A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 21 de 26

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A Metade Sombria

Duas Chamadas para o Xerife Pangborn

Vinte e Três

DUAS CHAMADAS PARA O XERIFE PANGBORN

1

A primeira das duas chamadas que lançaram Alan Pangborn de novo para o meio da história surgiu pouco passava das três horas, enquanto Thad estava a deitar três quartos de óleo Sapphire Motor no sedento Volkswagen de Rawlie numa estação de serviço de Augusta. O próprio Alan estava a caminho do Nan's para ir tomar um café.

Sheila Brigham deitou a cabeça fora do gabinetezinho e gritou:

- Alan? Chamada a pagar no destinat rio para si. Conhece alguem chamado Hugh Pritchard?

Alan deu imediatamente meia volta.

- Sim! Atenda a chamada!

Alan voltou a entrar rapidamente no escritório e pegou no telefone, ainda a tempo de ouvir Sheila a aceitar os custos da chamada.

- Doutor Pritchard? Doutor Pritchard, est aí?

- Sim, estou aqui. - A ligação estava bastante boa, mas, ainda assim, Alan teve um momento de hesitação: este homem não soava ter setenta anos. Quarenta, talvez, mas não setenta.

- O senhor é o doutor Hugh Pritchard que costumava exercer a sua profissão em Bergenfield, Nova Jersia?

- Bergenfield, Tenafly, Hackensack, Englewood, Englewood Heightó... raios, examinei cabeças todo o caminho até Paterson. O senhor é o xerife Pangborn que tem tentado entrar em contacto comigo? Eu e a minha mulher est vamos muito longe e tínhamos ido até Devil's Knob. Acabamos de chegar. até as minhas dores estão com dores.

- Sim, peço desculpa. Quero agradecer-lhe por me ter telefonado, doutor. O senhor tem uma voz muito mais jovem do que eu esperava.

- Bem, nada mal - replicou Pritchard - mas devia ver o resto da minha pessoa. Assemelho-me a um crocodilo que anda em duas pernas. Em que Lhe posso ser £til?

Alan j reflectira sobre esta hipotética pergunta, tendo optado por uma abordagem cuidadosa. Assim, segurou o telefone entre o ouvido e o ombro, recostou-se para tr s na cadeira e o desfile de animais-sombra na parede teve início.

- Ando a investigar um crime que ocorreu aqui no munícípio de Castle, no Maine - explicou. - A vitima era um homem da terra chamado Homer Gamache. Talvez exista uma testemunha que tenha presênciado o crime, mas eu encontro-me numa situação muito delicada com esse homem, doutor Pritchard. E isso por duas razões: em primeiro lugar, ele é famoso" em segundo, apresenta sintomas com os quais, em tempos, o senhor esteve familiarizado.

Digo isto porque o senhor operou-o h vinte e oito anos atr s. Tinha um tumor cerebral. Temo que o tumor tenha reaparecido e, assim, o seu testemunho pode não ser muito credível.

- Thaddeus Beaumont - interrompeu Pritchard de imediato. - E quaisquer que sejam os sintomas que apresenta, tenho c as minhas sérias d£vidas de que se trate de uma recorrência daquele tumor antigo.

- Como é que sabia que se tratava de Beaumont?

- Porque em mil novecentos e sessenta Lhe salvei a vida - retorquiu Pritchard, acrescentando com uma arrogƒncia inconsciente: - Se não fosse eu, ele não teria escrito um £nico livro porque, antes mesmo de fazer doze anos, j estaria morto. Desde que esteve prestes a ganhar aquele National Book Award com o primeiro romance, tenho seguido a carreira dele com algum interesse. Dei uma vista de olhos fotografia na capa e apercebi-me de que era o mesmo tipo. O rosto mudara mas os olhos continuavam os mesmos. Olhos invulgares. Sonhadores, era assim que os classificaria. E, est claro, sabia que ele vivia no Maine por causa do artigo recente na revista People. O artigo foi publicado mesmo antes de irmos para férias.

Pritchard fez uma pausa momentƒnea, acabando por afirmar algo tão extraordin rio e, ainda assim, de uma forma tão casual, que, por um instante, Alan não encontrou qualquer resposta.

- O senhor diz que ele pode ter presênciado um homicídio? Tem a certeza absoluta que não suspeita mesmo que tenha sido ele quem o cometeu?

- Bem. . . eu. . .

- Estava só a indagar - prosseguiu Pritchard - porque, geralmente, as pessoas com tumores cerebrais fazem coisas muito estranhas. A estranheza dos seus actos parece aumentar em proporção directa com a inteligência do homem ou mulher atacados por este mal. Mas, o senhor sabe, o rapaz não tinha nenhum tumor cerebral" pelo menos não na acepção geralmente aceite do termo. Foi um caso invulgar.

Extremamente invulgar. Desde mil novecentos e sessenta só soube da existência de três casos semelhantes, dois dos quais depois de me ter reformado. Ele j foi fazer os testes neurológicos habituais?

- Sim.

- E?

- Deram negativo.

- Não me surpreende. - Por alguns instantes, Pritchard manteve-se silêncioso, acabando por dizer de seguida: - Est a ser menos do que honesto comigo, não est , meu rapaz?

Alan parou de fazer animais na sombra, sentando-se muito direito na cadeira.

- Sim, creio que sim. Mas desejo muito saber o que e que o senhor queria dizer quando afirmou que Thad Beaumont não tinha um tumor cerebral na "acepção geralmente aceite do termo". Estou ciente da regra da confidêncialidade na relação médico-paciente e não sei se o senhor pode confiar num homem com quem est a falar pela primeira vez (e, ainda por cima, ao telefone), mas espero que acredite em mim se eu Lhe disser que, neste caso, estou do lado de Thad. Tenho ainda a certeza que seria o desejo de Thad que o senhor me contasse tudo aquilo que quero saber.

E não tenho tempo para Lhe pedir para ele telefonar ao senhor e Lhe dar autorização, doutor. Preciso de saber agora.

E Alan ficou surpreso ao aperceber-se de que isto era verdade" ou que, pelo menos, acreditava ser verdade. Uma certa tensão bizarra começara a apoderar-se de Alan, umasensação de que as coisas estavam a acontecer. Coisas de que ele não tinha conhecimento... mas que em breve teria.

- Não tenho quaisquer problemas em Lhe contar o caso - retorquiu Pritchard calmamente. - Em muitas ocasiões, j pensei que deveria entrar em contacto com o próprio Beaumont, nem que fosse só para Lhe contar aquilo que se passou no hospital pouco tempo depois de ele ter sido operado. Sempre pensei que deveria ter algum interesse para ele.

- E que foi que aconteceu?

- Garanto-lhe que j l chegaremos. Não contei aos pais dele aquilo que a operação dera a conhecer porque não interessava (não num sentido pr tico) e não queria ter mais nada a ver com eles. Sobretudo com o pai dele. Aquele homem deveria ter nascido numa gruta e passado a vida inteira a caçar mamutes peludos. Naquela altura, decidi contar-lhes aquilo que eles queriam ouvir e afastar-me deles o mais depressa possível. Depois, como é óbvio, o próprio tempo tornou-se um facto. Uma pessoa perde o contacto com os doentes. Quando a Helga me mostrou aquele primeiro livro, pensei em escrever-lhe e, desde então, tenho considerado essa hipótese em diversas ocasiões, mas tenho também a sensação de que ele não acreditaria em mim... ou não se interessaria... ou que podia pensar que eu era um louco idiota. Apesar de não conhecer nenhuma pessoa famosa, tenho pena delas" creio que devem ter de levar uma existência defensiva, desorganizada e assustadora.

Pareceu-me mais f cil deixar as coisas como estavam. E agora isto. Como os meus netos costumam dizer, foi uma m experiência.

- Que h de errado com Thad? Que foi que o levou até ao senhor?

- Transes. Dores de cabeça. Sons fantasmagóricos.

