A Metade Sombria
Stark Vai …s COMPRAS
Dezanove
STARK VAI …s COMPRAS
1
Acordar não era como acordar.
Na verdade, quando nada mais interessava a não ser isso, ele tinha a sensação de nunca ter estado realmente acordado ou a dormir, pelo menos na acepção que as pessoas normais utilizam estas palavras. Em certo sentido, era como se ele estivesse sempre a dormir, só se deslocando de um sonho para outro. Nesse sentido, a sua vida, o pouco que dela se recordava, era como um jogo infinito de caixas enfiadas umas dentro das outras, ou como espreitar para um corredor intermin vel de espelhos.
Este sonho era um pesadelo.
Lentamente, Stark acordou do seu sono, ciente de que não tinha estado verdadeiramente a dormir. De alguma forma, Thad Beaumont conseguira tê-lo nas mãos por um instante"
conseguira submetê-lo … sua vontade por um instante. ser que dissera coisas, revelara coisas, enquanto Beaumont estivera a control -lo? Stark tinha a sensação de que talvez o tivesse feito... mas também tinha a certeza de que Beaumont não saberia como interpretar essas coisas, ou fazer a distinção entre as coisas importantes que pudesse ter dito e aquelas outras que não interessavam.
Stark acordou também do seu sono por causa das dores.
Alugara um apartamento min£sculo de duas assoalhadas na East Village, ao largo da Avenida B. Quando abriu os olhos, encontrava-se sentado na mesa da cozinha torta, com um bloco de notas … sua frente. Um regato de sangue berrante corria por entre o oleado desbotado que cobria a mesa e, apesar de tudo, não era assim tanto de admirar porque uma esferogr fica Bic estava espetada na parte de tr s da sua mão direita. Foi nesse instante que o sonho começou a vir ao de cima.
Fora assim que conseguira tirar Beaumont do seu espírito, a £nica forma por meio da qual conseguira quebrar o laço que o cobarde nojento tinha, de algum modo, forjado entre eles. Cobarde? Sim. Mas também ele era matreiro, e seria uma péssima ideia não tomar esse facto em conta.
Uma péssima ideia, mesmo.
Stark lembrava-se vagamente de sonhar que Thad estava com ele, na sua cama, estavam a conversar um com o outro, a falarem baixinho um com o outro e, a princípio, esta cena parecera ser tão agrad vel quanto peculiarmente reconfortante, como se estivesse a falar com um irmão depois de apagarem as luzes.
Só que eles não estavam apenas a conversar um com o outro, pois não?
O que eles tinham estado a fazer era a trocar segredos...
ou, melhor, Thad estava a fazer-lhe perguntas e Stark dera por si a responder a elas. Era agrad vel responder, era reconfortante responder. Mas era também alarmante. A princípio, o alarme estava centrado nos p ssaros: porque é que Thad não parava de Lhe fazer perguntas sobre p ssaros?
Não havia quaisquer p ssaros. Em tempos, talvez... h muito, muito tempo atr s... mas j não. Tratava-se apenas de um jogo mental, de um esforço patético para o tirar do sério. Foi então que, a pouco e pouco, o seu sentido de alerta se fundiu com o seu instinto de sobrevivência quase requintadamente apurado: começou a ficar mais alerta e preciso enquanto ele continuava a tentar lutar acordado.
Era como se estivesse a ser mantido debaixo de gua, como se o estivessem a afogar...
Fora assim, ainda naquele estado semiacordado, que Stark se dirigira … cozinha, abrira o bloco de notas e pegara na esferogr fica. Thad não tivera qualquer palpite quanto a isso" porque é que haveria de ter? não se encontrava tambem ele a escrever a oitocentos quilómetros de distƒncia?
A caneta não batia certo, est claro, nem sequer cabia bem na mãomas serviria. Por agora.
"A desintegrar-ME", observara-se a si próprio a escrever, encontrando-se nessa altura muito próximo do espelho m gico que separava o sono do estado acordado, a debater-se para subjugar a caneta aos seus próprios pensamentos, para subjugar … sua vontade aquilo que surgiria e não surgiria no vazio do papel, mas era difícil, meu Deus, meu Deus, era tão terrivelmente difícil.
