A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 4 de 26

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A Metade Sombria

A Invasžo do "Patifezÿide"

Nove

A INVASŽO DO "PATIFEZŸIDE"

1

- Chamo-lhe "Patifezóide" - começou Liz. - Lamento que esteja morto... mas, apesar de tudo, era isso que ele era. Não sei se os "Patifezóides" genuínos nascem ou se são criados, mas, de qualquer modo, acabam por chegar a essa etapa viscosa da vida. Portanto, acho que não importa.

Frederick Clawson encontrava-se por acaso em Washington D.C.

Foi para o maior covil de cobras jurídico … face da terra para estudar advocacia.

"Thad, os miudos estão a agitar-se; d s-lhes o biberão da noite? E importas-te de Ir buscar mais uma cerveja, por favor!

Thad trouxe-lhe a cerveja e, de seguida, dirigiu-se para a cozinha para aquecer os biberões. Colocou uma cunha na porta da cozinha para esta poder ficar aberta e ouvir com mais facilidade... e, ao fazer isso, bateu com a rótula na porta. Isto j Lhe tinha acontecido tantas vezes que Thad praticamente nem deu por isso.

"Os pardais estão a voar de novo", pensou ele, esfregando a cicatriz na testa ao começar por encher uma caçarola com gua quente e, colocando-a, de seguida, ao lume. "Agora, se ao menos eu soubesse que raio é que isto significa."

- Acab mos por conhecer a maior parte desta história pela boca do próprio Clawson - prosseguiu Liz - mas, como é natural, a perspectiva dele era um pouco parcial;

Thad gosta de dizer que todos somos os heróis das nossas próprias vidas e, de acordo com Clawson, ele era mais um Boswelll do que um "Patifezóide"... contudo, acab mos por conseguir montar uma versão mais equilibrada acrescentando coisas que viemos a saber pelas pessoas da Darwin Press, que publicou os romances que Thad escreveu sob o nome de Stark, e através das informações que Rick Cowley fez passar de mão em mão.

- Quem é Rick Cowley? - inquiriu Alan.

- O agente liter rio que representava Thad sob ambos os nomes.

- E que é que o Clawson, o seu "Patifezóide", queria?

- Dinheiro - respondeu Liz secamente.

Na cozinha, Thad tirou os dois biberões (só cheios até metade para ajudar a diminuir aquelas mudanças de fralda inconvenientes a meio da noite) do frigorífico e meteu-os na panela com gua. O que Liz dissera estava certo... mas estava também errado. Clawson quisera muito mais do que apenas dinheiro.

Era como se Liz tivesse lido o pensamento de Thad.

- Não que o dinheiro fosse tudo aquilo que ele queria.

• Não sei sequer ao certo se isso seria o mais importante.

Clawson queria também ser conhecido como o homem que desvendara a verdadeira identidade de George Stark.

- Como se fosse o tipo que, por fim, consegue desmascarar o incrível Homem-Aranha?

- Exactamente.

Depois de ter posto a ponta de um dedo na caçarola para verificar a temperatura da gua, Thad recostou-se para tr s, contra o forno, com os braços cruzados, a ouvir.

Apercebeu-se de que queria um cigarro - pela primeira vez, desde h anos, queria de novo um cigarro.

Thad sentiu um calafrio.

- O Clawson estava em demasiados sítios certos e em demasiadas alturas certas - disse Liz. - Para além de ser aluno de Direito, era também empregado de livraria em part-time. Para além de ser um empregado de livraria, era também um fã vido dos livros de George Stark. E, provavelmente, era o unico fã de George Stark em todo o país que lera também os dois romances de Thad Beaumont.

Na cozinha, Thad sorriu - não sem uma ponta de azedume - e tornou a verificar de novo a temperatura da gua na caçarola.

- Penso que ele pretendia criar uma espécie de grande drama a partir das próprias suspeitas - prosseguiu Liz. - … medida que as coisas se foram desenrolando, teve de trabalhar duro para sair da mediocridade. Após ter decidido que Stark era realmente Beaumont e vice-versa, telefonou para a Darwin Press.

- A editora dos livros de Stark.

