A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 3 de 26

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A Metade Sombria

Quando a Polícia chegou, Thad encontrava-se no…

Sete

ASSUNTO DE POL‹CIA

1

Quando a Polícia chegou, Thad encontrava-se no andar de cima, no seu escritório, a escrever.

Liz estava a ler um livro na sala de estar enquanto William e Wendy faziam palermices um ao outro no enorme parque partilhado pelos dois. Liz dirigiu-se … porta, tendo, antes de abrir, espreitado para o exterior de uma das decorativas janelas estreitinhas que a franqueavam. Tratava-se de um h bito que adquirira desde aquilo que era jocosamente apelidado da "estreia de Thad na revista People. Os visitantes - na sua grande maioria vagos conhecidos, com uma mistura generosa de habitantes da vila curiosos e até mesmo de alguns estranhos (estes £ltimos unanimemente fãs de Stark) em grande n£mero tinham adquirido o costume de Lhe bater … porta. Thad chamava a isso a "síndroma-de-ver-os-crocodilos-vivos e afirmava que iria desaparecer aos poucos, numa semana ou duas. Liz esperava que ele tivesse razão. Por ora, ela temia que um dos novos visitantes pudesse ser um caçador de crocodilos tresloucado, do género daquele que assassinara John Lennon, o que a levava sempre a espreitar pela janelinha lateral antes de abrir a porta. Apesar de não ter a certeza se reconheceria um louco genuíno quando visse um, Liz podia, pelo menos, evitar o descarrilamento do comboio de pensamentos de Thad durante as duas horas passadas todas as manhãs a escrever.

Após esse tempo, era ele próprio quem atendia a porta, lançando-lhe com frequência um olhar culpado de rapazinho ao qual ela não sabia como responder.

Nesta manhã de s bado, os três homens na soleira da porta da frente não eram fãs de Beaumont ou de Stark, !

imaginou ela, e também não eram nenhuns loucos... a não ser que alguns dos tresloucados da nova geração tivessem adquirido o h bito de conduzir carros-patrulha da polícia estadual. Liz abriu a porta, sentindo a pontada de receio que mesmo as pessoas mais inocentes devem sentir quando a Polícia aparece sem ser chamada. Imaginou que, se tivesse filhos com idade suficiente para andarem por aí aos pinotes naquela manhã chuvosa de s bado, ela j estaria a interrogar-se se eles estariam bem.

- Sim?

- a senhora Elizabeth Beaumont? - perguntou um deles.

- Sim, sou eu. Em que Lhes posso ser £til?

- O seu marido encontra-se em casa, senhora Beaumont? - perguntou um segundo. Estes dois vestiam gabardinas cinzentas idênticas e chapéus da polícia estadual, também idênticos.

"Não, é o fantasma de Ernest Hemingway que vocês ouvem l em cima a matraquear", lembrou-se ela de dizer, mas, como é óbvio, não o fez. Primeiro foi tomada por aquele medo s£bito de ser -que-alguém-teve-um-acidente, a que se seguiu a culpa ilusória que leva uma pessoa a querer sair-se com algo ríspido ou sarc stico, algo que exprimisse, quaisquer que fossem as palavras: "Vão-se embora.

Ninguém os quer aqui. Não fizemos nada de mal. Vão-se embora e descubram alguém que o fez. - Importam-se que Lhes pergunte porque é que gostariam de falar com ele?

Alan Pangborn era o terceiro polícia.

- Assunto de polícia, senhora Beaumont - respondeu.

- Ser que podemos falar com ele, por favor?

2

Thad Beaumont não mantinha nada que se parecesse com um di rio organizado, mas, por vezes, acabava por escrever sobre os acontecimentos na sua própria vida que o interessavam, divertiam ou assustavam. Mantinha essas notas num livro-razão encadernado, e a sua mulher não se mostrava muito interessada nelas. Na verdade, assustavam-na, embora ela nunca o tivesse confessado a Thad A maioria era peculiarmente desapaixonada, quase como se uma parte dele estivesse a relatar a sua vida, com um olhar distƒnciado e praticamente desinteressado. Após a visita da Polícia na manhã de 4 de Junho, Thad escreveu uma longa entrada, perpassada por uma intensa e invulgar corrente de emoção.

"Agora compreendo um pouco melhor O Processo de Kafka e 1984, de Orwell [escreveu Thad]. um grave erro lê-lo apenas como romances políticos e nada mais. Creio que a depressão pela qual passei após ter terminado Os Dançarinos e de ter descoberto que nada mais havia a esperar depois desse livro - salvo o aborto de Liz, isso sim constitui ainda a experiência emocional mais devastadora da nossa vida de casados, embora aquilo que hoje aconteceu pareça ser pior. Digo a mim mesmo que assim é porque a experiência ainda est recente, mas, suspeito que seja muito mais do que isso. Dado que o meu período na escuridão e a perda daqueles dois primeiros gémeos constituem feridas que sararam, deixando apenas cicatrizes para marcar os locais onde se encontravam, suponho, pois, que esta nova ferida também ir sarar... embora não acredite que o tempo alguma vez a apagar por completo. Deixar igualmente a sua cicatriz, uma que ser mais pequena ainda que mais profunda - como a cicatriz desbotada de um corte repentino com uma faca.

Tenho a certeza de que a Polícia se comportou de acordo com o seu juramento (se é que ainda prestam juramento, e suponho que ainda o fazem). Mesmo assim, tanto na quele momento como agora, paira ainda sobre mim o sentimento de que me encontrava em perigo de ser empurrado para uma qualquer m quina burocr tica sem rosto.

não homens mas uma m quina, que continuaria metodicamente com o seu processo até me desfazer por completo...

porque desfazer pessoas é o propósito da m quina. O som dos meus gritos não aceleraria nem atrasaria a acção de destruição da m quina.

Quando Liz subiu as escadas e disse que a Polícia me queria ver por causa de uma coisa qualquer, embora não Lhe dissessem do que é que se tratava, pude ver quanto estava nervosa. Disse-me que um deles era Alan Pangburn, o xerife do município de Castle. • possível que o tenha encontrado uma ou duas vezes antes, mas só o reconhecemos porque a sua fotografia aparece de tempos a tempos no jornal Call de Castle Rock.

Fiquei curioso e grato pela pausa na m quina de escrever, onde, na £ltima semana, as minhas personagens têm vindo a insistir para fazer coisas que eu não quero que façam.

Se pensei em alguma coisa, suponho que pensei que deveria ser algo relacionado com Frederick Clawson, ou com alguma repercussão do artigo na People.

Não sei se conseguirei transmitir correctamente o tom do encontro que se seguiu. Não sei sequer se isso tem alguma importƒncia; só sei que parece importante tentar.

Encontravam-se no trio de entrada, perto da base das escadas, três homens grandes (não admira que as pessoas os chamem "bisarmas") a pingarem gua sobre o tapete.

- O senhor é Thaddeus Beaumont? - perguntou um deles: era o xerife Pangborn. Foi então que a alteração emocional que desejo descrever (ou, pelo menos, indicar)

começou a acontecer. … curiosidade e ao prazer de me ver livre, ainda que por breves momentos, da m quina de escrever, juntou-se uma certa dose de perplexidade. E também alguma preocupação. O meu nome completo, mas nada de "senhor". Como um juiz a dirigir-se ao réu sobre o qual se encontra prestes a proferir a sentença.

- Sim, é isso mesmo - respondi eu - e o senhor é o xerife Pangborn. Sei porque temos uma casa em Castle Lake. - De seguida, estiquei a mão, naquele velho gesto autom tico do homem americano bem treinado. Ele limitou-se a olhar para a mão, tendo o seu rosto adquirido uma expressão diferente: era como se tivesse aberto a porta do frigorífico e verificado que o peixe que comprara para o jantar estava estragado.

- Não tenho intenção alguma de Lhe apertar a mão - afirmou. - Portanto, talvez seja melhor voltar a colocar a mão onde a tinha e poupar a ambos uma situação constrangedora.

Que raio de coisa estranha para se dizer, algo francamente grosseiro para se dizer, embora isso não me tivesse perturbado tanto como a forma como o fora dito. Era como se ele pensasse que eu estava louco.

E, precisamente desta forma, fiquei aterrorizado. Ainda agora tenho dificuldade em acreditar na rapidez, na maldita rapidez com que as minhas emoções atravessaram todo o espectro habitual, passando da simples curiosidade e algum prazer na pausa da rotina habitual para um medo puro e simples. Naquele momento, soube que eles não estavam aqui apenas para falar comigo sobre alguma coisa mas porque acreditavam que eu fizera algo e, naquele instante de horror ("Não tenho intenção alguma de Lhe apertar a mão") tive também a certeza de que o tinha feito.

• precisamente isto que eu tenho de p“r c para fora. No instante feito de silêncio morto que se seguiu … recusa de Pangborn de me apertar a minha mão, pensei, com efeito, que fizera tudo... e de que nada valeria não confessar a minha culpa.

3

Lentamente, Thad baixou a mão. Pelo canto do olho, podia ver Liz com as mãos fechadas numa apertada bola branca entre os seios e, subitamente, desejou ficar furioso com este polícia, que fora convidado a entrar de livre vontade em sua casa e que, de seguida, se recusara a apertar-Lhe a mão. Este polícia cujo sal rio era pago, pelo menos numa pequena parte, pelos impostos que os Beaumont pagavam pela casa em Castle Rock. Este polícia que assustara Liz. Este polícia que o assustara a ele.

