A Jornada do Escritor
Camaleão
"Você pode esperar o inesperado."
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É comum que se tenha dificuldade em captar o arquétipo fugidio do Camaleão, talvez porque é de sua própria natureza estar mudando e ser instável. Sua aparência e características mudam assim que é examinado de perto. Entretanto, trata-se de um poderoso arquétipo. Entender seu funcionamento pode ser muito útil — tanto na narrativa como na vida.
Com frequência os heróis encontram figuras — muitas vezes, do sexo oposto — cuja principal característica é que parecem estar sempre mudando, do ponto de vista do herói. É comum que o interesse amoroso do herói, ou sua parceira romântica, manifeste as qualidades de um Camaleão. Todos temos experiências de relações nas quais nosso parceiro é dúbio, tem duas caras, ou é espantosamente mutante. Em Atração fatal, o herói se defronta com uma Camaleoa, que abandona os gestos de amante apaixonada pelos de uma harpia enlouquecida e assassina.
Os Camaleões mudam de aparência ou de estado de espírito. Tanto para o herói como para o público, é difícil ter certeza do que eles são. Podem induzir o herói ao erro ou deixá-lo na dúvida, sua lealdade ou sinceridade estão sempre em questão. Um Aliado ou amigo do mesmo herói pode também agir como Camaleão, nas comédias de amizade ou aventura. Magos, bruxas e ogros são Camaleões tradicionais no mundo dos contos de fadas.
Função psicológica
Um propósito psicológico importante do arquétipo do Camaleão é expressar a energia do animus e da anima, termos usados pelo psicólogo Carl Jung. O animus é o nome que Jung dá ao elemento masculino no inconsciente feminino, ao emaranhado de imagens positivas e negativas de masculinidade nos sonhos e fantasias de uma mulher. A anima é o elemento feminino correspondente no inconsciente masculino. Segundo essa teoria, as pessoas têm um conjunto completo tanto de qualidades femininas como de masculinas, e ambas são necessárias para a sobrevivência e o equilíbrio interno.
Historicamente, as características femininas nos homens e as características masculinas nas mulheres têm sido severamente reprimidas pela sociedade. Os homens aprendem muito cedo a somente mostrar o lado macho e não-emocional de si mesmos. As mulheres são ensinadas pela sociedade a abafar suas qualidades masculinas. Isso pode levar a problemas emocionais e até mesmo físicos. Os homens, agora, vêm lutando para readquirir algumas de suas qualidades femininas suprimidas — sensibilidade, intuição, e a capacidade de sentir e expressar emoções. As mulheres, às vezes, passam a vida adulta tentando recuperar dentro de si as energias masculinas que a sociedade desencorajou: poder, firmeza e autoconfiança.
Essas qualidades reprimidas vivem dentro de nós e se manifestam em sonhos e fantasias, na forma do animas ou da anima. Podem assumir a forma de personagens como professores do sexo oposto, membros da família, colegas de turma, deuses ou monstros, que permitem que expressemos essa nossa força interna, inconsciente, mas poderosa. Um encontro com o animas ou a anima, em sonhos ou fantasia, é considerado um passo importante do crescimento psicológico.
Projeção
Também podemos nos defrontar com eles na realidade. Naturalmente, procuramos pessoas que casem com a imagem interior que temos do sexo oposto. Muitas vezes imaginamos essa semelhança e projetamos nosso desejo de reencontro com a anima ou o animus em alguma pessoa que nem desconfia disso. Podemos cair em relacionamentos nos quais não vimos com clareza o parceiro. Em vez disso, vimos a anima ou o animus, ou seja, a nossa própria noção interna de parceiro ideal, projetada em outra pessoa. É comum irmos de uma relação para outra tentando forçar o parceiro a se encaixar em nossa projeção. Hitchcock criou uma poderosa expressão desse fenômeno em Um corpo que cai. James Stewart força Kim Novak a mudar o cabelo e o jeito de vestir, para se ajustar à imagem de ideal feminino dele — Carlota; ironicamente, uma mulher que sequer chegou a existir.