- Exacto. Falou com Ellie Golden, a mulher que publicava os romances de Stark. Foi direito ao assunto e perguntou aquilo que Lhe interessava: por favor, diga-me se George Stark é realmente Thaddeus Beaumont. Ellie respondeu que era uma ideia ridícula. De seguida, Clawson perguntou sobre a fotografia do autor na contracapa dos romances de Stark. Disse que queria a morada do homem na foto. Ellie disse-lhe que não Lhe podia dar as moradas dos autores publicados pela editora.

"Clawson respondeu: "Não quero a morada de Stark, quero a morada do homem na fotografia. O homem que posa como se fosse Stark." Ellie disse-lhe que ele estava a ser ridículo, que o homem na foto do autor era George Stark.

- Antes disto, a editora nunca tinha vindo a p£blico dizer que se tratava apenas de um pseudónimo? - perguntou Alan, num tom que soava a genuinamente curioso. - Adoptaram desde sempre a posição de que ele realmente existia?

- Oh, sim. Thad insistiu para que assim fosse.

"Sim", pensou ele, tirando os biberões para fora da caçarola e verificando a temperatura do leite deitando algumas gotas na parte de dentro do pulso. "Thad insistiu.

Olhando para tr s, Thad pura e simplesmente não sabe porque é que insistiu; não faz, de facto, a mais pequena ideia, mas Thad realmente insistiu."

Levou os biberões de volta para a sala de estar, evitando colidir com a mesa da cozinha que se encontrava no caminho.

Entregou um biberão a cada um dos gémeos. Estes ergueram-nos solenemente, cheios de sono, e começaram a mamar. Thad sentou-se de novo. Ouviu Liz e disse para si próprio que a ideia de um cigarro era o que estava mais distante do seu pensamento.

- De qualquer modo - disse a mulher - Clawson queria fazer mais perguntas (tinha um camião a abarrotar delas, suponho), mas a Ellie não foi na brincadeira. Disse-Lhe que falasse com Rick Cowley e, de seguida, desligou-Lhe o telefone na cara. Clawson ligou então para o escritório de Rick e foi atendido pela Miriam. É a ex-mulher de Rick. E também a sua sócia na agência. A combinação pode parecer um pouco estranha mas eles dão-se muito bem.

"Clawson perguntou-lhe a mesma coisa: se George Stark era realmente Thad Beaumont. Segundo a Miriam, ela respondeu-lhe que sim. E também que ela era a Dolley Madison. "Divorciei-me de James", disse ela. "Thad est a divorciar-se de Liz, e nós os dois vamo-nos casar na Primavera!" E desligou-lhe o telefone na cara. De seguida, foi imediatamente para o escritório de Rick e contou-lhe que um tipo qualquer em Washington D. C. estava a meter o nariz no assunto da identidade secreta de Thad. Depois disso, os telefonemas de Clawson para a Cowley Associates não Lhe adiantaram mais nada excepto ver o telefone desligado na cara.

Liz deu um grande gole na cerveja.

- No entanto, ele não desistiu. Cheguei … conclusão que os verdadeiros "Patifezóides" nunca desistem. Ele pura e simplesmente concluiu que ser simp tico não iria funcionar.

- E não telefonou para o Thad? - inquiriu Alan.

- Não, nem uma só vez.

- Suponho que o vosso n£mero de telefone não vem na lista.

Thad procedeu a uma das suas poucas contribuições directas para a história.

- O nosso n£mero não aparece nas listas p£blicas, Alan, mas o telefone aqui em Ludlow aparece na Lista da Faculdade Tem de aparecer. Sou professor e oriento alguns alunos.

- Mas o tipo nunca foi directamente para a toca do lobo - comentou Alan admirado.

- Mais tarde entrou em contacto... através de uma carta - disse Liz. - Mas j estamos a p“r a carroça … frente dos bois.

Quer que eu continue?

- Faça favor - replicou Alan. - Trata-se de uma história fascinante em si mesma.

- Bem - prosseguiu Liz - o nosso "Patifezóide" precisou apenas de três semanas e provavelmente de menos de quinhentos dólares para deslindar aquilo de que tinha certeza absoluta: de que Thad e George Stark eram a mesma pessoa.

