A Jornada do Escritor
Prefácio à segunda edição
Tradução de Mauro Pinheiro.
"Não estou tentando copiar a natureza.
Estou tentando encontrar os
princípios que ela utiliza."
R. Buckminster Fuller
Um livro parte como uma onda, movendo-se pela superfície do mar. As ideias irradiam da mente do autor e colidem com outras mentes, desencadeando novas ondas que retornam ao autor. Estas geram outras reflexões e emanações, e assim por diante. Os conceitos descritos em A Jornada do Escritor irradiaram e agora voltam ecoando desafios e críticas interessantes, assim como vibrações solidárias. Segue um relato sobre as ondas que voltaram a mim desde a publicação do livro e sobre as ondas que eu lanço novamente ao mar.
Neste livro, descrevi o conjunto de conceitos conhecido como "Jornada do Herói", extraídos da psicologia profunda de Carl G. Jung e dos estudos míticos de Joseph Campbell. Tentei relacionar essas ideias às narrativas contemporâneas, esperando criar um guia do escritor para este dom inestimável que vem de nosso eu mais íntimo e de nosso passado mais distante. Saí em busca dos princípios básicos da narrativa, mas no caminho encontrei algo mais: um conjunto de princípios de vida. Cheguei à convicção de que a Jornada do Herói é nada menos do que um compêndio para a vida, um abrangente manual de instrução na arte de sermos humanos.
A Jornada do Herói não é uma invenção, mas uma observação. É o reconhecimento de um belo modelo, um conjunto de princípios que governa a condução da vida e o mundo da narrativa do mesmo modo que a medicina e a química governam o mundo físico. É difícil evitar a sensação de que a Jornada do Herói existe em algum lugar, de algum modo, como uma realidade eterna, uma forma ideal platônica, um modelo divino. Deste modelo, cópias infinitas e altamente variadas podem ser produzidas, cada uma repercutindo o espírito essencial da forma.
A Jornada do Herói é um padrão que parece se estender em várias dimensões, descrevendo mais do que uma realidade. Ele descreve de maneira acurada, entre outras coisas, o processo de efetuar uma jornada, as partes funcionais necessárias de uma história, as alegrias e os desesperos de ser um escritor, e a passagem de uma alma pela vida.
Um livro que explora um tal padrão naturalmente compartilha essa qualidade multidimensional. A Jornada do Escritor foi elaborado como um guia prático para os escritores, mas pode também ser lido como um guia das lições de vida cuidadosamente embutidas nas histórias de todos os tempos. Algumas pessoas chegaram a usá-lo como uma espécie de guia de viagem, prevendo os altos e baixos inevitáveis compreendidos dentro de uma jornada física.
Um certo número de pessoas diz que o livro as afetou em um nível que pode não ter nada a ver com a atividade de contar histórias ou escrever roteiros. Na descrição da Jornada do Herói, elas podem ter percebido algum insight sobre suas próprias vidas, alguma metáfora útil ou modo de ver as coisas, alguma linguagem ou princípio que define seu problema e sugere um meio de resolvê-lo. Elas reconhecem seus próprios problemas na provação dos heróis míticos e literários, e sentem-se reconfortadas pelas histórias que lhes dão estratégias abundantes e comprovadas de sobrevivência, sucesso e felicidade.
Outras pessoas encontram a confirmação de suas próprias observações no livro. De tempos em tempos, encontro pessoas que conhecem bem a Jornada do Herói, embora possam nunca ter ouvido falar nesse nome. Quando leem sobre ela ou a ouvem sendo descrita, elas experimentam o prazeroso impacto de identificação, já que o padrão reproduz o que viram nas histórias e nas suas próprias vidas. Eu tive a mesma reação quando encontrei pela primeira vez esses conceitos no livro de Campbell, O herói de mil faces, e o ouvi falar apaixonadamente sobre eles. E o próprio Campbell sentiu isso quando ouviu pela primeira vez seu mentor, Heinrich Zimmer, falar sobre mitologia. Em Zimmer, ele reconheceu uma atitude comum em relação aos mitos — que eles não são teorias abstratas ou crenças peculiares de povos antigos, mas modelos práticos para compreender como viver.
Um guia prático
O objetivo original deste livro era criar um manual de escrita acessível e realista a partir desses elementos míticos altamente pretensiosos. Neste espírito prático, fico grato em ouvir de tantos leitores que o livro pode ser um guia útil para a escrita. Escritores profissionais, assim como os novatos e estudantes, relatam que ele tem sido uma ferramenta eficaz, confirmando seus instintos e oferecendo novos princípios e conceitos a serem aplicados às suas histórias. Executivos, produtores e diretores de cinema e televisão me disseram que o livro influenciou seus projetos e os ajudou a solucionar problemas dentro de algumas histórias. Romancistas, dramaturgos, atores e professores de literatura lançaram mão dessas ideias em seus trabalhos.
Felizmente, o livro conquistou aceitação ao ser adotado como um dos guias normativos de Hollywood para o ofício de roteirização. A revista Spy chamou-o de "a Bíblia da nova indústria". Através de suas diversas edições internacionais (na Grã-Bretanha, em línguas alemã, francesa, portuguesa, italiana e islandesa) ele se expandiu atingindo uma Hollywood muito maior, a comunidade mundial de contadores de histórias. Cineastas e estudantes de vários países demonstraram seu interesse pela ideia da Jornada do Herói e sua aprovação ao livro como um guia prático para elaborar e consertar histórias.
Enquanto isso, A Jornada do Escritor foi colocada em funcionamento de várias maneiras, não apenas por parte de escritores em seus diversos gêneros e formas, mas também por professores, psicólogos, executivos de publicidade, supervisores penitenciários, designers de vídeo games e acadêmicos que abordam os mitos e a cultura pop.
