A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 18 de 26

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A Metade Sombria

Stark Toma o Comando

Vinte e Um

STARK TOMA O COMANDO

Stark não teve qualquer dificuldade em planear aquilo que pretendia fazer e a forma como o pretendia fazer, apesar de, na verdade, nunca ter estado em Ludlow em toda a sua vida.

Nos seus sonhos, Stark estivera l as vezes suficientes.

Tirou da estrada o vulgar Honda Civic roubado, tendo entrado para uma rea de descanso a dois quilómetros e meio de distƒncia estrada abaixo da casa dos Beaumont.

Thad fora até … universidade, o que era bom. Por vezes, era-lhe impossível dizer aquilo que Thad estava a fazer ou a pensar, embora, se se esforçasse, conseguisse quase sempre captar o tom das suas emoções.

Se verificasse ser muito difícil entrar em contacto com Thad, bastava a Stark começar por segurar num dos l pis Berol que comprara na papelaria da Houston Street. Isso ajudava.

Hoje, seria f cil. Seria f cil porque, independentemente daquilo que Thad pudesse ter contado aos seus cães de guarda, ele fora até … universidade por uma £nica razão: porque estava em cima do prazo e imaginava que Stark tentaria entrar em contacto com ele. Stark tencionava fazer precisamente isso.

Tencionava, sim.

Só que não planeou fazê-lo da forma que Thad estava … espera. E certamente não a partir de um local de que Thad estivesse … espera.

Era quase meio-dia. Podiam ver-se algumas pessoas a fazerem piqueniqões na rea de descanso, embora estivessem sentadas em mesas montadas na relva ou reunidas em redor dos pequenos fogareiros de pedra para os churrascos ao pé do rio. Ninguém olhou para Stark quando este saiu do Civic e se afastou. Isso era óptimo porque se as pessoas o tivessem visto, tê-lo-iam certamente fixado.

Ao atravessar a estrada de asfalto e, de seguida, p“r-se a caminho, a pé, estrada acima, em direcção … casa dos Beaumont, Stark assemelhava-se muito ao homem invisível de H. G. Wellsl. Uma larga faixa de ligadura cobria toda a testa, das sobrancelhas ao contorno do couro cabeludo.

Uma outra faixa cobria o queixo e o maxilar inferior. Um boné de beisebol dos New York Yankees fora enfiado pela cabeça abaixo. Usava óculos de sol, um colete axadrezado, e luvas pretas nas mãos.

As ligaduras estavam manchadas com uma substƒncia amarelada e pegajosa que passava lenta e continuamente através da gaze de algodão como l grimas viscosas. Essa mesma substƒncia amarela gotejava por detr s dos óculos de sol Foster Grant. De tempos a tempos, com as luvas, que eram uma imitação barata de pele, Stark limpava a porcaria do rosto. Os dedos e as palmas destas luvas estavam peganhentas por causa da substƒncia ressequida. Por debaixo das ligaduras, uma grande parte da pele caíra.

Aquilo que se mantinha não era exactamente carne humana"

tratava-se, sim, de uma substƒncia escura e esponjosa que estava quase sempre a exsudar. Essa substƒncia parecia-se com pus, embora tivesse um cheiro desagrad vel e intenso: como uma combinação de café forte e de tinta-da-china.

Stark caminhou com a cabeça ligeiramente inclinada para a frente. Os ocupantes dos poucos carros que vieram na sua direcção viram um homem com um boné de beisebol, de cabeça inclinada para baixo para se proteger da luz do Sol e com as mãos enfiadas nos bolsos. A sombra da pala do boné afastaria todos menos os olhares mais insistentes.

No entanto, se as pessoas olhassem com mais atenção, apenas teriam visto as ligaduras. Como é evidente, os carros que vinham por detr s e passavam por ele em direcção a norte apenas logravam uma boa visão das suas costas.

Mais próximo das cidades geminadas de Bangor e Brewer, este passeio teria sido um pouco mais difícil. Mais próximo, tínhamos os sub£rbios e os projectos de habitação social. A zona de Ludlow onde se situava a casa dos Beaumont estava bastante afastada, no meio do campo! podendo ainda ser qualificada de comunidade rural - não se estava no meio de nenhures mas também não era uma zona que, de forma alguma, fizesse parte das grandes vilas. As casas tinham sido edificadas em lotes sufícientemente grandes que, em alguns casos, podiam ser denominados de campos. Não se encontravam separadas umas das outras por sebes, o típico exemplo da privacidade suburbana, mas por estreitas faixas de rvores e, por vezes, de sinuosos muros de pedras. Aqui e ali, antenas parabólicas assomavam impiedosamente no horizonte, assemelhando-se …s posições avançadas de alguma invasão de extraterrestres.

Stark caminhou ao longo da berma da estrada até ultrapassar a casa dos Clark. A seguinte era a de Thad.

Atravessou o p tio da frente dos Clark no seu canto mais afastado, p tio este mais coberto de ervas selvagens do que relva.

Olhou de relance para a casa. Os estores tinham sido puxados para baixo, por causa do calor, e a porta da garagem estava bem fechada. A casa dos Clark não parecia ter o ar das casas vazias a meio da manhã" tinha o ar abandonado das casas que j estão vazias h bastante tempo. Apesar de não se ver nenhuma pilha de revistas de mexericos por dentro da porta de rede, Stark calculava que a família Clark tivesse, provavelmente, partido para umas férias de Verão adiantadas, o que para ele não podia ser melhor. Stark penetrou no renque de rvores que se erguiam entre as duas propriedades, galgou os vestígios esboroados de um muro de pedra e, de seguida, deixou-se cair sobre um joelho. Pela primeira vez, estava a olhar directamente para a casa do seu gémeo teimoso. Estacionado … entrada via-se um carro-patrulha, e os dois polícias que dele faziam parte encontravam-se … sombra da rvore mais próxima, a fumar, e a falar. óptimo.

Stark tinha aquilo de que precisava" o resto não passava de pormenores de somenos importƒncia. Ainda assim, deixou-se ali ficar mais um momento. Apesar de não ter de si próprio a ideia de um homem imaginativo - pelo menos não fora das p ginas dos livros em que tivera uma partícipação vital na sua criação - ou de um homem emotivo, Stark ficou um pouco surpreso com o fogo intenso de raiva e ressentimento que sentiu arder nas entranhas.

Com que direito é que aquele filho da mãe o recusava?

Com que maldito direito? Porque ele se tornara real em primeiro lugar? Porque, Stark não sabia como, porquê ou quando é que ele próprio se tornara real? Isso eram tretas.

No que dizia respeito a George Stark, a antiguidade não tinha valor nenhum. Não era sua obrigação deitar-se para o chão e morrer sem um £nico grito de protesto, tal como Thad Beaumont parecia pensar que ele devia fazer. Stark tinha uma obrigação para com ele próprio, ou seja, sobreviver.

E também não era só isso.

Tinha ainda de pensar nos seus fãs leais, não tinha?

Olhem para aquela casa. Olhem bem para ela. Uma espaçosa casa ao estilo colonial da Nova Inglaterra, faltando apenas uma ala para ser considerada uma mansão. Um grande relvado com aspersores girando afanosamente para o manter verde. Uma sebe de estacas de madeira colocada ao longo de um dos lados da reluzente entrada escura - o tipo de sebe que Stark imaginava dever ser "pitoresco".

