que foram levantadas no primeiro ato. Entretanto, há casos em que é desejável deixar algumas pontas soltas. Alguns escritores preferem um Retorno com final aberto. Desse ponto de vista, a narrativa da história prossegue, mesmo depois de a história ter chegado ao fim — pois continua na mente e no coração do público, nas conversas e discussões das pessoas, num bar ou café, após terem visto o filme ou lido o livro.

Os escritores que defendem o final aberto preferem deixar a conclusão moral a cargo do espectador ou leitor. Algumas perguntas não têm respostas, outras têm muitas. Algumas histórias não terminam com a resposta e as soluções dos enigmas, e sim apresentando novas perguntas, que ressoam na plateia muito depois de a história haver terminado.

Os filmes de Hollywood são muito criticados por abusarem de finais falsos, do tipo conto de fadas, onde todos os problemas se resolvem e as inquietações culturais da plateia são anestesiadas. Em contraste, os finais abertos sugerem um mundo ambíguo, um lugar imperfeito. Para histórias mais sofisticadas, com tintas mais fortes ou realistas, o final aberto parece ser mais adequado.

 

Funções do Retorno

Assim como acontece com os outros estágios da Jornada, também o Retorno com o Elixir pode desempenhar várias funções, mas há algo especial nesse último elemento da narrativa. De certo modo, o Retorno é parecido com a Recompensa. Ambos se seguem a um momento de morte e renascimento e ambos mostram as consequências de sobreviver à morte. Certas funções de Apanhar a Espada também aparecem no Retorno — funções tais como tomar posse, festejar, celebrar casamentos sagrados, as cenas em torno da fogueira, autopercepção, vingança ou retaliação. Mas o Retorno é nossa última chance de falar às emoções da plateia.

Ali deve ser encerrada a história de modo a que satisfaça ou provoque o público, da forma que pretendia quem a contou. Tem um peso próprio, por causa de sua posição única no final da obra, e é um lugar cheio de riscos para os escritores e seus heróis.

 

Surpresa

Um Retorno pode estragar tudo se estiver arrumadinho demais ou não contiver surpresa alguma, sendo exatamente o que se esperava. Um bom retorno deve desatar os fios do enredo com uma certa dose de surpresa, um gostinho do inesperado, de uma revelação súbita. Os gregos e os romanos, muitas vezes, construíam uma cena de "reconhecimento" no final de suas peças e narrativas. Uma moça e um rapaz, criados entre pastores, descobrem, para surpresa geral, que são uma princesa e um príncipe, destinados ao casamento há muito tempo. No gênero trágico, Édipo descobre que o homem que ele matou, na etapa da Provação, era seu pai, bem como que a mulher com quem se casou era sua mãe. Nesse caso, o reconhecimento não é causa de alegria, mas de horror.

O Retorno pode ser torcido, pode esconder um desvio inesperado. Leva-se a plateia a acreditar numa coisa e, no último momento, revela-se uma realidade totalmente inesperada e diferente. O filme Sem saída traz uma percepção totalmente diversa do herói, nos últimos dez segundos do filme. Instinto selvagem induz a que se suspeite do personagem de Sharon Stone, nos dois primeiros atos; convence-nos de que ela é inocente, no clímax; e depois, na tomada final inesperada, devolve-nos a dúvida novamente.

Geralmente, há um tom irônico ou cínico nesses Retornos, como se quem criou a história dissesse: "Aí, hein, enganei vocês!.." Na plateia, somos apanhados como uns ingênuos, acreditando que os seres humanos são decentes, ou que o bem triunfa sobre o mal. Uma versão menos sardônica desse Retorno torcido encontra-se na obra de escritores como O. Henry, que, às vezes, usava esse desvio para mostrar o lado positivo da natureza humana, como no conto "Presente de Natal". Um casal de pobres faz sacrifícios para surpreender um ao outro com presentes de Natal. A certa altura, a mulher descobre que o marido vendeu seu relógio valioso para comprar uma tiara cara para enfeitar os belos cabelos dela. Acontece que ela já havia cortado e vendido as belas madeixas, a fim de comprar uma correia para o relógio que o marido tanto adorava. Os presentes e sacrifícios se cancelam mutuamente. Mas o casal é deixado com um tesouro de amor.

 

Recompensa e castigo

Uma função especializada no Retorno é efetuar a distribuição final de recompensas e castigos. Isto faz parte da tarefa de restaurar-se o equilíbrio da história, dando a sensação de que está completa. É algo como receber as notas no final dos exames. Os vilões têm que receber seu destino final, pagar por suas maldades, e não se dar bem. O público detesta isso. A punição deve ser adequada ao crime e deve ter a qualidade de justiça poética. Em outras palavras, a maneira pela qual o vilão morre ou é castigado tem que ser proporcional a seus pecados.

