A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 13 de 26

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A Metade Sombria

Alan saíra para ir falar com o…

Dezasseis

GEORGE STARK TELEFONA

1

Alan saíra para ir falar com o Dr. Hume e os agentes do FBI estavam apenas a concluir o interrogatório - se é que essa é a palavra correcta para algo que parecia ser tão peculiarmente cansativo e sem método - quando George Stark telefonou. A chamada chegou menos de cinco minutos depois de os técnicos da polícia estadual (que se chamavam a si próprios "os homens das linhas") se terem finalmente dado por satisfeitos com os acessórios com que haviam equipado os telefones dos Beaumont.

Tinham ficado indignados, mas, aparentemente, não muito surpreendidos, por verificarem que, sob o exterior moderno dos telefones Merlin dos Beaumont, teriam de haver com o antiquado sistema de marcação rotativo da vib X de Ludlow.

- é difícil de acreditar - observou o homem das linhas que se chamava Wes (num tom de voz que sugeria que, na verdade, não era de se esperar mais nada aqui na terra-de-ninguém).

Lentamente, o outro homem das linhas, Dave, dirigia-se para o camião de caixa fechada com a intenção de ir buscar os adaptadores apropriados de que pudessem vira necessitar para colocar os telefones dos Beaumont em sintonia, na lei, tal como ela existe nos £ltimos anos do século xx. Wes revirou os olhos, tendo, de seguida, olhado para Thad, como se este o devesse ter informado logo desde o início de que ainda estava a viver na era pioneira dos telefones.

Qualquer um dos homens das linhas limitou-se a lançar um r pido olhar de relance pelos homens do FBI que tinham voado até Bangor vindos da filial em Bóston e, de seguida, atravessado heroicamente de carro a região selvagem infestada de ursos e lobos entre Bangor e Ludlow. Os homens do FBI bem que podiam existir num espectro de luz inteiramente diferente, tão invisível para os homens das linhas da polícia estadual como raios infravermelhos ou raios X.

- Todos os telefones da vila são assim - disse Thad humildemente, ciente de que estava a começar a padecer de uma azia incomodativa. Em circunstƒncias normais, teria ficado de mau humor e de trato difícil. Contudo, nesse dia, apenas se sentia cansado, vulner vel e terrivelmente triste.

Os pensamentos dele acabavam sempre por se virar para o pai de Rick, que vivia em Tucson, e para os pais de Miriam, que viviam em San Luis Obispo. Em que é que o velho Sr. Cowley estaria a pensar naquele exacto momento? Em que é que os Penningtons estariam a pensar? Como é que estas pessoas, muitas vezes referidas em conversas mas nunca de facto apresentadas, estariam a enfrentar a situação? Como é que se lidaria não apenas com a morte de um filho, mas com a morte inesperada de um filho adulto? Como é que se lidaria com o facto simples e irracional do assassínio?

Thad deu-se conta de que estava a pensar nos sobreviventes e não nas vítimas por uma razão muito simples e depressiva: sentia-se respons vel por tudo. Porque não? Se não fosse ele o culpado pelo aparecimento de George Stark, quem éque seria? Bobcat Goldthwaite'? Alexander Haig? O facto de o antiquado sistema de marcação rotativa que ainda se encontrava em uso nesta região tornar inesperadamente difícil a colocação de escutas nos telefones era mais uma outra coisa da qual se sentia culpado.

- Penso que est tudo, senhor Beaumont - disse um dos homens do FBI, que estivera a rever os seus apontamentos, aparentemente tão esquecido da presença de Wes e de Dave como os dois homens das linhas estavam da sua. De seguida, o agente de nome Malone fechou o bloco de notas com uma pequena sacudidela. O bloco era encadernado a couro, com as iniciais do agente discretamente gravadas a prata no canto inferior esquerdo da capa. O agente vestia um fato cinzento conservador, e o cabelo estava penteado para o lado esquerdo, dividido por uma linha que parecia ter sido feita com uma régua. - Tens mais alguma coisa, Bill?

Bill, também conhecido por agente Prebble, fechou o seu próprio bloco de notas - também encadernado a couro, mas sem iniciais - com uma sacudidela e abanou a cabeça.

- Não. Penso que é tudo. - O agente Prebble vestia um fato castanho conservador. Também o cabelo deste estava penteado para o lado esquerdo, dividido por uma linha que parecia ter sido feita com uma régua. - Talvez mais tarde, no decurso da investigação, possamos ter mais algumas questões, mas, para j , temos aquilo de que precisamos.

Gostaríamos de agradecer aos dois pela vossa colaboração. - O agente lançou-lhes um sorriso aberto, revelando uns dentes onde tinham sido colocadas coroas ou que eram tão perfeitos que acabavam por ser estranhos. Thad reflectiu: "Se f“ssemos cinco, penso que teria dado a cada um certificado de "HOJE FOI UM DIA DE CARA RISONHA!" para levarmos para casa e mostrarmos … mamã."

- De nada - retorquiu Liz numa voz lenta e distraída, massajando ao de leve a têmpora esquerda com as pontas dos dedos, como se estivesse no início de uma terrível dor de cabeça.

"Provavelmente", pensou Thad, "est mesmo." Olhou depois de relance para o relógio na prateleira da lareira e viu que j passava das duas e meia. Seria esta a tarde mais longa da sua vida? Apesar de não gostar de fazer juízos apressados, era isso que temia.

Liz levantou-se.

- Caso não haja problemas, creio que vou descansar um pouco. Não me sinto l muito bem.

- Essa é uma boa... - Ideia era, est claro, o que ele pretendia dizer para rematar a conversa, mas, antes que o pudesse fazer, o telefone soou.

Olharam todos para o aparelho, e Thad começou a sentir o pescoço a latejar com força. Uma bolha fresca de cido, quente e abrasadora, começou a subir lentamente pelo peito acima, parecendo espalhar-se pela parte de tr s da garganta.

- óptimo - disse Wes satisfeito. - Assim não precisamos de mandar ninguém … rua para fazer uma chamada de experiência.

De repente, Thad teve a sensação de que estava envolvido por um manto de ar frio, que o seguiu quando se dirigiu para o telefone, que agora partilhava a mesa com uma engenhoca que se assemelhava a um tijolo de lucite com luzes cravadas num dos lados. Uma das luzes acendia sempre que o telefone tocava.

"Onde estão os p ssaros? Eu devia estar a ouvir os p ssaros." Mas não havia p ssaros alguns; o £nico som audível era o toque exigente do telefone Merlin.

Wes encontrava-se ajoelhado junto … lareira, a arrumar as ferramentas numa mala preta que, com os seus trincos cromados de tamanho grande, se assemelhava … marmita de uM trabalhador. Dave estava encostado … entrada da porta que separava a sala de estar da sala de jantar. Perguntara a Liz se podia comer uma das bananas que se encontravam numa fruteira sobre a mesa, estando agora a descasc -la de modo absorto, interrompendo a operação de tempos a tempos para examinar o seu trabalho com o olhar crítico de um artista que se debate com a sua criação.

- Porque é que não vais buscar o verificador do circuito? - perguntou este £ltimo a Wes. - Se for preciso alguma clarificação da linha, podemos fazer isso enquanto aqui estamos. Pode poupar-nos uma segunda viagem.

- Boa ideia - retorquiu Wes, tirando da marmita de tamanho gigante algo semelhante a uma coronha de pistola.

Ambos os homens pareciam estar ligeiramente na expectativa e nada mais. Os agentes Malone e Prebble estavam de pé, a guardar os blocos de notas e a sacudir a ponta aguçada dos vincos das pernas das calças. Na generalidade, confirmavam a primeira opinião de Thad: estes homens assemelhavam-se mais a consultores de impostos da H&R Block do que a agentes especiais com ordem para matar. Malone e Prebble pareciam nem dar pelo telefone a tocar.

Mas Liz dava. Parara de esfregar a têmpora e estava a olhar para Thad com os olhos arregalados e assustados de um animal encurralado. Prebble estava a agradecer-lhe o café e as bolachas, e parecia não estar ciente quer da sua incapacidade de Lhe responder quer de o telefone estar a tocar.

"Que é que se passa com esta gente?" Subitamente, Thad teve vontade de gritar. "Antes de mais nada, por que carga de gua é que instalaram todo este equipamento?"

Estava a ser injusto, claro. Porque, de facto, seria uma grande coincidência se a primeira pessoa a telefonar para os Beaumont uns meros cinco minutos depois de a instalação do equipamento de escuta e localização de chamadas estar completa fosse o homem de quem andavam atr s... ou pelo menos era isso que diriam se alguém se tivesse dado ao trabalho de Lhes perguntar. As coisas não acontecem dessa forma no mundo maravilhoso da lei tal como esta existe nos £ltimos anos do século xx, teriam eles dito. Thad, é um outro escritor que Lhe est a telefonar para Lhe falar sobre uma ideia que acabou de ter quanto a um enredo ou talvez alguém que queira saber se a sua mulher pode dispensar uma ch vena de aç£car. Mas o tipo que pensa ser o seu alter-ego? Nem pensar, amigo. • muito cedo, era muita sorte.

Só que era Stark. Thad conseguia cheir -lo. E, ao olhar para Liz, apercebeu-se de que esta também sabia.

Neste momento, Wes estava a olhar para ele, sem d£vida alguma a interrogar-se por que é que Thad não atendia o telefone, agora que j possuía um aparelho de escuta novinho em folha.

"Não te preocupes", pensou Thad. "Não te preocupes.

ele vai esperar. é que ele sabe que nós estamos em casa."

- Bem, penso que os vamos deixar em paz, senhora Beau... - começou Prebble, tendo Liz respondido numa voz calma mas terrivelmente pesarosa:

- Penso que talvez seja melhor os senhores esperarem, por favor.

Thad atendeu o telefone e gritou:

- Que é que tu queres, seu filho da mãe? Que porra é que queres?

Wes deu um salto. Dave estacou quando se preparava para dar a primeira dentada na banana. A cabeça dos agentes federais viraram-se de imediato. Thad deu por si próprio a desejar com uma intensa ang£stia que Alan Pangborn ali estivesse em vez de estar a falar com o Dr. Hume l em Orono.

Também Alan não acreditava em Stark, pelo menos por enquanto, mas ao menos ele era humano. Thad sup“s que estes outros também pudessem ser humanos, mas tinha sérias d£vidas quanto ao facto de eles saberem ou não que ele e Liz também o eram.

- é ele, é ele! - disse Liz para Prebble.

- Oh, meu Deus - retorquiu Prebble. Ele e o outro agente intrépido da lei trocaram entre si um olhar de perplexidade: "Que porra é que fazemos agora?"

Thad ouviu e viu estas coisas mas estava longe delas.

Longe até de Liz. Agora, só existiam ele e Stark. Juntos de novo pela primeira vez, como os antigos anunciantes de vaudeville costumavam dizer.