"Começou com o Literary Market Place, a que os tipos das editoras chamam apenas LMP. É uma compilação de nomes, moradas, e n£meros de telefones de empresas de tudo quanto é alguém na rea: escritores, editores, redactores, agentes. Utilizando essa compilação e a coluna "Gente" na Publishers Weekly, Clawson conseguiu identificar meia d£zia de empregados da Darwin Press que deixaram a companhia entre o Verão de mil novecentos e oitenta e seis e o Verão de mil novecentos e oitenta e sete.

"Um deles tinha as informações e estava disposto a deitar tudo c para fora. Ellie Golden est praticamente certa de que o culpado foi a rapariga que ocupou o lugar de secret ria do tesoureiro-chefe durante oito meses, entre oitenta e cinco e oitenta e seis. Ellie diz que ela é uma cabra saída de Vassarl com maus h bitos nasais.

Alan lançou uma gargalhada.

- Thad também acredita que tenha sido ela - prosseguiu Liz - porque a arma do crime acabou por ser as fotocópias das declarações de direitos de autor para George Stark. Vieram do escritório de Roland Burrets.

- O tesoureiro-chefe da Darwin Press - acrescentou Thad, que estivera a observar os gémeos enquanto ouvia.

Estes estavam agora deitados de costas, com os pés enfiados nos babygrows muito juntinhos, e os biberões a apontarem para o tecto. Os olhos estavam vidrados e distantes.

Thad sabia que, em breve, eles acabariam por adormecer e dormir até de manhã... e quando assim acontecesse, fariam isso em conjunto. "Eles fazem tudo em conjunto", pensou Thad.

"Os bebés estão sonolentos e os pardais estão a voar."

Tornou a tocar na cicatriz.

- O nome de Thad não vinha nas fotocópias - disse Liz. - Por vezes, as declarações dos direitos de autor precedem os cheques, embora não constituam cheques em si mesmos e, por isso, o nome dele não tinha de aparecer nas cópias. Est a compreender, não est ?

Alan acenou com a cabeça.

- Ainda assim, a morada do destinat rio disse-lhe praticamente tudo aquilo que ele precisava de saber. Era o senhor George Stark, Apartado 1642, Brewer, Maine 04412, muito longe do Mississíppi, onde era suposto Stark viver.

Ao dar uma vista de olhos pelo mapa do Maine, ele deve ter-se apercebido de que a vila imediatamente a sul de Brewer é Ludlow, e ele sabia quem era o escritor conhecido, se não mesmo famoso, que aí vivia. Thaddeus Beaumont.

Que coincidência.

"Nem eu nem Thad alguma vez o vimos pessoalmente, mas ele viu Thad. Ele soube quando é que a Darwin Press enviava os cheques trimestrais dos direitos de autor a partir das fotocópias que j recebera. A maior parte dos cheques dos direitos de autor são enviados em primeiro lugar para o agente do autor. Depois, este emite um outro cheque, que reflecte a quantia origin ria, salvo a sua comissão. No entanto, no caso de Stark, o tesoureiro enviava os cheques directamente para o apartado do correio de Brewer.

- E a comissão do agente? - inquiriu Alan.

- Tirada … parte da quantia total na Darwin Press e enviada para Rick por meio de um cheque separado - disse Liz. - Para Clawson, deve ter sido um outro sinal claro de que Georges Stark não era quem afirmava ser... só então é que Clawson deixou de precisar procurar mais pistas. Ele queria provas concretas. E lançou-se a caminho para as arranjar.

"Quando chegou a altura da emissão do cheque dos direitos de autor, Clawson apanhou um avião e veio até c .

Durante a noite, permanecia no Motel Holiday Inn; durante o dia, passava o tempo em "marcação cerrada" nos Correios de Brewer. Foi exactamente isto que ele escreveu na carta que, mais tarde, Thad acabou por receber. Era uma marcação cerrada. Tudo muito film noir. Ainda assim, foi uma investigação bastante arriscada. Se, no quarto dia da sua estada, "Stark" não tivesse aparecido para ir buscar o cheque, Clawson teria de desmontar a tenda e partir para outras paragens. Mas não me parece que tivesse acabado por aí. Quando um "Patifezóide" genuíno prende uma pessoa pelos dentes, não a larga enquanto não arrancar um bom pedaço … dentada.