E, por £ltimo...

- Sons fantasmagóricos?

- Sim, mas, xerife, tem de me deixar contar as coisas … minha maneira. - Mais uma vez, Alan escutou aquela arrogƒncia inconsciente na voz do homem.

- Muito bem.

- Por £ltimo, houve um ataque. Os problemas estavam todos a ser causados por um pequeno tumor no lobo pré-frontal.

Operamo-lo, partindo do principio de que era um tumor. Afinal de contas, este acabou por ser o gémeo de Thad Beaumont.

- O quê!?

- Sim, é um facto - retorquiu Pritchard, dando a sensação de que o choque genuino que a voz de Alan deixava transparecer Lhe agradava bastante. - Isso não é totalmente invulgar: muitas vezes, os gémeos são absorvidos in utero e, em casos raros, a absorção é incompleta. Contudo, a localização era invulgar, tal como o foi o crescimento repentino do tecido estranho. A maior parte das vezes, esse tipo de tecido permanece sempre inerte. Creio que os problemas de Thad podem ter sido causados pelo início precoce da puberdade.

- Um momento - interrompeu Alan. - Espere aí um momento. - Por uma ou duas vezes, Alan lera a expressão "a sua mente girou … volta" em livros, mas esta era a primeira vez que ele próprio experimentava uma sensação dessa natureza.

- O senhor est a querer-me dizer que Thad tinha um gémeo mas que... de alguma forma... de alguma forma ele comeu o irmão?

- Ou irmã - corrigiu Pritchard. - Mas creio bem que devia ser um irmão porque penso que a absorção é muito mais rara nos casos de gémeos de sexo diferente. Não é um facto comprovado mas baseia-se na frequência estatistica e eu acredito nisso. E dado que os gémeos idênticos são sempre do mesmo sexo, a resposta … sua pergunta é sim. Penso que o feto que Thad Beaumont foi em tempos comeu o irmão no £tero da mãe.

- Meu Deus - murmurou Alan em voz baixa, não se recordando de alguma vez ter ouvido uma coisa tão horrivel, ou tão estranha, em toda a sua vida.

- O senhor parece chocado - disse o Dr. Pritchard animadamente - mas, de facto, não h razão para tal.

uma vez inserido o assunto no contexto devido. Não estamos a falar de Caim a revoltar-se e a matar Abel com uma pedra. Não se tratou de um acto de homícídio" foi apenas algum imperativo biológico, que nós não compreendemos!

que acabou por funcionar. Talvez um mau sinal, desencadeado por algo no sistema endócrino da mãe. Em termos exactos, não estamos sequer a falar em fetos" na altura da absorção, deviam existir duas formações de tecido no £tero da senhora Beaumont, provavelmente ainda nem sequer humanóides. Se quiser, anfibios vivos. E um deles, o maior, o mais forte, pura e simplesmente atacou o mais fraco, envolveu-o. . . e incorporou-o.

- Soa a uma coisa de insectos - sussurrou Alan.

- Acha? Admito que sim, um pouco. De qualquer modo, a absorção não foi completa. Um restinho do outro gémeo manteve a sua integridade. Essa matéria estranha (não consigo pensar numa outra forma de o dizer) acabou por ficar emaranhada no tecido que se tornou o cérebro de Thaddeus Beaumont. E, por uma dada razão, começou a ficar activa não muito tempo depois de o rapaz fazer onze anos. Começou a crescer. Não havia espaço na estalagem.

Consequentemente, era necess rio extirp -la como se de uma verruga se tratasse. Foi o que fizemos e com muito êxito.

- Como uma verruga - repetiu Alan, enjoado e fascinado.

Todo o género de ideias atravessavam o seu espírito.

Eram ideias sombrias, tão sombrias como morcegos num campan rio de igreja vazio. Apenas uma era totalmente coerente: "Ele e dois homens, ele SEMPRE foi dois homens.• isso que qualquer homem ou mulher que ganha a vida a inventar histórias deve ser. Aquele que existe no mundo normal... e aquele que cria mundos. Eles são dois.

Sempre, pelo menos, dois."

- Por muito que acontecesse, nunca me esqueceria de um caso tão invulgar - prosseguia Pritchard - mas antes mesmo de o rapaz acordar, aconteceu uma outra coisa possivelmente ainda mais invulgar. Algo que sempre me intrigou.

- Que foi isso?

- O jovem Beaumont ouvia p ssaros antes de cada uma das dores de cabeça - explicou Pritchard. - Em si só não se trata de algo invulgar" trata-se de uma ocorrência bem documentada nos casos de tumores cerebrais ou de epilepsia. Chama-se a "sindroma do precursor sensorial".

Contudo, pouco tempo depois da operação, ocorreu um incidente estranho com p ssaros verdadeiros. O hospital do M£nícipio de Bergenfield foi, na verdade, atacado por pardais.

- Que é que quer dizer com isso?

- Parece absurdo, não parece? - Pritchard parecia estar bastante satisfeito consigo próprio. - Nem se trata do género de coisa que eu chegaria sequer a contar. No entanto, foi um acontecimento extremamente bem documentado.

Apareceu até um artigo sobre isso na primeira p gina do jornal de Bergenfield, o Courier, com uma fotografia.

Exactamente …s duas da tarde de vinte e oito de Outubro de mil novecentos e sessenta um bando extremamente grande de pardais voou contra a ala oeste do hospital do m£nicípio. Essa era a ala onde, naquele tempo, estava a Unidade de Cuidados Intensivos e, est claro, era onde o jovem Beaumont se encontrava após a operação.

"In£meras janelas ficaram partidas e, após o incidente, as mulheres da limpeza varreram mais de trezentos p ssaros mortos. Se bem me lembro, o artigo do courier citava um ornitólogo que afirmava que a ala oeste do edifício era praticamente toda feita de vidro e punha a hipótese de que os p ssaros pudessem ter sido atraídos pela luz clara do sol reflectida no vidro.

- Isso é de loucos - replicou Alan. - Os p ssaros só voam de encontro ao vidro quando não o conseguem ver.

- Creio que o jornalista que conduzia a entrevista referiu esse facto mas o ornitólogo afirmou que os p ssaros em bando parecem partilhar entre si de uma telepatia de grupo que une as suas mentes (se é que se pode dizer que os p ssaros tem mentes) numa só. Um pouco como as formigas.

Disse que se um dos p ssaros do bando decidisse esbarrar contra o vidro, o resto limitar-se-ia a segui-lo. Quando aquilo aconteceu, não me encontrava no hospital" tinha acabado de operar o Beaumont, certificara-me de que os vitais estavam estabilizados...

- Vitais?

- Os sinais vitais, xerife. Depois, fui jogar golfe.

Mas, pelo que me contaram, aqueles p ssaros pregaram um susto de morte a todos os que se encontravam na Ala Hirschfield.

Duas pessoas ficaram cortadas com estilhaços de vidro. Eu até podia ter aceite a teoria do ornitólogo mas ela não me entrava na cabeça... porque, como sabe, eu conhecia o precursor sensorial do jovem Beaumont. Não eram apenas p ssaros mas uns p ssaros específicos: pardais.

- Os pardais estão a voar de novo - sussurrou Alan numa voz ausente e horrorizada.

- Desculpe?

- Nada. Continue.

- Um dia depois, perguntei-lhe sobre os sintomas. Por vezes, após uma operação que extirpa a causa dos precursores sensoriais, o doente sofre de uma amnésia localizada quanto a esses mesmos precursores. No entanto, neste caso, não foi o que aconteceu. Ele lembrava-se de tudo nos mais infimos pormenores. Ele via os p ssaros tão bem quanto os ouvia. P ssaros por todo o lado, dizia ele, em todas as casas e relvados e ruas de Ridgeway, que era a zona de Bergenfield onde vivia.

"Fiquei sufícientemente interessado para verificar os gr ficos dele e compar -los com os relatos do incidente.