- Acalma-te, Thad - disse George Stark, que parecia divertido. - Não h necessidade alguma de te irritares assim tanto. - Era a voz que ele esperara.

Os dois homens das linhas conferenciaram entre si por um instante, tendo Dave, de seguida, desatado a correr em direcção ao camião de caixa fechada e ao telefone auxiliar.

Segurava ainda a banana na mão. Wes correu para as escadas da cave para verificar se o gravador activado por voz estava a funcionar.

Os lacaios intrépidos do Efe Bê I ficaram no meio da sala de estar, a entreolharem-se. Davam a impressão de que desejavam p“r os braços … volta um do outro … guisa de consolo, como bebés perdidos nas matas.

- O que é que tu queres? - repetiu Thad numa voz mais serena.

- Ora, apenas dizer-te que est tudo acabado - replicou Stark. - Apanhei o £ltimo ao meio-dia de hoje: aquela rapariguinha que costumava trabalhar na Darwin Press. E para o chefe do departamento de contabilidade? - indagou ele. - Foi ela quem começou por meter aquele rapaz, Clawson, em toda esta história - prosseguiu Stark. - Os polícias vão encontr -la; ela tem uma casa na Segunda Avenida, no sentido de quem desce para a baixa da cidade. Uma parte dela est espalhada pelo chão; coloquei o resto sobre a mesa da cozinha.

- Riu-se. - Tem sido uma semana atarefada, Thad. Tenho andado a saltitar com tanta rapidez como um coxo num concurso de pontapés no rabo. Telefonei apenas para te tranquilizar.

- Não me parece que haja alguma coisa de tranquilizante - retorquiu Thad.

- Bem, d tempo ao tempo, velha carcaça; d tempo ao tempo. Acho que vou para sul, vou fazer umas quantas pescarias. Esta cidade cansa-me muito. - Stark lançou uma gargalhada, um som tão monstruosamente animado que fez Thad ficar todo arrepiado.

Ele estava a mentir.

Thad estava tão certo disto como de que Stark esperara até o equipamento de escuta e localização de chamadas estar instalado para fazer a chamada. Poderia ele saber uma coisa como essa? A resposta era "sim". Apesar de Stark estar a telefonar de um local qualquer da cidade de Nova Iorque, os dois estavam unidos entre si pelo mesmo laço invisível mas ineg vel que, normalmente, liga um par de gémeos. Eles eram gémeos, metades do mesmo todo, e Thad estava aterrorizado ao ver que uma parte de si estava a deixar o seu corpo, a deixar-se levar através da linha telefónica, não todo o caminho até Nova Iorque, não, mas até metade; encontrar o monstro no centro deste umbigo, possivelmente no Massachussetts Ocidental, onde os dois se encontrariam e se fundiriam de novo, da mesma forma que, de algum modo, se tinham encontrado e fundido sempre que Thad colocara a capa sobre a m quina de escrever e preferido um daqueles malditos l pis Berol Black Beauty.

- Seu cabrão mentiroso! - gritou Thad.

Os agentes do FBI saltaram como se tivessem sido enrabados.

- Olha, Thad, isso não é l muito simp tico! - replicou Stark, parecendo magoado. - Pensavas que eu te ia fazer mal?

Raios, não! Filho, eu estava a vingar-me por ti!

Sempre soube que tinha de ser eu a fazer isso. Sei que és um grande medroso, mas não penses que fico ressentido;

são precisas todo o género de pessoas para fazer girar um mundo tão atarefado como o nosso. Porque raio é que me daria ao trabalho de me vingar por ti se, depois, ia arranjar as coisas para tu não poderes apreci -las?

Os dedos de Thad tinham-se aproximado da pequena cicatriz branca na testa, esfregando-a com força suficiente para ficar com a pele avermelhada. Thad deu por si a tentar - a tentar desesperadamente - agarrar-se a si mesmo.

Agarrar-se … própria realidade b sica.

"Ele est a mentir e eu sei porquê, e ele sabe disso, sabe que não importa porque ninguém vai acreditar em mim.

Sabe como tudo isto parece estranho para eles, e sabe que eles estão a ouvir e aquilo em que eles pensam... mas também sabe como eles pensam, e isso f -lo sentir seguro.

Acreditam que ele é um psicopata que pensa que é George Stark, porque é isso que é suposto eles pensarem. Pensar de outra forma seria ir contra tudo o que aprenderam, contra tudo aquilo que são. Nem todas as impressões digitais no mundo mudarão isso. Ele sabe que se der a entender que não é George Stark, que se der a entender que finalmente descortinou isso, eles ficarão mais descansados. Não irão retirar a protecção policial... mas ele pode apress -los."

- Sabes de quem partiu a ideia de te enterrar. Partiu de mim.

- Não, não! - disse Stark facilmente. - Est s enganado, é tudo. Quando aquele nojento do Clawson apareceu, ele deitou-te abaixo por uma insignificƒncia: foi isso que aconteceu. Depois, falaste com aquele macaco amestrado que se autointitulava teu agente liter rio, e ele deu-te um conselho realmente mau. Thad, foi como se alguém tivesse feito uma grande porcaria na mesa da tua sala de jantar e tu tivesses telefonado para uma pessoa em quem confiavas para lhe perguntares o que havias de fazer, e essa pessoa te tivesse dito: "Não h problema nenhum; despeja um pouco de molho de porco sobre aquilo. Merda com moLho de porco sabe muito bem numa noite fria." Nunca terias feito aquilo que fizeste por ti próprio. Tenho a certeza disso. velha carcaça.

- Isso é uma maldita mentira e tu sabes!

E, subitamente, Thad apercebeu-se de quão perfeito isto era, e de quão bem Stark entendia as pessoas com quem lidava. "Ele vai sair-se com essa muito em breve. Ele vai sair-se com essa e dizer que não é George Stark. E eles vão acreditar quando ele fizer isso. Vão ouvir a gravação que est a ser feita na cave neste preciso momento, e vão acreditar no que ele disser, Alan e todos os outros. Porque isso não é apenas aquilo em que querem acreditar, é aquilo em que j acreditam."

- Não sei do que é que est s a falar - retorquiu Stark muito calmo, quase amistoso. - Não te vou incomodar mais, Thad, mas, antes de ir, permite-me que te dê mais um pequeno conselho, que talvez te possa ser £til: não te ponhas a pensar que sou George Stark. Esse foi o erro que eu cometi. Tive de ir matar uma data de gente apenas para p“r a minha cabeça de novo no lugar.

Thad ouviu isto, completamente fulminado. Havia coisas que era suposto ele estar a dizer. No entanto, Thad parecia não conseguir ultrapassar aquele sentimento esquisito de separação do próprio corpo e este outro sentimento de perplexidade perante o desplante puro e perfeito deste homem.

Pensou na conversa in£til que mantivera com Alan Pangborn, e interrogou-se de novo sobre quem seria ele quando inventara Stark, que começara apenas por ser uma outra história. Onde se situava exactamente a linha da crença? Ser que ele criara aquele monstro por, de algum modo, ter perdido aquela linha ou ser que existia um outro factor qualquer, um factor X que não conseguia ver mas apenas ouvir nos chilreios daqueles p ssaros fantasmas?

- Não sei - estava a dizer Stark com uma gargalhada f cil - , talvez, na verdade, seja tão maluco como eles costumavam dizer quando estava naquele sítio.

"Oh, óptimo, isso é óptimo, leva-o a procurar nos asilos de loucos do sul por um homem alto, de ombros largos e cabelo louro. Apesar de não os afastar a todos, j é um bom começo, não é?"

Thad segurou no telefone com mais firmeza, com a cabeça agora a pulsar com uma raiva doentia.

- Mas não estou nada arrependido de o ter feito porque eu realmente adorava aqueles livros, Thad. Quando eu estava... l ... naquele sítio de loucos... penso que eram as £nicas coisas que me mantinham são. E sabes que mais'> Agora sinto-me muito melhor. Tenho a certeza de quem sou, e isso j é alguma coisa. Penso que se pode chamar …quilo que fiz uma terapia, mas não me parece que tenha muito futuro, pois não?

- Raios te partam, p ra de mentir! - berrou Thad.

- Até que podíamos falar sobre isso - retorquiu Stark. - Podíamos falar sobre isso enquanto íamos ao Inferno e volt vamos, mas iria demorar um bocado. Aposto que eles te disseram para me manteres na linha, não foi?

- "Não. Eles não precisam de ti na linha. E tu também sabes isso."

- D cumprimentos meus … tua encantadora mulher - prosseguiu Stark num tom que quase soou a reverência. - Toma conta dos teus bebés. E tu tem cuidado contigo, Thad. Não te vou incomodar mais. é... - E os p ssaros? - perguntou Thad subitamente. - Ouves os p ssaros, George?

Seguiu-se um silêncio inesperado na linha. Thad pareceu sentir um toque de surpresa nesse silêncio... como se, pela primeira vez no decurso da conversa, algo não estivesse a correr de acordo com o guião cuidadosamente preparado por George Stark. Ele não sabia exactamente porquê, mas era como se os seus terminais nervosos possuíssem um certo entendimento misterioso que o resto dele não possuía.

Thad sentiu um instante de triunfo impetuoso: o género de triunfo que um pugilista amador deve sentir ao furar a guarda de Mike Tyson e, por momentos, deix -lo perplexo enquanto é esmurrado.

- George: ouves os p ssaros?

O tiquetaque do relógio sobre a prateleira da lareira constituía o £nico som audível na sala. Liz e os agentes do FBI olhavam fixamente para ele.

- Não sei de que é que est s a falar, velha carcaça - retorquiu Stark lentamente. - Ser que tu...

- Não - afirmou Thad, rindo-se desvairadamente. Os dedos continuavam a esfregar a pequena cicatriz branca na testa, cuja forma se assemelhava ligeiramente a um ponto de interrogação. - Não, tu não sabes de que é que eu estou a falar, pois não? Bem, agora vais ouvir-me por um minuto, George. Eu ouço os p ssaros. Ainda não sei o que é que eles significam... mas hei-de l chegar. E quando souber...

E foi aí que as palavras pararam de sair. Quando soubesse, o que é que aconteceria? Thad não sabia.

Lentamente e com grande ponderação e ênfase, a voz do outro lado da linha afirmou:

- Thad, não estou interessado em saber em que é que est s a falar. Porque isto j acabou.

Ouviu-se um estalido. Stark fora-se. Thad sentiu-se como se estivesse a ser puxado através da linha do telefone a partir daquele ponto de encontro mítico no Massachussetts Ocidental, puxado não … velocidade do som ou da luz mas … do pensamento, e atirado de novo com força para tr s, para o seu próprio corpo, Stark nu de novo.

"Meu Deus."