- Ou enquanto a pessoa não partir os dentes dele … pancada - grunhiu Thad, que, ao ver que Alan se virava na sua direcção, com as sobrancelhas arqueadas, fez uma careta. M escolha de palavras. Aparentemente, alguém acabara de fazer exactamente isso ao "Patifezóide" de Liz... ou algo ainda pior.

- De qualquer modo, é uma questão discutível - retomou Liz, e Alan virou-se para ela. - Não precisou de tanto tempo.

Ao terceiro dia, quando estava sentado num banco de jardim do outro lado dos Correios, viu Thad a estacionar o Suburban num daqueles parques de estacionamento para paragens de dez minutos perto do edifício.

Liz tomou um outro gole da cerveja, limpando a espuma do l bio superior. Quando a mão se afastou do rosto, ela estava a sorrir.

- E agora vem a parte que gosto - disse. - É absolutamente deliciosa, como aquele tipo maricas na série Reviver o Passado em Brideshead costumava dizer. Clawson tinha uma m quina fotogr fica. Uma m quina mais do que minuscula, do género daquelas que cabem na palma da mão. Quando estamos prontos para tirar uma fotografia, basta abrir um pouco os dedos para não tapar a lente e, bingo! J est . - Liz soltou uma risadinha, abanando a cabeça em face da imagem. - Na carta, Clawson dizia que a arranjara através de um cat logo qualquer que vende equipamento de espionagem: escutas telefónicas, pastas que se autodestroem, coisas assim. O agente secreto X-9 Clawson apresenta-se ao trabalho. Aposto que teria arranjado um dente oco cheio de cianeto se a sua venda fosse autorizada. Ele investia fortemente na imagem.

"De qualquer modo, Clawson tirou cerca de meia d£zia de fotografias razoavelmente aceit veis. Nada artístico, mas era possível ver-se quem era o alvo pretendido e o que é que ele estava a fazer. Havia uma fotografia de Thad a aproximar-se dos cacifos dos correios no corredor, uma fotografia de Thad a introduzir a chave no cacifo 1642, e uma outra com ele a retirar o sobrescrito.

- Ele enviou-vos cópias dessas fotografias? - perguntou Alan. Ela dissera que ele queria dinheiro e Alan sup“s que a senhora sabia do que é que estava a falar. A armadilha não cheirava só a chantagem: tresandava a chantagem.

- Oh, sim. E uma ampliação desta ultima. Conseguia ler-se parte do endereço do remetente: as letras DARW, sendo muito f cil adivinhar o cólofon que se encontrava por cima das letras.

- X-9 ataca de novo - disse Alan.

- Sim. X-9 ataca de novo. Clawson revelou as fotografias e, depois, pegou num avião e voltou para Washington.

Apenas alguns dias depois, recebemos a carta dele, com as fotos incluídas. A carta era verdadeiramente maravilhosa.

Apesar de nem só uma vez ter ultrapassado os limites da ameaça, Clawson andou sempre l por perto.

- Ele estudava Direito - replicou Thad.

- Sim - concordou Liz. - Aparentemente, sabia exactamente até onde é que podia ir. Thad pode mostrar-lhe a carta mas eu consigo parafrase -la. Começava por dizer o quanto admirava as duas metades daquilo a que chamava a "mente dividida" de Thad. Contava minuciosamente o que descobrira e como o fizera. Passava então para aquilo que realmente lhe interessava. Foi muito cuidadoso a mostrar-nos o anzol, mas este era bem visível. Disse que ele próprio aspirava vir a ser um escritor mas que não tinha muito tempo para escrever; que os seus estudos de Direito eram muito trabalhosos, mas isso era apenas uma parte.

O verdadeiro problema, dizia, era que tinha de trabalhar numa livraria para ajudar a pagar as propinas e outras contas. Acrescentava ainda que gostaria de mostrar a Thad alguns dos seus trabalhos e, caso Thad achasse que estes eram promissores, talvez se pudesse sentir compelido a p“r em marcha um pacote de auxílio para o ajudar pelo caminho.

- Um pacote de auxílio - disse Alan, perplexo. - E assim que agora chamam a isso?

Thad lançou a cabeça para tr s e lançou uma gargalhada.

- Pelo menos, foi assim que Clawson Lhe chamou.