O bando de pardais atacou o hospital cerca das duas e cinco. O rapaz acordou …s duas e dez. Talvez até um pouco mais cedo. - Pritchard fez uma pausa, acabando por acrescentar: - Na verdade, uma das enfermeiras dos cuidados intensivos disse ter impressão de que fora o som de vidros partidos que o acordara.

- Meu Deus - disse Alan de forma branda.

- Sim - retorquiu Pritchard. - Meu Deus est bem.

Ha anos que não falo neste assunto, xerife Pangborn. Ser que Lhe é de alguma ajuda?

- Não sei - respondeu Alan com honestidade. - Talvez.

Doutor Pritchard, talvez o senhor não tenha tirado tudo, isto e, se não o fez, talvez tenha voltado a crescer de novo.

- O senhor disse que ele fez testes. Um deles foi uma TAC?

- Sim.

- E, como é óbvio, tirou radiografias.

- Sim, sim.

- Se esses testes deram negativo, é porque não h nada para ver. Quanto a mim, penso que tiramos realmente tudo.

- Muito obrigado, doutor Pritchard. - Pangborn estava com uma certa dificuldade em formar palavras", os l bios pareciam dormentes e estranhos.

- Quando tudo estiver resolvido, ser que me pode contar aquilo que aconteceu mais em pormenor, xerife? Fui muito franco com o senhor e este parece ser um pequeno favor a pedir em retribuição. Estou muito curioso.

- Se puder, assim o farei.

- • tudo o que peço. Agora, vou deix -lo voltar para seu trabalho e eu vou voltar para as minhas férias.

- Espero que o senhor e a sua esposa estejam a passar um bom tempo.

Pritchard suspirou.

- Na minha idade, tenho de me esforçar cada vez mais para passar apenas um momento sofrivel, xerife. Antigamente, ador vamos fazer campismo mas creio que, para o próximo ano, iremos ficar em casa.

- Bem, agradeço-lhe muito ter-se dado ao trabalho de responder … minha chamada.

- De nada. Sabe, xerife Pangborn, tenho saudades do meu trabalho. Não da mística da cirurgia, nunca me importei com isso, mas do misté'rio. O mistério da mente. Isso era extremamente excitante.

- Imagino que sim - concordou Alan, pensando que seria um homem muito feliz se, neste preciso momento, houvesse um pouco menos de mistério mental na sua vida. - Entrarei em contacto com o senhor se e quando as coisas... se esclarecerem.

- Muito obrigado, xerife. - Fez uma pausa e depois acrescentou: - Este é um assunto de grande preocupação para o senhor, não é?

- Sim. é, sim, senhor.

- Lembro-me que o rapaz era encantador. Assustadiço, mas encantador. Que género de homem é ele agora?

- Um bom homem, penso eu - respondeu Alan. - Talvez um pouco frio, talvez um pouco distante, mas, no fundo, um bom homem. - E repetiu: - Penso eu.

- Muito obrigado. Vou deix -lo em paz para tratar dos seus assuntos. Adeus, xerife Pangborn.

Ouviu-se um estalido na linha e, lentamente, Alan colocou o auscultador no descanso. Recostou-se para tr s na cadeira, dobrou as mãos geis e fez um grande p ssaro preto bater lentamente as asas ao atravessar o remendo de sol na parede do escritório. Veio-lhe … cabeça uma fala do Feiticeiro de o£l, que não parou de ressoar no seu espírito: "Eu acredito realmente em fantasmas, eu acredito realmente em fantasmas, eu acredito, acredito, acredito, realmente em fantasmas!" Fora o Leão Cobarde que o dissera, não fora?

A questão era saber em que é que ele acreditava.

Para Alan, era mais f cil pensar nas coisas em que não acreditava. Alan não acreditava que Thad Beaumont tivesse assassinado quem quer que fosse. Também não acreditava que Thad tivesse escrito aquela frase criptica na parede de ninguem.

Nesse caso, como é que l fora parar?

• Muito simples. O velho doutor Pritchard apanhara um avião em Fort Laramie em direcção ao leste, matara Frede rick Clawson, escrevera "OS PARDAIS ESTŽo A VOAR e DE NOVO" na parede deste £ltimo, em Washington, apanhara um outro avião para Nova Iorque, abrira a fechadura de Miriam Cowley com o seu bisturi favorito e fizera-lhe a mesma coisa. Operava-os porque tinha saudades do mistério da cirurgia.

Não, est claro que não. Mas Pritchard não era o £nico que sabia da existência do - como é que ele o chamara? - precursor sensorial de Thad. Era um facto que não aparecera na revista People, mas...

"Est s a esquecer-te das impressões digitais e das impressões vocais. Est s a esquecer-te da afirmação serena e assertiva de Thad e de Liz de que George Stark é real, de que este est disposto a cometer assassinios de forma a MANTER-SE real. E, neste momento, est s a esforçar-te ao m ximo para não investigares o facto de estares a começar a acreditar que talvez tudo isto possa ser verdade. Disseste-lhes que era de loucos acreditar não apenas num fantasma vingador mas, ainda por cima, no fantasma de um homem que nunca existiu. Mas talvez os escritores CONVIDEM fantasmas" juntamente com os actores e artistas, eles constituem os £nicos médiuns totalmente aceites da nossa sociedade. Inventam mundos que nunca existiram, povoam-nos com pessoas que nunca existiram e, depois, convidam-nos a juntarmo-nos a eles nas suas fantasias.

E é isso que fazemos, não é? Sim. Nós PAGAMOS para o fazer."

Alan apertou as mãos com força, esticou os dedos rosados e, de seguida, lançou um p ssaro muito mais pequeno a voar através da parede banhada pelo sol. Um pardal.

"Não é possível explicar os pardais que atacaram o Hospital do M£nicípio de Bergenfield h quase trinta anos, tal como não é possível explicar o facto de dois homens poderem ter as mesmas impressões digitais e vocais. Mas, agora j sabes que Thad Beaumont partilhou o £tero com uma outra pessoa. Com um estranho."

Hugh Pritchard mencionara o início precoce da puberdade.

Subitamente, Alan Pangborn deu por si a perguntar-se se o crescimento daquele tecido estranho não coincidiria com outracoisa.

Perguntou-se se não teria começado a crescer na mesma altura que Thad Beaumont se iníciara na literatura.

2

O intercom£nicador na sua secret ria soou, assustando-o.

Era Sheila de novo.

- O Fuzzy Martin na linha um, Alan. Ele quer falar consigo.

- O Fuzzy? Mas que raio é que ele quer?

- Não sei. Não me quis dizer.

- Meu Deus - replicou Alan. - Era só o que me faltava hoje.

Fuzzy possuia uma vasta porção de terreno l para os lados da Estrada Secund ria 2, a cerca de sete quilómetros de Castle Lake. Em tempos, a quinta Martin fora uma florescente leitaria, mas isso acontecera na época em que Fuzzy' era ainda conhecido pelo nome de baptismo, Albert, e conseguia ainda segurar a garrafa de uisque e não o contr rio. Os filhos estavam crescidos, a mulher abandonara-o h dez anos considerando-o um caso perdido e, agora, Fuzzy dirigia sozinho mais de vinte e sete acres de campos que, lenta mas regularmente, iam voltando ao seu estado selvagem.

No lado oeste da propriedade, por onde a Estrada Secund ria 2 entrava por ali adentro em direcção ao lago, erguiam-se a casa e o celeiro. Este £ltimo, que outrora albergara quarenta vacas, era um edifício gigantesco, com o telhado agora bastante inclinado para tr s, a pintura a estalar e a maioria das janelas tapadas com quadrados de caixotes de cartão. h mais de quatro anos que Alan e Trevor Hartland, os chefes do Departamento de Bombeiros de Castle Rock, se encontravam … espera que a casa Martin, o r celeiro Martin ou ambos pegassem fogo.