Estou convencido de que os princípios da Jornada do Herói têm tido intensa influência sobre a concepção de histórias já criadas e de que terão impacto ainda mais profundo no futuro, à medida que mais contadores de histórias se conscientizarem destes princípios. A grande realização de Joseph Campbell foi articular claramente algo que sempre existiu — os princípios de vida embutidos na estrutura das histórias. Ele redigiu as regras não escritas da narrativa, e isso parece estimular os autores a desafiar, experimentar e aprimorar a Jornada do Herói. Vejo indícios de que os escritores estão interpretando as ideias e mesmo introduzindo a linguagem e os termos "Campbellianos" em suas produções dramáticas.
A percepção consciente desses padrões pode ter resultado adverso, pois é fácil criar clichês e estereótipos descuidados a partir dessa matriz. A utilização proposital e desastrada deste modelo pode gerar algo entediante e previsível. Porém, se os escritores absorverem suas ideias e recriarem-nas com novos insights e combinações surpreendentes, poderão inventar novas formas e esquemas originais a partir de elementos antigos e imutáveis.
Objeções e críticas
"É preciso um grande inimigo
para se fabricar um grande avião."
Ditado da Força Aérea
Inevitavelmente, alguns aspectos do livro foram questionados e criticados. Considero isso um sinal de que as ideias valem uma argumentação. Tenho certeza de que aprendi mais com as objeções do que com os comentários positivos. Escrever um livro pode ser, como diz o historiador Paul Johnson, "o único modo de estudar um assunto de maneira sistemática, intencional e retentiva". A colheita das reações, positivas e negativas, faz parte desse estudo.
Desde que o livro foi publicado, em 1993, eu continuei trabalhando com a elaboração de histórias na indústria cinematográfica, na Disney e, atualmente, na Fox. Tive a oportunidade de testar os conceitos da Jornada do Herói com os maiores nomes do setor. Vi onde eles funcionavam, mas também onde meu entendimento era insuficiente e precisava ser ajustado. Minhas convicções sobre o que faz uma boa história foram postas à prova nas arenas mais difíceis do mundo — conferências sobre histórias em Hollywood e no mercado global —, e espero que meu conhecimento tenha aumentado a partir das objeções, dúvidas e questionamentos dos meus estimados colegas e da reação do público.
Ao mesmo tempo, mantenho uma agenda de conferências sobre A Jornada do Escritor que me leva para muito longe dos limites literais e geográficos de Hollywood, adentrando a grande Hollywood global, a comunidade internacional de filmes. Tive a chance de ver como a Jornada do Herói se desenvolve em culturas diferentes daquela em que cresci, pois estive em Barcelona, Maui, Berlim, Roma, Londres, Sidney e outros lugares.
O gosto e o raciocínio locais desafiaram seriamente várias facetas das ideias da Jornada do Herói. Cada cultura possui uma orientação única em relação à Jornada do Herói, com alguma coisa no caráter local resistindo a alguns termos, definindo-os de maneira diferente ou dando-lhes ênfases distintas. Minha estrutura teórica foi totalmente sacudida, e acho que está mais enriquecida por causa disso.
Uma forma, não uma fórmula
Primeiramente, devo abordar uma objeção significativa em relação à ideia geral de A Jornada do Escritor — a suspeita de artistas e críticos de que se trata de um formulismo, conduzindo a rançosas repetições. Chegamos a um grande divisor na teoria e na prática em relação a esses princípios. Alguns escritores profissionais não apreciam nem um pouco a ideia de analisar o processo criativo, e incentivam os estudantes a ignorar todos os livros e professores e ir em frente. Alguns artistas preferem evitar o raciocínio sistemático, rejeitando todos os princípios, ideais, escolas de pensamento, teorias, modelos e esquemas. Para eles, a arte é um processo inteiramente intuitivo, que nunca poderá ser controlado por regras inflexíveis e não deveria ser reduzido a uma fórmula. E eles não estão errados. No fundo de cada artista existe um lugar sagrado onde todas as regras são postas de lado ou deliberadamente esquecidas, e nada importa senão as escolhas instintivas do coração e da alma do artista.
Mas isso também é um princípio, e aqueles que rejeitam princípios e teorias não podem evitar e acabam aderindo a alguns deles: evite as fórmulas, desconfie das diretivas e dos modelos, resista à lógica e à tradição.
Os artistas partidários do princípio de rejeição a todas as formas são eles mesmos dependentes da forma. O frescor e a emoção de seus trabalhos vêm de seu contraste em relação à penetração de fórmulas e padrões na cultura. Todavia, esses artistas correm o risco de alcançar um público limitado, porque a maioria das pessoas não consegue se relacionar com a arte totalmente anticonvencional. Por definição, ela não se relaciona com os padrões de experiência normalmente aceitos. Suas obras só poderão ser apreciadas por outros artistas, uma pequena parte da comunidade em qualquer época ou lugar. Um número determinado de formas é necessário para alcançar um público mais amplo. As pessoas esperam por elas e se divertem com elas, desde que sejam variadas, por meio de alguma combinação ou arranjo inovador, e não caiam numa fórmula totalmente previsível.
No outro extremo, estão os grandes estúdios de Hollywood, que usam padrões convencionais para atrair o mais amplo perfil de audiência. Nos estúdios da Disney, vi a aplicação de simples princípios narrativos, tais como o de criar um personagem principal "fora de sua praia", que se tornaram testes para avaliar a força de uma história para atrair uma grande audiência. As cabeças que comandavam a Disney na época acreditavam que havia questões específicas a se fazer a uma história e a seus personagens: Existe um conflito? Existe um tema? É sobre algo que se pode exprimir através de uma afirmação conhecida da sabedoria popular como "Quem vê cara não vê coração" ou "O amor é capaz de tudo"? A história é apresentada como uma série de amplos movimentos e ações, permitindo à audiência se orientar e acompanhar o ritmo da narrativa? Ela conduz os espectadores a algum lugar onde nunca estiveram, ou lhes faz ver lugares familiares de um modo diferente? Os personagens têm histórias de fundo relevantes, motivações plausíveis para torná-las narráveis ao público? Eles conseguem transmitir estágios realísticos de reações e crescimento emocionais? E assim por diante.
