A Metade Sombria
Nesse dia, apesar de Henry não ter…
Epílogo
Nesse dia, apesar de Henry não ter beijado Mary Lou, também não se foi embora sem uma palavra, como o poderia ter feito. Viu-a, suportou a raiva dela e esperou que esta se desvanecesse naquele silêncio paralisante que ele conhecia tão bem. Henry acabara por reconhecer que a maior parte destas m goas era só dela, não devendo ser partilhada ou até mesmo discutida. Mary Lou sempre dançara melhor quando dançava sozinha.
Por fim, atravessaram o campo e olharam mais uma vez para o teatro onde, h três anos, Evelyn morrera. Não se tratava de uma despedida em grande mas era o melhor que conseguiam fazer. Henry teve a sensação de que era bastante bom.
Henry depositou as bailarinazinhas de papel de Evelyn sobre a erva alta, junto ao alpendre em ruínas, sabendo que, em breve, o vento as levaria. De seguida, ele e Mary Lou, juntos, deixaram o velho sítio pela £ltima vez. Não era bom, mas era o que devia ser feito. O que tinha mesmo de ser feito. Henry não era um homem que acreditava em finais felizes. A pouca serenidade que lhe era dada a conhecer provinha basicamente dessa certeza.
Os Dançarinos Inesperados de Thaddeus Beaumont Os sonhos das pessoas - os seus sonhos verdadeiros em oposição …quelas alucinações do sono que podem surgir ou não, conforme a sua vontade - terminam em alturas diferentes. O sonho de Thad Beaumont com George Stark terminou …s nove e quinze da noite, em que os psicopompos levaram a sua metade sombria para qualquer que fosse o lugar que lhe tivesse sido destinado. Terminou com o Toronado preto, aquela tarƒntula na qual, no seu pesadelo recorrente, ele e George chegavam sempre a esta casa.
Liz e os gémeos estavam no topo da alameda, onde a casa se fundia com Lake Lane. Thad e Alan permaneciam junto do carro preto de George Stark, que deixara de ser preto. Agora, com as cagadelas dos p ssaros, estava cinzento .
Apesar de não desejar olhar para a casa, Alan não conseguia afastar os olhos dela. Era um monte de ruínas despedaçadas. A ala leste - o lado do escritório - tivera de suportar o maior peso da destruição, porém, isso não impedia que toda a casa estivesse igualmente em ruínas. Buracos enormes espreitavam por todo o lado. No lado com vistas para o lago, a balaustrada pendia da varanda como uma escada de madeira articulada. Viam-se enormes redemoinhos de p ssaros mortos espalhados num círculo … volta da casa.
Estavam presos nos rebordos da chaminé, entupiam os algerozes.
A Lua j se tinha levantado, produzindo reflexos de luz prateada nos estilhaços de vidro partido. Centelhas daquele mesmo fogo-f tuo bailavam bem fundo nos olhos vidrados dos pardais mortos.
- Tem a certeza que concorda com isto? - perguntou Thad.
Alan acenou a cabeça.
- Estou só a perguntar porque a prova vai ser destruída .
Alan riu-se de forma desabrida:
- Acha que alguém acreditaria que isto constitui uma prova?
- Suponho que não. - Fez uma pausa, dizendo de seguida:
- Sabe, houve uma altura em que senti que o Alan gostava mais ou menos de mim. J não sinto mais isso. Nada mesmo. Não compreendo. Ser que me considera respons vel por... tudo isto?
- Estou-me nas tintas - retorquiu Alan. - Acabou.
É só isso que me importa, senhor Beaumont. Neste preciso momento, essa e a £nica coisa no mundo inteiro pela qual dou meio-tostão furado.
Alan viu a m goa no rosto cansado e atormentado de Thad, e fez um grande esforço.
- Olhe, Thad, foi muita coisa. Muita coisa ao mesmo tempo. Acabei de ver um homem a ser levado para o céu por um grupo de pardais. Por favor, est bem?