- Quer que lhe diga que não est ? - perguntou Sheila.

- O Clut acabou de chegar. Podia passar-lhe a chamada.

Por um instante, Alan ponderou nesta hipótese, acabando por suspirar e abanar a cabeça.

- Eu falo com ele, Sheila. Obrigado.

Alan pegou no auscultador e susteve-o entre o ouvido e o ombro.

- Chefe Pangborn?

- Sim, é o xerife que est a falar.

- Daqui Fuzzy Martin, na N£mero Dois. Talvez tenha um problema aqui, chefe.

- Ah, sim? - Alan puxou o segundo telefone na secret ria para junto dele. Este era a linha directa para os outros gabinetes no Edifício M£nícipal. A ponta do dedo patinou em redor do botão quadrado com o n£mero 4 gravado.

Bastava-lhe levantar o auscultador e carregar no botão para falar com Trevor Hartland. - E que tipo de problema é esse?

- Bem, chefe, que eu seja cego, surdo e mudo se sei ao certo. Se fosse um carro que conhecesse, chamaria a isso o Grande Roubo do Carro. Mas não era. Nunca o tinha visto em toda a minha vida. Mas, ainda assim, saiu de dentro do meu celeiro.

Alan empurrou o telefone que ligava aos outros gabinetes para o lugar habitual. Deus ajudava os loucos e os bêbedos - um facto que Alan aprendera nos seus muitos anos de trabalho na Polícia - e parecia que, apesar do h bito de Fuzzy em lançar beatas acesas de cigarro aqui, ali e por onde quer que passasse sempre que se encontrava bêbedo, a casa e o celeiro ainda se mantinham de pé. "Agora, a £nica coisa que posso fazer", pensou Alan, "• ficar muito bem sentadinho enquanto ele desbobina o problema, seja ele qual for. Depois, vou concluir - ou tentar concluir - se o problema faz parte do mundo real ou se est apenas dentro daquilo que ainda resta da cabeça do Fuzzy."

Alan deu por si com as mãos a voarem em forma de pardal através da parede, fazendo-as parar.

- Que carro foi esse que saiu de dentro do teu celeiro, Albert? - perguntou Alan pacientemente. Quase toda a gente na Rock (incluindo o proprio) o tratava por Albert Fuzzy, e mesmo o próprio Alan poderia tentar fazê-lo depois de estar na vila mais outros dez anos. Ou talvez vinte.

- J Lhe disse que nunca o tinha visto antes - retorquiu Fuzzy Martin, num tom que deixava transparecer com tanta clareza as palavras "oh, seu grande idiota" que mais valia ele tê-las dito. - Por isso é que Lhe estou a telefonar, chefe. Um dos meus é que não era de certeza.

Por fim, começou a formar-se uma imagem no espirito de Alan. Com a partida das vacas, dos filhos e da esposa, Fuzzy Martin não precisava assim tanto de dinheiro - quando herdara a terra do pai, esta passou para ele sem quaisquer encargos, excepto os impostos. Todo o dinheiro a que Fuzzy conseguia deitar a mão provinha das fontes mais estranhas. De facto, Alan acreditava, tinha praticamente a certeza, de que todos os dois meses ou coisa assim, um fardo ou dois de marijuana iam fazer companhia … palha na parte de cima do celeiro de Fuzzy, e esse era apenas um dos esquemazitos deste £ltimo. De vez em quando, Alan pensava que devia fazer um esforço a sério para prender Fuzzy por posse de droga com intenção de venda, mas tinha as suas sérias d£vidas de que Fuzzy chegasse a fumar o material, quanto mais a ter miolos suficientes para o vender.

O mais prov vel é que, de tempos a tempos, ganhasse cem ou duzentos dólares a arranjar espaço para guardar o material. e mesmo numa cidadezinha como Castle Rock, havia coisas mais importantes a fazer do que prender bêbados por arrecadarem erva. Um dos outros servicos de armazenamento de Fuzzy - este, pelo menos, legal - era guardar carros no celeiro para os veraneantes. Quando Alan chegou … cidade, o celeiro de Fuzzy era um parque de estacionamento habitual.

Era possível entrar-se l dentro e ver até quinze carros - a maioria dos quais carros de Verão pertencentes a pessoas que tinham casas junto ao lago - arrumados onde as vacas costumavam passar os Invernos. Fuzzy deitara abaixo as divisórias para construir nesse espaço uma grande garagem, onde os carros de Verão ficavam guardados durante os longos meses de Outono e Inverno na doce penumbra do cheiro a palha, com as superfícies brilhantes embotadas pela queda regular de palha velha do andar de cima, e estacionados para-choques contra para-choques e lado contra lado. Com o decorrer dos anos, o negocio da garagem de carros de Fuzzy decaira radicalmente. Alan estava convencido que o h bito descuidado de fumar de Fuzzy se espalhara pela vila, tendo deitado tudo a perder. Ninguem deseja perder o carro no incêndio de um celeiro, mesmo quando se trata de uma carripana antiga que ainda se utiliza de vez em quando para fazer recados quando o Verão chega. A ultima vez que fora … quinta de Fuzzy, Alan vira apenas dois carros no celeiro: o T-Bird de 59 - um carro que seria um classico se não tivesse tanta ferrugem e não estivesse tão maltratado - de Ossie Brannigan, e a velha carrinha Ford Woody de Thad Beaumont.

Thad de novo. Hoje, parecia que todas as estradas iam dar de volta a Thad Beaumont.

Alan empertigou-se na cadeira, puxando inconscientemente o telefone para mais junto de si.

- Não seria o velho Ford de Thad Beaumont? - perguntou de seguida a Fuzzy. - De certeza?

- Claro que tenho a certeza. Não era nenhum Ford e, raios me partam, mas também não era nenhuma carrinha Woody. Era um Toronado preto.

Uma outra chama acendeu-se na mente de Alan... mas este não tinha bem a certeza do motivo. Alguem Lhe contara algo sobre um Toronado preto, e h bem pouco tempo.

Pangborn não se conseguia recordar de quem fora ou quando tinha sido, pelo menos não agora... mas acabaria pOr lhe vir … cabeça.

- Eu estava por acaso na cozinha, a arranjar para mim uma limonada bem fresquinha - prosseguia Fuzzy - quando vi aquele carro a sair do celeiro, em marcha atr s.

A primeira coisa em que pensei foi que não tinha guardado nenhum carro como aquele. A segunda coisa em que pensei foi como é que, antes de mais nada, alguem tinha conseguido l entrar, quando existe um grande aloquete Kreig na porta do celeiro e eu tenho preso no meu anel a £nica chave que o abre.

- e as pessoas que tem os carros guardados l dentro?

Elas não têm chaves?

- Não senhor! - Fuzzy pareceu extremamente ofendido apenas com a ideia em si.

- Por acaso não fixaste o n£mero da matrícula, pois não?

- Pode ter bem a certeza que a fixei! - gritou Fuzy. - Então não tenho o maldito binóculo Jee£ly aqui no parapeito da janela da cozinha?!

Alan, que estivera no celeiro acompanhado por Trevor Hartland em visitas de inspecção mas nunca na cozinha de Fuzzy (e, muito obrigado, mas não pretendia fazer uma visita desse tipo tão brevemente), retorquiu:

- Ah, sim. O binóculo. Tinha-me esquecido dele.

- Pois eu não! - retorquiu Fuzzi com uma ferocidade alegre. - Tem aí um l pis?

- Claro que sim, Albert.

- Chefe, porque é que não me chama apenas Fuzzy, como todas as pessoas?

Alan suspirou.

- Muito bem, Fuzzy. e j que estamos nisto, porque é que não me chamas apenas xerife?

- O que quiser. Agora, quer o n£mero da matrícula?

- Desembucha.

- Em primeiro lugar, era uma matrícula do Mississipi - explicou Fuzzy com um certo tom de triunfo na voz.