- Muito bem - disse Thad num tom calmo. - J que o senhor não deseja apertar-me a mão, então talvez me possa dizer por que razão se encontra aqui.

Ao contr rio dos polícias estaduais, Alan Pangborn não vestia uma gabardina mas um blusão imperme vel que só chegava … cintura. Enfiou a mão no bolso de tr s, tirou um cartão e começou a lê-lo. Só passados alguns instantes é que Thad se apercebeu de que estava a ouvir uma variante do aviso Mirandal.

- Como disse, chamo-me Alan Pangborn, senhor Beaumont. Sou o xerife do município de Castle, no Maine. Encontro-me aqui porque tenho de o interrogar relativamente a um homicídio.

Far-lhe-ei estas perguntas na Central da Polícia Estadual de Orono. Tem o direito de permanecer calado...

- Oh, pelo amor de Deus, o que é que se est a passar aqui? - inquiriu Liz e, sobrepondo-se a essa pergunta, Thad ouviu-se a si próprio afirmar:

- Espere aí um minuto, espere a porra de um minuto! - Thad tivera a intenção de bramir estas palavras, mas, apesar de o cérebro ordenar aos pulmões para aumentar o volume até atingir o tranquilizante tom elevado, apropriado para uma sala de conferências, o melhor que conseguiu foi uma ligeira objecção que Pangborn atropelou com facilidade.

-... e tem o direito a um advogado. Caso não possa pagar um advogado, este ser-lhe- proporcionado.

Pangborn tornou a colocar o cartão no bolso de tr s.

- Thad? - Liz comprimia-se contra ele, como uma criança pequena assustada pela trovoada. Os seus enormes olhos perplexos fitavam Pangborn. De vez em quando, dardejavam os agentes estaduais, que pareciam ser suficientemente grandes para jogarem … defesa numa equipa de futebol americano profissional, mas, durante a maior parte do tempo, permaneciam sobre Pangborn.

- Não vou a lado nenhum com o senhor - respondeu Thad. A voz tremia, oscilando para cima e para baixo, alternando de registo como a voz de um jovem adolescente.

Estava ainda a tentar ficar furioso. - Não me parece que o senhor me possa obrigar a fazer isso.

Um dos agentes estaduais pigarreou:

- A alternativa - disse - é voltarmos atr s e irmos buscar um mandado para o prender, senhor Beaumont.

Com base nas informações que possuímos, isso seria extremamente f cil. O agente...

O agente olhou de relance para Pangborn. - Talvez seja conveniente acrescentar que o xerife Pangborn queria que trouxéssemos um connosco. Insistiu muito para que assim fosse, e suponho que teria conseguido o que queria se o senhor não fosse... uma espécie de figura p£blica.

Pangborn mostrou-se desagradado, talvez por este facto, possivelmente porque o agente estava a informar Thad desse facto, ou mesmo pelos dois.

O agente estadual viu o olhar lançado por Pangborn e bateu com os sapatos molhados um no outro, como se estivesse um pouco constrangido, mas, ainda assim, continuou a falar:

- Dada a situação, não tenho problema algum em que fique ao corrente deste facto. - Olhou interrogativamente para o colega, que acenou a cabeça. Pangborn continuou a parecer desagradado. E zangado. "Ele d a sensação, pensou Thad, "de que gostaria de me esquartejar com as unhas e de me enrolar as tripas … volta do pescoço. - Isso soa muito profissional - replicou Thad. Ficou aliviado por ver que, pelo menos, estava a conseguir recuperar o f“lego e que a sua voz começava a voltar ao tom habitual. Thad queria ficar zangado porque a cólera iria mitigar o medo mas tudo o que conseguia sentir não passava de desorientação. Era como se tivesse sido esmurrado. - Só que se esquece do facto de eu não ter a mais pequena ideia de que raio é que se est a passar.

- Se pens ssemos que isso fosse verdade, não estaríamos aqui, senhor Beaumont - replicou Pangborn. Por fim, a expressão de aversão no seu rosto acabou por despoletar aquilo que Thad tanto queria, tendo ficado subitamente enfurecido.

- Estou-me nas tintas para aquilo que pensa! - exclamou Thad. - Disse-lhe que sabia quem o senhor era, xerife Pangborn. Eu e a minha mulher possuímos uma casa de Verão em Castle Rock desde mil novecentos e setenta e três, muito antes de o senhor ter sequer ouvido falar daquele lugar. Não sei o que est aqui a fazer, a cerca de duzentos e sessenta quilómetros do seu território, ou porque éque est a olhar para mim como se eu fosse uma cagadela de p ssaro num carro novinho em folha, mas posso-lhe garantir que não irei para lado algum com o senhor enquanto não souber o que se passa. Se for preciso um mandado de captura, v -se embora e arranje um. Mas quero que saiba que se assim o fizer, vai ficar enfiado até ao pescoço numa chaleira de merda a ferver e eu estarei por debaixo a atiçar o lume. Porque eu não fiz nada. Isto é absolutamente incrível.

Apenas... absolutamente... incrível!

Nesta altura, a voz de Thad atingiu o volume m ximo, e ambos os agentes estaduais pareciam um pouco desconcertados.

Pangborn, não. Continuou a fitar Thad daquele modo inquietante.

Na outra sala, um dos gémeos começou a chorar.

- Oh, meu Deus - lastimou-se Liz - o que se passa?

Diga-nos!

- Vai l ver os mi£dos, amor - pediu Thad desviando o olhar fixo do de Pangborn.

- Mas...

- Por favor - insistiu Thad. Por essa altura, j os dois bebés choravam. - Vai ficar tudo bem.

Liz lançou-lhe um £ltimo olhar vacilante, que perguntava "Prometes?"? e encaminhou-se para a sala de estar.

- Queremos interrog -lo relativamente ao homicídio de Homer Gamache - afirmou o segundo agente.

Thad desviou o olhar petrificado sobre Pangborn e virou-se para o polícia.

- Quem?

- Homer Gamache - repetiu Pangborn. - Vai-nos dizer que o nome nada significa para si, senhor Beaumont?

- Claro que não - respondeu Thad, espantado. - Quando estamos na vila, é o Homer quem leva o nosso lixo para a lixeira. Também faz alguns consertos l em casa. Perdeu um braço na Coreia. Deram-lhe a Estrela de Prata...

- De bronze - corrigiu Pangborn, friamente.

- O Homer est morto? Quem é que o matou?

Nesse momento, os agentes entreolharam-se, surpresos. Depois da dor, a surpresa talvez seja a emoção humana mais difícil de fingir com efic cia.

O primeiro agente replicou numa voz curiosamente dócil:

- Temos todas as razões para pensar que tenha sido o senhor, senhor Beaumont. Por isso é que estamos aqui.

Por um instante, Thad fitou-o com um vazio no olhar, lançando, de seguida, uma gargalhada.

- Meu Deus! Pelo amor de Deus! Isto é de loucos.

- Quer ir buscar um casaco, senhor, Beaumont? - perguntou o outro agente. - Est a chover bastante l fora.

- Não vou a lado nenhum com o senhor - repetiu ele.

ausente, não se apercebendo da repentina expressão de exasperação de Pangborn. Thad estava a pensar.

- Penso que vai - respondeu Pangborn - de um modo ou de outro.

- Ter de ser, então, do outro modo - replicou ele, acordando dos seus pensamentos. - Quando é que isso aconteceu?

- Senhor Beaumont - disse Pangborn, falando lentamente e articulando com cuidado as palavras; era como se estivesse a falar com uma criança de quatro anos, e uma que não fosse propriamente esperta. - Não estamos aqui para Lhe darmos quaisquer informações.

Liz surgiu … entrada da porta com os bebés. O seu rosto ficara sem um pingo de cor; a sua testa brilhava como uma lampada.

- Isto é de loucos - exclamou ele, olhando de Pangborn para os agentes e, de seguida, de novo para Pangborn.

- De loucos. Não se apercebem disso?

- Oiça - disse Thad, encaminhando-se na direcção de Liz e colocando o braço … volta dela - eu não matei o Homer, xerife Pangborn, embora agora j entenda porque é que est tão irritado. Venha l acima até ao meu escritório.

Vamo-nos sentar a ver se conseguimos descortinar isto...

- Quero que o senhor v buscar o seu casaco - ordenou Pangborn. Olhou de relance para Liz. - Desculpe a minha linguagem, mas j aturei tudo o que tinha a aturar para uma manhã chuvosa de s bado. O senhor foi apanhado.

Thad olhou para o mais velho dos dois agentes estaduais.

- Ser que o senhor se importa de meter algum juízo na cabeça deste homem? Diga-lhe que poder evitar uma série de situações constrangedoras e confusas se me disser quando é que o Homer foi morto - e, acrescentando de seguida - e onde. Se foi em The Rock, porque eu não consigo imaginar o que é que o Homer estaria a fazer c para estas bandas... ora, nos £ltimos dois meses e meio, não saímos de Ludlow, excepto para ir … universidade.

O agente estadual reflectiu por um momento, acabando por dizer de seguida:

- Desculpe-nos por uns instantes.

Os três afastaram-se até ao trio de entrada, dando quase a sensação de que eram os agentes que conduziam Pangborn.

Saíram pela porta da frente. Mal esta se fechou, Liz explodiu numa enxurrada de perguntas confusas. Thad conhecia-a bem de mais para suspeitar que o terror tivesse assumido a forma de raiva - até mesmo de f£ria - contra os polícias, mais que não fosse pela notícia da morte do Homer Gamache. No ponto em que as coisas estavam, ela encontrava-se … beira das l grimas.

