A Jornada do Escritor

Christopher Vogler · Capítulo 20 de 23

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A Jornada do Escritor

Estágio Onze: Ressurreição

 

"O que é que eu posso fazer, meu velho?

Eu estou morto, não estou?"

O terceiro homem, de Graham Greene

Agora vem um dos trechos mais difíceis e mais desafiantes, tanto para o herói como para o escritor. Para que uma história fique completa, a plateia precisa experimentar mais um momento de morte e renascimento, parecido com a Provação Suprema, mas ligeiramente diferente. É o clímax — não a crise —, o último encontro com a morte e o mais perigoso. Os heróis precisam passar por uma purgação final, uma purificação, antes de ingressar de volta no Mundo Comum. Mais uma vez, devem mudar. O truque do escritor, nessa ocasião, deve ser explicitar a mudança em seus personagens, no comportamento e na aparência, e não apenas falar sobre ela. Os escritores precisam descobrir um modo de demonstrar que seus heróis passaram por um processo de Ressurreição.

Nós, Buscadores cansados, estamos voltando para a aldeia. Vejam! A fumaça das fogueiras de Nossa Tribo!

Apressem o passo! Mas... esperem aí. O xamã aparece para nos impedir de entrar. Vocês estiveram na Terra dos Mortos, diz ele, e parecem ser a própria morte: cobertos de sangue, carregando a carne dilacerada e a pele daquilo que caçaram. Se entrarem na aldeia sem se purificar e se lavar, podem levar daqui a morte de volta com vocês. Vão ter que passar por um sacrifício final, antes de se reunirem ao resto da tribo. Seu "eu" guerreiro tem que morrer, para que vocês possam renascer inocentes para o grupo. Será preciso guardar a sabedoria da provação, mas também se livrar de seus maus efeitos. E depois de tudo o que passamos, amigos Buscadores, vamos ter que enfrentar mais uma prova, talvez a mais dura de todas.

 

Uma nova personalidade

Para um novo mundo, é preciso ser criado um novo "eu". Da mesma forma que os heróis tiveram que se desfazer de seus antigos "eus" para entrar no Mundo Especial, agora devem se despir da personalidade adquirida na jornada e construir outra, nova, adequada a essa volta ao Mundo Comum. Deve refletir as melhores partes da personalidade antiga e as lições aprendidas ao longo do caminho. No western Barbarosa, o personagem do menino da fazenda, vivido por Gary Busey, passa por uma provação final e renasce dela como o novo Barbarosa, tendo incorporado o que aprendeu com seu mentor, Willie Nelson, ao longo do caminho. John Wayne emerge de sua provação da morte, em Sangue de herói, e incorpora algo dos trajes e atitudes de seu antagonista, Henry Fonda.

Limpeza

Uma das funções da Ressurreição é limpar os heróis do cheiro da morte mas, ao mesmo tempo, deixar que conservem as lições da experiência. A falta de cerimônias públicas e de aconselhamento para os veteranos que voltaram da Guerra do Vietnã pode ter contribuído para os terríveis problemas que esses soldados revelaram no momento de reintegração à sociedade. As chamadas sociedades primitivas parecem mais preparadas para lidar com a volta de seus heróis. Fornecem rituais para purgar o sangue e a morte dos caçadores e guerreiros — rituais que os fazem tornar-se membros pacíficos da sociedade outra vez.

Os caçadores de volta podem ter que ficar um tempo de quarentena, seguros, longe da tribo. Para reintegrar caçadores e guerreiros, os xamãs realizam rituais que imitam os efeitos da morte, ou até mesmo transportam os participantes às portas da morte. Podem ser enterrados vivos por algum tempo, ou confinados numa caverna ou câmara solitária, a fim de que, simbolicamente, cresçam no ventre da terra. Depois são erguidos (Ressurectos) e recebem as boas-vindas como novos membros da tribo, recém-nascidos.

A arquitetura sacra tenta criar esse sentido de Ressurreição, confinando os adoradores em um túnel, ou num saguão estreito e escuro como um útero, um canal de nascimento, antes de levá-los a um espaço aberto e bem iluminado, com a correspondente sensação de alívio. O batismo por imersão num riacho é, também, um ritual concebido para dar a sensação de Ressurreição, tanto por limpar o pecador quanto por retirá-lo da morte simbólica do afogamento.