- Que raio é que me diz a isto?

Alan não sabia muito bem o que dizer a isso... só sabia que uma terceira chama se acendera algures na sua cabesa, esta ainda mais intensa do que as outras. Um Toronado. E o Mississipi. Havia alguma coisa sobre o Mississipi.

E uma cidade. Oxford? Seria Oxford? Como aquela a duas vilas de distƒncia daqui?

- Não sei - respondeu Alan. De seguida, suponho que era aquilo que Fuzzy queria ouvir, afirmou: - Parece bastante suspeito.

- e tem toda a razão! - exultou Fuzzy, acabando por pigarrear e adoptar uma voz grave, como se estivesse a fazer um negócio. - Muito bem. Matricula seis, dois, dois, oito, quatro do Mississipi. Apanhou, chefe?

- Seis, dois, dois, oito, quatro.

- Seis, dois, dois, oito, quatro, e bem pode levar isto para o maldito banco. Suspeito! Nem diga mais! Foi exactamente isso que eu pensei! Jesus comeu uma lata de feijões!

Perante a imagem de Jesus a engasgar-se com uma lata de feijões Alan teve de cobrir o bocal por um outro breve instante.

- Então - perguntou Fuzzy - diga-me l que acções é que vai tomar?

"Vou tentar acabar esta conversa com a minha sanidade intacta,,, pensou Alan. "Essa é a primeira coisa que vou fazer. e vou tentar lembrar-me de quem foi que referiu..."

Foi então que Lhe veio tudo … cabeça, num lampejo de esplendor frio que fez os braços ficarem cobertos de pele de galinha e a pele na parte de tr s do pescoço ficar tão esticada e retesada quanto um tambor.

Ao telefone com Thad. Não muito tempo depois de o psicopata ter telefonado do apartamento de Miriam Cowley. Na noite em que a febre homícida começara verdadeiramente.

Ela ouvira Thad dizer: "Ele mudou-se de New Hamphshire para Oxford, no Mississipi com a mãe... perdeu toda a pron£ncia do Sul excepto um £nico traço."

Que mais contara Thad quando descrevera George Stark ao telefone?

"–ltima coisa: talvez esteja a guiar um Toronado preto.

Não sei de que ano. De qualquer forma, é um dos antigos que deitava imenso fumo por debaixo da capota. Preto.

• possível que a matrícula seja do Mississipi mas também é prov vel que a tenha trocado."

- Penso que deve ter andado bastante ocupado para ter tempo para fazer isso - murmurou Alan. A pele de galinha cobria ainda todo o seu corpo, com os seus milhares de pézinhos.

- Que foi que disse, chefe?

- Nada, Albert. Estava a falar sozinho.

- A minha mãe costumava dizer que isso significava que se ia ganhar algum dinheiro. Talvez também eu deva começar a fazer isso.

Subitamente, Alan lembrou-se de que Thad acrescentara algo mais - um pormenor final.

- Albert...

- Chame-me Fuzzy, chefe. j Lhe disse.

- Fuzzy, o carro que viste tinha algum autocolante no p ra-choques? Talvez tenhas notado...

- Como é que sabe uma coisa dessas? Tem algum interesse por esse motor, chefe? - perguntou Fuzzy, ansioso.

- Deixa l as perguntas, Fuzzy. Trata-se de um assunto de polícia. Conseguiste ver o que dizia?

- Est claro que sim - respondeu Fuzzy Martin. - "FILHO DA MãE PRESUNçOSO", era o que dizia. Acredita numa coisa destas?

Lentamente, Alan Pangborn desligou o telefone, acreditando naquilo, mas dizendo para si mesmo que isso nada provava, nada mesmo... excepto talvez que Thad Beaumont estava com os pirolitos trocados. Seria totalmente est£pido pensar que aquilo que Fuzzy vira provava que alguma coisa... bem, alguma coisa sobrenatural, na falta de melhor palavra... se estava a passar.

Pensou então nas impressões vocais e nas impressões digitais, pensou nas centenas de p ssaros a chocarem contra as janelas do Hospital do M£nícipio de Bergenfield County e, por fim, foi totalmente subjugado por um ataque de arrepios intensos que durou praticamente um minuto inteiro.

3

Alan Pangborn não era um cobarde nem um provinciano superstícioso que se benzia na presença de corvos, mantinha as gr vidas longe de leite fresco por temer que elas o azedassem.

Não era um pacóvio do campo" não era susceptível …s lisonjas dos finórios da cidade que queriam vender pontes famosas por um preço barato." Alan Pangborn não nascera ontem.

Acreditava nas explicações lógicas e razo veis. Assim, esperou que o ataque de arrepios passasse e, de seguida, puxou o Rolodexl para diante de si e encontrou o n£mero de telefone de Thad. Com uma graça forçada, verificou que o n£mero no cartão e o n£mero que tinha na cabeça condiziam. Aparentemente, o eminente "tipo escritor" de Castle Rock ficara arraigado na sua cabeça com bastante mais firmeza - pelo menos uma certa parte - do que Alan imaginara.

Tinha de ser Thad quem estava naquele carro. Se se eliminar a parte maluca, que outra alternativa é que se tem?

Ele descreveu-o. Como é que se chamava aquele concurso antigo da r dio? "Diga o Nome e é Seu".

O Hospital do M£nícipio de Bergenfield fora, de facto, atacado por pardais.

E havia outras perguntas" demasiadas perguntas.

Thad e a familia estavam a ser protegidos pela Polícia Estadual do Maine. Se tivessem decidido fazer as malas e fossem até ali passar o fim-de-semana, os rapazes da Pol‹cia deviam ter-lhe dado uma telefonadela" em parte para o avisarem, em parte como um gesto de cortesia. Mas a polícia estadual teria tentado dissuadir Thad de fazer essa viagem, agora que, l em Ludlow, a vigilƒncia de protecção se transformara um pouco numa rotina. Mas se a viagem tivesse sido decidida num impulso, os esforços para fazerem Thad mudar de ideias deveriam ter sido ainda mais persistentes.

Depois havia aquilo que Fuzzy não vira - nomeadamente, o carro ou carros de protecção que teriam sido atribuidos aos Beaumont se, de qualquer modo, eles tivessem decidido levar a viagem avante... como o podiam muito u bem ter feito" afinal de contas, eles não eram prisioneiros. "Geralmente, as pessoas com tumores cerebrais fazem coisas muito estranhas."

Se se tratava do Toronado de Thad, e se este se deslocara … quinta do Fuzzy para o ir buscar, e se tivesse ido sozinho, isso levava a uma conclusão que Alan considerava ser muito desagrad vel porque ele até gostava de Thad. Era a seguinte: que ele se livrara deliberadamente tanto da familia como dos protectores.

"Ainda assim, se foi esse o caso, a polícia estadual devia ter-me telefonado. Deviam ter lançado um aviso pois sabiam perfeitamente que este era um dos sítios prov veis para onde ele deveria vir."

Alan marcou o n£mero de telefone dos Beaumont. ao primeiro toque, foi atendido. Uma voz que não conhecia veio ao telefone. O que era o mesmo que dizer que era uma voz … qual sabia atribuir um nome. Que estava a falar com um agente de polícia foi algo que descobriu logo … primeira sílaba.

- Estou? Daqui residência dos Beaumont.

Cauteloso. Pronto a introduzir uma resma de perguntas na pausa seguinte se, por acaso, a voz fosse a correcta... ou a errada.

"Que foi que aconteceu?" interrogou-se Pangborn, e logo de seguida: "Eles estão mortos. Quem quer que ande por aí matou toda a familia, com a mesma rapidez, facilidade e crueldade que mostrou com os outros. A protecção, os interrogatórios, o equipamento de localização das chamadas...

tudo isso para nada.,, Ao responder, nem um só sinal destes pensamentos transpareceu na sua voz.