Stark comprara a caneta Bic e meia d£zia de blocos de notas numa papelaria logo após a sua chegada … cidade de Nova Iorque" fizera-o mesmo antes de alugar o maldito "pardieiro". A loja tinha l pis Berol e, apesar de querer compr -los, não o fizera. Porque, independentemente da mente que guiara os l pis, fora a mão de Thad Beaumont que os segurara e Stark precisava de saber se esse era um laço que teria de quebrar. Deste modo, deixara os l pis e, em seu lugar, levara a caneta. Se conseguisse escrever, se conseguisse escrever por si só, não haveria qualquer problema e Stark não precisaria daquela criatura desprezível e choramingas l do Maine para nada. No entanto, a caneta não tivera qualquer utilidade para ele. Por mais que tentasse, por mais que se concentrasse, a £nica coisa que conseguira escrever fora o seu próprio nome. Escrevera-o vezes sem conta:
George Stark, George Stark, George Stark, até que, ao chegar ao fim da folha, estas deixaram de ser palavras identific veis e passaram a ser meros rabiscos informes de uma criança a aprender a escrever.
No dia anterior, Stark fora a uma filial da Biblioteca P£blica de Nova Iorque e alugara, por uma hora, uma das cinzentas e soturnas m quinas de escrever eléctricas IBm na sala de escrita. A hora parecera durar mil anos. Stark sentara-se num cubiculozinho fechado por três lados, com os dedos a tremer sobre as teclas, e escrevera o seu nome, desta vez em letras mai£sculas "GEORGE STARK, GEORGE STARK, GEORGE STARK".
"P ra com isso!", vociferara para si próprio. "Escreve uma outra coisa, qualquer coisa, mas p ra com isso!"
E assim tentara. Debruçara-se sobre as teclas, a transpirar, e escrevera: "A veloz raposa castanha saltou por cima do cão preguiçoso."
Só que quando olhou para o papel, viu que escrevera antes "O george Stark, george stark, ou por cima do starky, star."
Nessa altura, sentira um impulso incontrol vel de arrancar a IBM da ficha e de atravessar a sala com ela nas mãos, violentamente, brandindo a m quina de escrever como a moca de um b rbaro, a abrir cabeças e a partir pescoços: j que não conseguia criar, ao menos que o deixassem destruir' Porém, conseguira dominar-se (com um esforço sobre-humano) e saíra da biblioteca, tendo amarrotado a in£til folha de papel com uma mão forte enquanto se afastava e lançado a bola para dentro de um caixote de lixo no passeio.
Neste momento, com a caneta Bic na mão, recordava-se da raiva cega e total que sentira ao descobrir que, sem Beaumont, não conseguia escrever mais nada excepto o próprio nome.
E o medo.
O pƒnico.
Mas ele ainda tinha Beaumont na mão, não tinha?
Beaumont bem que podia pensar que era o contr rio, mas talvez... talvez Beaumont tivesse de preparar-se para uma grande e maldita surpresa.
"a perder", escreveu ele, e pelo amor de Deus, não podia contar a Beaumont mais nada: aquilo que escrevera j era suficientemente mau. Stark fez um esforço enorme para readquirir o controlo da sua mão traidora. Para despertar.
"a CoeSãO necess ria", escreveu a mão dele, como que a explícitar o pensamento anterior e, subitamente, Stark viu-se a si mesmo a apunhalar Beaumont com a caneta.
Pensou: "E também o consigo fazer: não me parece que o conseguisses, Thad, porque quando se trata de ti, não passas de um menino copinho-de-leite, não é? Mas quando vamos ao que realmente interessa... sou bem capaz de segurar as pontas, seu filho da mãe. Acho que est na altura de aprenderes isso."
E embora isto fosse como um sonho dentro de um sonho, embora ele estivesse dominado por aquela terrível sensação vertiginosa de estar fora de si, foi então que uma parte da sua autoconfiança feroz e incondicional voltou, e Stark foi capaz de perfurar o escudo do sono. Naquele momento triunfante de estilhaçamento da superfície antes de Beaumont o conseguir afogar, Stark ganhou o domínio da caneta... e, por fim, foi capaz de escrever com ela.
Por um instante, e foi só por um instante, Stark teve a sensação de que existiam duas mãos a segurar dois instrumentos de escrita. A sensação era clara de mais para ser tudo menos real.
"não existem quaisquer p ssaros", escreveu ele.
A primeira frase real que alguma vez escrevera enquanto ser físico.