 

Duas grandes provações

Por que tantas histórias parecem ter dois clímaces ou provações de vida-ou-morte — uma perto do meio e outra imediatamente antes do fim? A metáfora acadêmica de provas de fim do semestre sugere a explicação disso. A crise central, ou Provação Suprema, é como um exame no meio do semestre. A Ressurreição é a prova final. Os heróis têm que ser testados, mais uma vez, para que se verifique se eles aprenderam mesmo, com a Provação Suprema do segundo ato.

Aprender algo no Mundo Especial é uma coisa. Trazer esse conhecimento para casa, como sabedoria aplicada, é algo muito diferente. Os estudantes podem passar num teste, mas o estágio da Ressurreição representa uma prova de campo das novas capacidades do herói, no mundo real. Ao mesmo tempo, é um lembrete da morte e um teste do que o herói aprendeu. Será que ele mudou sinceramente? Será que vai ter recaídas, ser derrotado por neuroses ou por uma Sombra, no último momento? Será que afinal as previsões pessimistas do primeiro ato sobre a heroína Joan Wilder, em Tudo por uma esmeralda ("Você não está à altura disso, Joan, e sabe muito bem") vão se revelar verdadeiras?

 

Provação física

No plano mais simples, a Ressurreição pode ser apenas um último confronto do herói com a morte, numa provação, batalha ou duelo. Geralmente, este é o enfrentamento final com o vilão ou a Sombra.

Mas a diferença entre este encontro com a morte e os anteriores é que agora o perigo, geralmente, surge numa escala muito maior, em relação ao conjunto de toda a história. Não se trata apenas de uma ameaça ao herói, mas ao mundo inteiro. Em outras palavras, o risco do jogo nunca foi tão alto.

Os filmes de James Bond, geralmente, têm seu clímax quando 007 luta contra os vilões e, depois, corre contra o tempo e exigências impossíveis, tentando desarmar algum mecanismo de destruição total — como a bomba atômica, em 007 contra Goldfinger. Milhões de vidas estão em jogo. O herói, o público e o mundo são levados, mais uma vez, à beira da morte, antes que Bond consiga desconectar o fio certo e salvar-nos a todos da destruição.

 

O herói ativo

Parece óbvio que quem tem de agir, nesse especial momento de clímax, é o herói. Mas muitos escritores cometem o erro de fazer com que o herói seja, então, salvo da morte pela oportuna intervenção de um aliado — o equivalente da chegada salvadora da cavalaria. Os Heróis podem receber um auxílio surpreendente, mas é melhor para o herói que a ação decisiva seja realizada por ele. Que seja ele o autor do golpe decisivo contra o medo ou a Sombra. Que seja ativo, não passivo, sobretudo nessa hora.

 

Duelos

Em westerns, filmes policiais e muitos outros filmes de ação, a Ressurreição manifesta-se na forma de ser o maior confronto ou batalha da história, o duelo. Nele, o herói e o vilão estão frente a frente, num jogo final em que o risco é o maior possível: vida ou morte. É o tiroteio clássico dos filmes de faroeste, a luta de espadas no filme de piratas, a última batalha acrobática em um filme de artes marciais. Pode até ser o duelo num tribunal, ou um "tiroteio" emocional, caso se trate de um drama doméstico.

Esse duelo de confronto é uma forma dramática distinta, com suas próprias regras e convenções. Os clímaces operísticos dos westerns spaghetti de Sérgio Leone exageram os elementos do duelo convencional: a música dramática; as forças opostas marchando uma em direção à outra, em algum tipo de arena (a rua da cidade, um curral, um cemitério, o esconderijo do vilão); os close-ups de armas, mãos e olhos prontos para o momento decisivo; a sensação de que o tempo parou.

Duelos a bala são quase obrigatórios em westerns, de No tempo das diligências a Matar ou morrer e a Paixão dos fortes. O chamado Tiroteio no Curral O.K., em 1881, foi uma fuzilaria brutal que se tornou parte da mitologia do Oeste americano e gerou uma versão cinematográfica após outra.

