A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 5 de 26

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A Metade Sombria

Mais Tarde Nessa Noite

Dez

MAIS TARDE NESSA NOITE

1

Depois de terem levado os gémeos adormecidos para o andar de cima, eles próprios começaram a arranjar-se para se deitarem. Thad despiu-se até ficar de cuecas e de camisola interior - o seu pijama muito próprio - e dirigiu-se para a casa de banho. Estava a lavar os dentes quando as tremuras começaram. Deixou cair a escova dos dentes, cuspiu uma boca repleta de espuma branca para dentro do lavatório e, depois, a cambalear, deixou-se cair … beira da retrete, sem qualquer sensação nas pernas, como se tivesse umas estacas de madeira.

Tentou vomitar - um horrível som seco - mas nada saiu. O est“mago começou a acalmar de novo... pelo menos temporariamente.

Quando se virou, Liz encontrava-se … entrada da porta.

Vestia uma camisa de noite de nylon azul, que terminava v rios centímetros acima do joelho. Olhava para ele fixamente.

- Andas a esconder-me segredos, Thad. Isso não é bom. Nunca foi.

Thad suspirou de forma desagrad vel e esticou as mãos diante dos olhos, com os dedos afastados uns dos outros. Ainda tremiam.

- H quanto tempo te apercebeste?

- Desde que o xerife voltou esta noite que andas a agir de uma forma estranha. E quando ele fez aquela £ltima pergunta... sobre aquela coisa escrita na parede do Clawson...

mais valia teres um letreiro colado na testa.

- Pangborn não viu qualquer espécie de letreiro.

- O xerife Pangborn não te conhece tão bem quanto eu... mas se não o viste a olhar para ti com um ar desconfiado no fim, era porque não estavas a olhar. Até ele viu que algo não batia certo. Foi a forma como ele olhou para ti.

A boca dela descaiu um pouco, sublinhando as linhas antigas do seu rosto, aquelas que ele vira pela primeira vez após o acidente em Bóston e o aborto, aquelas que se tinham aprofundado … medida que ela o via debater-se com cada vez mais força para tirar gua de um poço que parecia ter secado.

Fora por volta dessa altura que Thad deixara de conseguir controlar o acto de beber. Todas essas coisas - o acidente de Liz, o aborto, o falhanço crítico e financeiro de Névoa Purpura após o êxito gigantesco de A Vontade de Machine sob o nome de Stark, a s£bita tendência para beber muito - tinham-se unido para dar origem a um profundo estado depressivo. Ele reconhecera-o como um estado de espírito egocêntrico e fechado sobre si mesmo, mas essa tomada de consciência não ajudara em nada. Por fim, com a ajuda de meia garrafa de Jack Daniels, Thad enfiara pela garganta abaixo uma mão cheia de comprimidos para dormir.

Tratara-se de uma tentativa de suicídio com pouco entusiasmo... mas ainda assim uma tentativa de suicídio. Todas estas coisas ocorreram ao longo de três anos. Nessa época, parecera ser muito mais tempo. Nessa época, parecera que seria para sempre.

E, est claro, pouco ou mesmo nada disto chegara …s p ginas da revista People.

Neste momento, Thad via Liz a olhar para ele como costumava olhar nessa altura. Odiava esse olhar. A preocupação só por si j era m ; a desconfiança ainda pior.

Imediatamente, Thad pensou que seria mais f cil suportar o sentimento de ódio do que aquele olhar peculiar e circunspecto.

- Detesto quando me mentes - limitou-se ela a dizer.

- Eu não menti, Liz! Pelo amor de Deus!

- Por vezes, as pessoas mentem só por estarem caladas.

- De qualquer forma, ia contar-te - replicou ele. - Só estava a tentar encontrar uma forma de o fazer.

Mas seria isso verdade? Seria mesmo? Thad não sabia.

Era uma coisa esquisita, absolutamente de loucos, mas não fora essa razão pela qual ele preferira mentir através do silêncio. Thad sentira necessidade de ficar calado tal como um homem que observa uma mancha de sangue nas próprias fezes ou sente um nódulo nas virilhas pode sentir necessidade de ficar calado. Em tais casos, o silêncio é irracional... mas o medo é igualmente irracional.