Thad largou o telefone, tendo este ido cair de lado sobre o gancho. Virou-se, caminhando sobre pernas que davam a sensação de serem andas, não se dando ao trabalho de p“r o telefone no devido lugar.

Dave entrou a correr na sala vindo de um lado e Wes de outro.

- Funcionou …s mil maravilhas! - gritou Wes. Os agentes do FBI deram mais um salto. Malone lançou um gritinho, muito parecido com aquele geralmente atribuído …s mulheres nas bandas desenhadas quando acabam de ver um rato. Thad tentou imaginar como é que estes dois se sairiam num confronto com um bando de terroristas ou assaltantes de banco dispostos a matar, mas não conseguiu.

"Talvez esteja apenas demasiado cansado", pensou.

Os dois homens das linhas deram um passinho de dança desajeitado, dando palmadinhas nas costas um do outro.

De seguida, precipitaram-se os dois para a carrinha do equipamento.

- Era ele - disse Thad a Liz. - Ele disse que não era, mas era ele. Ele.

Liz aproximou-se do marido, tendo-o abraçado com força, e ele precisava disso - só quando ela assim o fez é que Thad se apercebeu do quanto precisava desse abraço.

- Eu sei - sussurrou ela ao ouvido de Thad, que mergulhou o rosto no cabelo dela e fechou os olhos.

2

A gritaria acordara os gémeos; estavam ambos a chorar a plenos pulmões no andar de cima. Liz foi ter com eles.

Thad começou a segui-la, mas voltou atr s para colocar o auscultador no lugar sobre o gancho. Este voltou a tocar.

Alan Pangborn estava do outro lado da linha. Fizera uma paragem na Central da Polícia Estadual de Orono para tomar um café antes do encontro com o Dr. Hume, e estava aí quando Dave, o homem das linhas, enviara por r dio a novidade da chamada e dos resultados preliminares da sua localização. Alan parecia estar muito animado.

- Ainda não localiz mos a chamada por completo mas sabemos que veio da cidade de Nova Iorque, código de rea duzentos e doze - disse ele. - Mais cinco minutos e conseguimos a localização correcta.

- Era ele - repetiu Thad. - Era Stark. Afirmou que não era, mas era ele. Alguém tem de ir ver o que se passa com a rapariga que ele mencionou. O nome é provavelmente Darla Gates.

- A cabra de Vassar com os maus h bitos nasais?

- Exacto - respondeu Thad, embora duvidasse que Darla tivesse de se voltar a preocupar com o nariz dela, de uma forma ou de outra. Thad sentiu-se imensamente cansado.

- Vou passar o nome para o DPNI. Como é que se sente, Thad?

- Estou bem.

- E Liz?

- Ponha de parte as boas maneiras por agora, est bem? Ouviu aquilo que eu disse? Era ele. Não importa o que ele disse, era ele.

- Bem... porque é que não esperamos e vemos o que resulta da localização?

Havia algo na voz dele que Thad nunca escutara até então. Não o género de incredulidade cautelosa que evidenciara quando se dera conta, pela primeira vez, de que os Beaumont estavam a falar sobre George Stark como alguém que existia realmente, mas uma espécie de constrangimento. Thad teria evitado com a maior das alegrias ter-se apercebido deste facto mas era demasiado claro na voz do xerife. Constrangimento, e de um tipo muito especial - o género que se sentia por alguém demasiado perturbado ou est£pido ou talvez demasiado insensato para sentir isso por si próprio. Thad sentiu uma pontada de graça amarga ao pensar nesta ideia.

- Muito bem, vamos esperar e ver - concordou Thad.

- E enquanto aguardamos e vemos, espero que se apresse. - Pangborn começou a falar sobre ter de fazer uma outra chamada antes de se ir embora, mas, subitamente, Thad deixou de se interessar. O cido estava de novo a infiltrar-se pelo est“mago acima e, desta vez, era um vulcão.

"George matreiro", pensou ele. "Eles pensam que vêem através dele. Ele quer que eles pensem assim. Ele est a vê-los a olhar através dele e, quando se forem embora, quando estiverem suficientemente longe, o velho George matreiro vai chegar no Toronado preto. E que vou eu fazer para trav -lo?"

Thad não sabia.

Desligou o telefone, cortando o fio de voz de Alan Pangborn, e foi até ao andar de cima ajudar Liz a mudar os gémeos e a vesti-los para a tarde.

E não parou de pensar no modo como se sentira, como se sentira ser, de alguma forma, encurralado numa linha telefónica que atravessa por debaixo da terra a região rural do Massachussets Ocidental, encurralado aqui em baixo no escuro com o velho George Stark matreiro. Thad sentira-se como se estivesse em Endsville.

3

Dez minutos mais tarde, o telefone tocou de novo. Deixou de tocar a meio do segundo toque, tendo Wes, o homem das linhas, chamado Thad ao telefone. Este desceu as escadas para atender a chamada.

- Onde estão os agentes do FBI? - perguntou a Wes.

Por um instante, Thad esperou realmente que Wes dissesse "Agentes do FBI? Não vi quaisquer agentes do FBI."

- Eles? Saíram. - Wes encolheu os ombros com força, como que a perguntar a Thad se era de esperar outra coisa.

- Têm todos aqueles computadores, e se não brincam com eles, aposto que as pessoas se interrogam porque é que os computadores estão tanto tempo desligados. Ainda Lhes faziam um corte no orçamento, ou coisa parecida.

- Eles fazem alguma coisa?

- Nadinha - replicou Wes simplesmente. - Não em casos como estes. Ou se fazem, nunca estive por perto quando o fizeram. L que escrevem coisas, disso não h d£vida.

Depois, põem-nas dentro de um computador num lugar qualquer. E como lhe digo.

- Compreendo.

- Eu e o Dave também nos vamos embora - informou Wes olhando para o relógio. - O equipamento funciona sozinho. O senhor nem sequer vai receber a conta.

- óptimo - disse Thad, dirigindo-se para o telefone.

- E obrigado.

- Sempre …s ordens, senhor Beaumont.

Thad virou-se.

- Se quisesse ler um dos seus livros, acha que me safaria melhor com um dos que escreveu com o seu nome ou com um dos outros com o nome do outro tipo?

- Tente o outro tipo - retorquiu Thad, pegando no telefone. - Tem mais acção.

Wes acenou a cabeça, esboçou um cumprimento e saiu.

- Est l ? - disse Thad, com a impressão de que, em breve, deveria enxertar um telefone num dos lados da cabeça.

Pouparia tempo e complicação. Com equipamento de gravação e localização de chamadas incorporado, est claro. E poderia andar com ele por aí numa mochila.

- Ol , Thad. Alan. Ainda estou na Esquadra da Polícia Estadual. Ouça: as notícias sobre a localização da chamada não são tão boas quanto isso. O seu amigo fez a chamada de uma cabina telefónica na Estação Penn.

Thad recordou-se daquilo que o outro homem das linhas, Dave, dissera quanto a instalar todo aquele dispendioso equipamento de alta tecnologia para localizar uma chamada numa cabina telefónica num centro comercial algures por aí.

- Est surpreendido?

- Não. Desapontado, mas não surpreendido. Continuamos … espera de um deslize e, quer acredite quer não, mais cedo ou mais tarde, geralmente conseguimos um.

Gostaria de passar por aí esta noite, est bem?

- Tudo bem - anuiu Thad - , porque não? Se as coisas ficarem monótonas, podemos sempre jogar brídege.

- Esperamos conseguir ter as impressões vocais prontas.

- Então, arranjam a impressão da voz dele, e depois?

- Não é impressão. Impressões.

- Eu não...

- Uma impressão vocal é um gr fico gerado por computador que regista com toda a exactidão as qualidades vocais de uma pessoa - explicou Pangborn. - Não tem nada a ver com a fala propriamente dita: não estamos interessados nas pron£ncias, deficiências da fala, dicção e esse género de coisas. O computador sintetiza, sim, o registo e o tom, aquilo a que os peritos chamam voz principal, e o timbre e a ressonƒncia, que são conhecidos como voz do peito ou da traqueia. São impressões digitais verbais e, tal como estas, ainda nunca ninguém descobriu duas que fossem exactamente iguais. Disseram-me que a diferença entre impressões vocais de gémeos idênticos é muito maior do que a diferença entre as impressões digitais. - Fez uma pausa. - Envi mos para o GFCL, em Washington, uma cópia de alta resolução da gravação que fizemos. O que vamos conseguir é uma comparação entre a sua impressão vocal e a dele. Os tipos aqui da Central da Polícia tiveram vontade de me dizer que eu não estava bom da cabeça.

Conseguia ler nos rostos deles, mas, depois das impressões digitais e do seu libi, ninguém teve a lata de aparecer e dizer o que quer que fosse.

Thad abriu a boca, tentou falar, mas não conseguiu.

Molhou os l bios, tentou de novo, mas continuou sem conseguir.

- Thad? Não me vai desligar o telefone de novo, pois não?

- Não - retorquiu ele e, subitamente, teve a sensação de que existia um grilo no meio das cordas vocais. - Muito obrigado, Alan.

- Não, não diga isso. Eu sei porque é que me est a agradecer mas não pretendo engan -lo. Tudo aquilo que estou a tentar fazer não passa do procedimento de investigação habitual. Neste caso, o procedimento é, sem d£vida, um pouco esquisito porque as circunstƒncias são também algo insólitas. Mas isso não significa que você faça suposições injustificadas. Est a perceber-me?

- Sim. O que é o GFCL?

- O G...? Oh. O Gabinete Federal de Cumprimento da Lei.

Talvez a £nica coisa boa que o Nixon fez durante todo o maldito tempo em que esteve na Casa Branca. é maioritariamente constituído por bancos de computador que funcionam como uma espécie de cƒmara de compensação central para os gabinetes locais de cumprimento da lei... e para os programadores que os põem a funcionar, est claro. Temos acesso …s impressões digitais de praticamente todas as pessoas na América condenadas por um delito grave desde aproximadamente mil novecentos e sessenta e nove. O gabinete fornece igualmente relatórios balísticos para comparação, os tipos de sangue dos criminosos quando disponíveis, impressões vocais, e fotografias de criminosos suspeitos criadas por computador.

- Portanto, vão ver se a minha voz e a dele...?

- Sim. Devemos ter os resultados por volta das sete ou, o mais tardar, …s oito, se os computadores por aqui estiverem todos a funcionar.

Thad estava a abanar a cabeça.

- Não tínhamos a voz nada parecida.

- Eu ouvi a gravação e estou ciente disso - disse Pangborn. - Vou repetir: a impressão vocal não tem nada a ver com a fala. Voz da cabeça e voz da traqueia, Thad. é disso que se trata e h uma grande diferença.

- Mas...

- Diga-me c uma coisa. O Elmer Fudd e Daffy Duck soam de igual modo para si?