Duelos até a morte fazem parte de filmes de aventuras, como Robin Hood: O príncipe dos ladrões; O gavião do mar; Scaramouche e O gavião e a flecha. Da mesma forma, os cavaleiros enfrentam-se até a morte em Ivanhoé, o vingador do rei, e também em Excalibur e em Os Cavaleiros da Távola Redonda. Duelos e tiroteios não chegam a satisfazer totalmente, a não ser que levem o herói até a beiradinha da morte. O herói deve estar evidentemente lutando pela vida. O caráter brincalhão das escaramuças anteriores, a esta altura, já ficou para trás. O herói pode ser ferido, ou escorregar e perder o equilíbrio. Pode até parecer que ele morre, como na Provação Suprema.

 

Morte e renascimento dos heróis trágicos

Convencionalmente, os heróis sobrevivem a esse encontro com a morte e Ressurgem. Geralmente, é o vilão quem morre ou é derrotado. Mas alguns heróis trágicos morrem neste ponto, como nos casos dos filmes O intrépido general Custer, O canhoneiro do Yang-Tsé, A carga da brigada ligeira, ou Tempo de glória. Em Tubarão, o personagem de Robert Shaw, Quint, é morto nesse ponto. Entretanto, todos esses heróis trágicos ressurgem, no sentido de que, em geral, vivem na lembrança dos sobreviventes, aqueles por quem deram a vida. A plateia sobrevive e recorda as lições que um herói trágico pode nos trazer.

Em Butch Cassidy, os heróis veem-se encurralados num barraco, estão cercados e em inferioridade numérica. Correm ao encontro da morte, num clímax que é adiado até os segundos finais do filme. Todas as probabilidades indicam que eles vão morrer debaixo de uma saraivada de balas, mas eles continuam lutando e ganham a imortalidade, porque a imagem final do filme os congela, fazendo com que continuem vivos em nossa memória. Em Meu ódio será tua herança, os heróis são mortos elaboradamente, mas sua energia sobrevive numa arma, que é recolhida por outro aventureiro, o qual, sabemos desde logo, prosseguirá com seu estilo selvagem.

 

Escolha

Outra possibilidade para um momento de Ressurreição poderá ser a criação de um clímax em que o herói seja obrigado a fazer uma escolha entre várias alternativas; a sua escolha indicará se ele aprendeu, de fato, as lições da transformação. Uma escolha difícil serve para testar os valores de um herói. Será que ele vai escolher de acordo com aquela sua antiga maneira de ser, cheia de defeitos? Ou a escolha refletirá a nova pessoa em que ele se transformou? Em A testemunha, o policial John Book vive um confronto final com seu maior inimigo, um oficial de polícia corrupto. A população Amish fica olhando, para verificar se Book seguirá o código violento de seu Mundo Comum ou a maneira pacífica que ele aprendeu no Mundo Especial. E Book, claramente, decide não partir para o esperado tiroteio. Em vez disso, abaixa a arma, deixando o vilão armado, e fica de pé junto aos silenciosos Amish. Como eles, Book passa a ser uma testemunha. O vilão não pode atirar, diante de tantas testemunhas. O "antigo" John Book teria atirado, junto com seu adversário, mas o novo homem resolve não fazê-lo. Nesse caso, é o teste que prova que ele aprendeu a lição e que é um homem novo, que ressurgiu.

Escolha romântica

A escolha da Ressurreição pode se dar no terreno amoroso. Histórias como A primeira noite de um homem ou Aconteceu naquela noite levam os heróis ao altar, no momento do clímax. Ali deve ser feita uma escolha de quem será o cônjuge. A escolha de Sofia é sobre a escolha impossível de uma mãe a quem os nazistas mandam escolher qual dos dois filhos ela "prefere" que morra.

Clímax

A Ressurreição, geralmente, marca o clímax do drama. Em grego, clímax significava "escada". Para nós, que contamos histórias, é um momento explosivo, o ponto mais alto de energia, ou o último grande acontecimento de uma obra. Pode ser um duelo físico, ou uma batalha final, mas também uma escolha difícil, um clímax sexual, um crescendo musical, ou um enfrentamento altamente emocional e decisivo.