E havia mais uma outra coisa: ele era um escritor, um imaginador. Thad nunca conhecera alguém - incluindo ele próprio - que tivesse mais do que uma vaga ideia da razão por que fazia alguma coisa. Por vezes, Thad acreditava que a compulsão para escrever ficção não passava de um baluarte contra a confusão, talvez mesmo contra a insanidade.

Era uma necessidade desesperada de ordem por pessoas somente capazes de descobrirem esse material precioso no interior da sua mente... nunca no coração.

Dentro dele, uma voz sussurrou pela primeira vez:

"Quem és tu quando escreves, Thad? Quem és tu nessa altura?"

E, para essa voz, ele não tinha resposta alguma.

- Então? - perguntou Liz, num tom agudo, vacilando … beira da f£ria.

Embrenhado nos seus pensamentos, Thad olhou para ela, espantado:

- Desculpa?

- J encontraste uma forma de o fazer? Qualquer que possa ser?

- Olha - replicou ele - não percebo porque é que est s com uma voz tão irritada, Liz.

- Porque estou assustada! - gritou ela, zangada... mas agora, ele via l grimas nos cantos dos olhos dela. - Porque escondeste isso ao xerife, e ainda me pergunto se não o ir s esconder de mim! Não via essa expressão no teu rosto h ...

- Ah, sim? - Agora, ele próprio começava a sentir-se zangado. - E que expressão foi essa? O que é que te pareceu?

- Parecias culpado - respondeu bruscamente. - Tinhas a expressão que costumavas ter quando dizias …s pessoas que havias parado de beber e não tinhas. Quando... - Foi então que ela estacou. Thad não soube o que Liz viu no seu rosto e não tinha a certeza se queria saber mas afastou de vez a sua f£ria, que foi substituída por um olhar angustiado. - Desculpa. Não fui justa naquilo que disse.

- Porque não? - retorquiu ele, algo enfadado. - Foi verdade.

Durante uns tempos.

Thad voltou para a casa de banho e utilizou o desinfectante oral para remover os £ltimos vestígios de pasta de dentes. Era um desinfectante oral sem lcool. Como o xarope para a tosse.

E o sucedƒneo de baunilha no arm rio da cozinha. Thad não tomara uma £nica bebida desde que terminara o £ltimo romance de Stark.

Com suavidade, a mão de Liz tocou no seu ombro:

- Thad... estamos a ficar zangados um com o outro. Isso magoa-nos aos dois e não vai ajudar em nada a resolver aquilo que estiver errado. Disseste que poderia haver um homem por aí, um louco, que pensa que é George Stark. J matou duas pessoas que conhecíamos. Uma delas foi parcialmente respons vel pelo desvendar do pseudónimo Stark. J te deve ter passado pela cabeça que podes estar nos primeiros lugares da lista de inimigos a abater daquele homem. No entanto, apesar disso, escondeste alguma coisa. Qual era a expressão?

- Os pardais estão a voar de novo - respondeu Thad.

Olhando para o próprio rosto na desagrad vel luz branca lançada pelas lƒmpadas fluorescentes sobre o espelho da casa de banho. O mesmo rosto de sempre. Talvez um pouco escurecido sob os olhos, mas, ainda assim, o mesmo rosto de sempre. Thad estava contente. Não era a cara de nenhuma estrela de cinema, mas era a sua.

- Sim. Isso teve algum significado para ti. Qual foi?

Thad desligou a luz da casa de banho e colocou o braço por cima dos ombros de Liz. Caminharam até … cama e deitaram-se nela.

- Quando tinha onze anos - explicou - fui submetido a uma operação para me extirparem um pequeno tumor do lobo frontal (penso que era o lobo frontal) do cérebro.

Disto tu j sabias.

- Sim? - Ela olhava para ele, intrigada.

- Disse-te que tinha umas dores de cabeça fortes antes de o tumor ter sido diagnosticado, não foi?

- Exacto.

Distraído, Thad começou a dar ligeiras palmadinhas na coxa de Liz. Ela tinha umas ador veis pernas compridas, e a camisa de noite era mesmo muito curta.

- E sobre os sons?

- Sons? - Liz parecia intrigada.

