A Jornada do Escritor

Christopher Vogler · Capítulo 14 de 23

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A Jornada do Escritor

Estágio Cinco: Travessia do Primeiro Limiar

 

"É só seguir a Estrada dos Tijolos Amarelos."

O Mágico de Oz, roteiro de Noel Langley,

Florence Ryerson e Edgard Allan Woolf

Agora o herói está parado junto ao limiar do mundo da aventura, o Mundo Especial do segundo ato. Ouviu o Chamado, manifestou suas dúvidas e apreensões, superou-as e já fez todos os preparativos. Mas o movimento real, a ação crucial do primeiro ato, ainda falta ser realizada. A Travessia do Primeiro Limiar é um ato voluntário, pelo qual o herói se compromete integralmente com a aventura.

As hostes dos Buscadores agora são mais rarefeitas. Alguns dentre nós desistiram, mas os poucos que restaram estão prontos para cruzar o limiar e realmente começar a aventura. Os problemas de Nossa Tribo estão nítidos para todos e são desesperantes — algo tem que ser feito, e já! Preparados ou não, saímos da aldeia e deixamos nossas coisas para trás. Ao nos afastarmos, sentimos como nos puxam os cordões de tudo o que nos liga às pessoas que amamos. É difícil cortá-los, mas respiramos fundo e vamos em frente, mergulhando no abismo do desconhecido. Entramos numa estranha terra de ninguém, um mundo entre mundos, uma zona de transição que pode ser desolada e solitária ou, em alguns casos, fervilhante de vida. Sentimos a presença de outros seres, outras forças, com espinhos agudos ou garras afiadas, guardando o caminho do tesouro que buscamos. Mas agora não há como voltar, todos sentimos isso. A aventura começou, para o que der e vier.

 

Chegando perto do Limiar

O comportamento típico de um herói não é o de aceitar os conselhos e presentes de um Mentor, e sair disparado ao encontro da aventura. Em geral, o salto final é desencadeado por alguma força externa, que muda o curso e a intensidade da história. É o equivalente do famoso "ponto de virada" da estrutura convencional de um filme em três atos. Um vilão pode matar, seqüestrar ou ameaçar alguém próximo ao herói, afastando qualquer hesitação. O mau tempo pode forçar um navio a se fazer logo ao mar, ou o herói pode receber um prazo-limite para terminar algo. Pode ser que acabem suas opções, ou que ele descubra que terá que tomar uma decisão difícil. Alguns heróis são "catapultados" para a aventura, ou empurrados da beirada do abismo, sem escolha a não ser ir em frente. Em Thelma & Louise, o fato de Louise reagir num impulso e matar o homem que ataca Thelma é a ação que empurra as duas mulheres para a Travessia do Primeiro Limiar, entrando num novo mundo, de uma corrida permanente, fugindo da lei.

Um exemplo de acontecimentos impostos de fora é encontrado em Intriga internacional, de Hitchcock. O publicitário Roger Thornhill, confundido com um ousado agente secreto, faz o possível durante todo o primeiro ato para evitar o Chamado à Aventura. É preciso um assassinato para que ele se lance à aventura. Um homem com quem ele está conversando, dentro do edifício da ONU, é morto diante de testemunhas, de tal modo que todo mundo acha que quem o matou foi Roger. Agora, ele passa mesmo a ser o "homem em fuga", escapando da polícia e dos agentes inimigos, a quem nada pode deter enquanto não matarem Roger. O assassinato é o evento externo que empurra a história a sair do Primeiro Limiar e entrar no Mundo Especial, onde o que está em jogo é muito mais alto.

Eventos internos também podem detonar uma Travessia de Limiar. Os heróis chegam a pontos de decisão em que suas almas estão em jogo, onde têm que resolver: "Continuo vivendo minha vida como está ou arrisco tudo, para crescer e mudar?" No filme Gente como a gente, a deterioração da vida do jovem herói Conrad, passo a passo, o pressiona a fazer uma opção, apesar dos medos — e ele procura um terapeuta, para explorar o trauma da morte do irmão.

Muitas vezes, é uma combinação de eventos internos e externos que impulsiona a história para o segundo ato. Em Um tira da pesada, Axel Foley vê um amigo de infância ser brutalmente executado por bandidos, e se motiva para encontrar o homem que os contratou. Mas é preciso um momento de decisão separado para ele vencer a resistência e realmente partir na aventura. Numa breve cena em que o chefe ordena que Foley fique fora do caso, podemos ver que ele faz sua opção íntima de ignorar a advertência e entrar no Mundo Especial, custe o que custar.

