A Metade Sombria
A caminho, Thad evitou a auto-estrada com…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Vinte e Quatro
A CHEGADA
A caminho, Thad evitou a auto-estrada com portagem (Stark ordenara a Liz para seguir por essa direcção, ganhando assim meia hora de avanço), tendo por isso de ir por Lewiston-Auburn ou por Oxford. L. A., como aqueles que de l eram oriundos chamavam, era uma rea metropolitana muito maior... mas a Esquadra Polícial Estadual era em Oxford.
Thad escolheu Lewiston-Auburn.
Encontrava-se … espera num sem foro em Auburn e a olhar constantemente pelo retrovisor no caso de surgirem carros da Polícia quando a ideia que começara por domin -lo enquanto falava com Rawlie na sucata de automóveis tornou a apanh -lo de surpresa. Desta vez não era apenas uma comichãozita" era algo como um murro forte dado com o punho aberto.
"Eu sou aquele que sabe. Eu sou aquele que possui. Eu sou aquele que traz."
"Estamos a lidar aqui com magia", pensou Thad, "e qualquer m gico digno desse nome tem de ter uma varinha m gica. Toda a gente sabe isso. Felizmente, sei onde é que se pode comprar um artigo desse género. Onde, na verdade, eles são vendidos …s d£zias."
A papelaria mais próxima situava-se em Court Street, tendo Thad feito um desvio nessa direcção. Estava certo de que tinha alguns l pis Berol Black Beauty na casa em Castle Rock, e tinha também a certeza de que Stark levara a sua própria provisão, mas não era esses que queria. Os l pis que queria eram aqueles em que Stark nunca tocara, tanto como parte de Thad como entidade separada.
Cerca de meio quarteirão abaixo da papelaria, Thad encontrou um lugar para estacionar o carro, desligou o motor do VW de Rawlie (desligou-se lentamente, com uma respiração ofegante e diversas engasgadelas), e saiu. Sabia bem afastar-se do fantasma do cachimbo do Rawlie e ir para o ar livre por algum tempo.
Na papelaria, Thad comprou uma caixa de l pis Berol Black Beauty. O empregado disse-lhe para estar … vontade quando Thad Lhe perguntou se poderia utilizar o apara-l pis fixo na parede. Thad usou-o para afiar seis dos Berols, que colocou no bolso do peito, forrando-o de um lado ao outro.
As pontas ficaram viradas para cima como as ogivas de pequenos misseis mortíferos.
"Abracadabra e j est !", pensou. "Que começem os festejos."
Thad encaminhou-se para o carro de Rawlie, entrou e, por um breve instante, deixou-se ficar sentado, a transpirar no calor e a cantar baixinho John Wesley Harding. Quase todas as palavras tinham vindo … memória. Era verdadeiramente espantoso aquilo que a mente humana podia fazer sob pressão.
"Isto pode ser muito perigoso", pensou, acabando por chegar … conclusão que, se fosse só por ele, nem se importava muito com isso. Afinal de contas, fora ele quem trouxera George Stark para o mundo, e supunha que isso o tornava respons vel por este £ltimo. Não parecia ser muito justo" Thad não acreditava ter criado George com m intenção. Apesar daquilo que podia estar a acontecer … muLher e aos filhos, não se conseguia ver a si próprio como qualquer um daqueles médicos abomin veis, os Drs. Jekylle Frankenstein. Ele não se propusera a escrever uma série de romances que Lhe dariam uma grande quantia de dinheiro e, certamente não se propusera a criar um monstro. Limitara-se a tentar encontrar uma solução que o levasse a contornar o rochedo que caira no seu caminho. Limitara-se a querer descobrir uma forma de escrever uma outra história boa, porque isso fazia-o feliz.
Em vez disso, apanhara uma espécie de doença sobrenatural. e existiam doenças, imensas mesmo, que se aloJavam no corpo de pessoas que nada tinham feito para as merecer - coisas engraçadas como a paralisia cerebral, a distrofia muscular, a epilepsia, a doença de Alzheimer - e, uma vez apanhadas, uma pessoa tinha de se haver com elas. Como é que se chamava aquele antigo concurso de r dio? "Diga o Nome e é Seu"?
Isto pode ser muito perigoso para a Liz e para os mi£dos, ainda que, insistia o seu espirito, fosse um perigo bastante razo vel.
Sim. Uma operação … cabeça podia também ser perigosa...
mas se uma pessoa tinha um tumor a crescer nesse local, que outra opção tinha?
"Ele vai estar a olhar. A espreitar. Os l pis são bons"
ele pode até ficar lisonjeado. Mas se pressentir aquilo que planeias fazer com os l pis, ou se descobre alguma coisa quanto ao chamariz para p ssaros... se adivinha alguma coisa sobre os pardais... raios, se adivinha sequer que h alguma coisa para adivinhar... est s metido em muito maus lençóis."
"Mas pode resultar", sussurrou uma outra parte do seu espirito. "Raios te partam, tu sabes que pode resultar."
Sim, sabia. e porque a parte mais rec“ndita da sua mente insistia que não havia realmente mais nada a fazer ou a tentar, Thad ligou o VW e encaminhou-o em direcção a Castle Rock.
Quinze minutos mais tarde, deixara Auburn para tr s e estava de novo no campo, rumando a Oeste, em direcção … região dos lagos.
2
Nos £ltimos sessenta e cinco quilómetros da viagem, Stark falou com regularidade sobre M quina de Aço, o livro em que ele e Thad iriam colaborar. Ajudou Liz com os bebés - deixando sempre uma mão livre e sufícientemente próxima da pistola enfiada no cinto para a manter em respeito - quando esta abriu a porta da casa de Verão com a chave e os deixou entrar. Liz tinha esperanças de encontrar carros estacionados em, pelo menos, algumas das entradas das casas que ladeavam o caminho para Lake Lane, ou de ouvir os sons de vozes ou de serras eléctricas, mas tivera de contentar-se com o zumbido sonolento de insectos e o ronco surdo e forte produzido pelo motor do Toronado. Parecia que o filho da mãe tinha a sorte do próprio diabo.
Durante todo o tempo em que estiveram a descarregar as coisas e a lev -las para dentro de casa, Stark continuou a falar. Não parou sequer enquanto utilizava a navalha para destruir todas as fichas do telefone, excepto uma. e o livro prometia. e isso é que era, na verdade, o mais horrível de tudo. Efectivamente, o livro tinha qualidade. Prometia um êxito semelhante a A Vontade de Machine - talvez até maior.
