A Metade Sombria

Stephen King · Capítulo 17 de 26

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A Metade Sombria

Em Cima do Prazo

Vinte

EM CIMA DO PRAZO

O dia em que a semana de graça de Thad Beaumont chegou ao fim assemelhava-se mais a um dia do final de Julho do que um dia da terceira semana de Junho. Thad guiou os cento e vinte e oito quilómetros que o separavam da Universidade do Maine sob um céu nublado de cor met lica, com o ar condicionado do Suburban ligado ao m ximo, apesar do gasto de gasolina. Era seguido por um Plymouth castanho-escuro, que nunca se aproximava mais do que o espaço de dois carros e nunca se deixava ficar para tr s mais do que o espaço de cinco carros. Só muito raramente é que permitia que um outro carro se metesse de permeio entre ele e o Suburban de Thad" se, por mero acaso, num cruzamento ou na zona de escola em Veazie, algum veículo conseguia meter-se no meio do desfile dos dois, o Plymouth castanho ultrapassava-o rapidamente... e se isto não parecesse ser imediatamente exequível, um dos guardiões de Thad retirava a cobertura da lƒmpada azul que se encontrava no tablier. Algumas luzes bastavam para conseguir o efeito desejado.

Thad guiava quase sempre com a mão direita, só utilizando a esquerda quando era absolutamente necess rio.

Agora, a mão j estava melhor, embora ainda Lhe doesse como tudo se a dobrasse ou a flectisse de forma brusca, tendo dado por si a contar os £ltimos minutos da hora que antecedia a altura de poder tomar um outro Percodan.

Liz não quisera que Thad fosse até … universidade naquele dia, e os polícias estaduais incumbidos de proteger os Beaumont também se haviam oposto a que ele fosse. Para os rapazes do Estado, era muito simples: não tinham querido dividir a equipa de vigia. Com Liz, as coisas eram um pouco mais complexas. Ela estava preocupada com a mão:

"ele podia abrir a ferida ao tentar guiar", dissera-lhe. No entanto, o que os olhos dela diziam era bem diferente: estavam repletos de George Stark. .

Antes de mais, por que raio é que tens de ir … escola precisamente hoje? quisera ela saber - e esta era uma pergunta para a qual Thad tivera de se preparar porque o semestre j tinha terminado (ali s, j terminara h um certo tempo atr s) e ele não estava a ministrar quaisquer cursos de Verão. Por £ltimo, Thad acabara por se decidir pelos dossiers do curso de especialização.

Sessenta alunos tinham-se candidatado ao curso de especialização do departamento em escrita criativa.

Tratava-se de mais do dobro dos alunos que se tinham candidatado ao curso de escrita do semestre anterior, mas (elementar, meu caro Watóon), no Outono passado, o mundo - incluindo aquela parte que escolhera como rea principal de estudos o inglês na Universidade do Maine - não sabia que o velho e enfadonho Thad Beaumont era, por acaso, o aterrorizante George Stark. Assim, dissera a Liz que era sua intenção ir buscar aqueles dossiers de candidaturas para começar a dar uma vista de olhos por eles e, deste modo, reduzir os sessenta candidatos a apenas quinze alunos - o m ximo que podia aceitar (e provavelmente catorze mais do que aqueles que conseguiria realmente ensinar) num curso de escrita criativa.

Como não podia deixar de ser, Liz quisera saber a razão pela qual ele não podia adiar aquilo, pelo menos até Julho, recordando-lhe (também como não podia deixar de ser)

que, no ano anterior, adiara até meados de Agosto. Ele voltou … desculpa do grande aumento das candidaturas, acrescentando de forma virtuosa que não pretendia que a preguiça do £ltimo Verão se transformasse num h bito.

Por fim, ela deixara de protestar - não porque os argumentos dele a tivessem convencido, concluiu Thad, mas porque se apercebera de que ele iria até l desse por onde desse. E ela sabia tão bem quanto ele que, mais cedo ou mais tarde, eles teriam de começar a sair de novo: escondidos em casa até alguém matar ou prender George Stark não era uma opção muito aprazível. Ainda assim, os olhos dela continuariam invadidos por um medo embotado e interrogativo.

Thad beijara-a e aos gémeos e saíra rapidamente. Ela dava a sensação de que iria desatar a chorar a qualquer momento e, se Thad ainda se encontrasse em casa quando assim o fizesse, ele ficaria em casa.

Não se tratavam das candidaturas para o curso de especialização, est claro.

Tratava-se do prazo.

Esta manhã, Thad acordara totalmente possuído pelo próprio medo indefinido, uma sensação tão desagrad vel como dores de barriga. George Stark telefonara na noite de 10 de Junho, tendo-lhe dado uma semana para avançar no romance sobre o roubo do carro armadilhado. Thad ainda não envidara quaisquer esforços para começar... embora, cada dia que passasse, conseguisse ver cada vez com mais nitidez como seria o livro. Até sonhara com ele umas duas vezes, o que constituía um intervalo agrad vel da visita que costumava fazer … sua casa deserta durante o sono e das coisas que explodiam quando tocava nelas. Contudo, esta manhã, o seu primeiro pensamento fora: "O prazo. Estou em cima do prazo."