 

Guardiões de Limiar

Ao se aproximar do Limiar, provavelmente você vai encontrar seres que tentam impedir sua passagem. São os chamados Guardiões de Limiar, um arquétipo poderoso e útil. Podem surgir para bloquear o caminho, em qualquer ponto da história, mas tendem a ficar junto a portas, portões e desfiladeiros próximos das travessias de limiar. O capitão da polícia de Detroit, que proíbe severamente Axel Foley de se meter na investigação do assassinato, é uma dessas figuras.

Esses Guardiões fazem parte do treinamento do herói. Na mitologia grega, o portal de entrada do mundo subterrâneo era guardado por Cérbero, o cão de três cabeças, e muitos heróis tiveram que descobrir uma maneira de passar por aquelas mandíbulas. O soturno barqueiro Caronte, que guia as almas na travessia do rio Estige, é outro desses Guardiões, que tem que ser aplacado com o óbolo de uma moeda.

A tarefa dos heróis, a esta altura, muitas vezes, é descobrir uma maneira de passar ao largo, ou enganar esses Guardiões. Com frequência, a ameaça é só uma ilusão, e a solução é apenas ignorá-los ou enfrentá-los com confiança. Outros Guardiões de Limiar podem ser absorvidos, ou sua energia hostil pode ser refletida contra eles mesmos. O truque é perceber que o que parece um obstáculo pode ser, no fundo, a maneira de atravessar o Limiar. Esses aparentes inimigos podem ser transformados em aliados valiosos.

Muitas vezes, basta apenas reconhecer que eles estão ali. Ocupam uma posição difícil, e não seria educado querer passar por seu território ignorando-os, sem reconhecer seu poder e seu papel importante na defesa do portão. Quantas vezes é preciso dar uma gorjeta ao porteiro ou ao lanterninha num teatro?

 

A travessia

Por vezes, esse degrau significa meramente que chegamos ao limite entre dois mundos. É preciso dar o passo rumo ao desconhecido, senão a aventura jamais começará.

Inúmeros filmes ilustram essa fronteira entre dois mundos com a travessia de barreiras físicas, como portas, portões, arcos, pontes, desertos, desfiladeiros, muralhas, barrancos, oceanos ou rios. Em muitos westerns, esses limiares estão marcados claramente com a travessia de rios ou fronteiras. No filme Gunga Din, os heróis devem pular de um rochedo alto para escapar de uma horda de seguidores de uma seita, aos berros, no final do primeiro ato. Ao saltarem para o desconhecido, cruzam um Limiar, significando que estão dispostos a explorar juntos o Mundo Especial do segundo ato.

Antigamente, a transição entre o primeiro e o segundo ato muitas vezes era marcada por um escurecimento breve da tela, indicando a passagem do tempo e o movimento no espaço. Esse corte equivalia à descida da cortina no teatro, para que os contrarregras pudessem mudar o cenário e criar um novo local ou mostrar a passagem do tempo.

Hoje em dia, é comum que os montadores façam cortes bruscos entre o primeiro e o segundo ato. No entanto, a plateia ainda distingue uma evidente mudança de energia na Travessia do Limiar. Uma canção, uma vinheta musical ou um contraste visual nítido podem ajudar nessa transição. O ritmo da história pode mudar. Entrar em um novo terreno ou estrutura pode assinalar a mudança de mundos. Em Uma equipe muito especial, a Travessia é o momento em que as mulheres entram num estádio de beisebol de uma Grande Liga, um contraste marcado com os campos do interior onde vêm jogando.

A Travessia do Limiar pode ser um momento único, ou uma passagem extensa na história. Em Lawrence da Arábia, as vicissitudes de TE. Lawrence para atravessar um trecho perigoso do deserto elaboram este estágio e transformam-no em uma sequência substancial.

A Travessia exige um certo tipo de coragem por parte do herói, pois ele está como o Bobo nas cartas do taro: com um pé sobre o precipício, no limite de despencar no desconhecido.