Era terrivelmente difícil escrever" apenas uma criatura de determinação sobrenatural conseguiria ter ultrapassado o sofrimento que o esforço implicava. Mas, uma vez as palavras c fora, Stark sentiu o seu domínio fortalecer.
A força daquela outra mão enfraquecera, e Stark mantinha o seu próprio poder sobre ela, sem apelo nem agravo > "Afoga-te por uns instantes", pensou ele. "Vê se gostas."
Numa arremetida mais r pida e muito mais satisfatória do que o mais intenso dos orgasmos, escreveu: "NŽO EXISTEM QUAISQUER PORRA DE P SSAROS Oh, seu filho da mãe, sai de dentro da minha CABEçA!"
Foi nessa altura que, antes mesmo de ter tempo de pensar - pensar talvez tivesse provocado uma hesitação e tal - Stark descreveu no ar um arco curto e baixo com a caneta Bic. A ponta de aço foi espetar-se na mão direita ..
e, a centenas de quilómetros a norte, conseguiu sentir Thad Beaumont a levantar no ar um l pis Black Berol Beauty e a espet -lo na mão esquerda.
Foi então que ele acordou - que ambos acordaram de vez.
As dores eram ardentes e enormes - mas eram também libertadoras. Stark gritou, encostando a cabeça a transpirar contra o braço para abafar o som, mas era tanto um grito de alegria e de satisfação como de dor.
Conseguia sentir Beaumont a conter o próprio grito no escritório l em cima no Maine. O elo de percepção que Beaumont criara entre eles não se quebrara" era mais como se fosse um nó apertado … pressa que dava de si sob a pressão de um forte puxão final. Stark sentiu, praticamente viu a sonda que o filho da mãe traidor introduzira sorrateiramente na sua cabeça enquanto dormia a torcer e contorcer-se e a deslizar para fora do seu corpo.
Com a mente, e não fisicamente, Stark agarrou naquela ponta a desaparecer da sonda mental de Thad. ao olho da própria mente de Stark, assemelhava-se a uma minhoca, uma larva gorda e branca, delirantemente recheada de vísceras e detritos podres.
Stark pensou em levar Thad a tirar um outro l pis do frasco e a us -lo para se apunhalar de novo, desta vez no olho. Ou talvez o pudesse levar a enfiar a ponta do l pis bem no fundo do ouvido, furando o tímpano e cutucando … procura da carne mole do cérebro. Quase que conseguia ouvir o grito de Thad. Esse ele não seria capaz de abafar.
Mas, nessa altura, parou. Ele não queria Beaumont morto.
Pelo menos por enquanto.
Não enquanto Beaumont não o ensinasse a viver por si só.
Lentamente, Stark afrouxou o punho e, ao fazê-lo, sentiu o punho que segurava a essência de Beaumont - o punho mental, que provara ser tão r pido e impiedoso como o físico - a abrir-se também. Sentiu Beaumont, a roliça larva branca, a afastar-se, a guinchar e a choramingar.
- Apenas para j - sussurrou ele, virando a sua atenção para o outro assunto necess rio. Fechou a mão esquerda em redor da caneta que saía da mão direita. Com cuidado, puxou-a para fora. De seguida, deitou-a no cesto dos papéis.
3
Havia uma garrafa de Glenlivet no escorredor de aço inoxid vel junto ao lava-loiças. Stark pegou nela e levou-a para a casa de banho. Enquanto caminhava, a mão direita balançava a seu lado, salpicando o linóleo desbotado com gotinhas de sangue do tamanho de moedas de dez centavos.
O buraco na mão estava a cerca de dois dedos acima da crista dos nós dos dedos e ligeiramente … direita do anelar.
Era perfeitamente redondo. Combinada com a hemorragia interna e a lesão, a mancha de tinta escura em redor do buraco fazia assemelhar este a uma ferida causada por um disparo de uma pistola. Stark tentou dobrar a mão. Os dedos mexeram-se... mas a lancinante onda de dores daí resultante foi demasiado intensa para experiências adícionais Stark puxou a pequena corrente pendurada na instalação eléctrica acima do espelho do arm rio dos remédios, e a lƒmpada de setenta wattó sem quebra-luz acendeu-se Com o braço direito, segurou a garrafa de uísque entre o braço e a cintura de forma a conseguir desenroscar a tampa. De seguida, esticou a mão ferida e abriu os dedos sobre o lavatório. Estaria Beaumont a fazer a mesma coisa no Maine? Stark tinha as suas d£vidas. Stark tinha as suas d£vidas de que Beaumont tivesse coragem para limpar a própria porcaria. Por esta altura, j devia estar, certamente a caminho do hospital. Stark entornou um fio de uísque sobre a ferida, tendo sido perpassado, do braço ao ombro, por uma descarga de dor pura e lancinante. Viu o uísque a borbulhar na ferida, viu os fiozinhos de sangue no ambar, e teve de enterrar de novo o rosto na manga da camisa ensopada de suor.