- Vai ficar tudo bem - respondeu ele, beijando-a na face. E, lembrando-se depois, também beijocou William e Wendy, que estavam a começar a ficar verdadeiramente irrequietos. - Acho que os agentes estaduais j sabem que estou a dizer a verdade. Pangborn... bem, ele conhecia o Homer. Tu também. ele est apenas extremamente irritado. - "E pelo olhar e tom de voz, deve ter em sua posse aquilo que parecem ser provas inabal veis que me ligam ao assassínio", pensou ele, embora não o tenha acrescentado.

Thad atravessou o trio e espreitou pela estreita janela lateral, tal como fizera Liz. Se não fosse pela situação, aquilo que viu até podia ser engraçado. Os três encontravam-se sob o alpendre, quase mas ainda que não totalmente abrigados da chuva, a conferenciar. Apesar de conseguir ouvir o som das vozes, Thad não conseguia destrinçar aquilo que diziam. Pensou que se assemelhavam a jogadores de beisebol a conferenciar em cima da base, durante um ataque tardio executado pela outra equipa. Os dois polícias estaduais estavam a falar com Pangborn, que abanava a cabeça e replicava acaloradamente.

Thad tornou a atravessar o trio.

- Que é que eles estão a fazer? - perguntou Liz.

- Não sei - respondeu Thad por sua vez - mas parece-me que os polícias estão a tentar convencer Pangborn a ,, dizer-me a razão pela qual ele tem tanta certeza de que fui eu quem matou Homer Gamache. Ou, pelo menos, algumas das razões.

- Coitado do Homer - sussurrou ela. - Isto é um autêntico pesadelo.

Thad tirou William do colo dela e tornou a dizer-lhe para não se preocupar.

5

Cerca de dois minutos mais tarde, os polícias regressaram. O rosto de Pangborn era uma nuvem negra. Thad suspeitou que os dois polícias estaduais Lhe deveriam ter dito aquilo que o próprio Pangborn j sabia, mas que não queria admitir: o escritor não apresentava nenhum dos tiques e taras geralmente associados … culpa.

- Muito bem - disse Pangborn, tentando evitar uma certa rispidez, pensou Thad, e a sair-se bastante bem. Ainda que não tivesse l muito êxito, estava a sair-se bastante bem, considerando o facto de se encontrar na presença do suspeito n£mero um do assassínio de um velhote com um só braço. - Estes senhores gostariam que, pelo menos, Lhe fizesse uma pergunta aqui, senhor Beaumont, e assim o farei. Ser que nos pode dar conta do seu paradeiro no período de tempo entre as onze da noite de trinta e um de Maio e as quatro da manhã de um de Junho?

Os Beaumont trocaram um olhar entre si. Thad sentiu libertar-se de um grande peso … volta do coração. Ainda que não tivesse desaparecido por completo, ainda não, era como se todos os ferrolhos que sustentavam aquele peso tivessem sido abertos. Agora só faltava um valente empurrão.

- Achas que foi? - murmurou Thad para a mulher. Apesar de estar convencido que sim, parecia ser bom de mais para ser verdade.

- Tenho a certeza que foi - respondeu Liz. - Trinta e um, foi o que disse? - Ela olhava para Pangborn com uma esperança radiosa.

Pangborn devolveu o olhar com desconfiança.

- Sim, minha senhora. Mas temo que a sua palavra não consubstƒnciada não seja...

Ela ignorava-o, contando para tr s com os dedos.

Subitamente, sorriu como uma aluna na escola.

- Terça-feira! Terça-feira foi trinta e um! - exclamou para o marido. - Foi! Graças a Deus!

Pangborn ficou espantado e mais desconfiado do que nunca.

Os agentes entreolharam-se e, de seguida, olharam de novo para Liz.

- Ser que nos quer dizer o que est a passar-se, senhora Beaumont? - perguntou um deles.

- Na noite de terça-feira, dia trinta e um, demos aqui uma festa! - replicou ela, lançando a Pangborn um olhar de triunfo e de profunda aversão. - A casa estava cheia! Não foi, Thad?

- Se foi!

- Num caso como este, um bom libi constitui em si mesmo causa de suspeita - afirmou Pangborn, ainda que parecendo abalado.

- Oh, que homem tonto e arrogante! - exclamou Liz. Cores vivas brilhavam agora nas suas faces. O medo estava a passar;

a f£ria vinha aí. Liz olhou para os agentes: - Se o meu marido não tem um libi para este assassínio que vocês dizem que ele cometeu, levem-no para a esquadra! Se ele tem um libi, este homem diz que provavelmente significa que, de qualquer modo, foi ele … mesma! De que é que têm medo? De um trabalhinho honesto? Porque é que estão aqui?

- P ra com isso, Liz - pediu Thad sobriamente. - Eles têm boas razões para estarem aqui. Se o xerife Pangborn andasse … caça de gambozinos ou tivesse vindo atr s de um palpite, penso que teria vindo sozinho.

Pangborn lançou-lhe um olhar de desagrado, tendo de seguida suspirado.

- Fale-nos l sobre essa festa, senhora Beaumont.

- Foi em homenagem a Tom Carroll - explicou Thad. - Tom esteve no Departamento de Inglês da universidade durante dezanove anos, tendo sido o seu presidente nos £ltimos cinco.

Reformou-se a vinte e sete de Maio, quando o ano lectivo terminou oficialmente. Sempre foi um dos mais queridos do departamento, conhecido pela maioria de nós, velhos cavalos de guerra, como Gonzol Tom por causa da sua predilecção pelos ensaios de Hunter Thompson. Assim, decidimos oferecer-lhe uma festa de despedida para ele e para a mulher.

- A que horas é que essa festa terminou?

Thad sorriu:

- Bem, acabou antes das quatro da manhã, mas deu para o tarde. Quando se junta um grupo de professores de inglês com uma provisão praticamente ilimitada de bebidas alcoólicas, é possível passarmos todo um fim-de-semana juntos. Os convidados começaram a chegar por volta das oito e... quem foi o £ltimo, querida?

- Rawlie DeLesseps e aquela mulherzinha horrível do Departamento de História com quem ele anda desde o tempo da Maria Cachucha - respondeu ela. - Aquela que brada aos quatro ventos: "Chamem-me apenas Billie, tal como toda a gente. - Exactamente - disse Thad, a sorrir neste momento.

- A "Bruxa M do Leste".

Os olhos de Pangborn enviavam uma mensagem clara de vocês-estão-a-mentir-e-ambos-sabemos-disso.

- E a que horas é que esses amigos se foram embora?

Thad estremeceu um pouco.

- Amigos? Rawlie, sim. Aquela mulher é de certeza que não.

- Duas da manhã - respondeu Liz.

Thad acenou com a cabeça:

- Tinham de ser pelo menos duas da manhã quando os vimos pelas costas. Quase que os pusemos na rua. Tal como j disse, no dia em que entrar para o Clube de Fãs da Wilhemina Burks, h -de estar a nevar no Inferno. No entanto, teria insistido para que eles passassem c a noite se o Rawlie tivesse ainda de conduzir mais de cinco quilómetros ou se não fosse assim tão tarde. De qualquer modo, não estava ninguém nas estradas …quela hora da noite de uma terça-feira, desculpem-me, de uma quarta-feira. Excepto, talvez, alguns veados a fazerem incursões nos jardins. - Thad fechou a boca abruptamente. No seu alívio, estava prestes a tartamudear.

Fez-se um momento de silêncio. Nesta altura, os dois agentes olhavam para o chão. Pangborn aparentava uma expressão no rosto que Thad não conseguia decifrar - tinha a impressão de que nunca a vira antes. Não era desapontamento, embora o desapontamento fizesse parte dela.

"Mas que raio de coisa é que se passa aqui? - Bem, tudo isso é muito conveniente, senhor Beaumont - disse, por fim, Pangborn - mas est muito longe de ser algo sólido. Temos a sua palavra e a da sua mulher, ou um c lculo por alto, da hora em que esse £ltimo casal se teria ido embora. Se são tão horríveis como os senhores parecem achar que são, só muito dificilmente é que eles serão capazes de corroborar aquilo que disseram. E se este tipo DeLesseps é realmente um amigo, ele poder dizer... bem, quem sabe?

Ainda assim, Alan Pangborn estava a perder terreno.

Thad apercebeu-se disso e julgou - não, soube que os agentes estaduais também se tinham apercebido de tal. No entanto, o homem ainda não estava pronto para os largar.

O medo que Thad inicialmente sentira e a raiva que se seguira estavam a transformar-se em fascínio e curiosidade.

Tinha a impressão que nunca vira perplexidade e certeza tão equilibrados a debaterem-se numa guerra. A realização da festa - e ele tinha de aceitar como facto algo que pode ser confirmado com tanta facilidade - tinha-o abalado...

ainda que não o tivesse convencido. Do mesmo modo, Thad podia ver que os agentes também não estavam inteiramente convencidos. A £nica diferença era que não tinham ido tanto aos arames. Não haviam conhecido Homer Gamache pessoalmente e, portanto, não tinham qualquer interesse pessoal no assunto. Alan Pangborn tinha os dois.

"Eu também o conheci", pensou Thad. "Assim, talvez também tenha algum interesse nisso. parte do meu pescoço, est claro. - Olhe - disse de modo paciente, conservando o olhar fixo no de Pangborn e tentando não retribuir hostilidade - vamos p“r os pontos nos "is", como os meus alunos gostam de dizer. O senhor perguntou se podíamos provar efectivamente o nosso paradeiro...