- Tenho de ir … casa de banho - disse ela, depois de a bagagem estar toda dentro de casa, interrompendo-o a meio da sua lengalenga.
- Muito bem - replicou ele calmamente, virando-se para olhar para ela. Uma vez chegados a casa, ele tirara os óculos-de-sol e, neste momento, Liz teve de virar o rosto para o lado para se desviar dele. Aquele olhar fixo, ofuscante e mutilado, era superior …s suas forças. - Vou contigO.
- Quando faço as minhas necessidades, gosto de um pouco de privacidade. Tu não?
- De certa forma, tanto se me d como se me deu - respondeu Stark com uma jovialidade serena. Este era o estado de espirito em que se encontrava desde que tinham saído da auto-estrada em Gates Falls: Stark possuia o ar inequívoco de um homem que sabe que as coisas vão correr bem.
- Mas a mim não - replicou Liz, como se estivesse a falar com uma criança particularmente obtusa. Sentiu os dedos enroscarem-se em forma de garras. Na sua mente arrancava, de um momento para o outro, aqueles globos oculares arregalados das cavidades frouxas... e quando correu o risco de olhar para ele e se Lhe deparou um rosto divertido, Liz apercebeu-se de que ele sabia em que é que ela estava a pensar e como é que se estava a sentir.
- Fico … entrada da porta - disse com uma humildade escarnecedora. - Prometo que vou ser um bom menino Não vou espreitar.
Os bebés andavam atarefados a gatinhar pelo tapete da sala de estar. Estavam contentes, palradores e cheios de genica.
Pareciam encantados por se encontrarem ali, onde só tinham estado uma £nica vez, durante um fim-de-semana comprido de Inverno.
- Não os podemos deixar sozinhos - disse Liz. - A casa de banho pertence ao quarto principal. Se os deixarmos aqui, vão meter-se em sarilhos.
- Tudo bem, Beth - replicou Stark, levantando-os do chão sem qualquer esforço, um debaixo de cada braço.
Ainda esta manhã, Liz estava convencida de que, se alguém, que não ela ou Thad, tentasse fazer uma coisa desse género, William e Wendy desatariam aos berros. Contudo, quando Stark fez isso, os dois soltaram umas risadinhas alegres como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.
- Vou lev -los para o quarto, e ficarei a tomar conta deles no teu lugar. - Stark virou e fitou-a com frieza momentƒnea. - Também eu vou ficar de olho neles. Não quero que nada Lhes aconteça, Beth. Gosto deles. Se alguma coisa lhes acontecer, não ser por culpa minha.
Liz foi até a casa de banho e Stark permaneceu junto a porta, de costas viradas para ela tal como prometera, a observar os gémeos. ao levantar a saia, baixar as cuecas e sentar-se na retrete, Liz rezou para que ele fosse um homem de palavra. Não seria o fim do mundo se ele se virasse e a visse agachada na retrete... mas se visse a tesoura de costura presa dentro da roupa interior, talvez pudesse vir a ser o fim do mundo.
E, como habitualmente, sempre que estava muito aflita, abexiga aguentou-se teimosamente. "V l , v l ", pensou ela com um misto de medo e irritação. "Que é que se passa, achas que vamos ganhar juros com esta coisa?"
Finalmente. Que alívio.
- Mas quando eles tentam sair do celeiro - estava Stark a dizer - Machine deita fogo … gasolina que, durante a noite, eles tinham despejado na vala em redor. Não vai ser o m ximo? e também vai ter um filme, Beth" os idiotas que fazem filmes adoram incêndios.
Liz usou o papel higiénico e, com extremo cuidado, puxou as cuecas para cima. Enquanto compunha a roupa, não descolando os olhos das costas de Stark, só rezava para que ele não se virasse. Não o fez. Stark estava profundamente absorvido pela própria história.
- Westerman e Jack Rangely esquivam-se l para dentro, planeando usar o carro para passarem exactamente pelo meio do fogo. Mas Ellington entra em pƒnico e...
Subitamente, Stark calou-se, com a cabeça empertigada para um lado. De seguida, virou-se para ela, enquanto Liz endireitava a camisa.
- Fora! - ordenou abruptamente, sem mais nenhum vestígio da boa disposição de h pouco. - Sai j daí!
- Mas...
Com uma força brutal, Stark agarrou no braco dela e, aos safanões, empurrou-a para dentro do quarto. Dirigiu-se para a casa de banho e abriu o arm rio dos remédios.
- Temos companhia, e é muito cedo para ser Thad.
- Eu não...
- O motor de um carro - disse ele rapidamente. - Um motor forte. Pode ser um carro da Polícia. Est s a ouvir?
Com um estrondo, Stark fechou a porta do arm rio dos remédios e, com uma sacudidela, abriu a gaveta … direita do lavatório. Encontrou um rolo de adesivo e separou o aro de lata da caixa.
Liz não ouviu nada e assim disse.
- Deixa estar - replicou Stark. - Eu ouço pelos dois.
Põe as mãos atr s das costas.
- O que é que vais fazer?...
- Cala-te e põe as mãos atr s das costas!
E foi o que ela fez e imediatamente os pulsos ficaram presos. Stark entrecruzou o adesivo, para tr s e para a frente, para tr s e para a frente, descrevendo uma espécie de oitos apertados. , - O motor acabou de parar - informou ele. - Talvez a cerca de quatrocentos metros estrada acima. h alguem que est a tentar armar-se em esperto.
Liz teve a sensação de que, no £ltimo instante, talvez tivesse realmente escutado o barulho de um motor, mas podia não passar de mera sugestão. Ela estava ciente de que não teria ouvido nada caso não estivesse … escuta com toda a atenção. Meu Deus, como os ouvidos dele eram apurados!
- Tenho de cortar o adesivo - disse ele. - Peço desculpa por violar a tua intimidade por um segundo ou dois, mas não temos tempo a perder com delicadezas.
E antes de ela própria se aperceber do que ele estava a fazer, Stark metera a mão por baixo da parte da frente da saia. Um instante depois, tirou a tesoura c para fora. Nem sequer Lhe picou a pele.