- Daqui Alan Pangborn - disse energicamente. - O xerife do m£nícipio de Castle. Estou a telefonar para falar com Thad Beaumont. Posso saber com quem estou a falar?

Seguiu-se uma pausa, após a qual a voz respondeu:

- Daqui Steve Harrison, xerife. Polícia Estadual do Maine. Ia agora mesmo telefonar-lhe. j o devia ter feito h pelo menos uma hora atr s. Mas, aqui, as coisas... aqui.

as coisas estão todas de pernas para o ar. Posso saber porque e que telefonou?

Sem um intervalo para pensar - isso teria certamente alterado a sua resposta - Alan mentiu. Fê-lo sem se perguntar a si próprio porque é que o teria feito. Isso viria mais tarde.

- Telefonei para saber como estava o Thad - respondeu. - J passou algum tempo e queria saber como é que iam as coisas. Presumo que tenha havido problemas.

- Problemas tão grandes que nem vai acreditar - retorquiu Harrison de forma severa. - Dois dos meus homens morreram. Temos a certeza absoluta de que foi Beaumont.

Temos a certeza absoluta de que foi Beaumont.

A estranheza dos seus actos parece aumentar em proporção directa com a inteligência do homem ou mulher atacados por este mal.

Alan teve a sensação que um certo deja vu estava não apenas a insinuar-se na sua mente mas também a marchar sobre todo o seu corpo como um exército invasor. Thad, ia tudo sempre dar a Thad. Era óbvio. Era inteligente, era peculiar e, de acordo com o que o próprio admitira, estava a evidênciar sintomas que sugeriam um tumor cerebral.

"Mas, o senhor sabe, o rapaz não tinha nenhum tumor cerebral."

"Se esses testes deram negativo, é porque não h nada para ver."

"Esquece o tumor. • nos pardais que queres pensar neste preciso momento - porque os pardais estão a voar de novo."

- Que foi que aconteceu?

- Ele praticamente cortou Tom Chatterton e Jack Eddings em postas, foi isso que aconteceu! - gritou Harrison, espantando Alan com a intensidade da sua raiva. - Levou a familia com ele e eu quero aquele filho da mãe!

- Que foi... como é que ele fugiu?

- Não tenho tempo para entrar nesses pormenores - replicou Harrison. - • uma história terrível, xerife. Ele estava a guiar um Chevrolet Suburban vermelho e cinzento, uma maldita baleia sobre rodas, mas c para nós ele desfez-se dele e arranjou um outro carro. Ele tem uma casa de Verão ai. Conhece o local e o traçado da casa, não conhece?

- Sim - respondeu Alan, com a cabeça a cem … hora.

Olhou para o relógio e viu que passava cerca de um minuto das três e quarenta. Horas. No fundo, ia tudo dar …s horas. E foi então que se deu conta de que não perguntara a Martin Fuzzy que horas eram quando ele vira o Toronado a sair do celeiro. Naquela altura, não parecera importante. Agora j parecia. - A que horas é que o perderam, agente Harrison?

Alan teve a sensação de conseguir sentir Harrison a deitar fumo com essa pergunta mas, quando este respondeu, fê-lo sem raiva e sem estar na defensiva.

- Por volta do meio-dia e meia. Deve ter levado algum tempo a trocar de carro, se foi isso que fez, e depois dirigiu-se para a casa dele em Ludlow...

- Onde é que ele estava quando o perderam? Estava muito distante da casa dele?

- Xerife, teria todo o gosto em responder a todas as suas perguntas, mas não temos tempo. O facto é que, se ele se dirigiu para a casa que tem aí (parece improv vel mas o tipo é maluco, portanto nunca se sabe), ainda não pode ter chegado, mas estar aí muito em breve. Ele e a maldita família. Seria muito agrad vel se o senhor e dois dos seus homens estivessem presentes para Lhes dar as boas-vindas. Se alguma coisa acontecer, basta chamar Henry Payton por r dio na esquadra da Polícia Estadual de Oxford e enviaremos mais reforços do que alguma vez viu em toda a sua vida. Não tente prendê-lo sozinho sob nenhuma circunstƒncia. Estamos a partir do princípio de que a mulher foi feita refém, se é que j não est morta, e o mesmo acontece com os mi£dos.

- Sim, ele teria de ter levado a mulher a força se realmente matou os agentes em serviço, não era? - Alan concordou e deu por si a pensar: "Mas, se pudesses, contar-Lhes-ia tudo, não era? Porque j decidiste o que vais fazer e não vais fazer nenhuma concessão. Raios, homem, nem sequer vais pensar, de forma racional ou de outra forma, até o sangue secar nas veias dos teus amigos."

Havia d£zias de perguntas que gostaria de fazer, e as respostas a essas primeiras dariam provavelmente azo a outras quatro d£zias. Mas, num ponto, Harrison tinha razão.

Não havia tempo a perder.

Por um instante, Alan hesitou, desejando ansiosamente perguntar a Harrison sobre a coisa mais importante de todas, desejando fazer a pergunta do jackpot: tinha Harrison a certeza de que Thad teria tido tempo para voltar a casa, matar os homens que estavam a vigi -la e fugir com a familia, tudo isto antes da chegada dos primeiros reforços? Porém, fazer essa pergunta seria tocar na ferida com que, neste preciso momento, esse tal de Harrison se estava a debater, porque, subjacente a essa questão, estava aquela condenação censuradora e irrefut vel: "Vocês perderam-no. De alguma forma, vocês perderam-no. Tinham um trabalho a cumprir e lixaram tudo."

- Posso confiar em si, xerife? - inquiriu Harrison, e agora a sua voz não parecia zangada mas apenas cansada e devastada, e a compaixão de Alan foi ao seu encontro.

- Sim. Vou mandar cobrir o lugar de polícias imediatamente.

- Ÿptimo. e vai manter-se em contacto com a Central de Oxford?

- Sem d£vida. Henry Payton é um amigo.

- Xerife, Beaumont é perigoso. Extremamente perigoso. Se ele aparecer por aí, tenha cuidado.

- Terei.

- e mantenha-me informado. - Harrison desligou o telefone sem se despedir.

4

O seu espirito - pelo menos naquela parte que se preocupava com o protocolo - despertou e começou a colocar uma série de questões... ou a tentar. Alan concluiu que não havia tempo a perder com o protocolo. Sob nenhuma das suas formas. Iria simplesmente manter todos os circuitos possiveis abertos e ir em frente. Alan tinha a sensação de que as coisas haviam chegado ao ponto em que alguns desses circuitos começariam, em breve, a fechar-se sobre si mesmos de acordo com a própria vontade.

"Pelo menos chama alguns dos teus homens."

Mas Alan considerava que também isso ele ainda não estava preparado para fazer. Norris Ridgewick, aquele que teria preferido. tinha o seu dia de folga e ausentara-se da cidade. John LaPointe estava ainda acamado devido a uma intoxicação. Seat Thomas estava de patrulha. Andy Clutterbuck estava l , mas Clut era um noviço e este era um trabalho complicado e sujo.

Teria de fazer o trabalho sozinho, pelo menos por enquanto.

"Est s louco!", berrou o protocolo na mente dele.

- Talvez esteja a chegar a esse ponto - retorquiu Alan em voz alta. Procurou o n£mero de Albert Martin na agenda e telefonou-lhe para fazer todas as perguntas que deveria ter feito logo da primeira vez.

5

- A que horas é que viste o Toronado a sair do teu celeiro em marcha atr s, Fuzzy? - perguntou quando Martin atendeu o telefone, tendo pensado: "Ele não sabe. Raios, tenho séerias d£vidas de que ele saiba sequer ver as horas.

Mas Fuzzy provou de imediato que Pangborn era um mentiroso.

- Passava uma merdinha de nada das três, chefe. - De seguida, após uma pausa ponderada: - DeSculpe l o meu francés.

