A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 2 de 26

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A Metade Sombria

Morte na Grande Cidade

Seis

MORTE NA GRANDE CIDADE

Dodie Eberhart estava irritada, e quando Dodie Eberhart estava irritada, havia uma tipa na capital da nação com quem ninguém se quereria meter. Subiu as escadas do edifício de apartamentos da L Street com a impassibilidade (e praticamente o volume) de um rinoceronte a atravessar uma extensão aberta de pasto. O vestido azul-marinho estendia-se e espalhava-se sobre um peito que era grande de mais para ser simplesmente qualificado de amplo. Os braços carnudos baloiçavam como pêndulos.

H muitos anos atr s, esta mulher fora uma das mais espectaculares call-girlsl de Washington. Naquela época, tanto a sua altura - um metro e oitenta - como a boa aparência fizeram dela mais do que apenas um bom pedaço de mulher; Dodie era tão procurada que uma noite passada com ela quase equivalia a um troféu no gabinete de um desportista. Se se observasse com cuidado as fotografias de diversas fêtes e soirées em Washington tiradas durante a segunda Administração Johnson e a primeira Administração Nixon, era possível descobrir Dodie Eberhart em muitas delas, geralmente de braço dado com um homem cujo nome aparecia com frequência em artigos e ensaios políticos de peso. Só por causa da sua altura era difícil não reparar nela.

Dodie era uma prostituta com o coração de um banqueiro e a alma de uma barata gananciosa. Dois dos seus clientes habituais, um senador democr tico e um representante republicano j de uma certa idade deram-lhe a ganhar dinheiro suficiente de forma a poder reformar-se do negócio.

Não fizeram isso propriamente de livre e espontƒnea vontade. Dodie estava consciente de que o risco de contrair a doença não estava propriamente a diminuir (e os funcion rios mais altos do Governo são tão vulner veis … sida e a diversas outras doenças venéreas menores - mas ainda assim preocupantes - como o mais comum dos mortais).

A idade dela também não estava a diminuir. Do mesmo modo, Dodie também não estava inteiramente convencida de que estes cavalheiros lhe fossem deixar algo nos respectivos testamentos, como ambos lhe haviam prometido.

"Lamento imenso, dissera-lhes ela, "mas, sabem, j não acredito no Pai Natal ou na Fada Madrinha. A Dodizinha est totalmente entregue a si mesma. Com esse dinheiro, a Dodizinha comprou três edifícios de apartamentos. Os anos passaram. Os quarenta e dois quilos que haviam feito ajoelhar homens fortes a seus pés (geralmente diante dela enquanto se mantinha nua … frente deles) tinham agora passado para cento e doze quilos. Os investimentos, que haviam corrido bem em meados dos anos 70, tinham azedado nos anos 80, quando parecia que todas as outras pessoas no país com dinheiro na Bolsa de Valores se estavam a safar bem. Dodie tivera dois excelentes corretores na sua pequena lista de clientes bem até ao final da fase activa da sua carreira; alturas houve em que se arrependeu de não ter ficado com eles após se ter retirado.

Um edifício fora-se em 1984; o segundo em 1986, após uma auditoria desastrosa por parte das Finanças. Ela agarrara-se a este situado na L Street de uma forma tão desesperada como um jogador vencido num jogo implac vel do monopólio, convencida de que se encontrava num bairro prestes a estar na "moda". Mas ainda não ficara na "moda" e Dodie tinha a sensação de que não viria a estar na "moda durante os próximos um ou dois anos... se é que alguma vez iria a estar. Quando isso acontecesse, ela pretendia fazer as malas e mudar-se para Aruba. Por ora, a senhoria, que em tempos fora a puta mais procurada da cidade, teria de continuar a aguentar-se como podia.

Que fora o que sempre fizera.

Que era o que tencionava continuar a fazer.

E que Deus ajudasse quem se metesse no seu caminho.

Como Frederick "Espertalhão Clawson, por exemplo.

Dodie chegou ao patamar do segundo andar. Os Guns n'Roses bramiam do apartamento dos Shulman.

- BAIXEM A MERDA DESSE GIRA-DISCOS! - berrou ela a plenos pulmões... e quando Dodie Eberhart aumentava a voz até atingir o nível m ximo de decibéis, as janelas partiam-se, os tímpanos das criancinhas rebentavam e os cães caíam mortos para o lado.

