A Jornada do Escritor
Estágio Dois: Chamado à Aventura
"Dinheiro, aventura e fama! A maior emoção de toda a vida!... e uma longa viagem marítima que começa amanhã às seis horas!"
King Kong, roteiro de James Creelman e Ruth Rose
O Mundo Comum da maioria dos heróis é uma condição estática, mas instável. As sementes da mudança e do crescimento estão plantadas, falta só um pouquinho de uma nova energia para que germinem. Essa nova energia, simbolizada de inúmeras maneiras em mitos e contos de fadas, é o que Joseph Campbell denominou Chamado à Aventura.
Lança-se a sombra do problema sobre Nossa Tribo. Sentimos o chamado — nos nossos estômagos que roncam, nas nossas crianças famintas que choram. Por toda a extensão em volta, a terra está seca e estéril e, evidentemente, é preciso que alguém saia e vá além do território familiar. Essa terra desconhecida é estranha e nos enche de medo, mas a pressão sobe, e é preciso fazer alguma coisa, enfrentar riscos, para que a vida possa continuar.
Um vulto emerge, visto através da fumaça da fogueira. Ê um dos anciãos de Nossa Tribo e ele aponta para você. Isso mesmo: você foi escolhido como Buscador, Aquele que Sai em Busca, e foi chamado para começar uma nova procura. Terá que arriscar a própria vida para que a vida maior da Nossa Tribo possa continuar.
Dar a partida na história
Várias teorias sobre a narrativa dão outros nomes ao Chamado à Aventura — incitamento, acidente iniciatório, catalisador, gatilho... —, mas todas estão de acordo com uma coisa: é preciso algum evento para ligar o motor, dar a partida na história, uma vez terminado o trabalho de apresentar o personagem principal.
O Chamado à Aventura pode vir sob a forma de uma mensagem ou um mensageiro. Pode ser um acontecimento novo, como uma declaração de guerra, ou a chegada de um telegrama dando conta de que os bandidos acabam de ser soltos da prisão e chegarão à cidade no trem do meio-dia a fim de liquidar o xerife. A entrega de uma intimação, uma notificação ou uma ordem de prisão são meios de fazer os Chamados, nas histórias que envolvem processos legais.
Mas o Chamado também pode ser apenas algo que se agita dentro do herói, um mensageiro do inconsciente, que traz a notícia de que chegou a hora de mudar. Esses sinais, às vezes, vêm em forma de sonhos, fantasias ou visões. Roy Neary, em Contatos imediatos de terceiro grau, recebe o Chamado sob a forma de imagens da Torre do Diabo, que o obcecam e surgem do seu subconsciente. Sonhos proféticos ou perturbadores ajudam a nos prepararmos para um novo estágio de crescimento, oferecendo-nos metáforas que refletem as transformações emocionais e espirituais que se aproximam.
O herói pode apenas se sentir farto das coisas do jeito que elas estão. Uma situação desconfortável vai crescendo até que uma gota d'água o lança à aventura. Joe Buck, em Perdidos na noite, simplesmente está saturado daquela vidinha de lavar louça, quando sente o Chamado surgindo dentro dele, a empurrá-lo para a estrada da aventura. Num sentido mais profundo, é uma necessidade humana universal que o empurra, mas é preciso aquele último dia de vida infeliz, diante da pilha de pratos, para que Buck se decida a dar o salto para o desconhecido.
Sincronicidade
Uma série de acasos e coincidências pode ser a mensagem que chama o herói para a aventura. Essa é a misteriosa força da sincronicidade, que C. G. Jung explorou em seus escritos. A recorrência acidental de palavras, ideias ou acontecimentos pode adquirir significado e chamar a atenção para a necessidade de ação e mudança. Muitos thrillers, como Pacto sinistro, de Hitchcock, são postos em movimento por um acaso que aproxima duas pessoas, como se fosse a mão do destino.
Tentação
O Chamado à Aventura pode agir sobre o herói como uma tentação, como o clima sugerido por um cartaz que anuncia uma viagem exótica ou a súbita visão de um amante em potencial. Pode ser o brilho do ouro, o boato sobre um tesouro, o canto de sereia da ambição. Na lenda arturiana de Percival (também conhecido como Parsifal), o jovem herói inocente é chamado à aventura pela visão de cinco magníficos cavaleiros em suas armaduras, cavalgando em busca de alguma coisa. Percival nunca vira criaturas semelhantes. Aquela visão o deixa mobilizado, com vontade de seguir os cavaleiros. Não sossega enquanto não descobre quem eles são, e nem percebe que seu destino determina que, dentro em breve, Percival seja um deles.
Arautos da mudança
O Chamado à Aventura, muitas vezes, surge através de um personagem que é uma manifestação do arquétipo do Arauto. Um personagem fazendo esse papel pode ser positivo, negativo ou neutro, mas sempre serve para desencadear o movimento da história, apresentando ao herói um convite ou desafio para enfrentar o desconhecido. Em algumas histórias, o Arauto é também um Mentor para o herói, um guia sábio, preocupado com os melhores interesses do herói. Em outras ocasiões, é um inimigo que lança uma luva de desafio na cara dele, ou tenta atraí-lo ao perigo.