Essa coragem especial é chamada de salto de fé. Assim como saltar de para-quedas de um avião, aquele é um ato irrevogável, não dá para recuar. Salta-se com fé, na confiança de que, de alguma forma, vai-se aterrissar em segurança.

 

Aterrissagem difícil

Nem sempre os heróis aterrissam com suavidade. Podem despencar no outro mundo, literal ou figuradamente. O salto de fé pode, também, tornar-se uma crise de fé, na medida em que as ilusões sobre o Mundo Especial são abaladas ao primeiro contato com ele. Um herói machucado pode erguer-se a duras penas, perguntando "Mas é só isso?". A passagem para o Mundo Especial pode ser exaustiva, frustrante ou desorientadora.

O Mágico de Oz

Uma força natural tremenda se ergue para levar Dorothy afazer a Travessia do Primeiro Limiar. Ela está tentando chegar em casa, mas um furacão a desvia para um Mundo Especial, onde ela vai aprender o que realmente significa estar "em casa". O sobrenome de Dorothy, Gale (em português, "ventania", "furacão"), já é um jogo de palavras que liga a personagem à ideia de tempestade. Em linguagem simbólica, são as próprias emoções de Dorothy Gale que, desencadeadas, geraram o tufão. Sua velha ideia de casa, a construção em si, é arrancada pelo vento e carregada para uma terra distante, onde pode ser construída uma nova estrutura de personalidade.

Enquanto atravessa a zona de transição, Dorothy vê cenas familiares, só que em circunstâncias fora do comum.

Vacas voam pelo ar, homens remam um bote em meio à tempestade, a srta. Gulch, em sua bicicleta, transforma-se na Bruxa Malvada. Não há mais nada com que Dorothy possa contar agora, a não ser Totó — seus instintos.

A casa despenca no chão, com um estrondo. Dorothy emerge, para encontrar um mundo surpreendentemente diferente daquele de Kansas. O que ela tem diante dos olhos, agora, é um mundo povoado por Homenzinhos e Mulherezinhas de contos de fadas. Um Mentor aparece magicamente: é Glinda, que flutua para dentro da cena em uma bolha transparente. Ela começa a explicar a Dorothy os costumes estranhos da nova terra, e assinala que a aterrissagem da casa de Dorothy esmagou e matou uma bruxa malvada. A velha personalidade de Dorothy foi abalada pelo desenraizamento de sua antiga noção de casa.

Glinda entrega a Dorothy os costumeiros presentes de Mentor: os sapatinhos de rubi e as instruções que fornecem uma nova direção a sua busca. Se quiser voltar para casa, Dorothy tem que, primeiro, encontrar o Mágico, isto é, entrar em contato com seu próprio Eu superior. Glinda lhe dá um caminho específico, a Estrada dos Tijolos Amarelos, e manda que ela cruze um novo limiar, sabendo que terá que fazer amigos, enfrentar inimigos e ser posta à prova, antes que consiga alcançar sua meta definitiva.

O Primeiro Limiar é o ponto em que a aventura começa, para valer, no fim do primeiro ato. Segundo uma metáfora que se usa muito na Disney, uma história é como um voo de avião, e o primeiro ato é o processo de carregar, abastecer, taxiar a aeronave e ir até a cabeceira da pista para a decolagem. O Primeiro Limiar é o momento em que as rodas deixam o solo e o avião começa a voar. Para quem nunca voou antes, podem ser necessários alguns instantes até que se sinta adaptado a estar no ar. Esse processo de adaptação é descrito na fase seguinte da Jornada do Herói: Testes, Aliados, Inimigos.

 

Questionando a Jornada

1. Qual é o Primeiro Limiar no filme Amigos, sempre amigos? Rain Man? Dança com lobos? Como a plateia sabe que se passou de um mundo para outro? De que modo a energia da história é diferente?

2. O seu herói está disposto a entrar na aventura ou não? Como isso afeta a Travessia do Limiar?

3. Existem forças guardando o Limiar? Como elas dificultam o salto de fé do herói?

4. Como o herói lida com os Guardiões de Limiar? O que ele aprende na Travessia do Limiar?

5. Quais foram os Limiares na sua vida? Como você os vivenciou? Você tinha consciência de que estava cruzando um limiar para um Mundo Especial, na ocasião?

6. Na Travessia de um Limiar, de que opções um herói está desistindo? Essas alternativas não exploradas lhe voltarão à mente, depois?