- Bem me queria parecer que não... mas, sabes, nunca pareceu ser muito importante. Tudo isso aconteceu h tanto tempo. As pessoas com tumores cerebrais têm dores de cabeça frequentes, por vezes têm ataques, e, por vezes, têm as duas coisas. Muitas vezes, estes sintomas têm os seus próprios sintomas. São os chamados precursores sensoriais.

Os mais comuns são cheiros, aparas de l pis, cebolas acabadas de cortar, fruta bolorenta. O meu precursor sensorial era auditivo. Eram p ssaros.

Thad olhou para ela fixamente, com os narizes prestes a tocarem-se. Conseguia sentir um fio solto do cabelo de Liz a fazer-lhe cócegas na testa.

- Pardais, para ser mais exacto.

Thad sentou-se, não querendo ver a expressão de choque s£bito no rosto da mulher. Pegou na mão dela.

- Anda.

- Thad... aonde?

- Até ao escritório - respondeu ele. - Quero mostrar-te uma coisa.

O escritório de Thad era dominado por uma enorme secret ria de carvalho. Não era nem tipicamente antiga nem do género moderno. Tratava-se apenas de um pedaço de madeira extremamente grande e muitíssimo £til. Erguia-se como um dinoss urio sob três globos de vidro pendurados;

a luz combinada que lançavam sobre a superfície de trabaLho pecava apenas por falta de intensidade. Muito pouco da superfície da secret ria estava visível. Manuscritos, pilhas de correspondência, livros, e provas que Lhe tinham sido enviadas encontravam-se empilhados por toda a parte e por todo o lado. Na parede branca por detr s da secret ria estava um poster que representava a estrutura preferida de Thad no mundo inteiro: o Edifício Flatiron em Nova Iorque. A sua forma improv vel em cunha nunca deixara de o deliciar.

Ao lado da m quina de escrever encontrava-se o manuscrito do novo romance, O Cão Dourado. Em cima da m quina estava o trabalho realizado naquele dia. Seis p ginas.

Era o n£mero do costume... isto é, quando estava a trabalhar como ele próprio. Como Stark, geralmente fazia umas oito e, por vezes, chegava a escrever dez.

- Antes de Pangborn ter aparecido, era com isto que eu estava entretido - disse ele, pegando no montinho de p ginas que se encontravam em cima da m quina e entregando-as a Liz. - Foi então que o som surgiu: o som dos pardais. Pela segunda vez durante o dia de hoje, só que desta vez foi muito mais intenso. Vês o que est escrito em diagonal sobre a primeira p gina?

Liz permaneceu com a cabeça baixa durante um longo espaço de tempo, e Thad só Lhe conseguia ver o cabelo e o cocuruto da cabeça. Quando levantou o olhar e fitou Thad, toda a cor se tinha esvaído do seu rosto. Os l bios estavam comprimidos um contra o outro numa estreita linha cinzenta.

- é a mesma - sussurrou ela. - é exactamente a mesma frase. Oh, Thad, o que é isto? O que é...?

Liz vacilou e ele inclinou-se para a frente, temendo, por um instante, que ela chegasse mesmo a desmaiar. Agarrou nos ombros dela, com os pés enredados no pé em forma de X da cadeira do escritório, e quase deitou os dois por cima da secret ria.

- Est s bem?

- Não - respondeu ela numa voz sumida. - E tu?

- Não propriamente - replicou ele. - Desculpa.

O mesmo desajeitado de sempre. Como um cavaleiro numa armadura reluzente, sou óptimo para segurar uma porta.

- Escreveste isto antes de Pangborn ter sequer aparecido - disse ela, não parecendo considerar possível compreender toda esta situação na totalidade. - Antes. | - Exactamente.

- Que é que isso quer dizer? - Liz fitava-o com uma intensidade inquieta, as pupilas dos seus olhos aumentadas e negras apesar da luz clara.

- Não sei - retorquiu ele. - Pensei que talvez pudesses ter alguma ideia.

Liz abanou a cabeça e tornou a colocar as folhas sobre a secret ria. De seguida, esfregou a mão contra a curta saia de nylon da camisa de noite, como se tivesse tocado em algo de sórdido. Thad teve a impressão de que ela não estava consciente daquilo que estava a fazer, não Lhe tendo dito nada.

- Agora j percebes porque é que não contei nada? - perguntou ele.