Isso significava que chegara o momento de falar de novo com George, por muito pouco que o desejasse. Era a altura de descobrir se George estava muito zangado. Bem...

Thad acreditava que sabia a resposta a essa pergunta. Mas era perfeitamente possível que, se ele estivesse muito zangado, totalmente zangado, e se Thad conseguisse espicaç -lo ainda mais até o levar a perder por completo o domínio sobre si mesmo, o velho George matreiro podia muito bem cometer um deslize e deixar escapar alguma coisa.

"A perder a coesão."

Thad tinha a sensação de que George j deixara escapar alguma coisa quando permitira que a mão intrusa de Thad escrevesse aquelas palavras no seu di rio. Se ao menos pudesse ter a certeza do que queriam dizer. Thad tinha uma ideia... mas não a certeza. E, nesta altura, um erro podia significar mais do que apenas a vida dele.

Assim, l ,se encontrava a caminho da universidade, a caminho do seu gabinete no Edifício de Inglês-Matem tica.

Estava a caminho, não para apanhar os dossiers do curso de especialização - apesar de também o ir fazer - mas porque tinha l um telefone, um que não se encontrava sob escuta, e porque alguma coisa tinha de ser feita. Ele estava em cima do prazo. ao olhar de relance para a mão esquerda, que se encontrava em baixo sobre o volante, Thad pensou (e não pela primeira vez durante esta longa semana) que o telefone não era o £nico modo de entrar em contacto com George.

Ele j provara isso... mas o preço a pagar fora muito alto.

Não se tratava apenas do sofrimento excruciante ao espetar um l pis afiado na parte de tr s da mão, ou do horror de assistir a tudo isto enquanto o seu corpo descontrolado se feria a si próprio na sequência de uma ordem de Stark - o velho George matreiro, que parecia ser o fantasma de um homem que nunca existira. Thad pagara o preço real na sua mente. A chegada dos pardais constituíra o preço real pago por ele: o terror provocado pela percepção de que as forças aqui em jogo eram muito maiores e até muito mais incompreensíveis do que o próprio George Stark. Thad tinha cada vez mais a certeza de que os pardais significavam a morte. Mas de quem?

Estava apavorado só de pensar que talvez tivesse de p“r os pardais em risco apenas para entrar de novo em contacto com George Stark.

E conseguia vê-los a vir" conseguia vê-los a chegar ao ponto mítico a meio do caminho onde os dois se encontravam ligados, aquele lugar onde, possivelmente, teria de lutar com George Stark pelo controlo da £nica alma que partilhavam.

Ele temia saber quem saíria vencedor de uma luta naquele lugar.

2

Alan Pangborn sentou-se … sua secret ria nas traseiras do gabinete do xerife do Condado de Castle, que ocupava uma ala do Edifício M£nícipal de Castle Rock. Também para ele esta fora uma semana de grande tensão... ainda que isso fosse bastante banal. Uma vez chegado o Verão a The Rock, j se sabia como era. Do Memorial Day ao Dia do Trabalhador, as forças da lei passavam por uma época de loucos no País das Férias.

H cinco dias atr s ocorrera um aparatoso acidente que envolvera quatro automóveis na estrada 117, um desastre causado pela ingestão de bebidas alcoólicas, acabando por provocar duas mortes. Dois dias mais tarde, Norton Briggs batera na mulher com uma frigideira, deitando-a abaixo no chão da cozinha. Durante os turbulentos vinte anos de casamento, Norton batera v rias vezes na mulher. No entanto, aparentemente, desta vez pensou tê-la matado. Depois de escrever uma notinha, cheia de remorsos e erros gramaticais, p“s fim … própria vida com uma pistola .38.

Quando a mulher, que também não era nenhum médico, acordou e se Lhe deparou o corpo frio do torturador a seu lado, acendera o fogão a g s e enfiara a cabeça l dentro. Os paramédicos dos Serviços de Salvamento em Oxford conseguiram salv -la. Por uma unha negra.

Dois mi£dos oriundos de Nova Iorque tinham-se afastado do chalé dos pais em Castle Lake, tendo acabado por se perder na mata, exactamente como a Maria e o João. Foram encontrados oito horas depois, assustados mas sem problemas. John LaPointe, o segundo auxiliar de Alan, é que não se encontrava em tão boa forma" estava em casa com uma enorme alergia a toxicodendro contraída durante a busca. Houvera também uma briga desagrad vel entre dois veraneantes por causa do £ltimo exemplar do jornal de domingo do New York Times no Snack Bar do Nan" uma outra luta no parque de estacionamento do Mellow Tiger"

um pescador de domingo arrancara metade da orelha direita ao tentar lançar a cana de pesca como um profissional para dentro do lago" três casos de roubo de lojas" e uma pequena rusga de drogas no Universe, o salão de snooker e jogos de vídeo de Castle Rock.