Stark olhou de relance para ela, enquanto se debruçava para tr s e utilizava a tesoura para cortar o adesivo. Parecia estar de novo a divertir-se.
- Tu viste-a - disse ela entorpecida. - Afinal de contas, sempre viste a saliência na minha saia.
- A tesoura? - Riu-se. - Eu via-a, mas não a saliência.
Eu via-a nos teus olhos, querida Betie. Via-a l em Ludlow. Soube que ela aqui estava no minuto exacto em que desceste as escadas.
Stark ajoelhou-se diante dela, de forma absurda - e agoirenta - como um pretendente a pedir uma mulher em casamento. Virou então os olhos para cima, em direcção a ela.
- Não te ponhas com ideias em me dar um pontapé ou coisas desse género, Beth. Não tenho bem a certeza mas est -me c a parecer que é um polícia. e por muito que pudesses gostar, não tenho tempo para brincar contigo.
Portanto, fica quieta.
- Os bebés...
- Vou fechar as portas - disse Stark. - Eles não são sufícientemente altos para chegarem aos puxadores, nem mesmo quando se põem de pé. Penso que o pior que Lhes pode acontecer é comerem algum do cotão que est debaixo da cama. Estarei de volta daqui a pouco.
Agora, o adesivo descrevia uma série de outros oitos em redor dos tornozelos de Liz. Stark cortou-o e voltou a p“r-se de pé.
- Porta-te bem, Beth - ordenou ele. - Vê l não percas os teus pensamentos felizes. Terias de pagar por uma coisa dessas... mas, antes disso, obrigava-te a vê-los pagar por isso.
De seguida, depois de fechar a porta da casa de banho e a porta do quarto, Stark foi-se embora. Desapareceu com a velocidade com que um bom m gico faz um truque.
Liz pensou na .22 fechada no barracão das m quinas.
Ser que a arma também teria balas? Ela estava certa que sim. Meia caixa para uma Winchester .22 de canos compridos numa prateleira de cima.
Liz começou a torcer os pulsos para tr s e para a frente.
Stark entrelaçara os adesivos com muita habilidade e, por alguns momentos, ela não teve sequer a certeza que iria conseguir afroux -lo um pouco, quanto mais libertar as mãos.
Contudo, quando começou a sentir que o adesivo estava a dar um pouco de si, mexeu os pulsos para tr s e para a frente com mais rapidez, arquejando.
William gatinhou para cima da cama, p“s as mãozinhas na perna dela e fitou-a com um olhar interrogativo.
- Vai ficar tudo bem - disse ela, sorrindo para ele.
William retribuiu-lhe o sorriso e afastou-se, a gatinhar, indo procurar a irmã. Com um abano r pido da cabeça, Liz afastou uma madeixa de cabelo dos olhos e p“s-se de novo a contorcer os pulsos para tr s e para a frente, para tr s e para a frente, para tr s e para a frente.
3
Tanto quanto Alan Pangborn podia afirmar, Lake Lane estava totalmente deserto... pelo menos, até ao ponto onde ousara levar o carro. Tratava-se da sexta entrada para automóveis ao longo da estrada. Alan tinha a impressão de que poderia ter levado o carro um pouco mais para a frente em segurança: era impossível que o barulho do motor do carro pudesse ser ouvido na casa dos Beaumont a toda esta distƒncia, ainda por cima com duas colinas de permeio. No entanto, mais valia prevenir do que remediar. Assim, Alan conduziu o carro até ao chalé com estrutura de T que pertência a familia William, residentes de Verão oriundos de Lynn, no estado de Massachusetty, estacionou o carro sobre um tapete de agulhas debaixo de um antigo pinheiro vener vel, desligou o motor e saiu.
Olhou para cima e viu os pardais.
Estavam empoleirados no beiral do telhado da casa dos William, também os via nos ramos altos das rvores que rodeavam a casa. Encarrapitavam-se nas rochas junto … margem do lago, acotovelavam-se uns aos outros na doca dos William, eram tantos que Alan não conseguia vislumbrar o bosque. Havia centenas e centenas deles.
E todos eles estavam totalmente silenciosos limitando-se a olhar para ele com os seus min£sculos olhos pretos.
- Meu Deus - sussurrou ele.
Alan podia ouvir os grilos a cantar na erva alta que crescia ao longo dos alicerces da casa dos William, o enrolar suave das ondas do lago contra a zona da doca que Ihes pertencia, e um avião a zumbir em direcção a leste, a New Hampshire. Além disso, tudo o mais estava silencioso. Não se ouvia sequer o ronco desarmonioso de um só motor de popa no lago.
Apenas aqueles p ssaros.
Todos aqueles p ssaros.
Alan sentiu um pavor profundo e vítreo a deslizar pelos seus ossos. J tinha visto bandos de pardais a voar em conjunto na Primavera ou no Outono, por vezes cem ou duzentos de uma só vez, mas nunca, em toda a sua vida, vira uma coisa destas.
"Ser que vieram por causa de Thad... ou de Stark?"
Alan tornou a olhar de novo para tr s, para o microfone do r dio, interrogando-se se, afinal de contas, não deveria pedir reforços. Tudo isto era demasiado esquisito, demasiado incontrol vel.
"E se todos eles levantarem voo ao mesmo tempo? Se ele estiver aqui, e se for tão esperto como Thad diz que ele é, não tenho quaisquer d£vidas de que ouvir . Ouvir tudo sem qualquer problema."
Alan começou a caminhar. Os pardais não se mexeram mas um bando novo apareceu, espalhando-se pelas rvoreS Neste momento, rodeavam-no por todos os lados fitando-o como um j£ri de coração empedernido fita um assassino no banco dos réus. Abundavam em todo o lado, excepto junto … estrada que ficara para tr s. Os bosques que orlavam Lake Lane estavam ainda vazios.
Alan decidiu voltar para tr s e tomar esse caminho.
Um pensamento sombrio, que por pouco não passou de uma premonição, veio-lhe … cabeça: que este podia ser o maior erro da sua vida profissional.
"Vou apenas fazer um reconhecimento do lugar", pensou. "Se os p ssaros não voarem - e não parecem que o os ossos deles são ocos", pensou. "Eles não devem pesar quase nada. Quantos deles é que serão precisos para partir um ramo como este?"
Alan não sabia. Não desejava saber.