 

O clímax tranquilo

Mas não precisa ser o momento mais explosivo, dramático, alto e perigoso da história. Existe algo que é um clímax tranquilo, o coroamento suave de uma onda de emoção. Esse tipo de clímax pode dar a sensação de que todos os conflitos se resolveram harmoniosamente, e todas as tensões converteram-se em sentimentos de prazer e paz. Depois que o herói experimentou a morte de alguém que ele amava, pode haver um clímax tranquilo de aceitação ou compreensão. Os nós de tensão criados no corpo de uma história se desatam, talvez após um suave impulso de alguma percepção final.

 

Clímaces sucessivos

Algumas histórias podem ter mais de um clímax, ou uma série de clímaces sucessivos. Tramas secundárias individuais podem exigir clímaces separados. O estágio da Ressurreição é outro gânglio nervoso da história, um nó pelo qual todos os fios têm que passar. Renascimento e limpeza podem ter que ser vividos em mais de um nível.

O herói pode vivenciar um clímax em diferentes níveis de consciência, sucessivamente — como na mente, no corpo e na emoção. Ou pode passar por um clímax de mudança mental, ou de decisão, que detona um clímax físico ou um duelo no mundo material. E isso pode ser seguido por um clímax emocional ou espiritual, na medida em que o comportamento e os sentimentos do herói mudam.

Gunga Din combina clímaces físicos e emocionais muito eficientes, um depois do outro. Cary Grant e seus dois amigos sargentos ingleses são gravemente feridos, e isto permite que o aguadeiro Gunga Din, antes um palhaço, possa agir como herói e avisar o exército britânico sobre a emboscada. Embora também esteja ferido, Gunga Din sobe ao alto de uma torre dourada para dar um toque de clarim. O exército é avisado e muitas vidas são salvas, numa cena de ação que é o clímax físico da história. Mas o próprio Din leva um tiro e cai do alto da torre para a morte. No entanto, não morreu em vão. É reconhecido como herói por seus camaradas e, assim, Ressurge. Num clímax emocional derradeiro, o coronel lê um poema que Rudyard Kipling escreveu em honra de Din. Sobreposto na tela, vê-se o espírito de Din, vestido em uniforme militar completo e sorrindo enquanto bate continência, Ressurgido e transformado.

Evidentemente, uma boa história pode trazer ao clímax todos os níveis — mente, corpo e espírito —, e no mesmo momento. Quando um herói parte para uma ação decisiva, todo o seu mundo pode mudar de uma só vez e para sempre.

 

Catarse

Um clímax deve provocar a sensação de catarse. Essa palavra grega, na verdade, significa "vomitar" ou "purgar", mas a usamos para designar uma liberação emocional purificadora, ou uma expansão emocional. O drama grego se construía com a intenção de detonar um "vômito" de emoções por parte da plateia, uma purgação dos venenos da vida cotidiana. Da mesma forma que tomavam purgantes para esvaziar e limpar seus sistemas digestivos, de tempos em tempos os gregos iam ao teatro, em épocas regulares do ano, para se livrar de todos os maus sentimentos. Gargalhadas, lágrimas e arrepios de terror são os gatilhos que detonam essa limpeza sadia, essa catarse.

Em psicanálise, a catarse é uma técnica de aliviar a ansiedade ou a depressão, trazendo à tona material inconsciente. De certo modo, é isso que ocorre quando se conta uma história. O clímax que você está tentando atingir em seu herói e seu público é aquele momento em que eles estão mais conscientes, atingiram o ponto mais alto na escala da consciência. Uma catarse pode realizar uma súbita expansão do grau de consciência, uma experiência de se atingir o máximo de consciência.

Uma catarse pode combinar-se com um simples duelo físico, a fim de obter efeito emocional satisfatório. Em Rio vermelho, Tom Dunston e Matthew Garth se encontram para uma luta definitiva até a morte. De início, Garth não quer lutar. Está decidido a não se deixar provocar nem abandonar seus princípios. Dunston o ataca até que Garth é obrigado a revidar, para salvar a vida. Começam uma batalha titânica, e é evidente que um dos dois vai ter que morrer. Esbarram numa carroça carregada de utensílios domésticos — panos, potes e panelas — e destroem tudo, sugerindo a morte da esperança de se construir um lar, uma família ou uma sociedade na fronteira.

