A Jornada do Escritor

Christopher Vogler · Capítulo 22 de 23 · parte 1/3

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A Jornada do Escritor

Epílogo - RECAPITULANDO A JORNADA

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

"Eu me diverti de montão e adorei cada minuto."

Errol Flynn

Agora que chegamos ao fim da Estrada dos Heróis, gostaria de examinar como o modelo funciona em algumas histórias, na prática. Escolhi quatro filmes que fizeram uso das estruturas e arquétipos da Jornada do Herói de forma criativa e divertida: Titanic, O Rei Leão, Pulp Fiction: Tempo de violência e Ou tudo ou nada. Também quero acrescentar algumas palavras sobre a saga Guerra nas estrelas, que teve grande papel no desenvolvimento das ideias da Jornada.

A análise desses filmes na perspectiva da Jornada do Herói foi um exercício fascinante, revelando falhas mas também agradáveis surpresas em termos de significado e relações poéticas. Recomendo com veemência que você faça o mesmo em um filme, romance ou em sua própria história. A recompensa é gratificante se o conhecimento é aplicado a uma história ou situação da vida. Entretanto, antes de apresentar essas análises, convém dar alguns avisos e informações.

 

Caveat, scriptor

Antes de mais nada, Caveat, Scriptor! ("Tenha cuidado, escritor!"), pois a Jornada do Herói é apenas um roteiro, uma sugestão. Não é uma receita de cozinha nem uma fórmula matemática para ser aplicada rigidamente a toda história. Para ser eficiente, uma história não precisa seguir esta ou aquela escola, este ou aquele paradigma ou método de análise. A verdadeira medida do sucesso ou excelência de uma história não está na obediência a qualquer padrão estabelecido, mas em sua popularidade duradoura e efeito no público. Obrigar uma história a se ajustar a um modelo estrutural é botar o carro adiante dos bois.

É possível escrever boas histórias que não apresentam todos os aspectos da Jornada do Herói. Na verdade, é melhor que não o façam. As pessoas adoram que as convenções e expectativas conhecidas sejam desafiadas criativamente. Uma história pode quebrar todas as "regras" e, mesmo assim, tocar muito fundo nas emoções humanas universais.

 

A forma segue a função

Lembre-se: as necessidades da história é que ditam a estrutura. A forma segue a função, obedece a ela. Suas crenças e prioridades, junto com os personagens, temas, estilo, tom e o clima que você está querendo passar é que vão determinar a forma e o projeto do enredo. A estrutura também será influenciada pela plateia, e pelo lugar e a época em que a história está sendo contada.

A forma dessas histórias muda conforme as necessidades da plateia. Novos tipos de história, com ritmos diferentes, continuarão a ser criadas. Por exemplo, graças à televisão e ao estilo de cortes da MTV, a faixa de atenção da plateia mundial hoje em dia é mais curta, e também mais sofisticada do que nunca.

Os escritores podem construir histórias que se movem com mais rapidez, e podem pressupor que a plateia será capaz de lidar com distorções e cortes abruptos em estruturas que nos são familiares.

Todo dia criam-se novos termos e toda vez que uma história é escrita observam-se coisas novas. A Jornada do Herói é apenas uma linha-mestra, um ponto de partida para que você possa forjar sua própria história e suas regras pessoais.

 

Escolha sua metáfora

O padrão da Jornada do Herói é apenas uma metáfora para o que acontece numa história, ou numa vida humana. Tenho usado metáforas da caça, do ano letivo e do comportamento sexual humano para explicar o padrão que vejo numa história, mas existem muitas outras possibilidades. Elabore uma ou várias metáforas diferentes se isso ajudar você a entender melhor o ato de contar histórias. Você pode preferir comparar uma história a uma partida de beisebol, ou ao processo de velejar, ou de fazer pão, descer um rio em canoa, dirigir um automóvel ou esculpir uma estátua. Muitas vezes, é necessária uma combinação de metáforas para iluminar facetas diferentes da jornada humana.

Os estágios, termos e ideias da Jornada do Herói podem ser usados como um molde para uma história, ou como um meio de verificar onde estão seus pontos fracos, desde que você não siga essas linhas-mestras com muita rigidez. Provavelmente, o melhor é, primeiro, se familiarizar com os conceitos da Jornada do Herói, e depois esquecê-los, logo que se sentar para escrever. No caso de se ficar perdido, pode-se consultar a metáfora de referência, como quem olha um mapa numa viagem. Mas o mapa não é o caminho. Ninguém dirige com um mapa grudado no para-brisa. O mapa é consultado antes da partida ou nos momentos de dúvida. A alegria da viagem não está em seguir um mapa, mas em explorar lugares desconhecidos e até mesmo em se afastar do mapa, de vez em quando. Só se fazem novas descobertas quando se fica criativamente perdido, fora das fronteiras da tradição.

 

Molde

Você pode querer fazer uma experiência com a Jornada do Herói como ajuda para um novo roteiro, ou para avaliar os problemas de uma obra. Na Disney, usamos o modelo da Jornada do Herói para amarrar histórias, descobrir falhas ou projetar estruturas. Centenas de escritores já me disseram que desenvolveram seus roteiros, novelas ou episódios de seriados usando a Jornada do Herói e a orientação da mitologia.

Há quem comece a definir a história de um filme ou romance escrevendo os 12 estágios da Jornada em 12 fichas. Se você já sabe quais serão algumas das cenas principais ou encruzilhadas, escreva-as onde achar que elas se encaixam, em um dos 12 estágios. Desse modo, comece a mapear sua história, enchendo os brancos com o que sabe dos personagens e o que acontece com eles. Use os conceitos da Jornada do Herói para se perguntar sobre os personagens: Quais são os Mundos Comuns e Especiais dessas pessoas? Qual é o Chamado à Aventura para meu herói? Como o medo se expressa na Recusa? É superado graças a um Encontro com um Mentor? Qual o primeiro Limiar que meu herói tem que cruzar? E assim por diante. Em pouco tempo, as lacunas se preenchem e você pode seguir adiante, mapeando a Jornada do Herói para todos os personagens e tramas secundárias, até que o projeto completo esteja elaborado.