Também os heróis devem ganhar o que lhes cabe. Muitos filmes terminam com os heróis recebendo recompensas que não mereceram. A recompensa deve ser proporcional ao sacrifício feito. Não se ganha a imortalidade por ser bonzinho. E se os heróis deixaram de aprender uma lição, podem também ser penalizados no Retorno.

É claro que, se o seu ponto de vista dramático sustenta que a vida não é justa, ou que a justiça é algo raro neste mundo, a maneira como as recompensas e os castigos vão ser distribuídos no retorno deverá refletir isso.

 

O Elixir

A verdadeira chave do estágio final da Jornada do Herói é o Elixir. O que é que o herói traz do Mundo Especial para dividir com os outros no Retorno? Seja para dividir com a comunidade ou com o público, trazer o Elixir é o teste final do herói. É a prova de que ele esteve mesmo lá, serve de exemplo para os outros, e, principalmente, demonstra que é possível superar a morte. O Elixir pode até ter o poder de restaurar a vida no Mundo Comum.

Como tudo mais na Jornada do Herói, o Retorno com o Elixir pode ser literal ou metafórico. O Elixir será, talvez, uma substância concreta, um remédio trazido para salvar a comunidade em perigo (o que ocorre em vários episódios do seriado de televisão "Jornada nas estrelas", e é o objeto da busca em O curandeiro da selva). Poderá ser um tesouro literal, trazido do Mundo Especial e dividido com um grupo de aventureiros. De modo mais figurado, o Elixir pode ser qualquer das coisas que levam as pessoas à aventura: dinheiro, fama, poder, amor, paz, felicidade, sucesso, saúde, conhecimento, ou simplesmente ter uma boa história para contar. Os melhores Elixires são os que trazem maior consciência para o herói e a plateia. Em O tesouro de Sierra Madre, revela-se que o tesouro físico do ouro não vale nada, e o verdadeiro Elixir é a sabedoria de viver uma longa vida em paz.

Nas histórias do rei Arthur, o Graal é o Elixir que, ao ser compartilhado, cura a terra ferida. O rei Pescador pode ficar tranquilo de novo. Se Percival e os cavaleiros guardassem o Graal para si, não haveria cura.

Se um viajante não traz nada para compartilhar, ele não é um herói, mas um egoísta sem discernimento, que não compreendeu a lição e não cresceu. Voltar com o Elixir é o último teste do herói, em que ele mostra se está suficientemente maduro para compartir com os outros os frutos de sua conquista.

 

O elixir do amor

O amor, evidentemente, é um dos Elixires mais poderosos e comuns. Pode ser uma recompensa, a qual o herói não ganha senão através de um sacrifício final. Em Tudo por uma esmeralda, Joan Wilder tem que se desfazer de todas as suas antigas fantasias sobre homens, e se despedir de sua personalidade velha e insegura. Em compensação, inesperadamente, Jack Colton vem atrás dela. Como num milagre, ele aparece na rua em que Joan mora, em Nova York, transportando um romântico barco a vela para levá-la com ele. Colton, assim, transmutou o Elixir que buscava — a esmeralda preciosa — em algo talvez mais precioso, o amor. Joan também obtém sua recompensa romântica, mas só a conquistou quando aprendeu que poderia viver sem depender dessa fantasia.

 

O mundo mudou

Outro aspecto do Elixir é que a sabedoria que os heróis trazem de volta pode ser tão forte que acarreta mudanças, não apenas neles, mas no mundo em volta. O mundo todo se altera e as consequências vão longe. Há uma bela imagem disso em Excalibur. Quando Percival traz o Graal para Arthur, que está enfermo, o rei revive e sai novamente cavalgando com os companheiros. Estão tão repletos de uma nova vida que as flores vão se abrindo por onde passam. Eles são um Elixir vivo, cuja simples presença renova a Natureza.

 

O Elixir da Responsabilidade

Outro Elixir comum e poderoso é o que faz que os heróis tornem-se seres mais responsáveis em seu Retorno, desistindo da antiga condição de solitários para enfim assumirem um lugar de liderança ou serviço dentro de um grupo. Formam-se famílias e novas relações, fundam-se cidades. O centro do herói deslocou-se do ego para o selfe, às vezes, expande-se para incluir o grupo. Mad Max, o herói solitário de George Miller, deixa sua solidão para se tornar um mentor e funcionar como pai para uma raça de crianças que ficaram órfãs. O Elixir representa sua condição de sobrevivente à morte e também sua recordação do mundo antigo, de antes do apocalipse, recordação e lição (Elixir) que o herói passa para os órfãos.