- Mas só telefonaste …s... - Alan passou os olhos pela folha do dia, onde apontara a chamada de Fuzzy sem sequer se dar ao trabalho de pensar nela. - …s três e trinta e oito.

- Tive de pensar no assunto - explicou Fuzzy. - Um homem deve sempre olhar antes de saltar, chefe. Pelo menos e assim que vejo as coisas. Antes de Lhe telefonar, desci até ao celeiro para ver se a pessoa que tinha levado o carro estava a preparar mais alguma por l .

"A preparar mais alguma", pensou Alan, perplexo. "J que l estavas, foste mas foi provavelmente verificar o fardo de erva que estava no sotão, não foi, Fuzzy?"

- e estava?

- Estava a quê?

- A preparar mais alguma.

- Não me parece.

- Em que condições é que estava a fechadura?

- Aberta - respondeu Fuzzy com vigor.

- Forçada?

- Não. Apenas segura pelo ferrolho com o braço aberto.

- Achas que usaram chave?

- Não sei de onde é que a chave poderia ter vindo.

Acho que o tipo a deve ter aberto com uma gazua.

- Ele estava sozinho no carro? - inquiriu Alan.

- Tens a certeza?

Fuzzy fez uma pausa, reflectindo.

- Não tenho a certeza absoluta - disse por fim. - Sei em que é que est a pensar, chefe" se eu fui capaz de fixar a matrícula e ler aquele autocolante espertinho na traseira do carro, devia ser capaz de dizer quantos tipos é que estavam l dentro. Mas o sol estava a bater nos vidros e, de qualquer forma, também me quer parecer que não eram vidros normais. Acho que tinham uma ligeira tonalidade. Não muita mas um niquito.

- Muito bem, Fuzzy. Obrigado. Vou verificar tudo isso.

- Bem, ele foi-se embora daqui - disse Fuzzy, acrescentando num lampejo brilhante de dedução: - Mas tem de estar em algum lado.

- Não tenhas d£vidas - replicou Alan. Prometeu contar a Fuzzy "em que é que aquilo iria dar" e desligou o telefone, afastando-o para longe de si na secret ria. De seguida olhou para o relógio.

"Três", dissera Fuzzy. "Passava uma merdinha de nada das três, desculpe l o meu francês."

Na falta de uma viagem de foguetão, Alan estava convencido que não havia forma nenhuma de Thad ir de Ludlow a Castle Rock em três horas, sobretudo quando teria ainda de fazer uma viagem de volta até sua casa - uma viagenzinha durante a qual, acidentalmente, raptara a mulher e os filhos e matara dois agentes estaduais. Talvez conseguisse se tivesse vindo directo de Ludlow, mas vir de um outro lugar qualquer, parar em Ludlow e, depois, chegar a Castle Rock a tempo para abrir uma fechadura com uma gazua e ir-se embora num Toronado que, por mero acaso, tinha convenientemente escondido no celeiro de Martin Fuzzy? Nem pensar. Mas, e supondo que uma outra pessoa tivesse morto os agentes na casa dos Beaumont e levado a familia de Thad? Alguem que não tivesse de andar para aí a tentar despistar a escolta polícial, a trocar de carros e a fazer viagens de ida e volta? Alguem que se limitara a enfiar Liz Beaumont e os gémeos num carro e partira para Castle Rock?

Alan acreditava que eles podiam ter chegado ali a tempo e a horas para Fuzzy Martin os ver pouco depois das três da tarde.

Podiam perfeitamente ter conseguido isso se fosse preciso andar na esgalha.

A polícia - leia-se o agente estadual Harrison, pelo menos para j - pensava que tinha de ser Thad" contudo, Harrison e os seus compadres não sabiam nada sobre o To ronado.

Matrícula do Mississipi, dissera Fuzzy.

De acordo com a biografia fictícia do homem criada por Thad, Mississipé era o estado natal de George Stark. Se Thad era sufícientemente esquizofrénico para pensar que era Stark, pelo menos durante uma parte do tempo, podia muito bem ter arranjado para si próprio um Toronado preto para aumentar a ilusão, ou fantasia, ou o que quer que fosse... mas, para conseguir arranjar a matricula, teria não só de ter visitado o Mississipi como ainda de provar que l residia.

"Isso é uma estupidez. Ele podia muito bem ter roubado uma matricula do Mississipi. Ou comprado uma antiga. Fuzzy não disse nada quanto ao ano da matricula - de qualquer forma, talvez não conseguisse ver isso de onde estava, nem mesmo com o binóculo."

Mas não se tratava do carro de Thad. Não podia ser Liz saberia, não saberia?

"Talvez não. Se ele é sufícientemente maluco, talvez não."

Depois havia a porta fechada … chave. Como é que Thad teria conseguido entrar no celeiro sem forçar a fechadura? Ele era um escritor e um professor, não um arrombador.

"Uma chave dupla", murmurou o espirito de Alan, embora este não estivesse muito convencido disso. Se Fuzzy guardava realmente, de vez em quando, uma espécie esquisita de tabaco, Alan tinha a certeza de que ele seria suficientemente cuidadoso para não deixar as chaves espalhadas por aí, por muito descuidado que fosse com as beatas dos cigarros.

E, uma £ltima pergunta - o assassino: como é que Fuzzy não vira aquele Toronado preto antes, se este se encontrava guardado no seu celeiro desde sempre? Como é que isso podia ser?

"Tenta o seguinte", sussurrou uma voz na parte de tr s do seu espirito enquanto Alan pegava no chapéu e deixava o gabinete. "Alan, esta é uma ideia bastante engraçada.

Vais rir-te. Vais rir-te a bandeiras despregadas. Suponhamos que Thad Beaumont esteve sempre certo desde o inicio?

Suponhamos que existe mesmo um monstro chamado George Stark … solta por aí... e os elementos da sua vida os elementos que Thad criou, passam a existir sempre que ele precisa deles? SEMPRE que precisa deles mas nem sempre ONDE precisa deles. Porque eles acabam sempre por aparecer nos locais relacionados com a vida primeira do seu criador. Deste modo, Stark teria de ir buscar o carro … garagem onde Thad guarda o dele, tal como teve de começar a partir do cemitério onde, simbolicamente, Thad o enterrou. Não achas isto maravilhoso? Não é de gritos?"

Alan não achava nada daquilo maravilhoso nem de gritos.

Nem sequer era remotamente engraçado. Lançava um risco ameaçador não apenas sobre tudo aquilo em que acreditava mas também sobre o modo como fora ensinado a pensar.

Alan deu por si a recordar-se de algo que Thad dissera.

"Quando escrevo, não sei quem sou eu." Não eram bem essas palavras mas estava l próximo. "E o que é mais espantoso ainda é que só agora me dei conta disso."

- Tu eras ele, não eras? - perguntou Alan de forma branda. - Tu eras ele e ele eras tu e foi assim que o assassino cresceu, e a história começou.

Alan foi percorrido por um arrepio e Sheila Brigham levantou os olhos da m quina de escrever sobre a sua secret ria a tempo de ver.

- Est muito calor para isso, Alan. Deve estar a chocar uma gripe.

- A chocar alguma coisa, creio eu - respondeu Alan.

- Mantenha-se atenta ao telefone, Sheila. Todas as coisas pequenas que surgirem passe para o Seat Thomas. Todas as coisas grandes para mim. Onde est o Clut?

- Estou aqui! - A voz de Clut veio do interior dos lavabos.

- Espero estar de volta daqui a cerca de quarenta e cinco minutos! - gritou-lhe Alan. - Fica a tomar conta disto até eu voltar!

- Aonde é que vai, Alan? - Clut saiu da casa de banho dos homens, a meter a camisa cor de caqui para dentro das calças.

