A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 8 de 26

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A Metade Sombria

Ela soube que algo não estava bem…

Doze

MANA

Ela soube que algo não estava bem quando enfiou a chave na grande fechadura Kreig da porta do apartamento e, em vez de deslizar na ranhura com a série de estalidos familiares e reconfortantes, a porta abriu-se de imediato.

Não houve tempo algum para pensar quão estupida fora, indo trabalhar e deixando a porta do apartamento destrancada atr s de si, pelo amor de Deus, Miriam, j agora porque não pendurar uma nota na porta dizendo "OL†, LADR™ES, TENHO ALGUM DINHEIRO A MAIS DENTRO DO WOKI NA PRATELEIRA DE CIMA DA COZINHA"?

Não houve tempo algum porque, depois de se viver durante seis meses em Nova Iorque, talvez até quatro, ninguém se esquece de tal coisa. Quando se vive no campo, e talvez só se tranque a porta uma vez por ano quando se vai para fora, em férias; quando se vive numa cidadezinha como Fargo, em Dakota do Norte ou Ames, no Iowa, talvez uma pessoa se esqueça de vez em quando de trancar a porta quando vai trabalhar; contudo, depois de se estar h j algum tempo na velha Big Apple carunchosa, tranca-se a porta mesmo quando só se vai levar uma ch vena de aç£car a um vizinho no fundo do corredor. Esquecer a porta destrancada seria como expirar uma lufada de ar e esquecer de inspirar outra vez de seguida. A cidade estava repleta de museus e galerias, mas a cidade estava também repleta de drogados e psicopatas, e não se corriam quaisquer riscos. A não ser que se nascesse est£pido, e Miriam não nascera assim.

Um pouco tonta, talvez, mas não est£pida.

Assim, ela soube que algo não estava bem e, apesar de ter a certeza que os ladrões que haviam assaltado o apartamento j se tinham provavelmente ido embora h três ou quatro horas atr s, levando tudo aquilo que parecesse poder ser posto no prego (j para não falar nos oitenta ou noventa dólares do wok... e talvez o próprio wok, agora que se lembrava dele; afinal de contas, ser que não se tratava de um wok passível de ser penhorado?), eles podiam ainda l estar. é uma suposição que se faz de uma forma ou de outra, tal como os rapazes que recebem as primeiras pistolas verdadeiras são ensinados, antes de mais nada, a suporem que a pistola est sempre carregada e que, até mesmo quando é retirada da caixa na qual vem da f brica, a arma pode estar carregada.

Miriam começou a afastar-se da porta. Fê-lo de uma forma praticamente imediata, antes mesmo de a porta ter parado de se abrir ligeiramente para dentro, mas j era tarde de mais. Uma mão surgiu vinda da escuridão, disparada como uma bala por entre o intervalo de seis centímetros entre a porta e a ombreira, agarrando-lhe a mão. As chaves caíram na passadeira do corredor.

Miriam Cowley abriu a boca para gritar. O homem louro e grande mantivera-se mesmo por detr s da porta, pacientemente … espera h j quatro horas, sem beber um café ou fumar um cigarro. Queria um cigarro, e fumaria um mal tudo isto estivesse acabado, mas antes disso, o cheiro talvez a pudesse ter alertado: os nova-iorquinos são como os animais extremamente pequenos aninhados na vegetação rasteira, sempre com os sentidos alerta, … coca do perigo, mesmo quando pensam que estão a passar um bom bocado.

Antes de ter tempo sequer para pensar, ele j tinha a sua mão direita sobre o pulso direito de Miriam. De seguida, p“s a palma da mão esquerda contra a porta de forma a exercer pressão e, com um sacão, empregando toda a força que tinha, puxou a mulher para a frente. A porta parecia ser de madeira, mas, est claro, era de metal, tal como são as portas de todos os apartamentos bons na velha Big Apple carunchosa. Com uma pancada surda, a face do rosto de Miriam bateu na superfície da porta. Dois dos seus dentes partiram-se rente … gengiva e cortaram-lhe a boca. Os l bios, que se tinham comprimido um contra o outro, afrouxaram de rigidez com o choque e sangue derramou sobre o de baixo. Borrifos de sangue salpicaram a porta.

O maxilar estalou como um galho.

Miriam cambaleou, semiconsciente. O homem louro largou-lhe a mão. Miriam desmaiou na passadeira do corredor.

