A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 20 de 26

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A Metade Sombria

A Fuga de Thad

Vinte e dois

A FUGA DE THAD

1

"Imagina que é um livro que estas a escrever", pensou ele ao virar para a esquerda em direcção a College Avenue, deixando o campus atr s de si. "E imagina que •s uma personagem desse livro."

Era um pensamento m gico. A mente de Thad estivera tomada por um pƒnico avassalador - uma espécie de tornado mental onde os fragmentos de um possível plano giravam sobre si como pedaços de paisagem arrancada pela raíz. Contudo, perante a ideia de poder imaginar que tudo isto não passava de uma ficção inócua, de poder guiar o destino não apenas de si próprio mas de todas as outras personagens nesta história (personagens como Harrison e Manchester, por exemplo), tal como guiara o destino das personagens no papel, na segurança do seu escritório com luzes claras presas ao tecto e uma lata fria de Pepsi ou uma ch vena quente de ch a seu lado... perante esta ideia, era como se, subitamente, o vento que soprava por entre as orelhas começasse a amainar por si só. A merda alheia voava juntamente com ele, deixando Thad com os restos do seu plano espalhados por aqui e por ali... restos que ele descobrira ser capaz de reconstituir com bastante facilidade.

Thad descobrira ter algo que até podia vir a funcionar.

"• melhor que funcione", pensou ele. "Caso contr rio, vais acabar em custódia preventiva e o mais prov vel é que a Liz e os mi£dos acabem mortos.,> Mas, e os pardais? Onde é que os pardais se encaixavam?

Thad não sabia. Rawlie dissera-lhe que eles eram psicopompos, os arautos dos mortos-vivos, e isso encaixava, não encaixava? Sim. Pelo menos até um certo ponto. Porque o velho George matreiro estava vivo de novo, mas o velho George matreiro estava também morto... morto e a apodrecer. Por isso os pardais encaixavam... mas não até ao fim. Se os pardais tinham guiado George de volta ("da terra dos mortos") de onde quer que ele estivesse estado, como é que o próprio George não sabia nada sobre eles? Como é que não se lembrava de escrever aquela expressão, "OS PARDAIS ESTŽo A VOAR DE NOVO", com sangue, nas paredes de dois apartamentos?

- Porque fui eu quem a escreveu - murmurou Thad entre dentes, e a sua mente precipitou-se para tr s, para as coisas que escrevera no di rio enquanto estivera sentado no escritório, … beira de um estado de transe.

"Pergunta: Os p ssaros são meus?

Resposta: Sim.

Pergunta: Quem é que escreveu aquelas coisas sobre os pardais?

Resposta: Aquele que sabe... Eu sou aquele que sabe. Eu sou aquele que possui.,> De s£bito, todas as respostas vacilaram, praticamente ao seu alcance: as respostas horríveis e impens veis. Thad escutou um som longo e débil escapar da sua boca. Era um gemido.

"Pergunta: Quem trouxe George Stark de volta … vida?

Resposta: Aquele que possui. Aquele que sabe."

- Não fiz de propósito ! - exclamou.

Mas seria isso verdade? Seria-o de facto? Não houvera sempre uma parte dele apaixonada pela natureza simples e violenta de George Stark? Não houvera sempre uma parte dele que admirara George, um homem que não tropeçava nas coisas ou esbarrava nas coisas, um homem que nunca parecia fraco ou tonto, um homem que nunca teria de temer os demónios fechados no arm rio das bebidas? Um homem sem mulher ou filhos com que se preocupar, sem amores para o prender ou para o reter? Um homem que nunca tivera de ler até ao fim uma dissertação medíocre de um estudante ou que sofrera com a ideia de uma reunião da comissão orçamental? Um homem que dispunha de respostas directas e perspicazes a todas as perguntas mais difíceis da vida? Um homem que não tinha medo do escuro porque possuia o escuro?

- Sim, mas ele é um FILHO DA MãE! - berrou Thad para o interior aquecido do seu funcional carro de fabrico americano de tracção …s quatro rodas.

"Certo, e uma parte de ti acha isso tão atraente, não acha?"

Talvez ele, Thad Beaumont, não tivesse verdadeiramente criado George... mas não seria possível que alguma parte ansiosa dele próprio tivesse permitido que Stark fosse recriado?

"Pergunta: Se possuo os p ssaros, posso utiliz' -los?

Não surgiu nenhuma resposta. Desejava surgir" Thad conseguia sentir o seu desejo premente. Mas a resposta dançava fora do seu alcance e, repentinamente, Thad receou que ele próprio - alguma parte de si apaixonada por "Stark - pudesse estar a mantê-la a distƒncia. Alguma parte que não queria que George morresse.

"Eu sou aquele que sabe. Eu sou aquele que possui. Eu sou aquele que traz."