Entre a casa e a garagem, havia uma passagem coberta - uma passagem coberta, pelo amor de Deus! E, no seu interior, a casa estava mobilada num encantador (ou talvez o designassem de gracioso) estilo colonial de forma a condizer com o exterior: uma comprida mesa de carvalho na sala de jantar, cómodas altas e bonitas nos quartos do andar de cima, e cadeiras que eram delicadas e agrad veis … vista ainda que não fossem afectadas" cadeiras que se podiam admirar e, ainda assim, atrevermo-nos a sentar nelas. Paredes que não estavam forradas a papel mas pintadas e, de seguida, enfeitadas com estêncil. Stark vira todas estas coisas, vira-as nos sonhos que Beaumont nem sequer soubera que estava a ter quando se encontrava a escrever como George Stark.

Repentinamente, Stark teve um ensejo de incendiar a encantadora casa branca até aos alicerces. Deitar-lhe um fósforo - ou talvez a chama do maçarico de propano que tinha no bolso do colete que trazia - e queim -la todinha, de uma ponta … outra. Mas não enquanto não tivesse entrado l dentro. Não enquanto não tivesse quebrado a mobília toda, cagado no tapete da sala de estar e espalhado os excrementos por aquelas paredes cuidadosamente enfeitadas com estêncil em manchas castanhas e grosseiras. Não enquanto não enfiasse um machado naquelas cómodas tão elegantes e as reduzisse a achas para a lareira. Com que direito é que Beaumont tinha filhos? E uma mulher bonita? Com que direito, exactamente, é que Thad Beaumont vivia na luz e era feliz enquanto o seu irmão obscuro - que o tornara rico e famoso quando, de outra forma, ele continuaria pobre e morreria na obscuridade - morria na escuridão como um vira-latas doente num beco?

Nenhum, est claro. Nenhum direito, mesmo. Só que Beaumont acreditara nesse direito e, apesar de tudo, continuava a acreditar. Mas a crença - a inexistência de George Stark de Oxford, Mississíp - era a ficção.

- Est na altura da tua primeira grande lição, camaradazinha - murmurou Stark nas rvores. Encontrou os alfinetes que seguravam a ligadura … volta da testa, tirou-os e enfiou-os no bolso para serem usados mais tarde. De seguida, começou a desenrolar a ligadura, cujas camadas surgiam cada vez mais h£midas … medida que se aproximavam da sua estranha carne. - E é uma de que nunca te ir s esquecer para o resto da tua vida. Isso garanto-te, maldito sejas.

2

Não passava de uma variação do esquema da bengala branca que utilizara com os polícias em Nova Iorque, mas para Stark isso não constituía problema algum. Ele acreditava piamente na ideia de que, se uma pessoa se saísse bem num truque, este deveria continuar a ser utilizado até cansar.

De qualquer modo, estes polícias não representavam qualquer problema, excepto no caso de se descuidar", h mais de uma semana que se encontravam a fazer este trabalho, com a confiança a aumentar todos os dias: a confiança de que o tipo maluco dissera a verdade quando afirmara que ia apenas p“r as ideias em dia e voltar para casa. Liz era a £nica carta fora do baralho: se, por acaso, ela olhasse l para fora, pela janela, enquanto ele matava os porcos, isso iria complicar as coisas. Mas ainda faltavam alguns minutos para o meio-dia: ela e os gémeos deviam estar a dormir uma sesta ou a prepararem-se para tal.

Independentemente da forma como tudo corresse, Stark estava confiante de que as coisas iriam dar certo.

Com efeito, ele tinha a certeza absoluta.

O amor encontraria um caminho.

3

Chatterton levantou a bota para esmagar a beata do cigarro - uma vez apagada, era sua intenção colocar a ponta do cigarro no cinzeiro do carro. A polícia do estado do Maine não sujava as entradas das casas dos contribuintes - e, quando ergueu o olhar, o homem com o rosto descamado estava l , a cambalear lentamente pela entrada acima.

Uma mão acenava lentamente para ele e para Jack Eddings, a pedir ajuda" a outra estava dobrada por detr s das costas e parecia estar partida.

Chatterton teve praticamente um ataque cardíaco.

- Jack! - gritou, e Eddings virou-se. Ficou boquiaberto.

- ... ajudem-me... - crocitava o homem do rosto descamado. Chatterton e Eddings correram na sua direcção.

Se tivessem sobrevivido, talvez pudessem ter contado aos colegas de trabalho que pensavam que o homem tivera um acidente de carro ou que fora queimado numa explosão repentina de g s ou querosene, ou ainda que talvez tivesse caído, com o rosto virado para a frente, numa daquelas m quinas agrícolas que, de vez em quando, resolvem agarrar e decepar os seus propriet rios com as laminas, os dentes ou os raios das rodas cruéis e giratórios. Talvez pudessem ter contado aos colegas de trabalho todas estas coisas, mas, naquele instante, não estavam verdadeiramente a pensar em nada. A sua mente tinha ficado totalmente vazia perante o horror. O lado esquerdo do rosto do homem parecia estar praticamente a ferver, como se, depois de a pele ter sido arrancada, alguém tivesse despejado uma forte solução de cido carbónico sobre a carne crua. Um líquido pegajoso e indescritível escorria pelos montículos de carne esponjosa e fluía por entre rachas escuras, por vezes vertendo para o chão sob a forma de medonhos jorros repentinos.

Eles não pensaram em nada" eles, pura e simplesmente reagiram.

Essa era a beleza do truque da bengala branca.

- ... ajudem-me...

Stark permitiu que os seus pés tropeçassem um no outro e caiu para a frente. Gritando alguma coisa incoerente para o parceiro, Chatterton avançou para a frente para segurar o homem ferido antes que este se estatelasse no solo. Stark alçou o braço direito em redor do pescoço do polícia estadual e tirou a mão esquerda detr s das costas. Esta tinha uma surpresa. A surpresa era uma navalha de barbear com um cabo de madrepérola. A lƒmina cintilou febrilmente no ar h£mido. Com força, Stark empurrou-a para a frente, rasgando o globo ocular direito de Chatterton com um ruído audível.

Chatterton gritou e levou uma mão ao rosto. Stark lançou a mão ao cabelo do agente, puxou a cabeça para tr s e rasgou-lhe a garganta de orelha a orelha. Sangue brotou do seu pescoço musculado num esguicho vermelho. Tudo isto sucedeu em quatro segundos.

- Quê? - perguntou Eddings num tom de voz baixo e peculiarmente consciêncioso. Este estava pregado ao chão.

a cerca de sessenta metros atr s de Chatterton e Stark.

- Quê?

Uma das mãos caídas estava suspensa ao lado da coronha do revólver de serviço. No entanto, bastou a Stark uma r pida olhadela para se convencer de que o porco não fazia a mais pequena ideia de que a arma estava ao seu alcance, tal como não fazia a mais pequena ideia de quantas pessoas constituíam a população de Moçambique. Tinha os olhos arregalados. Ele não sabia para onde é que estava a olhar nem quem é que estaria a sangrar. "Não, isso não é verdade", pensou Stark, "ele pensa que sou eu. Ele deixou-se ali ficar e viu-me cortar a garganta do parceiro, mas pensa que sou eu quem est a sangrar porque metade do meu rosto desapareceu. Mas, ainda assim, esse não é o verdadeiro motivo - sou eu que estou a sangrar, só pode ser, porque ele e o parceiro, eles são a polícia. São eles os heróis deste filme."