Apenas mais uma típica semana de Junho de uma vilória, uma espécie de grande comemoração do início do Verão. Alan não tivera praticamente tempo nenhum para beber uma £nica ch vena de café inteira em sossego. Ainda assim, dera pelo seu espírito a virar-se para Thad e Liz Beaumont uma e outra vez... para eles, e para o homem que estava a assombr -los. Aquele homem também matara Homer Gamache. Alan fizera v rios telefonemas para os polícias da cidade de Nova Iorque - por esta altura, j devia haver um certo tenente Reardon que, provavelmente, j nem podia ouvir falar dele - embora estes não tivessem nada de novo a acrescentar.

Esta tarde, Alan entrara numa esquadra inesperadamente calma. Sheila Brigham não tinha nenhum recado a dar e Norris Ridgewick estava a passar pelas brasas na sua cadeira junto … cela de detenção, com os pés encavalitados em cima da secret ria. Alan devia tê-lo acordado - se Danforth Keeton, o primeiro membro do Conselho M£nicipal entrasse por ali a dentro e visse Norris nesse estado, ele iria ter problemas - mas não teve coragem de fazê-lo. Também para Norris fora uma semana atarefada, j que ele ficara encarregue de limpar a berma da estrada depois do desastre na 117, tendo feito um excelente trabalho, com vómitos e tudo mais pelo meio.

De seguida, Alan sentou-se por detr s da secret ria, fazendo animais-sombra numa mancha de sol projectada sobre a parede... e, mais uma vez, os pensamentos viraram-se para Thad Beaumont. Após ter obtido a autorização de Thad, o Dr. Hume, em Orono, telefonara para Alan, informando-o de que os testes neurológicos de Thad eram negativos. ao pensar nisto agora, o espírito de Alan virou-se mais uma vez para o Dr. Hugh Pritchard, que operara Thad quando Thaddeus Beaumont tinha onze anos de idade e estava muito longe de ser famoso.

Com um salto, um coelho atravessou a mancha de sol na parede. Foi seguido por um gato" um cão correu atr s do gato.

"Deixa l isso. • de loucos."

Claro que era de loucos. E claro que Alan não pensaria mais nisso. Daqui a pouco, haveria uma outra crise para resolver" não era preciso ser-se médium para se ter a certeza disso. Era apenas e tão-somente a forma como as coisas corriam aqui, em The Rock, durante o Verão. Uma pessoa estava tão atarefada que, na maior parte das vezes, nem conseguia pensar e, por vezes, sabia bem não pensar.

O cão foi seguido por um elefante, abanando uma tromba de sombra que era, na realidade, o dedo indicador esquerdo de Alan Pangborn.

- Ah, que se lixe! - disse ele, trazendo o telefone para perto de si. ao mesmo tempo, a outra mão desenterrava a carteira do bolso de tr s. Alan carregou no botão que, automaticamente, ligava para o telefone da Esquadra da Polícia Estadual em Oxford, e perguntou … telefonista se Henry Payton, o homem do Departamento de Investigação Criminal, se encontrava l . Por acaso, até estava. Antes de Henry aparecer na linha, Alan teve ainda tempo para pensar que, para variar, também a polícia estadual devia estar a ter um dia calmo.

- Alan! Em que é que te posso ser £til?

- Estava a pensar - respondeu Alan - se não te importavas de telefonar para o chefe dos Rangers' do Parque Nacional de Yellowstone por mim. Podia dar-te o n£mero. - Ligeiramente surpreso, Alan fitou o n£mero. H quase uma semana que o obtivera da assistente, tendo-o escrito nas costas de um cartão-de-visita. As suas mãos h beis tinham-no desenterrado da carteira quase por si só.

- Yellowstone! - Henry soava divertido. - Não é por onde o Yogi Bear costuma andar?

- Não - respondeu Alan a sorrir. - Isso é Jellystone.

E, de qualquer forma, o Yogi Bear não é suspeito de nada.

Pelo menos tanto quanto sei. Preciso de falar com um homem que est l acampado, a passar férias, Henry. Bem...

não sei bem se preciso realmente de falar com ele ou não, mas ficaria muito mais descansado. Tenho a sensação de que h algo por acabar.

- Tem alguma coisa a ver com Homer Gamache?

Alan passou o telefone para o outro ouvido e, distraído, passou o cartão-de-visita onde escrevera o n£mero de telefone dos Rangers de Yellowstone pelos nós dos dedos.

- Sim - replicou ele - mas se me pedires para explicar, vais achar que sou louco.

- Apenas um palpite?

- Sim. - E ficou surpreendido ao verificar que, afinal de contas, ele tinha mesmo um palpite, só que não sabia do que é que se tratava. - O homem com quem quero falar é um médico reformado que d pelo nome de Hugh Prit chard. Est com a esposa. • prov vel que o chefe dos Rangers saiba onde eles estão, sei que as pessoas têm de ser registadas quando l chegam, e est -me c também a parecer que se encontram provavelmente numa zona para campismo com acesso a um telefone. J têm os dois os seus setenta anos. Se telefonares para o chefe dos Rangers, ele provavelmente enviar a mensagem ao tipo.

- Por outras palavras, achas que o ranger de um Parque Nacional pode levar muito mais a sério um pedido oficial de um agente estadual do que um pedido de um rela xerife.

- Tens uma forma muito diplom tica de ver as coisas, Henry. ."