Thad pestanejou.

- Bem... não.

- Para mim também não - retorquiu Pangborn - , mas é um tipo chamado Mel Blanc que faz as duas vozes... j para não falar nas vozes do Bugs Bunny, do Tweetie e Deus sabe quantos outros mais. Tenho de ir andando. Vejo-o logo … noite, est bem?

- Sim.

- Entre as sete e meia e as nove, certo?

- Estaremos … sua espera, Alan.

- Muito bem. Qualquer que seja o desenvolvimento desta história, amanhã tenho de estar de volta a Castle Rock e l terei de ficar, salvo no caso de algum acontecimento inesperado.

- Depois de ensinada, a criança tem de andar por si só!

não é? - perguntou Thad, tendo pensado: "Afinal de contas, é com isso que ele est a contar."

- Sim: tenho muitos outros peixes para fritar. Nenhum tão grande como este, mas as pessoas do m£nicípio de Castle pagam o meu sal rio para os apanhar. Sabe o que é que isso significa? - Para Thad, esta pareceu ser uma pergunta importante e não apenas um tapa-buracos ao longo da conversa.

- Sim, sei. - "Ambos sabemos. Eu... e o George matreiro....

- Tenho de voltar mas continuar a ver um carro-patrulha da polícia estadual parado … frente da sua casa vinte e quatro horas por dia até estar tudo acabado. Thad, esses tipos são duros. E, apesar de os polícias em Nova Iorque terem baixado um pouco as defesas, os Ursos que vão tomar conta de vocês não farão isso. Ninguém vai esquecê-lo, ou deix -lo a si e … sua família sozinhos a lidar com este problema. As pessoas vão trabalhar neste caso e, enquanto o estiverem a fazer, outras pessoas ficarão a tomar conta de si e dos seus. Não tem d£vidas acerca disto, pois não?

- Não. Não tenho d£vidas. - E pensou: "Hoje.

Amanhã. Na próxima semana. Talvez no próximo mês.

Mas, e no próximo ano? Nem pensar. Eu sei isso. E ele também sabe isso. Neste preciso momento, eles ainda não acreditam totalmente naquilo que Stark disse quanto a ter voltado … razão e a ter deixado tudo para tr s. Mais tarde, vão acreditar... … medida que as semanas passarem e nada acontecer, tornar-se- mais do que prudente para eles acreditarem nisso; tornar-se- também mais económico.

Porque eu e o George sabemos como o mundo gira … volta do Sol na sua trilha habitual, tal como sabemos que, mal toda a gente fique ocupada a fritar ou tros peixes, George ir aparecer e fritar-me- a mim.

4

Quinze minutos mais tarde, Alan encontrava-se ainda na Esquadra da Polícia Estadual de Orono, ainda ao telefone, e ainda … espera. Ouviu-se um estalido na linha. Uma mulher jovem dirigiu-se-lhe num tom ligeiramente atrapaLhado.

- Importa-se de esperar um bocadinho mais, chefe Pangborn?

Sabe, o computador est num dos seus dias, lentos.

Alan pensou em dizer-lhe que era xerife e não chefe, mas não se quis dar ao trabalho. Era um erro que toda a gente cometia.

- Claro - respondeu ele.

Clique.

Alan regressou … fase da espera, aquela versão do limbo do fim do século xx.

Estava sentado num gabinetezinho apertado bem nas traseiras da esquadra; um bocadinho mais afastado ainda e teria de ir tratar dos seus assuntos no meio do matagal. A sala estava repleta de dossiers poeirentos. A £nica secret ria existente era uma carteira de escola do tempo da guerra, com a superfície inclinada, uma tampa articulada e um tinteiro. Alan equilibrou-a sobre os joelhos, balançando-a indolentemente para tr s e para a frente dessa maneira. Ao mesmo tempo, rodava a folha de papel sobre a carteira. Escrito no papel pela pequena e bem proporcionada mão de Alan, estavam duas informações: "Hugh Pritchard" e "Hospital do Município de Bergenfield, Bergenfield, Nova Jérsia."

Alan pensou na £ltima conversa que mantivera com Thad, h meia hora atr s. Aquela em que Lhe explicara como os corajosos agentes estaduais o iriam proteger a ele e … esposa do velho psicopata mau que pensava ser George Stark, se o velho psicopata mau chegasse a aparecer. Alan perguntou-se a si próprio se Thad acreditara nisso. Tinha l as suas d£vidas;

estava convencido que um homem que escrevia ficção como ganha-pão tinha um faro especial para os contos de fadas.

Bem, eles tentariam proteger Thad e Liz; pelo menos isso. Mas Alan não conseguia tirar da lembrança algo que acontecera em Bangor, em 1985.

Uma mulher pedira e recebera protecção policial após o marido, de quem se encontrava separada, a ter espancado com bastante gravidade e ameaçado voltar de novo para mat -la, caso ela fosse para a frente com os papéis do di vórcio.

Durante duas semanas, o homem nada fizera. O Departamento de Polícia de Bangor estava prestes a reti rar a protecção quando o marido apareceu, a guiar uma carrinha de lavandaria e vestido com um uniforme verde com o nome da lavandaria estampado nas costas da camisa. Dirigira-se … porta, carregando um monte de roupa lavada. Se tivesse vindo mais cedo, quando a ordem de protecção estava ainda fresca, talvez a polícia tivesse reconhecido o homem, mesmo nessa roupa de trabalho, embora isso não fosse discutível; o facto é que não o reconheceram quando ele realmente apareceu. Bateu … porta e, quando a mulhera abriu, o marido tirou uma pistola de dentro do bolso das calças e matou-a a tiro. Antes que os polícias incumbidos de a protegerem se tivessem dado totalmente conta do que acontecera, j para não falar em saírem do carro, o homem j se encontrava no alpendre com as mãos levantadas. Lan çara a pistola fumegante para os arbustos de rosas.

- Não atirem - dissera ele com toda a calma. - J acabei.

Acabou por se descobrir que a carrinha e o uniforme tinham sido emprestadas por um velho compincha de bebida, que nem sequer sabia que o criminoso estava em litígio com a mulher.

O ponto da questão era simples: se alguém queria desesperadamente matar uma outra pessoa, e se esse alguém tivesse apenas um pouquinho de sorte, conseguiria apanh -la sem problemas de maior. Bastava pensar em Oswald; e em Chapman; bastava pensar naquilo que este Stark fizera a todas aquelas pessoas em Nova Iorque.

Clique.

- Ainda est aí, chefe? - perguntou de modo animado a voz feminina do Hospital do M£nicípio de Bergenfield.

- Sim - respondeu ele. - Ainda aqui.

- Tenho a informação que me pediu - retorquiu ela. - O doutor Hugh Pritchard reformou-se em mil novecentos e setenta e oito. Tenho uma morada e um telefone dele na cidade de Fort Laramie, Wyoming.

- Importa-se de mos dar?

Ela deu-os. Alan agradeceu-lhe, desligou o telefone e marcou o n£mero. O telefone lançou meio toque, sendo imediatamente interrompido por um gravador de chamadas que começou a recitar para o ouvido de Alan a mensagem gravada.

- Ol , daqui Hugh Pritchard - disse uma voz aborrecida.

"Bem", pensou Alan, "pelo menos o tipo ainda não bateu as botas: isso j é um passo na direcção certa." - Eu e a Helga não nos encontramos neste momento em casa.

Provavelmente estou a jogar golfe; Deus sabe o que é que a Helga andar a fazer. - Ouviu-se uma gargalhada débil, típica dos mais velhos. - Se quiser deixar alguma mensagem, por favor espere até ao sinal sonoro. Tem cerca de trinta segundos.

Bii-iEp!

- Doutor Pritchard, daqui fala o xerife Alan Pangborn - disse ele. - Trabalho para a Polícia do Maine.

Gostaria de falar com o senhor sobre um homem chamado Thad Beaumont. Em mil novecentos e sessenta, o senhor extraiu-lhe um tumor do cérebro, quando ele tinha onze anos.

Por favor, telefone-me a pagar no destinat rio para a Esquadra da Polícia Estadual de Orono n£mero dois, zero, sete, cinco, cinco, cinco, dois, um, dois, um. Muito obrigado.

Pangborn terminou a mensagem a transpirar ligeiramente.

Falar para atendedores de chamadas sempre o fizera sentir como um concorrente no concurso Derrote o Relógio.

"Porque é que te est s a dar a todo este trabalho?"

A resposta que dera a Thad era simples: era o procedimento habitual. Contudo, o próprio Alan não podia estar satisfeito com uma resposta tão oportuna porque ele sabia que não se tratava de procedimento habitual. Até poderia ser - pelo menos concebível - se este Pritchard tivesse procedido a uma intervenção cir£rgica no homem que se chamava a si próprio Stark ("só que agora que ele diz que sabe quem ele realmente é, j não é mais Stark"), mas não tinha. Havia, sim, realizado uma intervenção cir£rgica em Beaumont e, de qualquer forma, isso ocorrera h vinte e oito anos.

Então, porquê?

Porque nada disto batia certo, essa é que era a razão.

As impressões digitais não batiam certo, o tipo de sangue obtido a partir das beatas dos cigarros não batia certo, a combinação de esperteza e f£ria homicida patenteada pelo homem que procuravam não batia certa, a insistência de Thad e Liz em que o pseudónimo existia de verdade não batia certo. Este £ltimo ponto acima de tudo. Esta insistência dos dois não passava de um atestado de loucura de um casal de malucos. E agora ele tinha em sua posse mais uma outra coisa que também não batia certo. A polícia estadual aceitara sem qualquer sentimento de d£vida a afirmação do homem de que agora j estaria ciente de quem era na verdade.

Para Alan, tudo isto tinha a autenticidade de uma nota de três dólares. Cheirava a truque, estratagema, subterf£gio.

Alan pensou que o homem talvez ainda estivesse para aparecer.

"Mas nada disso responde … pergunta", sussurrou a mente dele. "Porque é que te est s a dar a todo este trabalho?

Porque é que est s a telefonar para Fort Laramie, no Wyoming, … procura de um velho médico que provavelmente nem sequer se lembra de Thad Beaumont?" - "Porque não tenho nada de melhor para fazer", respondeu a si próprio de forma irritada. "Porque posso telefonar daqui sem ter de ouvir os malditos membros do conselho m£nicipal a atazanar a minha cabeça por causa das tarifas das chamadas interurbanas. E porque ELES acreditam - Thad e Liz.

é certamente de loucos, mas, se não fosse por esse pormenor, eles até parecem ser bastante sãos... e, raios os partam, ELES acreditam. Mas isso não significa que eu acredite."

E não acreditava.

Ou ser que acreditava?

O dia passou-se lentamente. O Dr. Pritchard não telefonou, mas as impressões vocais surgiram pouco passava das oito, e eram absolutamente surpreendentes.