- Olha - disse - seguras isto por mim, seguras? - E, com vigor, impeliu o corpo moribundo de Chatterton para tr s, lançando-o sobre o parceiro.

Eddings lançou um gritozinho esganiçado. Tentou afastar-se mas foi demasiado tarde. O saco de oitenta quilos de peso morto que era Tom Chatterton levou-o a cambalear de encontro ao carro da Polícia. Sangue quente e descontrolado esguichou para o seu rosto virado para cima como a gua de um chuveiro com uma fuga. Soltou um grito e sacudiu o corpo de Chatterton. Este girou lentamente sobre si mesmo e, com a £ltima das forças, agarrou-se cegamente ao carro. A mão esquerda bateu no capot, deixando a marca ensanguentada de uma mão. A direita agarrou-se debilmente … antena do r dio, arrancando-a. Chatterton caiu no meio da entrada, segurando a antena diante do £nico olho que ainda Lhe restava, como um cientista com um espécime demasiado raro nas mãos para larg -lo, mesmo in extremis.

Eddings entreviu de modo indistinto a imagem do homem descamado a aproximar-se lentamente e inexoravelmente e tentou afastar-se. Bateu no carro.

Com a navalha, Stark cortou o ar, rasgou a braguilha da farda bege ao agente estadual Eddings, rasgou o saco escrotal e, num golpe longo e flexível, lançou a navalha para cima e para fora. Os testículos de Eddings, subitamente separados um do outro, deixaram-se cair contra a parte interior das coxas, como nós pesados na ponta de uma corda desemaranhada. Em redor do fecho, o sangue manchou as calças.

Por um instante, ele teve a sensação de que alguém teria atirado uma mão-cheia de gelado contra as virilhas... e foi então que as dores atacaram, quentes e lancinantes. Ele gritou.

Com uma velocidade inacredit vel, Stark soltou a navalha, lançando-a … garganta de Eddings. Porém, de alguma forma, este conseguiu erguer uma mão e o primeiro golpe apenas cortou a palma da mão a meio. Eddings tentou rolar para a esquerda, expondo assim o lado direito do pescoço.

A lƒmina nua, de um prateado desbotado na luminosidade nebulosa do dia, tornou a cortar o ar e, desta vez, chegou onde era suposto chegar. Eddings deixou-se cair de joelhos, com as mãos entre as pernas. As calças bege estavam praticamente todas tingidas de um vermelho-vivo até aos joelhos. A cabeça caiu para baixo e, neste momento, Eddings assemelhava-se ao objecto de um sacrifício pagão.

- Tem um bom dia, seu filho da puta - disse Stark numa voz neutra. Dobrou-se, enredou a mão no cabelo de Eddings, puxou a cabeça deste para tr s, e preparou o pescoço para o golpe final.

Stark abriu a porta de tr s do carro-patrulha, levantou Eddings pelo colarinho da camisa do uniforme e pelo fundo sangrento das calças, e atirou-o l para dentro como um saco de batatas. De seguida, fez o mesmo com Chatterton.

Este £ltimo devia pesar quase cerca de noventa quilos, com o coldre e a .54 enfiada nele, mas Stark deslocou-o como se fosse um saco cheio de penas. Fechou a porta com estrondo e foi então que lançou um olhar cheio de curiosidade viva para a casa.

Estava silenciosa. Os £nicos sons audíveis eram os grilos na relva alta para l da alameda de entrada e o "uic! uic!

uic!" baixo e insignificante das mangueiras da relva. A estes, acrescentou-se o som de um camião que se aproximava: um camião-cisterna Orinco. A sessenta quilómetros por hora, em direcção a norte, aproximou-se com um estrondo.

Stark retesou-se e agachou-se ligeiramente atr s de um dos lados do carro-patrulha quando, por um instante, viu as grandes luzes dos travões cintilarem com uma luz vermelha.

Quando se apagaram mais uma vez e o camião-cisterna desaparecou por detr s da colina seguinte, acelerando de novo, Stark soltou um grunhido envolto numa gargalhada.

O condutor entrevira o carro-patrulha da polícia estadual estacionado na entrada dos Beaumont, verificara o contaquilómetros e pensara que iria ser apanhado por excesso de velocidade. A coisa mais natural no mundo. Não precisava de se ter preocupado" estes nunca mais iriam apanhar ninguem.

Havia imenso sangue na entrada dos carros, mas, espalhado em pequenas poças sobre o asfalto de um preto vivo, podia passar por gua... a não ser que uma pessoa se aproximasse bastante. Portanto, não havia problema. E mesmo que houvesse, não havia nada a fazer.

Stark dobrou a navalha, segurou-a numa mão pegajosa e encaminhou-se para a porta. Não viu nem o pequeno monte de pardais mortos jazidos ao pé do alpendre nem aqueles que estavam vivos e que agora cobriam o beiral da casa ou que estavam empoleirados na macieira ao pé da garagem, observando-o silenciosamente.

Num minuto ou dois, Liz Beaumont desceu as escadas, ainda semiestremunhada da sua sesta do meio do dia, para atender a campainha da porta.

5

Ela não gritou. O grito estava l mas o rosto descamado que a fitava quando Liz abriu a porta cerrou-o bem dentro dela, congelou-o, negou-o, cancelou-o, enterrou-o vivo. ao contr rio de Thad, ela não se lembrava de ter tido sonhos com George Stark, mas, apesar de tudo, eles bem que podiam ter existido, enterrados na solidez da sua mente inconsciente. De facto, por todo o horror que causava, este rosto reluzente e sorridente parecia ser praticamente algo esperado.

- Olhe, minha senhora, quer comprar um pato? - perguntou Stark através da porta de rede. Sorriu, revelando uma série de dentes. A grande maioria estava podre. Os óculos escuros transformavam os olhos em grandes órbitas escuras. Uma substƒncia peganhenta pingava das faces e do maxilar, salpicando o colete que ele trazia vestido.

Apanhada de surpresa, Liz tentou fechar a porta. Com violência, Stark enfiou um punho enluvado por entre a porta de rede, esmurrando a porta e abrindo-a de novo. Cambaleando, Liz deu alguns passos para tr s e tentou gritar.

Não conseguia. A garganta estava ainda aferrolhada.

Stark entrou e fechou a porta.

Liz viu-o caminhar lentamente na sua direcção. Stark assemelhava-se a um espantalho em decomposição que, de algum modo, ganhara vida. O sorriso era o pior de tudo porque a metade esquerda do ll bio superior parecia estar não apenas decomposta ou em decomposição mas mastigada. Ela conseguia ainda entrever uns dentes cinzento-escuros e as cavidades onde, até h pouco tempo, se encontravam outros dentes.

As mãos enluvadas esticaram-se na direcção de Liz.

- Ol , Beth - proferiu ele, por entre aquele sorriso horrível. - Desculpa-me, por favor, a intrusão, mas como estava nas redondezas, pensei em fazer uma visitinha. Chamo-me George Stark e tenho muito gosto em conhecer-te.

Mais gosto do que possas sequer imaginar.

Um dos dedos dele tocou no queixo de Liz... acaríciou-o.