De um momento para o outro, a m£sica passou de um grito para um sussurro. Dodie podia sentir os Shulman a tremerem de medo, agarrados um ao outro como um par de cachorros assustados numa trovoada e rezando que não fossem eles que a Bruxa M de L Street viera ver. Eles tinham medo dela. Não era errado sentir isso. Shulman era advogado de direito empresarial numa firma poderosa, mas que estava ainda a duas £lceras de distƒncia de se tornar suficientemente poderoso para assustar Dodie. Caso ele se cruzasse no seu caminho nesta fase inicial da sua vida, ela faria dele gato-sapato, e ele sabia disso, o que era extremamente satisfatório.

Quando as contas no banco e a carteira de investimento atingem o ponto mais baixo, é necess rio procurar satisfações onde estas se encontram.

Sem abrandar o passo, Dodie dobrou a esquina e começou a subir as escadas que levavam ao terceiro andar, onde Frederick "Espertalhão Clawson vivia num esplendor solit rio.

Caminhou com aquele mesmo passo regular de rinoceronte-a-atravessar-a-savana, não ficando de modo algum sem f“lego apesar do seu peso, tendo as escadas abanado ligeiramente apesar da sua solidez.

Ela estava ansiosa por isto.

Clawson não se encontrava sequer no degrau mais baixo de uma escada de direito empresarial. Neste preciso momento, não se encontrava sequer nessa escada. Como todos os estudantes de Direito que alguma vez conhecera (a maioria como inquilinos; nunca fora para a cama com nenhum durante aquela época que agora via como a sua "outra vida ), Clawson era basicamente feito de grandes aspirações e fundos curtos, ambos a flutuar sobre uma camada generosa de tretas.

Regra geral, Dodie não confundia qualquer um destes elementos.

Na sua cabeça, cair na conversa de um estudante de Direito era tão mau como fazer um favor sexual de graça. No momento em que começasse a agir dessa forma, mais valia calçar as pantufas.

Figurativamente falando, est claro.

Ainda assim, Frederick "Espertalhão Clawson deitara abaixo parte das suas defesas. J por quatro vezes seguidas se atrasara com o pagamento da renda, tendo Dodie permitido tal coisa porque ele a convencera de que, no caso dele a aborrecida história de sempre era realmente verdade (ou poderia acabar por ser): ele estava verdadeiramente … espera de dinheiro.

Ela não teria ido na conversa dele se Clawson Lhe tivesse dito que, na realidade, Sidney Sheldon era Robert Ludlum, ou que Victoria Holt, era, na realidade, Rosemary Rogers, porque ela estava-se absolutamente nas tintas para essas pessoas ou para os seus mil e um pseudónimos. Ela gostava era de romances policiais, e se fossem verdadeiros romances policiais de forte intensidade, tanto melhor. Dodie imaginava que devia haver imensa gente por aí a preferir as lamechices romƒnticas e as merdas de espionagem, se é que a lista dos livros mais vendidos do jornal Post Sunday tinha algum valor, embora ela j lesse Elmore Leornard muitos anos antes de este chegar …s listas e de ter igualmente formado laços muito estreitos com Jim Thompson, David Goodis, Horace McCoy, Charles Willeford, e o resto desses tipos. Para falar curto e grosso, Dodie Eberhart gostava de romances onde os homens assaltavam bancos, disparavam uns contra os outros e demonstravam o quanto amavam as suas mulheres, principalmente espancando-as com toda a força.

Na opinião dela, George Stark era - ou fora - o melhor deles todos. Dodie fora-lhe uma fã dedicada desde A Vontade de Machine e A Alelancolia de Oxford até A Caminho da Babilónia que parecia ser o £ltimo deles.

Da primeira vez que aparecera para cobrar a renda (daquela vez, Clawson ainda só estava três dias atrasado, mas, como é óbvio, quando se d a mão, eles querem logo o braço), o espertalhão do apartamento do terceiro andar encontrava-se rodeado de notas e romances de Stark. Após ter tratado daquilo que a levara até l e de ele Lhe ter prometido que entregaria um cheque até ao meio-dia do dia seguinte, ela perguntara-lhe se, agora, a leitura das obras completas de George Stark era um requisito para uma carreira na advocacia.

- Não - replicara Clawson, de sorriso vivo, alegre e francamente predatório - embora possam vir a finƒnciar uma carreira.