Você pode descobrir que uma certa cena encaixa-se com a função, em algum dos estágios, mas também surge no que parece ser o ponto "errado" do modelo da Jornada do Herói. Em sua história, pode ser preciso que um Mentor apresente um Chamado e uma Recusa no segundo ou terceiro ato em vez de no primeiro, conforme o modelo parece indicar. Não se preocupe. Ponha a cena onde lhe parecer melhor. O modelo só mostra o lugar mais provável para que se dê um acontecimento.

Qualquer elemento da Jornada do Herói pode aparecer em qualquer ponto da história. Dança com lobos começa com uma Provação para o herói, ou uma Ressurreição, coisas que normalmente só se espera encontrar bem mais adiante — e, apesar disso, a história funciona. Todas as histórias compõem-se com os elementos da Jornada do Herói, mas as unidades podem se arrumar em praticamente qualquer ordem, para servir às necessidades específicas da sua história.

Por isso que é melhor usar fichas em vez de escrever os estágios numa única folha de papel. As fichas podem ser trocadas de lugar para situar as cenas onde você precisar. E você poderá acrescentar novas fichas, se acaso um movimento como Chamado e Recusa se repetir (como ocorre em Titanic).

Você pode descobrir que, à medida que vai visualizando sua história, pensa em algumas cenas que parecem não se encaixar em nenhum estágio da Jornada em particular. Pode ser que você tenha que inventar sua própria terminologia, ou metáforas, para cobrir essa categoria de cenas. Ou tenha que adaptar a terminologia da Jornada do Herói para servir à sua própria visão do mundo.

 

Demonstração da ideia

Vejamos agora quatro filmes que demonstram como as ideias da Jornada do Herói continuam a ser recriadas, com novos arranjos de modelos antigos.

Náufragos do amor

O texto desta e das demais análises foi traduzido por Mauro Pinheiro.

Uma análise da Jornada do Herói em Titanic, de James Cameron

Christopher Vogler copyright 1998

 

Quando o grande transatlântico Titanic, em sua viagem inaugural de Liverpool a Nova York, chocou-se contra um iceberg e afundou, na noite de 14 de abril de 1912, uma história de impacto emocional extraordinário começou a se formar. Notícias aterradoras espocaram em todo o mundo, informando que mais de mil e quinhentas pessoas haviam desaparecido, mais da metade das almas a bordo do supostamente insubmersível transatlântico de luxo. Em seguida, vieram as histórias individuais de covardia e coragem, arrogante egoísmo e nobre sacrifício. As linhas se entrelaçaram criando um grande épico que, com seus poderosos elementos de terror, tragédia e morte, foi contado repetidas vezes para as gerações que se seguiram na forma de livros, artigos, documentários, filmes de longa-metragem, peças teatrais e mesmo em um ou dois musicais. O desastre do Titanic se tornou parte da cultura popular ocidental, uma fonte de permanente fascínio, como as Pirâmides, os OVNI ou o rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda.

E então, depois de 85 anos de histórias do Titanic, uma coalizão incomum de dois estúdios de Hollywood, Paramount e 20th Century Fox, ofereceu ao público uma nova versão — o Titanic de James Cameron. E esta versão não apenas superou todos os demais filmes relacionados ao Titanic nos valores e opulência de sua produção, como também foi o filme mais caro jamais feito, custando acima de duzentos milhões de dólares, sem contar os custos de divulgação e distribuição. A ideia do autor e cineasta James Cameron, que precisou reunir recursos financeiros dos dois estúdios, era tão colossal que muitos observadores previram para o filme a mesma sorte do navio. Tinham certeza de que o novo filme afundaria, possivelmente levando com ele os estúdios e seus principais executivos. Pouco importava sua popularidade, ou quão fantasticamente realizados fossem os efeitos especiais; uma produção assim, arrogantemente enorme, não conseguiria ressarcir seus custos.

Afinal de contas, disseram os críticos especializados em resenhar filmes antes de serem feitos, havia muitos obstáculos em jogo. Primeiramente, todo mundo sabia como a história acabava. Eles dançam, batem no iceberg e morrem. O elemento vital da surpresa, ou o não saber o que aconteceria em seguida, estaria faltando.

Em segundo lugar, era uma obra datada, com fatos ocorridos antes da Primeira Guerra, e todos sabem que obras históricas são caras e, freqüentemente, impopulares, pois não têm "relevância" para o público moderno. Em terceiro, a estrutura do roteiro foi considerada tão cheia de falhas quanto o projeto naval do Titanic, obrigando as pessoas a suportarem uma hora e meia de melodrama, a duração de um filme normal, antes de apresentar o iceberg e a ação. O fim era trágico, o que costuma ser fatal para as bilheterias. Com mais de três horas, sua duração era quase duas vezes mais longa do que o tempo ideal, segundo os exibidores, que teriam de efetuar um número menor de projeções diárias. E, finalmente, seus atores principais não eram considerados grandes estrelas na época.

Os executivos da 20th Century Fox, que haviam injetado a maior parte do dinheiro para obter retorno com a venda dos direitos de distribuição internacionais, tinham razão especial para se preocuparem. A história do Titanic era familiar, para o público dos Estados Unidos e Grã-Bretanha, mas não na Ásia e em outros mercados estrangeiros. Iriam as importantes audiências internacionais assistir a um drama típico sobre um naufrágio ocorrido tanto tempo atrás?

Pois bem, não só assistiram, perfazendo um número de espectadores sem precedentes, como o fizeram repetidas vezes. Para a surpresa de todos, incluindo cineastas, o público em todo o mundo acolheu o Titanic com entusiasmo, na mesma escala de grandeza do próprio transatlântico. Seus custos fantásticos foram recuperados em dois meses, garantindo à Fox e à Paramount lucros estupendos. O filme permaneceu em primeiro lugar, em número de espectadores no mundo todo, por mais de 16 semanas. Além disso, foi um grande vitorioso no Oscar, com 14 indicações e 11 estatuetas, incluindo a de melhor filme e melhor diretor, impulsionando novamente os lucros. A trilha sonora ficou em primeiro lugar nas paradas durante quatro meses.

A febre do Titanic se propagou para além da audiência do filme e da trilha sonora. Vivemos numa sociedade "colecionadora", na qual o antigo desejo de possuir pequenas peças de uma história pode alcançar escalas fantásticas. No mesmo impulso que levou o homem neolítico a esculpir peças em osso de seus deuses prediletos e de seus animais totêmicos, a audiência contemporânea quis possuir peças relacionadas à experiência do Titanic.