A carne por debaixo do cabedal preto era esponjosa e mole. Naquele momento, Liz pensou nos gémeos, a dormirem no andar de cima, e a paralisia em que se encontrava desfez-se. Virou-se e correu para a cozinha. Algures na confusão ensurdecedora da sua mente, Liz viu-se a si mesma a arrancar uma das facas para a carne suspensa no suporte de íman sobre o balcão e a espet -la bem no meio daquela caricatura obscena de um rosto. Ela ouviu-o a correr atr s de si, célere como o vento A mão de Stark roçou nas costas da blusa de Liz, como se a apalpasse para comprar, e escorregou.

A porta da cozinha era daquelas que estão seguras por uma mola, abrindo tanto para tr s como para a frente. No entanto, neste momento, estava escancarada, segura por uma cunha de madeira. Quando passou por ela a correr Liz deu um pontapé na cunha, sabendo que se não acertasse ou se o pontapé só acertasse de viés não haveria uma segunda oportunidade. Ainda assim, com um dos pés enfiados nas pantufas, Liz bateu com toda a força na cunha, sentindo um lampejo de dor nos dedos. A cunha voou através do chão da cozinha, encerado com uma cera tão brilhante que Liz conseguia ver todo o aposento reflectido nele, suspenso de pernas para o ar. Sentiu Stark a tentar apanh -la com as mãos. Lançando uma mão para tr s, Liz atirou a porta para fech -la. Ouviu a pancada quando a porta o atingiu. Stark berrou, furioso e surpreso, mas não magoado. Liz lançou-se …s facas.

... e Stark agarrou-a pelo cabelo e pelas costas da blusa, puxando-a para tr s com um safanão e fazendo-a girar sobre si mesma. Liz escutou o som spero da roupa a rasgar-se e pensou, de modo incoerente: "Se ele me viola, oh meu Deus, se ele me viola, enlouqueço..."

Com os punhos, Liz bateu naquele rosto grotesco, primeiro entortando os óculos-de-sol e só depois deitando-os ao chão. A carne sob o olho esquerdo cedera e caíra como uma traça morta, pondo a descoberto toda a protuberancia injectada de sangue do globo ocular.

E ele estava a rir.

Stark agarrou nas mãos dela, obrigando-as a baixarem-se.

Contorcendo-se, Liz conseguiu libertar uma das mãos, tornou a levant -la e arranhou o rosto de Stark. Os dedos dela deixaram sulcos profundos dos quais começaram a escorrer, lentamente, sangue e pus. Não fazia qualquer sentido resistir"

era o mesmo que ter rasgado uma peça de carne estragada. E, neste momento, Liz estava a soltar um som estrangulado - ela queria gritar, articular o seu horror e medo antes que estes a sufocassem, mas o m ximo que conseguia fazer era emitir uma série de latidos roucos e aflitivos.

Ele agarrou na mão que se encontrava no ar, forçou-a a baixar-se, prendeu-lhe as duas mãos nas costas e envolveu os punhos com uma só mão. Apesar de ser esponjosa, era como uma algema. Stark levantou a mão em frente da blusa dela e colocou-a … volta de um seio. A carne dela arrepiou-se com o toque dele. Liz fechou os olhos e tentou afastar-se.

- Oh, p ra com isso - disse ele. Agora, apesar de não estar a sorrir propositadamente, o lado esquerdo da boca estava fixo num esgar, congelado no seu próprio ricto em decomposição. - P ra com isso, Beth. Para o teu próprio bem. Fico excitado quando lutas. E tu não me queres excitar.

Isso posso garantir-te. Penso que devemos ter uma relação platónica, eu e tu.

"Pelo menos para j .

Stark apertou-lhe o seio com mais força e Liz sentiu a força implac vel por debaixo daquele corpo em decomposição, como uma armadura de hastes de aço articuladas engastada num pl stico mole.

"Como é que ele pode ser tão forte? Como é que ele pode ser tão forte quando parece estar a morrer?"

Mas a resposta era óbvia. Ele não era humano. Ela achava que ele nem estava sequer verdadeiramente vivo - Ou ser que queres? - perguntou ele. - É isso?

Queres? Queres fazer agora mesmo? - A língua dele, preta, vermelha e amarela, com a superfície coberta de gretas de formas invulgares como aquelas que se vêem numa planície aluvial a secar, saiu para fora da sua boca arreganhada e sorridente e serpenteou em frente dela.

Nesse preciso instante, ela parou de se debater.

- Assim est melhor - disse Stark. - Agora, vou largar-te, minha querida Bethie, minha doce Bethie. Quando o fizer, aquele impulso incontrol vel de correr os cem metros em cinco segundos vai apoderar-se de ti de novo • bastante natural" mal nos conhecemos e estou ciente de que não estou nos meus melhores dias. Mas antes de fazeres qualquer disparate, quero que te lembres dos polícias l fora: matei-os. E quero que penses nos teus bambinos', a dormir tranquilos l em cima. As crianças precisam de descansar, não achas? Sobretudo as crianças muito pequenas, as crianças muito indefesas, como as tuas. Percebes?

Entendeste tudo o que eu disse?

Muda, Liz acenou a cabeça. Nesta altura, conseguia sentir o cheiro dele. Era um cheiro horrível a carne. "Ele est a apodrecer", pensou ela. "A apodrecer bem diante dos meus olhos."

Tornara-se muito clara para ela a razão pela qual ele queria tão desesperadamente que Thad começasse a escrever de novo.

- És um vampiro - disse ela com a voz rouca. - Um maldito vampiro. E ele p“s-te a fazer dieta. E por isso entras por aqui a dentro. Aterrorizas-me e ameaças os bebés.

•s um maldito cobarde, George Stark.

Ele largou-a e começou por puxar a luva esquerda para cima, a que se seguiu a luva direita, para ficar de novo bem apertada. Era um gesto afectado e, ainda assim, peculiarmente sinistro.

- Não me est a querer parecer que isto seja justo, Beth. O que é que farias se estivesses no meu lugar? Por exemplo, o que é que farias se estivesses encalhada numa ilha sem nada para comer ou beber? Punhas-te em poses languidas e a suspirar bastante? Ou lutarias? Ser que me culpas mesmo por querer uma coisa tão simples como sobreviver?

- Sim! - cuspiu ela.

- Falas como uma verdadeira resistente... mas talvez mudes de ideias. Sabes, Beth, o preço a pagar pela resistência pode ser bem mais alto do que aquilo que pensas.

Quando a oposição é astuta e dedicada, o preço pode subir em flecha. Talvez acabes por dar por ti mais entusiasmada sobre a nossa colaboração do que alguma vez pensaste ser possível.

- Vai sonhando, filho da puta!

O lado direito da boca dele levantou-se, o lado esquerdo eternamente sorridente levantou-se um pouco mais, e Stark obsequiou-a com um esgar de espírito maléfico que ela supunha ter por fim agrad -la. A mão, nauseadoramente gelada sob a luva fina, deslizou ao longo do antebraço de Liz numa carícia. Um dedo beliscou-lhe sugestivamente a palma da mão esquerda por um instante, antes de a largar.

- Isto não é nenhum sonho, Beth. Garanto-te. Eu e Thad vamos colaborar num novo romance de Stark... por uns tempos. Por outras palavras, Thad vai dar-me um empurrão.