Thad parou nos sem foros de Orono, após o que seguiu ao longo da Estrada 2, em direcção a Bangor, deixando Ludlow para tr s.

Rawlie fazia parte do seu plano" uma parte do qual ele tinha, pelo menos, compreendido. O que é que faria se conseguisse, realmente, despistar os polícias que o seguiam e acabasse por verificar que Rawlie ja deixara o seu gabinete?

Thad não sabia.

O que é que faria se Rawlie l estivesse mas se recusasse a ajud -lo?

Também isso ele não sabia.

"Quando e se me deparar esses problemas, então pensarei neles."

E deparar-se-lhe-iam bem depressa.

Neste momento, Thad estava a passar pelo Gold's, a su… direita. O Gold's era um edifício comprido e tubular em placas de alumínio pré-fabricadas. Estava pintado num tom azul-esverdeado particularmente desagrad vel e rodeado por um enorme terreno coberto por carros abandonados. Os para-brisas destes £ltimos cintilavam a luz do sol encoberta, formando uma gal xia de brancos pontos estrelados. Era s bado … tarde" h cerca de vinte minutos que j o era. Liz e o seu raptor sombrio deviam estar a caminho de Castle Rock. E, apesar de haver um empregado ou duas casas de peças para automóveis abertas ao fim-de-semana para os incidentes casuais no edifício pré-fabricado onde Gold's fazia o seu negócio, era uma esperança razo vel supor que o ferro-velho em si estivesse vazio. Com quase cerca de dois mil carros em diversos estados de decomposição, dispostos em dezenas de filas ziguezagueantes, ele deveria conseguir esconder o Suburban... e tinha mesmo de o esconder.

Alto, quadrado, cinzento com frisos laterais encarnados, sobressaía como um polegar inchado.

"ABRANDE - ESCOLA", dizia o sinal que se aproximava. Thad sentiu uma moinha quente nas entranhas. Era aqui.

Para se certificar, olhou pelo espelho retrovisor e viu que o Plymouth continuava atr s dele, com dois carros de permeio. Não era tão bom quanto desejava, mas era, provavelmente, o melhor que conseguia arranjar. Quanto ao resto, teria de contar com um pouco de sorte e de surpresa.

Eles não estavam … espera que ele fosse quebrar a rotina"

porque haveriam de estar? E, por um instante, Thad pensou em não fazê-lo. Suponhamos que, em vez disso, se limitava a encostar o carro e a parar? E quando eles encostassem e parassem o carro atr s dele e Harrison saísse c para fora para perguntar o que se estava a passar, responderia: "Tudo.

Stark tem a minha família. • que, sabe, os pardais ainda estão a voar."

"Thad, ele diz que matou os dois polícias que estavam a vigiar a casa. Não sei como o fez, mas ele diz que o fez...

e eu... eu acredito nele."

Também Thad acreditava nele. E isso é que era o pior.

E era essa razão pela qual ele não podia, pura e simplesmente, parar o carro e pedir ajuda. Se tentasse alguma graça, Stark saberia. Thad não acreditava que Stark conseguisse ler os pensamentos dele, pelo menos não da maneira como os extraterrestres leem os pensamentos nos livros aos quadradinhos e nos filmes de ficção científica, mas conseguia "entrar em sintonia" com Thad... conseguia ter uma boa ideia daquilo que ele andava a fazer. Ele até podia ser bem capaz de preparar uma surpresazinha para George - isto e, se conseguisse p“r as ideias em ordem sobre os malditos p ssaros - mas, para j , Thad pretendia jogar de acordo com o guião.

Isto é, se conseguisse.

Aqui estava o cruzamento da escola, com paragem obrigatória para as quatro vias diferentes. Como sempre, encontrava-se atafulhado de trƒnsito" durante anos, ocorreram in£meras pequenas colisões neste cruzamento, a maioria causada pelas pessoas que, pura e simplesmente não conseguiam compreender a ideia de uma paragem obrigatória nas quatro vias. Em vez disso, toda a gente virava para onde queria e chocava com outros para abrir caminho.

Uma enxurrada de cartas, a maioria escrita por pais preocupados, pedindo que o m£nicípio colocasse sem foros no cruzamento, surgia na sequência de cada um dos acidentes, a que se seguia uma declaração dos membros do Conselho M£nícipal de Veazie dizendo que a hipótese de um sem foro "estava a ser tomada em linha de conta"... e, de seguida. o assunto acabava por ficar esquecido até a colisão seguinte .

Thad juntou-se … fila de carros que queriam atravessar o cruzamento em direcção a sul, certificando-se de que o Plymouth castanho estava ainda a dois carros de distƒncia. De seguida, p“s-se a observar a habitual troca de mesuras no cruzamento - agora passo eu, agora passas tu... Viu um carro repleto de senhoras de cabelo azul que quase chocou com um casal jovem num Datóun Z, viu a rapariga no Z bradar para as senhoras de cabelo azul, e viu que ele próprio atravessaria de norte para sul antes de um comprido camião-cisterna do fabricante de lactícinios Grant's Dairy atravessar de leste para oeste. Que oportunidade tão inesperada.