Desapertando a tira sobre a coronha da sua .38, Alan tornou a subir a ingreme ladeira da entrada dos William, longe dos p ssaros. Quando chegou a Lake Lane, que não passava de um carreiro sujo com uma faixa de relva a crescer por entre os trilhos marcados pelas rodas, o seu rosto estava luzidio e a camisa colada …s costas devido … transpiração. Alan olhou … sua volta, conseguindo vislumbrar os p ssaros no caminho que acabara de percorrer - agora, cobriam todo o seu carro, empoleirados no capot, no porta-bagagens e nos faróis do tejadilho. Contudo, não havia nenhum ali.
"• como se não se quisessem aproximar demasiado", pensou, "... pelo menos por enquanto. • como se esta fosse a zona de actuação."
Por detr s de um sumagre alto, que esperava ser um lugar protegido dos olhares dos outros, Alan olhou para um lado e para o outro de Lake Lane. Nem vivalma, apenas os pardais, e estes estavam todos recolhidos atr s da encosta onde se situava a casa em forma de T dos William. Nem um só som, excepto os grilos e dois mosquitos a zumbirem-Lhe em redor do rosto.
Ÿptimo.
Alan atravessou a estrada a correr, como um soldado em território inimigo, com a cabeça agachada entre os ombros arqueados. Saltou a vala juncada de ervas daninhas e rochas no ponto mais afastado e desapareceu para dentro dos bosques. Uma vez escondido, concentrou-se em abrir caminho até a casa de Verão dos Beaumont, o mais r pido e silenciosamente possível.
O lado oriental de Castle Lake assentava no sopé de uma colina longa e ingreme. Lake Lane encontrava-se a meio desta encosta. A maior parte das suas casas situava-se muito para l de Lake Lane. Desta forma, de onde ele se encontrava, ou seja, a cerca de dezoito metros acima da colina a partir da estrada, Alan não conseguia vislumbrar mais do que as pontas dos telhados. Em alguns casos, estes estavam totalmente escondidos. Ainda assim, Alan conseguia ver a estrada e as entradas de automóveis que se ramificavam a partir da estrada e, enquanto não as perdesse totalmente de vista, não haveria problemas.
Ao chegar … quinta curva a contar da casa dos William Alan estacou. Olhou por cima do ombro para ver se os pardais o estariam a seguir. Era uma ideia bizarra, mas, de certa forma, inevit vel. Nem sinal deles, tendo-lhe ocorrido que, provavelmente, a sua mente sobrecarregada tivesse imaginado tudo aquilo.
"Esquece isso", pensou. "Não imaginaste nada. Eles estavam l ... e ainda estão l ."
Alan olhou para baixo, para a entrada de automóveis dos Beaumont, mas, do local onde se encontrava, não conseguiu ver nada. Começou a descer, caminhando com lentidão e agachado. Alan deslocava-se em silêncio, estando precisamente a congratular-se por esse facto quando George Stark enfiou uma arma no seu ouvido esquerdo e disse:
- D s mais um passo, amigo, e a maioria dos teus miolos vão parar ao teu ombro direito.
5
Alan virou a cabeça lentamente.
Aquilo que viu quase que o levou a desejar ter nascido cego.
- Parece-me bem que eles nunca me irão querer na capa da GQ, não achas? - perguntou Stark, com um sorriso aberto nos l bios. O sorriso revelava mais dos seus dentes e gengivas (e das cavidades vazias onde tinham existido outros dentes) do que o sorriso mais largo do mundo alguma vez revelaria. O rosto estava coberto de feridas e a pele parecia estar a separar-se do tecido subjacente. Mas isso nem era o pior" não era isso que fazia o est“mago de Alan revolver-se de horror e de nojo. Havia algo que parecia não bater bem com a estrutura óssea do rosto do homem. Era como se ele não estivesse apenas a decompor-se mas a sofrer uma espécie de mutação horrível.
Ainda assim, Alan sabia quem era o homem da arma.
O cabelo, sem brilho, como uma cabeleira antiga colada … cabeça de palha de um espantalho, era louro. Os ombros eram quase tão largos como os de um jogador de futebol americano com os chumaços postos. Estava de pé, com uma espécie de graça arrogante e ligeira mesmo quando não se estava a mexer, e fitava Alan com boa disposição.
Era o homem que não podia existir, que nunca existira.
Era o Sr. George Stark, aquele filho da mãe pretensioso de Oxford, Mississipi.
Era tudo verdade.
- Bem-vindo ao carnaval, velha carcaça - exclamou Stark de forma branda. - Para um homem tão grande, até que te mexes bastante bem. A principio, quase que me escapaste e tenho andado … tua procura. Vamos descer até a casa. Quero apresentar-te a patroa. e basta dares um £nico passo em falso para ficares morto, e ela também, e aqueles bebézinhos amorosos também. Não tenho nada de nada neste mundo tão vasto a perder. Acreditas nisto?
Do seu rosto em decomposição e terrivelmente assustador, Stark lançou-lhe um sorriso. Os grilos continuavam a cantar na relva. No lago, um mergulhão soltou um grito penetrante e doce para o ar. Alan desejou do mais fundo do coração ser aquele p ssaro porque quando olhava para os globos oculares arregalados de Stark, a £nica coisa que, para alem da morte, conseguia ver dentro deles... a £nica coisa era nada.
Com uma clareza total e abrupta, Alan apercebeu-se de que nunca mais iria ver de novo a mulher e os filhos.
- Acredito - respondeu ele.
- Então deita a tua arma para o chão e vamos embora.
E Alan assim fez. Stark seguiu atr s dele, tendo os dois descido para a estrada. Atravessaram-na, descendo de seguida a rampa da entrada dos Beaumont em direcção … casa. Esta avançava para a frente na encosta sobre pesadas estacas de madeira, quase como uma casa de praia em Malibu. Tanto quanto Alan conseguia ver, não havia quaisquer pardais por perto.
Nenhum mesmo.
O Toronado estava estacionado … porta, uma tarantula preta e reluzente ao sol do final da tarde. Assemelhava-se a uma bala. Com uma leve sensação de fascínio, Alan leu o autocolante do para-choques. Todas as suas emoções estavam enfraquecidas, entorpecidas, como se aquilo fosse um sonho do qual acordaria em breve.