Sabes, eu sou como um carro empanado. Só que em vez de bloqueio do ar, tenho bloqueio de escritor. É só isso. Creio que esse é o £nico problema que existe. Uma vez a andar, meto uma segunda, carrego no pedal e vruum!

C vou eu!

- •s louco! murmurou ela.

- Sim. Mas também Tolstoi o era. E Richard Nixon, e eles elegeram aquele cão sarnento para presidente dos Estados Unidos! - Stark virou a cabeça e olhou para o exterior, pela janela. Liz nada ouviu, mas, de repente, ele pareceu estar … escuta, totalmente concentrado, esforçando-se por captar o mais leve som, praticamente inaudível.

- Que é que é? - começou ela.

- Querida, fecha o biquinho por um segundo - pediu-Lhe Stark.

- Põe uma rolha.

Indistintamente, Liz ouviu o som de um bando de p ssaros a levantar voo. O som era impossivelmente distante, impossivelmente belo. Impossivelmente livre.

Ela ali ficou especada a olhar para o outro, com o coração a bater descompassadamente, a perguntar-se se seria capaz de livrar-se dele. Stark não estava propriamente num estado de transe nem nada parecido com isso, mas a sua atenção estava certamente afastada. Talvez pudesse correr.

Se conseguisse arranjar uma arma...

De novo, a mão apodrecida rodeou um dos seus pulsos.

- Sabes, eu consigo entrar para dentro do teu homem e olhar … volta. Eu consigo senti-lo a pensar. Não consigo fazer isso contigo mas posso olhar para o teu rosto e imaginar umas quantas coisas. Independentemente do que estejas a pensar neste preciso momento, Beth, é melhor lembrares-te daqueles polícias... e dos teus filhos. Faze isso" vai ajudar-te a manter na cabeça o que te disse.

- Porque é que est s sempre a chamar-me assim?

- O quê? Beth? - Riu. Era um som desagrad vel, como se tivesse ficado com cascalho preso na garganta. - Sabes, era o que ele te teria chamado se fosse suficientemente esperto e pensasse nisso.

- •s louco...

- Louco. Eu sei. Tudo isto é fascinante, querida, mas vamos ter de adiar as tuas opiniões sobre a minha sanidade para mais tarde. Est muita coisa a acontecer neste preciso momento. Ouve: tenho de telefonar para Thad, mas não para o gabinete dele. O telefone de l pode estar sob escuta.

Ele não acredita que esteja, mas os polícias podem ter feito isso sem Lhe ter dito nada. O teu homem é do género que inspira confiança. Eu não.

- Como é que podes...

Stark inclinou-se na direcção dela e falou muito lenta e cuidadosamente, como um professor falaria a um caloiro de raciocínio lento.

- Quero que pares de embirrar comigo e que respondas …s minhas perguntas, Beth. Porque se não conseguir arrancar de ti aquilo que quero, talvez o consiga arrancar dos teus gémeos. J me dei conta de que eles ainda não falam mas talvez os possa ensinar. Um pouco de incentivo opera maravilhas.

Apesar do calor, Stark trazia vestido um colete axadrezado sobre a camisa, daqueles com muitos bolsos de fechos, usados habitualmente pelos caçadores e pelos caminheiros.

Depois de abrir um dos fechos laterais onde um objecto cilíndrico marcava uma protuberƒncia no acolchoado de poliéster, Stark tirou para fora um pequeno maçarico a g s.

- Mesmo que não os consiga ensinar a falar, aposto que conseguiria ensin -los a cantar. Aposto que conseguiria ensin -los a cantar como duas cotovias. Talvez não queiras ter de ouvir essa m£sica, Beth.

Liz tentou afastar o olhar do maçarico mas de nada valeu.

Impotentes, os seus olhos seguiam-no enquanto ele o atirava para tr s e para a frente, de uma mão enluvada para a outra. Os olhos pareciam estar pregados ao bocal.

- Digo tudo aquilo que quiseres saber - afirmou, tendo pensado de seguida: "Para j ."

- Ainda bem para ti - replicou Stark, enfiando o maçarico a g s de novo no bolso. ao fazê-lo, o colete desviou-se um bocado para o lado, e Liz viu a coronha de uma arma de fogo enorme. - • muito sensata também, Beth.

Agora, ouve-me. Hoje, h l mais alguém no Departamento de Inglês. Consigo vê-lo com tanta clareza como consigo ver-te a ti neste preciso momento. Um tipo baixinho, de cabelo branco, com um cachimbo na boca quase tão grande quanto ele. Como é que se chama?

- Parece-me que é o Rawlie DeLesseps - respondeu de modo desolado, interrogando-se sobre como é que ele poderia saber que Rawlie estava l nesse dia... e decidiu que, na verdade, não queria mesmo saber.

- Pode ser mais alguém?

Liz reflectiu por breves momentos e, de seguida, abanou a cabeça.

- Tem de ser o Rawlie.

- Tens uma lista telefónica da faculdade?

- H uma na gaveta da mesinha do telefone. Na sala de estar.

- óptimo. - Antes mesmo de se ter apercebido de que ele estava a mexer-se a graciosidade felina e lubrificada desta peça de metal decadente fazia-a sentir um pouco doente, Stark passou a seu lado e arrancou uma das facas compridas do íman magnético. Liz retesou-se. Stark olhou de relance para ela e aquele som de cascalho preso na garganta surgiu de novo. - Não te preocupes que não te vou cortar. Não és tu o meu bom ajudantezinho? V l .

A mão, forte mas desagradavelmente esponjosa, tornou a envolver-lhe o pulso. Quando ela tentou afastar-se, ele limitou-se a apert -la. Nesse instante, Liz parou de contorcer-se e deixou que ele a conduzisse.

- óptimo - disse ele.

Ele levou-a para a sala de estar, onde Liz se sentou no sof e abraçou os joelhos diante de si. Stark passou os olhos por ela, acenou com a cabeça para si próprio e virou a atenção para o telefone. Quando chegou … conclusão de que não havia nenhum arame que saísse de um alarme - e isso era um descuido, apenas um descuido - Stark cortou os cabos que a Polícia Estadual acrescentara: aquele que ia até ao aparelho de localização e aquele que descia até … cave, ao gravador activado por voz.

- Tu sabes como te comportares e isso é muito importante - disse Stark para o cocuruto da cabeça dobrada de Liz. - Agora, ouve-me: vou descobrir o n£mero deste tal Rawlie DeLesseps e ter uma conversinha com o ThaD.

E enquanto fizer isso, vais subir até l cima e p“r numa mala todas as coisas de que os teus bebés precisarão l em baixo na vossa casa de Verão. Quando tiveres acabado, acorda-os e tr -los c para baixo. - Como é que sabes que eles estavam...

Perante o seu olhar de espanto, Stark lançou-lhe um ligeiro sorriso.

- Oh, eu conheço o teu hor rio - replicou. - Talvez até o conheça melhor do que tu. Acorda-os e prepara-os, Beth, e tr -los c para baixo. Conheço tão bem a disposição da casa como conheço o teu hor rio e se tentares fugir de mim, querida, eu saberei. Não é necess rio vesti-los"

põe num saco tudo o que precisam e tr -los c para baixo nos seus babygrows. Podes vesti-los mais tarde, quando estivermos na nossa feliz caminhada.

- Castle Rock? Queres ir para Castle Rock?