Mas entra em cena uma nova energia: Tess, uma mulher independente, que virá a amar Matthew Garth. Ela interrompe a briga com um tiro de alerta. Num clímax emocional — uma catarse genuína —, Tess despeja todo o seu sentimento pelos dois homens e os convence de que aquela briga é tola, porque eles realmente se amam. Dessa forma, ela transforma um duelo físico mortal numa catarse emocional, num momento de consciência mais elevada.

A catarse funciona melhor por meio da expressão física de emoções, como rir e chorar. As histórias sentimentais podem levar o público a uma catarse de lágrimas, levando as emoções ao auge. A morte de um personagem querido, como Mr. Chips ou a moça condenada em Uma história de amor, pode ser o momento do clímax. Esses personagens, inevitavelmente, são trazidos de volta à vida nos corações e na memória dos que os amaram.

O riso é um dos mais fortes canais de catarse. Uma comédia deve culminar com uma piada ou uma série de piadas que criam uma virtual explosão de gargalhadas, aliviam a tensão, purgam nossas emoções e nos permitem viver uma experiência compartilhada. Os desenhos clássicos em curta-metragem, da Warner Bros. ou da Disney, são construídos de modo a atingir um clímax de gargalhadas, um crescendo de absurdo, em apenas seis minutos. Comédias de longa-metragem têm que se estruturar cuidadosamente, para que se construa um clímax que libere todas as emoções represadas da plateia.

 

Arco de personagem

Uma catarse é o clímax lógico do chamado arco de personagem de um herói. Esse termo é usado para descrever as etapas graduais da transformação de um personagem, as fases do crescimento, os pontos em que ele muda de direção. Uma falha muito comum nas histórias é que os escritores fazem os heróis crescerem ou mudarem abruptamente, num salto, por causa de um único incidente. Alguém os critica, eles percebem a falha, e imediatamente a corrigem. Ou então, têm uma conversão do dia para a noite, por causa de algum choque, e mudam por completo de uma vez. Isto até pode acontecer na vida, mas o mais comum é que as pessoas mudem aos poucos, crescendo em estágios graduais, da intransigência para a tolerância, da covardia para a coragem, do ódio para o amor. Eis um arco de personagem típico, comparado com o modelo da Jornada do Herói.

Arco de personagem Jornada do Herói 1. Consciência limitada

Mundo Comum

do problema

2. Aumento dessa

Chamado à Aventura

consciência

3. Relutância em mudar Recusa

4. Superando a Encontro com o

relutância Mentor

5. Compromisso com a Travessia do Primeiro

mudança Limiar

6. Experimentando a Testes, Aliados,

primeira mudança Inimigos

7. Preparando para a Aproximação da

grande mudança Caverna Oculta

8. Tentando a grande

Provação

mudança

9. Consequências da

Recompensa

tentativa (melhorias e

(Apanhando a Espada)

recuos)

10. Nova dedicação à Caminho de Volta

mudança

11. Tentativa final da

Ressurreição

grande mudança

12. Domínio final do

Retorno com o Elixir

problema

Os estágios da Jornada do Herói são um bom guia para os passos necessários a se criar um arco de personagem realista.

Arco de personagem

 

Ultima chance

A Ressurreição é a última tentativa do herói para conseguir grandes mudanças em atitude e comportamento. Um herói pode deslizar um pouco nesse ponto, fazendo com que os que o cercam achem que ele os está desapontando. Provisoriamente, perde-se a esperança nesse personagem, sentimento que pode ressurgir se ele mudar de ideia. O egoísta solitário Han Solo, em Guerra nas estrelas, vira as costas à tentativa final de destruir a Estrela da Morte. Mas aparece, no último minuto, mostrando que finalmente mudou e agora se dispõe a arriscar a vida por uma boa causa.

 

Cuidado onde pisa

A Ressurreição pode ser um passo em falso potencial para um herói no caminho de volta, pois ele pode estar andando na corda bamba, entre um mundo e outro. Hitchcock usa muito a altitude, nesse ponto da história, como representação de uma queda potencial, ameaçando que o herói não retorne vivo do Mundo Especial. Em Intriga internacional, os personagens de Cary Grant e Eva Marie Saint terminam pendurados nas gigantescas cabeças esculpidas na pedra do monte Rushmore, mantendo a plateia em suspense sobre o destino final do casal, até o último minuto possível. Os clímaces de Hitchcock em Um corpo que cai, Sabota-dor e Ladrão de casaca também levam heróis a lugares muito altos, para uma batalha final entre a vida e a morte.