Fora o sorriso, mais do que qualquer outra coisa, que a fisgara e a levara a esquecer o caso dele quando sempre lidara com rudeza e brutalidade em todos os outros. Ela j vira aquele sorriso muitas outras vezes antes diante do próprio espelho. Nessa altura, Dodie acreditara que um tal sorriso não podia ser falso e, se é que interessa para alguma coisa, ainda acreditava nele. Clawson conseguira realmente a prova de culpabilidade de Thaddeus Beaumont;

o seu erro fora ter acreditado com tanta confiança que Beaumont iria concordar com os planos de um espertalhão como Frederick Clawson. E esse fora também o erro dela.

Após a explicação de Clawson sobre aquilo que descobrira, Dodie lera um dos dois romances de Beaumont - Névoa P£rpura - tendo chegado … conclusão de que se tratava de um livro primorosamente est£pido. Apesar da correspondência e das fotocópias que o "Espertalhão Lhe mostrara, ela achara difícil, ou até mesmo impossível, acreditar que ambos os escritores fossem um só homem. Só que... aproximadamente a três quartos da leitura, num ponto em que ela se encontrava prestes a lançar o livro chatíssimo para a outra ponta da sala e a p“r o assunto de lado, deparou-se-lhe uma cena em que um lavrador mata um cavalo. O cavalo tinha duas pernas partidas e havia que abatê-lo. No entanto, o que chamava a atenção era o facto de o velho lavrador John se deleitar com isso. Na verdade, ao encostar o cano da arma … cabeça do cavalo, o lavrador masturbara-se, tendo apertado o gatilho no momento do clímax.

Era como se, pensou ela, Beaumont tivesse saído para ir buscar uma ch vena de café quando chegara …quela parte... e George Stark tivesse entrado e escrito a cena, como um Bimbambolor' liter rio. Era certamente a £nica pepita de ouro naquela meda específica de feno.

Bem, nada disso importava agora. Apenas provava que ninguém se encontrava imune para sempre a tretas. O espertalhão l de cima levara-a a dar uma volta, mas, pelo menos, fora uma volta pequena. E agora acabara.

Dodie Eberhart chegou ao patamar do terceiro andar, com a mão desde j a dobrar-se sobre si mesma, naquela espécie de punho apertado que usava sempre que chegava … altura, não de bater … porta com delicadeza, mas com for ça. Foi então que viu que não seria necess rio bater … porta com força pois a porta do espertalhão encontrava-se entreaberta.

- Jesus chorou! - sussurrou Dodie, com os l bios encrespados. Aquele não era um bairro de drogados, mas, quando se tratava de "limpar o apartamento de um idiz gtK qualquer, os drogados estavam mais do que desejosos de atravessar as linhas fronteiriças. O tipo era ainda mais est£pido do que ela pensara.

Dodie bateu ao de leve na porta com os nós dos dedos e esta abriu-se.

- Clawson! - chamou ela numa voz que prometia condenação e perdição.

Não ouviu resposta alguma. Ao levantar os olhos para o pequeno corredor, Dodie apercebeu-se de que os estores da sala de estar estavam corridos e que o candeeiro do tecto estava aceso. Um r dio tocava com o som baixo.

- Clawson, quero falar contigo!

Começou a atravessar o pequeno corredor... e estacou.

Uma das almofadas do sof estava no chão.

Era tudo. Nenhum sinal de que o sítio tivesse sido devastado por um drogado esfomeado. Contudo, os seus instintos estavam ainda alerta e, num instante, Dodie chegou a uma conclusão. Cheirava-lhe a alguma coisa. Apesar de ser um cheiro muito ténue, estava l . Um pouco como quando a comida fica estragada mas ainda não est podre. Não era esse o cheiro, mas era o mais parecido de que ela se conseguia recordar. Ser que j sentira aquele cheiro alguma vez? Dodie imaginou que sim.

E podia sentir também outro cheiro, apesar de ter a certeza que não era o seu olfacto que a tornava consciente deste £ltimo. Dodie reconheceu imediatamente aquele cheiro.

Ela e o agente estadual Hamilton, do Connecticut, teriam concordado num abrir e fechar de olhos do que é que se tratava: era o cheiro do mal.

Dodie deixou-se ficar onde estava, … porta da sala de estar, a olhar para a almofada caída no chão e a ouvir o r dio. Aquilo que a subida de três lances de escadas não conseguira fazer conseguira-o uma almofada inocente: o coração batia rapidamente sob o enorme seio esquerdo e a respiração saía com dificuldade da boca. Havia algo que não batia bem ali. Que não batia mesmo nada bem.