As pessoas compraram miniaturas do navio, livros sobre o filme, filmes sobre o filme, e acessórios cenográficos como barcos salva-vidas, cadeiras de convés e louças oferecidos em luxuosos catálogos. Alguns chegaram ao extremo de reservar um caríssimo passeio ao fundo do mar num submarino de alta tecnologia para conhecer de perto o escombro do grande navio e o sombrio cemitério de seus passageiros.

Como o filme continuou em primeiro lugar nas bilheterias durante quatro meses, as pessoas começaram a imaginar o que estava acontecendo. O que estaria alimentando essa reação incomum a um simples filme?

 

Eventos cinematográficos importantes

Certos filmes, por conta de suas bilheterias surpreendentes ou conteúdos memoráveis, tornam-se monumentos permanentes na paisagem cultural. Titanic, como Guerra nas estrelas, Sem destino, Contatos imediatos de terceiro grau e Independence Day, são exemplos de tais monumentos. Filmes como estes são eventos importantes rompendo velhos limites e fronteiras, alçando a ideia de um filme a um nível inteiramente novo. Esses eventos cinematográficos relevantes capturaram algo que repercute em muitas, muitas pessoas. Devem exprimir algum tipo de emoção quase universal ou satisfazer um vasto desejo coletivo. Quais seriam os anseios universais atendidos pelo Titanic?

Naturalmente, me inclino a pensar que o filme teve sucesso porque satisfaz o anseio universal por um sentido, e isso é feito através da ampla utilização dos temas e conceitos da Jornada do Herói. Como disse James Cameron, em carta ao Los Angeles Times no dia 28 de março de 1998, o Titanic incorpora intencionalmente universos da experiência e emoção humanas que são atemporais — e familiares, pois refletem nosso tecido emocional básico. Ao lidar com arquétipos, o filme comove pessoas em todas as culturas e de todas as idades.

Os padrões arquetípicos transformam um evento caótico como o naufrágio de um transatlântico num esquema coerente que coloca questões e oferece opiniões sobre como a vida deveria ser vivida.

Como uma história em escala épica, o Titanic entrega-se ao luxo de um ritmo lento na narrativa, tendo tempo suficiente para estabelecer uma elaborada moldura que possui em si mesma toda a estrutura da Jornada do Herói. Nessa trama, em paralelo à história central dos passageiros do navio, pelo menos duas Jornadas do Herói são desenvolvidas: a de um cientista-aventureiro em busca de um tesouro físico e a de uma velha senhora voltando à cena de um grande desastre para reviver uma imensa paixão. Uma terceira Jornada do Herói possível é a do público, viajando para dentro do mundo do Titanic e aprendendo as lições do navio morto.

A exemplo de muitos filmes, o Titanic é margeado por uma narrativa externa, situada nos dias atuais, que fornece vários aspectos importantes da história. Primeiramente, ao utilizar cenas reais de documentário dos escombros do Titanic no fundo do mar, nos lembra que estamos diante de algo que vai além de uma história inventada — é a dramatização de um evento real. Os destroços do navio e as rústicas e tristes relíquias de seus passageiros trazem um dos elementos mais poderosos da produção — que isso podia acontecer, isso realmente aconteceu e aconteceu a pessoas como nós.

Em segundo lugar, ao introduzir o personagem da senhora Rose, o mecanismo das margens conecta essa história de um outro tempo com os dias atuais, lembrando-nos de que o desastre do Titanic não ocorreu há tanto tempo assim, se considerarmos o breve espaço temporal de uma vida humana. A senhora Rose dramatiza o fato de existirem muitas pessoas hoje em dia que se recordam do Titanic, e algumas que de fato sobreviveram ao naufrágio.

Em terceiro lugar, essa moldura cria um mistério — quem é essa senhora idosa que reivindica ter sido uma sobrevivente do Titanic, e o que aconteceu com a joia que o explorador queria tanto encontrar? Rose encontrou seu amado? Ele conseguiu se salvar? Essas perguntas são ganchos que seduzem a audiência e criam suspense, ainda que saibamos o desfecho da história do navio.

O Titanic começa nos apresentando um herói dessa mini-história, a figura muito contemporânea de Brock Lovett, o cientista-empresário-explorador que não consegue decidir-se muito bem sobre como se apresentar aos espectadores. Seu mundo comum é o de um homem da indústria dos espetáculos tentando coletar fundos para suas caríssimas aventuras científicas. Seu problema externo é tentar encontrar um tesouro, um diamante que, acredita-se, tenha sido perdido com o Titanic; seu problema interno é tentar achar uma voz autêntica e um melhor sistema de valores.

A figura do cientista-explorador é bastante comum e já se tornou um arquétipo, expresso na criação de Sir Arthur Conan Doyle, o professor Challenger; Allan Quatermain em As minas do rei Salomão; o explorador e homem de espetáculos

Carl Denning, em King Kong e o nosso contemporâneo Indiana Jones. Esses personagens fictícios são reflexos de arqueólogos e pesquisadores aventureiros que existiram de fato, como Howard Carter, Heinrich Schlieman, Roy Chapman Andrews e Jacques Cousteau. Robert Ballard, o empresário-cientista-aventureiro que realmente encontrou os destroços do Titanic, é um dos modelos para Lovett no filme, e ele de fato realizou sua Jornada do Herói ao escolher como considerar o navio. No início, ele aparece como uma espécie de conquistador científico, porém, gradualmente, vai sendo profundamente tocado pela tragédia humana e decide que o local dos escombros é um lugar sagrado, que deve ser deixado intacto como um memorial dedicado àqueles que perderam suas vidas no naufrágio.

Neste ponto da trama, o jovem cientista está seguindo sua primeira missão: achar o tesouro. Mas, através da magia da história da velha senhora, uma narrativa que ocupa a parte central do filme, o explorador deixa de ser um capitalista orientado pelo dinheiro e se transforma num verdadeiro explorador do coração humano, que acaba compreendendo que existem tesouros mais importantes na vida do que joias e dinheiro.