- Sim, sim. Mas não precisas de pensar nisso agora.

Neste preciso momento, só tens de pensar que se demorares mais de dez minutos, contados pelo meu relógio, terei de subir até l acima e ver o que te est a demorar. - Stark olhou para ela de forma calma, com os óculos escuros a criarem uns globos oculares semelhantes aos de uma caveira sob a fronte pelada e transpirada. - E subirei com o meu maçaricozinho aceso e pronto para entrar em acção.

Est s a entender?

- Eu. . . sim.

- Acima de tudo, quero que te lembres de uma coisa, Beth. Se colaborares comigo, nada te acontecer . E nada acontecer aos teus filhos. - Sorriu de novo. - Sendo uma boa mãe como tu és, tenho c a impressão de que isso é muito mais importante para ti. Vale mais a pena saberes isto a tentares armar-te em espertinha comigo. Aqueles dois polícias estaduais estão l fora na parte de tr s da carripana, a chamarem a atenção das moscas, porque tiveram o azar de estarem nos trilhos quando o meu expresso estava a chegar. H uma data de polícias mortos na cidade de Nova Iorque que tiveram o mesmo tipo de azar... como tu sabes tão bem. O modo de te ajudares, e aos teus filhos (e a Thad também, porque se ele fizer o que eu desejo, vai tudo correr bem), é manteres-te calada e prest vel. Percebes?

- Sim - respondeu Liz com uma voz rouca.

- Podes ficar com ideias. Sei bem como isso pode acontecer quando uma pessoa sente que est entre a espada e a parede. Mas se tiveres realmente uma dessas ideias, afasta-a imediatamente do pensamento. Lembra-te disto e, apesar de eu não parecer estar muito em forma, os meus ouvidos estão óptimos. Se tentares abrir uma janela, ouvirei.

Se tentares tirar uma das redes das janelas, também ouvirei isso. Bethie, eu sou um homem que consegue ouvir os anjos a cantar no Céu e os diabos a gritar nos quintos do Inferno. Tens de perguntar a ti mesma se tens coragem para te arriscares assim tanto. És uma mulher esperta.

Penso que ir s tomar a decisão acertada. Mexe-te, rapariga.

Põe-te a andar.

Ele estava a olhar para o relógio, mais precisamente a cronometr -la. E, num salto, Liz encaminhou-se para as escadas sobre pernas que pareciam estar entorpecidas.

6

No andar de baixo, Liz ouviu-o falar por breves instantes ao telefone. Seguiu-se uma longa pausa, após a qual ele recomeçou a falar. A voz alterou-se. Ela não sabia com quem Stark teria falado antes da pausa - talvez com Rawlie DeLesseps - mas, quando recomeçou a falar, Liz não tinha praticamente d£vida alguma de que era Thad quem estava no outro lado da linha. Apesar de não conseguir destrinçar as palavras e de não se atrever a ir até ao telefone de extensão, Liz tinha a certeza absoluta de que se tratava de Thad. De qualquer modo, não tinha tempo para ficar … escuta. Ele pedira-lhe para ela se perguntar se tinha coragem para o irritar. E ela não tinha.

Liz enfiou as fraldas no saco das fraldas e a roupa numa mala. Meteu os cremes, o pó-de-talco para bebé, as toalhas, os alfinetes-de-ama e o resto das bugigangas para dentro de um saco … tiracolo.

No andar de baixo, a conversa terminara. Estava a dirigir-se para junto dos gémeos, prestes a acord -los, quando ele a chamou.

- Beth! Est na hora!

- Estou a ir! - Liz levantou Wendy, que, estremunhada, começou a chorar.

- Quero-te aqui em baixo: estou … espera de uma chamada telefónica e vocês são os meus efeitos especiais.

Ela mal ouviu estas £ltimas palavras. Os olhos estavam pregados … embalagem de pl stico dos alfinetes das fraldas sobre a cómoda dos gémeos.

Ao lado da embalagem, estava um par de tesouras de costura reluzentes.

Liz tornou a deitar Wendy no berço, olhou de relance para a porta e atravessou o quarto a correr, em direcção … cómoda. Pegou na tesoura e em dois dos alfinetes-de-ama.

Como uma costureira a fazer um vestido, segurou os alfinetes com a boca e abriu o fecho da saia. Com estes £ltimos, prendeu a tesoura na parte de dentro das cuecas, tornando a fechar de novo o fecho da saia. Podia ver-se uma pequena saliência onde se encontrava o cabo da tesoura e a cabeça dos alfinetes. Liz não acreditava que um homem comum reparasse nisso, mas George Stark não era um homem comum. Por isso, p“s a blusa para fora. Assim estava melhor.

- Beth! - Neste momento, a voz estava … beira da ira.

Pior, vinha do meio das escadas, a subir, e ela nem sequer o ouvira, apesar de ter a certeza que era impossível utilizar sem produzir todo o género de rangidelas e estalidos a escadaria principal nesta casa antiga.

Foi então que o telefone tocou.

- Tr -los imediatamente c para baixo! - berrou ele para o andar de cima, tendo-se Liz apressado a levantar William. Como não tinha tempo para ser cuidadosa, teve de descer as escadas com dois bebés, um em cada braço, e cada um a gritar mais alto do que o outro. Estando Stark ao telefone, ela supunha que ele fosse ficar ainda mais furioso com o barulho. No entanto, pareceu ficar bastante satisfeito... e foi então que Liz raciocinou que se ele estava a falar com Thad, era evidente que devia estar satisfeito. Só muito difícilmente é que conseguiria obter um melhor resultado mesmo se tivesse trazido a sua cassete de efeitos especiais.

"O derradeiro persuador", pensou ela, sentindo um lampejo de ódio intenso por esta criatura apodrecida que não tinha qualquer razão para existir mas que se recusava a desaparecer.

Numa das mãos, Stark segurava um l pis, cuja ponta de borracha batia ao de leve na beira da mesinha do telefone.

Foi então que, com uma pontada de choque de reconhecimento, Liz se apercebeu de que se tratava de um Berol Black Beauty. "Um dos l pis de Thad", pensou. "Ser que ele esteve no escritório?"

Não, era óbvio que ele não estivera no escritório e era óbvio que não se tratava de um dos l pis de Thad. Na verdade, eles nunca tinham sido bem os l pis de Thad: ele limitava-se a compr -los de vez em quando. Os Black Beauty pertênciam a Stark. Este utilizara o l pis para escrever alguma coisa em letra de imprensa na contracapa da lista telefónica da faculdade. ao abeirar-se dele, Liz conseguiu ler duas frases. "ADIVINHA DE ONDE é QUE TE TELEFONEI, THAD?" dizia a primeira. A segunda era brutalmente directa:

"DIZ A ALGUéM E ELES MORREM."

Como que a confirmar esta £ltima, Stark afirmou:

- Nadinha, como podes ouvir por ti próprio. Não toquei num só fio de cabelo destas cabecinhas preciosas.

Stark virou-se para Liz e piscou-lhe o olho. De certa forma, tratava-se da coisa mais hedionda de todas: como se os dois estivessem nisto juntos. Stark rodopiava os óculos de sol entre o polegar e o indicador da mão esquerda. Os globos oculares luziam no seu rosto como belindres no rosto de uma est tua de cera a derreter-se.