Às vezes, é possível obter grande efeito dramático quando o herói pisa na bola no último momento antes de fazer o gol. Os heróis de A guerra do fogo voltam para junto de seu povo com o elixir da chama, mas no limiar de seu mundo, o fogo se apaga, casualmente, ao cair na água. Essa morte aparente de toda esperança é o teste final para o herói, o líder da busca. Ele tranquiliza as pessoas, porque agora sabe o segredo do fogo: viu tribos mais avançadas usando um graveto especial para acendê-lo, quando ele esteve vivendo sua Provação. Entretanto, quando tenta copiar a "técnica" deles, descobre que já não se lembra do truque. Mais uma vez, a esperança parece perdida.

No entanto, sua "esposa" — uma garota que ele conheceu durante a aventura e vem de uma tribo mais adiantada — dá um passo à frente e faz uma tentativa. Os homens não gostam disso, tendo que aprender com uma mulher — e ainda por cima, estrangeira. Mas só ela conhece o segredo (cuspir nas mãos antes de usar o graveto do fogo). Dá certo, o fogo se acende e a possibilidade da vida volta à tribo. Na verdade, foi toda a tribo quem passou por um teste final, para aprender que o conhecimento somado de homens e mulheres é que é o instrumento principal da sobrevivência. Um tropeção no último limiar levou à Ressurreição e ao esclarecimento.

O passo em falso do herói pode não ser um acontecimento físico, mas um tropeço moral e emocional, no limiar da volta. Em Interlúdio, há testes físicos e emocionais nos últimos instantes. Alicia Hueberman (Ingrid Bergman) corre sério perigo de ser envenenada pelos nazistas, enquanto Devlin (Cary Grant) corre o risco de perder a alma se não conseguir livrar a moça das garras do inimigo — onde ela foi cair por causa de Devlin e da dedicação dele ao trabalho.

 

O falso pretendente

Um momento comum da Ressurreição, nos contos de fadas, apresenta uma ameaça de última hora ao herói que partiu numa busca para conquistar algo, enfrentando provas impossíveis. Quando ele retorna e mostra que agora tem direito à princesa ou ao trono, de repente surge um falso pretendente a questionar as credenciais do herói ou dizendo que, na verdade, foi ele, e não o herói, quem cumpriu as tarefas impossíveis. Por um momento, parece que as esperanças do herói estão mortas. Para renascer, ele deve oferecer novas provas de que é o verdadeiro autor das proezas, seja exibindo as orelhas e a cauda do dragão que tenha matado, seja vencendo o outro (a Sombra) numa luta final e decisiva.

 

Prova

Apresentar as provas é uma das principais funções dessa etapa de Ressurreição. As crianças gostam de trazer lembranças das férias de verão, em parte para se recordarem da viagem, mas também para provar às outras crianças que realmente visitaram aqueles lugares exóticos. Um eterno problema de quem viaja a outros mundos é a possibilidade de que não acreditem em seus relatos. Um motivo comum, nos contos de fadas, é que a prova trazida do mundo mágico tende a se evaporar. Uma sacola cheia de moedas de ouro recebida das fadas pode ser aberta no Mundo Comum para que se descubra que só contém folhas molhadas, deixando que os outros imaginem que o viajante esteve sonhando ou apenas bêbado no bosque. No entanto, ele sabe que a experiência foi verdadeira. Esse motivo significa que é muito difícil explicar aos outros as experiências espirituais e emocionais do Mundo Especial. Cada um tem que ir lá, para aprender. As experiências do Mundo Especial tendem a se evaporar caso não venham a se tornar, de verdade, uma parte de nossa vida cotidiana. O verdadeiro tesouro de uma viagem não são as lembranças, mas uma mudança interna duradoura e aquilo que se aprende.

 

Sacrifício

Muitas vezes, a Ressurreição exige um sacrifício do herói. Algo tem que ser entregue, alguma crença profunda, ou um hábito antigo. Algo tem que ser devolvido, como as libações que os gregos costumavam derramar para os deuses antes de beber. Algo tem que ser dividido, para o bem do grupo.