Ele tinha de ser muito r pido. Segundo o folclore nova-iorquino, todas as pessoas na velha Big Apple carunchosa estavam-se nas tintas para o que acontecia ou deixava de acontecer, desde que não fosse Com elas. Segundo esse mesmo folclore, um psicopata podia apunhalar uma mulher vinte ou quarenta vezes no passeio diante de um barbeiro com vinte cadeiras em plena luz do dia, na Sétima Avenida, que ninguém diria nada, excepto, talvez, "Ser que me pode aparar um pouco mais por cima das orelhas" ou "Joe, acho que, desta vez, prescindo da gua-de-colónia". O homem louro sabia que o folclore era falso. Para os animais pequenos e acossados, a curiosidade faz parte do pacote de sobrevivência. Proteje a tua pele, sim, era esse o nome do jogo, mas um animal negligente estava propenso a ser um animal morto muito em breve. Consequentemente, a rapidez era vital.

Ele abriu a porta, agarrou em Miriam pelos cabelos, e arrastou-a para dentro.

Praticamente menos de um segundo depois, ouviu o ruído seco de uma tranca a ser aberta no fundo do corredor, seguido pelo estalido de uma porta a abrir-se. Ele não precisava de olhar l para fora para ver o rosto que, neste momento, estaria a espreitar de um outro apartamento, um focinho de coelho sem pêlo, com o nariz quase a contorcer-se.

- Não a partiste, pois não, Miriam? - perguntou ele em voz alta. Mudou para um registo mais elevado, não exactamente em tom de falsete, colocando as mãos em forma de concha a cerca de dois dedos da boca para criar um som abafado, e transformou-se numa mulher.

- Não me parece. Ser que me podes ajudar a apanhar? - Retirou as mãos, voltando ao tom normal da sua voz. - Claro.

Só um segundo.

Fechou a porta e olhou para fora através do buraquinho.

Tratava-se de uma lente de 180 graus, que proporcionava uma visão distorcida, ampla e angulosa do corredor.

Aqui, viu exactamente aquilo que esperava ver: um rosto branco a espreitar de uma porta do outro lado do corredor, a espreitar como um coelho que olha para fora da sua toca.

O rosto desapareceu.

A porta fechou-se.

A porta não bateu; simplesmente fechou-se. A tonta da Miriam deixara cair uma coisa qualquer. O homem que se encontrava com ela - talvez um namorado, talvez o ex-marido - estava a ajud -la a apanhar essa coisa. Nada de muito preocupante. Tudo na santa paz do Senhor.

Miriam estava a gemer, começando a vir a si.

O homem louro enfiou a mão no bolso, tirou a navalha, e abriu-a com uma sacudidela. A lamina cintilou na luminosidade esbatida da £nica luz que ele deixara acesa, um candeeiro de mesa na sala de estar.

Miriam abriu os olhos. Olhou para o homem, fitando o rosto dele de cabeça para baixo enquanto ele se debruçava sobre ela. A sua boca estava manchada de vermelho, como se Miriam estivesse estado a comer morangos.

Ele mostrou-lhe a navalha. Os olhos de Miriam, até então aturdidos e turvos, tornaram-se alertas e grandes. A boca vermelha e h£mida abriu-se.

- Faz um £nico som e corto-te, mana - disse ele, e a boca dela fechou-se.

Ele agarrou de novo nos seus cabelos e arrastou-a para a sala de estar. A saia dela roçagava no chão de madeira polido, tendo o traseiro ficado preso num prego do tapete, que foi levado sobre ela. Miriam gemeu com dores.

- Não faças isso - ordenou ele. - J te disse.

Encontravam-se agora na sala de estar, pequena mas agrad vel. Acolhedora. Cópias de quadros de impressionistas franceses nas paredes. Um poster publicit rio emoldurado que dizia "Cats: AGORA E SEMPRE". Flores secas.

Um pequeno sof dividido, acolchoado num tecido qualquer de cor semelhante a uma espiga de milho. Uma estante para livros.

Na estante, ele conseguiu discernir os dois livros de Beaumont numa prateleira e todos os quatro livros de Stark numa outra. Os de Beaumont estavam na prateleira mais alta. Isso não estava certo, mas ele tinha de partir do princípio de que esta cabra pura e simplesmente não conhecia nada de melhor.

Largou-lhe os cabelos.

- Senta-te no sof , mana. Naquela ponta. - Ele apontou para a ponta do sof ao lado da mesinha onde se encontravam instalados o telefone e o atendedor de chamadas.

- Por favor - sussurrou ela, não fazendo qualquer menção de se levantar. Neste momento, a boca e a face estavam a começar a inchar, e a palavra saiu como se fosse:

"Por favor". - Qualquer coisa. Tudo. O dinheiro est no wok. - "O dinheiro 'st no wok."