- O seu paradeiro, senhor Beaumont - corrigiu Pangborn.

- Est bem, o meu paradeiro. Cinco horas bastante difíceis. Quando a maioria das pessoas est na cama. Graças a nada mais do que pura sorte, nós (se preferir, eu) podemos cobrir pelo menos três dessas cinco horas. Talvez Rawlie e a sua detest vel companhia se tenham ido embora …s duas ou talvez … uma e meia ou …s duas e um quarto. Qualquer que fosse a hora, era tarde. Eles vão corroborar este facto, e aquela mulherzinha Burks não mentiria quanto ao meu libi mesmo que Rawlie o fizesse. Penso que se a Billie Burks me visse aflito, a afogar na praia, lançava um balde de gua sobre mim.

Liz lançou-lhe um sorrisinho estranho e afectado enquanto pegava em William, que estava a começar a contorcer-se ao colo do pai. Thad começou por não entender aquele sorriso, mas, depois, descobriu a razão. Era aquela expressão, est claro - "mentir quanto ao meu libi. Era uma expressão que Alexis Machine, o arquivilão dos romances de George Stark, por vezes utilizava. De certo modo, era esquisito; Thad não conseguia lembrar-se de alguma vez ter usado um starkismo em qualquer conversa. Por outro lado, também nunca fora acusado de assassínio e o assassínio era um género de situação própria de George Stark.

- Mesmo supondo que estamos enganados em cerca de uma hora e que os £ltimos convidados se tenham ido embora … uma - continuou ele - e supondo ainda que saltei para o meu carro no minuto (no segundo) em que eles viraram as costas, e que depois tenha guiado como um tresloucado até Castle Rock, não teria qualquer hipótese de l chegar antes das quatro e meia ou cinco horas da manhã. Não h qualquer auto-estrada para o leste, como sabem.

Um dos agentes começou:

- E a Arsenault disse que era cerca de um quarto para a uma quando viu...

- Não h necessidade alguma de entrarmos nesses pormenores neste preciso momento - interrompeu Alan rapidamente.

Liz produziu um som indelicado e irritado, tendo Wendy arregalado os olhos para ela de forma cómica. Na curva do outro braço, William parou de se contorcer, subitamente absorvido pela maravilha dos seus próprios dedos contorcidos.

Para Thad, ela disse - Havia aqui ainda imensa gente … uma da manhã, Thad - disse ela. - Imensa. - De seguida, atacou Alan Pangborn; desta vez, atacou-o mesmo: - Que é que se passa consigo, xerife? Porque é que est tão obcecadamente determinado em deitar tudo isto para cima do meu marido?

Ser que o senhor é um homem est£pido? Preguiçoso?

Mau? Não me parece que seja nenhuma dessas coisas, mas o seu comportamento faz-me imaginar isso. Imaginar isso e muito mais. Se calhar foi … sorte. Foi? Tirou o nome dele de um maldito chapéu?

Alan recuou ligeiramente, surpreso - e desconcertado - pela sua ferocidade.

- Senhora Beaumont...

- Temo que seja eu quem leve a melhor, xerife - disse Thad. - O senhor pensa que matei Homer Gamache...

- Senhor Beaumont, o senhor não foi acusado de...

- Não. Mas é isso que pensa, não é?

Uma cor, compacta e de tom de terra, não de constrangimento, pensou Thad, mas de frustração, tinha vindo lentamente a subir nas faces de Pangborn como merc£rio num termómetro.

- Sim, senhor - respondeu ele. - Realmente penso.

Apesar de tudo aquilo que o senhor e a sua esposa disseram.

Esta resposta encheu Thad de espanto. O que é que, em nome de Deus, poderia ter acontecido para aquele homem (que, como Liz dissera, não parecia nada est£pido)

estar tão seguro? Tão terrivelmente seguro?

Thad sentiu um arrepio subir pela espinha acima... e foi então que algo peculiar aconteceu. Por um momento, um som fantasmagórico cobriu a mente dele - não a cabeça mas a mente. Era um som que conferia uma sensação dolorosa de déj… vu, pois a £ltima vez que o ouvira fora praticamente h trinta anos. Era o som fantasmagórico de ceng tenas, talvez de milhares, de passarinhos.

Thad levou uma mão … cabeça e tocou na pequena cicatriz que aí se encontrava, tendo o arrepio surgido de novo, desta vez mais forte, enroscando-se pela carne como um arame. "Mente quanto ao meu libi, George", pensou ele.

"Estou metido num aperto, por isso mente quanto ao meu libi". - Thad? - perguntou Liz. - Est s bem?

- Hum? - Virou-se e olhou para ela.

- Est s p lido.

- Estou bem - respondeu, e estava. O som passara.

Se é que chegara realmente a existir. Virou-se para Pangborm:

- Como dizia, xerife, eu levo a melhor neste assunto. O senhor pensa que matei o Homer. Eu, no entanto, sei que não o fiz. Excepto nos livros, nunca matei ninguém.

- Senhor Beaumont...

- Compreendo a sua indignação. Ele era um velho simp tico com uma mulher extremamente dominadora, um grande sentido de humor, e tinha apenas um braço. Também eu estou indignado. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para o ajudar, mas o senhor vai ter de p“r de parte essa treta do segredo de polícia e dizer-me porque é que est aqui, que raio de coisa é que o trouxe até mim. Estou confuso.

Alan olhou para ele durante um longo período de tempo e depois disse:

- Todos os instintos no meu corpo dizem que o senhor est a dizer a verdade.

- Graças a Deus - afirmou Liz. - O homem tem algum juízo.

- Se se verificar que est a dizer a verdade - continuou Alan, fitando apenas Thad - descobrirei pessoalmente no I.R.S.E. a pessoa que se enganou nesta identificação e eu próprio o esfolarei vivo.

- Que é o R.S.E. e o resto? - inquiriu Liz.

- Identificação e Registos dos Serviços do Exército respondeu um dos agentes. - Washington.

- Nunca soube de ninguém de l que se tivesse enganado antes - prosseguiu Alan, no mesmo tom lento. - Dizem que h uma primeira vez para tudo mas... se eles não se enganaram e se esta vossa festa for realmente confirmada, eu próprio vou ficar bastante confuso.

- Ser que não nos pode dizer do que é que se trata? - perguntou Thad.

Alan suspirou:

- J que cheg mos até aqui, porque não? Para ser sincero, os £ltimos convidados a deixarem a festa não têm, de qualquer modo, assim tanta importƒncia. Se o senhor estava aqui … meia-noite, se houver testemunhas que jurem que o senhor estava...

- Vinte e cinco, pelo menos - disse Liz.

-... então est safo. Juntando o relato ocular da testemunha que o agente mencionou e a autópsia do médico-legista, temos quase a certeza absoluta de que o Homer foi morto entre a uma e as três da manhã de um de Junho. Foi espancado até … morte com a própria prótese do braço.

- Meu Deus - sussurrou Liz. - E o senhor pensou que Thad...

- A carrinha do Homer foi encontrada h duas noites no parque de estacionamento de uma estação de serviço na I-95, no Connecticut, próximo da fronteira de Nova Iorque. - Alan fez uma pausa. - Havia impressões digitais por todo o lado, senhor Beaumont. A maioria pertencia a Homer, mas muitas delas eram do criminoso. Algumas das impressões do assassino conservavam-se em óptimo estado. Uma estava praticamente gravada numa bola de pastilha que o tipo tirou da boca e espetou no tablier com o polegar. Depois, acabou por endurecer. No entanto, a melhor de todas estava no espelho retrovisor. Era tão boa como uma impressão digital tirada numa esquadra de polícia. Só que, em vez de ter sido embebida em tinta, tinha sido embebida em sangue.

- Então porquê Thad? - perguntava Liz com indignação. - Com festa ou sem festa, como é que podem ter pensado que o Thad... Alan olhou para ela e disse-lhe:

- Quando o pessoal na I. & R.S.E. introduziu as impressões digitais no computador gr fico, a folha de serviços do seu marido foi a escolhida. Para ser mais exacto, as impressões digitais do seu marido foram as escolhidas.

Por um instante, Thad e Liz só conseguiram olhar um para o outro, atordoados e silenciosos. De seguida, Liz disse:

- Então, foi um erro. Como é evidente, as pessoas que verificam essas coisas cometem erros de vez em quando.

- Sim, mas só muito raramente é que são erros desta amplitude. Est claro que existem zonas cinzentas na identificação de impressões. Os leigos que cresceram a ver séries como Kofak e Barnaby Jones ficam com a ideia de que as impressões digitais constituem uma ciência exacta, o que não é verdade. No entanto, a informatização afastou muitas das d£vidas na comparação das impressões, e este caso apresentou impressões extraordinariamente boas. Quando digo que eram as impressões digitais do seu marido, senhora Beaumont, estou a dizer-lhe isto com toda a seriedade. Vi as folhas saídas do computador e vi as folhas sobrepostas. O par não é apenas semelhante. - Agora, Pangborn virou-se para Thad, fitando-o com os seus olhos azuis empedernidos. - O par é igual.

Liz fitou-o boquiaberta e, nos seus braços, William começou a chorar, seguido por Wendy.

Oito

PANGBORN FAZ UMA VISITA

1

Quando a campainha da porta tocou de novo …s sete e um quarto dessa mesma tarde, foi de novo Liz quem abriu a porta porque j acabara de arranjar William para o meter na cama e Thad ainda estava embrenhado a preparar Wendy.