Henry Payton riu encantado:

- Tenho, não tenho? Olha, sabes que mais, Alan? Não me importo de fazer uma coisinha ou outra por ti, desde que não queiras que v mais longe do que isso, desde que...

- Não, é só isto - disse Alan num tom grato. - Isto é tudo o que quero.

- Espera um minuto, ainda não acabei. Desde que percebas que não posso utilizar a nossa linha WATó aqui para fazer a chamada. O capitão est sempre em cima de nós, meu amigo. Muito em cima mesmo. E se descobrisse esta chamada, acho que gostaria de saber porque é que ando a gastar dinheiro dos contribuintes para te ajudar no teu assado. Est s a entender o que estou a dizer?

Alan suspirou de modo resignado.

- Podes usar o n£mero do meu cartão de crédito pessoal - disse - e podes dizer ao chefe dos Rangers para o Pritchard fazer uma chamada a pagar no destinat rio. Eu marco a chamada e pag -la-ei do meu próprio bolso.

Do outro lado fez-se uma pausa e, quando Henry falou de novo, estava mais sério.

- Isto é mesmo importante para ti, não é, Alan?

- Sim. Não sei bem porquê, mas é.

Seguiu-se uma segunda pausa. Alan conseguia sentir Henry Payton a debater-se para não fazer mais perguntas.

Por fim, a melhor natureza de Henry venceu. Ou talvez pensou Alan, fosse apenas a sua natureza mais pr tica.

- Tudo bem - disse ele. - Vou fazer a chamada e dizer ao chefe dos Rangers que queres falar com este tal Hugh Pritchard sobre uma investigação de homicídio em curso no m£nicípio de Castle, Maine. Qual é o nome da mulher dele?

- Helga.

- De onde é que eles são?

- Fort Laramie, Wyoming.

- Muito bem, xerife" agora vem a parte mais difícil.

Qual é o n£mero do teu cartão de crédito?

A suspirar, Alan deu o n£mero.

Um minuto depois, tinha de novo o desfile de sombras a marchar pela mancha de luz do sol na parede.

"O mais prov vel é que o tipo não me telefone", pensou ele, "e mesmo que o faça, não ir dizer nada que me possa ajudar" como é que podia?"

Ainda assim, numa coisa Henry tinha razão: ele tinha um palpite. Sobre alguma coisa. E não passava.

3

Enquanto Alan Pangborn estava a falar com Henry Payton, That Beaumont estacionava o carro num dos lugares do parque de estacionamento da faculdade nas traseiras do Edifício de Inglês-Matem tica. Saiu, tendo o cuidado de não atirar com a porta esquerda. Por um instante, deixou-se ficar onde estava, a apreciar o dia e a invulgar paz sonolenta do campo.

O Plymouth castanho estacionou ao lado do Suburban de Thad, e os dois homens grandes que saíram do carro dissiparam qualquer sonho de paz que pudesse estar … beira de se concretizar.

- Vou só l acima até ao meu gabinete por uns minutos - disse Thad. - Se quiserem, podem ficar c em baixo. - Thad observou duas raparigas que passaram por ali, provavelmente a caminho do Anexo Leste para se inscreverem nos cursos de Verão. Uma vestia um top atado … volta do pescoço e uns calções azuis, e a outra um vestido curto praticamente inexistente, sem costas e uma bainha que estava a um palmo da protuberƒncia das n degas e de causar um ataque de coração. - Apreciem o espect culo.

Os dois polícias estaduais tinham-se virado para seguir a progressão das raparigas, como se as suas cabeças estivessem montadas sobre uns suportes giratórios invisíveis. De seguida, o polícia que mandava - Ray Garrison ou Roy Harriman, Thad não tinha a certeza de qual - virou a cabeça para tr s, afirmando de modo pesaroso:

- É claro que gost vamos de ficar aqui, mas é melhor subirmos com o senhor.

- A sério, é j aqui no segundo andar...

- Ficamos … sua espera no corredor.

- Vocês nem fazem ideia do quanto tudo isto est a começar a deprimir-me.

- São ordens - disse o Garrison-ou-Harriman. Era evidente que, para ele, a depressão, ou a felicidade, se é que isso interessava, de Thad não tinha importƒncia alguma.

- Sim - replicou Thad, desistindo. - Ordens.

Thad encaminhou-se para a porta lateral. Os dois polícias seguiram-no a uma distƒncia de doze passos, assemelhando-se mais a polícias nas suas roupas … paisana do que alguma vez se tinham assemelhado com as suas fardas, conjecturou Thad.

Depois do calor estagnado e h£mido, o ar condicionado atingiu Thad como uma pancada violenta. Repentinamente teve a sensação de que a camisa estava a congelar colada … pele. O edifício, tão cheio de vida e agitação durante o ano lectivo de Setembro a Maio, estava um pouco assustador nesta tarde de fim-de-semana do final da Primavera. Na segunda-feira, quando a primeira sessão estival de três semanas começasse, talvez chegasse até a recuperar um terço do grande movimento e bulício habituais. Contudo, naquele dia, Thad deu por si a sentir-se um pouco aliviado por ter a protecção polícial consigo. Pensou que o segundo andar, onde se encontrava o seu gabinete, deveria estar totalmente deserto, o que, pelo menos, Lhe permitiria evitar a necessidade de explicar a presença dos seus amigos grandes e vigilantes.