O Elixir da Tragédia

No gênero trágico, os heróis morrem ou são derrotados devido a suas falhas trágicas. Mesmo assim, há aprendizado e traz-se da experiência um Elixir. Quem aprende? A plateia, que vê os erros do herói trágico e suas consequências. Aprende (se tiver juízo) quais erros deve evitar, e esse é seu Elixir.

 

Mais triste, porém mais sábio

Por vezes, o Elixir trazido pelo herói é uma visão melancólica dos erros que cometeu pelo caminho. Cria-se uma sensação de desfecho quando o herói percebe que se tornou mais triste, porém mais sábio, por ter vivido a experiência. O Elixir que ele traz pode ser um remédio amargo, mas evita que ele cometa o mesmo erro outra vez, e sua dor serve de advertência para que o público não escolha aquele caminho. Os heróis dos filmes Negocio arriscado e Homens brancos não sabem enterrar passaram por uma estrada de aprendizagem que misturava dor e prazer. Acabam perdendo o prêmio do amor, devem Retornar sem a mulher dos sonhos e consolar-se com o Elixir da Experiência. Essas histórias dão a sensação de que se fechou a conta, e os heróis estão diante de um equilíbrio final.

 

Mais triste, porém não mais sábio

Um herói "mais triste, porém mais sábio" está reconhecendo que foi um tolo, e isto já é o primeiro passo para a recuperação. O pior tipo de tolo é o que não percebe que é tolo. Nunca vê seu erro, ou não aprende a lição. Mesmo depois de suportar provações terríveis, volta a ter o mesmo comportamento que já o meteu em encrenca. Fica mais triste, porém não mais sábio. É outro tipo de final em círculo.

Nesse estilo de Retorno, um personagem bronco ou tolo parece ter crescido ou mudado. Pode ser um palhaço ou Pícaro, como Bob Hope nos filmes da dupla Crosby-Hope, ou Eddie Murphy em 48 horas ou Trocando as bolas. Esse tipo jura que aprendeu a lição, mas, no final, joga fora o Elixir e retorna ao erro original. Pode cair de volta em sua atitude original e irreprimível, fechando o círculo e se condenando a repetir a aventura.

Pois este é o castigo de quem não consegue Retornar com o Elixir: o Herói (ou alguém) condena-se a repetir as Provações até que a lição seja aprendida ou o Elixir seja trazido para casa e compartido.

 

Epílogo

Da mesma forma que algumas narrativas podem ter um prólogo que precede a ação, outras podem ter um epílogo que se segue ao corpo da história. Pode servir para completar a história, projetando-se adiante, em alguma época futura, para mostrar o que aconteceu com os personagens. Laços de ternura tem um epílogo que mostra os personagens um ano depois que a história principal terminou. Passa-se, assim, a sensação de que, embora exista tristeza e morte, a vida continua. O filme Olha quem está falando tem um epílogo que mostra o nascimento da irmãzinha do herói-bebê nove meses depois que a trama central foi resolvida. Histórias que acompanham um grupo de personagens em um período crítico ou de formação, como Loucuras de verão, ou filmes de guerra como Tempo de glória ou Os doze condenados, podem terminar com um curto segmento que dá notícia de como eles morreram, progrediram na vida ou são lembrados. Uma equipe muito especial tem um epílogo extenso, no qual uma jogadora já idosa, tendo relembrado sua carreira em flash back, no corpo principal do filme, visita o Hall da Fama do beisebol e ali vê várias de suas colegas de time. Ficamos sabendo dos destinos das jogadoras, das mulheres sobreviventes, as quais, agora nos seus sessenta anos, montam um jogo para mostrar que ainda sabem jogar. Seu espírito é o Elixir que faz reviver a heroína e a plateia.

Até aqui foram apresentados alguns dos propósitos e funções do Retorno. Também há neste estágio, entretanto, ciladas a serem evitadas.

 

Riscos do Retorno

É fácil estragar tudo, no Retorno. Muitas histórias despencam nos momentos finais, porque o Retorno é abrupto demais, muito prolongado, fora de foco, sem surpresas ou insatisfatório. Evapora-se o clima ou a cadeia de pensamentos que o autor criou, e todo o esforço se desperdiça. O Retorno também pode ser ambíguo em excesso. Muita gente não compreendeu o final torcido de Instinto selvagem porque não conseguiu resolver a dúvida sobre a culpa da mulher.