Apesar de todos os livros afirmarem que a função de pai era uma capacidade inata que nada tinha a ver com o sexo do progenitor, Liz tinha c as suas d£vidas. Thad dava o seu melhor; era, com efeito, escrupuloso quanto a fazer a sua parte, mas era lento. Era verdade que conseguia ir e vir ao supermercado numa tarde de domingo no mesmo espaço de tempo que ela levava a conseguir abrir caminho até … £ltima prateleira, mas quando se tratava de arranjar os gémeos para os levar para a cama, bem... William j estava lavado, com fralda nova, enfiado no seu babygrow verde, e sentado no parque, enquanto Thad ainda se encontrava em redor das fraldas de Wendy (e não tirara todo o champ“ da sua cabecinha, como Liz podia ver, mas tendo em conta tudo aquilo por que tinham passado durante o dia, achava que, mais tarde, ela própria a limparia com uma toalha e não diria nada).

Liz atravessou a sala de estar e chegou … porta da frente, onde olhou para fora, pela janela lateral. L fora, viu o xerife Pangborn. Desta vez, encontrava-se sozinho, mas iso só não aliviou em muito a sua aflição.

Virou a cabeça e lançou um grito que atravessou a sala de estar e foi ouvido na casa de banho do andar de baixo, que era também utilizada para lavar e vestir os bebés:

- Ele voltou !

A voz de Liz transmitia um tom de alarme claramente discernível.

Após uma longa pausa, Thad apareceu … porta, no lado mais afastado da sala de estar. Estava descalço e vestia umas calças de ganga e uma Tshirt branca.

- Quem? - perguntou ele numa voz estranha e lenta.

- Pangborn - respondeu ela. - Thad, est s bem? - Wendy estava nos seus braços, usando apenas uma fralda e nada mais, com as mãos a taparem praticamente todo o rosto dele... ainda assim, o pouco que Liz conseguia vislumbrar não lhe agradou.

- Estou óptimo. Deixa-o entrar. Vou só enfiar um babygrow na mi£da. - E antes que Liz pudesse acrescentar mais qualquer coisa, Thad partiu abruptamente.

Entretanto, Alan Pangborn continuava … espera no alpendre. Vira Liz a espreitar pela janela e não tornara a tocar … campainha. Tinha o ar de um homem que desejava estar a usar um chapéu para, assim, poder segur -lo entre as mãos, e talvez até torcê-lo um bocado.

Lentamente, e sem qualquer espécie de sorriso de boas-vindas, Liz libertou a corrente e deixou-o entrar.

2

Wendy mexia-se muito e fazia muitas brincadeiras, o que tornava difícil arranj -la. Thad conseguiu enfiar os pezinhos pelo babygrow, depois os braços e, por fim, foi capaz de puxar as mãozinhas pelas mangas. No mesmo instante, o bebé esticou uma das mãos e, com vivacidade, tentou tocar no nariz do pai. Em vez de rir como era seu h bito, Thad afastou o rosto, tendo Wendy olhado para ele da mesa de resguardo com um ar ligeiramente espantado.

Quando ia a puxar o fecho que atravessava o babygrow da perna esquerda … garganta, Thad estacou subitamente, esticando as mãos … sua frente. Estavam a tremer. Era um estremecimento ligeiro, mas, ainda assim, perceptível.

"Mas por que raio é que est s assustado? Ou ser que est s outra vez a sentir-te culpabilizado? Não; culpabilizado, não. Ele quase que desejava estar.

O facto era que acabara de apanhar um outro susto num dia que fora repleto deles.

Primeiro viera a Polícia, com a sua acusação peculiar e a sua certeza ainda mais peculiar. De seguida, aquele chilrear estranho e persecutório. Apesar de Lhe ser familiar, Thad não soubera dizer do que se tratava, pelo menos com toda a certeza.

Depois do jantar, surgira de novo.

Thad subira até ao escritório para rever aquilo que fizera durante o dia no novo livro, O Cão Dourado. E, subitamente, quando se encontrava debruçado sobre o maço de papéis manuscritos para proceder a uma pequena correcção, o som encheu a sua cabeça. Milhares de p ssaros, todos a chilrearem e a piarem ao mesmo tempo. Só que, desta vez, uma imagem acompanhou o som.

Pardais.

Milhares e milhares deles, alinhados ao longo dos telhados e acotovelando-se uns aos outros para conseguirem um lugar sobre os fios de telefone, tal como faziam no início da Primavera, quando as £ltimas neves de Março ainda cobriam o solo em montinhos sujos cristalizados.

"Oh, a dor de cabeça est a voltar", pensou Thad desanimado, e a voz com que aquele pensamento falou - a voz de um rapaz assustado - introduziu uma nota de familiaridade na memória. O sentimento de terror subiu-lhe pela garganta e pareceu apertar as frontes com mãos geladas.

"Ser o tumor? Ser que voltou de novo? Ser que é maligno desta vez"? De um momento para o outro, o som fantasmagórico - os chilreios dos p ssaros - aumentou de volume, tornando-se quase ensurdecedor. Foi acompanhado por um ténue e tenebroso bater de asas. Neste momento, Thad conseguia vê-los a levantar voo, todos ao mesmo tempo: milhares de passarinhos enegrecendo um céu primaveril imaculado.

- Vou voltar para o norte, velha carcaça - ouviu-se a si mesmo a dizer numa voz baixa e gutural, uma voz que não era a sua.

Foi então que, repentinamente, a visão e o som dos p ssaros desapareceu. Est vamos em 1988, não em 1960, e Thad encontrava-se no seu escritório. Era um homem adulto com uma mulher, dois filhos, e uma m quina de escrever Remington.

Nessa altura, respirou fundo e de modo entrecortado.

Afinal de contas, não se seguira qualquer dor de cabeça.

Nem então e nem agora. Sentia-se bem. Só que...

Só que, quando olhou de novo para o maço de papéis manuscritos, viu que escrevera algo, que cortava na diagonal as linhas direitas em grandes letras mai£sculas.

"OS PARDAIS ESTãO A VOAR DE NOVO", escrevera ele.

Thad pusera a caneta Scripto de lado e utilizara um dos l pis Berol Black Beauty para escrever, embora não se lembrasse de alguma vez ter trocado a primeira pelo segundo.

J nem sequer usava mais os l pis. Os Berols pertenciam a uma época passada... a uma época sombria. Thad atirou o l pis que utilizara para dentro do frasco e, de seguida, enfiou tudo aquilo numa das gavetas. A mão que utilizara para assim proceder não estava propriamente firme.

Foi então que Liz o chamara para a ajudar a arranjar os gémeos para a cama, e ele descera para Lhe dar uma mão.

Era seu desejo contar-lhe o que acontecera, mas verificou que um puro sentimento de terror - terror de que o tumor de infƒncia tivesse voltado, terror de que, desta vez, fosse maligno - Lhe selara os l bios. Ainda assim, poderia ter-Lhe contado... mas foi então que a campainha da porta tocara, que Liz a fora atender, e que dissera precisamente a coisa errada no tom precisamente errado.

"Ele voltou!", gritara Liz, num tom irritado e desnorteado, perfeitamente compreenssível, e Thad foi perpassado por uma onda de terror, como uma rajada de vento fria e transparente. Terror, e uma só palavra: Stark. No segundo antes de voltar … realidade, Thad teve a certeza de que era a ele que Liz se referira. George Stark. Os pardais estavam a voar e Stark regressara. Estava morto, morto e publicamente enterrado; na verdade, nunca chegara sequer a existir. Mas isso não importava: real ou não, ele estava na mesma de volta.

"P ra com isso", disse para si próprio. "Nunca foste um homem nervoso e não h necessidade alguma para deixares que esta situação bizarra te transforme num". O som que ouviste - o som dos p ssaros - é um simples fenómeno psicológico chamado "persistência da memória". causado por stress e pressão. Por isso, controla-te. Mas uma parte desse sentimento de terror deixou-se ficar.

O som dos p ssaros não provocara apenas uma sensação de déj… v£l, ou seja, aquela sensação de j ter vivido algo de semelhante antes, mas também uma sensação de presque VU.

"Tretas fora do lugar, isso é que é". Thad esticou as mãos e olhou fixamente para elas. As tremuras tornaram-se praticamente imperceptíveis, acabando por desaparecer por completo. Quando teve a certeza de que não iria prender a pele rosadinha e lavada de Wendy no fecho do babygrow, puxou-o para cima, levou-a para a sala de estar, colocou-a no parque junto ao irmão e, de seguida, encaminhou-se para o trio de entrada, onde Liz se encontrava com Alan Pangborn. Exceptuando o facto de, desta vez, Pangborn estar sozinho, podia perfeitamente ser outra vez o encontro dessa manhã.

"Agora, esta é a altura e o local indicados para um pouco de VU de um género ou de outro", pensou ele, embora não tivesse graça nenhuma. Aquele outro sentimento ainda se encontrava dentro dele... bem como o ruído dos pardais.

- Em que Lhe posso ser £til, xerife? - perguntou ele, sem sorrir.

Ah! Havia ainda uma outra coisa que não era igual. Numa das mãos, Pangborn trazia uma embalagem de seis cervejas.

Tendo-a levantado, perguntou:

- Ser que podemos tomar uma bem fresquinha e falarmos sobre o assunto?