- Sim... acho que sim.

- O que é que ele teria dito? O nosso xerife pr tico do mais pequeno m£nicípio do Maine, que deposita a sua fé nas cópias computadorizadas do R.S.E e nos testemunhos oculares? O nosso xerife que achou mais plausível eu estar a esconder um irmão gémeo do que alguém ter, de algum modo, descoberto uma forma de duplicar impressões digitais?

Que é que ele teria a dizer sobre isto?

- Eu... eu não sei. - Liz debatia-se para se recompor para se arrastar para fora da onda de choque. Ele j a vira fazer isso antes, embora esse facto não diminuísse a admiração que sentia por ela. - Não sei o que é que ele teria dito, Thad.

- Eu também não. Penso que, na pior das hipóteses, admitiria que eu j sabia de antemão que o crime ia acontecer.

Era bastante mais prov vel que acreditasse que eu tinha corrido c para cima depois de ele se ter ido embora esta noite.

- Porque é que farias uma coisa dessas? Porquê?

- Creio que a insanidade seria a primeira hipótese - respondeu Thad secamente. - Acho que seria muito mais prov vel que um polícia como o Pangborn pensasse em insanidade em vez de aceitar uma ocorrência que não parece ter uma explicação plausível fora do campo do paranormal.

Mas se achas que faço mal em não contar uma coisa destas enquanto eu próprio não tiver uma hipótese de dar algum sentido a tudo isto (e pode ser que seja assim) dize-me.

Podemos telefonar para o gabinete do xerife de Castle Rock e deixar-lhe uma mensagem.

- Não sei - respondeu Liz, abanando a cabeça. - Ouvi falar (num talk-showl qualquer, acho eu) em elos parapsíqUiCOS...

- Acreditas nisso?

- De certa forma, nunca tive qualquer motivo para reflectir muito sobre esse assunto - respondeu ela. - Agora j acho que tenho. - Esticou a mão e agarrou na folha de papel com as palavras rabiscadas sobre a superfície. - Escreveste isto com um dos l pis do George - disse.

- Era a coisa mais próxima … mão, é tudo - retorquiu ele com irritação. Thad pensou por uns instantes na caneta Scripto, tendo-a, de seguida, afastado do pensamento. - E não são, nem nunca foram, os l pis do George. São meus.

Estou a ficar farto de te referires a ele como uma pessoa separada. Por mais pequena que fosse, j perdeu toda a graça que alguma vez pudesse ter tido.

- No entanto, ainda hoje utilizaste uma das expressões dele: "Mentir quanto ao meu libi". Nunca te tinha ouvido dizer uma tal frase, excepto no contexto de um livro. Foi apenas uma mera coincidência?

Thad fez menção de dizer que era, que est claro que era, e parou. Provavelmente fora, mas, … luz do que escrevera naquela folha de papel, como é que podia ter tanta certeza assim?

- Não sei.

- Estavas em transe, Thad? Estavas em estado de transe quando escreveste isto?

Lenta e relutantemente, ele replicou:

- Sim. Penso que estava.

- Só aconteceu isto? Ou aconteceu mais alguma coisa?

- Não me lembro - respondeu ele, tendo acrescentado num tom ainda mais relutante: - Acho que devo ter dito mais alguma coisa, mas, sinceramente, não me recordo.

Liz olhou para ele durante um longo espaço de tempo, após o qual afirmou:

- Vamos para a cama.

- Achas que vamos conseguir dormir, Liz?

Ela riu-se, desolada.

3

No entanto, vinte minutos mais tarde, quando Thad estava a deixar-se vencer pelo sono, a voz de Liz trouxe-o de volta.

- Tens de ir ao médico - disse. - Na segunda-feira.

- Desta vez não tenho tido dores de cabeça - protestou ele. - Apenas o som dos p ssaros. E aquela coisa esquisita que escrevi. - Thad fez uma pausa, acrescentando de seguida, esperançoso: - Não achas que se possa tratar de uma mera coincidência?

- Não sei o que é - retorquiu Liz - mas tenho de te confessar, Thad, que "coincidência" é uma das £ltimas hipóteses da minha lista.