Em O exterminador do futuro 2: O julgamento final, o vilão camaleônico é destruído num clímax físico, mas a história leva a plateia a um clímax emocional ainda mais elevado, no qual o herói-robô, o Exterminador (Arnold Schwarzenegger) tem que se sacrificar para impedir a si mesmo de causar mais violência. Em outro sentido, o menino John Connor é o herói, nesse ponto, e tem que sacrificar uma parte de si, sua figura de Mentor/ pai, permitindo que o Exterminador salte para a morte. Outro clímax semelhante, de autossacrifício, encontra-se em Alien 3, quando Ripley (Sigourney Weaver), sabendo que tem um monstro crescendo dentro de si, entrega-se à destruição, pelo bem do grupo. O sacrifício clássico na literatura está presente em Um conto de duas cidades, de Charles Dickens, em que um homem entrega a vida à guilhotina para salvar a vida de outro homem.

Sacrifício vem de palavras latinas que significam "fazer sacro, tornar sagrado". Muitas vezes, os heróis têm que santificar uma história, fazendo um sacrifício, talvez entregando ou devolvendo algo de si mesmos. Esse sacrifício pode ser a morte de membros do grupo. Luke Skywalker, no clímax de Guerra nas estrelas, vê muitos de seus camaradas serem mortos no esforço para destruir a Estrela da Morte. Luke também entrega parte de sua personalidade, sua dependência das máquinas. Com a voz de Obi Wan na cabeça, ele resolve "confiar na Força", e assim aprende a confiar no instinto humano, e não nas máquinas.

Luke passa por outro sacrifício pessoal no clímax do segundo filme da série, O império contra-ataca. Fugindo do Imperador, ele perde uma das mãos. Em compensação, ganha novo controle sobre a Força, no terceiro filme da trilogia, O retorno de Jedi.

Incorporação

A Ressurreição é uma oportunidade para o herói mostrar que absorveu, incorporou, todas as lições de todos os personagens — que fez dessas lições parte de seu corpo. Um clímax ideal testaria tudo aquilo que ele aprendeu e permitiria que o herói mostrasse que absorveu o Mentor, o Camaleão, a Sombra, os Guardiões e os Aliados que foi encontrando ao longo do caminho. Quando os heróis de Amigos, sempre amigos chegam ao clímax, são capazes de aplicar tudo o que aprenderam com vários Mentores e antagonistas.

Mudança

O maior propósito dramático da Ressurreição é dar um sinal externo de que o herói realmente mudou. É preciso provar que o antigo "eu" está completamente morto, e o novo "eu" é imune às tentações e aos vícios que aprisionavam a forma velha.

O truque dos escritores é tornar essa mudança visível na aparência ou na ação. Não basta que as pessoas em volta de um herói percebam que ele mudou, não basta que ele diga que mudou. O público tem que poder ver isso — em seus trajes, conduta, atitude e ações.

Tudo por uma esmeralda tem um sentido de Ressurreição bem realizado em termos visuais. No clímax de ação do filme, Joan Wilder e Jack Colton unem-se para derrotar os vilões, salvar a irmã de Joan e retomar o tesouro. Mas Jack imediatamente se retira, ameaçando a linha romântica de Joan. A perfeição junto a um homem esteve ao alcance dela, mas lhe foi arrancada no último minuto. Jack lhe dá um beijo de despedida e diz que ela sempre possuiu os dons necessários para ser uma heroína. Mas confessa que ele, no fundo, prefere ir atrás do dinheiro a seguir o coração. Colton vai em busca da esmeralda, que fora engolida por um crocodilo. Mergulha do alto de uma muralha, deixando Joan romanticamente enlutada e insatisfeita. O enredo de ação terminou num triunfo, mas o enredo emocional parece ser uma tragédia. Na verdade, a esperança de Joan de se completar emocionalmente está morta.

A tomada de Joan olhando por cima do parapeito vai se dissolvendo lentamente, até fundir-se com outra tomada dela mesma, Ressurgida, em seu escritório em Nova York, alguns meses depois. Sua agente está lendo seus mais recentes originais, de um livro baseado naquelas aventuras da vida real. Fica evidente, a partir de tudo o que a tela mostra, que Joan Wilder mudou. Que ela, de alguma forma, foi ao fundo do poço, morreu e renasceu. Os originais do livro fazem a agente durona se encher de lágrimas. Ela afirma que aquele é, disparado, o melhor livro de Joan, e assinala que ficou pronto muito rápido. As provações do Mundo Especial fizeram de Joan uma escritora melhor. E ela também está com melhor aspecto, mais "senhora de si".