Tanto Liz como Alan Pangborn tomaram uma cerveja;

Thad bebe uma Pepsi que foi buscar ao frigorífico. Enquanto conversavam, observavam os gémeos a brincar um com o outro no seu modo peculiarmente solene.

- Não deveria ter vindo até aqui - afirmou Alan. - Estou a conviver com um homem que, neste momento, é suspeito, não de um mas de dois assassínios.

- Dois! - exclamou Liz.

- J falarei disso. Com efeito, falarei de tudo. Acho que vou deitar tudo c para fora. Para j , tenho a certeza de que o seu marido tem igualmente um libi para este segundo assassínio. E os polícias estaduais também têm essa certeza. Sem fazerem um grande alarido, andam …s voltas com esta história.

- Quem foi morto? - perguntou Thad.

- Um jovem chamado Frederick Clawson, em Washington D.

C. - Pangborn viu quando Liz se deixou cair na cadeira, entornando um pouco de cerveja nas costas da mão. - Vejo que conhece o nome, senhora Beaumont - acrescentou ele, sem uma ponta de ironia perceptível.

- Que é que se est a passar? - inquiriu ela, num sussurro desmaiado.

- Não faço a mais pequena ideia do que se est a passar.

Estou a dar em maluco a tentar descortinar tudo isto.

Não estou aqui para o prender ou até mesmo para o incomodar, senhor Beaumont, apesar de continuar a dar tratos … minha imaginação para ver se consigo entender como é que uma outra pessoa podia ter cometido estes dois crimes.

Estou aqui para pedir a sua ajuda.

- Porque é que não me chama simplesmente Thad?

No seu lugar, Alan mexeu-se constrangido.

- Penso que, para j , me sentirei mais confort vel com "senhor Beaumont.

Thad acenou a cabeça.

- Como desejar. Então, Clawson morreu.

Por um instante, Thad olhou para o chão, pensativo e, de seguida, ergueu de novo o olhar para Alan.

- As minhas impressões digitais estavam igualmente espalhadas pelo local onde o crime foi cometido?

- Sim, e sob mais formas do que apenas uma.

Recentemente, a revista People escreveu um artigo sobre o senhor, não foi senhor Beaumont?

- H duas semanas - concordou Thad.

- O artigo foi encontrado no apartamento de Clawson.

Parece que uma das p ginas foi utilizada como símbolo naquilo que se assemelha a um assassínio altamente ritualizado.

- Meu Deus - afirmou Liz, soando tanto cansada como aterrorizada.

- Ser que est disposto a contar-me o tipo de relação que mantinha com este homem? - inquiriu Alan.

Thad acenou a cabeça.

- Não existe razão alguma para não o fazer. Por acaso leu aquele artigo, xerife?

- A minha mulher costuma comprar a revista no supermercado e trazê-la para casa - respondeu ele - mas vale mais a pena dizer-lhe a verdade: só olhei para as fotografias.

Tinha a intenção de tornar a pegar nela e ler o artigo o mais brevemente possível.

- Também não perdeu muito. Contudo, Frederick Clawson foi a razão pela qual aquele artigo aconteceu. Sabe... Alan ergueu uma mão.

- J l iremos a ele, mas antes disso voltemos a Homer Gamache. Torn mos a verificar junto da I. & R. S. E. As impressões digitais deixadas na pick-up do Homer (e no apartamento de Clawson também, apesar de nenhuma delas ser tão perfeita como as marcas na pastilha el stica e no espelho) parecem condizer exactamente com as suas. O que significa que, se não foi o senhor, temos duas pessoas com as mesmas impressões digitais, e isso tem de ir para o Livro dos Recordes do Gainness.

Alan olhou para William e Wendy, que estavam a tentar brincar … sardinha um com o outro no parque. Pareciam estar, antes de mais, a p“r em perigo a vista de um e do outro.

- São idênticos? - perguntou ele.

- Não - respondeu Liz. - Apesar de serem realmente parecidos, são irmão e irmã. E os gémeos de sexo diferente nunca são idênticos.

Alan acenou a cabeça.

- Nem mesmo os gémeos idênticos têm impressões digitais idênticas - disse. Depois de uma pausa momentƒnea, acrescentou numa voz casual que Thad pensou ser absolutamente falsa: - Por acaso não tem um irmão gémeo, o senhor Beaumont?

Lentamente, Thad abanou a cabeça.

- Não - replicou ele. - Não tenho quaisquer irmãos e os meus pais j morreram. William e Wendy são os meus £nicos familiares de sangue vivos. - Thad lançou um sorriso para as crianças e tornou a olhar de novo para Pangborn: - Liz teve um aborto em mil novecentos e setenta e quatro - afirmou. - Pelo que sei, aqueles... aqueles primeiros... também eram gémeos, embora suponha que não exista qualquer forma de provar se seriam idênticos. Não quando o aborto ocorre no terceiro mês de gravidez.

E mesmo se houvesse, quem é que quereria saber?

Alan encolheu os ombros, parecendo um pouco constrangido.

- Liz estava a fazer compras no Filene's. Em Bóston.

Alguém a empurrou. Caiu pelas escadas rolantes abaixo, fez um corte muito feio num dos braços (se um segurança não estivesse l e não tivesse estancado a hemorragia logo naquela altura com um torniquete, também ela teria batido as botas) e perdeu os gémeos.

- Isso vem no artigo da People? - perguntou Alan.

De um modo sensaborão, Liz sorriu e abanou a cabeça:

- Quando concord mos em fazer a história, xerife Pangborn, reserv mo-nos o direito de corrigir as nossas vidas.

Como é óbvio, não dissemos nada a Mike Donaldson, o homem que veio fazer a entrevista, mas foi isso que fizemos.

- O empurrão foi deliberado?

- Não h maneira de saber - replicou Liz. Os olhos dela poisaram em William e Wendy... envolvendo-os. - No entanto, se foi um encontrão acidental, foi um raio de um encontrão muito forte. Eu literalmente voei: só toquei nas escadas rolantes quando j estava a meio do caminho. Apesar de tudo, tentei convencer-me a mim própria que foi isso que se passou. • mais f cil aceitar assim. A ideia de que alguém empurrasse uma mulher por umas escadas rolantes abaixo só para ver o que acontecia... é uma ideia que, certamente, não deixa ninguém dormir em paz.

Alan acenou a cabeça.

- Os médicos que consult mos disseram que, provavelmente, Liz nunca mais poderia voltar a ter filhos - disse Thad. - Quando engravidou de William e Wendy disseram-nos que talvez não fosse conseguir levar a gravidez a bom termo. Mas Liz singrou. E, após dez anos, consegui finalmente começar a escrever um livro novo sob o meu próprio nome. Vai ser o meu terceiro. Portanto, como o senhor pode ver, tem sido bom para nós os dois.

- O outro nome sob o qual escreveu foi George Stark.

Thad acenou a cabeça:

- Mas isso agora est acabado. O princípio do fim foi quando Liz entrou no oitavo mês da gravidez, ainda sã e salva. Decidi que, j que ia ser pai de novo, deveria também começar a ser eu de novo.

4

Sobreveio, então, uma espécie de compasso de espera na conversa - não foi exactamente uma pausa. De seguida, Thad afirmou:

- Confesse, xerife Pangborn.

Alan arqueou as sobrancelhas.

- Desculpe?

Um sorriso tocou os cantos da boca de Thad.

- Não digo que o senhor tivesse o cen rio todo arquitectado mas aposto que o tinha, pelo menos, em traços largos. Se eu tivesse um gémeo idêntico, talvez tivesse sido ele o anfitrião da nossa festa. Assim, eu podia ter estado em Castle Rock, morto Homer Gamache e deixado as minhas impressões digitais espalhadas pela carrinha. Mas não podia parar por aí, pois não? O meu gémeo dorme com a minha mulher e assegura os meus compromissos enquanto conduzo a pick-up de Homer até …quela estação de serviço no Connecticut, roubo um outro carro, dirijo-me para Nova Iorque, abandono o carro roubado e, depois, apanho um comboio ou um avião para Washington D. C. Uma vez aí, apago o Clawson e apresso-me a voltar para Ludlow, mando o meu irmão gémeo de volta para onde estava, e tanto e eu como ele retomamos o fio da nossa vida. Ou nós os três, = se admitir que aqui a Liz fazia parte da trapaça.

E Por um instante, Liz fitou-o e, de seguida, começou a rir.

Não riu por muito tempo mas, enquanto o fez, riu de uma forma bastante intensa. Não havia nada de forçado nesse riso, mas, ainda assim, era um riso relutante: uma expressão de humor por parte de uma mulher que fora apanhada desprevenida.

Alan olhava para Thad, franca e abertamente surpreendido.

Por um instante, os gémeos riram para a mãe - ou talvez com ela - tendo, de seguida, retomado a brincadeira de atirarem lentamente para tr s e para a frente uma grande bola amarela no parque.

- Thad, isso é horrível - afirmou Liz, depois de ter ganho o domínio sobre si mesma.

- Talvez até seja - respondeu ele. - Se assim for, peço desculpa.

-... bastante envolvente - disse Alan.

Thad lançou-lhe um sorriso:

- Presumo que não seja um fã do falecido George Stark.

- Francamente, não. Mas tenho um ajudante, Norris Ridgewick, que o é. Ele teve de me explicar qual a razão de tanto alarido.

- Bem, Stark mexeu com algumas das convenções das histórias de mistério. Nada tão tipicamente Agatha Christie como o cen rio que acabei de sugerir, mas isso não significa que não possa pensar desse modo se me decidir a isso. V l , xerife, ser que estas ideias nunca Lhe passaram pela cabeça, ou j ? Se a resposta for negativa, devo realmente uma desculpa … minha mulher.