Pensou que as dores nunca abrandariam, mas, por fim, começaram a abrandar.
Thad tentou colocar a garrafa de uísque na prateleira aparafusada … parede de azulejos abaixo do espelho. Como a mão estava a tremer demasiado para esta operação ser bem sucedida, Stark depositou-a, então, no chão de estanho manchado de ferrugem da banheira. Dali a um minuto, ia querer uma bebida.
Ergueu a mão, colocando-a contra a luz, e espreitou para o buraco, conseguindo vislumbrar a lƒmpada do outro lado, ainda que de modo indistinto: era como olhar através de um filtro vermelho, tornado turvo por uma espécie de muco membranoso. Embora Stark não tivesse espetado a caneta até ao outro lado da mão, estivera l perto. Talvez Beaumont tivesse conseguido melhor.
A esperança era a £ltima a morrer.
Stark colocou a mão debaixo da torneira de gua fria, espalhou os dedos para abrir o buraco o mais possível e, de seguida, preparou-se para as dores. A princípio, foi terrível - teve de conter um outro grito por entre os dentes, j de si cerrados, e por entre os ll bios, j de si comprimidos um contra o outro numa fina linha branca - mas depois a mão ficou dormente, e doeu menos. Stark obrigou-se a permanecer com a mão debaixo da torneira durante três minutos, após o que fechou a torneira e tornou a segurar a mão … contraluz.
O brilho da lƒmpada através do buraco era ainda visível, só que agora estava esbatido e distante. A ferida começava a fechar-se. O seu corpo parecia ter um maravilhoso poder de regeneração, o que tinha bastante graça, porque, nessa mesma altura, ele estava a desintegrar-se. A perder coesão, escrevera ele. E não estava tão longe quanto isso.
Durante cerca de trinta segundos, Stark olhou fixamente para o próprio rosto reflectido no espelho tremeluzente e manchado do arm rio dos medicamentos, acabando por dar um abanão real para voltar de novo … vida. Olhar para o seu rosto, tão conhecido e familiar e ainda assim tão novo e estranho, fazia-o sempre sentir como se estivesse a cair num estado de transe hipnótico. Stark até admitia que, se fitasse o seu rosto durante bastante tempo, isso iria acabar por acontecer.
Abriu o arm rio dos remédios, lançando para o lado o espelho e o rosto repulsivamente fascinante. O arm rio apresentava uma colecçãozinha peculiar de artigos na prateleira: duas lƒminas descart veis, uma das quais j utilizada"
frascos de base" uma caixa de pó-de-arroz" diversas cunhas de esponja de grão fino, cor de marfim onde ainda não tinham adquirido um tom ligeiramente mais escuro por causa do pó-de-arroz" e um frasco de aspirinas. Nenhum penso-r pido.
"Os pensos-r pidos são como os polícias", pensou ele, "nunca est nenhum por perto quando realmente precisamos de um." Mas não havia problema, concluiu" desinfectaria a ferida com um pouco mais de uísque (isto era depois de desinfectar as entranhas com um bom gole) e, de seguida, enrolaria um lenço … volta da mão. Não acreditava que a ferida pudesse infectar:
ele parecia ser imune a infecções. Também isto ele achou ter graça.
Com os dentes, Stark tirou a tampa do frasco de aspirinas, e depois de a cuspir para dentro do lavatório, virou o frasco ao contr rio e enfiou na boca uma d£zia de comprimidos.
Tirou o uísque de dentro do chuveiro, empurrando as aspirinas para baixo com um trago. O lcool atingiu o est“mago, abrindo aí o seu reconfortante rebento de calor De seguida, espalhou um pouco mais de uísque pela mão.