- Senta-te no sof . Naquela ponta. - Desta vez, com uma mão, encostou-lhe a navalha ao rosto enquanto com a outra apontava para o sof .

Miriam trepou para o sof e aninhou-se o mais possível no meio das almofadas, com os olhos negros muito arregalados.

Com a mão, limpou a boca e, por um instante, antes de o fitar de novo, olhou de modo incrédulo para o sangue na palma.

- Que é que quer? - "Qué que quér?" Era como ouvir alguém falar com a boca cheia de comida.

- Quero que faças uma chamada, mana. Só isso.

Pegou no telefone e, utilizando a mão que segurava a navalha, bastante comprida, carregou no botão ANNOUNCE no atendedor de chamadas do telefone. De seguida, entregou-lhe o auscultador. Tratava-se de um daqueles telefones antigos que assentam num ƒncinho, assemelhando-se a um haltere ligeiramente derretido. Muito mais pesado do que o auscultador de um telefone marca Princess. Ele estava ciente disso e, através do ténue aperto do seu corpo quando o entregou, apercebeu-se de que ela também o estava. Um ligeiro sorriso aflorou os l bios do homem louro. Não foi visível em mais lado nenhum; apenas nos l bios.

Não havia nada de poético naquele sorriso.

- Est s a pensar que me podes rebentar os miolos com essa coisa, não est s, mana? - perguntou ele. - Pois deixa-me que te diga uma coisa: esse não é um pensamento feliz. E sabes o que acontece …s pessoas que perdem os pensamentos felizes, não sabes? - Como Miriam não respondeu, ele prosseguiu: - Caem do céu. é verdade. Vi uma vez num desenho animado. Por isso, mantém o auscultador do telefone no colo e concentra-te em trazer de volta os teus pensamentos felizes.

Ela fitou-o, só olhos. Um fio de sangue escorria-lhe lentamente pelo queixo abaixo. Uma gota soltou-se, indo aterrar no corpete do vestido. "Nunca vais conseguir limpar isso, mana", pensou o homem louro. "Dizem que a mancha só sai se for rapidamente enxaguada com gua fria, mas não é verdade. Eles têm m quinas. Espectroscópios.

Cromatógrafos a g s. Raios ultravioletas. Lady Macbeth tinha razão."

- Se esse pensamento mau voltar, eu consigo vê-lo nos teus olhos, mana. São uns olhos tão grandes e tão escuros.

Não gostarias que um desses olhos grandes e escuros caísse pela cara abaixo, pois não?

Ela abanou a cabeça com tamanha rapidez e força que os cabelos voaram numa tempestade em redor do rosto.

E durante todo o tempo em que abanava a cabeça, aqueles lindos olhos escuros nunca deixaram de fitar o rosto dele, tendo o homem louro sentido um formigueiro na perna.

Mas caro senhor, ser que tem uma régua desdobr vel no bolso ou est apenas contente por me ver?

Desta vez, o sorriso era visível tanto nos olhos como na boca, e ele pensou que ela se descontraíra um bocadinho de nada.

- Quero que te aproximes e marques o n£mero de telefone de Thad Beaumont.

Ela limitou-se a fix -lo, com os olhos reluzentes e brilhantes com o choque.

- Beaumont - disse ele, pacientemente. - O escritor.

v l , mana. O tempo voa continuamente como os pés alados de Mercurio.

- A minha agenda - disse ela. Agora, a boca dela estava demasiado inchada para conseguir fech -la sem Lhe doer, e tornava-se cada vez mais difícil compreendê-la.

"Mia hazenda", foi aquilo a que soou.

- "Mia hazenda"? - inquiriu ele. - Tem alguma coisa a ver com uma fazenda? Não sei de que é que est s a falar.

Dize alguma coisa que faça sentido, maninha.

Cuidadosa e dolorosamente, Miriam pronunciou:

- A minha agenda. Agenda. A minha agenda dos telefones.

Não me recordo do n£mero.

A navalha voou pelo ar em direcção a ela. Pareceu fazer um ruído semelhante a um sussurro humano. Provavelmente era apenas imaginação, mas, no entanto, ambos o ouviram. Miriam encolheu-se para tr s, aninhando-se ainda mais nas almofadas cor de trigo, com os l bios inchados repuxados num esgar. Ele virou a navalha de forma a que a lamina apanhasse a luz baixa do candeeiro de mesa. Inclinou-a, deixou a luz correr sobre ela como gua e, de seguida, olhou para Miriam como se fossem os dois loucos caso não admirassem uma coisa tão bonita.