A questão era saber se ela se tornaria ou não parte de tudo aquilo se se deixasse ficar.

O bom senso aconselhava-a a ir-se embora enquanto o podia fazer, e o bom senso era muito forte, contudo, a curiosidade dizia-lhe que ficasse e espreitasse... e este sentimento era ainda mais forte.

Esticando o pescoço, Dodie espreitou pela entrada da sala de estar, olhando primeiro para a sua direita, onde podia ver uma lareira falsa, duas janelas com vista para a L Street e pouco mais. Olhou para a esquerda e, subitamente, a sua cabeça deixou de se mexer. Na verdade, pareceu ficar petrificada naquela posição. Os olhos abriram-se.

Aquele olhar fixo e petrificado não durou mais de três segundos, embora para ela Lhe tenha parecido muito mais tempo. E viu tudo, até ao ínfimo pormenor; a mente de Dodie tirou a sua própria fotografia daquilo que viu, uma fotografia tão nítida e viva como aquelas que o fotógrafo da Polícia iria tirar brevemente.

Viu duas garrafas de cerveja Amstel sobre a mesinha do café, uma vazia e a outra a meio, com um colar de espuma ainda no interior do gargalo. Viu o cinzeiro com CHICAGoLAND!

escrito sobre a superfície curva. Viu as beatas de dois cigarros, sem filtro, esmagadas no centro de brancura imaculada do cinzeiro, apesar de o espertalhão não fumar - pelo menos, não cigarros. Viu a caixinha de pl stico que, em tempos, estivera cheia de tachas, deitada de lado entre as garrafas e o cinzeiro. A maioria das tachas, com as quais o espertalhão tinha o h bito de pendurar coisas no painel da cozinha, estavam espalhadas pela superfície de vidro da mesinha do café. Viu que algumas se encontravam sobre uma cópia aberta da revista People, aquela que apresentava a história de Thad Beaumont/George Stark. Dodie conseguia ver o Sr. e a Sra. Beaumont a cumprimentarem-se por cima da l pide de Stark, apesar de, do local onde se encontrava, estarem de pernas para o ar. Na opinião de Frederick Clawson, tratava-se da história que nunca seria impressa. Em vez disso, iria fazer dele um homem razoavelmente rico. Enganara-se quanto a isso. Na verdade, parecia que ele se enganara quanto a tudo.

Dodie conseguia ver Frederick Clawson, que passara de "Espertalhão a coisíssima nenhuma, sentado numa das suas duas cadeiras da sala de estar. Fora amarrado.

Encontrava-se nu, com as roupas atiradas numa bola emaranhada para debaixo da mesinha do café. Viu o buraco ensanguentado nas virilhas. Os testículos estavam ainda no respectivo lugar, mas o pénis fora-lhe enfiado na boca. Não havia qualquer falta de espaço porque o assassino também cortara a língua do "Espertalhão : estava pendurada na parede. A tacha fora espetada com tamanha força na carne rosada da língua que Dodie só conseguia vislumbrar uma meia-lua arreganhada amarela que era a cabeça da tacha, e também isto a sua mente fotografou implacavelmente. O sangue infiltrara-se por debaixo do papel de parede sob a língua, desenhando a forma de uma ventoinha irregular.

O assassino utilizara uma outra tacha, esta com cabeça verde, para pregar a segunda p gina do artigo da revista People no peito nu do ex-Espertalhão. Apesar de não conseguir ver o rosto de Liz Beaumont - estava encoberto pelo sangue de Clawson - Dodie conseguia ver a mão da mulher, oferecendo a lata de bolinhos de chocolate para a apreciação risonha de Thad. Ela recordava-se que aquela fotografia aborrecera Clawson em particular.

"Que coisa tão encenada!"! exclamara ele. "Ela detesta cozinhar; ela própria o confessou numa entrevista logo após Beaumont ter publicado o primeiro romance. Escrito a sangue e … mão sobre a língua cortada pregada … parede, encontravam-se estas sete palavras:

OS PARDAIS ESTãO A VOAR DE NOVO.

"Meu Deus", pensou uma parte distante da sua mente.

tal e qual um romance de George Stark... como alguma coisa que Alexis Machine faria. Por detr s dela veio um ruído semelhante a uma pancada amortecida.

