A Jornada do Escritor

Christopher Vogler · Capítulo 8 de 23

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A Jornada do Escritor

Sombra

 

"Não dá para manter um bom monstro preso!"

Publicidade de O fantasma de Frankenstein

O arquétipo conhecido como Sombra representa a energia do lado obscuro, os aspectos não-expressos, irrealizados ou rejeitados de alguma coisa. Muitas vezes, é onde moram os monstros reprimidos de nosso mundo interior. As Sombras podem ser todas as coisas de que não gostamos em nós mesmos, todos os segredos obscuros que não queremos admitir, nem para nós mesmos. As características a que renunciamos, ou que tentamos arrancar, ainda sobrevivem e agem no mundo das Sombras do inconsciente. A Sombra também pode abrigar qualidades positivas que estão ocultas ou que rejeitamos por um motivo qualquer. A face negativa da Sombra, nas histórias, projeta-se em personagens chamados de vilões, antagonistas ou inimigos. Os vilões e inimigos, geralmente, dedicam-se à morte, à destruição ou à derrota do herói. Os antagonistas podem não ser tão hostis — podem ser aliados que têm o mesmo objetivo, mas discordam do herói quanto à tática. Antagonistas e heróis em conflito são como cavalos numa parelha, que puxam em direções diferentes, enquanto vilões e heróis em conflito são como trens que avançam um de encontro ao outro, em rota de colisão.

 

Função psicológica

A Sombra pode representar o poder dos sentimentos reprimidos. Um trauma profundo ou uma culpa podem crescer quando exilados para a escuridão do inconsciente, e emoções escondidas ou negadas podem se transformar em algo monstruoso que quer nos destruir. Se o Guardião de Limiar representa neuroses, o arquétipo da Sombra representa as psicoses que não apenas nos prejudicam, mas ameaçam nos destruir. A Sombra pode, simplesmente, ser aquela nossa parte obscura contra a qual estamos sempre lutando, em nosso combate contra os maus hábitos ou velhos medos. Essa energia pode ser uma força interna poderosa, com vida própria e com seu próprio sistema de interesses e prioridades. Pode ser uma força destrutiva, principalmente se não for reconhecida, enfrentada e trazida àluz.

Assim, nos sonhos, as Sombras podem aparecer como monstros, demônios, diabos, alienígenas maus, vampiros e outros inimigos temíveis. E é bom lembrar que várias figuras de Sombra podem também ser Camaleão, como vampiros e lobisomens.

 

Função dramática

A função da Sombra no drama é desafiar o herói e apresentar a ele um oponente à altura em sua luta. As Sombras criam conflito e trazem à tona o que o herói tem de melhor, ao colocá-lo numa situação que ameaça sua vida. Costuma-se dizer que uma história é tão boa quanto seu vilão, porque um inimigo forte obriga o herói a crescer no desafio.

A energia desafiadora do arquétipo da Sombra pode manifestar-se num único personagem, mas também pode ser uma máscara usada em momentos diferentes por qualquer um dos personagens. Os próprios heróis podem ter um lado de Sombra. Quando o protagonista está paralisado pelas dúvidas ou pela culpa, age de modo autodestrutivo, manifesta vontade de morrer, se deixa inebriar pelo sucesso, abusa do poder ou se torna egoísta em vez de se dispor ao sacrifício, está tomado pela Sombra.

 

Máscara da Sombra

A Sombra pode combinar-se com outros arquétipos, de modo muito poderoso. Como os outros arquétipos, também ela é uma função, ou máscara, que pode ser usada por qualquer personagem. O Mentor primordial de uma história pode usar a máscara da Sombra muitas vezes. Em A força do destino, o sargento-instrutor, representado por Louis Gossett, Jr., tanto usa a máscara do Mentor quanto a da Sombra. Ele é o mentor de Richard Gere, seu segundo pai, guiando-o pelo rigoroso treinamento naval. Mas, em termos do âmago de vida-ou-morte da história, Gossett também é uma Sombra, tentando destruir Gere e expulsá-lo do programa. Testa o rapaz até o limite extremo, tentando descobrir se ele tem as qualidades necessárias, e quase o mata no processo de fazer despertar o que ele tem de melhor.

Outra combinação forte de arquétipos encontra-se no Camaleão fatal, que discutimos anteriormente. Em algumas histórias, a pessoa que começa como o objeto amoroso do herói troca tanto de forma que se transforma na Sombra, dedicada à destruição do herói. Femmes fatales muitas vezes são chamadas de "damas de sombra". Isso pode representar um combate entre o

lado masculino e o feminino de alguém, ou uma obsessão com o sexo oposto que se transforma num estado mental psicótico. Orson Welles criou um clássico sobre esse tema, A dama de Shangai, no qual Rita Hayworth obceca o personagem de Welles, muda de forma e tenta destruí-lo.