5

Não eram nada daquilo que Thad esperara.

Ele estava … espera de uma folha de papel para gr ficos, coberta por montanhas e vales pontiagudos que Alan tentaria explicar. Ele e Liz acenariam a cabeça de forma sensata, tal como as pessoas fazem quando alguém explica algo demasiado complexo para ser entendido, sabendo que se fizessem perguntas, as explicações que se seguiriam seriam ainda menos compreensíveis.

Em vez disso, Alan mostrou-lhes duas folhas lisas de papel branco, cada uma atravessada ao meio por uma £nica linha. Podiam ver-se alguns grupos de pontos altos, sempre em pares ou trios, mas, na sua maioria, as linhas não passavam de calmas ondas senoidais (ainda que bastante irregulares). E bastava saltar de uma folha para a outra a olho nu para ver que eram idênticas ou muito semelhantes.

- é só isto? - perguntou Liz.

- Não propriamente - respondeu Alan. - Repare. - Pangborn deslizou uma folha sobre a outra, com o ar de um m gico a desempenhar um truque excepcionalmente brilhante.

De seguida, levantou as duas folhas unidas e colocou-as … contraluz. Thad e Liz fitaram as folhas duplas.

- é verdade - retorquiu Liz numa voz amena e espantada. - São exactamente iguais.

- Bem... não exactamente - afirmou Alan, apontando para os três pontos onde a linha de impressão vocal da foLha de baixo surgia através de um pequeníssimo intervalo.

Um destes pontos situava-se acima da linha da folha de cima e os outros dois abaixo. Nos três casos, os pontos situavam-se em locais onde a linha adquiria uma forma pontiaguda. As próprias ondas senoidais pareciam condizer na totalidade. - As diferenças estão nas impressões de Thad, e surgem apenas em pontos de tensão. - Alan assinalou os pontos um a um. - Aqui: "Que é que tu queres, seu filho da mãe? Que porra é que queres?". E aqui: "Isso é uma maldita mentira e tu sabes!" E, por £ltimo, aqui: "Raios te partam, p ra de mentir!" Neste preciso momento, est toda a gente a concentrar-se nestas três diferenças mínimas porque se querem agarrar de unhas e dentes ao pressuposto de que não é possível existirem duas impressões vocais iguais.

Mas o facto é que não se verificaram quaisquer pontos de tensão por parte de Stark durante a conversa. O filho da mãe manteve-se descontraído e calmo, sempre regular.

- Sim - confirmou Thad. - Ele dava a impressão de que estava a beber uma limonada.

Alan pousou as impressões vocais numa mesa.

- Ninguém na Esquadra da Polícia Estadual acredita realmente que se tratam de duas impressões vocais diferentes, mesmo com as tais diferenças mínimas - disse ele. - Recebemos as impressões de Washington com bastante celeridade. A razão por que me atrasei tanto foi porque, depois de o perito em Augusta as ter visto, ele quis uma cópia da cassete. Envi mo-la através de um voo intercalar da Eastern Airlines com partida de Bangor, e eles submeteram as impressões a um aparelho chamado intensificador udio. Este dispositivo é utilizado para saber se alguém chegou verdadeiramente a proferir as palavras que estão a ser investigadas ou se estão a ouvir uma voz gravada.

- E ao vivo ou é Memorex? - inquiriu Thad, que se encontrava sentado ao lado da lareira, a beber uma gasosa.

Depois de ter observado as impressões vocais, Liz voltara para junto do parque, encontrando-se sentada no chão, com as pernas cruzadas, a tentar evitar que William e Wendy chocassem com as cabeças enquanto examinavam os dedinhos dos pés um do outro.

- Porque fizeram isso?

Alan levantou o polegar e apontou-o para Thad, que sorria de forma amarga.

- O seu marido sabe.

Thad perguntou a Alan:

- Com as diferenças min£sculas nos pontos altos, eles podem, pelo menos, enganar-se a eles próprios e tentar acreditar que estão em presença de duas vozes diferentes, embora tenham mais do que a certeza de que não é assim.

Era isso que queria dizer, não era?

- Sim, sim. Embora nunca tenha sequer ouvido falar de impressões vocais tão remotamente semelhantes como estas. - Alan encolheu os ombros. - Também é certo que a minha experiência neste campo não é tão grande como a dos tipos no GFCL que as estudam e fazem delas o seu ganha-pão, ou até mesmo dos tipos em Augusta, que são uma espécie de clínicos-gerais: impressões vocais, impressões digitais, pegadas, marcas de pneus. Mas, Thad, eu leio a literatura e estava l quando os resultados chegaram. Sim, é verdade que se estão a enganar a eles próprios mas não se estão a esforçar assim tanto quanto isso.

- Portanto, têm três diferençazinhas, mas estas não são suficientes. O problema é que a minha voz estava tensa e a de Stark não estava. Então, decidiram recorrer a esta coisa do intensificador na esperança de encontrarem alguma fraude. Na esperança, de facto, de que a voz de Stark acabasse por ser uma gravação. Talvez feita por mim. - Thad lançou um olhar malicioso a Alan. - Tenho direito ao frango guisado?

- Não só isso mas vai também ganhar um conjunto de copos para seis pessoas mais uma viagem com tudo pago para Kittery.

- Isso é a coisa mais louca que j ouvi em toda a minha vida - disse Liz categoricamente.

Sem muita animação, Thad lançou uma gargalhada:

- Tudo isto é de loucos. Eles pensaram que eu pudesse ter mudado a minha voz, como Rich Little... ou Mel Blanc.

A ideia é de que fiz uma gravação com a minha voz de George Stark, deixando espaço para pausas para poder responder, em frente de testemunhas, na minha própria voz. • óbvio que teria de ter comprado um dispositivo qualquer que desse para fixar um gravador de cassetes a um telefone de moedas. Esse tipo de coisas existe, não existe, Alan?

- De certeza. Disponíveis nas melhores lojas de produtos electrónicos, ou então basta ligar para o oitocentos que aparece no ecrã, onde uma assistente o atender .

- Exactamente. A £nica outra coisa de que precisaria seria um c£mplice: alguém em quem confiasse e que fosse até … Estação Penn, fixasse o gravador a um telefone certificando-se de que não era notado por ninguém e ligasse para minha casa na hora marcada. De seguida - Thad estacou. - Como é que a chamada foi paga? Esqueci-me completamente disso. Não foi paga no destinat rio.

- O n£mero do seu cartão de crédito telefónico foi utilizado - respondeu Alan. - é óbvio que o deu ao seu c£mplice.

- Sim, obviamente. Desde que esta brincadeira começou, só tive de fazer duas coisas: uma foi certificar-me de que era eu quem atendia ao telefone; a outra era não esquecer-me das deixas e enfi -las nas pausas correctas. Não diria que fiz tudo muito bem, Alan?

- Sim. Fant stico.

- O meu c£mplice desliga o telefone quando o guião assim o indica. Desengata o gravador do telefone, enfia-o debaixo do braço...

- Raios, enfia-o dentro do bolso - corrige Alan. - As coisas que agora existem são tão boas que até mesmo a CIA compra na Loja do R dio.

- Muito bem, enfia-o dentro do bolso e vai-se embora dali. O resultado é uma conversa onde eu sou tanto visto como escutado a falar com um homem a oitocentos quilómetros de distƒncia, um homem que soa diferente (que aparenta, na verdade, ter uma ligeiríssima pron£ncia entaramelada do sul), mas tem as mesmas impressões vocais que eu. é a história das impressões digitais de novo, só que agora mais aperfeiçoado. - Thad olhou para Alan … espera de confirmação.

- Pensando melhor - retorquiu Alan - , vai ganhar antes uma viagem com tudo pago a Portsmouth.

- Muito obrigado.

- Sempre …s ordens.

- Para além de ser de loucos - afirmou Liz - , isto é absolutamente incrível. Penso que toda essa gente devia ter a cabeça... Enquanto a atenção de Liz estava virada para outro lado, os gémeos conseguiram finalmente chocar com a cabeça um do outro, tendo começado a chorar a plenos pulmões.

Liz pegou em William enquanto Thad foi em auxílio de Wendy.

Depois de a crise ter passado, Alan afirmou:

- é incrível, sim senhor. Você sabe, eu sei-o e eles também o sabem. Mas Conan Doyle p“s na boca de Sher Iock Holmes algo que, pelo menos, continua a ser verdade na investigação criminal: quando se eliminam todas as explicações impossíveis, aquilo que resta é a resposta que procuramos...

por muito improv vel que possa ser.

- Penso que o original era um pouco mais refinado - disse Thad.

Alan sorriu.

- V -se lixar.

- Vocês dois podem achar muita graça a isto tudo, mas eu não acho graça nenhuma - retorquiu Liz. - Só se fosse louco é que Thad faria uma coisa desse género. Est claro que a Polícia pode pensar que somos ambos loucos.

- Eles não pensam uma coisa dessas - replicou Alan com ar sério - , pelo menos para j , e não pensarão assim enquanto continuarem a guardar só para vocês essas histórias malucas.

- E você, Alan? - perguntou Thad. - J Lhe demos a conhecer todas essas histórias malucas e o que é que Alan pensa sobre isso?

- Não que vocês sejam doidos. Tudo isto seria muito mais simples se eu acreditasse. Não faço a mais pequena ideia do que se est a passar.

- O que foi que conseguiu saber junto do doutor Hume? - quis Liz saber.

- O nome do médico que operou Thad quando ele era mi£do - respondeu Alan. - Chama-se Hugh Pritchard.

Este nome diz-lhe alguma coisa, Alan?

Thad franziu o sobrolho e concentrou-se. Por fim, disse:

- Penso que sim... mas também posso estar apenas a enganar-me a mim próprio. Foi h muito tempo.

Liz inclinara-se para a frente, com os olhos brilhantes;

seguro no colo da mãe, William olhava embasbacado para Alan.

- O que foi que Pritchard Lhe contou? - inquiriu ela.

- Nada. Respondeu-me o atendedor de chamadas, o que me permite deduzir que este homem ainda est vivo, e foi tudo. Deixei uma mensagem.

Liz recostou-se para tr s na cadeira, claramente desapontada.

- E quanto aos meus testes? - perguntou Thad. - O Hume contou-lhe alguma coisa? Ou não quis dizer nada?

- Disse que quando tivesse os resultados, você seria o primeiro a saber - respondeu Alan, lançando um sorriso. - O doutor Hume pareceu ficar bastante ofendido com a ideia de contar o que quer que fosse ao xerife de um condado.

- O velho George Hume de sempre - retorquiu Thad, e sorriu. - A alcunha dele é Crustyl.

Alan mexeu-se no lugar.

- Quer beber alguma coisa, Alan? - perguntou Liz. - Uma cerveja, uma Pepsi?