 

O objeto da busca

Qual é o Santo Graal que Lovett persegue nessa busca? É um diamante chamado "O Coração do Oceano", um nome que associa o tema do amor com o cenário do filme. A joia é um autêntico MacGuffin — algo pequeno e concreto para concentrar a atenção dos espectadores e simbolizar as esperanças e aspirações dos personagens. O diamante é um símbolo da perfeição, dos poderes eternos, imortais dos deuses. Suas facetas, com precisão matemática, são a prova física do majestoso intento, da mão e da mente criativas dos deuses. Como os deuses, certas substâncias, tais quais o ouro, a prata e as joias, parecem imortais. Enquanto a carne e os ossos, as folhas e a árvore, e mesmo o cobre e o aço são consumidos, as joias permanecem intactas, inalteradas. Elas sobrevivem milagrosamente ao poder esmagador do fundo do mar em perfeitas condições. As joias e os metais preciosos sempre foram usados, assim como os incensos, perfumes, lindas flores e música divina para conectar as representações religiosas e dramáticas ao mundo dos deuses. São pequenos pedaços dos céus, ilhas de perfeição dentro de um mundo imperfeito, "portas da percepção" oferecendo um vislumbre do Paraíso. O "Coração do Oceano" é um símbolo para as noções idealizadas de amor e honra que o filme reverencia.

Lovett vasculha o navio com seu robô de controle remoto, mas não encontra sequer um pedaço do paraíso que buscava, pelo menos não do modo que previa. Ao abrir o cofre que resgatou do fundo do oceano, ele acha uma polpa apodrecida que um dia fora dinheiro e um desenho miraculosamente preservado de uma linda jovem usando o diamante que estava procurando. Lovett prepara uma transmissão pela CNN que é o chamado ouvido pela senhora Rose e sua neta Lizzy Calvert.

O mundo comum da senhora Rose é o de uma artista idosa porém ativa, morando em Ojai, Califórnia. Ela é uma HEROÍNA em seu próprio drama, conduzindo sua longa vida a um clímax e uma conclusão, mas ela também serve como mentor para Lovett e os espectadores, guiando-nos através do mundo especial do Titanic e nos ensinando um sistema de valores superior. Seu problema externo é superar a experiência vivida no Titanic; seu problema interno é resgatar as intensas lembranças que por muito tempo ficaram boiando em seu inconsciente. Ela emite seu próprio chamado para Lovett, alegando ser a mulher do desenho encontrado e afirmando saber de alguma coisa sobre o diamante. Após uma certa recusa a aceitar sua história, ele cede e leva-a consigo até seu navio de pesquisa, onde ela começa a contar sua história sobre o primeiro e o último dia do Titanic no mar.

História principal — Mundo Comum

Neste ponto, o filme deixa de lado sua moldura e ingressa plenamente na história principal e no mundo do Titanic. Vemos o navio no auge de sua glória pela primeira vez. O cais movimentado é o palco do mundo comum onde os protagonistas ou heróis, a jovem Rose e Jack, são apresentados. Rose tem direito a uma entrada elaborada, como um belo exemplar pertencente ao séquito de Cal Hockley, seu noivo e a sombra, ou vilão da trama, uma figura "malvada" e sarcástica tirada de um melodrama vitoriano. Conhecemos também o vilão secundário, o seguidor fiel de Hockley chamado Lovejoy, que executa os desejos arrogantes de seu patrão.

Nossa primeira visão de Rose é a de sua mão numa delicada luva branca, saindo de um veículo. As mãos dos amantes, entrelaçadas e separadas, irão se tornar um elo visual contínuo. Ela está vestida com elegância mas sente-se uma prisioneira, como nos diz a senhora Rose com sua voz ao fundo. Ela é uma heroína em viagem, mas nesse momento usa a máscara do arquétipo da vítima, uma donzela angustiada, linda, porém impotente.

Cal representa a presunção e a intolerância de sua classe social, e também o lado escuro, tenebroso, da humanidade e do casamento. Ele está num extremo da polaridade, representando a repressão e a tirania, com Jack sendo seu oposto, representando a libertação e o amor. Embora o Titanic seja uma grande obra da imaginação, construído por operários honestos, ele possui falhas profundas e fatais, culpa de homens arrogantes como Cal. Ele crê no aspecto arrogante do Titanic e identifica-se com ele, acreditando plenamente que o navio nunca afundará, pois foi criado por homens da classe elevada de Cal, por "cavalheiros". Ele afirma que "nem mesmo Deus poderá afundá-lo". No mundo dos mitos, uma declaração assim com certeza atrairá a ira dos deuses, que escutam com atenção e punem prontamente.

A mãe de Rose, Ruth DeWitt Bukater, é outra sombra, representando o lado sombrio da feminilidade, o potencial repressivo e sufocante da maternidade, uma rainha feiticeira e conspiradora como Medéia ou Clitemnestra.

Rose recebeu um tenebroso chamado à aventura, sendo manipulada para casar-se com um homem de quem não gosta. Quando Rose efetua a travessia do limiar do passadiço com sua mãe e Cal, trata-se de uma espécie de procissão real, mas Rose a interpreta como sendo uma marcha para a escravidão, e o Titanic é um navio que a leva para o cativeiro na América. Ela não recusa o chamado inteiramente, mas é certamente uma heroína relutante.

Então encontramos o segundo herói principal, Jack, que, com seu aliado, o jovem imigrante italiano Fabrizio, está apostando dinheiro num jogo, arriscando tudo em nome do destino ou da sorte. Um relógio marca as horas, estabelecendo um motivo, o tempo está se esgotando, salientando a brevidade e a preciosidade da vida. O mundo comum de Jack é o da deriva e aventura, confiando na sorte e em suas próprias habilidades e dons. O chamado à aventura vem, a certa altura, quando ele vence o jogo de cartas e ganha um par de passagens de terceira classe a bordo do Titanic. Ele não demonstra relutância ou medo até esse momento — não é o tipo de herói relutante. Contudo, a ironia é profunda, quando declara que ele e Fabrizio são "os filhos-da-mãe mais sortudos do mundo". Se soubesse o que lhe aguardava, teria tido razão para sentir medo.

Jack é uma figura ligeiramente sobre-humana que não parece possuir defeitos relevantes, mas enfrentará um problema interno tentando conquistar o amor da sua vida. Se ele tem alguma falha é a de ser um tanto convencido e arrogante demais, o que mais tarde irá lhe trazer problemas com Cal e

Lovejoy. Seu problema externo ou desafio é, inicialmente, ascender à sociedade e, em seguida, sobreviver ao desastre. É uma espécie de herói catalisador, já totalmente desenvolvido e que não muda muito, mas que investirá sua energia ajudando os outros a mudar. Ele é também o herói picaresco, servindo-se de artifícios e dissimulações para penetrar a defesa inimiga. No final, ele faz um extremo sacrifício heroico, dando a própria vida para salvar a da mulher que ama.