Os estúdios têm de aplicar princípios planejados e usar algum tipo de padrão para avaliar e desenvolver suas histórias, nem que seja por conta da enorme quantidade produzida. Na média, um estúdio ou divisão em Hollywood compra e desenvolve entre 150 e duzentas histórias ao mesmo tempo. Eles precisam investir muitos recursos para avaliar os milhares de projetos potenciais apresentados pelos seus agentes a cada ano. Para lidar com uma tal quantidade de histórias, algumas das técnicas de produção em massa, tais como a padronização, devem ser empregadas. Mas deveriam ser empregadas parcimoniosamente e com grande sensibilidade em relação às necessidades de uma história em particular.
Linguagem padrão
Uma ferramenta importantíssima é a linguagem padronizada, que possibilita as milhares de informações necessárias para contar tantas histórias. Ninguém impõe esta linguagem, mas ela se torna parte da educação de todos através das regras não escritas desta atividade. Os novatos logo aprendem o jargão, os conceitos e as premissas que têm sido passados por gerações de contadores de histórias e cineastas. Dessa forma, todos dispõem de meios sucintos para comunicar as ideias das histórias.
Enquanto isso, novos termos e conceitos estão sempre sendo criados para refletir as mudanças. Os novos executivos dos estúdios ficam à espreita de sinais de ideias, filosofia ou de princípios de eficiência de seus chefes. As pessoas tomam iniciativas a partir de seus líderes. Qualquer expressão artística, quaisquer aforismos ou métodos empíricos são apreendidos e depois repassados adiante, tornando-se parte da cultura da empresa daquele estúdio e do conhecimento geral da indústria. Isso é particularmente verdade quando esses fragmentos de sabedoria oferecidos conduzem a entretenimentos populares e de sucesso. A linguagem da Jornada do Herói está nitidamente se tornando parte do conhecimento comum sobre narrativas e seus princípios têm sido usados de forma consciente para criar filmes de grande alcance popular. Mas há risco nessa autoconscientização. A confiança excessiva na linguagem tradicional ou nos últimos conceitos da moda pode resultar em produtos descuidados e estereotipados. O uso preguiçoso e superficial dos termos da Jornada do Herói, tomando de forma demasiadamente literal seu sistema metafórico, ou impondo arbitrariamente suas formas em todas as histórias, pode provocar um embrutecimento dos sentidos. Eles devem ser usados como uma forma, não uma fórmula, um ponto de referência e uma fonte de inspiração, não uma ordem ditatorial.
Imperialismo cultural
Um outro perigo da linguagem e dos métodos padronizados é que as diferenças locais, exatamente aquilo que dá encanto e tempero às jornadas para lugares distantes, podem ser esmagadas pela mecânica da produção em massa. Artistas em todo o mundo são os guardiões contra o "imperialismo cultural", a exportação agressiva de técnicas narrativas de Hollywood e a extinção da dicção local. Os valores americanos e as premissas culturais da sociedade ocidental ameaçam asfixiar os sabores singulares de outras culturas. Muitos observadores perceberam que a cultura americana está se tornando uma cultura mundial, e que perda imensa seria se os únicos sabores disponíveis fossem açúcar, sal, mostarda e ketchup.
Este problema afeta muito os contadores de histórias europeus, já que muitos países com culturas distintas foram reunidos na União Europeia. Eles se empenham em criar histórias que sejam de algum modo universais, que possam transpor suas fronteiras nacionais, pois o público local pode não ser numeroso o bastante para sustentar o contínuo crescimento dos custos de produção. Eles estão concorrendo com produtos americanos altamente competitivos que cortejam de maneira agressiva o mercado mundial. Muitos estão estudando e aplicando técnicas americanas, mas eles também temem que a singularidade de suas tradições regionais venha a se perder.
Será a Jornada do Herói um instrumento de imperialismo cultural? Poderia ser, se ingenuamente interpretada, cegamente copiada e inquestionavelmente adotada. Mas pode também ser, se adaptada com ponderação, uma ferramenta útil para o contador de histórias em qualquer cultura, a fim de refletir as qualidades únicas e inimitáveis da geografia, clima e pessoas locais.
Descobri que os artistas na Austrália estavam profundamente conscientes do imperialismo cultural, talvez porque o povo deste país tenha tido de lutar para criar sua própria sociedade. Eles forjaram algo diferente da Inglaterra, independente da América e da Ásia, influenciado por todos eles, mas singularmente australiano, e intensificado pela misteriosa energia da terra e do povo aborígines. Eles me apontaram premissas culturais ocultas no meu entendimento da Jornada do Herói. Embora universal e atemporal, e ainda que seu funcionamento possa ser achado em todas as culturas do planeta, uma leitura ocidental ou americana pode resultar em sutilmente tendenciosa. Por exemplo, a preferência hollywoodiana por finais felizes e soluções metódicas, a tendência em mostrar heróis virtuosos e admiráveis vencendo o mal pelo seu próprio esforço. Meus professores australianos me ajudaram a ver que tais elementos podem fazer boas histórias para o mercado mundial, porém talvez não reflitam as visões de todas as culturas. Eles me alertaram sobre as premissas que estavam sendo consideradas pelos filmes de estilo hollywoodiano, e aquelas que não estavam sendo expressas.
Em minhas viagens, aprendi que a Austrália, o Canadá e vários países europeus fornecem subvenções para os cineastas locais, em parte para preservar e celebrar as diferenças locais. Cada região, província ou estado funciona como um estúdio em escala reduzida, desenvolvendo roteiros, dando trabalho aos artistas e produzindo longas-metragens e programas de tevê. Imagino se na América não poderia haver uma versão descentralizada de Hollywood em que cada estado da União funcionaria como um estúdio de cinema, avaliando histórias de seus cidadãos e adiantando dinheiro para produzir filmes regionais que representassem e realçassem a cultura local, ao mesmo tempo apoiando os artistas da região.