O carro … sua frente atravessou e, agora, era a vez de Thad. A moinha quente atacou de novo o est“mago. Por uma £ltima vez, Thad olhou pelo espelho retrovisor. Harrison e Manchester continuavam a dois carros de distƒncia.

Alguns automóveis entrecruzaram-se … sua frente. … esquerda, o camião-cisterna de leite colocou-se em posição.

Thad respirou fundo e, mantendo a velocidade, conduziu o Suburban através do cruzamento. Uma carrinha pick-up,que se dirigia para norte, em direcção a Orono, passou por ele na outra faixa.

Do mais fundo de si, Thad foi tomado por um ímpeto praticamente irresistivel - uma necessidade - de carregar no acelerador até ao fundo e de arrancar com o Suburban pela estrada fora. Em vez disso, continuou a conduzir a uma velocidade serena e perfeitamente legal para uma zona de escola, ou seja, a vinte e cinco quilómetros a hora, com os olhos colados no espelho retrovisor. O Plymouth estava ainda … espera na fila para atravessar, a dois carros de distƒncia.

"Olha aqui, camião do leite!" pensou, concentrando-se, fazendo mesmo pressão física, como se conseguisse fazer com que as coisas acontecessem pela simples força de vontade... como levava as pessoas e as coisas a entrarem e sairem do romance pela simples força de vontade. "V l , camião do leite!"

E o camião foi mesmo, atravessando o cruzamento numa dignidade lenta e prateada, como uma viuva mecanizada.

No segundo em que o camião tapou o Plymouth castanho-escuro no espelho retrovisor, Thad p“s prego a fundo no pedal do Suburban.

2

A meio do quarteirão seguinte, havia uma curva para a direita. Thad dobrou-a e, bramindo, subiu pela pequena rua acima a sessenta, rezando para que nenhum mi£do decidisse escolher este instante exacto para ir a correr atr s da bola de borracha para o meio da estrada.

Quando Lhe pareceu que se tratava de um beco sem saída, assolou-o uma sensação desagrad vel. Foi então que se apercebeu de que, afinal de contas, podia fazer uma outra curva a direita: a rua transversal fora parcialmente bloqueada pela sebe alta que pertência … casa da esquina.

No entroncamento em forma de T, Thad parou bruscamente o carro, acabando por guinar para a direita, tendo os pneus chiado ligeiramente. Cento e cinquenta metros mais acima, tornou a virar a direita e acelerou o Suburban até ao cruzamento dessa rua com a Estrada 2. Conseguira voltar de novo a estrada principal, desta vez a cerca de quinhentos metros para norte do cruzamento das quatro vias. Se, tal como esperava, o camião do leite tivesse tapado a curva que fizera para a direita, o Plymouth castanho estaria ainda a dirigir-se para sul pela Estrada 2. Talvez ainda nem se tivessem apercebido de que algo de errado se estava a passar, embora Thad tivesse sérias d£vidas de que Harrison fosse assim tão est£pido. Manchester talvez, mas não Harrison.

Thad virou … esquerda, acelerando de tal modo para o meio do trƒnsito que levou o condutor de um Ford na faixa em direcção a sul a travar a fundo. O condutor do Ford mostrou o punho a Thad quando este se atravessou … sua frente e se dirigiu de novo para o Ferro-Velho Gold's, mais uma vez com prego a fundo. Se, por um mero acaso, um polícia a pé o visse não apenas a ultrapassar o limite de velocidade, mas, aparentemente, a tentar desintegr -lo, isso seria muito mau.

Thad não podia dar-se ao luxo de demorar. Ele tinha de tirar este automóvel, que era demasiado grande e brilhante, do meio da estrada o mais depressa possível.

Até ao ferro-velho de automóveis faltavam quinhentos metros. Thad conduziu a maior parte desta distƒncia com os olhos pregados no espelho retrovisor, em busca do Plymouth.

Quando virou para a esquerda, em direcção ao Gold's, nem sinal dele.

Com lentidão, Thad conduziu o Suburban através de um portão aberto na vedação composta por elos de corrente. Um aviso, com letras vermelhas desbotadas sobre um fundo branco sujo, dizia "ENTRADA RESTRITA A EMPREGADOS!" Num dia de semana, teria sido imediatamente topado e haveria que retroceder. No entanto, est vamos num s bado e, neste momento, bem a meio da hora do almoço, o que tornava ainda mais improv vel ser apanhado.