Uma Sombra também pode usar a máscara de outros arquétipos. O canibal Hannibal Lecter, vivido por Anthony Hopkins em O silêncio dos inocentes, é principalmente uma Sombra, uma projeção do lado escuro da natureza humana, mas também funciona como um Mentor, ajudando a agente do FBI vivida por Jodie Foster, fornecendo a ela a informação que a ajuda a capturar outro assassino demente.

As Sombras podem transformar-se em Camaleões sedutores, para atrair o herói ao perigo. Podem funcionar como Pícaros ou Arautos, e até manifestar qualidades heroicas. Vilões que lutam bravamente por uma causa ou vivenciam uma mudança em seu coração podem redimir-se e transformar-se em heróis, como a Fera, de A Bela e a Fera.

 

Humanizando a Sombra

As Sombras não precisam ser totalmente malvadas. Na verdade, é melhor que sejam humanizadas por um toque de bondade, ou alguma qualidade admirável. Os desenhos animados da Disney são memoráveis por seus vilões, como o Capitão Gancho, em Peter Pan, o demônio, em Fantasia, a rainha bela e cruel, em Branca de Neve e os sete anões, ou Malvina Cruela, em Os 101 dálmatas. Eles são ainda mais deliciosamente sinistros por causa de suas qualidades de refinamento, poder, beleza ou elegância.

As Sombras também podem ser humanizadas quando ficam vulneráveis. O romancista Graham Greene é um mestre em fazer de seus vilões pessoas reais e frágeis. É comum que ele conduza o herói ao ponto de matar o vilão e, bem na hora, Greene faz com que ele descubra que o pobre coitado está com uma gripe horrorosa e dor de cabeça, ou está lendo uma carta da filha pequena. Com isso, o vilão, de repente, deixa de ser apenas uma mosca a ser esmagada, e surge como um ser humano de verdade, com suas fraquezas e emoções. Matar alguém assim passa a ser uma verdadeira escolha moral, e não apenas um reflexo impensado.

Ao planejar uma história, é importante lembrar que muitas figuras de Sombras não se consideram vilões ou inimigos. De seu ponto de vista, um vilão é o herói de seu próprio mito, e o herói da plateia é o vilão dele. Um tipo perigoso de vilão é o "homem correto", a pessoa tão convencida de que sua causa é justa que nada pode detê-la. Cuidado com o homem que acha que os fins justificam os meios. A sincera certeza de Hitler de que tinha razão, e de que era até heroico, permitiu que ele ordenasse as maiores atrocidades para atingir seus objetivos.

Uma Sombra pode ser um personagem ou uma força externa ao herói, ou pode ser uma parte dele mesmo profundamente reprimida. O médico e o monstro pinta com nitidez o poder do lado escuro na personalidade de um homem bom.

Sombras exteriores devem ser vencidas ou destruídas pelo herói. Sombras do tipo interno podem ser destituídas de seus poderes, como os vampiros, simplesmente por meio do artifício de removê-las das Sombras e trazê-las à luz da consciência. Algumas Sombras podem até passar por um processo de redenção e se converterem em forças positivas. Uma das mais impressionantes figuras de Sombra na história do cinema, Darth Vader, da série Guerra nas estrelas, acaba se revelando, em O retorno de jedi, como o pai do herói. Toda sua maldade, no fim, é perdoada e ele se transforma numa figura benigna, de fantasma, velando sobre o filho. O Exterminador também evolui e deixa de ser uma máquina de matar, voltada para destruir heróis, em O exterminador do futuro, para tornar-se um Mentor protetor de heróis, em O exterminador do futuro 2: O julgamento final.

Como outros arquétipos, as Sombras podem também expressar aspectos positivos, e não apenas negativos. A Sombra do psiquismo de alguém pode ser alguma coisa que foi reprimida, negligenciada ou esquecida. A Sombra abriga os sentimentos sadios e naturais que alguém considera que não deveríamos mostrar. Mas a raiva sadia ou a dor, se empurrada para o território da Sombra, pode acabar virando uma energia perniciosa, que ataca e solapa de maneiras inesperadas. A Sombra também pode ser constituída por um potencial inexplorado, como a afeição, a criatividade ou a capacidade intuitiva, que ficou sem se expressar. "O caminho não seguido", as possibilidades da vida que eliminamos, ao fazermos escolhas em diferentes estágios, tudo isso pode se reunir na Sombra, fermentando, até ser trazido à luz da consciência.

O conceito psicológico do arquétipo da Sombra é uma metáfora útil para compreendermos os vilões e antagonistas em nossas histórias, e também para captarmos os aspectos do herói que não se manifestam, ou ficam ignorados, ou ocultos.