Por um instante, Alan quedou-se silencioso, com um ligeiro sorriso a aflorar-lhe os l bios e visivelmente concentrado. Por fim, disse:

- Talvez tivesse pensado nesses termos. Nada de muito sério e não apenas dessa forma, mas não h necessidade alguma de pedir desculpa … sua bela esposa. Desde esta manhã, tenho dado por mim inclinado a considerar até as possibilidades mais incríveis.

- Dada a situação.

- Dada a situação, sim.

Thad afirmou com um sorriso:

- Nasci em Bergenfield, Nova Jérsia, xerife. Não tem de acreditar na minha palavra quando pode consultar os registos para verificar se tenho algum irmão gémeo que eu possa ter, sabe, esquecido.

Alan abanou a cabeça e bebeu um pouco mais da cerveJa.

- Foi uma ideia sem pés nem cabeça, e sinto-me um idiota chapado, embora isso não seja nada de novo. Sinto-me assim desde esta manhã, quando nos atirou com aquela da festa. A propósito, interrog mos os nomes dados. Eles confirmam.

- Claro que sim - disse Liz com uma ponta de rispidez.

- E dado que, de qualquer modo, o senhor não tem qualquer irmão gémeo, o assunto fica encerrado.

- Suponha por um segundo - disse Thad - apenas como advogado do Diabo, que realmente aconteceu da forma como sugeri. Ia ser o raio de uma grande patranha... até certo ponto.

- Que ponto é esse? - inquiriu Alan.

- As impressões digitais. Porque é que eu me daria ao trabalho de arranjar um libi aqui com um tipo que era igualzinho a mim... e, depois, estragar tudo deixando impressões digitais nas cenas dos dois crimes?

Liz disse:

- Aposto que o senhor vai mesmo verificar os registos de nascimentos, não vai, xerife?

Alan respondeu de modo formal:

- A base do procedimento policial é tentar até achar. Mas eu j sei o que irei encontrar se o fizer. - Após uma hesitação, acrescentou: - Não foi apenas a festa. O senhor apareceu como um homem que estava a dizer a verdade, senhor Beaumont. J tenho alguma experiência para conseguir fazer a distinção. Pelos meus conhecimentos enquanto fui agente de polícia, são muito poucos os bons mentirosos que existem no mundo. Podem aparecer de tempos a tempos naqueles romances de mistério de que est a falar, mas, na vida real, são muito raros.

- Então, como é que se justificam as impressões digitais? - inquiriu Thad. - Isso é que me interessa. Ser que est … procura de um amador com as minhas impressões?

Duvido. J Lhe passou pela cabeça de que a própria qualidade das impressões possa ser suspeita? O senhor falou de zonas cinzentas. Em resultado das investigações que levei a cabo para os romances do Stark, sei alguma coisa sobre impressões digitais, só que sou realmente preguiçoso quando se trata de fazer esse trabalho: é muito mais f cil ficar apenas sentado … frente da m quina de escrever e inventar mentiras. Não têm de existir uma série de pontos de comparação antes se as impressões digitais puderem sequer ser consideradas provas?

- No Maine são seis - afirmou Alan. - Para uma impressão digital ser aceite como prova, têm de se verificar seis comparações perfeitas.

- E não é também verdade que, na maioria dos casos as impressões digitais são apenas metades de impressões ou quartos de impressões, ou apenas manchas esborratadas com algumas voltas e espirais no interior?

- Sim. Na vida real, só muito raramente é que os criminosos vão parar … cadeia com base na prova das impressões digitais.

- Ainda assim, neste caso, vocês têm uma no espelho retrovisor que o senhor descreveu como sendo tão boa como qualquer impressão tirada numa esquadra de polícia, e uma outra, nada mais nada menos do que gravada numa bola de pastilha. Por alguma razão, essa é a que realmente me intriga. como se as impressões digitais tivessem sido postas l para que vocês as encontrassem.

- Isso j nos passou pela cabeça - confessou Alan. De facto, j fizera bastante mais do que isso. Este era um dos aspectos mais exasperantes do caso. O assassínio de Clawson assemelhava-se a uma cl ssica execução de um fala-barato por parte de um gang: língua cortada, pénis na boca da vítima, muito sangue, muita dor e, no entanto.

ninguém no prédio ouvira o que quer que fosse. Mas. se fosse um trabalho profissional, por que carga de gua é que as impressões digitais de Beaumont estavam espalhadas por todo o lado? Podia uma coisa que se assemelhava tanto a uma cilada não ser uma cilada? Não, a não ser que alguém tivesse inventado um truque novo. Entretanto, Alan Pangborn continuava fiel … velha m xima: se anda como um pato, grasna como um pato e nada como um pato, é provavelmente um pato.

- As impressões digitais podem ser forjadas? - perguntou Thad.

- Ser que, além de escrever livros, lê mentes, senhor Beaumont?

- Leio mentes, escrevo livros, mas, querido, não lavo janelas.

Alan tinha a boca cheia de cerveja e o riso surpreendeu-o de tal forma que praticamente a despejou por cima do tapete. Conseguiu engolir, apesar de algum resto ter descido pela traqueia, tendo começado a tossir. Liz levantou-se e deu-lhe algumas palmadinhas enérgicas nas costas por diversas vezes. Era, provavelmente, uma coisa peculiar de se fazer, mas, na sua opinião, não era assim; a vida com dois bebés pequenos tinha-a condicionado. Do parque, William e Wendy ficaram a observar, a bola amarela parada e esquecida no meio deles. William começou a rir e Wendy aproveitou a deixa.

Por alguma razão, isto levou Alan a rir ainda mais.

Thad acompanhou-o. E, ainda a bater-lhe nas costas, Liz começou igualmente a rir.

- Estou bem - disse Alan, ainda a tossir e a rir.

- A sério.

Liz deu-lhe uma ultima pancada nas costas. Como um géiser a soltar vapor, um jacto de cerveja saiu do gargalo da garrafa de Alan, tendo acabado por salpicar a braguilha das calças.

- Não h problema - disse Thad. - Temos fraldas.

E aí recomeçaram todos a rir e, algures no espaço de tempo que decorreu entre o momento em que Alan Pangborn começou a tossir e o instante em que conseguiu finalmente parar de rir, os três tinham-se tornado, pelo menos, amigos tempor rios.

5

- Tanto quanto sei ou que, pelo menos, fui capaz de descobrir, as impressões digitais não podem ser forjadas - replicou Alan, retomando o fio da conversa algum tempo depois. Neste momento, encontravam-se na segunda rodada, e a mancha embaraçosa na braguilha das calças começara a secar. Os gémeos tinham adormecido no parque e Liz saíra da sala para ir … casa de banho. - Claro que ainda estamos a verificar porque até esta manhã não tínhamos razão alguma para suspeitar que, neste caso, uma coisa como essa pudesse sequer ter sido tentada. Sei que j foi tentado. H alguns anos, um raptor tirou as impressões das marcas dos dedos do seu prisioneiro antes de o matar, transformou as impressões em... sim, suponho que as chamariam moldes... e imprimiu-as num pl stico fininho. Colocou as impressões digitais de pl stico sobre as pontas dos próprios dedos e tentou deixar as impressões espalhadas por toda a cabana de montanha da vítima, de forma a que a Polícia pensasse que todo o rapto não passava de um embuste e de que o tipo estava livre.

- Não funcionou?

- Os polícias conseguiram umas impressões espantosas - respondeu Alan. - As do criminoso. A gordura natural nos dedos do tipo apagou as impressões digitais falsas e como o pl stico era fino e, naturalmente receptivo até …s formas mais delicadas, deixou marcadas de novo as próprias impressões do tipo.

- Talvez um material diferente...

- Claro, talvez. Isto aconteceu em meados dos anos cinquenta e posso imaginar as centenas de tipos novos de pl stico polímero que foram inventados desde então. Pode ser. Para j , tudo o que podemos dizer é que ninguém na medicina legal ou na criminologia ouviu alguma vez falar disso, e penso que seja assim que ir continuar.

Liz voltou para a sala e sentou-se, enroscando os pés debaixo de si própria como um gato e puxando a saia sobre a barriga das pernas. Thad admirou o gesto que, de alguma forma, Lhe pareceu um pouco intemporal e eternamente gracioso.

- Entretanto, h outros pontos a tomar em consideração, Thad.

Tad e Liz trocaram entre si um olhar de relance, pois Alan utilizara o primeiro nome e de uma forma tão imediata que o próprio Alan nem reparara. Do bolso do lado, tirara um bloco de notas usado e estava a olhar para uma das p ginas.

- Fuma? - perguntou ele, olhando para cima.

- Não.

- Deixou de fumar h sete anos - afirmou Liz. - Custou-lhe muito mas l se aguentou.

- H críticos que dizem que o mundo seria um lugar melhor se me limitasse a escolher um lugar e aí morresse, mas eu prefiro contrari -los - disse Thad. - Porquê?

- No entanto, fumou.

- Sim.

- Pall Malls?

Thad levantara a lata de gasosa. Contudo, interrompeu o movimento a cerca de três dedos da boca.

- Como é que sabe?

- O seu tipo de sangue é A negativo?

- J começo a entender porque é que esta manhã veio tão lançado para me prender - disse Thad. - Se eu não tivesse um libi tão bom, estaria neste exacto momento na prisão, não era?