Stark dirigiu-se para o quarto e abriu a primeira gaveta de uma secret ria que j vira melhores muito melhores - dias. Isso e um sof -cama antigo eram as £nicas peças de mobili rio do quarto.
A gaveta de cima era a £nica com alguma coisa l dentro, com excepção dos forros feitos com folhas do Daily News: três pares de cuecas ainda com o papel de embrulho da loja, dois pares de meias com a etiqueta do fabricante ainda … volta, um par de Levi's, e um lenço, ainda também por abrir. Com os dentes, rasgou o celofane e amarrou o lenço em redor da mão. Uísque cor de ambar passou através do tecido fininho, seguido por uma manchinha de sangue. Stark esperou para ver se a manchinha se espalharia, mas não o fez.
Ainda bem. Ainda bem mesmo.
"Teria Beaumont sido capaz de colher alguns dados sensoriais?" interrogou-se Stark. Ser que sabia que, neste momento, George Stark se encontrava albergado num tosco apartamento de East Village, num edifício escavacado, onde as baratas pareciam ser sufícientemente grandes para roubar os cheqões da segurança social? Stark não estava assim muito convencido, mas não fazia sentido algum arriscar quando não precisava de arriscar. Ele prometera a Thad uma semana para tomar uma decisão e, embora estivesse agora cem por cento seguro de que Thad não tinha quaisquer planos para começar a escrever de novo como Stark, ele certificar-se-ia de que Thad desfrutasse de todo o tempo que Lhe fora prometido.
Afinal de contas, ele era um homem de palavra.
Talvez Beaumont fosse provavelmente precisar de um pouco de inspiração. Um daqueles pequenos maçaricos de propano que se podiam comprar nas lojas de ferragens virado para as solas dos pés dos mi£dos durante uns dois segundos deveria ser o sufíciente, pensou Stark, só que isso seria para mais tarde. Por ora, ele jogaria ao jogo da espera... e enquanto o fizesse, não faria mal nenhum começar a dirigir-se para norte. Para conseguir uma boa posição no terreno, se é que se pode dizer. Afinal de contas, ele tinha o carro: o Toronado preto. Estava guardado, embora isso não significasse que tivesse de ficar guardado. Poderia deixar Nova Iorque na manhã seguinte. Mas, antes de se ir embora, havia uma compra a fazer... e, neste preciso momento, tinha de usar alguns dos cosméticos do arm rio da casa de banho.
Stark tirou para fora os frasquinhos de base líquida, o pó-de-arroz e as esponjas. Antes de começar, bebeu um outro trago substancial da garrafa. As mãos estavam de novo firmes, embora a direita estivesse a latejar com força. Este facto não o incomodava especialmente" se a mão dele estava a latejar, a de Beaumont devia estar a causar dores lancinantes.
Tornou a olhar-se no espelho. Com a mão direita, tocou no pedaço de pele em forma de arco sob o olho esquerdo, acabando por lev -la até ao canto da boca passando sobre a maçã do rosto.
- A perder coesão - murmurou ele, e por Deus, isso era sem d£vida verdade.
Quando Stark olhara pela primeira vez para o seu rosto - ajoelhado no exterior do Cemitério de Homeland, a contemplar um charco de lama cuja superfície estagnada e espumosa se encontrava iluminada pela lua redonda e branca de um candeeiro p£blico das imediações - ficara satisfeito. Era exactamente como parecera ser nos sonhos que tivera enquanto preso nas masmorras da imaginação de Beaumont, semelhantes a um £tero. Nessa altura, pudera apreciar um homem convencionalmente bonito, cujos traços eram um pouco grosseiros de mais para atrair muita atenção. Se a testa não fosse tão alta e se os olhos não fossem tão afastados um do outro, até podia ser o género de rosto que levaria as mulheres a virar a cabeça para olharem uma segunda vez. Um rosto perfeitamente indefinido (se é que existe tal coisa) pode atrair as atenções apenas porque não apresenta nenhum traço em especial que atraia o olhar antes de este o rejeitar e passar para outro" a sua vulgaridade completa e absoluta pode confundir esse olhar e levar uma pessoa a virar-se para dar uma nova olhadela. O rosto que Stark vira pela primeira vez com olhos reais no charco de lama escapava a esse grau de banalidade por uma margem bastante grande. Imaginara ser o rosto perfeito, aquele que, mais tarde, ninguém seria capaz de descrever. Olhos azuis... um bronzeado que poderia parecer ligeiramente peculiar em alguém com um cabelo tão claro... e era isso! Era tudo! A testemunha ver-se-ia obrigada a passar para os ombros largos, que eram, na verdade, a coisa mais distinta que havia nele... e o mundo estava cheio de homens de ombros largos.