- Não, obrigado. Voltemos …quilo em que a polícia estadual acredita e não acredita. Eles não acreditam que algum de vocês esteja envolvido, mas reservam para si o direito de acreditar que talvez possam estar. Sabem que não Lhe podem lançar as culpas pelo trabalho de ontem … noite e desta manhã, Thad. Um c£mplice, talvez, o mesmo que, hipoteticamente, teria posto o gravador a funcionar, mas não você. O Thad estava aqui.

- E o que h sobre Darla Gates? - perguntou Thad calmamente. - A rapariga que trabalhava no departamento de contabilidade.

- Assassinada. Bastante mutilada, tal como ele sugeriu, mas morta, primeiro com um £nico tiro na cabeça. Não sofreu.

- Isso é uma mentira.

Alan pestanejou.

- Ele não a largou assim com tanta facilidade. Não depois daquilo que fez a Clawson. Afinal de contas, ela foi a primeira delatora, não foi? Clawson acenou-lhe com algum dinheiro (não deve ter sido assim tanto, a julgar pelo estado das finanças de Clawson) e ela agradeceu-lhe dando com a língua nos dentes. Por isso, não me venha dizer que ele a matou com um tiro antes de a cortar e que ela não sofreu.

- Muito bem - replicou Alan. - Não foi assim que aconteceu. Quer saber como foi que realmente aconteceu?

- Não - respondeu -Liz imediatamente.

Seguiu-se um momento de silêncio pesado na sala. Até mesmo os gémeos pareciam estar cientes disso; entreolharam-se com uma espécie de grande solenidade. Por fim, Thad perguntou:

- Deixe-me perguntar-lhe isto de novo: em que é que você acredita? Em que é que acredita agora?

- Não tenho nenhuma teoria. Sei que você não gravou as falas de Stark porque o intensificador não detectou qualquer sibilação própria das gravações e, quando se aumenta o som, consegue ouvir-se o altifalante da Estação Penn a anunciar que o Peregrino para Bóston est pronto para o embarque na linha n£mero três. O Peregrino saiu realmente da linha n£mero três esta tarde. O embarque começou …s duas e trinta e seis, o que condiz com a vossa conversazinha.

Mas eu nem sequer precisei disso. Se o Thad tivesse gravado as falas de Stark, mal eu me referisse ao processo de intensificação, tanto um como o outro ter-me-iam perguntado de imediato qual o resultado do teste. Nenhum de vocês o fez.

- Tudo isto, e ainda não acredita, pois não? - perguntou Thad. - Quero dizer, tudo isto fê-lo ficar hesitante, o suficiente para estar a tentar apanhar o doutor Pritchard, mas ainda não tem a certeza do que aconteceu, pois não? - Thad soou frustrado e atormentado, até para si próprio.

- O próprio tipo admitiu não ser Stark.

- Oh, sim. Ali s, ele foi também muito sincero quanto a isso - disse Thad, a rir.

- Você est a agir como se isto não fosse surpresa alguma para si.

- E não é. Para si é alguma surpresa?

- Francamente, sim. Depois de ter tido tanto trabalho para demonstrar o facto de que você e ele partilham das mesmas impressões digitais, das mesmas impressões vocais...

- Alan, pare só por um instante - pediu Thad.

Foi o que Alan fez, tendo olhado um para o outro de modo inquisitivo.

- Esta manhã, contei-lhe que estava convencido que era George Stark quem estava a fazer todas estas coisas.

Não um c£mplice meu, não um psicopata que, de alguma forma, tivesse conseguido inventar um modo de ter as impressões digitais de outras pessoas, isto é, entre os seus ataques homicidas e as fugas de identidade, e não acreditou em mim. Acredita agora?

- Não, Thad. Gostava de Lhe dizer o contr rio, mas o melhor que consigo é isto: eu acredito que você acredita.

Alan desviou o olhar para Liz. - Que ambos acreditam.

- Eu vou optar pela verdade, dado que tudo que seja menos do que isso pode fazer com que eu seja abatido - disse Thad - , e a minha familia juntamente comigo, o que é o mais prov vel. Dadas as circunstƒncias, faz-me bem ao coração ouvi-lo apenas dizer que não tem qualquer teoria.

Não é muito mas j é um passo em frente. Aquilo que Lhe estava a tentar mostrar era que as impressões digitais e as impressões vocais coincidem em absoluto, e Stark sabe isso.

Pode falar … vontade sobre p“r de lado o impossível e aceitar aquilo que resta, por muito improv vel que seja, mas não é assim que as coisas funcionam. O Alan não aceita Stark, e ele é o que sobra quando se elimina tudo o resto.

Deixe-me p“r-lhe as coisas de outra forma, Alan: se tivesse tantos indícios como aqui de que tinha um tumor no cérebro, iria para o hospital para ser operado, mesmo que todas as probabilidades apontassem para um fim tr giCo.

Alan entreabriu a boca, abanou a cabeça, e fechou-a de novo com toda a rapidez. Para além do relógio e do suave tagarelar dos gémeos, nenhum outro som se ouvia na sala de estar, onde Thad cada vez sentia mais que passara toda a sua vida adulta.

- Por um lado, você tem provas suficientemente inequívocas para construir um sólido caso circunstƒncial para levar a tribunal - retomou Thad brandamente. - Por outro lado, tem a declaração não consubstƒnciada de uma voz ao telefone que "veio a si", que "sabe agora quem é". Ainda assim, vai ignorar as provas a favor da afirmação.

- Não, Thad. Isso não é verdade. Por enquanto, não estou a aceitar quaisquer afirmações: nem as suas nem as da sua mulher e, muito menos, aquelas feitas pelo homem que ligou para c . As minhas opções estão todas ainda em aberto.

Subitamente, Thad apontou com o polegar sõbre o ombro para a janela. Por detr s dos cortinados suavemente esvoaçantes, os três podiam ver o carro da polícia estadual pertença dos agentes que estavam a vigiar a casa dos Beaumont.

- E eles? As opções deles estarão todas ainda em aberto?

Daria tudo para que você ficasse aqui, Alan. A sua presença seria mais importante do que um exército inteiro de agentes, porque, pelo menos, você tem um olho semiaberto. Os deles estão bem fechados.

- Thad...

- Deixe l - retorquiu Thad. - Essa é que é a verdade. E você sabe... e ele também sabe. Ele vai esperar. E quando toda a gente decidir que est tudo acabado e que os Beaumont estão seguros, quando todos os polícias desmontarem as tendas e partirem para outras paragens, George Stark vir até aqui.

Thad deteve-se, o rosto a imagem da concentração soturna e complicada. Alan viu arrependimento, determinação e medo a debaterem-se naquele rosto.

- Vou agora contar-lhe uma coisa; contar a ambos. Sei exactamente aquilo que ele quer. Ele quer que eu escreva um outro romance sob o pseudónimo de Stark, provavelmente um outro romance sobre Alexis Machine. Não sei se o conseguiria fazer, mas se acreditasse que trouxesse alguma vantagem tentaria. Deitava para o lado O cão Dourado e começaria esta noite mesmo.

- Thad, não! - exclamou Liz.

- Não te preocupes - disse ele. - Isso seria o meu fim.

Não me perguntes como é que sei; apenas sei. Mas se a minha morte pusesse um ponto final nisto tudo, até que poderia tentar. Contudo, não me parece que pusesse. Porque nem sequer acredito que ele seja realmente humano.

Alan ficou silencioso.

- Ora bem! - disse Thad, falando com o ar de um homem que termina um negócio importante. - é neste pé que as coisas estão. Não consigo, não farei e não devo fazer. Isso significa que ele vir . E quando vier, só Deus sabe o que ir acontecer.

- Thad - disse Alan, constrangido - , precisa de se distƒnciar um pouco de tudo isto, é só. E quando assim fizer, a maior parte desta história acabar por... desaparecer. Como um dente-de-leão. Como um pesadelo ao acordar.

- Não é de distƒncia que precisamos - disse Liz. Os dois olharam para ela e viram que estava a chorar em silêncio. Não muito, mas as l grimas eram visíveis. - Precisamos é de alguém para acabar com ele.

Alan regressou a Castle Rock bem cedo na madrugada seguinte, chegando a casa um pouco antes das duas. Entrou em casa tentando ser o mais silencioso possível, tendo reparado que, mais uma vez, Annie se esquecera de ligar o alarme contra os ladrões. Apesar de não gostar de a aborrecer por causa disso - oltimamente, as enxaquecas tinham-se tornado mais frequentes - supunha que teria de fazê-lo, mais dia menos dia.

Começou a subir as escadas, com os sapatos numa mão, movendo-se com uma tal graciosidade que parecia estar praticamente a flutuar. O seu corpo possuía uma extrema agilidade, exactamente o oposto da falta de jeito de Thad Beaumont, que Alan raramente mostrava; a sua carne parecia conhecer um qualquer segredo misterioso de porte, que, de certa forma, o seu espírito via como embaraçoso.

Agora, neste silêncio, não havia necessidade alguma de o esconder, e ele movia-se com uma facilidade irreal que era praticamente macabra.

A meio das escadas, Alan deteve-se... e voltou a descer as escadas. Tinha uma salinha ao lado da sala de estar, não muito maior do que uma despensa, mobilada com uma secret ria e algumas prateleiras com livros, mas o suficiente para as suas necessidades. Pangborn tentava não levar consigo trabalho para casa. Nem sempre conseguia, mas esforçava-se o mais que podia.

Fechou a porta, acendeu a luz e fitou o telefone.

"Não est s a pensar em fazer isto, pois não?", perguntou-se a si próprio. "Isto é, é quase meia-noite nas Montanhas Rochosas e este tipo não é apenas um médico reformado: ele é um NEUROCIRURGIãO reformado.

Acorda-o e ele come-te vivo."

Foi então que Alan recordou os olhos de Liz Beaumont - os olhos escuros e assustados - e decidiu que iria avante com a ideia. Talvez até acabasse por ter vantagens: um telefonema a meio da noite demonstraria o facto de que se tratava de um assunto sério e poria o doutor Pritchard a pensar. Alan poderia, então, voltar a ligar de novo, dessa vez a uma hora mais razo vel.

"Quem sabe", pensou ele pouco esperançoso (mas com um resquício de humor), "talvez ele até tenha SAUDADES de receber chamadas a meio da noite."

Alan retirou um pedaço de papel do bolso da camisa do uniforme e marcou o n£mero de telefone de Hugh Pritchard, em Fort Laramie. Fê-lo mantendo-se de pé, preparando-se para uma explosão de f£ria daquela voz spera.

Escusava de se ter preocupado; o atendedor de chamadas surgiu, como anteriormente, após o primeiro toque, tendo a voz gravada recitado a mesma mensagem.