Thad guiou ao longo de um caminho, delimitado de um lado e do outro por carros destruidos, empilhados uns em cima dos outros, por vezes com dois ou até com três de altura. Os que estavam em baixo tinham perdido a sua forma original, parecendo estarem lentamente a derreter-se e a fundir-se com o solo. A terra estava de tal forma enegrecida com óleo que qualquer pessoa pensaria que nada conseguiria crescer neste chão" contudo, ervas daninhas verdes e viçosas e girassóis enormes e silenciosamente inclinados brotavam do chão em ramalhetes vistosos, como os sobreviventes de um holocausto nuclear. Um girassol gigantesco crescera por entre o para-brisas partido de um camião de pão, deitado de costas como um cão morto. O seu caule verde e peludo enroscara-se como um punho enredado … volta da estrutura de uma roda, e um segundo punho enredara-se no símbolo do capot de um Cadillac antigo que se encontrava por cima do camião. Parecia estar a fitar Thad com o olho preto e amarelo de um monstro morto.

Tratava-se de uma necropole grande e silenciosa, própria de Detroit', o que dava arrepios a Thad.

Virou … direita e, de seguida, … esquerda. Subitamente, Thad conseguia ver pardais por todos os lados, empoleirados nos telhados, nos ramos das rvores e nas m quinas gordurosas decepadas. Viu um trio de passarinhos a banharem-se numa tampa repleta de gua. Quando Thad se aproximou, os p ssaros não voaram, embora tivessem parado de fazer o que estavam a fazer, fitando-o com os olhinhos pretos e brilhantes. Pardais cobriam a parte de cima de um para-brisas, inclinado contra o lado de um Plymouth antigo.

Thad passou a cerca de um metro deles, levando-os a bater nervosamente as asas, embora se mantivessem na mesma posição.

"Os arautos dos mortos-vivos", pensou Thad, levando a mão … pequena cicatriz branca na testa, que começou a esfregar nervosamente.

Ao passar por um Datóun e ao olhar através daquilo que parecia ser um buraco feito por um meteoro no para-brisas, Thad vislumbrou uma grande mancha de sangue seco no tablier.

"Não foi um meteoro que fez aquele buraco", pensou, e o seu est“mago começou, lenta e vertiginosamente, a dar voltas.

Uma congregação de pardais sentou-se no banco da frente do Datóun.

- Que é que vocês querem de mim? - perguntou com uma voz rouca. - Em nome de Deus, o que é que vocês querem?

E, na sua mente, Thad pareceu ouvir uma resposta mista"

na sua mente, pareceu-lhe ouvir a voz una e esganiçada da sua inteligência avi ria: "Não, Thad - o que é que TU queres de NóS? Tu és aquele que possui. Tu és aquele que traz. Tu és aquele que sabe."

- Não sei peva - murmurou Thad.

No fim desta fila de carros, havia espaço diante de um Cutlass Supreme £ltimo modelo: alguem arrancara a parte inteira da frente. Em marcha atr s, Thad arrumou o Suburban nesse lugar e saiu. Olhando de um lado para o outro do caminho estreito, sentiu-se um pouco como uma ratazana num labirinto. O lugar cheirava a óleo e ao odor mais intenso e mais acido do liquido de transmissão. Os £nicos sons audiveis eram o ronco distante dos carros na Estrada 9 .

Os pardais observavam-no de todos os cantos: uma pequena assembleia de passarinhos castanho-escuros.

De repente, abruptamente, todos eles levantaram voo ao mesmo tempo: dezenas deles, talvez centenas. Por um instante, o ar adquiriu um ruido estranho com o som produzido pelas asas. Os pardais atravessaram o céu em bando, virando de seguida para leste - na direcção da localização de Castle Rock. E, abruptamente, Thad começou a sentir de novo aquela sensação de formigueiro... não tanto sobre a pele mas dentro dela.

"Estamos a tentar dar uma espreitadelazinha, George?"

Baixinho, Thad começou a cantar uma canção de Bob Dylan:

- "John Wesley Harding... era amigo dos pobres...

viajava com uma arma em cada mão.....

, Aquela sensação de formigueiro e de comichão pareceu aumentar. Assentou e centrou-se no buraco da mão esquerda. Ele podia estar totalmente enganado, de tal modo estava concentrado em desejar uma coisa com todas as suas forças e nada mais, mas Thad parecia conseguir pressentir ódio... e frustração.

"Ao longo do telégrafo... o seu nome ressoava..."

Thad cantava baixinho. Diante de si, caído no solo oleoso como o vestígio contorcido de uma qualquer est tua de aço que, antes de mais, nunca ninguem quisera realmente ver, estava o suporte enferrujado de um motor. Thad apanhou-o do chão e dirigiu-se de novo para o Suburban, ainda a cantar trechos de John Wesley Harding baixinho e a recordar-se do seu velho companheiro guaxinim do mesmo nome. Se conseguisse camuflar o Suburban fazendo-lhe umas boas amolgadelas, se conseguisse dar a si próprio umas duas horas de avanço, isso poderia significar a diferença entre a vida e a morte para a Liz e para os gémeos.