Thad acabou por verificar que não estava totalmente deserto, mas, ainda assim, conseguiu sair-se bem. Rawlie De Lesseps andava a vaguear pelo corredor, dirigindo-se da sala comum do departamento para o seu gabinete, deambulando … típica maneira de Rawlie DeLesseps... o que significava que parecia ter, recentemente, apanhado com um rude golpe na cabeça que dera cabo tanto da memória como do controlo motor.

DeLesseps caminhava sonhadoramente de um lado para o outro do corredor, descrevendo ligeiras espirais, dando umas espreitadelas nas bandas desenhadas, poemas e avisos afixados nos quadros das portas fechadas dos colegas. Ele podia estar a caminho do seu gabinete - pelo menos era o que parecia - mas até mesmo alguém que o conhecesse bem teria, provavelmente, declinado em fazer uma tal aposta. A haste de um enorme cachimbo amarelo encontrava-se segura entre os dentes, que não estavam tão amarelos quanto o cachimbo, ainda que não estivessem muito longe disso. O cachimbo estava apagado, estava-o desde 1985, quando o médico de Rawlie o proibira de fumar após um ligeiro ataque cardíaco.

"De qualquer forma, também nunca gostei assim tanto de fumar", costumava explicar Rawlie na sua voz delicada e distraída sempre que alguém Lhe perguntava sobre o cachimbo.

"Mas sem a ponta nos dentes... meus senhores, não saberia onde ir ou o que fazer se tivesse sufíciente sorte para l chegar." De qualquer modo, a maior parte das vezes, ele j dava essa impressão de não saber para onde ir ou o que fazer. Algumas pessoas conheciam Rawlie durante anos e só muito mais tarde é que descobriam que, afinal de contas, ele não era nada o louco distraído e instruído que parecia ser. Alguns nunca o chegavam sequer a descobrir.

- Ol , Rawlie - disse Thad, separando as chaves com os dedos.

Rawlie lançou-lhe uma piscadela de olhos, desviou o olhar de forma a poder perscrutar os dois homens atr s de Thad, ignorou-os e dirigiu de novo o olhar para Thad.

- Ol , Thaddeus - disse ele. - Não sabia que, este ano, estavas a ensinar nos cursos de Verão.

- E não estou.

- Então o que é que te deu para vires até aqui, de todos os locais do mundo, no primeiro dia de Verão verdadeiramente genuíno?

- Venho só buscar alguns dossiers do curso de especialização - respondeu Thad. - Acredita que não vou ficar aqui mais tempo do que o estritamente necess rio. 2 - Que foi que aconteceu … tua mão? É uma autêntica nódoa negra bem até ao pulso.

- Bem - começou Thad, um pouco constrangido.

A história fazia-o parecer um bêbedo ou um idiota, ou ambos,.. mas, ainda assim, era muito mais facilmente digerida do que a própria verdade. Thad ficou taciturnamente espantado ao verificar que a facilidade como a polícia a aceitara fora a mesma com que Rawlie a aceitava agora. Ninguém fizera uma £nica pergunta sobre o modo ou a razão que o levara a entalar a mão na porta do roupeiro do quarto.

De modo instintivo, Thad soubera exactamente a história precisa que tinha de contar - até mesmo no seu sofrimento sabia isso. As pessoas esperavam que ele fizesse coisas desajeitadas: fazia parte da sua personalidade. De certo modo, era como contar ao entrevistador da People (Deus tenha a sua alma) que George Stark fora criado em Ludlow e não em Castle Rock, e a razão que levava Stark a escrever … mão era porque ele nunca aprendera a escrever … m quina.

Nem sequer tentara mentir … Liz... mas insistira para que ela não contasse a ninguém o que realmente acontecera, com o que ela concordara. A £nica preocupação de Liz fora conseguir arrancar dele a promessa de que nunca mais tentaria contactar com Stark. Ele prometera-lhe isso de bom grado, embora estivesse ciente que se tratava de uma promessa que podia não ser capaz de cumprir. Também suspeitava que, a um recanto bem escondido da mente de Liz, ela tinha igualmente consciência desse facto.

Neste momento, Rawlie encontrava-se a olhar para ele com um interesse verdadeiro.

- Na porta de um roupeiro - estranhou ele. - Fant stico.

Estavas provavelmente a brincar …s escondidas? Ou tratou-se de um estranho rito sexual?

Thad sorriu:

- Deixei de praticar quaisquer ritos sexuais estranhos por volta de mil novecentos e oitenta e um - disse ele. - Conselho do médico. Na verdade, eu pura e simplesmente não estava a prestar atenção ao que estava a fazer. Toda esta história é um pouco constrangedora.

- Imagino - replicou Rawlie, tendo-lhe, de seguida, piscado o olho. Tratou-se de uma piscadela muito subtil, um leve batimento de uma velha p lpebra inchada e enrugada...

mas estava l , sem d£vida alguma. Pensara ele que conseguira enganar Rawlie? Os porcos podem voar.