É natural que cada sexo considere o outro como algo misterioso, sempre em transformação. Muitos de nós não compreendemos muito bem a nossa própria sexualidade e psicologia, quanto mais as do sexo oposto. Com frequência, nossa principal experiência do sexo oposto é sua mutabilidade e sua tendência a trocar de atitudes, aparências e emoções, sem nenhuma razão visível.
As mulheres se queixam de que os homens são vagos, cavilosos, incapazes de assumir um compromisso. Os homens se queixam de que as mulheres são instáveis, avoadas, frívolas e imprevisíveis. A raiva pode transformar os homens em animais. As mulheres mudam dramaticamente durante seu ciclo mensal, variando segundo as fases da lua. Com a gravidez, transformam drasticamente sua forma corporal e seu estado de espírito. Ou seja, todos nós, em algum momento de nossas vidas, somos vistos como "Camaleão".
O animus e a anima podem ser figuras positivas ou negativas, que podem ser ajudantes do herói ou destrutivas para ele. Em algumas histórias, a tarefa do herói é descobrir com que lado está lidando, se positivo ou negativo.
O arquétipo do Camaleão é também um catalisador de mudanças, um símbolo da necessidade psicológica de transformação. Lidar com um Camaleão pode fazer com que um herói mude suas atitudes em relação ao sexo oposto, ou se harmonize com as energias reprimidas com as quais esse arquétipo lida.
Essas projeções de nossos lados opostos escondidos, essas imagens e ideias sobre sexualidade e relacionamentos, formam o arquétipo do Camaleão.
Função dramática
O Camaleão tem a função dramática de trazer dúvida e suspense à história. Quando os heróis ou heroínas começam a perguntar: "Será que ela é fiel? Será que vai me trair? Ele me ama de verdade? Ele é meu amigo ou inimigo?", geralmente há um Camaleão presente.
Os arquétipos do Camaleão surgem com grande frequência e variedade nos filmes noir e nos thrillers. Filmes como À beira do abismo, Relíquia macabra ou Chinatown apresentam detetives que se confrontam com Camaleoas e duvidam da lealdade e dos motivos delas. Em outras histórias, como Suspeita ou A sombra de uma dúvida, de Hitchcock, é uma mulher boa quem tem que descobrir se um Camaleão merece ou não sua confiança.
Um tipo comum de Camaleoa é a femme fatale, a mulher que age como tentação ou é destruidora. A ideia é velha como a Bíblia, desde as histórias de Eva no paraíso, as da ardilosa Jezebel, e a de Dalila cortando a cabeleira de Sansão para retirar dele a força. A mulher fatal se expressa, hoje, em histórias policiais, nas quais detetives são traídos por mulheres assassinas, como o personagem de Sharon Stone em Instinto selvagem ou o de Kathleen Turner em Corpos ardentes. Outros filmes, como O mistério da viúva negra e Mulher solteira procura apresentam variantes interessantes, nas quais uma heroína, mulher, enfrenta outra mulher, uma Camaleoa mortal, femme fatale.
O Camaleão, como outros arquétipos, pode se manifestar em personagens masculinos ou femininos. Há tantos hommes fataux nos mitos, filmes e na literatura quanto mulheres. Na mitologia grega, Zeus era um grande Camaleão, mudando sua aparência para seduzir donzelas humanas, que geralmente acabavam sofrendo muito por causa disso. Â procura de Mr. Goodbar é a história de uma mulher que busca o amor perfeito, mas acaba encontrando um Camaleão que a leva à morte. O filme O estranho mostra uma mulher boa (Loretta Young) a ponto de casar-se com um Camaleão monstruoso, um nazista secreto representado por Orson Welles.