Juntos, Jack e Rose formam um par de opostos polares, macho e fêmea, pobre e rica, mas exprimem também as enormes forças opostas de Voo e Restrição. Jack representa a liberdade, a ausência de fronteiras, a recusa dos limites impostos pela sociedade, um ícaro ousando voar acima de sua capacidade. No começo, Rose está enfileirada, contra a própria vontade, com a força oposta da Restrição, presa às convenções da sociedade, à força do desejo controlador de sua mãe, à sua promessa de casar-se com Cal Hockley, o príncipe tenebroso da sociedade. É uma Perséfone sendo arrastada para o subterrâneo. Cal, como Plutão, o deus do subterrâneo que raptou Perséfone, é obcecado pelo dinheiro e é cruel e severo. Plutão era o deus da riqueza e um dos juizes dos mortos. O amante de Perséfone no subterrâneo era Adonis, um jovem extraordinariamente belo. Como Adonis, Jack chega até Rose em seu sombrio cárcere e faz com que ela se lembre das alegrias da vida.

O problema interno de Rose será livrar-se do seu mundo comum e se aliar à liberdade e à capacidade de voar que Jack representa. Seu problema externo será a pura sobrevivência, de modo a poder colocar em prática o que aprendeu numa vida longa e feliz.

O Titanic explora elaboradamente a função do mentor, com uma série de personagens vestindo a máscara em diferentes ocasiões. Além da Rose idosa, Molly Brown executa a tarefa de mentor, conduzindo Jack ao mundo especial da primeira classe, como uma fada-avó, fornecendo a ele um traje adequado a fim de que possa se passar por um cavalheiro.

O comandante Smith pode ser considerado um mentor durante toda a viagem, o líder e o rei daquele pequeno mundo. Mas trata-se de um rei fatalmente imperfeito, presunçoso e cheio de si, dotado de excessiva confiança ao efetuar a triunfante última viagem de sua carreira.

Jack veste a máscara do mentor para Rose, ensinando-lhe como aproveitar a vida e ser livre. Ele preenche a fantasia de muitas moças ao oferecer abertamente a dádiva do compromisso. Basta um olhar para ele saber que não pode abandoná-la, pois "agora estou envolvido". Mais tarde, quando o navio afunda, ele lhe dá o conhecimento vital de como sobreviver, mantendo-se fora da água o maior tempo possível e nadando para longe da sucção do navio imergente.

Um outro mentor para Rose é Thomas Andrews, o arquiteto do navio. Ela conquista seu respeito através das perguntas inteligentes que faz sobre o Titanic, e ele a recompensa dizendo-lhe como achar Jack, quando ele fica preso no convés inferior da embarcação. Neste ponto, ele age como Dédalus para a Ariadne de Rose. Dédalus era o arquiteto do labirinto mortal, e passou seus segredos para Ariadne de modo a permitir que salvasse seu amado, Teseu, que se aventurou no labirinto para combater o monstro que representava o lado sombrio da família dela.

A travessia do limiar no Titanic é celebrada numa sequência elaborada, descrevendo o navio zarpando. Este movimento chega ao clímax com Jack e Fabrizio na proa do navio, e Jack exultando: "/ am the king of the world!" ("Sou o rei do mundo!"). Jack e Rose têm outros Limiares a atravessar — cada um penetrando no mundo do outro e ambos tendo acesso ao Mundo Especial do amor e do perigo.

testes, aliados e inimigos se apresentam nos conflitos entre Jack e Rose e nas forças da Restrição. Jack e Rose se unem e se tornam aliados quando ela tenta se suicidar pulando do navio. Ele a resgata e consegue ser convidado para jantar com Rose e Cal na primeira classe. Ele ingressa no mundo especial com a ajuda de um mentor, na pele de Molly Brown, e é testado severamente no jantar pelos insultos de seus inimigos, Cal e a mãe de Rose. Ele passa no teste enfrentando o escárnio deles e declarando sua convicção, uma expressão do tema do filme: a vida é uma dádiva, aprender a levá-la como ela é faz com que cada dia seja importante. Jack conquista assim um maior respeito por parte de Rose e garante para si novos embates com Cal.

O teste de Rose ocorre um pouco depois, quando Jack, prometendo lhe mostrar uma "festa de verdade", a conduz ao mundo especial da terceira classe. Numa sequência de música vibrante, danças e bebedeira, Rose é iniciada no mundo de Dionísio, o deus da embriaguez, paixão e êxtase. Trata-se de um teste para seus padrões de moça da sociedade — ficará ela ofendida com aquela orgia mundana e ruidosa? Ela passa no teste superando os imigrantes, bebendo, fumando e dançando mais do que eles.

O estágio da aproximação fica expresso na tentativa romântica dos amantes de dançarem juntos, incluindo o momento lírico quando Jack leva Rose até a ponta dianteira do navio, fazendo com que ela se torne a figura de proa, ensinando-lhe como voar, como se equilibrar entre a vida e a morte. Se ele é o rei do mundo, agora ela é a rainha.

Rose efetua uma aproximação mais profunda ao pedir a Jack para desenhar seu retrato, expondo confiantemente seu corpo nu para ele. Este é um teste para Jack, que é aprovado, agindo como um cavalheiro e um artista profissional, desfrutando o momento erótico, porém, sem tirar vantagem de sua vulnerabilidade.

Os guardiões de limiar afluem à medida que os jovens se aproximam da Caverna Oculta e da elaborada provação de níveis múltiplos. Dezenas de comissários da White Star Line vigiam as portas, elevadores e passagens, e um bando deles, como uma matilha de cães de caça, é enviado por Cal à captura dos amantes. Jack e Rose, fugindo da Restrição, se encontram dentro do porão, onde enfrentam uma provação na esfera íntima. Eles entram na Caverna Oculta de um veículo e se entregam ao amor. Na "pequena morte" do orgasmo de Rose, sua mão escorrega pelo vidro da janela, assemelhando-se à de uma vítima de afogamento. Ao atravessar esse importante limiar, eles morrem para a vida antiga e renascem para uma nova.

A provação fatal do Titanic ocorre instantes depois, quando o navio atinge o iceberg, a força silenciosa e inexorável de Nêmesis, o espírito enviado pelos deuses para punir os orgulhosos mortais. A morte do navio e de centenas de passageiros ocupa o importante movimento seguinte do drama.