Acho que consigo citar o ultimo pedaço de cor. "Sei que, numa primeira leitura, isto pode parecer-lhe um pedido muito atrevido", dizia ele, "mas tenho a certeza de que se estudar o meu trabalho, rapidamente chegar … conclusão que uma tal combinação trar vantagens para ambos."

- Durante uns dias, eu e Thad fic mos fulos com aquilo, depois rimo-nos com a situação e, em seguida, penso que volt mos a ficar fulos.

- Sim - corroborou Thad. - Não estou l muito certo quanto … parte do riso mas l que fic mos fulos, disso não tenho d£vidas.

- Por ultimo, acab mos por conseguir apenas falar sobre o assunto. Fal mos quase até … meia-noite. Ambos reconhecemos aquilo que a carta e as fotografias de Clawson significavam, e depois de a f£ria Lhe ter passado...

- A f£ria ainda não me passou totalmente - exclamou Thad - e o tipo est morto.

- Bem, uma vez os gritos passados, Thad ficou quase aliviado. H j bastante tempo que se queria ver livre de Stark, e j pusera mãos … obra num livro de grande f“lego e sério, só seu. Que ainda est a escrever. Chama-se O Cão Dourado. J li as primeiras duzentas p ginas e é magnífico.

Muito melhor do que as duas ultimas coisas que produziu em catadupa sob o nome de George Stark. Assim, Thad decidiu...

- Nós decidimos - corrigiu Thad.

- Est bem, nós decidimos que Clawson era uma bênção disfarçada, um modo de acelerar aquilo que j est para acontecer. O £nico temor de Thad era que Rick Cowley não gostasse muito da ideia porque George Stark dava a ganhar mais dinheiro … editora do que Thad, e por uma boa margem. Mas ele comportou-se de forma impec vel. Com efeito, disse que poderia acabar por gerar alguma publicidade, o que talvez pudesse trazer vantagens para uma série de reas:

a lista antiga de Stark, a lista antiga do próprio Thad...

- Ou seja, os dois livros - acrescentou Thad com um sorriso.

-... e o novo livro, quando fosse finalmente lançado.

- Desculpem-me, o que é uma lista antiga? - inquiriu Alan.

Agora com um sorriso aberto, Thad respondeu:

- Os livros antigos que j não estão colocados em destaque nas montras janotas das grandes livrarias.

- Então, veio tudo a lume.

- Sim - afirmou Liz. - Primeiro na Associated Press aqui do Maine e na Publishers Weekly, mas a história acabou por tomar proporções a nível nacional; afinal de contas, Stark era um escritor de best-sellers e o facto de nunca sequer ter existido fez do assunto um "tapa-buracos"

interessante nas ultimas p ginas dos jornais. E foi então que a revista People entrou em contacto connosco.

"Recebemos só mais uma carta indignada e zangada da parte de Clawson, dizendo-nos quão maldosos, mauzinhos e ingratos nós éramos. Parecia pensar que não tínhamos direito algum de o p“r de parte, tal como fizéramos, porque fora ele quem tivera todo o trabalho e Thad nada mais fizera excepto escrever alguns livros. Após essa carta, calou a boca.

- E agora calou a boca para sempre - disse Thad.

- Não - retorquiu Alan. - Alguém calou a boca por ele... • essa é uma grande diferença.

Um outro momento de silêncio caiu sobre eles. Foi curto... mas muito pesado.

Alan meditou durante v rios minutos. Thad e Liz deixaram-no entregue aos seus pensamentos. Por fim, levantou os olhos e disse:

- Muito bem. Porquê? Porque é que alguém recorreria ao assassínio por causa disto? Sobretudo depois de o segredo j ter sido revelado...

Thad abanou a cabeça.

- Se tiver alguma coisa a ver comigo, ou com os livros que escrevi como George Stark, não sei quem foi nem porquê.

- E por causa de um pseudónimo? - inquiriu Alan, numa voz meditativa. - Longe de mim ofendê-lo, Thad, mas não era propriamente um documento secreto ou um grande segredo militar.

- Não me ofende nada - respondeu Thad. - De facto, não podia estar mais de acordo consigo.

- Stark tinha muitos fãs - disse Liz. - Alguns deles ficaram zangados por Thad não ir escrever mais nenhum romance como Stark. Após a publicação do artigo, a People recebeu algumas cartas, tendo Thad recebido um montão delas.