Culturas herófobas
Em alguns lugares pelos quais viajei, descobri que certas culturas não se sentem totalmente confortáveis com o termo "herói", para começar. A Austrália e a Alemanha são dois países em que as culturas parecem ligeiramente "herófobas".
Os australianos desconfiam dos apelos da virtude heroica porque esses conceitos foram usados para seduzir jovens australianos a lutarem nas batalhas britânicas. Os australianos têm seus heróis, é claro, mas estes tendem a ser discretos e recatados, e mantêm-se relutantes por muito mais tempo do que os heróis de outras culturas. Como a maior parte dos heróis, eles resistem aos chamados à aventura, mas continuam adiando a decisão e podem nunca se sentir à vontade sob o manto do heroísmo. Na cultura australiana é indecente buscar a liderança ou os refletores, e qualquer um que o faça é considerado um "canguru espalhafatoso" e deve ser ignorado. O herói mais admirável é aquele que recusa seu papel heroico enquanto for possível e que, como Mad Max, evita aceitar responsabilidades que não sejam as suas próprias.
A cultura alemã parece ambivalente em relação ao termo "herói". O herói tem uma longa tradição de veneração na Alemanha, mas duas Guerras Mundiais, o legado de Hitler e dos nazistas macularam este conceito. O nazismo e o militarismo alemães manipularam e distorceram os poderosos símbolos do mito do herói, evocando suas paixões para escravizar, desumanizar e destruir. Como qualquer sistema arquetípico, como qualquer filosofia ou credo, a forma heroica pode ser distorcida e utilizada com grande efeito em intenções malévolas.
No período pós-Hitler, a ideia do herói foi colocada em repouso, enquanto a cultura reavaliava a si mesma. Os anti-heróis moderados e insensíveis estão mais em harmonia com o espírito alemão atual. Há hoje em dia um tom de realismo despojado de sentimentalismo que é mais popular, embora sempre haja rompantes de romantismo e de amor pela fantasia. Os alemães podem se divertir com os contos de heróis imaginativos de outras culturas, mas não parecem à vontade com os heróis românticos de seu próprio território, por enquanto.
O herói como guerreiro
De um modo geral, a Jornada do Herói foi criticada como sendo uma encarnação de uma cultura guerreira dominada pelos homens. Críticos disseram que se tratava de uma peça de publicidade inventada para encorajar os rapazes a se alistarem nas forças armadas, um mito que glorifica a morte e o estúpido sacrifício de si mesmo. Há alguma verdade nessa acusação, pois muitos heróis das histórias e lendas são guerreiros e os padrões da Jornada do Herói foram certamente usados para propaganda e recrutamento. Todavia, condenar e rejeitar esses padrões porque eles podem ser colocados em uso pelos militares é uma opção que revela visão curta e mentalidade estreita. O guerreiro é apenas uma das faces do herói, que pode ser pacifista, materno, peregrino, louco, andarilho, eremita, inventor, enfermeiro, libertador, artista, lunático, amante, palhaço, rei, vítima, escravo, operário, rebelde, aventureiro, um fracasso trágico, covarde, santo, monstro etc. As muitas possibilidades criativas da forma ultrapassam seu potencial de excesso.
Problemas de gênero
A Jornada do Herói é por vezes criticada por ser uma teoria masculina, engendrada pelos homens para impor seu domínio, e com pouca relevância em relação à jornada singular e bem diferente do sexo feminino. Pode haver algum viés masculino embutido na descrição do ciclo do herói, já que muitos de seus teóricos eram homens, e admito abertamente: sou um homem e não consigo ver o mundo senão pelo filtro do meu gênero. Ainda assim, tentei levar em conta e explorar as maneiras em que a jornada da mulher difere da dos homens.
Acredito que grande parte da jornada é igual para todos os seres humanos, visto que compartilhamos as mesmas realidades: nascimento, crescimento e declínio. Contudo, evidentemente, quando se trata de uma mulher isso impõe ciclos, ritmos, pressões e necessidades distintas. Pode haver uma diferença real na forma das jornadas dos homens e das mulheres. A jornada dos homens pode ser, sob certos aspectos, mais linear, evoluindo de uma meta exterior para a seguinte, ao passo que a jornada das mulheres pode se desenvolver em espiral para o interior e o exterior. O espiral pode ser uma analogia mais exata para a jornada das mulheres do que a linha reta ou um simples círculo. Um outro modelo possível consistiria numa série de anéis concêntricos, com a mulher fazendo a jornada para dentro na direção do centro e em seguida se expandindo para o exterior outra vez. A necessidade masculina de sair e vencer obstáculos, realizar, conquistar e possuir pode ser substituída na jornada da mulher pelo empenho em preservar a família e a espécie, fazer um lar, dedicar-se às emoções, chegar a um acordo ou cultivar a beleza. Excelentes trabalhos foram realizados por mulheres para articular essas diferenças, e eu recomendo livros como When God Was a Woman, de Merlin Stone, Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estes, A deusa e a mulher, de Jean Shinoda Bolen, e The Heroine's Journey e The Woman’s Dictionary of Myth and Symbols, de Maureen Murdock, como pontos de partida para um entendimento mais equilibrado dos aspectos masculinos e femininos da Jornada do Herói. (Observação para os homens: na dúvida sobre esta questão, consulte a mulher mais próxima.)