"Tu não queres pensar dessa forma", avisou-se a si próprio. "Pensar assim só far com que sejas morto.,> Isto até que era uma ideia engraçada porque ele j era um homem morto, ou não? Ali estivera ele, a tentar esgueirar-se pela entrada da casa dos Beaumont acima, a tentar atravessar dissimulado a estrada como o Tonto: "dei uma boa vista de olhos, para ter uma ideia da situação, Kemo Sabe"... e Stark limitara-se a pór uma pistola no ouvido e a ordenar-lhe para deitar a arma fora e l se fora tudo por gua abaixo.
"Eu não o ouvi" eu nem sequer o pressenti. As pessoas pensam que eu sou discreto, mas, com este tipo ao lado, é como se tivesse dois pés esquerdos."
- Gostas das minhas quatro rodas? - perguntou Stark.
- Neste preciso momento, creio que todos os agentes de polícia do Maine tem de gostar das suas quatro rodas - respondeu Alan - porque todos eles andam … procura delas.
Stark emitiu uma gargalhada bem disposta.
- Porque ser que eu não acredito nisso? - O cano da arma aguilhoou Alan nos rins. - Vamos l a entrar, meu velho e bom amigo. Estamos apenas … espera do Thad.
Quando o Thad aqui chegar, penso que estaremos prontos, prontissimos para dançar o rock'n roll.
Alan olhou para a mão vazia de Stark e reparou numa coisa extremamente peculiar: ele parecia não ter linhas na palma da mão. Nenhuma linha mesmo.
- Alan! - exclamou Liz. - Est bem?
- Ora - respondeu Alan - se é possível para um homem sentir-se como o maior idiota … face da Terra e ainda assim estar bem, penso que estou.
- Não era de esperar que acreditasse - disse Stark com suavidade, apontando para a tesoura que tirara das cuecas de Liz. Stark colocara-a sobre uma das mesinhas-de-cabeceira que flanqueavam a grande cama de casal, longe do alcance dos gémeos. - Liberte as pernas dela, agente Alan. Não se preocupe com os pulsos" parece que ela j quase os conseguiu libertar sozinha. Ou ser que é chefe Alan?
- Xerife Alan - corrigiu Pangborn, e pensou: "Ele sabe isso. Ele conhece-ME - o xerife Alan Pangborn do munícipio de Castle - porque Thad conhece-me. Mas mesmo quando é ele quem est na mó de cima, nem assim d a entender tudo aquilo que sabe. • tão matreiro como a raposa que ganha a vida a atacar capoeiras."
E, pela segunda vez, foi totalmente invadido pela certeza sombria da sua morte próxima. Alan tentou pensar nos pardais porque estava convencido que os p ssaros eram o £nico elemento deste pesadelo com que George Stark não estava familiarizado. Mas depois reflectiu melhor. O homem era esperto de mais. Se ele se desse ao luxo de ter esperanças, Stark aperceber-se-ia disso nos seus olhos... e interrogar-se-ia sobre o seu significado.
Cumprindo a ordem de Stark, Alan pegou na tesoura e cortou o adesivo que prendia as pernas de Liz, ao mesmo tempo que esta libertava uma mão e começou a desenrolar o adesivo … volta dos pulsos.
- Vais magoar-me? - perguntou ela a Stark de modo apreensivo, mantendo as mãos levantadas, como se as marcas vermelhas que o adesivo deixara nos pulsos o fossem, de alguma forma, dissuadir desse acto.
- Não - respondeu ele, esboçando um ligeiro sorriso.
- Não te posso culpar por fazeres coisas que fazem parte da tua natureza, pois não, querida Beth?
Perante essa resposta, Liz lançou-lhe um olhar revoltado e assustado e pegou nos gémeos. Perguntou a Stark se os podia levar para a cozinha e dar-lhes de comer alguma coisa. Dado que ambos tinham dormido durante todo o caminho até Stark estacionar o Volvo roubado dos Clark na rea de serviço, estavam agora animados e cheios de boa disposição.
- Claro que sim - respondeu Stark, que parecia estar muito alegre e óptimista... embora segurasse a arma numa mão e os olhos se mexessem incessantemente, para tr s e para a frente, entre Liz e Alan. - Porque é que não vamos todos? Quero ter dois dedos de conversa aqui com o nosso xerife.
Em grupo, dirigiram-se até … cozinha, onde Liz começou a preparar uma refeição para os gémeos. Enquanto fazia isso, Alan observava os gémeos. Eram uns mi£dos amorosos: tão amorosos como um par de coelhinhos e observ -los fazia-o recordar-se de uma época em que ele e Annie eram ainda muito mais novos, uma época em que Toby, agora no £ltimo ano do liceu, ainda andava de fraldas e Todd vinha ainda a muitos anos de distƒncia.
Os gémeos gatinhavam alegremente para c e para l e, de vez em quando, Alan tinha de redireccionar um deles antes que ele ou ela conseguissem deitar uma cadeira abaixo ou batessem com a cabeça no lado de baixo da mesa de fórmica da cozinha e fizessem um galo.
Enquanto Alan tomava conta dos bebés, Stark ia falando com ele.
- Est convencido que o vou matar - disse. - Escusa de neg -lo, xerife, consigo lê-lo nos seus olhos e trata-se de um olhar com o qual estou familiarizado. até podia mentir e dizer-lhe que não era verdade" mas não me parece que acreditasse em mim. O senhor tem uma certa experiência nestes assuntos, não é verdade?
- Suponho que sim - respondeu Alan. - Mas algo como isto est um pouco... bem, fora do processo normal dos assuntos de polícia.
Stark lançou a cabeça para tr s e riu-se. Os gémeos foram atraídos pelo som, juntando-se …s suas gargalhadas.
Alan olhou de soslaio para Liz e viu terror e ódio no rosto dela. Mas também havia mais qualquer coisa, não havia?
Sim. Alan pensou ser ciume, interrogando-se em vão se não haveria algo mais de que George Stark não estivesse ao corrente. Interrogou-se ainda se Stark faria alguma ideia de quão perigosa esta mulher podia ser.
- e não tenha a mínima d£vida! - disse Stark, ainda a casquinar. De repente, ficou muito sério. Debruçou-se sobre Alan e este conseguia sentir o odor fedorento da sua carne em decomposição. - Mas não tem de ser assim, xerife.