Uma senhora chegou ao ponto de sugerir que Alexis Machine devesse voltar da reforma e dar cabo de Thad.

- Quem é Alexis Machine? - Alan ostentava de novo o bloco de notas.

Thad sorriu:

- Calma, calma, meu bom inspector. Machine é apenas uma personagem de dois dos romances escritos por Stark.

O primeiro e o £ltimo.

- Uma ficção por outra ficção - disse Alan, tornando a guardar o bloco de notas. - óptimo.

Entretanto, Thad parecia ligeiramente espantado.

- Uma ficção por outra ficção - disse. - Nada mau.

Nada mau mesmo.

- Era aqui que eu queria chegar - afirmou Liz. - Talvez Clawson tivesse um amigo (sempre admitindo que os "Patifezóides" têm amigos) que fosse fã absolutamente fa n tico de Stark. Talvez ele soubesse que Clawson fora o verdadeiro respons vel por a história ter vindo a p£blico. e tivesse ficado tão furioso porque não iria ler mais nenhum romance de Stark que... Liz suspirou, olhou por um breve instante para baixo, em direcção … garrafa de cerveja, e tornou a erguer a cabeça.

- Na verdade, isto não tem pés nem cabeça, não - Temo bem que sim - respondeu Alan com delicadeza, tendo olhado para Thad de seguida. - Neste momento, você devia estar de joelhos a agradecer a Deus pelo seu libi, ainda que não tivesse estado anteriormente. Tem a noção de que isto ainda o torna mais suspeito, não é?

- Suponho que, de certo modo, seja assim - concordou Thad. - Thaddeus Beaumont escreveu dois romances que praticamente ninguém leu. O segundo, publicado h onze anos, nem sequer teve críticas muito boas. Os avanços mínimos que recebeu não renderam nada; ser mesmo um milagre se conseguir vir a ser publicado de novo, no pé em que o negócio se encontra. Por outro lado, Stark ganha dinheiro a rodos. Apesar de o dinheiro ganho a rodos ser relativamente discreto, os livros dão-me a ganhar quatro vezes mais aquilo que ganho a ensinar anualmente. Este tipo Clawson aparece, com a sua ameaça de chantagem cuidadosamente formulada. Recuso ceder, mas a minha £nica opção é ir a lume com a história. Não muito tempo depois Clawson é morto. Parece ser um grande motivo, mas, na verdade não o é. Matar um prov vel chantagista depois de j se ter contado o segredo seria uma estupidez.

- Sim... mas h sempre a vingança.

- Admito, até termos em conta tudo o resto. Aquilo que Liz Lhe contou é totalmente verdade. De qualquer modo, Stark estava praticamente pronto para ir para o monte Edo lixo. Talvez pudesse ter havido mais um livro, mas apenas um. E uma das razões pela qual Rick Cowley foi tão impec vel, como disse Liz, era porque estava ciente desse facto. E tinha razão quanto … publicidade. Por muito tonto que tenha sido o artigo da People, tem feito maravilhas …s vendas. O Rick contou-me que A Caminho da Babilónia voltou repentinamente a fazer de novo parte da lista dos mais vendidos, e que as vendas de todos os romances de Stark estão bastante altas. A Dutton est mesmo a planear fazer uma nova edição d'Os Dançarinos Inesperados e Névoa Purpura. Se virmos as coisas por este prisma, Clawson até me fez um favor.

- Então, onde é que isso nos deixa? - inquiriu Alan.

- Quem me dera saber - replicou Thad.

No silêncio que se seguiu, Liz disse numa voz suave:

- • um caçador de crocodilos. Estava precisamente a pensar neles esta manhã. é um caçador de crocodilos e é um louco varrido.

- Caçador de crocodilos? - Alan virou-se para ela.

Liz explicou a síndroma de ver-os-crocodilos-vivos inventados por Thad.

- Podia ter sido um fã louco - disse ela. - Não é assim uma ideia tão sem pés nem cabeça, não quando pensamos no tipo que matou John Lennon e no outro que tentou matar Ronald Reagan para impressionar a Jodie Foster.

Eles andam por aí. E se Clawson conseguiu descobrir tudo sobre Thad, uma outra pessoa qualquer pode ter conseguido descobrir tudo sobre Clawson.