Jack e Rose colhem certa recompensa a partir de sua experiência de vida e morte. Estão unidos, apoiando um ao outro na luta pela sobrevivência. Isso é testado quando Rose tem a oportunidade de embarcar num barco salva-vidas. Pressentindo que Cal abandonará Jack à morte, Rose volta para o navio a fim de partilhar sua sina com Jack.

O caminho de volta é a luta pela sobrevivência, que inclui a clássica perseguição, quando Cal, impaciente com a demora do navio em concluir seu trabalho, tenta apressar a morte de Jack e Rose com balas. Os outros personagens enfrentam testes de vida e morte, uns preferindo morrer com honra, outros dispostos a viver a qualquer custo e alguns, como Lovejoy, morrendo apesar de seus ignóbeis esforços para sobreviver. O segundo ato termina com Jack e Rose agarrados na balaustrada da popa enquanto o navio afunda.

A ressurreição começa quando Jack e Rose lutam para preservar o calor da vida no mar gelado. Notando que o pedaço dos destroços do navio em que se agarram só pode suportar o peso de uma pessoa, Jack põe à frente a vida de Rose num clássico sacrifício do herói. Ele já viveu uma vida intensa e experimentou a perfeita felicidade com ela. Ela é quase uma debutante na liberdade e na vida e ele a encarrega de viver uma vida suficientemente rica e plena para ambos. Ele deixa a vida escapar, confiante na sua ressurreição dentro do coração e nas lembranças da sua amada.

A própria Rose chega à beira da morte, mas também é salva pela ressurreição, quando o único barco salva-vidas buscando sobreviventes aparece em meio a um mar de rostos mortos. Num teste final de tudo o que aprendeu com Jack, ela consegue reunir forças para nadar até o cadáver de um oficial e retirar o apito de seus lábios, alertando assim o barco de resgate. Desse modo, a senhora Rose conclui sua história, nos devolvendo às cenas do tempo atual e repertoriando as perdas do navio naufragado.

O submarino robô deixa o escombro do transatlântico em paz e silêncio. No navio de pesquisa, Lovett joga fora o charuto que havia guardado para comemorar o achado do diamante, um pequeno sacrifício. Ele admite à neta de Rose ter passado três anos pensando no Titanic, mas nunca conseguiu realmente entender sua mensagem. Ele havia sido transformado pela provação, e suas recompensas são seu encontro e afinidade com a neta de Rose. Haverá ali o lampejo de um romance, uma chance de viver plenamente o amor mutilado de Jack e Rose em outra geração? Ele não encontrou o tesouro físico que buscava, mas terá Lovett, como Jack, encontrado um tesouro muito maior no novo mundo emocional?

A senhora Rose se aproxima da amurada do navio de pesquisa, lembrando a cena de voo na proa com Jack. Ela chega mesmo a subir no anteparo do convés, como fizera muitos anos antes. No instante final de suspense, não sabemos quais são suas intenções — ela irá saltar, unindo-se a Jack no mar, como uma tardia Julieta reencontrando seu Romeu na morte? Em vez disso, ela mostra o diamante na mão e, num relance, vemos a jovem Rose o achando em seu bolso sob a Estátua da Liberdade, um elixir recompensando a sobrevivência. Com um breve choro de último clímax dramático, a senhora Rose o lança ao mar onde, como Jack, a joia afunda em espiral dentro do mistério, um derradeiro sacrifício demonstrando que sua experiência e lembranças são mais importantes do que qualquer bem material. É este o elixir, a mensagem benéfica que o filme pretende transmitir aos espectadores.

A imagem então se dissolve e vemos a senhora Rose adormecendo, cercada por fotografias de sua vida longa e plena. Neste ponto, após a provação final encontramos a recompensa final, a realização das profecias de Jack — Rose é uma aventureira: pilotou aviões, foi atriz, cavalgou nas praias da Califórnia, teve filhos, viveu a vida pelos dois; parte do elixir que trouxe consigo. As feridas sombrias da sua história familiar foram cicatrizadas.

Rose sonha e, naquele mundo especial, o Titanic e seus passageiros vivem novamente, uma ressurreição através do poder do inconsciente. Pelos olhos de Rose, passamos mais uma vez pelos guardiões de limiar do navio da White Star Line, penetrando no paraíso da primeira classe, onde todas as pessoas boas vivem eternamente. (Os vilões estão nitidamente ausentes, sem dúvida apodrecendo num inferno frio e úmido.) Jack está no lugar de antes, ao lado do relógio, um ser sobrenatural derrotando o tempo. Ele estende sua mão e ambos se tocam novamente, se beijam, e a tripulação do navio aplaude aquele último casamento sagrado. A câmera focaliza a cúpula do teto, a abóbada celestial, e sua pureza branca invade a tela. Rose conseguiu seu elixir.

 

O fim

O Titanic não é certamente um filme perfeito e poderia se encher um barco com os críticos que apontaram seus defeitos — uma certa rudeza no roteiro: uma tendência a terminar as cenas com expressões cruas e óbvias como "Shit!" (Droga!), "Oh, shit!" (Que droga!) e "I’ll be God damned!" (Que os diabos me carreguem!). Por instantes, no início, o filme parece apresentar a Síndrome de Tourette. Há uma impressão de favorecimento à audiência moderna numa tentativa exagerada de tornar a história "oportuna" com diálogos contemporâneos e estilos de representação cênica; e existe uma qualidade unidimensional em alguns personagens, particularmente nos vilões sarcásticos e desprovidos de nuances.

Embora bem interpretado por Billy Zane, Cal é um dos papéis mais fracos do roteiro, e teria sido um rival mais eficaz se fosse mais sedutor, um melhor partido para Rose, um concorrente real para Jack, e não aquele monstro explícito. Assim haveria uma verdadeira disputa e não uma competição injusta entre o jovem mais atraente do mundo e um cara grosseiro e malicioso com uma bolsa de dinheiro numa das mãos e uma arma na outra.

A cena de perseguição na qual Cal atira em Jack e Rose, enquanto o Titanic naufraga, surpreendeu algumas pessoas, por ser desnecessária e absurdamente dramática, provocando um afastamento dos espectadores. Talvez atenda ao propósito da história — Cameron pode ter sentido que seus heróis precisavam enfrentar mais um desafio a bordo do Titanic e utilizou Cal para isso —, mas um outro artifício, tal como a necessidade de voltar para salvar alguém, teria alcançado o mesmo efeito.