- "Por todo o campo"... desculpa l , amigão, isto dói-me mais a mim do que a ti... "abriu muitas portas..."

Thad lançou o suporte do motor contra o lado do condutor do Suburban, fazendo uma amolgadela tão funda como uma bacia.

Tornou a pegar no motor, contornou o Suburban e postou-se diante da parte da frente do carro, tendo-o atirado contra a grade, com força sufíciente para deslocar o ombro. Pedaços de pl stico fragmentaram-se e voaram. Thad abriu o capot e ergueu-o um pouco, conferindo ao Suburban o sorriso de um crocodilo morto que parecia ser a versão Gold's da haute couturei automóvel.

- "... mas nunca ninguem soube que ele tivesse magoado um homem honesto..."

Thad tornou a pegar no motor, dando-se conta de que, ao fazê-lo, sangue fresco começara a manchar a ligadura que envolvia a mão ferida. Não havia nada que, neste momento, pudesse fazer quanto a isso.

- "... com a sua dama junto de si, tomou uma posição.....

Thad atirou o motor pela £ltima vez, lançando-o através do para-brisas com um grande estrépito, o que - por muito absurdo que pudesse parecer - Lhe doeu bem fundo no coração.

Thad concluiu que, nesta altura, o Suburban j se assemelhava o sufíciente com os outros carros destruídos para passar despercebido.

Começou a subir pela fila acima. No primeiro cruzamento, virou … direita, dirigindo-se de novo para o portão e para a loja de venda de peças por detr s. Quando entrara a conduzir o carro, Thad vira uma cabina telefónica na parede junto … porta. A meio do caminho, parou de andar e parou de cantar. Empertigou a cabeça. Parecia-se com um homem a esforçar-se para escutar o mais infimo som. Mas aquilo que estava realmente a fazer era a ouvir o seu corpo, a perscrut -lo.

A comichão e o formigueiro haviam desaparecido.

Os pardais tinham desaparecido, e George Stark tambem, pelo menos por enquanto.

Esboçando um leve sorriso, Thad começou a andar mais depressa.

3

Após dois toqões, Thad começou a transpirar. Se Rawlie ainda l estivesse, j deveria ter atendido o telefone.

Afinal de contas, os gabinetes no Edifício de Inglês-Matem tica não eram assim tão grandes. A quem mais poderia ele telefonar? Quem mais é que estaria l ? Thad não conseguia lembrar-se de ninguem.

A meio do terceiro toque, Rawlie atendeu o telefone do seu gabinete.

- Daqui DeLesseps.

Perante o som daquela voz enrouquecida pelo tabaco, Thad fechou os olhos e, por um instante, encostou-se contra o metal frio da parte lateral da loja de peças.

- Est l ?

- Ol , Rawlie. Daqui Thad.

- Ol , Thad. - Rawlie não pareceu muito surpreendido por ouvir a voz dele. - Esqueceste-te de alguma coisa?

- Não. Estou metido em apuros, Rawlie.

- Sim. - Apenas isso e nem uma £nica pergunta.

Rawlie disse a palavra e ficou … espera.

- Sabes aqueles dois... - Thad hesitou por um instante... aqueles dois tipos que estavam comigo?

- Sim - retorquiu Rawlie calmamente. - A escolta polícial.

- Despistei-os - afirmou Thad, olhando de relance por cima do ombro ao ouvir o ruido de um carro a entrar no monte de porcaria que servia de parque de estacionamento para os clientes do Gold's. Por um instante, Thad teve a certeza absoluta de que vira realmente o Plymouth castanho... porém, era um carro qualquer estrangeiro e aquilo que, … primeira vista, ele tomara como castanho era um encarnado-escuro esbatido pela poeira da estrada, e o condutor estava apenas a fazer a curva. - Pelo menos espero tê-los despistado. - Fez uma pausa. Thad chegara ao ponto onde a £nica escolha era saltar ou não saltar, e não havia tempo para atrasar a decisão. No fundo, nem havia sequer uma decisão a ser tomada porque não havia qualquer escolha a fazer. - Preciso de ajuda, Rawlie. Preciso de um carro que eles não conheçam.

Rawlie permaneceu silencioso.

- Disseste que se houvesse alguma coisa que pudesses fazer por mim, era só pedir.

- Estou ciente daquilo que disse - replicou Rawlie numa voz serena. - Também me lembro de te ter dito que se aqueles dois homens andavam atr s de ti com a missão de te protegerem, talvez fosse sensato dar-lhes toda a ajuda possivel. - Fez uma pausa. - Penso que posso inferir que escolheste não seguir o meu conselho.