- Mas porque é que um tipo tentaria incriminar-me, se gosta tanto do meu trabalho? - perguntou Thad.

- Porque não gosta! - respondeu Liz com veemência.

- é Stark que o caçador de crocodilos adora. Provavelmente, odeia-te tanto como odeia, odiava, Clawson. Tu disseste que não lamentavas o facto de Stark estar morto. Essa pode muito bem ser a razão suficiente.

- Ainda assim, não estou convencido - disse Alan.

- As impressões digitais...

- O Alan disse que as impressões nunca foram copiadas ou forjadas, mas, dado que estão espalhadas pelos dois sítios, tem de haver uma forma. é a £nica coisa que se ajusta.

Thad ouviu-se a si próprio dizer:

- Não, est s enganada, Liz. Se realmente existe um tipo desses, ele não adora apenas Stark. - Baixou o olhar em direcção aos braços e viu que estes estavam cobertos de pele de galinha.

- Não? - inquiriu Alan.

Thad ergueu o olhar e fitou os dois.

- J pensaram que o homem que matou Homer Gamache e Frederick Clawson pode imaginar que ele próprio é George Stark?

4

Nos degraus, Alan disse:

- Mantê-lo-ei ao corrente, Thad.

Numa das mãos segurava as fotocópias - tiradas na m quina do escritório de Thad - das duas cartas de Frede rick Clawson. Thad pensou para si próprio que a boa vontade mostrada por Alan em aceitar fotocópias - pelo menos, para j - em vez de insistir em levar os originais como prova, era o indício mais claro de todos de que pusera de parte a grande maioria das suspeitas.

- E voltar de novo para me prender se descobrir um buraco no meu libi? - perguntou Thad a rir.

- Penso que isso não ir acontecer. A £nica coisa que Lhe peço é que, do mesmo modo, também me mantenha ao corrente.

- Se surgir alguma coisa de novo, é isso?

- Sim. • isso que quero dizer.

- Lamento imenso não termos podido ajudar mais.

- Ajudaram-me muito - contradisse Alan, sorrindo.

- Não sabia se havia de ficar mais um dia, o que significava mais uma noite num quarto pouco recomend vel do Ramada Inn, ou voltar para Castle Rock. Graças a tudo aquilo que me contaram, vou optar pela segunda. E é para j .

Vai saber bem voltar. –ltimamente, a minha mulher Annie tem andado um pouco adoentada.

- Nada de grave, espero - disse Liz.

- Enxaquecas - disse Alan rapidamente, começando a descer o passeio. Foi então que se virou para tr s. - H ainda mais uma coisa.

Thad olhou para Liz.

- Aqui vem - disse ele. - é a deixa do velho Colombo' da gabardina amarrotada.

- Nada disso - retorquiu Alan - mas a Polícia de Washington est a guardar do p£blico uma prova física da morte de Clawson. é pr tica comum; ajuda a eliminar os malucos que gostam de confessar crimes que não cometeram.

Havia uma coisa escrita na parede do apartamento de Clawson. - Alan fez uma pausa, tendo acrescentado, quase como que a pedir desculpa: - Foi escrito com o sangue da vítima. Se vos disser o que foi, dão-me a vossa palavra de honra que não contam nada a ninguém?

Ambos acenaram a cabeça.

- A expressão era "Os pardais estão a voar de novo".

Isto diz-vos alguma coisa para algum de vocês?

- Não - respondeu Liz.

- Não - respondeu Thad numa voz indiferente após uma hesitação momentƒnea.

O olhar de Alan quedou-se no rosto de Thad por instantes.

- Tem a certeza?

- Absoluta.

Alan suspirou.

- Bem me queria parecer que não vos dizia nada, mas pareceu-me valer a pena tentar. Como temos tantos elos peculiares, pensei que talvez pudesse haver mais um. Boa noite, Thad e Liz. Não se esqueçam de me contactar no caso de acontecer alguma coisa.

- Esteja descansado - disse Liz.

- Pode contar connosco - concordou Thad.

Um instante depois, os dois encontravam-se dentro de casa, com a porta fechada sobre Alan Pangborn - e sob a escuridão através da qual ele faria a sua longa viagem de regresso a casa.