Pensativo, Alan desligou o telefone e sentou-se por detr s da secret ria. O candeeiro de pé recurvado lançava um círculo bem delimitado de luz sobre a superfície da secret ria, tendo Alan começado a fazer uma série de animais-sombra a contraluz: um coelho, um cão, uma guia, até mesmo um razo vel canguru. As mãos dele possuíam aquela mesma graciosidade profunda que o resto do seu corpo revelava sempre que Alan estava sozinho e relaxado; por debaixo daqueles dedos flexíveis, os animais pareciam marchar num cortejo por entre a luz min£scula lançada pelo candeeiro coberto, um flutuando a seguir ao outro. Esta pequena diversão tivera sempre o dom de fascinar e divertir os seus filhos e, frequentemente, descontraía o seu espírito quando este estava perturbado.

Agora, não funcionou.

"O doutor Pritchard morreu. Stark também o apanhou. "

Isso era impossível, est claro; Alan admitia que até engoliria histórias de fantasmas se alguém Lhe encostasse uma pistola … cabeça, mas não num qualquer perverso Super-Homem fantasma que atravessara continentes inteiros num £nico salto.

Pangborn podia pensar em diversas boas razões pelas quais alguém podia ligar o atendedor de chamadas durante a noite, não sendo de p“r de parte o facto de não querer ser incomodado por estranhos que telefonam a meio da noite, como o xerife Alan J. Pangborn, de Castle Rock, Maine.

"Sim, mas ele est morto. Ele e a esposa também. Qual era o nome dela? Helga. "Provavelmente estou a jogar golfe: Deus sabe o que a Helga andar a fazer." Mas eu sei o que a Helga anda a fazer; eu sei o que ambos andam a fazer. Estão inundados de sangue com a garganta aberta, isso é o que eu penso, e h uma mensagem escrita na parede da vossa sala de estar, aí no Wyoming. Diz "OS PARDAIS ESTŽO A VOAR DE NOVO"."

Alan Pangborn foi percorrido por um arrepio. Era de loucos, mas, de qualquer forma, não conseguiu evitar o arrepio, que o atravessou como uma corrente.

Pangborn marcou o telefone da assistente da central telefónica de Wyoming, conseguiu o n£mero de telefone do gabinete do xerife de Fort Laramie e fez outra chamada Desta vez, foi atendido por um despachante que aparentava estar semiadormecido. Alan identificou-se, disse-lhe que andava a tentar entrar em contacto com Pritchard, deu-lhe a sua morada e, de seguida, perguntou se eles teriam os nomes do Dr. Pritchard e da esposa na lista de férias. Se o doutor e a esposa tivessem partido de férias - e estava-se praticamente na época adequada - , teriam provavelmente informado as autoridades locais desse facto e pedido que mantivessem a casa sob vigilƒncia enquanto estivesse vazia.

- Bem - disse o despachante - , porque é que não me d o seu n£mero de telefone? J Lhe telefono a dar as informações.

Alan suspirou. Este era apenas mais um procedimento habitual de funcionamento. Para falar curto e grosso, mais tretas. O tipo não Lhe queria fornecer as informações até se certificar de que Alan era quem afirmava ser.

- Não - retorquiu ele. - Estou a telefonar de casa, e estamos a meio da noite...

- Aqui também não estamos propriamente a meio do dia, xerife Pangborn - respondeu o despachante de forma lacónica.

Alan suspirou:

- Não tenho d£vida alguma - respondeu ele - mas também não tenho d£vida alguma de que a sua esposa e os seus filhos não estão a dormir no andar de cima. Olhe, o seguinte, meu amigo: telefone para a Esquadra da Polícia Estadual do Maine em Oxford, Maine, vou dar-lhe o n£mero, e verifique o meu nome. Eles dar-lhe-ão o meu n£mero de identificação da LAWS. Voltarei a telefonar dentro de mais ou menos dez minutos, e aí poderemos proceder … troca de senhas.

- Diga l , então - disse o despachante, ainda que não parecesse muito satisfeito com aquilo. Alan calculava que talvez tivesse afastado a atenção do homem do £ltimo concurso da televisão ou talvez da Penthouse deste mês.

- De que é que se trata? - inquiriu o despachante após ter repetido o n£mero de telefone da Esquadra da Polícia Estadual de Oxford.

- Investigação de um homicídio - replicou Alan - , e dos mais quentes. Não estou a telefonar por causa da minha sa£de, meu amigo. - E desligou.

Pangborn sentou-se por detr s da secret ria, fez animais-sombra e esperou que o ponteiro mais pequeno desse dez voltas em redor do mostrador do relógio. Pareceu-lhe ser muito lento. Só dera cinco voltas quando a porta do gabinete se abriu e Annie entrou. Vestia o roupão cor-de-rosa e pareceu-lhe um pouco fantasmagórica; Pangborn sentiu aquele arrepio a querer perpass -lo de novo, como se tivesse olhado para o futuro e visto algo de desagrad vel. Até mesmo de terrível.

"Como é que me sentiria se fosse de mim que ele andasse atr s?", interrogou-se subitamente. "De mim, da Annie, do Toby e do Todd? Como é que se sentiria se soubesse quem ele era...

e ninguém acreditasse em mim?"

- Alan? Que é que est s a fazer, aqui sentado a uma hora destas?

Alan sorriu, levantou-se e beijou-a com desenvoltura.

- … espera que o efeito das drogas passe - respondeu ele.

- Não, a sério. é o caso dos Beaumont?

- Sim. Ando a tentar ver se apanho um médico que talvez saiba qualquer coisa sobre o assunto. Como só me atendia o gravador de chamadas, telefonei para o gabinete do xerife para ver se o nome dele não estaria na lista de férias. O homem do outro lado da linha est supostamente a verificar a minha bona fides. - Pangborn olhou para Annie com uma preocupação zeloza:

- Como é que te sentes, querida? Est s com alguma dor de cabeça esta noite?

- Não - retorquiu ela - , mas ouvi-te a entrar. - sorriu. - Alan, quando o queres ser, és o homem mais silencioso do mundo, mas não podes fazer nada quanto ao teu carro.

Ele abraçou-a.

- Queres uma ch vena de ch ? - perguntou ela.

- Deus, não. Um copo de leite, se não te importares de ires busc -lo.

Ela deixou-o sozinho, voltando passado um minuto com o copo de leite.

- Que tal é o senhor Beaumont? - perguntou ela. - J o tenho visto pela vila e a mulher dele vai … loja de vez em quando, mas nunca falei com ele. - A loja era a Você Cose e Cose, de uma mulher chamada Polly Chambers, que era também a gerente. Annie Pangborn trabalhava l em part-time h quatro anos.

Alan reflectiu sobre aquilo que a mulher acabara de Lhe perguntar.

- Gosto dele - disse por fim. - A princípio não gostava;

pensava que tinha sangue de barata. Mas estava a vê-lo em circunstƒncias difíceis. Ele é apenas...

- Gosto muito de ambos os livros dele - interrompeu Annie.

Alan levantou o sobrolho.

- Não sabia que o tinhas lido.

- Nunca perguntaste, Alan. Depois, quando a história sobre o pseudónimo veio a lume, tentei um dos outros. - O nariz franziu-se num tom de desaprovação.

- Não era bom?

- Horrível. Assustador. Nem cheguei a acab -lo. Nem queria acreditar que fora o mesmo homem que escrevera os dois livros.

"Sabes que mais, amor?" pensou Alan. "Ele também não acredita."

- Devias voltar para a cama - disse ele - , ou vais acabar por acordar com uma outra dor de cabeça.

Ela abanou a cabeça:

- Acho que o "Monstro da Dor de Cabeça" se foi embora, pelo menos para j . - Annie lançou-lhe um olhar por debaixo dos olhos semicerrados: - Quando subires, ainda estarei acordada... isto é, se não demorares muito.

Através do roupão cor-de-rosa, Pangborn colocou as mãos em forma de concha sobre um dos seus seios e beijou-lhe os l bios entreabertos.

- Vou subir o mais r pido que puder.

Annie saiu, e Alan verificou que j tinham passado mais de dez minutos. Telefonou de novo para o Wyoming e foi atendido pelo mesmo despachante sonolento.

- Pensei que se esquecera, meu amigo.

- Nada disso - respondeu Alan.

- Importa-se de me dar o seu n£mero da LAWS, xerife?

- Cento e nove, quarenta e quatro, duzentos e cinco.

- Penso que não h d£vida de que o senhor é o artigo genuíno. Desculpe ter tido de o sujeitar a este interregno a uma hora destas, xerife Pangborn, mas penso que me poder entender.

- Entendo. O que me pode dizer sobre o doutor Pritchard?

- Oh, ele e a esposa estão na lista de férias, sem sombra de d£vida - disse o despachante. - Estão no Parque de Yellowstone, a acampar, até ao final do mês.

"Aí tens", pensou Alan. "Est s a ver? Est s tu para aqui a pensar em disparates a meio da noite. Não h gargantas cortadas. Não h nada escrito na parede. Apenas dois velhotes numa viagem de campismo."

Ainda assim, Alan apercebeu-se de que não estava muito mais aliviado. O doutor Pritchard ia ser um homem difícil de encontrar, pelo menos nas duas próximas semanas.

- Se eu precisar de fazer chegar uma mensagem ao homem, acha que ser possível? - inquiriu Alan.

- Penso que sim - respondeu o despachante. - Podemos sempre telefonar para os serviços do parque em Yellowstone.

Eles saberão onde se encontra ou, pelo menos, devem saber.

Talvez leve algum tempo mas é prov vel que consigam dar com ele. Encontrei-me com ele uma ou duas vezes. Parece ser um velhote bastante simp tico.

- Bem, isso é bom saber - replicou Alan. - Muito obrigado pelo tempo dispendido.

- Sempre …s ordens; é para isso que aqui estamos. - Alan ouviu o ténue esvoaçar de p ginas, conseguindo imaginar este homem sem rosto a pegar de novo na sua Penthouse, a meio continente de distƒncia.

- Boa noite - disse ele.

- Boa noite, xerife.

Alan desligou o telefone e deixou-se ficar sentado por um instante, olhando para a escuridão através da janelinha da pequena sala.

"Ele est algures por aí. Algures. E h -de vir ainda.

Alan perguntou-se de novo como é que se sentiria se fosse a sua própria vida - e as vidas de Annie e das crianças - que estivesse em jogo. Perguntou-se como se sentiria se soubesse isso, e ninguém acreditasse naquilo que ele sabia.

"Est s de novo a trazer trabalho para casa, querido", ouviu Annie dizer no seu pensamento.

E era verdade. H quinze minutos atr s estava convencido - pelo menos nas terminações nervosas, j que não na cabeça - de que Hugh e Helga Pritchard estavam mortos num banho de sangue. Não era verdade; esta noite, dormiam pacificamente debaixo das estrelas no Parque Nacional de Yellowstone. De nada valera a intuição; esta tinha uma forma de desaparecer lentamente do nosso corpo.