- Ao lago - respondeu Alan de modo vago, saindo antes de Clut ou Sheila terem tempo de fazer mais perguntas...

ou antes que ele próprio tivesse tempo de pensar naquilo que estava a fazer. Ir-se embora sem um destino predeterminado numa situação como esta era uma péssima ideia. Era estar … espera de mais do que apenas sarilhos"

era estar … espera de ser morto.

Mas aquilo em que ele estava a pensar.

("os pardais estão a voar de novo")

não podia, pura e simplesmente, ser verdade. Não podia.

Tinha de existir uma explicação mais razo vel.

Alan estava ainda a tentar convencer-se deste facto quando conduziu o carro-patrulha para fora da vila, rumo ao pior sarilho da sua vida.

Existia uma rea de serviço na Estrada 5, a cerca de quinhentos metros de distƒncia da propriedade de Fuzzy Martin. Alan virou o carro e entrou nessa zona, seguindo algo que era um misto de palpite e de capricho. A parte do palpite era bastante simples: com ou sem Toronado preto, eles não podiam ter vindo de Ludlow até ali num tapete m gico. Tinham de ter vindo num carro. O que significava que deveria haver um carro abandonado algures por aí.

O homem de quem ele andava atr s abandonara a carrinha de Homer Gamache numa zona de estacionamento na berma da estrada quando por l passara, e o que um criminoso faz uma vez, torna a fazer de novo.

Alan podia ver três veículos estacionados no parque: um camião de cerveja, um Ford Escort novo e um Volvo coberto de poeira da estrada.

Ao sair do carro-patrulha, um homem num fato-macaco verde saiu da casa de banho dos homens e dirigiu-se para a cabina do camião de cerveja. Era baixo, de cabelo escuro e ombros estreitos. Não era George Stark.

- Senhor guarda - disse ele, cumprimentando Alan ao de leve. Este acenou a cabeça e caminhou em direcção ao local onde se encontravam três senhoras mais idosas, sentadas numa das mesas de piquenique, a beber café de um termo e a falar.

- Ol , senhor guarda - interpelou uma delas. - Podemos ser-lhe £til em alguma coisa? - "Ou ser que fizemos algo de errado?" perguntaram os olhos momentaneamente ansiosos.

- Só queria saber se o Ford e o Volvo ali estacionados pertencem a alguma das senhoras - explicou Alan.

- O Ford é meu - retorquiu uma segunda. - Viemos todas nesse carro. Não sei nada quanto a esse Volvo. • por causa daquela coisa do autocolante? Aquela porcaria do autocolante caiu de novo? • suposto o meu filho tomar conta disso mas ele é tão esquecido! Com quarenta e três anos de idade, e eu ainda tenho de lembrar que...

- Não h problema nenhum com o seu autocolante, minha senhora - respondeu Alan, tentando dar o seu melhor sorriso - O Polícia é Seu Amigo. - Nenhuma das senhoras viu por acaso o Volvo a entrar aqui para dentro, pois não?

As três abanaram a cabeça.

- Nos £ltimos minutos, viram alguem que possa ser o dono do carro?

- Não - respondeu a terceira senhora, que o fitou com uns olhinhos vivos de gerbo. - Anda na peugada, senhor guarda?

- Desculpe?

- Isto é, se anda atr s de algum criminoso.

- Oh - exclamou Alan, sentindo um instante de irrealidade. O que é que ele estava exactamente a fazer ali? O que é que estava exactamente … espera de encontrar ali? - Não, minha senhora. é que eu gosto de Volvos. - Meu Deus, como ele soava a inteligente. Soava precisamente a... um maldito... presunçoso.

- Ah! - exclamou a primeira senhora. - Bem, não vimos ninguem. Gostaria de tomar café, senhor guarda? Creio que temos precisamente o sufíciente para uma ch vena.

- Não, muito obrigado - respondeu Alan. - Tenham um bom dia, minhas senhoras.

- O senhor também, senhor guarda - responderam as três em coro, numa sintonia quase perfeita, que fez com que Alan se sentisse mais irreal do que nunca.

Alan voltou a caminhar em direcção ao Volvo. Tentou abrir a porta do lado do condutor. Esta abriu. O interior do carro transmitia a sensação de um sotão abafado. h j algum tempo que ali estava parado. Alan olhou para o banco de tr s e viu um pacotezinho, um pouco maior do que um pacote de adoçante, no chão. Debruçou-se por entre os assentos e apanhou-o.

HANDI-WIPEt, dizia o pacote, e Pangborn teve a sensação de que alguem deixara cair uma bola de bowling no est“mago.

"Não quer dizer nada", ergueu-se de imediato a voz do Protocolo e da Razão. "Pelo menos, não necessariamente. Sei em que é que est s a pensar: est s a pensar em bebés. Mas, Alan, pelo amor de Deus, eles dão estas coisas nas tendas … beira da estrada que vendem frango."

Ainda assim...

Alan enfiou o Handi-Wipe num dos bolsos da camisa da farda e saiu do carro. Estava prestes a fechar a porta quando se debruçou de novo para dentro do carro. Tentou olhar para debaixo do tablier mas não conseguia fazê-lo de pé. Teve de p“r-se de joelhos.

Alguem deixou cair uma outra bola de bowling. Alan soltou um som abafado - o som de um homem a quem tinham batido com força.

Os fios de ignição estavam suspensos, com o isolamento de cobre afastado e ligeiramente retorcido. O nó, sabia Alan, era justificado pelo facto de os fios terem sido retorcidos em conjunto. O Volvo pegara por meio de ligação directa e, pelo aspecto, fora uma ligação directa muito eficaz.

O condutor agarrara nos fios acima dos arames nus e separara-os de novo para parar o motor quando aqui tinham estacionado o carro.

Então, sempre era verdade... pelo menos uma parte.

A grande questão era saber que parte. Alan começava a sentir-se como um homem cada vez mais próximo de uma queda potêncialmente fatal.

Regressou ao carro-patrulha, ligou-o e tirou o microfone do suporte.

"Qual é verdade?" sussurram o Protocolo e a Razão.

Meu Deus, que voz tão irritante. "Que alguem se encontra na casa do lago dos Beaumont? Sim, isso até pode ser verdade.

Que alguem chamado George Stark saíra de marcha atr s com o Toronado preto do celeiro de Fuzzy Martin?

V l , Alan."

Dois pensamentos atravessaram a sua mente quase de imediato. O primeiro foi que, se ele contactasse Henry Payton na Esquadra da Polícia Estadual em Oxford, tal como Harrison Lhe pedira para fazer, podia nunca vir a saber como tudo aquilo acabara. Lake Lane, onde se situava a casa de Verão dos Beaumont, era um beco sem saída.

A Polícia Estadual ordenar-lhe-ia que não se aproximasse da casa sozinho - não um agente sozinho, não quando eles suspeitavam que o homem que tinha Liz e os gémeos presos era culpado de, pelo menos, doze mortes. Eles iriam querer que ele bloqueasse a estrada e nada mais enquanto enviavam uma frota de carros-patrulha, talvez até um helicóptero, e, tanto quanto Alan sabia, alguns contratorpedeiros e aviões de caça.

O segundo pensamento foi sobre Stark.

Eles não estavam a pensar em Stark" eles nem sequer sabiam da existência de Stark.

- Mas, e se Stark for real?

Se fosse esse o caso, Alan estava prestes a concluir que enviar um grupo de agentes estaduais que não conheciam nada de Lake Lane seria como mandar carne para canhão.

Alan p“s o microfone de volta no suporte. Ele iria até l , e iria até l sozinho. Talvez estivesse enganado, provavelmente estava, mas era isso que faria. Alan conseguia viver com o pensamento da sua própria estupidez." Deus sabia que j tinha feito isso anteriormente. No entanto, não conseguiria viver com a possibilidade de ter causado as mortes de uma mulher e de dois bebés por causa de uma chamada por r dio para pedir reforços sem conhecer a verdadeira natureza da situação.

Alan conduziu o carro para fora da rea de serviço e dirigiu-se para Lake Lane.