Por alguma razão, os dois consideraram isto engraçado e, deitados na cama, abraçados um ao outro, trocaram risadinhas entre si, tentando fazer o mínimo barulho possível, de forma a não acordar os bebés. Em todo o caso, ficou de novo tudo bem entre eles: apesar de, nesta altura, Thad sentir que não podia ter a certeza absoluta de praticamente nada, esta era uma delas. A tempestade passara. O velho machado de guerra fora de novo enterrado, pelo menos por ora.

- Eu marco-te a consulta - disse ela, depois de as risadas terem passado.

- Não - retorquiu Thad. - Eu marco.

- E não vais ceder a nenhum esquecimento imaginativo?

- Não. Vai ser a primeira coisa a fazer na segunda de manhã. Prometo.

- Muito bem, então. - Suspirou: - Ser um milagre se conseguir dormir alguma coisa. - No entanto, cinco minutos mais tarde, Liz respirava suave e regularmente e, não menos de cinco minutos mais tarde, o próprio Thad estava a dormir.

4

E sonhou de novo o mesmo sonho.

Foi o mesmo (ou, de qualquer modo, assim pareceu ser}

exactamente até ao fim: Stark levava-o através da casa deserta, permanecendo constantemente atr s dele, dizendo-Lhe que estava enganado sempre que Thad insistia, numa voz trémula e agitada, que esta era a sua própria casa. Est s muito enganado, respondia Stark por detr s do ombro direito (ou seria do esquerdo? E ser que isso importava?).

O propriet rio desta casa, repetia mais uma vez a Thad, estava morto. O propriet rio desta casa estava naquele local fictício onde todas as linhas de comboio terminavam, naquele local a que todas as pessoas aqui em baixo (onde quer que aqui fosse) chamam Endsville. Exactamente tudo igual. Até que chegaram ao trio das traseiras da casa, onde Liz j não estava sozinha. Frederick Clawson tinha-se juntado a ela. Estava nu, coberto apenas por um incongruente casaco de cabedal. E estava tão morto quanto Liz.

Por cima do seu ombro, Stark disse de um modo ponderado:

- Aqui em baixo, isto é o que acontece aos bufos. São transformados em recheio de tolos. Agora, ele j est arrumado. Eu vou arrumar todos eles, um por um. Assegura-te apenas de que eu não tenha de te arrumar. Os pardais estão a voar de novo, Thad. Lembra-te disto. Os pardais estão a voar.

E depois, no exterior da casa, Thad ouviu-os: não apenas milhares deles mas milhões, talvez até milhões de milhões, e o dia ficou negro … medida que o gigantesco bando de p ssaros começou a atravessar o sol, que acabou por ficar totalmente eclipsado.

- Não consigo ver! - gritou Thad. Por detr s, George Stark sussurrou:

- Eles estão a voar de novo, velha carcaça. Não te esqueças. E não te metas no meu caminho.

Thad acordou, a tremer e cheio de frio por todo o corpo e, desta vez, demorou bastante mais tempo a pegar de novo no sono. Deixou-se ficar deitado no escuro, a pensar em quão absurda era a ideia que o sonho trouxera: talvez no primeiro sonho j a tivesse trazido, mas, nessa altura, não fora tão clara. Totalmente absurda. O facto de ter sempre visualizado Stark e Alexis Machine como iguais (e porque não, dado que, em termos muito pr ticos, ambos tinham nascido na mesma altura, com A Vontade de Machine), ambos altos e de ombros largos - homens que não pareciam ter crescido mas que pareciam ter sido, de certa forma, esculpidos a partir de blocos de cimento - e ambos louros...

esse facto não alterava o absurdo da ideia. Os pseudónimos não ganhavam vida e assassinavam pessoas. Ele diria isso a Liz ao pequeno-almoço e ambos se iriam rir da ideia...

bem, talvez não se rissem mesmo, considerando as circunstƒncias, mas compartilhariam um sorriso pesaroso.

"Vou chamar a isto o meu complexo de William Wilson", pensou Thad, deixando-se adormecer aos poucos.

Mas quando a manhã sobreveio, o sonho não pareceu ser suficientemente importante para ser contado; não depois de tudo o resto. E, assim, Thad não contou... mas … medida que o dia ia passando, verificou que o seu pensamento voltava sempre e sempre a ele, considerando-o uma jóia misteriosa.