- Boa pontaria.

- O senhor podia ter conseguido arranjar o tipo de sangue de Thad nos registos do exército - afirmou Liz. - Suponho que foi daí que as impressões digitais dele começaram por vir em primeiro lugar.

- Mas não fumei cigarros Pall Malls durante quinze anos - replicou Thad. - Pelo que sei, coisas como estas não fazem parte dos registos que o exército conserva.

- São coisas que têm vindo a chegar desde esta manhã - contou-lhes Alan. - O cinzeiro na pick-up de Homer Gamache estava repleto de beatas de cigarros Pall Malls.

O velhote só fumava cachimbo e muito de vez em quando.

Foram também encontradas duas beatas de Pall Malls num cinzeiro no apartamento de Frederick Clawson. Este nem sequer fumava, excepto talvez um charro de tempos a tempos.

Isto de acordo com a sua senhoria. Conseguimos o tipo de sangue do nosso criminoso através da saliva nas beatas. O relatório do serologista forneceu-nos também muitas outras informações. Melhores do que as impressões digitais.

Thad deixara de sorrir.

- Não consigo compreender isto. Não consigo compreender mesmo nada disto.

- H só uma coisa que não condiz - disse Pangborn. - Cabelos louros. Encontr mos uma meia duzia na carrinha do Homer e outros tantos nas costas da cadeira em que o assassino se sentou na sala de estar do Clawson. O seu cabelo é preto. Seja como for, não me parece que esteja a usar uma peruca.

- Não; Thad não, mas talvez o assassino estivesse - disse Liz de um modo frio.

- Talvez - concordou Alan. - Nesse caso, era feita de cabelo humano. E porquê dar-se ao trabalho de mudar a cor do cabelo se se vai deixar impressões digitais e beatas de cigarro por todo o lado? Ou este tipo é muito estupido ou estava deliberadamente a tentar incrimin -lo. De qualquer forma, o cabelo louro não bate certo.

- Talvez ele pura e simplesmente não quisesse ser reconhecido - opinou Liz. - Não nos podemos esquecer que Thad apareceu na People h menos de duas semanas. De uma costa … outra.

- Sim, isso é uma possibilidade. Contudo, se este tipo também se parece com o seu marido, senhora Beaumont.

- Muito bem, Liz. Se ele se parece com o seu marido ficaria como um Thad Beaumont de cabelo louro, não era?

Liz olhou fixamente para Thad por um instante, tendo de seguida, soltado umas risadinhas.

- Onde é que est a graça? - perguntou Thad.

- Estou a tentar imaginar-te louro - respondeu ela, ainda a rir-se. - Penso que ficarias parecido com um David Bowie muito depravado.

- E isso tem alguma graça? - perguntou Thad a Alan.

- Não me parece que tenha graça nenhuma.

- Bem... - disse Alan, a sorrir.

- Não importa. Tanto quanto sabemos, o tipo até podia estar a usar óculos-de-sol, um chapéu com umas antenas e ainda uma peruca loura.

- Não se o assassino era o mesmo tipo que a senhora Arsenault disse ter visto a entrar para a carrinha do Homer a um quarto para a uma da madrugada de um de Junho - replicou Alan.

- Parecia-se comigo? - perguntou Thad, inclinando-se para a frente.

- Ela não nos adiantou grande coisa, excepto que ele estava a usar um fato. Se é que vale de alguma coisa, um dos meus homens, Norris Ridgewick, mostrou-lhe hoje uma fotografia sua. Ela disse que não achava que fosse a mesma pessoa, embora não pudesse ter certeza absoluta.

Disse ainda que estava convencida que o homem que entrara para a pick-up do Homer era maior. - E acrescentou secamente: - Eis aqui uma senhora que prefere errar por precaução.

- Ela conseguiu ver que os dois tinham tamanhos diferentes a partir de uma fotografia? - inquiriu Liz de forma duvidosa.

- Ela j viu Thad pela vila durante o Verão - respondeu Alan. - E realmente disse que não podia ter a certeza.

Liz acenou a cabeça:

- • claro que ela o conhece. Tanto quanto sei, conhece-nos aos dois. Estamos sempre a comprar legumes frescos na banca que ela tem. Que estupida. Peço desculpa.

- Não h necessidade alguma de pedir desculpa - afirmou Alan. Depois de acabar de beber a cerveja, olhou para a braguilha. Seca. Ainda bem. Era possível ver-se uma pequena mancha que, provavelmente, só a sua mulher é que repararia. - De qualquer modo, isso leva-me ao ultimo ponto... ou aspecto... ou o que quer que se queira chamar.

Duvido que tenha sequer alguma coisa a ver com isto tudo, mas não custa nada verificar. Quanto é que calça, senhor Beaumont?

Thad olhou de relance para Liz, que encolheu os ombros.

- Tenho umas patas bastante pequenas para um tipo que mede um metro e oitenta e cinco, acho eu. Calço quarenta e três, embora metade do tamanho para ambos os lados seja...

- As marcas dos sapatos que nos foram indicadas eram provavelmente maiores do que essas - retorquiu Alan. - De qualquer modo, não me parece que as marcas tenham alguma coisa a ver com isto e, mesmo que tenham, é sempre possível falsificar pegadas. Cola-se um jornal qualquer nas solas de um par de sapatos dois ou três n£meros acima e est feito.

- Que pegadas são essas? - perguntou Thad.

- Não interessa - respondeu Alan, abanando a cabeça - Nem sequer temos fotografias. Penso que temos sobre a mesa praticamente tudo aquilo que pertence a este caso, Thad. As suas impressões digitais, o tipo de sangue, a marca de cigarros...

- Ele não... - começou Liz.

Alan ergueu uma mão, apaziguador.

- Antiga marca de cigarros. Suponho que as pessoas achariam que eu era louco por Lhe dar a conhecer tudo isto (de qualquer modo, h uma parte de mim que diz que sou)

mas, j que cheg mos até aqui, não faz sentido ignorarmos a floresta enquanto olhamos para algumas rvores. O Thad est também ligado a isto de outro modo. Tal como Ludlow, Castle Rock é a sua residência legal, dado que paga impostos em ambos os locais. Homer Gamache era mais do que um mero conhecido; ele fazia... trabalhos espor dicos est correcto? ' - Sim - replicou Liz. - No ano em que compr mos a casa, ele deixou de trabalhar a tempo inteiro. Agora, Dave Philips e Charlie Fortin revezam-se nessa tarefa. No entanto, ele gostava de dar uma mãozinha de vez em quando - Se admitirmos que o homem da boleia visto pela senhora Arsenault matou Homer (e esta é a suposição que achamos correcta), coloca-se-nos uma questão. Ser que o homem da boleia matou o Homer porque ele foi a primeira pessoa a aparecer e foi suficientemente estupida (ou que estava suficientemente bêbeda) para Lhe dar boleia, ou ser que matou porque era Homer Gamache, um conhecido de Thad Beaumont?

- Como é que ele podia saber que Homer iria aparecer? - perguntou Liz.

- Porque era a noite de bouoling do Homer e o Homer é, era uma criatura de h bitos. Era como um cavalo velho, voltava sempre para o celeiro pela mesma estrada.

- A sua primeira suposição - disse Thad - foi que o Homer não parou porque estava bêbedo mas porque reconheceu o homem da boleia. Um estranho que quisesse matar o Homer não teria sequer tentado o truque da boleia.

Dessa forma, não teria hipótese alguma, se é que não seria mesmo uma causa perdida.

- Sim.

- Thad - disse Liz numa voz que não conseguia manter-se propriamente regular. - A Polícia achou que ele parou porque pensou que era Thad... não foi?

- Sim - replicou Thad, esticando a mão e segurando na dela. - Eles pensaram que só uma pessoa como eu, alguém que o conhecia, é que chegaria sequer a tentar esse truque. Até admito que o facto se ajuste. Que veste o escritor janota quando est a planear um assassínio no campo … uma da manhã? O velho blazer de tweed, est claro...

aquele com as cotoveleiras castanhas de camurça cosidas ao casaco. Todas as histórias policiais de origem britƒnica insistem que é absolutamente de rigueur. - Olhou para Alan: - É muito estranho, não é? Tudo isto.

Alan acenou a cabeça.

- É mais do que estranho. A senhora Arsenault afirma que ele começou a atravessar a estrada ou que, pelo menos, estava prestes a fazer isso, quando o Homer apareceu a guiar com lentidão a sua pick-up. Mas o facto de Thad também conhecer este Clawson em Washington D.C. faz tornar cada vez mais prov vel a hipótese de o Homer ter sido morto por ser quem era, e não apenas porque estava demasiado bêbedo e parou. Por isso, falemos sobre Frederick Clawson, Thad. Fale-me dele.

Thad e Liz entreolharam-se.

- Creio - disse Thad - que a minha mulher poder fazer esse trabalho de uma forma muito mais r pida e concisa do que eu. E creio que também dir menos palavrões do que eu.

- Tens a certeza que queres que seja eu a contar? - interrogou Liz.

Thad acenou a cabeça. Liz começou a falar, primeiro lentamente e, depois, aumentando de velocidade. Thad interrompeu-a uma ou duas vezes logo no início, tendo-se de seguida recostado, satisfeito por se encontrar apenas a ouvir.

Na meia hora que se seguiu, quase não abriu a boca.

Alan Pangborn tirou para fora o bloco de notas e escrevinhou algumas coisas, mas, após algumas questões iniciais, também não a interrompeu mais.