Talvez este novo desafio não fosse sequer necessário. O filme se beneficiaria com o corte e essa sequência de tensão parece repetitiva após eles já terem enfrentado tantos obstáculos. Toda a sequência parece ser estruturada para alcançar um clímax na tomada em que Jack e Rose fogem de um muro de água — um retrato icônico de sua luta com as forças da morte. Todavia, essa tomada é uma das ilusões menos eficazes do filme, pois as expressões dos atores estão fixadas com repugnância sobre os corpos dos figurantes através de alguma mágica eletrônica que carece de aperfeiçoamento. A sequência inteira poderia ter sido cortada ou editada — já existe suficiente tensão.

No entanto, não estamos aqui para enterrar César, mas para analisá-lo — como Cameron obteve sucesso, o que consegue superar as falhas na sua produção?

 

Uma história formidável

Em primeiro lugar, a sina do Titanic e de seus passageiros é, por si só, uma grande história épica e tem provocado fascínio desde o dia em que o navio afundou. Uma dramatização do desastre do Titanic, que só foi descoberta recentemente, produzida por uma companhia alemã, foi realizada semanas após a tragédia. Foi apenas o primeiro de vários documentários e longas-metragens, sem mencionar os incontáveis livros e artigos escritos sobre o desastre. Como a trágica história de conto de fadas da princesa Diana, os eventos envolvendo o naufrágio do Titanic se encaixam nos padrões dramáticos que se conciliam com imagens profundamente arquetípicas, compartilhadas e entendidas por todos.

 

Simbolismo do "Titanic"

Desde seu nome arcaico e arquetípico, o Titanic está carregado de simbolismo e significados. O nome do navio é uma escolha que revela muito sobre a psicologia de seus construtores. No filme, Rose pergunta a Bruce Ismay, o homem de negócios por trás do projeto do Titanic, porque escolheu esse nome. Ele responde que desejava um nome que invocasse algo magnânimo, levando Rose a comentar as notas de Freud sobre a preocupação do macho com a dimensão das coisas.

Entretanto, o filme não aborda as origens mitológicas da palavra "titânico", que, sem dúvida, eram conhecidas pelos cavalheiros ingleses de formação clássica que decidiram por este nome. O termo se refere aos imensos Titãs, os gigantes ancestrais, inimigos mortais dos deuses. Os Titãs representam uma força fundamental desde o início dos tempos — gananciosos, rudes e desumanos — e os deuses tiveram de travar uma grande batalha para derrotá-los e aprisioná-los sob a terra, antes que arruinassem e saqueassem tudo. Quando a imprensa da época chamou os passageiros da primeira classe, como Astor e Guggenheim, de "Titãs da indústria e do capital", estava sugerindo algo além do tamanho gigantesco de seus impérios.

Poucos anos antes de o Titanic ser construído, arqueólogos alemães escavaram um templo helenístico chamado Altar de Pergamon, que descrevia em relevos dramáticos a batalha entre os deuses e os Titãs. O monumento é praticamente um esboço de sequências (storyboard) feito em pedra para o que viria a ser um grande filme cheio de efeitos especiais. Os construtores do Titanic, que provavelmente haviam visto fotografias dessas imagens, resolveram se identificar, assim como seus clientes, não com os deuses, mas com seus antigos inimigos, os Titãs. Eles estavam de fato desafiando os deuses ao fazerem tal escolha. Muitas pessoas acharam, mesmo antes de o navio fazer-se ao mar, que os construtores estavam provocando o destino ao batizar o navio com um nome tão imponente. Mais grave ainda era declarar que ele nunca afundaria. Aquilo era uma estúpida blasfêmia, um desafio à força de Deus todo-poderoso. Uma aura de superstição envolvia o Titanic, algo como a maldição do túmulo do rei Tut, uma crença generalizada de que os construtores estavam invocando a cólera de Deus com sua arrogância e orgulho.

A história do Titanic tem afinidade estreita com um antigo conceito literário, A Nau dos Insensatos. Os contadores de histórias criaram essa forma satírica na época da primeira viagem de Colombo ao Novo Mundo. Uma de suas primeiras expressões encontra-se no poema expositivo de Sebastian Brant, "Das Narrenschiff", impresso apenas dois anos após a bem-sucedida travessia do Atlântico pelo navegador. O texto narra a história de um navio rumando para Narragonia, a terra dos insensatos, e descreve severamente as loucuras daquela época. O poema foi amplamente traduzido e adaptado em livros e peças teatrais.

A Nau dos Insensatos é uma alegoria, uma história na qual todas as condições de vida e todos os níveis da sociedade são satirizados brutalmente na representação de um bando de patéticos passageiros embarcados. É um conto sarcástico, narrando de maneira crua os defeitos das pessoas e do sistema social da época.

O Titanic também opta por uma abrangente crítica social, retratando os ricos e os poderosos como monstros insensatos, e os pobres como suas nobres vítimas desamparadas. As exceções são Jack, que é pobre, porém, não desampara-

do, e Molly Brown, que é rica, porém não monstruosa. Ela é a americana do tipo nouveau riche que ascendeu do mesmo nível de Jack e que representa talvez o lado saudável da experiência imigrante americana — ambiciosa, subindo na escala social, mas também dona de um bom coração, igualitária, generosa e justa. O filme Titanic é mais esperançoso e menos cínico do que A Nau dos Insensatos, sugerindo que alguns podem transcender sua insensatez e viver uma vida plena e expressiva.

A ironia em A Nau dos Insensatos deriva do ponto de vista e do conhecimento por parte da audiência de que as lutas travadas pelos passageiros são sem sentido e néscias, pois estão todos encurralados e condenados de qualquer maneira. No Titanic há um pouco desse traço irônico, quando Jack e Fabrizio ficam exultantes com sua sorte ao ganharem as passagens num navio que, nós sabemos, irá afundar. A ironia está presente numa história sobre um navio que, estamos cientes, está fadado à destruição.

A ideia de A Nau dos Insensatos pode ser resumida pela conhecida expressão: "Estamos todos no mesmo barco". Ela demonstra que, apesar de nossa tola atenção para as diferenças superficiais de origem, riqueza e status, estamos todos cercados pelos elementos absolutos da vida, todos igualmente sendo submetidos pelas forças inevitáveis da gravidade, destino, morte e impostos.