Agora, tudo mudara. Agora, o seu rosto tornara-se inegavelmente esquisito... e se não começasse a escrever de novo o mais breve possível, tornar-se-ia ainda mais esquisito.
Tornar-se-ia grotesco. "A perder a coesão", pensou ele de novo. "Só que tu .
vais p“r um ponto final a isso, Thad. Quando começares o livro sobre o carro blindado, aquilo que me est a acontecer começar a inverter-se por si só. Não sei como é que tenho tanta certeza assim, mas sei-o."
H j duas semanas que se vira a si próprio pela primeira vez naquele charco e, desde então, o seu rosto sofrera uma degeneração progressiva. A princípio, fora algo subtil, tão subtil que Stark conseguira persuadir-se a si mesmo de que não passava de imaginação... mas, … medida que as alterações começaram a acelerar-se, aquela posição tornara-se insustent vel e ele fora obrigado a retroceder. Ver uma fotografia dele tirada nessa altura e uma outra tirada agora poderia levar alguém a pensar num homem que estivera exposto a um tipo de radiações esquisitas ou a uma substƒncia química corrosiva. George Stark parecia estar a passar por uma decomposição espontƒnea e simultƒnea de todos os tecidos.
Os pés-de-galinha em redor dos olhos - marcas vulgares da meia-idade que vira no charco - eram agora sulcos profundos. As p lpebras tinham descaído, tendo adquirido a textura spera da pele de crocodilo. As maçãs do rosto começaram a apresentar também um aspecto encarquilhado e gretado. As orlas dos próprios olhos tinham-se tornado avermelhadas, o que Lhe conferia o aspecto deplor vel de um homem que não se apercebia de que j era altura dedeixar de se entregar … bebida. Linhas profundas tinham-se sulcado por si só na carne do rosto, dos cantos dos ll bios … linha do maxilar, dando … boca o aspecto perturbador da boca articulada do boneco de um ventríloquo. O cabelo louro, fino no início, tornara-se ainda mais fino, recuando das têmporas e mostrando a pele rosada da cabeça. Manchas hep ticas tinham surgido na parte de tr s das mãos.
Stark poderia ter suportado tudo isto sem recorrer … maquilhagem. Afinal de contas, ele só parecia uma pessoa velha, e só muito raramente é que a velhice era notada.
A força parecia estar intacta. Além disso, havia aquela certeza inabal vel de que mal ele e Beaumont começassem a escrever de novo - isto é, a escrever como George Stark - o processo inverter-se-ia por si só.
Só que agora os dentes estavam a ficar moles nas gengivas. E também doíam.
Stark repara na primeira na zona interna do cotovelo direito h três dias atr s: uma mancha vermelha com uma orla de pele branca morta em redor da borda. Era o género de mancha que ele associava … pelagral, doença que fora endémica no interior do sul até aos anos 60. No dia anterior a este, Stark descobrira uma outra, desta vez no pescoço, por debaixo do lobo do ouvido esquerdo. Mais duas outras ontem, uma no peito entre os mamilos, e a outra sob o umbigo.
Hoje, a primeira surgira no rosto, na têmpora direita.
Não doíam. Stark sentia uma comichão indefinida e constante, mas nada mais... pelo menos no que respeitava …s sensações. Só que elas espalhavam-se de forma r pida.
O braço direito era agora uma mancha vermelha, indefinida e inchada, da dobra do cotovelo até metade do braço na direcção do ombro. Ele cometera o erro de coçar, e a pele dera de si com uma facilidade nauseante. Uma mistura de sangue com um pus amarelado vertera para fora ao longo dos sulcos que as unhas tinham deixado, e as feridas exalavam um cheiro gasoso e horrível. No entanto, não era infecção. Ele quase podia jur -lo. Era mais como... se estivesse a apodrecer.
Se, neste preciso momento, alguém olhasse para ele - ]
até mesmo uma pessoa formada em medícina - acabaria por chegar … conclusão de que sofria de um melanoma de evolução ultra-r pida, provavelmente causado por uma exposição a alta radiações.