- Não me irrites, mana. - Agora, podia detectar-se nas suas palavras uma ligeira pron£ncia do sul. - Nunca queiras fazer isso, não quando est s a lidar com um tipo como eu. Agora, marca a porra desse n£mero. - Embora ela pudesse não ter o n£mero de Beaumont na memória, pois os negócios com este £ltimo não eram assim tantos quanto isso, ela tinha o de Stark. No mundo dos livros, era Stark quem interessava e, por mero acaso, o n£mero de telefone era o mesmo para os dois homens.

Os seus olhos começaram a verter l grimas.

- Não me recordo - gemeu ela. "Não me recordo."

O homem louro aprontou-se para a golpear - não porque estivesse zangado com ela mas porque quando se deixa uma senhora como esta escapar com uma mentira, outras se seguirão - e, depois, reconsiderou. Era perfeitamente possível, concluiu, que ela tivesse perdido o controlo, temporariamente, e esquecido coisas mundanas como n£meros de telefone, mesmo aqueles de clientes importantes como Beaumont/Stark. Ela estava em estado de choque: se Lhe tivesse pedido para marcar o n£mero da própria empresa, era igualmente muito prov vel que não se lembrasse.

Contudo, dado que estavam a falar de Thad Beaumont e não de Rick Cowley, ele podia ajudar.

- Muito bem - retorquiu. - Muito bem, mana. Est s perturbada. Eu compreendo. Não sei se acreditas ou não nisto, mas eu até tenho pena de ti. E est s com sorte porque acontece que eu próprio sei o n£mero. Sei-o tão bem quanto sei o meu, se é que assim se pode dizer. E sabes que mais? Nem sequer te vou obrigar a marcar o n£mero, em parte porque não quero ficar aqui sentado até ao dia de São Nunca … Tarde, … espera que acertes, mas também porque tenho realmente pena de ti. Vou aproximar-me e marcar eu próprio o n£mero. Sabes o que é que isso quer dizer?

Miriam Cowley abanou a cabeça. Os olhos escuros pareciam ter engolido a maior parte do rosto.

- Quer dizer que vou confiar em ti. Mas só até aqui; só até aqui e nem mais um bocadinho, velhota. Est s a ouvir?

Est s a perceber tudo?

Miriam acenou a cabeça freneticamente, com os cabelos a voarem. Meu Deus, como ele adorava uma mulher com uma cabeleira farta!

- óptimo. Isso é óptimo. Enquanto eu marcar o n£mero, mana, vais ver, querer s manter os olhos fixos nesta lƒmina:

ajudar-te- a manter os pensamentos felizes em bom estado.

Ele inclinou-se e começou a marcar o n£mero no antiquado marcador rotativo. Ao fazê-lo, sons ampliados de estalidos sobrevinham do gravador de mensagens ao lado do telefone. Assemelhava-se a uma roda da sorte carnavalesca a abrandar de velocidade. Miriam Cowley sentou-se com o auscultador do telefone no colo, olhando alternadamente para a navalha e para as feições lisas e grosseiras do rosto deste estranho horrível.

- Fala com ele - ordenou o homem louro. - Se for a mulher a atender, diz-lhe que é a Miriam de Nova Iorque e que queres falar com o marido dela. Sei que a tua boca est inchada, mas faz saber a quem quer que atenda que és tu.

Fala por mim, mana. Se não queres acabar com a cara parecida com um retrato de Picasso, fala por mim e bem. - A £ltima palavra soou a "Been".

- O que é... o que é que eu digo?

O homem louro sorriu. Ela era uma obra de arte não havia d£vida. Extremamente apetitosa. Todo aquele cabelo. Mais formigueiros na zona do baixo-ventre. Estava tudo a ficar muito animado por ali.

O telefone estava a tocar. Tanto ele como ela podiam ouvir através do atendedor de chamadas.

- Na altura, vais-te lembrar da coisa certa, mana.

Ouviu-se um estalido quando o telefone foi atendido do outro lado. O homem louro esperou até ouvir a voz de Beaumont e, de seguida, com a rapidez de uma cobra a atacar, inclinou-se para a frente e correu a navalha ao longo da face esquerda de Miriam Cowley, retalhando e deixando descaída uma aba de pele. Uma grande quantidade de sangue jorrou para fora. Miriam soltou um grito agudo.

- Alo! - ladrou a voz de Beaumont. - Al“, quem est aí?

Raios te partam, és tu?

"Sim, é claro que sou eu, filho da mãe", pensou o homem louro. "Sou eu e tu sabes que sou eu, não sabes?"