Subitamente, Thad foi percorrido por um novo pensamento.

- Rawlie, ainda d s aquele semin rio sobre o mito popular?

- Durante todo o Outono - respondeu Rawlie a acenar a cabeça. - Não lês o programa do teu departamento, Thaddeus? Varinhas de vedor, bruxas, mezinhas holísticas, sinais de feitiço dos ricos e famosos. Continua tão popular como sempre. Porque perguntas?

Thad descobrira que essa pergunta tinha uma resposta que dava para tudo" uma das melhores coisas em ser-se escritor era o facto de haver sempre uma resposta para uma pergunta do tipo "Porque pergunta?".

- Bem, tenho c uma ideia para uma história - respondeu ele. - Est ainda na fase da exploração, mas tem as suas possibilidades, penso eu.

- O que é que querias saber?

- Sabes se os pardais têm algum significado na superstição ou mitos populares americanos?

A testa sulcada de Rawlie começou a assemelhar-se … topografia de um qualquer planeta extraterrestre claramente hostil … vida humana. Rawlie roeu a haste do cachimbo.

- Neste preciso momento, não me vem nada … cabeça, Thaddeus, apesar de... pergunto-me se ser mesma essa a razão pela qual est s interessado nisto.

"Os porcos podem voar", pensou Thad de novo.

- Bem... talvez não, Rawlie. Talvez não. Talvez tenha apenas dito aquilo porque o meu interesse não é algo que possa ser explicado em dois minutos. - Os olhos de Thad perscrutaram os seus cães de guarda por um instante, dirigindo-se de novo para o rosto de Rawlie. - Neste preciso momento, estou com um bocado de pressa.

Os ll bios de Rawlie tremeram ligeiramente, deixando transparecer um breve sorriso.

- Acho que percebi. Pardais... uns p ssaros tão comuns.

Demasiado comuns para terem quaisquer conotações superstíciosas mais sérias, creio eu. No entanto... agora que penso nisso... h alguma coisa. O £nico problema é que os associo aos noitibós. Deixa-me verificar. Estar s ainda aqui daqui a pouco?

- Receio que não mais do que uma meia hora.

- Bem, é possível que encontre j alguma coisa no livro do Barringer Folclore da América. Não passa de um livro de cozinha de superstições, mas d jeito. E posso sempre telefonar-te.

- Sim. Podes sempre fazer isso.

- Festa magnífica aquela que tu e Liz deram em honra de Tom Carroll - disse Rawlie. - Como é evidente, tu e Liz dão sempre as melhores festas. A tua esposa é demasiado encantadora para ser uma esposa, Thaddeus. Ela devia ser tua amante.

- Obrigado, creio eu.

- O Tom Gonzo - prosseguiu Rawlie afectuosamente - Custa acreditar que o Tom Gonzo Carroll tenha navegado parado os portos cinzentos da reforma. H mais de vinte anos que o ouço a dar aqueles peidos fortes, semelhantes ao toque de uma trombeta, no gabinete ao lado do meu. .

Suponho que o tipo que se Lhe seguir ser mais calmo. Ou, pelo menos, mais discreto.

Thad riu.

- A Wilhelmina também se divertiu - disse Rawlie, tendo baixado as p lpebras de forma malíciosa. Ele sabia perfeitamente aquilo que Thad e Liz pensavam sobre Billie.

- Ainda bem - retorquiu Thad, que considerava Billie Burks e o conceito de divertimento mutuamente exclusivos... mas dado que ela e Rawlie tinham feito parte de um libi desesperadamente necess rio, Thad supunha que deveria ter ficado contente pela presença dela. - E se te ocorrer algo sobre aquela outra coisa...

- Os pardais e o seu lugar no mundo invisível. Sim de facto. - Com a cabeça, Rawlie cumprimentou os dois polícias que se encontravam por detr s de Thad. - Boa tarde!

meus senhores. - Rawlie contornou-os, continuando o caminho até ao gabinete com um andar mais determinado Não muito, mas um pouco.

Thad seguiu-o com o olhar, perplexo.

- Que era aquilo? - inquiriu Garrison-ou-Harriman.

- DeLesseps - murmurou Thad. - Gram tico de profissão e etnólogo amador.

- Parece-se com o tipo de homem que talvez necessite de um mapa para encontrar o caminho de casa - disse o outro polícia.

Thad dirigiu-se para a porta do seu gabinete e destrancou-a.

- • uma pessoa mais viva do que parece - disse ele, abrindo a porta.

Só quando acendeu as luzes do tecto é que Thad teve consciência de que Garrison-ou-Harriman estava a seu lado, com uma das mãos dentro do blusão especialmente feito para tipos altos. Thad sentiu uma pontada de medo, mas, como era evidente, o gabinete estava vazio - vazio e tão arrumado, após o abrandar suave e regular da desordem de um ano inteiro, que parecia estar morto.

Por nenhuma razão que conseguisse explicar, Thad sentiu uma onda repentina e praticamente nauseante de saudades de casa, vazio e perda - um misto de sentimentos como uma m goa profunda e inesperada. Era como o sonho. Era como se tivesse vindo até aqui despedir-se.