O aspecto fatal não é, porém, essencial nesse arquétipo. Os Camaleões podem apenas intrigar e confundir o herói, em vez de tentar matá-lo. Trocar de formas faz parte do romance. É comum alguém ser ofuscado pelo amor, ficar cego e incapaz de ver a outra pessoa com clareza, por detrás das inúmeras máscaras usadas. O personagem de Michael Douglas em Tudo por uma esmeralda parece ser um Camaleão aos olhos da heroína Kathleen Turner, que, até o último momento, tem dúvidas sobre a lealdade do parceiro.
O Camaleão pode manifestar-se nas mudanças de aparência. Em muitos filmes, quando uma mulher muda de estilo de roupas ou de penteado, isto pode indicar que sua identidade está se modificando e que sua lealdade é duvidosa. Esse arquétipo também se expressa por meio de mudanças de comportamento ou do modo de falar, como uma troca de sotaque ou a elaboração de uma série de mentiras. Em Arabesque, a Camaleoa Sophia Loren conta ao relutante herói Gregory Peck uma espantosa série de histórias sobre seu passado e sua vida, e todas acabam se revelando mentirosas. Muitos heróis têm que lidar com Camaleões, masculinos e femininos, que se disfarçam, mentem e os confundem.
Um célebre Camaleão da Odisseia é o deus do mar, Proteus, "o Velho do Mar". Menelau, um dos heróis que estão voltando da Guerra de Troia, aprisiona Proteus numa armadilha, para extrair dele uma informação. Proteus transforma-se num leão, numa cobra, numa pantera, num javali, em água corrente e numa árvore, em suas tentativas de escapar. Mas Menelau e seus homens agüentam firmes, até que Proteus volte a sua verdadeira forma, acabe cedendo, e forneça as respostas às perguntas de Menelau. A história ensina que, se os heróis forem pacientes com o Camaleão, a verdade acaba aparecendo.
Máscara de Camaleão
Como acontece com outros arquétipos, o Camaleão é uma função, ou uma máscara, que pode ser usada por qualquer personagem da história. Um herói pode usá-la numa situação romântica. Richard Gere, em A força do destino, finge ser o que não é e conta vantagem para impressionar Debra Winger. Por algum tempo, ele age como Camaleão, embora seja o herói da história.
Muitas vezes, um herói tem que se tornar um Camaleão para escapar de alguma armadilha ou ultrapassar um Guardião de
Limiar. Em Mudança de hábito, Whoopi Goldberg representa uma cantora de cabaré de Las Vegas que se disfarça de freira para não ser morta, por ter testemunhado um assassinato.
Os vilões e seus aliados podem usar a máscara de Camaleão para seduzir ou confundir o herói. A rainha malvada de Branca de Neve e os sete anões assume a forma de uma velha para fazer com que a heroína coma uma maçã envenenada.
Trocar de formas é também um atributo natural de outros arquétipos, como Mentores e Pícaros. Merlin, mentor do rei Arthur, freqüentemente muda de forma para ajudar o rei. A deusa Atena, na Odisseia, assume a aparência de muitos humanos diferentes para poder ajudar Odisseu e seu filho.
O Camaleão também é encontrado nas chamadas "comédias de duplas", nas quais a história gira em torno de dois personagens masculinos ou femininos que dividem o papel de herói. Em geral, um é mais heroico convencionalmente, mais fácil para a identificação da plateia. O outro da dupla, embora do mesmo sexo, com frequência é um Camaleão, cuja lealdade e verdadeira natureza estão sempre sendo questionadas. Na comédia Um casamento de alto risco, o herói "correto", Alan Arkin, é quase levado à loucura pela troca de aparências de seu amigo, Peter Falk, um agente da CIA.
O Camaleão é um dos arquétipos mais flexíveis e serve a uma variedade proteica de funções nas histórias modernas. É encontrado, geralmente, nas relações entre homem e mulher, mas pode ser muito útil também em outras situações, quando se deseja retratar personagens cuja aparência ou comportamento se alteram para satisfazer às necessidades da história.