Todas as probabilidades apontam para que não saia daqui vivo, isso posso garantir-lhe, xerife. No entanto, essa possibilidade existe. Tenho uma coisa a fazer aqui. Escrever um pouco. Thad vai ajudar-me, ele vai dar a bomba, se é que assim se pode dizer. Penso que, provavelmente, iremos trabalhar durante toda a noite, eu e ele, mas quando, amanhã de manhã, o Sol nascer, j devo ter a minha casa toda em ordem.
- Ele quer que Thad o ensine a escrever por si só - explicou Liz do fogão. - Diz que vão os dois colaborar num livro.
- Não é bem assim - retorquiu Stark. No instante em que olhou de relance para ela, uma ruga de contrariedade aflorou a superfície, anteriormente inquebr vel, do seu rosto bem-disposto. - Sabe, ele deve-me isso. Talvez Thad até soubesse escrever antes mesmo de eu ter aparecido, mas fui eu quem o ensinou a escrever as coisas que as pessoas querem realmente ler. e o que é que h de bom em escrever uma coisa se ninguém a quer ler?
- não, tu não conseguirias compreender isso, pois não? - interrogou Liz.
- O que eu quero dele - disse Stark a Alan - é uma espécie de transfusão. Parece que tenho uma espécie qualquer de... glƒndula que me est a faltar. A faltar temporariamente.
Creio que Thad sabe como p“r essa glƒndula a funcionar. Ele deve saber, porque clonou a minha glƒndula a partir da dele, se é que me entende. Penso que se poder dizer que ele construiu a maior parte do meu equipamento.
"Não, não, meu amigo", pensou Alan. "Est s enganado.
Talvez não o saibas, mas isso não é verdade. Vocês os dois fizeram isso em conjunto porque vocês os dois existiram desde sempre. e tu tens sido horrivelmente persistente. Thad tentou dar-te um fim antes mesmo de ter nascido, mas não o conseguiu por completo. Depois, onze anos mais tarde, o Dr. Pritchard tentou dar uma mãozinha e isso funcionou mas apenas por pouco tempo. Por fim, Thad acabou por te convidar a voltar. Fê-lo mas sem ter a consciência do que estava a fazer... porque não tinha consciência de TI.
Pritchard nunca Lhe contou nada. e tu vieste, não foi? Tu és o fantasma do irmão morto... mas vocês os dois são muito mais e muito menos do que isso."
Alan segurou Wendy, que estava junto … lareira, antes que esta conseguisse cair para tr s sobre a caixa da lenha.
Stark olhou para William e Wendy e de novo para Alan.
- Sabe, eu e Thad vimos de uma familia com muitos gémeos. E, como é evidente, acabei por aparecer após as mortes dos gémeos que deveriam ter sido os irmãos ou irmãs mais velhos destes dois mi£dos. Se desejar, chame a isso uma espécie de acto de equilíbrio transcendental.
- Eu chamo a isso loucura - retorquiu Alan.
- Na verdade, eu também - riu-se Stark. - Mas foi isso que aconteceu. A palavra transformou-se em matéria.
se assim se pode dizer. Como é que isso sucedeu, não interessa muito. O que interessa é que estou aqui.
"Est s enganado", pensou Alan. "Como é que isso aconteceu pode ser tudo aquilo que REALMENTE interessa. Se não para ti, pelo menos para nós... porque pode ser só isso o que nos ir salvar."
- Uma vez as coisas chegadas a um determinado ponto, criei-me a mim próprio - prosseguiu Stark. - E, na verdade, não é assim tão surpreendente que tenha andado a ter problemas com a minha escrita, pois não? • preciso muita energia para uma pessoa se criar a si própria. Não é todo o dia que acontece este tipo de coisa, não acha?
- Deus te ouça - retorquiu Liz.
Se aquela não foi uma "boca" directa, esteve l muito perto. A cabeça de Stark cruzou o ar em direcção a ela, com a rapidez de uma cobra a atacar. Desta vez, o aborrecimento parecia ser mais do que apenas uma pequena ruga.
- Penso que é melhor manteres esse teu biquinho calado, Beth - ordenou Stark com suavidade - porque ainda és capaz de meteres em sarilhos uma pessoa que não pode falar por ela. Ou por ele.
Liz baixou os olhos para a panela que se encontrava ao lume. Alan teve a impressão que ela empalidecera.
- Importa-se de os trazer até aqui, Alan? - pediu ela serenamente. - Isto j est pronto.
Liz p“s Wendy ao colo para Lhe dar de comer e Alan pós William ao seu colo. Era incrível a rapidez com que a técnica vinha de novo … cabeça, pensou ele, enquanto alimentava o rapazinho rechonchudo. Enfia a colher na boquinha, inclina-a e depois da aquela passagem, r pida mas suave, do queixo ao l bio inferior, para evitar o mais possível pingos e salpicos. Will não cessava de tentar agarrar na colher, achando, ao que parecia, que j era sufícientemente adulto e que j tinha bastante experiência para guiar a colher sozinho, sem ajuda, muito obrigado. Alan desencorajou-o com cuidado e, pouco tempo depois, o rapaz l acalmou e dedicou-se a comer a sério.
- O facto é que o posso usar - contou-lhe Stark, encostado ao balcão da cozinha e subindo e descendo, de modo ocioso, … mira da pistola diante do colete alcochoado, fazendo um ruído spero e sussurrante. - Foi a polícia estadual que o chamou, que Lhe pediu para vir até aqui e verificar a casa? • por isso que est aqui?
Alan pesou os prós e os contras de mentir e decidiu que seria mais seguro dizer a verdade, basicamente porque não tinha quaisquer d£vidas de que este homem - se é que ele era um homem - tinha um detector de mentiras incorporado muito eficaz.
- Não própriamente - respondeu, contando a Stark a chamada feita por Fuzzy Martin.
Antes mesmo de ter terminado, Stark estava j a acenar a cabeça.
- Bem me pareceu ter visto um reflexo na janela daquela quinta - disse, soltando um riso abafado. A boa disposição parecia estar totalmente restabelecida. - Bem, bem! As pessoas do campo não conseguem deixar de ser um pouco bisbilhoteiras, pois não, xerife Alan? Tem tão pouco para fazer que até seria de admirar se não fossem bisbilhoteiras! Então, que foi que fez quando desligou o telefone?