- Ainda não - acrescentou ele.

Stark p“s-se a escutar, sorrindo de seguida. Mesmo que o rosto dele não estivesse a decompor-se diante dos seus próprios olhos, aquele sorriso tê-la-ia chocado na mesma pelo seu car cter provocador e perverso.

- Que h com ela? - indagou Stark, numa voz que era praticamente melodiosa. Foi então que toda a raiva de Liz se sobrep“s ao medo e, pela primeira vez, pensou na tia Martha e nas ratazanas. Neste momento, Liz desejou que a tia Martha estivesse ali com ela, para tratar da sa£de desta ratazana em especial. Apesar de ter as tesouras, isso não significava que ele Lhe iria dar a abertura necess ria para as utilizar. Mas Thad... Thad conhecia a história da tia Martha. E a ideia passou-lhe pela cabeça.

7

Quando a conversa terminou e Stark desligou o telefone, Liz perguntou-lhe o que é que ele pretendia fazer.

- Despachar-me o mais depressa possível - respondeu. - E a minha especialidade. - Esticou os braços.

- D -me um dos mi£dos. Não importa qual deles.

Liz esquivou-se dele, apertando de modo instintivo os dois bebés ainda mais contra o peito. Estes tinham-se aquietado, mas, com o aperto agitado da mãe, ambos recomeçaram a choramingar e a contorcer-se.

Stark fitou-a de modo paciente.

- Não tenho tempo para me p“r a discutir contigo, Beth. Não me obrigues a ter de te persuadir com isto.

Bateu ao de leve sobre a protuberƒncia cilíndrica no bolso do colete de caça. - Não vou magoar os teus filhos. Sabes, de uma certa forma, é até engraçado porque eu também sou o pai deles.

- Não digas isso! - soltou ela num grito agudo, afastando-se ainda mais dele. Prestes a fugir, Liz tremia.

- Controla-te, mulher.

As palavras saíram-lhe insípidas, inexpressivas e frias como morte, fazendo-a sentir como se tivesse apanhado com um saco de gua fria na cara.

- Acalma-te, querida. Tenho de ir até l fora e p“r o carro da Polícia dentro da tua garagem. Enquanto estiver a fazer isso, não te quero ver a correr pela estrada abaixo na outra direcção. Se tiver um dos teus filhos, como parente, por assim dizer, não terei de me preocupar com isso. Estou a falar a sério quando digo que não quero fazer mal algum, nem a ti e nem a eles... e mesmo que o fizesse, de que é que me serviria magoar um dos teus filhos? Preciso da tua colaboração. E essa não é certamente a forma de o conseguir.

Agora, passa-me imediatamente um deles ou ainda magoo os dois"

não os mato mas magoo-os, magoo-os a sério, e tu ser s a culpada.

Stark esticou os braços. O rosto em decomposição estava duro e decidido. ao olhar para ele, Liz apercebeu-se de que nenhum argumento o demoveria, de que nenhum pedido o convenceria. Ele nem sequer a escutaria. Limitar-se-ia a fazer aquilo que ameaçara fazer.

Liz dirigiu-se para ele e, quando Stark tentou tirar Wendy, o braço dela voltou a retesar-se, frustrando o seu intento por um instante. Wendy começou a chorar com mais força. Liz afrouxou, deixando a menina ir, tendo ela própria começado a chorar de novo.

Fitou-o nos olhos e disse-lhe:

- Se lhe fizeres mal, mato-te.

- Sei bem que o tentarias - respondeu Stark solenemente.

- Tenho um grande respeito pela maternidade, Beth. Pensas que eu sou um monstro e talvez até tenhas razão. Mas os monstros verdadeiros nunca são totalmente desprovidos de sentimentos.

Penso que, no fundo, é isso, e não o seu aspecto, que os torna tão assustadores. Beth, não vou fazer nenhum mal a esta pequenina. Ela est segura comigo... desde que colabores.

405 Neste momento, Liz segurava William com os dois braços...

e o círculo que os braços dela descreviam nunca tinha conferido uma sensação de vazio tão grande. Nunca, em toda a sua vida, ela estivera tão convencida de que cometera um erro.

Mas que outra coisa poderia ter feito?

- Além disso... olha! - gritou Stark, e havia algo na voz dele que a levava a não conseguir acreditar, a não querer acreditar. A ternura que julgara ouvir tinha de ser fingida, não passando de mais uma das suas provocações monstruosas. Mas ele estava a olhar para Wendy com uma atenção profunda e perturbadora... e Wendy estava a olhar para ele, embevecida, sem chorar. - A pequenina não se apercebe do meu aspecto. Ela não tem nem um pouquinho de medo, Beth, nem um pouquinho.

Num terror silencioso, Liz observou-o enquanto Stark erguia a mão direita. Ele despira as luvas, podendo Liz vislumbrar uma forte ligadura de gaze enrolada … sua volta precisamente no mesmo sítio onde Thad tinha uma ligadura sobre as costas da mão esquerda. Stark abriu o punho, tornou a fech -lo e abriu-o de novo. Pelos maxilares cerrados, era evidente que dobrar a mão Lhe causava algumas dores, mas, de qualquer forma, não deixava de fazê-la "Thad faz isso, faz isso precisamente da mesma manei ra, oh meu Deus, ele faz isso PRECISAMENTE DA MESMA MANEIRA..."

Nesta altura, Wendy parecia estar totalmente serena, fitando o rosto de Stark sobre ela, estudando-o com muita atenção, com os calmos olhos cinzentos reflectidos nos tur vos olhos azuis de Stark. Com a pele por debaixo a desaparecer, os olhos dele davam a sensação de que iriam cair a qualquer momento e ficariam suspensos junto das maçãs do rosto pelos ped£nculos.

E Wendy acenou com a mão.

Mão aberta" mão fechada" mão aberta.

Um aceno … Wendy.

Liz sentiu movimento nos seus braços, olhou para baixo e viu que William também fitava George Stark com o mesmo olhar embevecido azul-acinzentado. Estava a sorrir.

A mão de William abriu-se" fechou-se" abriu-se.

Um aceno … Willliam.

- Não - gemeu Liz, num tom praticamente baixo demais para ser ouvido. - Oh, Deus, por favor, faz com que isto não esteja a acontecer.

- Vês? - disse Stark, levantando a cabeça e olhando para ela. Sorria, com aquele sardónico sorriso congelado, e a coisa mais horrível no meio disto tudo era o facto de ela se aperceber de que ele estava a tentar ser simp tico... E não conseguia. - Est s a ver? Eles gostam de mim, Beth. Eles gostam de mim.

8

IDepois de colocar os óculos escuros, Stark levou Wendy l para fora, para a entrada. Liz correu para a janela, seguindo-os com o olhar, cheia de cuidados. Uma parte dela tinha a certeza de que ele pretendia saltar para dentro do carro-patrulha e fugir para longe com o seu bebé no assento ao lado e os dois agentes estaduais mortos na parte de tr s.

Contudo, por um instante, ele nada fez: limitou-se a ficar junto … porta do condutor, sob um sol encoberto, com a cabeça inclinada para baixo e a bebé aninhada nos seus braços.