Dodie Eberhart gritou e virou-se. Machine aproximara-se dela com a sua terrível navalha de barbear de aço reluzente, agora coberta com o sangue de Frederick Clawson.

O seu rosto era a m scara deformada de cicatrizes, tudo aquilo que Nonie Griffiths deixara após o ter totalmente retalhado no final de A Vontade de Machine, e...

Todavia, afinal de contas, não havia ninguém ali. A porta pura e simplesmente fechara-se, como por vezes as portas fazem.

"Ser mesmo isso?"? perguntou a parte distante da sua mente... só que agora estava mais próxima, aumentando a voz, insistente no pavor. "Quando subiste as escadas, a porta estava entreaberta sem qualquer tipo de problema. Não escancarada, mas o suficiente para se aperceber que não estava fechada. Nesse instante, o seu olhar pousou de novo nas garrafas de cerveja na mesinha do café. Uma vazia. Outra a meio, com um anel de espuma ainda no interior do gargalo.

O assassino estava por detr s da porta quando ela entrara. Se tivesse virado a cabeça tê-lo-ia visto quase de certeza... e, agora, também ela estaria morta.

E enquanto ali se encontrava, hipnotizada pelos restos coloridos de Frederick "Espertalhão Clawson, ele fora-se simplesmente embora, fechando a porta atr s de si.

As duas pernas perderam toda a força e ela deixou-se cair de joelhos, com uma espécie de graciosidade estranha, parecendo uma rapariga prestes a comungar. Como um hamster numa roda de exercício, a mente correu freneticamente sobre o mesmo pensamento: "Oh, não devia ter gritado, ele vai voltar, oh, não devia ter gritado, ele vai voltar, oh, não devia ter gritado... E foi então que o ouviu, o ruído surdo e calculado dos seus pés grandes no tapete do trio. Mais tarde, convenceu-se de que os malditos Shulman tinham voltado a aumentar o volume da aparelhagem e de que ela confundira a pancada regular do baixo com passos. Contudo, naquele momento, Dodie estava convencida de que era Alexis Machine e de que ele estava de volta... um homem tão empenhado e tão mortífero que nem mesmo a morte o faria parar.

Pela primeira vez na sua vida, Dodie Eberhart desmaiou.

Veio a si menos de três minutos depois. As pernas ainda não tinham força suficiente para a segurar, e por isso, Dodie arrastou-se pelo pequeno corredor do apartamento até … porta, com o cabelo sobre o rosto. Pensou em abrir a porta e olhar l para fora, mas não teve coragem de o fazer Em vez disso, rodou o ferrolho, prendeu a lingueta e, de seguida, prendeu a barra no seu pé de aço. Depois de todas essas coisas, sentou-se contra a porta, arquejante, o mundo uma mancha cinzenta. Dodie estava vagamente consciente de que se trancara com um corpo mutilado, mas não era tão mau quanto isso. Não era mesmo nada mau quando ponderava as alternativas.

A pouco e pouco, as forças voltaram e Dodie foi capaz de se p“r de pé. Dobrou a esquina na extremidade do vestíbulo e, de seguida, entrou na cozinha, onde estava o telefone.

Manteve os olhos afastados daquilo que restava do "Espertalhão, apesar de este ser um exercício em vão; e continuaria a ver aquela fotografia da mente em toda a nitidez hedionda durante um longo período de tempo.

Chamou a Polícia e, quando os agentes chegaram, não os deixou entrar enquanto um deles não enfiou por debaixo da porta a sua identificação.

- Qual é o nome da sua esposa? - perguntou ela ao polícia, cujo distintivo plastificado o identificava como Charles F. Toomey Jr. A sua voz estava alta e trémula, exactament o oposto do tom habitual. Os amigos mais chegados (se é que ela tinha algum) não a teriam reconhecido.

- Stephanie, minha senhora - respondeu a voz do outro lado da porta, pacientemente.

- Sabe muito bem que posso telefonar para a central a confirmar se é verdade! - exclamou ela, num tom quase estridente.

- Eu sei que pode, senhora Eberhart - replicou a voz - mas não acha que se ir sentir segura muito mais rapidamente se nos deixar entrar?

E porque ela continuou a reconhecer a voz do polícia com tanta facilidade como reconhecera o cheiro do mal, desaferrolhou a porta e deixou Toomey e o colega entrarem.

Uma vez com eles l dentro, Dodie fez algo que nunca fizera antes: teve um ataque de histeria.