Thad acenou a cabeça.
- Eu percebo.
aNão, tu não percebes", pensou Alan. "Tu não percebes aquilo que és, e tenho as minhas sérias d£vidas de que alguma vez venhas a perceber. A tua mulher talvez consiga...
embora me interrogue se, depois disto tudo, as coisas alguma vez voltarão ao que eram entre os dois, se alguma vez ela ir desejar entender-te, ou ousar amar-te de novo.
Os teus filhos, talvez, um dia... mas não tu, Thad. Ficar ao teu lado é como ficar ao lado de uma gruta de onde saiu uma criatura típica de um pesadelo. Agora, apesar de o monstro j ter desaparecido, uma pessoa ainda não gosta de ficar muito próximo do sítio de onde ele surgiu. Porque pode existir um outro. Talvez não, o teu espírito sabe isso, mas as tuas emoções? Elas dançam ao som de uma outra m£sica, não é? Oh, meu Deus. e mesmo que a gruta esteja vazia para sempre, os sonhos estão l . e as lembranças. Temos, por exemplo, Homer Gamache, espancado até … morte com a prótese do próprio braço. Por causa de ti, Thad.
Tudo por causa de ti."
Isto não era justo e uma parte de Alan tinha noção disso. Thad não pedira para ter um gémeo, ele não destruíra o irmão gémeo no £tero da mãe por pura maldade ("Não estamos aqui a falar de Caim a revoltar-se e a matar Abel com uma pedra", afirmara o Dr. Pritchard)" ele não sabia que género de monstro e que estava … sua espera quando começou a escrever como George Stark.
No entanto, eles tinham sido gémeos.
E Alan não conseguia esquecer-se da forma como Stark e Thad tinham rido em conjunto.
Aquela gargalhada louca e demente e o olhar no rosto dos dois.
Interrogou-se se Liz iria ser capaz de esquecer.
Levantou-se uma ligeira brisa, levando até ele o mau cheiro do g s LP.
- Vamos deitar fogo a isto - disse de modo abrupto.
- Vamos deitar fogo a tudo isto. Não me interessa aquilo que, mais tarde, as pessoas possam vir a pensar. Não h quase vento nenhum, os carros de bombeiros chegarão aqui antes de o fogo se espalhar muito em qualquer direcção. Se apanhar parte dos bosques em redor deste lugar, melhor ainda.
- Eu faço-o - disse Thad. - V ter l acima com Liz.
Ajude com os gé...
- Vamos fazer isto juntos - corrigiu Alan. - Dê-me as suas meias.
- O quê?
- Ouviu o que eu disse: quero as suas meias.
Alan abriu a porta do Toronado e olhou l para dentro.
Sim, o estratagema habitual, exactamente como pensara.
Um tipo machão como George Stark nunca ficaria totalmente satisfeito com uma autom tica, isso era para os tipos casados e sem coragem, como Thad Beaumont.
Deixando a porta aberta, apoiou-se num só pé e tirou o sapato e meia direitos. Thad observou-o e começou a fazer a mesma coisa. Alan tornou a calçar o sapato e repetiu o processo com o pé esquerdo. Não tinha qualquer intenção de p“r os pés descalços na massa de p ssaros mortos, nem por um segundo.
Depois de ter terminado, atou as duas meias de algodão.
De seguida, pegou nas de Thad e acrescentou-as … suas. Contornou o carro, dirigindo-se para a traseira do lado do passageiro, esmigalhando ruidosamente os pardais mortos sob os seus sapatos como se estivesse a amarrotar um jornal, e abriu a portinha que resguardava o tanque de combustível do Toronado. Rodou e tirou a tampa, enfiando a possível mecha na garganta do tanque. Quando a tirou de novo c para fora, estava ensopada. Alan virou-a ao contr rio e enfiou a ponta seca no tanque, deixando a ponta h£mida a pender contra o lado borrifado de cagadelas do carro. De seguida, virou-se para Thad, que o tinha seguido. Alan rebuscou o bolso da camisa da farda, tirando para fora uma carteira de fósforos. Era o género de caixa de fósforos que era oferecida nas tabacarias juntamente com um maço de cigarros. Alan não sabia onde é que tinha arranjado aquela carteira, mas, na capa, tinha um an£ncio de um selo para coleccionadores.