Ainda assim, as £lceras não o preocupavam grandemente.
Stark estava convencido de que elas iriam multiplicar-se em n£mero, espalhar-se, ligar-se umas …s outras e, eventualmente, comê-lo vivo... se ele as deixasse. Dado que não pretendia deixar que isto acontecesse, não havia necessidade alguma de se preocupar com elas. No entanto, se os traços daquele rosto se estavam a transformar num vulcão em erupção, ele deixaria de ser apenas mais um rosto na multidão.
Daí a maquilhagem.
Cuidadosamente, aplicou a base líquida com uma das esponjas redondas, espalhando-a das maçãs do rosto …s têmporas, acabando por cobrir o caroço vermelho-escuro situado depois da extremidade da sobrancelha direita e a nova £lcera que estava a começar a empurrar a pele sobre a maçã do rosto esquerda. Stark concluíra que um homem que usa uma maquilhagem …s três pancadas se assemelha a uma £nica coisa nesta terra de Deus, e isso era a um homem que usa uma maquilhagem …s três pancadas. O que era o mesmo do que falar num actor de uma telenovela ou de um convidado do programa do Donahue. Mas qualquer coisa j melhorava o aspecto das feridas, e o bronzeado disfarçava um pouco aquele aspecto falso. Se permanecesse na sombra ou se fosse visto sob uma iluminação artifícial, era praticamente imperceptível. Ou, pelo menos, era isso que esperava. Também existiam outras razões para permanecer longe da luz directa do sol. Stark suspeitava que, na realidade, o sol acelerava a reacção química desastrosa que estava a ocorrer no seu interior. Era praticamente como se estivesse a transformar-se num vampiro. Mas também isso não o incomodava" de certo modo, sempre fora um. "Além disso, sou um noctívago, sempre fui" essa é a minha natureza."
Isto fê-lo sorrir e o sorriso deixou os dentes a descoberto, como se fossem dentes caninos.
Stark voltou a enroscar a tampa no frasco da base líquida e começou a p“r pó-de-arroz. "Consigo sentir o meu próprio cheiro", pensou ele, "e, muito em breve, as outras pessoas também vão ser capazes de sentir o meu cheiro: um cheiro denso e desagrad vel, como uma lata de carne enlatada que ficou o dia todo ao sol. Isto não é bom, amigos e queridos corações. Isto não é mesmo nada bom."
- Vais escrever, Thad - disse ele, a olhar para si próprio no espelho. - Mas, com um pouco de sorte, não ter s de o fazer por muito mais tempo.
lançou um sorriso mais aberto, revelando um incisivo que ficara escuro e podre.
- Eu aprendo depressa.
5
…s nove e quarenta e cinco do dia seguinte, a empregada de uma papelaria na Houston Street vendeu três caixas de l pis Berol Black Beauty a um homem alto e de ombros largos, que vestia uma camisa de xadrez, calças de ganga azul, e usava uns óculos-de-sol muito grandes. O homem estava também maquilhado …s três pancadas, observou a empregada - provavelmente os vestígios de uma noite passada a saltitar de um bar de homossexuais para outro.
E, pelo cheiro que deitava, a empregada tinha c as suas suspeitas de que ele fizera um pouco mais do que dar apenas um mergulho na velha gua-de-colónia inglesa" era como se tivesse tomado banho com ela. Contudo, a gua-de-colónia não disfarçava o facto de o tipo de ombros largos cheirar muito mal. Por breves instantes - muito breves - a empregada pensou em lançar uma graçola, mas, de seguida, pensou melhor. O tipo cheirava mal mas parecia ser forte. Além disso, a compra foi misericordiosamente breve. Afinal de contas, o paneleiro estava apenas a comprar l pis e não um Rolls-Royce Corniche.
Era melhor deix -lo sozinho.
6
Stark fez uma curta paragem no "pardieiro" da East 5 Village para enfiar os poucos pertences na mochila que comprara na loja do Exército-Marinha no seu primeiro dia na velha Big Apple carunchosa.
Ao subir os esboroados degraus da frente, passou pelos corpos pequenos de três pardais mortos sem sequer reparar neles.
Deixou a Avenida B a pé... mas n o andou por muito mais tempo. Um homem determinado, descobrira ele, consegue sempre arranjar uma boleia se realmente precisa de uma