 

Tramas secundárias mal resolvidas

Outro risco é de que o escritor deixe de juntar todos os elementos no Retorno. É comum, hoje em dia, que um escritor deixe fios de tramas secundárias pendurados. Talvez devido à pressa de acabar e lidar com os personagens principais, acontece que ideias e personagens secundários são esquecidos, mesmo quando possam ser muito interessantes para a plateia. Os filmes antigos tendiam a ser mais completos e satisfatórios nesse aspecto porque seus criadores dedicavam um tempo para trabalhar todas as subtramas. Os atores podiam ter a certeza de que seriam necessários para trabalhar no começo, no meio e no fim do filme. Uma regra de ouro: as tramas secundárias devem ter, pelo menos, três cenas distribuídas ao longo da história, uma em cada ato. E no Retorno, todas essas tramas devem ser lembradas ou resolvidas. Cada personagem tem que sair da história com algum tipo de Elixir ou aprendizagem.

Finais demais

Por outro lado, o Retorno não deve parecer elaborado ou repetitivo. Outra regra de ouro para a construção dessa fase do Retorno é seguir o sistema BSSB: "Bem Simples, Seu Bobo". Muitas histórias erram porque têm um excesso de finais. A plateia sente que a história acabou, mas o escritor, talvez sem conseguir escolher o final correto, tenta vários. Isso tende a frustrar o público, dissipando a energia que foi criada. As pessoas querem saber que a história já terminou, e, sendo assim, já se pode levantar e ir embora, ou fechar o livro, tomado de uma carga poderosa de emoção. Um filme ambicioso demais, como Lord Jim, tentando contar por completo todo um romance denso, pode deixar a plateia esgotada, após uma sucessão de clímaces e finais que parecem não acabar nunca.

Um exemplo extremo da simplicidade pode ser a luta de caratê que forma o clímax de Karatê Kid. Com o último golpe, o herói vence e os créditos imediatamente começam a rolar em meio à explosão do tema musical final. Quase não há desfecho. Sabemos que o garoto está trazendo o Elixir das lições que ele aprendeu bem, durante o seu treinamento.

 

Finais abruptos

Um Retorno pode parecer excessivamente abrupto, dando a sensação de que o escritor desistiu cedo demais, logo após ter criado o clímax. Uma história tende a parecer incompleta se não contiver um certo espaço emocional para despedidas do personagem e conclusões. Um Retorno abrupto é como alguém que desliga o telefone sem se despedir.

 

Foco

Um Retorno pode parecer fora de foco se as questões dramáticas levantadas no primeiro ato e testadas no segundo não estiverem respondidas agora. Antes de mais nada, pode acontecer que o escritor tenha feito as perguntas erradas. Sem perceber, ele pode ter mudado de tema. Um conto que começou como uma história de amor pode ter se transformado, por exemplo, em uma dissertação sobre a corrupção do governo. O escritor perdeu o fio da meada. A história não parecerá estar em foco se ele não fechar o círculo, mediante o Retorno aos temas originais.

 

Pontuação

A função final do Retorno é concluir a história satisfatoriamente. A história deve terminar com o equivalente emocional de um sinal de pontuação. Uma história, tal como uma frase, só pode terminar de uma dessas quatro maneiras: com um ponto final, um ponto de exclamação, um ponto de interrogação, ou reticências.

As necessidades de sua história e sua atitude poderão ditar que ela chegue ao fim dando a sensação de ponto final, através de uma imagem ou frase que claramente faça uma afirmação do tipo "A vida continua", "O amor tudo vence", "O bem vence o mal", "A vida é assim", "Não há lugar melhor que o nosso lar".

Um final também pode ter o efeito de um ponto de exclamação, se a intenção da obra for despertar para a ação ou criar alarme. A ficção científica e os filmes de horror podem acabar num clima de "Não estamos sozinhos!", ou de "Arrependa-se ou pereça!". Histórias de mobilização social podem ter um tom apaixonado de "Nunca mais!", de "Levante-se e liberte-se das cadeias da opressão!" ou "Temos que fazer alguma coisa!".

Numa estrutura mais aberta, você pode querer terminar com o efeito de um ponto de interrogação, e a sensação de que as incertezas continuam. A imagem final pode sugerir uma pergunta tal como "Será que o herói vai voltar com o Elixir ou vai ser esquecido?" Um final aberto também pode deixar a sensação de reticências, com perguntas não formuladas, meio soltas no ar, ou conflitos não-resolvidos, sugerindo dúvida ou ambiguidade: "O herói não consegue decidir entre duas mulheres, então...", ou "Não dá para conciliar o amor e a arte, e sendo assim...", ou "A vida continua, e continua e continua....", ou ainda "Ela provou que não é assassina, mas...".