No fim da cena, Joan tem que passar por mais um teste emocional. A agente se refere à conclusão do livro que, diferentemente da vida real de Joan, termina com o herói e a heroína juntos. Ela se inclina para chegar mais perto e, no seu jeito direto, diz que Joan é "uma romântica sem esperanças", incorrigível.

Joan podia ter se recolhido por aí, talvez chorando devido à triste realidade de não ter conseguido ficar com seu homem. Ou podia ter concordado com a opinião da agente sobre seu romantismo. A antiga Joan teria entregado os pontos. Mas não é o que acontece. Ela passa bem por este teste emocional, com sua resposta. Suave, mas firme, discorda e diz: "Não. Sou uma romântica cheia de esperança." Seu aspecto nos diz que ela ainda está sofrendo, mas no fundo está bem. Aprendeu a gostar de si mesma, independentemente de algum homem a amar ou não. Joan exibe, enfim, a segurança e autoconfiança que lhe faltavam antes. Mais tarde, na rua, ela consegue se desvencilhar de homens que, tempos atrás, a teriam intimidado. Passou por uma Ressurreição. Mudou, na aparência e na ação, de diferentes maneiras — que podem ser vistas na tela e sentidas no íntimo.

 

O Mágico de Oz

O Mágico de Oz não é tão fortemente visual quanto Tudo por uma esmeralda, ao mostrar como o herói mudou. O renascimento e o aprendizado expressam-se em palavras. A Ressurreição, para Dorothy, está na recuperação da aparente morte de suas esperanças, naquele momento em que o Mágico, por mero acidente, vai-se embora com o balão. Justamente quando parece que Dorothy nunca conseguirá seu objetivo de voltar para casa, há outra aparição da Bruxa Boa, a representara anima positiva que nos conecta com a casa e a família. Diz a Dorothy que ela possuía, o tempo todo, o poder de voltar para casa, e que só não tinha dito isso antes à menina porque "não teria mesmo acreditado nela, tinha que aprender sozinha".

O Homem de Lata pergunta, então, de modo direto: "E o que foi que você aprendeu, Dorothy?" A menina responde que aprendeu a procurar o "desejo de seu coração" em seu "próprio quintal". Como Joan Wilder, Dorothy descobriu que a felicidade e o sentido de integração estão dentro dela mesma, mas essa expressão verbal de mudança é menos eficaz do que as mudanças visuais e de comportamento que se podem ver na tela, como ocorre na cena da Ressurreição, em Tudo por uma esmeralda. Apesar disso, é certo que Dorothy aprendeu alguma coisa, e agora pode dar o passo na direção do Limiar final.

 

A Ressurreição é o exame final do herói, sua chance de mostrar tudo o que aprendeu. Os heróis são totalmente purgados pelo sacrifício final ou pela experiência profunda dos mistérios da

vida e da morte. Alguns não conseguem ultrapassar esse ponto perigoso. Mas os que sobrevivem seguem adiante e fecham o círculo da Jornada do Herói, em seu Retorno com o Elixir.

 

Questionando a Jornada

1. Qual é a Ressurreição em King Kong? ...E o vento levou? O silêncio dos inocentes? A morte lhe cai bem?

2. Que características negativas seu herói adquiriu pelo caminho? Que defeitos tinha desde o começo e ainda precisam ser corrigidos? Que falhas você quer preservar, sem correção? Quais delas são partes necessárias da natureza de seu herói?

3. Que provação final de vida e morte o seu herói enfrenta? Que aspecto dele Ressurge?

4. Há necessidade de um duelo final físico na sua história? Seu herói está ativo nesse momento crítico?

5. Examine o arco de personagem de seu herói. Ele apresenta um crescimento realista de mudanças graduais? A mudança final do personagem está visível em suas ações ou aparência?

6. Quem aprende alguma coisa numa tragédia em que o herói morre, na qual o herói não aprendeu suas lições?