No início, é comum que os heróis tenham dificuldade em distinguir se quem usa a máscara do Arauto é inimigo ou aliado. Muito herói já considerou que o Chamado de um mentor bem-intencionado vinha de um inimigo, ou interpretou a sedução de um vilão como um convite amigo para uma aventura divertida. Nos gêneros do thriller e do film noir, os escritores muitas vezes disfarçam, deliberadamente, a realidade do Chamado. Figuras de Sombra podem fazer ofertas ambíguas, e os heróis têm que recorrer a toda sua habilidade para interpretá-las corretamente.
Muitas vezes, os heróis não percebem que há algo de errado com seu Mundo Comum, e por isso não veem que é preciso mudar. Podem estar num estado de negação. Estão apenas seguindo adiante, graças a um arsenal de muletas, vícios e mecanismos de defesa. A função do Arauto, nesse caso, é dar um chute em todos esses falsos apoios, e anunciar que o mundo do herói é instável e tem que ser (saudavelmente) reequilibrado por meio da ação, de correr riscos, de lançar-se à aventura.
Reconhecimento
O erudito russo Vladimir Propp, que analisou contos populares, identificou uma fase inicial comum nas histórias, chamada de reconhecimento. Um vilão percorre o território do herói, talvez até fazendo perguntas pela vizinhança, questionando se vive por ali uma certa criança, ou pedindo informações sobre o herói. Isto pode funcionar como um Chamado à Aventura, alertando a plateia e o herói de que algo não anda bem e a luta vai começar.
Desorientação e desconforto
Muitas vezes, o Chamado à Aventura pode ser perturbador e desorientador para o herói. Em outras ocasiões, os Arautos enganam os heróis, falseando a própria aparência para ganhar sua confiança e, depois, trocando de forma para fazer a entrega do Chamado. Alfred Hitchcock nos dá um poderoso exemplo em Interlúdio. A heroína, vivida por Ingrid Bergman, é uma moça que só quer se divertir, e cujo pai fora condenado como espião nazista. O Chamado à Aventura chega através de um Arauto, na forma de Cary Grant, um agente americano que tenta obter a ajuda dela, para poder infiltrar-se num círculo de espiões nazistas.
Primeiramente, ele joga seu charme e entra na vida da moça, fingindo ser um playboy que só pensa em bebida, carros velozes e... nela. Depois que ela descobre, por acaso, que o sedutor é da polícia, ele muda de conversa, põe a máscara de Arauto e transmite a ela um desafiante Chamado à Aventura.
Ingrid Bergman acorda na cama, de ressaca, depois de uma noite de festas. Grant, enquadrado na moldura da porta, dá a ela uma bebida efervescente, para acalmar o estômago. O gosto é horrível, mas Grant faz com que a moça beba de qualquer jeito.
A beberagem simboliza a nova energia da aventura — mesmo com aquele gosto de veneno, se for comparada com as bebidas finas a que a moça está acostumada — mas que, afinal, vai ser um bom remédio.
Nessa cena, Grant está encostado no marco da porta, numa silhueta, como se fosse um anjo negro. Do ponto de vista de Ingrid Bergman, esse Arauto de aparência imprecisa pode ser um anjo ou um demônio. A hipótese demoníaca é sugerida pelo nome dele, revelado pela primeira vez: Devlin (em inglês, Devlin aproxima-se de devil, que significa demônio). Quando ele avança pelo quarto, em direção à moça, para transmitir o Chamado, Hitchcock faz a câmera segui-lo, numa tomada em que o ponto de vista oscilante e estonteante reflete o estado de ressaca da heroína, deitada. Parece que Grant está caminhando no teto. Na linguagem simbólica do filme, essa tomada expressa o momento de mudança da posição do personagem de Cary Grant, de playboy a Arauto, e seu efeito desorientador sobre a heroína. Grant faz o Chamado — um convite patriótico para que ela se infiltre no círculo de espiões nazistas. E quando transmite a mensagem, Grant é visto, pela primeira vez na cena, totalmente iluminado e inteiramente na vertical, o que representa o efeito da sobriedade no personagem de Bergman.
Enquanto o casal conversa, um aplique de cabelo artificial, parecido com uma coroa, escorrega da cabeça de Bergman, mostrando que aquela existência enganosa e viciada de princesa de conto de fadas tem que chegar ao fim. Simultaneamente, na trilha sonora, pode-se ouvir o som distante de um trem afastando-se da cidade, sugerindo o começo de uma longa jornada. Nessa sequência, Hitchcock usou todos os elementos disponíveis para assinalar que se aproxima um limiar de mudança importante. O Chamado à Aventura desorienta a heroína e a repugna, mas é necessário ao crescimento dela.