Thad esteve prestes a dizer: "Não podia, Rawlie. O homem que tem a minha mulher e os nossos bebés limitar-se-ia também a mat -los." Não se tratava do facto de não se atrever a contar a Rawlie o que se estava a passar, de que Rawlie pudesse pensar que ele estava louco se o fizesse", os professores universit rios tem opiniões muito mais flexiveis sobre a questão da loucura do que a maioria das outras pessoas e, por vezes, não tem sequer uma opinião sobre esse assunto, preferindo ver as pessoas como monótonas (massas), bastante excêntricas (massas) ou muito excêntricas (mas ainda bastante sãs, meu caro). Thad manteve-se calado porque Rawlie DeLesseps era um daqueles homens tão virados para o interior que, provavelmente, não haveria nada que pudesse dizer para o persuadir... e tudo o que pudesse sair daquela boca, provavelmente só iria prejudicar o seu caso. Mas, virado para o interior ou não, o gram tico tinha um bom coração... … sua maneira, era corajoso... e Thad acreditava que Rawlie estava mais do que um bocadinho interessado naquilo que se estava a passar com ele, com a escolta polícial e com o seu peculiar interesse por pardais. No fundo, Thad simplesmente acreditava - ou apenas esperava - que, no seu melhor interesse, era melhor manter-se calado.

Ainda assim, era difícil esperar.

- Est bem - disse Rawlie por fim. - Empresto-te o meu carro, Thad.

Thad fechou os olhos, tendo de esticar os joelhos para impedir que estes dessem de si. Passou a mão pelo pescoço, debaixo do queixo, e esta surgiu h£mida com a transpiração.

- Mas espero que tenhas a decência de pagar todos os consertos se o carro regressar... amolgado - afirmou Rawlie. - Se és um fugitivo da justiça, tenho c as minhas d£vidas que a seguradora pague alguma coisa.

Um fugitivo da justiça? Porque tinha escapado de debaixo das asas dos polícias que não poderiam, de forma alguma, protegê-lo? Thad não sabia se isso o tornava ou não um fugitivo da justiça. Era uma questão interessante sobre a qual teria de ponderar mais tarde. Mais tarde, quando não estivesse meio louco de preocupação e de medo.

- Sabes que o faria.

- Tenho uma outra condição - disse Rawlie.

Thad tornou a fechar os olhos. Desta vez em sinal de frustração.

- Qual é?

- Quando tudo isto acabar, quero saber a história toda - retorquiu Rawlie. - Quero saber porque é que estavas tão interessado em conhecer o significado dos pardais na mitologia e porque ficaste tão branco quando te contei o que eram os psicopompos e o que é suposto eles fazerem.

- Fiquei branco?

- Como a cal da parede.

- Conto-te a história toda - prometeu Thad, esboçando um leve sorriso. - Talvez até consigas acreditar numa parte.

- Onde é que est s? - perguntou Rawlle.

Thad disse-lhe. E pediu-lhe que viesse o mais rapidamente possível.

Thad desligou o telefone, tornou a atravessar o portão na vedação composta por elos de corrente e sentou-se no para-choques comprido de uma carrinha de escola que, por alguma razão, fora cortada ao meio. Era um bom sitio para esperar, j que esperar era aquilo que tinha de ser feito.

Apesar de estar escondido da estrada, bastava-lhe inclinar-se para a frente para ver a zona suja do parque de estacionamento da loja de peças. Olhou em seu redor, … procura de pardais, mas não viu nenhum: apenas um corvo grande e gordo a debicar, com indiferença, pedaços brilhantes de cromados num dos corredores entre os carros abandonados. A ideia de que terminara a sua segunda conversa com George Stark apenas h pouco mais de meia hora fê-lo sentir-se ligeiramente irreal. Parecia que, desde então, tinham passado horas. Apesar do nível regular de ansiedade em que se encontrava sintonizado, Thad sentia-se sonolento, como se j fosse hora de ir para a cama.

Cerca de quinze minutos após a conversa com Rawlie, aquela sensação de formigueiro e de comichão começou a invadi-lo de novo. Thad cantou aqueles trechos de John Wesley Harding de que ainda se recordava e, após um ou dois minutos, a sensação passou.

"Talvez seja psicossom tico", pensou, embora soubesse que isso não passava de tretas. A sensação era produzida por George a tentar abrir um buraquinho na sua mente e, … medida que Thad foi ficando mais ciente disso, também se tornou mais sensível a ela. Thad supunha que isso também funcionaria ao contr rio. E supunha que, mais cedo ou mais tarde, talvez tivesse de tentar fazer com que isso funcionasse ao contr rio... mas isso significava tentar chamar os p ssaros de novo e não era algo que desejasse por aí alem. E havia também ainda uma outra coisa: a £ltima vez que ele conseguira espreitar para dentro de George Stark, acabara com um l pis espetado na mão esquerda.