Stark permaneceu naquela posição imóvel durante algum tempo, como se estivesse a falar de forma séria com Wendy ou talvez até a rezar. Mais tarde, quando se encontrou de posse de mais informações, Liz chegou … conclusão de que ele estivera a tentar entrar de novo em contacto com Thad, possivelmente para ler os seus pensamentos e tentar adivinhar se ele pretendia fazer aquilo que Stark queria ou se tinha outros planos.

Após cerca de trinta segundos, Stark ergueu a cabeça, abanou-a com força como que para p“r as ideias em ordem e enfiou-se no carro, ligando-o. "As chaves estavam na ignição", pensou Liz entorpecida. "Ele nem precisou de fazer uma ligação directa, ou l aquilo que eles fazem. Aquele homem tem a sorte do diabo."

Stark conduziu o carro-patrulha para dentro da garagem, parando o motor. Foi então que ela ouviu a porta do carro bater e ele saiu c para fora, demorando-se o tempo suficiente para carregar no botão da garagem que levava a porta a fechar-se, com grande estrépito, ao longo das calhas.

Alguns momentos depois, Stark encontrava-se de novo dentro de casa e entregou-lhe Wendy. - Est s a ver? - perguntou. - Ela est óptima. Agora fala-me das pessoas da porta do lado. Os Clark.

- Os Clark? - inquiriu ela, sentindo-se extraordinariamente est£pida. - O que é que queres saber sobre eles? Foram para a Europa este Verão.

Stark sorriu. De certo modo, tratava-se da coisa mais hedionda até agora porque, em circunstƒncias mais nor mais, teria sido um sorriso de prazer genuíno... • um que deixava transparecer vitória, suspeitava ela. E, por um breve instante, não sentiu ela uma pontada de atracção? Uma chama invulgar? Est claro que era de loucos mas ser que isso significava que ela a poderia negar? Liz estava conven cida que não, acabando mesmo por chegar a compreender porque é que teria sido assim. Afinal de contas, ela casara -se com o familiar mais íntimo deste homem.

- Fant stico! - afirmou ele. - Não podia ser melhor! E eles têm um carro?

Wendy começou a chorar. Liz olhou para baixo e viu a filha a olhar para o homem com o rosto apodrecido e os protuberantes olhos vidrados, com os bracitos pequenos e agradavelmente rechonchudos esticados na direcção dele. Wendy não estava a chorar porque tivesse medo dele" Wendy chorava porque queria voltar para o colo dele.

- Que querida! - exclamou Stark. - Ela quer voltar para o pap .

- Cala-te, monstro! - proferiu Liz, cheia de cólera.

O George Stark matreiro lançou a cabeça para tr s e soltou uma gargalhada.

9

Ele deu-lhe cinco minutos para ela p“r num saco mais algumas coisas pessoais e outras para os gémeos. Liz disse -Lhe que, naquele espaço de tempo, seria impossível reunir metade daquilo de que precisavam, ao que ele Lhe respondeu que fizesse o melhor que podia.

- Nestas circunstƒncias, Beth, j vais com muita sorte por eu te estar a dar mais tempo: temos dois polícias mortos na garagem e o teu marido sabe o que est a acontecer.

Se queres passar esses cinco minutos a discutir esse aspecto comigo, tu é que sabes. J só tens... - Stark olhou de relance para o relógio, lançando-lhe um outro sorriso - quatro minutos e meio.

Assim, Liz fez o que p“de, parando uma £nica vez enquanto enfiava boiões de comida para bebé num saco de pl stico para olhar para os filhos. Os dois estavam sentados um ao lado do outro, no chão, a brincarem a uma espécie de jogo da sardinha entre si e a fitarem Stark. O maior temor de Liz era estar ciente daquilo em que eles estariam a pensar.

"Que queridos."

Não. Ela não pensaria nisso. Ela não pensaria nisso, mas era só nisso que conseguia pensar. Wendy a chorar e a esticar os bracinhos rechonchudos. A estic -los na direcção de um estranho assassino.

"Eles querem voltar para o pap ."

Stark encontrava-se … entrada da porta da cozinha, a observ -la e a sorrir. Nesse instante, Liz sentiu um enorme desejo de utilizar a tesoura. Nunca, em toda a sua vida, desejara uma coisa com tanta premência.

- Ser que me podes ajudar? - gritou ela, zangada, para ele, apontando para os dois sacos e para o saco térmico que enchera.

- Claro, Beth - respondeu. Levou um dos sacos por ela. A outra mão, a esquerda, deixou-a livre.

10

Atravessaram o p tio lateral, percorreram a pequena faixa de relva entre as duas propriedades e caminharam pelo p tio dos Clark até chegarem … entrada. Stark insistiu para que ela andasse depressa e assim, quando pararam diante da porta fechada da garagem, Liz estava ofegante. Stark oferecera-se para levar um dos gémeos, ao que ela se recusara.

Ele colocou o saco térmico no chão, tirou a carteira do bolso de tr s e pegou numa estreita tira de metal que afuni lava numa das extremidades. Foi esta ponta que enfiou na fechadura da porta da garagem. Começou por vir -la para a direita e, de seguida, para a esquerda, com o ouvido … es cuta. Ouviu-se um estalido, o que o fez sorrir.

- Ÿptimo - disse. - até mesmo as fechaduras mais reles nas portas das garagens podem ser uma chatice. Molas grandes. • difícil dobr -las. Contudo, esta est tão gasta como o rabo de uma puta velha ao romper do dia. Sorte a nossa. - Stark virou o manípulo e empurrou. A porta abriu com um grande estrondo ao longo das calhas.

A garagem estava tão quente como um palheiro e a carrinha Volvo dos Clark estava ainda mais quente no interior. Stark dobrou-se por debaixo do tablier, deixando a descoberto a parte de tr s do pescoço quando Liz se sentou no lugar do passageiro. Os dedos dela crisparam-se: bastava-lhe apenas um segundo para tirar a tesoura, mas, ainda assim, isso podia ser demasiado tempo. Ela vira quão rapida mente ele reagia ao inesperado. De certo modo, não era de surpreender que os reflexos dele fossem tão r pidos como é os de um animal selvagem dado que era exactamente isso que ele era.

Stark arrebanhou um punhado de arames por detr s do tablier e, do bolso da frente, tirou uma navalha ensanguentada. Liz estremeceu um pouco, tendo de engolir duas vezes em seco, rapidamente, para sufocar um ensejo de vomitar. O assassino desdobrou a lƒmina, tornou a dobrar-se, rasgou o isolamento de dois dos arames e uniu os fios de cobre nus. Saltou uma faísca azul momentƒnea, após a qual o motor começou a funcionar. Um instante depois, o carro estava a andar.

- Bem, est tudo óptimo! - vangloriou-se George Stark. - Que dizes a pormo-nos a caminho?

Os gémeos riram-se um para o outro, acenando-lhe com as mãos pequenas. Com alegria, Stark devolveu o aceno. [ ao tirar o carro da garagem em marcha atr s, Liz colocou sub-reptíciamente a mão por detr s de Wendy, que estava sentada a seu colo, e tocou nos circulos que eram os buracos dos dedos da tesoura. Agora não, mas em breve. Liz não tinha intenção alguma de esperar por Thad. Estava demasiado inquieta com aquilo que esta criatura sombria podia, no entanto, decidir fazer aos gémeos.

Ou a ela.

Mal ele estivesse bastante distraído, Liz tencionava tirar a tesoura de onde esta estava escondida e espet -la na garganta.