"P ra de ser tão estupidamente tolo", ordenou a si próprio, tendo uma outra parte da sua mente replicado de forma serena: "Em cima do prazo, Thad. Est s em cima do prazo, Thad, e creio que acabaste de cometer um grande erro ao não teres, pelo menos, tentado fazer aquilo que o homem quer que tu faças. Mais vale uma solução a curto prazo do que nenhuma solução."

- Se quiserem café, podem ir buscar as ch venas … sala comum do departamento - informou. - Se bem conheço o Rawlie, a cafeteira deve estar cheia.

- Onde é que isso é? - perguntou o parceiro de Garrison-ou-Harriman.

- Do outro lado do corredor, duas portas acima - respondeu Thad, soltando os dossiers. Virou-se e lançou-lhes um sorriso que sentiu como um esgar no seu rosto. - Penso que me ouvirão se gritar.

- Certifique-se apenas de que grita mesmo se alguma coisa acontecer - retorquiu Garrison-ou-Harriman.

- Estejam descansados.

- Podia pedir aqui ao Manchester para ir buscar o café - afirmou Garrison-ou-Harriman - mas est -me c a parecer que o senhor est a precisar de ficar um pouco sozinho.

- Bem, sim. Agora que fala nisso.

- Tudo bem, senhor Beaumont - replicou ele, olhando para Thad de modo circunspecto, tendo-se este £ltimo subitamente recordado de que Harrison era o nome daquele agente. Tal como o antigo Beatle. Que estupidez ter esquecido o nome. - Lembre-se apenas daquelas pessoas em Nova Iorque que morreram de uma overdose de privacidade. "

"Ai, sim? Pensava que Phyllis Myers e Rick Cowley morreram na companhia da polícia." Thad pensou em proferir este pensamento em voz alta, embora tivesse optado por não o fazer. Afinal de contas, estes homens estavam apenas a tentar cumprir o seu dever.

- Anime-se, agente Harrison - disse ele. - Hoje, o edifício est tão calmo que até um homem descalço faria eco.

- Muito bem. Estaremos do outro lado do corredor na quilo-que-o-senhor-chama-não-sei-como .

- A sala comum.

- Exactamente.

Os dois saíram, e Thad abriu o ficheiro marcado como CANDó CUR. No olho da mente, Thad não conseguia deixar de ver Rawlie DeLesseps a lançar aquela piscadela r pida e discreta.

E de ouvir aquela voz a dizer-lhe que ele estava em cima do prazo, que atravessara para o lado sombrio. O lado onde estavam os monstros.

4

O telefone estava ali e não tocou.

"V l ", pensou ele, empilhando os dossiers do curso de especialização sobre a secret ria ao lado da sua IBM Selec tric fornecida pela universidade. "V l , v l , aqui estou eu, exactamente ao lado de um telefone sem qualquer tipo de escuta, portanto, v l , George, d -me uma telefonadela, liga para mim, d -me o furo jornalístico." ]

Mas o telefone continuava impassível e não tocava.

Thad apercebeu-se de que estava a olhar para um arm rio de arrumação de ficheiros, não apenas desbastado mas totalmente vazio. Na sua inquietação, Thad tirara para fora todos os dossiers e não apenas aqueles que pertênciam aos estudantes interessados em fazer um curso de especialização em escrita criativa. Até mesmo as fotocópias dos dossiers dos alunos que queriam tirar gram tica transformacional, que era a Bíblia na opinião de Noam Chomsky, traduzida por aquele decano do cachimbo apagado, Rawlie DeLesseps.

Thad dirigiu-se para a porta e olhou para fora. Harrison e Manchester encontravam-se … porta da sala comum do departamento, a beber café. Nos punhos do tamanho de presuntos, as canecas pareciam ter o tamanho de ch venas pequenas próprias para café. Thad levantou a mão. Harrison retribuiu o cumprimento e perguntou-lhe se ainda iria demorar muito.

- Cinco minutos - respondeu Thad, tendo os dois polícias acenado com a cabeça.

Thad voltou para a secret ria, separou os dossiers da escrita criativa dos outros, e começou a colocar estes £ltimos na gaveta dos ficheiros, fazendo-o o mais lentamente possível, dando tempo para o telefone tocar. Mas o telefone continuou impassível no mesmo lugar. Algures no fundo do corredor, Thad ouviu um toque, abafado por uma porta fechada, de certo modo fantasmagórico no inabitual silêncio de Verão do edifício. "Talvez George tenha arranjado o n£mero de telefone errado", pensou ele, soltando uma gargalhadazinha.

O facto era que George não iria telefonar.

O facto era que ele, Thad, estava errado. Aparentemente, George tinha um outro truque na manga. Porque estava ele tão surpreendido? Os truques eram a spécialité de l maison' de George Stark. Ainda assim, ele estivera tão seguro, tão incrivelmente seguro...

- Thaddeus?

Thad deu um salto, deixando praticamente cair no chão o conte£do da £ltima meia d£zia de ficheiros. Quando teve a certeza de que não iriam cair da mão, virou-se. Rawlie de cachimbo comprido sobressaía como um periscópio horizontal.