De um modo ou de outro, é o próprio final da história quem deve anunciar que ela acabou — como aquela frasezinha de assinatura nos desenhos animados da Warner: "Por enquanto é só, pessoal". Os contadores de histórias orais, além de usarem frases como "... e viveram felizes para sempre", às vezes terminam com algumas fórmulas rituais do tipo "Entrou pelo pé do pato, saiu pelo pé do pinto, quem quiser que conte cinco". Muitas vezes, uma imagem final, como a do herói se afastando a cavalo em direção ao crepúsculo, é capaz de resumir o tema da história numa metáfora visual e fazer a plateia saber que ali se chegou ao fim. A imagem final de Os imperdoáveis, uma tomada do personagem de Clint Eastwood afastando-se do túmulo da esposa e voltando para casa, assinala o fim da jornada e condensa o tema da história.

Esses são apenas alguns aspectos do Retorno com o Elixir. Ao fecharmos o círculo, deixemos alguma abertura para o desconhecido, o inesperado, o inexplorado.

 

O Mágico de Oz

O Retorno de Dorothy começa quando ela se despede dos aliados e agradece os Elixires de amor, coragem e sensatez que acaba de ganhar deles. Depois, batendo os calcanhares e cantando "Não há lugar melhor que o nosso lar", ela deseja estar de volta ao Kansas, onde tudo começou.

Em casa, no Mundo Comum, de volta ao preto-e-branco, Dorothy acorda na cama, com uma compressa na cabeça. Este Retorno é ambíguo: será que a viagem a Oz foi "real" ou apenas o sonho de uma menina que levou uma pancada na cabeça? Em termos da história, entretanto, não importa: para Dorothy, foi uma Jornada real.

Ela reconhece as pessoas em torno como sendo os personagens de Oz. Mas mudaram as percepções que a menina agora tem dessas pessoas, devido à experiência que ela acaba de adquirir no Mundo Especial. Dorothy lembra que parte foi horrível, que parte foi bonita, mas se concentra no que aprendeu: não há lugar melhor que o nosso lar.

A declaração de Dorothy, de que nunca mais vai sair de casa, não deve ser aceita literalmente. Não está se referindo a esta casinha de madeira no Kansas, mas à sua própria alma. Ela agora é uma pessoa plenamente integrada, de posse de suas melhores qualidades, tem controle das piores, e está em contato com as formas positivas de energia masculina e feminina dentro dela. Incorporou todas as lições que aprendeu, por ter estado na estrada. Finalmente, está feliz em sua própria pele, e vai se sentir em casa, onde quer que esteja. O Elixir que Dorothy traz de volta é essa nova ideia de estar em casa, esse novo conceito de seu próprio "eu".

* * *

E assim a Jornada do Herói termina, ou, pelo menos, descansa um pouco, já que a jornada da vida e a aventura da história não terminam nunca. O Herói e o público trazem consigo o Elixir desta aventura, mas a busca de integrar as lições continua. Cada um de nós é que deve definir que Elixir é esse — sabedoria, experiência, dinheiro, amor, fama, ou a emoção de toda uma vida. Mas uma boa história, bem como uma boa jornada, deixa conosco um Elixir que nos transforma, nos torna mais conscientes, mais vivos, mais humanos, mais inteiros, mais parte de tudo o que existe. O círculo da Jornada do Herói está completo.

 

Questionando a Jornada

1. Qual é o Elixir de Instinto selvagem? Quero ser grande? Amigos, sempre amigos? Atração fatal? Dança com lobos?

2. Qual é o Elixir que o seu herói traz da experiência? Fica guardado com ele ou é compartilhado com outras pessoas?

3. Sua história prolonga-se muito depois de ter ultrapassado o principal acontecimento ou o clímax? Qual seria o efeito de simplesmente cortar logo depois do clímax? De quantos desenlaces você precisa para satisfazer o público?

4. De que maneira seu herói foi, gradualmente, adquirindo mais responsabilidade, no decorrer da história? O Retorno é um ponto de maior responsabilidade?

5. Quem é o herói de sua história agora? Ela mudou de heróis ou alguns personagens elevaram-se e tornaram-se heróis? Quem se revelou uma decepção? Há surpresas no desfecho final?

6. Vale a pena contar a sua história? Aprende-se nela o suficiente para compensar o esforço?

? Em que ponto está você, em sua própria Jornada de Herói? Qual é o Elixir que você espera trazer?