O selo mostrava a imagem de um p ssaro.
- Quando o carro começar a andar, pegue fogo …s meias - ordenou Alan. - Nem um só momento antes, entendido?
- Sim.
- Vai tudo explodir. A casa vai incendiar-se, seguida pelos tanques de g s nas traseiras. Quando os bombeiros aqui chegarem, vai parecer que o seu amigo perdeu o controlo, chocou contra a casa e o carro explodiu. Pelo menos assim espero.
- Est bem.
Alan tornou a andar para tr s, contornando o carro - Que é que se est a passar aí? - perguntou Liz de forma nervosa. - Os bebés estão a ficar com frio!
- Só mais um minuto! - respondeu Thad de volta Alan penetrou no interior do Toronado de cheiro desagrad vel, tendo destrancado o travão de mão.
- Espere até começar a andar - relembrou por cima do ombro.
- Sim.
Com o pé, Alan carregou no pedal e regulou a alavancS Harst para ponto morto.
O Toronado começou a andar de imediato.
Alan afastou-se e, por um instante, pensou que Thad não conseguira p“r um fim …quilo... mas foi então que a mecha se incendiou de encontro … traseira do carro nu
traço brilhante de chama.
O Toronado percorreu lentamente os £ltimos quatro metros e meio da entrada, saltou sobre a pequena lomba de asfalto que ali havia e, como se estivesse cansado, deslizou até ao pequeno alpendre traseiro. Alan conseguia ainda ler nitidamente o autocolante do p ra-choques sob a luz alaranjada da mecha: FILHO DA MãE PRETENSIOSO.
- J deixou de ser - murmurou.
- O quê?
- Não interessa. Vamos embora. O carro vai explodir.
Os dois não tinham dado dez passos para tr s quando o Toronado se transformou numa bola de fogo. Chamas atingiram a ala leste, picada e estilhaçada, da casa, transformando o buraco na parede do escritório num globo ocular negro e arregalado.
- Vamos embora - disse Alan. - Vamos para o meu carro Agora que j fizemos o que tínhamos a fazer, temos de dar o alarme. Não h necessidade alguma que toda a gente no lago perca as suas casas por causa disto.
Todavia, Thad deixou-se ficar um pouco mais e Alan deixou-se ficar com ele. Por debaixo de telhas de cedro, a casa era feita de madeira seca, e estava a pegar fogo rapidamente. As chamas entraram em ebulição no buraco onde se situava o escritório de Thad e, enquanto os dois observavam, algumas folhas de papel foram apanhadas na correnteza que o fogo criara, sendo levadas para cima e para fora.
Com a claridade criada, Alan conseguia ver que as folhas estavam cobertas de palavras escritas … mão. As folhas enrugaram-se, pegaram fogo, queimaram-se e ficaram negras.
Voaram para cima, em direcção … noite, acima das chamas como um esquadrão enredemoinhado de p ssaros negros Uma vez por cima da correnteza, Alan pensou que brisas mais habituais as iriam apanhar. Apanh -las e lev -las com elas, talvez até aos antípodas da terra.
"óptimo", pensou, tendo começado a subir a entrada em direcção a Liz e aos bebés, cabisbaixo.
Atr s dele, Thad Beaumont levantou lentamente as mãos e colocou-as sobre o rosto.
E aí permaneceu nessa posição durante muito tempo.
3 de Novembro de 1987 - 1 de Março de 1989