Os minutos passaram com uma terrível lentidão. Após vinte e cinco minutos, Thad começou a temer que Rawlie pudesse ter mudado de ideias e não fosse ter com ele. Deixou o para-choques do autocarro desconjuntado e postou-se junto ao portão, entre o cemitério de automóveis e a zona de estacionamento, sem se importar com que o vissem da estrada. Começou a interrogar-se se não se atreveria a pedir boleia.

Em vez disso, decidiu voltar a ligar para o gabinete de Rawlie, encontrando-se a meio do caminho em direcção ao edifício pré-fabricado de venda de peças quando um carocha poeirento entrou no parque. Thad reconheceu-o de imediato, tendo desatado a correr, pensando, com alguma graça, nas preocupações de seguro de Rawlie. Ele estava convencido que era possível pagar o VW e ainda os danos feitos com a tara de uma caixa de garrafas de gasosa.

Rawlie parou o carro ao lado da extremidade do edifício de venda das peças e saiu. Thad ficou um pouco surpreso ao ver que o cachimbo estava aceso e a deitar umas grandes baforadas daquilo que, numa sala fechada, poderia ser considerado um fumo extremamente desagrad vel.

- Não devias estar a fumar, Rawlie - foi a primeira coisa que lhe veio … cabeça.

- E tu não devias estar a fugir - retorquiu Rawlie de voz séria.

Entreolharam-se por um instante, tendo os dois, de seguida, desatado a rir, um riso de surpresa.

- Como é que vais para casa? - perguntou Thad. Agora que j chegara a este ponto - bastava saltar para dentro do carrinho de Rawlie e seguir a longa e sinuosa estrada até Castle Rock - parecia-lhe não restar mais nada no seu armazém de tópicos de conversa excepto non sequiturs.

- Penso que vou chamar um t xi - respondeu Rawlie, observando as colinas e os vales cintilantes de carros abandonados. - Creio que devem vir até aqui com muita frequência buscar tipos que se juntam aos Grandes Sem Montada.

- Deixa-me dar-te cinco dólares...

Thad tirou a carteira do bolso de tr s, mas Rawlie fez-Lhe sinal com a mão de que não queria.

- Para um professor de Inglês no Verão, estou carregado - disse. - Ora, devo ter mais de quarenta dólares. Até é de admirar que a Billie me deixe andar por aí sem um guarda-costas. - Com um grande prazer, Rawlie puxou uma grande baforada do seu cachimbo, tirou-o da boca e sorriu para Thad. - Mas vou pedir um recibo ao taxista e, na altura devida, dou-te. Não temas porque não me esqueço .

- Ja tinha começado a pensar que não ias aparecer.

- Parei numa loja dos trezentos - disse Rawlie. - Comprei duas coisas que pensei que te deviam fazer falta, Thaddeus. - Debruçou-se para a parte de tr s do carocha (que descaiu nitidamente para a esquerda sobre uma mola que estava partida ou em breve o estaria) e, após algum tempo a rebuscar, a resmungar e a lançar nuvens de poluição, tirou c para fora um saco de papel, que entregou a Thad.

Este olhou l para dentro e viu um par de óculos de sol e um bone de beisebol dos Boston Red Sox, que, felizmente, cobriria na quase totalidade o seu cabelo. Thad olhou para Rawlie, disparatadamente emocionado.

- Muito obrigado, Rawlie.

Rawlie acenou uma mão e lançou a Thad um sorriso matreiro e malícioso.

- Talvez seja eu quem te deva agradecer - disse. - Nos £ltimos meses, tenho andado … procura de uma desculpa para deixar vir ao de cima o velho calhorda de sempre. Os motivos surgiam de vez em quando: o divórcio do meu filho mais novo, a noite em que perdi cinquenta dólares a jogar póquer na casa de Tom Carroll, mas nada parecia ser bastante... sufícientemente apocaliptico.

- Não h duvida alguma de que isto é apocaliptico - retorquiu Thad, estremecendo ligeiramente. Olhou para o relógio. Era quase uma da tarde. Stark tinha, pelo menos, uma hora de vantagem sobre ele, talvez até mais. - Tenho de ir andando, Rawlie.

- Sim. é urgente, não e?

- Temo bem que sim.

- Tenho mais uma outra coisa" enfiei-a no bolso do meu casaco para não a perder. Esta não veio da loja dos trezentos. Descobri-a na minha secret ria.

Rawlie começou a rebuscar metodicamente os bolsos do velho blusão de xadrez que vestia no Inverno e no Verão.

- Se a luz indicadora do óleo começar a acender, para num sitio qualquer e arranja um frasco de óleo Sapphire - disse ele, ainda … procura. - Isso é que é coisa reciclada.

Ah! Aqui est ! j estava a pensar que, afinal de contas, talvez a tivesse deixado no gabinete.