O desafio do computador
Pouco depois de a primeira edição deste livro ser lançada, algumas pessoas (guardiões de limiar) se manifestaram imediatamente, dizendo que a Jornada do Herói era obsoleta, graças ao advento do computador e suas possibilidades de interatividade e narrativa não-linear. Segundo esse punhado de críticos, as ideias antigas da Jornada estão irremediavelmente atoladas nas convenções de começo, meio e fim, de causa e efeito, de um evento após o outro. A nova onda, disseram, acabaria por destronar o velho contador de histórias lineares, capacitando as pessoas a contarem suas próprias histórias em qualquer sequência escolhida, pulando de um ponto para outro, tecendo histórias mais como uma teia de aranha do que como uma série linear de eventos.
É verdade que novas e excitantes possibilidades são criadas pelos computadores e pelo raciocínio não-linear que eles provocam. No entanto, sempre existirá o prazer do "Me conte uma história". As pessoas sempre se divertirão entrando no transe de uma história e se deixando conduzir pela narrativa de um hábil tecelão de histórias. É divertido dirigir um carro, mas também pode ser divertido ser dirigido num carro e, como passageiros, podemos ver mais paisagens do que se fôssemos obrigados a nos concentrar na estrada.
A interatividade sempre esteve entre nós — todos fazemos várias associações de hipertextos não-lineares em nossas mentes, mesmo quando ouvimos uma história linear. Na verdade, a Jornada do Herói se presta muito bem ao mundo dos jogos de computador e experiências interativas. As milhares de variações sobre o paradigma, elaborado através dos séculos, oferecem infinitas ramificações a partir das quais infindáveis redes de histórias podem ser construídas.
A resposta do cínico
Uma outra de minhas arraigadas premissas culturais que foi desafiada em minhas viagens é a ideia de que uma pessoa pode fazer a diferença, que os heróis são necessários para que as mudanças ocorram, e que as mudanças são geralmente uma coisa positiva. Encontrei artistas do Leste europeu que destacaram que, em suas culturas, existe um profundo cinismo em relação aos esforços heroicos para mudar o mundo. O mundo é o que é, quaisquer esforços para mudá-lo são um tremendo desperdício de tempo, e todos os supostos heróis que o tentam estão fadados ao fracasso. Este ponto de vista não representa necessariamente uma antítese da Jornada do Herói — o padrão é flexível o bastante para abranger as filosofias cínicas e pragmáticas, e muitos de seus princípios ainda estão operantes em histórias que as refletem. Entretanto, devo reconhecer que nem todas as pessoas ou culturas veem esse modelo da maneira otimista que o vejo, e elas podem ter razão.
Mas e quanto a...
É interessante perceber que não há limite para o que pode ser aprendido a partir dos conceitos da Jornada do Herói. Encontro desvios surpreendentes e deliciosos do caminho a cada vez que me deparo com uma nova história, e a própria vida segue apresentando novos ângulos.
Meu entendimento do arquétipo da Sombra, por exemplo, continua evoluindo. Fiquei impressionado inúmeras vezes pela força desse padrão, especialmente quando funciona dentro do indivíduo como um receptáculo para desejos e sentimentos não expressos. É uma energia que se acumula quando falhamos em honrar nossos talentos, seguir o chamado de nossas musas ou viver conforme nossos princípios e ideais. Ela possui uma força enorme, porém sutil, operando em níveis profundos para se comunicar conosco, talvez sabotando nossos empenhos, perturbando nosso equilíbrio até nos darmos conta da mensagem que esses eventos trazem — que devemos expressar nossa criatividade, sua verdadeira natureza, ou morrer. Um acidente de carro alguns anos atrás me ensinou o poder de rebelião da Sombra, me mostrou que eu estava distraído, fora de harmonia, me dirigindo para desastres ainda maiores se não encontrasse um meio de exprimir meu lado criativo pessoal.
Olhares confusos ocasionais nos rostos dos alunos me ensinaram que eu não havia cogitado completamente alguns aspectos do padrão. Algumas pessoas ficaram intrigadas com os vários pontos cruciais e provações do modelo, particularmente com a distinção entre o ponto intermediário, a que chamo de Provação, e o clímax do segundo ato, a que chamo de Caminho de Volta. Tentando explicar isso acabei chegando a uma nova percepção. Cada ato é como o movimento de uma sinfonia, com seus próprios início, meio e fim, e com seu próprio clímax (o ponto mais alto de tensão) vindo logo antes do final do ato. Esses clímaces são os pontos mais cruciais do diagrama circular:
Participando de uma conferência em Roma, vislumbrei mais um desdobramento desta ideia, um modo alternativo de representar a Jornada do Herói: não como um círculo, mas como um quadrado. Eu estava explicando que cada ato envia o herói num certo caminho com uma intenção ou objetivo específico, e que o clímax de cada ato muda a direção do herói, designando uma nova meta. A meta do primeiro ato do herói, por exemplo, pode ser encontrar um tesouro, mas, após encontrar uma eventual amante ao cruzar o primeiro limiar, pode passar a ser a de perseguir esse amor. Se a provação no ponto intermediário for o vilão capturando o herói e sua amada, a meta no próximo movimento poderá ser a tentativa de escapar. E se o vilão matar a amada no Caminho de Volta, o novo objetivo do movimento final poderá ser a vingança. O objetivo original também pode ser alcançado, ou pode haver alguma meta mais ampla (aprender a autoconfiança ou acertar as contas com fracassos do passado, por exemplo) que continua presente em todos os movimentos, enquanto o herói persegue metas superficiais variáveis.
Para ilustrar este conceito, desenhei as metas do herói em cada movimento como linhas retas, vetores de intenção, em vez de curvas. Ao desfazer as curvas do círculo, ângulos de noventa graus foram criados nos pontos extremos revelando as mudanças drásticas que podem ocorrer nos objetivos do herói. Cada linha reta representa a meta do herói naquele ato — escapar das repressões do mundo comum, sobreviver numa terra estranha, conquistar o privilégio e fugir da terra estranha, voltar para casa em segurança com alguma coisa para partilhar que faça reviver o mundo.