Também isto Alan Lhe contou e, desta vez, também não Lhe mentiu porque tinha a certeza que Stark sabia o que ele fizera: o simples facto de estar aqui sozinho respondia … maioria das perguntas. Alan pensou que aquilo que Stark queria de facto saber era se ele seria sufícientemente est£pido para tentar dizer uma mentira.
Quando terminou, Stark retorquiu:
- Ora muito bem. Isto aumenta as possibilidades de sobreviver para lutar durante mais um dia antes de ir parar ao Inferno, xerife Alan. Agora, preste muita atenção porque vou dizer-lhe aquilo que iremos fazer mal estes bebés acabem de comer.
7
- Tem a certeza que sabe o que tem a dizer? - inquiriu Stark de novo. Estavam os dois postados junto ao telefone no trio de entrada, o £nico telefone que ainda funcionava naquela casa.
- Sim.
- e não vai tentar enviar nenhuma mensagenzinha secreta … sua telefonista?
- Não.
- óptimo - exclamou Stark. - Isso é óptimo porque esta seria uma altura péssima para esquecer que é um adulto e começar a brincar aos polícias e ladrões. Alguem iria certamente ficar magoado.
- Gostaria que deixasse de fazer essas ameaças por algunsminutos.
O esgar de Stark aumentou e transformou-se em algo esplendorosamente pestilento. Stark levara William com ele para garantir a continuação do bom comportamento de Liz e, agora, fazia cócegas debaixo de um dos braços do bebé.
- •-me totalmente impossível fazer isso - disse. - Um homem que vai contra a sua natureza acaba por ficar com prisão de ventre, xerife Alan.
O telefone encontrava-se sobre uma mesa junto a uma janela ampla. ao pegar no auscultador, Alan varreu com o olhar a encosta coberta de bosques para l da alameda de entrada em busca de pardais. Não havia nenhum a vista.
Ainda não, pelo menos.
- De que é que est s … procura, velha carcaça?
- Hem? - Alan olhou de relance para Stark. Inexpressivos, os olhos deste fixavam-no a partir das cavidades em decomposição.
- Ouviste o que eu disse. - Stark meneou a cabeça em direcção … entrada da casa e ao Toronado. - Não estavas a olhar por essa janela como um homem costuma fazer apenas porque tem uma janela para olhar. Est s com o rosto de um homem que espera ver alguma coisa. Quero saber o que e.
Alan sentiu um frio arrepio de terror descer pelas costas abaixo.
- Thad - ouviu-se a si próprio dizer com serenidade.
- Tal como você, estou a ver se consigo ver algum sinal de Thad. Ele deve estar prestes a chegar.
- Espero bem que essa seja toda a verdade, não acha? - perguntou-lhe Stark, erguendo William um pouco mais alto. Lentamente, Stark começou a rolar o cano da pistola para cima e para baixo, na zona agradavelmente rechonchuda entre o tórax e o abdómen de William, fazendo-Lhe cócegas. William soltou umas risadinhas e bateu ao de leve numa das faces em decomposição de Stark, como a querer dizer "P ra com isso, est s a brincar... mas ainda não, porque isto até que é engraçado."
- Penso que sim - retorquiu Alan, engolindo em seco.
Stark deslizou suavemente a boca da pistola até ao queixo de William e, aí, fez cócegas na pequena papada do bebé, que desatou a rir-se.
"Se Liz dobrar a esquina e vir o que ele est a fazer, enlouquece", pensou Alan calmamente.
- Tem a certeza que me contou tudo, xerife Alan? Não est a esconder-me nada, ou est ?
- Não - respondeu Alan. "Apenas os pardais no bosque em redor da casa dos William." - Não estou a esconder nada.
- Muito bem. Acredito em si. Pelo menos para j . Faça l agora o que tem a fazer.
Alan marcou o n£mero de telefone do gabinete do xerife do M£nícipio de Castel. Stark aproximou-se dele - tão próximo que o odor deu a Alan a impressão que ia morrer sufocado - e p“s-se … escuta.
Ao primeiro toque, o telefone foi atendido por Sheila Brigham.
- Est , Sheila, daqui Alan. Estou aqui em Castle Lake.
Tentei contactar através do r dio mas sabes como é que as transmissões são aqui em baixo.
- Inexistentes - respondeu ela, e riu-se.
Stark sorriu.
8
Quando desapareceram de vista após dobrar a esquina, Liz abriu a gaveta sob a bancada da cozinha e tirou a maior faca que l estava. Olhou de soslaio para o canto, sabendo que, a qualquer instante, Stark podia meter a cabeça na porta para ver o que ela andava a fazer. Mas, até agora, não tinha havido problemas. Liz conseguia ouvi-los falar.
Stark estava a dizer algo sobre o modo como Alan olhara pela janela.
"Tenho de fazer isto", pensou ela, "e tenho de fazer isto por mim mesma. Ele não tira os olhos de Alan e, mesmo que eu conseguisse dizer alguma coisa a Thad, isso só iria piorar as coisas... porque ele tem acesso … mente de Thad."
Segurando Wendy na curva do braço, Liz descalçou os sapatos e, com passos r pidos e descalça, dirigiu-se para a sala de estar. Aqui, havia um sof , disposto de forma a que quem se sentasse nele pudesse ter uma vista para o lago.
Liz esgueirou a faca por debaixo do folho... mas não para muito fundo. Se ela aqui se sentasse, estaria ao seu alcance.
E se eles se sentassem juntos, ela e o matreiro George Stark, também ele estaria ao seu alcance.
"Talvez o consiga levar a fazer isso", pensou ela, correndo de novo de volta para a cozinha. "Sim, talvez consiga. Ele sente-se atraído por mim. e isso é horrível...
mas não demasiado horrível para ser usado."
Liz entrou na cozinha, na expectativa de ver Stark, … sua espera, a lançar-lhe aquele sorriso horrível e esboroado, com os dentes reluzentes que ainda sobravam. Mas a cozinha estava vazia, e ela podia ainda ouvir Alan ao telefone, no vestíbulo. Conseguia imaginar Stark postado mesmo junto a ele, a escut -lo. Portanto, estava tudo bem. Liz pensou: "Com um pouco de sorte, George Stark estar morto quando Thad aqui chegar."