Carência ou necessidade
Um Chamado à Aventura pode chegar sob a forma de uma perda ou subtração da vida do herói no Mundo Comum. A Aventura do filme A guerra do fogo começa quando se extingue o último graveto aceso de uma tribo na Idade da Pedra, preservado numa lamparina rudimentar, uma espécie de caixa feita de ossos. Os membros da tribo começam a morrer de frio e fome, por causa dessa perda. O Herói recebe um Chamado à Aventura quando uma das mulheres da tribo põe à frente dele uma lamparina, e isto mostra sem palavras que a perda tem que ser reparada e que o herói precisa partir para a aventura.
O Chamado pode ser o rapto de alguém amado, ou a perda de algo precioso, como a saúde, a segurança ou o amor.
Sem mais opções
Em algumas histórias, o Chamado à Aventura pode ser simplesmente a total falta de opções por parte do herói. Os mecanismos de defesa deixam de funcionar, outras pessoas se enchem do herói, ou ele é encurralado num beco sem saída, de tal modo que só lhe resta mergulhar na aventura. Em Mudança de hábito, o personagem de Whoopi Goldberg é testemunha de um assassinato e tem que se esconder, disfarçada de freira. Suas opções são limitadas — fingir-se de freira ou morrer. Outros heróis nem mesmo essa escolha têm, e são simplesmente jogados na aventura, levando um golpe na cabeça e acordando em alto-mar, queiram ou não.
Advertências para os heróis trágicos
Nem todos os Chamados à Aventura são convites positivos. Podem também ser avisos de perigo ou advertências de desgraças,
para os heróis trágicos. Em Júlio César, de Shakespeare, um personagem grita: "Cuidado com os idos de março!" Em Moby Dick, a tripulação do navio é avisada, por um velho louco, de que sua aventura vai dar em desastre.
Mais de um Chamado
Como muitas histórias agem em mais de um nível, uma história pode ter mais de um Chamado à Aventura. Um épico arrebatador, como Rio vermelho, precisa de várias cenas desse tipo. Tom Dunston, o personagem de John Wayne, recebe um Chamado do coração, quando a amada pede que ele fique com ela ou a leve em sua busca. O próprio Dunston transmite outro Chamado, este para uma aventura física, quando convida seus vaqueiros a acompanhá-lo, conduzindo a primeira grande boiada depois da Guerra Civil.
Tudo por uma esmeralda exibe um complexo Chamado à Aventura para a heroína Joan Wilder. Ela recebe um telefonema da irmã, seqüestrada por bandidos na Colômbia, e eis o Chamado. O simples Chamado à Aventura física é acionado pela necessidade de libertar a irmã, mas, na mesma cena, está sendo feito um Chamado num nível mais profundo. Joan abre um envelope que o marido da irmã lhe enviou pelo correio e ali encontra um mapa da mina de tesouro El Corazón, sugerindo que Joan também está sendo chamada para uma aventura do coração.
O Mágico de Oz
Os vagos sentimentos de inquietação de Dorothy se cristalizam quando a srta. Gulch chega e, irritada, carrega Totó. Há um conflito entre dois lados, que lutam pelo controle da alma de Dorothy. Uma energia de Sombra repressiva tenta prender seu lado intuitivo, de natureza boa. Mas Totó, instintivo, escapa. Dorothy segue seus instintos, que estão lhe enviando um Chamado à Aventura, e foge de casa. Sente-se desprezada pela falta de carinho de tia Em, sua mãe de criação, que ralhou com ela. Parte em resposta ao Chamado, sob um céu onde se acumulam as nuvens de mudança.
* * *
O Chamado à Aventura é um processo de seleção. Surge numa sociedade uma situação instável, e alguém se oferece como voluntário ou é escolhido para assumir a responsabilidade. Os heróis relutantes têm que ser chamados muitas vezes, pois tentam evitar essa responsabilidade. Os heróis mais dispostos logo respondem a chamados internos e nem precisam de pressões externas. Eles mesmos se selecionaram para a aventura. Mas este tipo é raro, e a maior parte dos heróis tem que ser aliciada, espicaçada, empurrada, tentada ou arrastada para a aventura. Muitos deles entram numas boas brigas e nos divertem com suas tentativas de dar o fora. Essas brigas são o trabalho do herói relutante, ou, como afirmou Campbell, exemplificam a Recusa do Chamado.
Questionando a Jornada
1. Qual é o Chamado à Aventura em Cidadão Kane? Matar ou morrer? Atração fatal? Instinto selvagem ? Moby Dick? Quem ou o que transmite o Chamado? Que arquétipos se manifestam nesse transmissor?
2. Que Chamados à Aventura você recebeu e como respondeu a eles? Alguma vez você já teve que transmitir um Chamado desses a alguém?
3. Uma história pode existir sem algum tipo de Chamado à Aventura? Você consegue pensar em alguma história sem Chamado?
4. Em sua própria história, se o Chamado fosse transportado para algum outro ponto, faria diferença? Até onde você pode protelar esse Chamado? É desejável fazer isso?
5. Qual é o lugar ideal para o Chamado? Dá para passar sem ele?
6. Você encontrou alguma maneira interessante de apresentar o Chamado, ou distorcê-lo, para que não seja um clichê?
7. Sua história pode exigir uma sucessão de Chamados. Quem está sendo chamado para cada nível da aventura?