Fiquei surpreso ao me dar conta de que acabara de desenhar uma quadra de beisebol. Tenho percebido com frequência que a disposição dos campos de esportes produz padrões que coincidem com o esquema da Jornada do Herói. O beisebol pode ser interpretado como uma outra metáfora da vida, com o atleta avançando de uma base à outra, como o herói percorrendo os estágios da jornada.
Talvez a melhor maneira de explorar as infinitas possibilidades da Jornada do Herói seja aplicando-a a uma série de filmes e histórias. Com este fim, um novo livro e um cd-rom estão sendo preparados pela Michael Wiese Productions, com o título Myth in the Movies [Mitos no cinema]. Neste projeto, será abordado um número maior de filmes populares pelas lentes da Jornada do Herói. É um modo de testar a ideia e comprovar se ela é válida e útil. Dessa forma, pode-se ver de um modo geral como ela funciona e como se transforma em casos específicos. E, a partir das comparações de vários exemplos e interessantes exceções, pode-se descobrir melhor os princípios, valores e relacionamentos que dão ao artesão o comando da forma.
Ao final desta segunda edição, acrescentei alguns novos elementos numa seção chamada "Recapitulando a Jornada". Nela utilizei as ferramentas da mitologia e a Jornada do Herói para analisar alguns filmes importantes, incluindo Titanic, O Rei Leão, Pulp Fiction: Tempo de violência, Ou tudo ou nada e a saga Guerra nas estrelas. Espero assim demonstrar alguns dos meios pelos quais os princípios míticos continuam a ser explorados no entretenimento popular.
Ao contrário das histórias de heróis que eventualmente chegam ao fim, a jornada para compreender e articular essas ideias é de fato infinita. Embora determinadas condições humanas nunca mudem, novas situações estão sempre aparecendo e a Jornada do Herói irá se adaptar para refleti-las. Novas ondas serão provocadas, e assim continuará sendo, para sempre.
Introdução: preparativos de viagem
"Esta é a história que eu peço à divina Musa que nos revele.
Comece-a, deusa, no ponto que for de seu agrado."
Homero, Odisseia
Começo com um convite para que me acompanhem na Jornada de um Escritor, uma missão de descoberta para explorar e mapear os limites fugidios entre o mito e a narrativa moderna de histórias. Vamos nos guiar por uma ideia simples: todas as histórias consistem em alguns elementos estruturais comuns, encontrados universalmente em mitos, contos de fadas, sonhos e filmes. São conhecidos como A Jornada do Herói. Nosso objetivo é entender esses elementos e seu uso na escrita moderna. Se forem usadas com sabedoria, essas antigas ferramentas do ofício de contar histórias podem ter um poder imenso na cura de nossa gente e podem tornar o mundo um lugar melhor para se viver.
Minha Jornada de Escritor pessoal começa com o poder especial que as histórias sempre tiveram sobre mim. Eu era fissurado em contos de fadas e na coleção dos Livrinhos Dourados que minha mãe e minha avó liam para mim em voz alta. Eu devorava os desenhos animados e os filmes que a televisão despejava no meio dos anos 1950, as aventuras emocionantes nas telas dos cinemas drive-in, as revistas em quadrinhos e a ficção científica da época, que me abriam as ideias. Quando tive que ficar de repouso por causa de uma luxação no tornozelo, meu pai foi até a biblioteca pública mais próxima e voltou com pilhas de maravilhosas histórias da mitologia celta e nórdica, que me faziam esquecer a dor.
Fui seguindo essa trilha de histórias e acabei lendo para ganhar a vida: fui ser leitor para alguns estúdios de Hollywood, analisando histórias. Apesar de ter avaliado centenas de romances e roteiros, nunca me cansei de explorar o labirinto das histórias, com seus padrões surpreendentemente repetidos, suas variações fascinantes, suas questões intrigantes. De onde vêm as histórias? Como funcionam? O que nos dizem sobre nós mesmos? O que significam? Por que precisamos delas? Como podemos usá-las para melhorar o mundo?
Acima de tudo, como é que os contadores de histórias conseguem que elas signifiquem alguma coisa? Uma boa história faz a gente achar que viveu uma experiência completa e satisfatória. Pode-se rir ou chorar com uma história. Ou fazer as duas coisas. Terminamos uma história com a sensação de que aprendemos alguma coisa sobre a vida ou sobre nós mesmos. Pode ser que tenhamos adquirido uma nova compreensão das coisas, um novo modelo de personagem ou de atitude. Como é que os autores das histórias conseguem isso? Quais são os segredos desse ofício tão antigo? Quais são suas regras? Quais os princípios que o norteiam?
Pelos anos afora, comecei a reparar que havia alguns elementos comuns nos mitos e nas histórias de aventuras, certos personagens, adereços, locações e situações que eram intrigantemente familiares. Comecei a ficar vagamente consciente de que havia um padrão ou molde de algum tipo guiando o projeto geral da história. Tinha algumas peças do quebra-cabeça, mas o plano global me escapava.
Então aconteceu que, na Escola de Cinema da University of Southern Califórnia, eu dei a sorte de cruzar meu caminho com o trabalho do mitólogo Joseph Campbell. O encontro com Campbell, para mim e várias outras pessoas, foi uma experiência transformadora. Bastaram alguns dias explorando o labirinto de seu livro O herói de mil faces para que se produzisse uma reorganização eletrizante em minha vida e maneira de pensar. Aqui estava, explorado até o fim, o tal padrão que eu vinha intuindo. Campbell tinha decifrado o código secreto das histórias. Sua obra era um foco de luz, iluminando de repente uma paisagem até então imersa na sombra profunda.
Trabalhei com a ideia de Campbell sobre a Jornada do Herói, para entender o incrível fenômeno de repetição que ocorreu com filmes como Guerra nas estrelas e Contatos imediatos de terceiro grau. As pessoas iam rever esses filmes várias vezes, como se estivessem em busca de uma espécie de experiência religiosa. Fiquei achando que esses filmes atraíam as pessoas dessa maneira porque refletiam os padrões universalmente satisfatórios que Campbell encontrou nos mitos. Ou seja, eles tinham algo de que as pessoas precisavam.