Um navio isolado no oceano efetuando uma longa viagem se torna um símbolo conveniente da condição humana, da passagem solitária da alma pela vida. 0 isolamento do Titanic no Atlântico Norte o transforma num pequeno mundo, num microcosmo, num modelo quase perfeito da sociedade de seu tempo, no qual os dois mil passageiros a bordo representam os milhões de viventes daquela época.

Como o próprio navio, a escala desta história é épica, maior do que a vida, grande o bastante para contar a história de toda uma cultura, neste caso a de todo o mundo ocidental naquele período. Esta vasta história se faz compreensível e digerível ao selecionar as vidas e mortes de um grupo que representa as qualidades e polaridades presentes até certo ponto em todos os membros da cultura.

Como seus predecessores épicos, a Ilíada, a Odisseia, a Eneida, os romances de rei Arthur, ou o Ciclo do Anel, de Wagner, Titanic conta parte de uma imensa história, uma ponte entres dois mundos. O Velho e o Novo Mundo. Dentro dessa história de dimensões imensas existem centenas de historietas e ciclos épicos, cada qual com sua própria estrutura e integridade dramáticas. Nenhuma obra por si só será capaz de contar todas as ramificações, mas a história individual pode comunicar o sentido, os fatos dramáticos de toda a situação. O Titanic foi criticado por não dramatizar esta ou aquela historieta, tais como a chegada do Carpathia no local do naufrágio, as histórias dos Astor e dos Guggenheim, as dificuldades do telegrafista para transmitir o sinal de socorro etc. Mas nenhum filme poderia contar todas essas histórias secundárias. Os futuros contadores de histórias poderão escolher outros incidentes e personalidades a destacar. Seria necessária uma produção coletiva de vários artistas para contar integralmente a história do Titanic, assim como necessitou-se de Homero, Sófocles, Eurípides, Strauss, Kazantzakis, Hallmark Productions, Classic Comics e milhares de outros artistas para contar inteiramente a história épica da Odisseia, ela própria sendo apenas uma entre dezenas de ciclos épicos na história completa da Guerra de Troia.

Como história sobre uma rápida travessia pelo Atlântico, Titanic simboliza a preocupação de seu século com as viagens velozes e a crescente conscientização global. O filme fala de séculos de cultura europeia se transferindo para a América, vagas de imigrantes desaguando sobre o continente americano, atraídos pela sedutora promessa de liberdade. No filme, a Estátua da Liberdade é um símbolo recorrente do sonho dos imigrantes, um farol acolhendo os recém-chegados. Sem saber-se condenado, o pobre Fabrizio afirma conseguir enxergar a estátua quando ainda está em Cherbourg.

A Estátua da Liberdade, um presente do povo francês ao povo da América, é um exemplo colossal da antiga prática de enviar estátuas de deuses e deusas de uma cidade da metrópole para suas colônias, a fim de conectá-las por meio de laços físicos e vínculos religiosos. A França e os Estados Unidos viveram revoluções na mesma época e estão ligados pela devoção à liberdade, um entre os vários elos culturais entre o Novo e o Velho Mundo.

O contexto em que o filme Titanic foi lançado deve ser levado em conta na avaliação de seu sucesso. 0 lançamento veio numa época em que estávamos nos tornando mais cientes de uma sociedade global e dos laços entre Europa e América. Conflitos como a Guerra do Golfo, a queda do muro de Berlim e o colapso do comunismo na Rússia uniram-se às imprevisíveis mudanças do clima em todo o mundo para criar um tempo de incertezas, deixando fragilizada a nave da vida. Faltavam dois anos para o fim do século e estávamos dispostos a olhar para trás, para o começo.

O terreno ficou pronto para o novo filme sobre o Titanic quando, alguns anos antes, foi descoberto o local onde se encontravam os destroços do navio, no fundo do mar. O achado do Titanic representou um importante triunfo da ciência e um momento psicologicamente poderoso. Durante séculos, era impossível encontrar navios naufragados em tal profundidade. O fato de o Titanic ter permanecido sepultado no mar por tanto tempo e então ser redescoberto produz uma forte simbologia de nossa capacidade surpreendente de resgatar lembranças do subconsciente. É algo divino poder ir ao fundo do oceano e ver o Titanic, e trata-se de uma verdadeira Jornada do Herói recuperar um tesouro perdido no subconsciente.

A descoberta gerou a ilusão de se poder içar o Titanic, como acontece no romance de Clive Cussler, Raise the Titanic, mas logo a fantasia se transformou numa possibilidade real. Os especialistas concordam que é possível içar pedaços do navio, e vários artefatos foram resgatados, mas por ora, o consenso indica que é melhor deixar os escombros onde estão. O drama espetacular de ver pela TV, ao vivo, os destroços do navio com seus vestígios humanos ajudou a criar o ambiente apropriado para relançar outro filme sobre o Titanic.

Foi de grande auxílio a inclusão de uma história de jovens apaixonados para intensificar o sucesso do filme. Uma espécie de artifício dramático de Romeu e Julieta, ou seja, uma história fácil de se contar sobre dois jovens de facções rivais que se apaixonam.

Cameron escolheu uma atmosfera romântica para apresentar a história do Titanic, e ao fazer tal escolha, tornou a trama convidativa para o sexo feminino. Poderia ter escolhido outros gêneros, contando a história do Titanic como um mistério, ou um enredo policial, uma caça ao tesouro, ou mesmo uma comédia. Por vezes, ele é tudo isso, mas o tema primordial e o princípio do projeto é o de um amor romântico, a estrutura é a mesma de uma história de amor. A partir desta escolha, o filme ganha uma fórmula definida com elevado grau de identificação para o público — um relacionamento triangular no qual uma mulher precisa ser salva da dominação de um homem mais velho e cruel através da intervenção de um libertador mais jovem.

Esse relacionamento de forma triangular é um padrão conhecido nos romances que narram histórias de amor e também na esfera do film noire da ficção policial. Ele oferece os três estágios importantes para criar conflito, ciúme, rivalidade, traição, revanche e resgate, assim como fazem as histórias de Guinevere e Lancelot, do rei Arthur, as ficções românticas em que a heroína tem de escolher entre dois homens, ou nos films noirs em que a moça precisa se decidir entre o chefão, o jovem vagabundo ou o detetive.

Continuar: parte 2 de 3