Do bolso, Rawlie tirou uma peça tubular de cortiça. Tinha mais ou menos o tamanho do dedo indicador de Thad e era oca. Um pequeno entalhe fora gravado numa das pontas. Parecia velho.

- Que é isto? - inquiriu Thad, pegando no objecto quando Rawlie Lho entregou. Mas ele j sabia a resposta, e sentiu um outro bloco da coisa impens vel que andava a planear encaixar no lugar devido.

- • um chamariz para p ssaros - respondeu Rawlie, perscrutando-o por cima da concavidade brilhante do seu cachimbo. - Se achas que ter s oportunidade de o usar, quero que fiques com ele.

- Muito obrigado - retorquiu Thad, colocando o apito dentro do bolso do peito com uma mão que não estava propriamente firme. - Talvez possa vir a ser de alguma ajuda.

Por debaixo da cerca entrelaçada das suas sobrancelhas, os olhos de Rawlie arregalaram-se e este tirou o cachimbo da boca.

- Duvido de que venhas a precisar dele - disse numa voz baixa e hesitante.

- O quê?

- Olha atr s de ti.

Thad virou-se, sabendo aquilo que Rawlie vira antes mesmo de ele próprio ter visto.

Agora, não se viam dezenas de pardais ou até mesmo centenas" os carros e camiões velhos empilhados nos dez acres de terreno do Ferro-Velho Gold's e da venda de peças estavam atapetados de pardais. Estes encontravam-se por toda a parte... e Thad ouvira a chegada de um só.

Com quatro olhos, os dois homens fitaram os p ssaros.

Os p ssaros devolveram-lhes o olhar com vinte mil... ou talvez quarenta mil olhos. Não fizeram um £nico ruido.

Limitaram-se a ficar empoleirados nos capotó, janelas, tejadiLhos, tubos exaustores, grelhas, blocos de motor, juntas universais e armações.

- Meu Deus - exclamou Rawlie com voz rouca. - Os psicopompos... o que é que isto quer dizer, Thad? O que é que isto quer dizer?

- Creio que só agora é que estou a começar a entender - replicou Thad.

- Meu Deus - repetiu Rawlie, erguendo as mãos por cima da cabeça e dando uma palmada com força. Os pardais não se mexeram. E não tinham qualquer interesse em Rawlie", era só para Thad Beaumont que estavam a olhar.

- Descubram George Stark - ordenou Thad numa voz serena: na verdade, não passava de um sussurro. - George Stark. Descubram-no. Voem!

Numa nuvem negra, os pardais ergueram-se no céu encoberto, com as asas a agitarem-se e a produzir um som que era semelhante a um relƒmpago transformado na renda mais fina, as gargantas a chilrearem. Dois homens que se encontravam dentro da loja de peças correram para fora, para verem o que se estava a passar. No céu, o £nico grupo negro inclinou-se e virou-se, tal como o outro grupo mais pequeno fizera, e dirigiu-se para o ocidente.

Thad olhou para cima, para eles, e, por um instante, esta realidade fundiu-se com a visão que marcava o início dos seus estados de transe", por um instante, passado e presente eram um só, entrelaçados num qualquer rabicho estranho e fabuloso.

Os pardais desapareceram.

- Deus Todo-Poderoso! - bramia um homem num fato-macaco de mecƒnico cinzento. - Viram aqueles p ssaros? De onde é que todos aqueles malditos p ssaros vieram?

- Tenho uma pergunta melhor - disse Rawlie, a olhar para Thad. Tinha de novo o dominio sobre si mesmo, mas era evidente que este fora fortemente abalado. - Para onde é que eles vão? Sabes, não sabes, Thad?

- Sim, é claro que sei - murmurou Thad enquanto abriu a porta do VW. - Também eu tenho de ir, Rawlie"

tenho mesmo de ir. Ficar-te-ei eternamente grato.

- Tem cuidado, Thaddeus. Tem muito cuidado. Nenhum homem controla os agentes da vida depois da morte.

Não por muito tempo" e h sempre um preço a pagar.

- Terei todo o cuidado que puder.

A dura alavanca das mudanças do VW protestou mas, por fim, cedeu e deixou entrar uma mudança. Thad fez uma pausa sufícientemente grande para colocar os óculos de sol e o bone de beisebol, acenando de seguida a mão para Rawlie e arrancou.

Ao virar para a Estrada 2, viu Rawlie a caminhar penosamente até a mesma cabina telefónica que ele próprio utilizara, tendo pensado: "Agora, TENHO de manter Stark fora disto. Porque agora tenho um segredo. Talvez não consiga controlar os psicopompos, mas, por breves momentos, sou, pelo menos, aquele que os possui - ou são eles que me possuem - e ele não pode saber disso."

Thad meteu a segunda e o Volkswagen de Rawlie DeLesseps começou a tremer ao entrar no reino vastamente inexplorado da velocidade acima dos sessenta quilómetros por hora.