O herói de mil faces foi uma tábua de salvação quando comecei a trabalhar como analista de histórias para os grandes estúdios de cinema. Logo de saída me senti profundamente grato à obra de Campbell, que se transformou numa ferramenta confiável para diagnosticar os problemas dos enredos e prescrever soluções. Sem a orientação de Campbell e da mitologia, eu estaria perdido.
Ficou logo evidente para mim que a Jornada do Herói era uma tecnologia narrativa útil e empolgante, que podia ajudar diretores e produtores a eliminar grande parte dos riscos de tentar adivinhar e dos gastos de desenvolver as histórias para um filme. E pelos anos afora encontrei um bom número de pessoas cujas vidas tinham sido afetadas por seus encontros com Joe Campbell. Era como se fôssemos uma sociedade secreta, de gente que sinceramente tinha fé no "poder do mito".
Pouco depois de ir trabalhar como analista de histórias para a Companhia Walt Disney, escrevi um memorando de sete páginas, intitulado "Guia prático de O herói de mil faces", no qual descrevia a ideia da Jornada do Herói, com exemplos de filmes clássicos e atuais. Dei esse guia a amigos, colegas e a vários executivos da Disney, para poder testar e aprimorar as ideias nele contidas, por meio de seus comentários. Pouco a pouco, fui expandindo esse "Guia prático", até que ele se transformou num longo ensaio e eu comecei a ensinar esse material numa turma de análise de histórias, no Programa de Extensão para Escritores, da UCLA.
Em congressos de escritores pelo país afora, fui testando essas ideias com roteiristas, romancistas, autores infantis e todo tipo de contador de histórias. Descobri que muitas outras pessoas também estavam explorando os caminhos interligados dos mitos, histórias e psicologia.
A Jornada do Herói, pelo que eu descobri, é mais do que apenas a descrição de padrões ocultos de mitologia. É um guia útil para a vida, principalmente a vida de um escritor. Na perigosa aventura de minha própria escrita, fui vendo que os estágios da Jornada do Herói iam aparecendo da mesma forma confiável e útil com que surgiam nos livros, mitos e filmes. Em minha vida pessoal, sou grato por ter esse mapa para guiar minha busca, e para me ajudar a perceber o que está à minha espera depois da próxima curva.
A utilidade da Jornada do Herói como guia de vida veio à tona quando eu me preparava para falar em público pela primeira vez a respeito dela, num grande seminário na UCLA. Umas duas semanas antes do seminário, saíram dois artigos no Herald-Examiner, de Los Angeles, nos quais um crítico atacava o cineasta George Lucas e seu filme Willow: Na terra da magia. Não sei como, o "Guia prático" tinha ido parar nas mãos do crítico e ele alegava que o mesmo tinha influenciado e corrompido os narradores de Hollywood. O crítico culpava o "Guia prático" por todos os fracassos, de Ishtar a Howard, o super-herói, bem como pelo sucesso de De volta para o futuro. Segundo ele, os executivos dos estúdios, preguiçosos e analfabetos, loucos para achar uma fórmula de fazer dinheiro, tinham agarrado o "Guia prático" e o enfiado goela abaixo dos roteiristas, estorricando sua criatividade com uma tecnologia que os executivos nem se preocuparam em compreender.
Apesar de me sentir meio lisonjeado por alguém achar que eu era capaz de ter uma influência tão avassaladora sobre a mente coletiva de Hollywood, também me senti arrasado. Aqui estava eu, no limiar de uma nova fase de trabalho com essas ideias, e alguém me dava um tiro antes mesmo de eu começar. Pelo menos, parecia.
Alguns amigos, mais curtidos nessa guerra de ideias, me mostraram que, ao ser desafiado, eu estava apenas me deparando com um arquétipo, um dos personagens familiares que povoam a paisagem da Jornada do Herói, denominado Guardião de Limiar.
Na mesma hora, essa informação me deu apoio e me mostrou como lidar com a situação. Campbell descrevera como os heróis freqüentemente encontram essas "forças desconhecidas e no entanto estranhamente íntimas, algumas das quais (os) ameaçam seriamente". Os Guardiões parecem surgir do nada, nos vários patamares que servem de entrada para situações novas no decorrer da jornada, nas passagens estreitas e perigosas entre um estágio da vida e outro. Campbell mostrou os diferentes modos com que os heróis lidam com os Guardiões de Limiar. Em vez de atacar de frente esses poderes aparentemente hostis, aprende-se a ultrapassá-los com a astúcia, ou a juntar forças com eles, absorvendo sua energia em vez de se deixar destruir por ela.
Percebi que esse aparente ataque de um Guardião de Limiar era, na realidade, uma bênção potencial, e não uma maldição. Tinha pensado em desafiar o crítico em questão para um duelo (laptops em punho, a vinte passos de distância), mas reconsiderei. Com uma ligeira mudança de atitude, podia transformar essa hostilidade em algo a meu favor. Contatei o crítico e o convidei para vir debater nossas diferenças de opinião no seminário. Ele aceitou e tivemos uma mesa com uma ótima discussão, que acabou sendo um debate animado e divertido, iluminando rincões do mundo das histórias que eu jamais vislumbrara anteriormente. Justamente por eu ter sido desafiado, o seminário ficou melhor, e minhas ideias, mais fortes. Em vez de lutar contra meu Guardião de Limiar, eu o incorporara em minha aventura. O que me parecera um golpe mortal se transformou em algo útil e sadio. O enfoque mitológico provou seu valor, tanto na vida como na história.