Ela não queria que os dois se encontrassem. Apesar de não entender todas as razões que a levavam a querer evitar, tão desesperadamente, que isso acontecesse, pelo menos uma delas ela entendia: Liz temia que a colaboração pudesse vir realmente a funcionar e temia ainda mais saber quais seriam os frutos desse êxito.
No fundo, apenas um deles poderia levar a melhor sobre as naturezas duplas de Thad Beaumont e de George Stark. Apenas um ser físico poderia sobreviver a uma divisão tão primitiva. Se Thad pudesse dar a Stark o empurrão de que este precisava, se Stark começasse a escrever sozinho, todas as suas feridas e chagas começariam a desaparecer?
Liz acreditava que sim. Liz acreditava que Stark pudesse mesmo tomar para si o rosto e a forma do seu marido.
E, depois disso, quanto tempo é que levaria (partindo do principio que Stark os deixaria vivos e que se pusesse em fuga) até as primeiras feridas começarem a surgir no rosto de Thad?
Liz estava convencida que não iriam demorar muito tempo. e tinha sérias d£vidas de que Stark estivesse interessado em impedir que, primeiro, Thad se decompusesse e, por fim, apodrecesse e desaparecesse para sempre, juntamente com todos os seus pensamentos felizes.
Ela tornou a calçar os sapatos e começou a arrumar os restos do jantar adiantado dos gémeos. "Seu grande filho da mãe", pensou ela, primeiro a limpar o balcão e depois a começar a encher o lava-loiças com gua quente. "TU é que és o pseudónimo, TU é que és o intruso, e não o meu marido." Liz esguichou detergente para dentro do lava-loiças e, de seguida, foi até a porta da sala de estar para dar uma vista de olhos a Wendy. esta estava a gatinhar pelo chão da sala de estar, provavelmente … procura do irmão.
Por detr s das portas de vidro corrediças, o sol do final de tarde lançava uma brilhante faixa dourada sobre a gua azul de Castle Lake.
"Tu não pertences aqui. és uma abominação, uma ofensa … vista e … mente."
Liz olhou para o sof com a afiada faca comprida enfiada debaixo dele, bastante … mão.
"Mas eu posso corrigir isso. e se Deus deixar levar a minha avante, CORRIGIREI ISSO."
9
Apesar de o cheiro de Stark estar mesmo a fazer-lhe confusão - dava-lhe a sensação de que iria sufocar a qualquer momento - Alan tentou não deixar transparecer nada na voz.
- Sheila, o Norris Ridgewick j voltou?
A seu lado, Stark começara a fazer de novo cócegas a William com a .45.
- Ainda não, Alan. Lamento.
- Quando ele aparecer, diz-lhe para ficar a tomar conta.
até l , Clut continua encarregue.
- O turno dele...
- Sim, eu sei que o turno dele j acabou. A cƒmara vai ter de pagar horas extraordin rias e o Keeton não me vai largar por causa disso, mas que posso fazer? Estou para aqui preso, com um r dio estragado e um carro que começa a deitar fumo sempre que acelero um bocadinho mais. Estou a telefonar da casa dos Beaumont. A polícia estadual quis que eu viesse até aqui para dar uma espreitadela mas não valeu de nada.
- Tenho muita pena. Quer que passe a palavra a alguem? A Polícia Estadual?
Alan olhou para Stark, que parecia estar totalmente absorvido a fazer cócegas ao rapazinho sinuoso e alegre aninhado nos seus braços. Perante o olhar de Alan, Stark acenou a cabeça de forma ausente.
- Sim. Telefona para a esquadra de Oxford por mim.
Estou a pensar em ir agora mordiscar alguma coisa naquela casa de frangos e, depois, voltar aqui mais uma vez para dar uma nova olhadela. Isto se conseguir p“r o carro a andar.
Caso contr rio, talvez v ver o que é que os Beaumont têm guardado na despensa deles. Anotas aí uma coisa por mim, Sheila?
Apesar de não ter olhado, Alan sentiu que Stark se aproximava ligeiramente mais dele. A boca da pistola parou, ficando a apontar para o umbigo de William. Alan sentiu gotas de transpiração lentas e frias escorrerem pelas costas abaixo.
- Claro, Alan.
- • suposto este tipo ser bastante criativo. Penso que devia ter encontrado um sitio melhor do que o capacho de entrada para esconder a chave sobressalente.
Sheila Brigham riu.
- J est .
A seu lado, a boca da .45 começou a mexer-se de novo e William começou a rir de novo. Alan descontraiu-se um pouco.
- • com o Henry Payton que devo falar, Alan?
- Sim, sim. Ou, se o Henry l não estiver, com o Danny Eamons.
- Okay!
- Obrigado, Sheila. Mais burocracia, e só isso. Toma cuidado contigo.
- O Alan também.
Com delicadeza, Alan desligou o telefone e virou-se para Stark.
- Tudo bem?
- Tudo muito bem mesmo - respondeu Stark. - Gostei especialmente daquela parte da chave debaixo do capacho de entrada. Acrescentou aquele toque final que d um sabor especial.
- • mesmo idiota - retorquiu Alan. Nestas circunstƒncias, não era uma coisa muito sensata para se dizer mas a sua própria raiva surpreendeu-o.
Também Stark o surpreendeu. Riu-se.
- Ninguem gosta muito de mim, pois não, xerife Alan?
- Não - respondeu.
- Ora, não h problema. Gosto o sufíciente de mim para compensar por todos os outros. Nesse aspecto, sou o tipo de homem verdadeiramente moderno. O importante • que acho que est tudo bem por aqui. Acho que vai tudo correr bem. - Stark enredou uma mão em redor do fio do telefone e arrancou-o da ficha da parede.
- Creio que sim - acrescentou Alan, questionando-se.
Era mais subtil, muito mais subtil do que Stark, que provavelmente acreditava que todos os polícias a norte de Portland não passavam de um punhado de tipos dorminhocos do género do Recruta Zero, parecia compreender. Dan Eamons, em Oxford, talvez deixasse passar, a não ser que alguem de Orona ou Augusta acendesse uma fogueira debaixo dele. Mas o Henry Payton? Alan não tinha assim tanta certeza de que o Henry caísse na história de que ele fora dar uma olhadela r pida e fortuita … procura do assassino de Homer Gamache antes de dar meia volta e ir comer um frango … Casa dos Frangos. Henry iria desconfiar de alguma coisa.