- Diz-lhe quem tu és e o que se est a passar aqui! - gritou ele para Miriam. - F -lo! Não me obrigues a ter de te repetir!

- Quem est aí? - gritou Beaumont. - Que é que se est a passar? Quem é que est a falar?

Miriam soltou um novo grito. Sangue salpicou as almofadas do sof cor de trigo. Agora, não se via apenas uma gota de sangue no corpete do vestido; este estava ensopado de sangue.

- Faz o que te digo ou ainda te corto a porra da cabeça com esta coisa!

- Thad, est um homem aqui! - gritou ela para dentro do telefone. Na sua dor e agonia, ela estava a exprimir-se de novo com clareza. - Est um homem mau aqui! Thad, EST UM HOMEM MAU A...

- DIZ O TEU NOME - berrou ele para ela, cortando o ar com a navalha a um dedo de distƒncia dos seus olhos. Miriam encolheu-se para tr s, chorando.

- Quem est a falar? Ou...

- MIRIAM! - respondeu ela num grito. - OH, THAD, NãO DEIXES QUE ELE ME CORTE DE NOVO, NãO...

George Stark passou a navalha através do fio do telefone retorcido. O atendedor de chamadas lançou um latido zangado de est tica e ficou silencioso.

Fora bom. Podia ter sido melhor; ele tivera vontade de saltar para cima dela, ele tivera realmente vontade de se satisfazer com ela. H j muito tempo que não se sentia com vontade de se satisfazer com uma mulher. No entanto, apesar de se sentir assim desta vez, não iria atirar-se a ela. Tinha havido gritos a mais. Os coelhos iriam começar de novo a deitar o focinho para fora das tocas, farejando o ar … procura do grande predador que estava a cirandar algures pela selva, mesmo por detr s da luminosidade emanada pelas miser veis lampadazinhas eléctricas de acampamento.

Ela não parara de gritar.

Era óbvio que perdera todos os pensamentos felizes.

Assim, Stark agarrou de novo nos cabelos dela, puxou a cabeça para tr s até Miriam ficar a olhar para o tecto, a gritar para o tecto, e cortou-lhe a garganta.

A sala ficou silenciosa.

- J est , mana - disse ele ternamente. Dobrou a lƒmina para dentro do cabo e enfiou-a no bolso. De seguida, esticou a mão esquerda manchada de sangue e fechou os olhos de Miriam. A manga da camisa ficou imediatamente ensopada de sangue quente porque a jugular dela ainda batia, mas, como se costuma dizer, o que tem de ser tem muita força.

Quando se tratava de uma mulher, fechavam-se os olhos. Não importava até que ponto ela fora m , não importava se era uma prostituta drogada que vendera os próprios filhos para comprar droga; de qualquer modo, fechavam-se sempre os olhos.

E ela era apenas uma pequena parte de tudo aquilo.

Rick Cowley era uma história diferente.

E o homem que escrevera o artigo da revista.

E a cabra que tirara as fotografias, especialmente aquela com a l pide. Uma cabra, sim, uma verdadeira cabra, mas também a ela ele fecharia os olhos.

E quando tivesse tratado da sa£de de todos eles, estaria na altura de falar com o próprio Thad. Sem intermedi rios;

mano a mano! Altura de fazer Thad ver a razão. Depois de ter despachado todos eles, ele esperava sinceramente que Thad estivesse disposto a ver a razão. Caso não estivesse, havia formas de lev -lo a ver a razão.

Afinal de contas, ele era um homem com uma mulher - uma mulher muito bonita, uma verdadeira rainha do ar e das trevas.

E tinha filhos.

Embebeu o dedo indicador no esguicho quente do sangue de Miriam e, rapidamente, começou a escrever na parede. Apesar de ter tido de voltar atr s duas vezes para.

conseguir sangue suficiente para escrever, a mensagem ficou pronta em três tempos, escrita por cima da cabeça pendida da mulher. Se os olhos dela estivessem abertos, Miriam conseguiria ler a mensagem de pernas para o ar.

E, est claro, se ainda estivesse viva.

Ele inclinou-se para a frente e beijou a face de Miriam.

- Boa noite, maninha - disse ele, deixando de seguida o apartamento.

O homem do outro lado do corredor estava de novo a espreitar … porta.

Quando viu o homem louro, alto e manchado de sangue emergir do apartamento de Miriam, bateu com a porta e trancou-a.

"Sensato", pensou George Stark, percorrendo o corredor em direcção ao elevador. "Muito, muito sensato."

Enquanto isso, ele tinha de ir andando. Não tinha tempo a perder.

Havia ainda uma outra coisa que era necess rio fazer esta noite.