"é assim que Thad se ir sentir quando descobrirmos o que se est realmente a passar", pensou ele. "Quando descobrirmos que a explicação, por mais bizarra que possa acabar por ser, est conforme todas as leis naturais."

Ser que acreditava mesmo naquilo?

Sim, decidiu: acreditava mesmo. Pelo menos na sua cabeça.

As suas terminações nervosas não estavam assim tão certas disso.

Alan acabou de beber o leite, desligou o candeeiro de mesa e subiu as escadas. Annie ainda estava acordada e gloriosamente nua. Envolveu-o nos seus braços e Alan permitiu-se esquecer-se de tudo o mais com todo o prazer.

Dois dias mais tarde, Stark telefonou de novo. Nessa altura, That Beaumont encontrava-se no Mercado do Dave.

Tratava-se de uma loja familiar a cerca de dois quilómetros e meio da casa dos Beaumont. Era um sítio para se ir quando correr para o supermercado em Brewer se tornava uma chatice de todo o tamanho.

Nessa sexta-feira … tarde, Thad fora até l para comprar uma embalagem de seis garrafas de Pepsi, uns pacotes de batatas e alguns aperitivos. Um dos agentes que protegia a família foi com ele de carro. Estava-se a 10 de Junho, seis e trinta da tarde e havia ainda muita luz no céu. O Verão rumara de novo para o Maine.

O polícia deixou-se ficar no carro enquanto Thad entrou na loja. Depois de ter pegado na gasosa, Thad estava a examinar a ampla variedade de aperitivos (havia sempre com sabor a marisco, mas, caso não se gostasse, podia-se recorrer a outros … base de cebola) quando o telefone tocou.

Thad levantou de imediato a cabeça, tendo pensado:

"Oh, sim, senhora."

Por detr s do balcão, Rosalie atendeu o telefone, disse "est l ", escutou e, de seguida, estendeu-lhe o aparelho, como ele soubera que ela iria fazer. Mais uma vez, Thad foi engolido por aquela sensação indistinta de presque vul.

- Telefone, senhor Beaumont.

. Thad sentiu-se bastante calmo. O coração hesitara numa batida, mas apenas uma vez; estando agora a bater … velocidade habitual. Não estava a suar.

E não se ouviam quaisquer p ssaros.

Thad não sentiu qualquer tipo de medo ou f£ria como sentira h três dias atr s. Não se deu ao trabalho de perguntar … Rosalie se era a esposa, a pedir-lhe para levar uma d£zia de ovos ou talvez até um pacote de sumo de laranja j que ali se encontrava. Ele sabia quem era.

Thad permaneceu de pé, junto ao computador Megatostões, com o seu ecrã verde que anunciava que não houvera vencedor algum na semana passada e que o jackpot da lotaria desta semana era de quatro milhões de dólares. That pegou no telefone que Rosalie Lhe estendia e saudou:

- Ol , George.

- Ol , Thad. - O suave resquício do sotaque do sul ainda l estava, mas a camada de pacóvio do campo desaparecera por completo: só quando se apercebeu da sua ausência é que Thad se deu conta de quão fortemente, ainda que de forma subtil, Stark conseguira transmitir aquela sensação de "Ol , ol , rapazes, posso não ser muito esperto mas l que consegui levar a melhor sobre vocês, l isso consegui, não acham?".

"Mas, como é óbvio, agora é só entre estes dois rapazes", pensou Thad. "Apenas um par de romƒncistas brancos por aí, a falarem." - O que é que queres?

- J sabes qual é a resposta a essa pergunta. Não h qualquer necessidade de estarmos com joguinhos, pois não? é um pouco tarde de mais para isso.

- Talvez queira apenas ouvir-te dizer alto e a bom som. - Aquela sensação voltara, aquela sensação esquisita de ser chupado para fora do corpo e puxado para dentro da linha do telefone, até um sítio qualquer, situado algures a meio do caminho entre os dois.

Rosalie afastara-se até … ponta distante do balcão, onde estava a tirar maços de cigarros de uma pilha de volumes e a encher a comprida m quina de cigarros. A forma ostentosa como fingia não estar a ouvir o que Tad estava a dizer era praticamente engraçada. Não havia ninguém em Ludlow - pelo menos nesta ponta da vila - que não soubesse que Thad estava sob guarda policial ou protecção policial ou uma maldita coisa policial, e ele não precisava de ouvir os boatos para saber que estes j tinham começado a voar.

Aqueles que não acreditavam que ele fosse em breve preso por tr fico de drogas, não tinham quaisquer d£vidas de que se tratava de abuso de menores ou de maus tratos da esposa. A coitada da Rosalie estava a tentar ser simp tica, e That sentiu-se grato de um modo absurdo. Tinha também a sensação de que estava a olhar para ela através da extremidade errada de um telescópio potente. Ele estava bem no fundo da linha telefónica, bem no fundo da toca do coelho, onde não havia qualquer coelho branco mas o velho George Stark matreiro, o homem que não podia estar ali, mas que, de algum modo, ali estava.

O velho George matreiro, e ali em baixo em Endsville, todos os pardais estavam a voar de novo. Thad lutou contra essa sensação, lutou com todas as suas forças.

- V l , George - disse ele, ligeiramente surpreendido pelo tom duro de f£ria na sua voz. Thad estava aturdido, apanhado numa forte corrente de distƒncia e irrealidade...

mas, meu Deus, como parecia estar tão desperto e atento! - Porque é que não dizes isso agora em voz alta?

- Bem, j que insistes.

- Insisto.

- Est na altura de começar um livro novo. Um novo romance do Stark.

- Não me parece.

- Não digas isso! - A crispação daquela voz era como uma correia de chicote repleta de min£sculos grãos de chumbo. - Tenho andado a fazer-te um desenho, Thad.

Tenho andado a desenh -lo para ti. Não me obrigues a desenh -lo sobre ti!

- Est s morto, George. Não tens é juízo suficiente para te deitares no caixão.

A cabeça de Rosalie virou-se ligeiramente; Thad lançou uma r pida vista de olhos antes de ela virar apressadamente a cabeça para a prateleira de cigarros.

- Toma tento na língua! - F£ria verdadeira naquela voz. Mas ser que havia mais qualquer coisa? Ser que havia medo? Dor?

Ambos ou ser que estava a enganar-se a ele próprio? - O que é que se passa, George? - escarneceu ele subitamente.

- Andas a perder alguns dos teus pensamentos felizes? Seguiu-se uma pausa. Thad surpreendera-o, tirara-lhe o tapete debaixo dos pés, pelo menos momentaneamente. Thad tinha a certeza disso. Mas porquê? O que fora que causara isso?

- Ouve-me bem, amigalhaço - disse Stark por fim.

- Dou-te uma semana para começares o livro. Não penses que me enganas porque não consegues. - Sim, George estava aborrecido. Podia custar muito a Thad antes de tudo isto estar acabado, mas, por ora ele apenas sentia uma alegria incontrolada. Conseguira passar. Parecia que, afinal de contas, ele não era o £nico que se sentia desesperado e vagamente vulner vel durante estas conversas íntimas próprias de um pesadelo; atingira Stark, e isso era absolutamente fant stico.

- Isso é bem verdade - disse Thad. Ninguém engana ninguém entre nós. Apesar de tudo o mais que possa haver, não h nada disso.

- Tu j tens uma ideia - replicou Stark. - J a tinhas antes de aquele maldito mi£do ter sequer pensado em fazer chantagem contigo. Aquela sobre o casamento e o roubo do carro blindado.

- Deitei fora as minhas notas. J não quero ter mais nada a ver contigo.

- Não, foram as minhas notas que tu deitaste fora, mas não importa. Não precisas das notas. Vai ser um bom livro.

- Não est s a perceber. George Stark est morto.

- Tu é que não est s a perceber - retorquiu Stark.

A voz dele era suave, fatal e enf tica. - Tens uma semana.

E se não tiveres pelo menos trinta p ginas manuscritas, irei até aí … tua procura, velha carcaça. Só que não começarei contigo: isso seria f cil de mais. Isso seria absolutamente f cil de mais. Primeiro apanho os teus filhos e eles irão morrer lentamente. Garantirei que seja assim. Até j sei como.

Eles não terão noção daquilo que Lhes estar a acontecer, mas apenas que estão a morrer em agonia. Mas tu saber s, e eu saberei, e a tua mulher saber . De seguida, vai ela...

só que antes de ir ela, eu vou-me nela. Tu percebes o que quero dizer, velha carcaça. E quando tiverem morrido, acabo contigo, Thad, e morrer s como nenhum homem … face da terra morreu.

Parou. Thad conseguia ouvi-lo arquejar fortemente ao ouvido, como um cão num dia quente.

- Não sabias nada sobre os p ssaros - disse Thad numa voz branda. - Isso também é verdade, não é?

- Thad, não est s a dizer coisa com coisa. Se não começares o livro o mais rapidamente possível, uma série de pessoas vão ficar magoadas. O tempo est a esgotar-se.

- Oh, estou a prestar atenção - disse Thad. - E aquilo que me pergunto é como é que podias ter escrito o que escreveste na parede do Clawson e, de seguida, na da Miriam, e não teres qualquer conhecimento disso.

- • melhor parares de dizer essas baboseiras e começares a fazer algum sentido, meu amigo - afirmou Stark, mas Thad conseguia sentir um certo desnorteamento e um certo medo indistinto sob aquela voz. - Não havia nada escrito nas paredes.

- Havia, sim, isso é que havia. E sabes que mais, George? Penso que talvez a razão pela qual não fazes a mínima ideia do que estou a falar é porque fui eu que escrevi aquilo.

Creio que parte de mim estava l . De alguma forma, parte de mim estava l , a ver-te. Penso que, de nós os dois, sou o £nico que tem conhecimento dos pardais, George. Creio que talvez eu o tenha escrito. Pensa nisto... pensa bastante sobre isto... antes de começares a empurrar-me.

- Escuta-me - afirmou Stark com uma força af vel. - Escuta-me bem. Primeiro os teus filhos... Depois a tua mulher... depois tu. Thad, começa um outro livro. Este é o melhor conselho que te posso dar. O melhor conselho que te deram em toda a porra da tua vida. Começa um outro livro. Eu não estou morto. - Uma longa pausa. De seguida, suave mas deliberadamente: - E eu não quero morrer. Por isso, vai para casa e afia os l pis e, se precisares de alguma inspiração, pensa como os teus bebezinhos ficariam com as carinhas cheias de vidro.

"Não h quaisquer p ssaros malditos. Esquece-os e começa a escrever.

Ouviu-se um estalido.

- Vai-te foder - murmurou Thad para dentro da linha silenciosa. Lentamente, pousou o telefone.