Mais ou menos nesse momento, percebi que, realmente, o "Guia prático" e as ideias de Campbell tinham mesmo uma influência sobre Hollywood. Comecei a receber pedidos de exemplares do "Guia prático" de vários departamentos de histórias dos estúdios. Ouvi contar que executivos de outros estúdios estavam dando o folheto para autores, diretores e produtores, como guia de modelos universais e comerciais de histórias. Tudo indicava que Hollywood estava descobrindo a utilidade da Jornada do Herói.
Enquanto isso, as ideias de Joseph Campbell explodiam numa esfera de divulgação muito mais ampla, com o programa de entrevistas de Bill Moyers na PBS, "O poder do mito". Fez o maior sucesso, incluindo gente de todas as idades, opinião política e religião, falando diretamente ao espírito das pessoas. Uma versão em livro, com a transcrição das entrevistas, ficou mais de um ano na lista dos livros mais vendidos do New York Times. Com isso, O herói de mil faces, o venerável compêndio de Campbell, também virou um best-seller de repente, após quarenta anos de vendas lentas, mas constantes.
O programa da PBS levou as ideias de Campbell a milhões de pessoas e iluminou o impacto de sua obra em cineastas como George Lucas, John Boorman, Steven Spielberg e George Miller. Repentinamente, comecei a encontrar maior aceitação e conhecimento das ideias de Campbell em Hollywood. Cada vez mais autores e executivos conheciam seus conceitos e queriam aplicá-los na realização de filmes ou em roteiros.
O modelo da Jornada do Herói continuou a me servir. Ele me ajudou a ler e avaliar mais de seis mil roteiros para meia dúzia de estúdios. Foi o meu atlas, um livro de mapas para minhas próprias jornadas de escrita. Guiou-me para um novo papel na Disney, como consultor de histórias para a Divisão de Animação de Desenhos, na época em que A pequena sereia e A Bela e a Fera estavam sendo concebidas. As ideias de Campbell foram extremamente valiosas para que eu pesquisasse e desenvolvesse histórias baseadas em contos de fadas, mitologia, ficção científica, revistas em quadrinhos e aventuras históricas.
Joseph Campbell morreu em 1987. Encontrei-o rapidamente em alguns seminários. Nos seus oitenta anos, ainda era um homem notável, alto, vigoroso, eloquente, engraçado, cheio de energia e entusiasmo, e absolutamente encantador. Pouco antes de falecer, me disse: "Siga em frente com esse tema. Vai levar você muito longe."
Descobri recentemente que o "Guia prático" tem sido leitura obrigatória para os executivos da Disney. Os pedidos diários de mais exemplares, bem como inúmeras cartas e telefonemas de romancistas, roteiristas, produtores, redatores e atores, mostram que as ideias da Jornada do Herói são cada vez mais usadas e se desenvolvem sem parar.
E assim acabei escrevendo este livro, um descendente do "Guia prático". A estrutura dele, de certo modo, segue o modelo do I Ching, com uma visão panorâmica introdutória, seguida por comentários que desenvolvem os estágios típicos da Jornada do Herói.
O Livro Um, Mapa da Jornada, é um apanhado geral do território. O primeiro capítulo faz uma revisão do "Guia prático" e uma apresentação condensada dos 12 estágios da Jornada do Herói. Pode ser considerado, também, como um mapa da jornada que vamos fazer juntos, pelo mundo muito especial das histórias. O segundo capítulo é uma introdução aos arquétipos, as dramatis personae do mito e das histórias. Descreve sete tipos de personagens comuns ou funções psicológicas encontrados em todas as histórias.
O Livro Dois, Estágios da Jornada, é um exame mais detalhado dos 12 elementos da Jornada do Herói. Ao final de cada capítulo há sugestões para que sua própria exploração prossiga, Questionando a Jornada. O epílogo, Recapitulando a Jornada, trata da aventura especial da Jornada do Escritor e de algumas armadilhas que devem ser evitadas pelo caminho. Inclui uma análise da Jornada do Herói nos filmes Titanic, O Rei Leão, Pulp Fiction: Tempo de violência, Ou tudo ou nada e Guerra nas estrelas. Em um desses filmes, O Rei Leão, tive a oportunidade de aplicar as ideias da Jornada do Herói durante o desenvolvimento do roteiro, como consultor de histórias, e vi em primeira mão como os conceitos podem ser úteis.
Ao longo de todo o livro, fiz referências a filmes, clássicos ou atuais. Caso você se interesse em ver alguns deles, para conferir na prática essas observações sobre a Jornada do Herói, há uma lista representativa no Apêndice.
Você também pode escolher um filme ou história de que goste especialmente e pensar sempre nela quando empreender a sua Jornada do Escritor. Aprofunde seu conhecimento dessa história, lendo-a ou assistindo ao filme várias vezes, fazendo pequenas anotações sobre o que acontece em cada cena, e como ela funciona em termos dramáticos mais globais. Ver um filme em vídeo ou DVD é o ideal, porque você pode pará-lo onde quiser e tomar notas sobre o conteúdo de cada cena, ao mesmo tempo que apreende seu significado em relação ao resto da história.
Sugiro que você acompanhe esse processo com uma história ou filme e o use para testar as ideias deste livro. Veja se a sua história reflete os arquétipos e estágios da Jornada do Herói (um exemplo de lauda de trabalho para a Jornada do Herói pode ser encontrado também no Apêndice). Observe como os diferentes estágios se adaptam às necessidades específicas de uma história em particular e à cultura em que essa história foi escrita. Desafie essas ideias, ponha-as à prova na prática, adapte-as a suas necessidades, faça com que elas fiquem sendo suas. Use esses conceitos como um desafio e inspiração para suas próprias histórias.
A Jornada do Herói tem servido a narradores e seus ouvintes desde que as primeiras histórias foram contadas, e não mostra sinais de esgotamento. Comecemos juntos esta Jornada do Escritor e exploremos essas ideias. Espero que você as considere como uma espécie de chave mágica para o mundo das histórias e o labirinto da vida.