- Desculpa - disse Thad. - Pregaste-me c um susto, Rawlie. A minha cabeça estava a quilómetros de distƒncia daqui.

- Est alguém ao telefone a perguntar por ti - disse Rawlie com amabilidade. - Deve ter o n£mero de telefone errado. Sorte eu estar l .

Thad sentiu o coração a bater lentamente e com dificuldade: era como se tivesse um tambor de parada dentro do peito e alguém tivesse começado a bater nele com uma grande dose de energia cadênciada.

- Sim - disse Thad. - Foi uma grande sorte.

Rawlie lançou-lhe um olhar perscrutador. Os olhos azuis debaixo das p lpebras inchadas e ligeiramente avermelhadas estavam tão vivos e inquisitivos que se tornavam incomodativos, e estavam certamente a quilómetros de distƒncia do seu feitio de professor jovial, desorganizado e distraído.

- Est tudo bem, Thaddeus?

"Não, Rawlie. Nesta altura, h um assassino louco algures por aqui, um tipo que, aparentemente, consegue tomar conta do meu corpo e me leva a fazer coisas esquisitas como espetar um l pis em mim próprio, e acho que cada dia que passo é uma autêntica vitória. A realidade est muito afastada de tudo isto, velho amigo." - Tudo bem? Porque é que não havia de estar tudo bem?

- Pareço detectar o ténue mas inequivocamente penetrante tom de ironia, Thad.

- Est s enganado.

- Ser que estou mesmo? Então porque é que te pareces com um veado encandeado por um par de faróis?

- Rawlie...

- E o homem com quem acabei de falar assemelha-se ão tipo de vendedor a quem compramos qualquer coisa pelo telefone apenas para garantir que ele nunca visite pessoalmente a nossa casa.

- Não é nada, Rawlie.

- Muito bem. - Rawlie não parecia ter ficado convencido.

Thad deixou o gabinete e começou a caminhar pelo corredor abaixo, em direcção ao de Rawlie.

- Onde é que o senhor vai? - chamou Harrison atr s dele.

- Rawlie tem uma chamada para mim no gabinete dele - explicou. - Aqui, os n£meros de telefone são todos sequênciais. O tipo deve ter trocado os n£meros.

- E, por uma grande sorte, conseguiu apanhar o £nico outro membro da faculdade que se encontrava hoje aqui? - perguntou Harrison de modo céptico.

Thad encolheu os ombros e continuou a andar.

O gabinete de Rawlie DeLesseps era desorganizado, agrad vel e ainda habitado pelo cheiro do cachimbo - aparentemente, dois anos de abstinência não tinham compensado trinta anos de indulgência. Era dominado por um quadro de setas com uma fotografia de Ronald Reagan presa no meio. Um volume com o tamanho de uma enciclopédia, o Folclore da América de Frank Barringer, permanecia aberto sobre a secret ria de Rawlie. O telefone estava fora do descanso, com o auscultador sobre uma pilha de cadernos de exames em branco. ao olhar para o auscultador, Thad sentiu o velho terror apossar-se dele com as j familiares pregas sufocantes. Era como ser atado num lençol que necessita urgentemente de ser lavado. Thad virou a cabeça, certo de que veria os três - Rawlie, Harrison e Manchester - alinhados … entrada da porta como pardais numa linha telefónica. Contudo, a entrada da porta estava vazia, e de algures do fundo do corredor, Thad conseguia ouvir o murm£rio suave da voz de Rawlie. Ele detivera os cães de guarda de Thad. Este tinha as suas d£vidas de que Rawlie tivesse feito isto por acaso.

Thad pegou no telefone e disse:

- Ol , George.

- J tiveste a tua semana - disse a voz do outro lado da linha. Era a voz de Stark, mas Thad perguntou-se se, neste preciso momento, as impressões vocais seriam tão idênticas umas …s outras. A voz de Stark não era a mesma.

Ficara rouca e spera, como a voz de um homem que passara tempo a mais a gritar num qualquer evento desportivo.

- J tiveste a tua semana e não mexeste uma palha.

- Tens toda a razão - replicou Thad, sentindo-se muito frio. Tinha de fazer um esforço consciente para não tremer.

Aquele frio parecia provir do próprio telefone, exalado através dos buracos do auscultador como pingentes de gelo. Mas estava também muito zangado. - Não vou fazer, George. Uma semana, um mês, dez anos, para mim é tudo a mesma coisa. Porque é que não aceitas? Est s morto, e morto vais continuar.

- Est s enganado, velha carcaça. Se queres morrer enganado, est s no bom caminho.

- Sabes o que fazes lembrar, George? - perguntou Thad. - A de alguma coisa que se est a desintegrar.

• por iSSO que me pedes para começar a escrever de novo, não é? A perder a coesão, foi aquilo que escreveste. Est s a biodegradar-te, não é? Não vai demorar muito tempo até começares a desfazer-te aos bocados, como a carruagem maravilhosa da Cinderela.

- Nada disso te diz respeito, Thad - replicou a voz rouca, que passou de um zumbido spero para um som duro, como cascalho a cair da parte de tr s de um camião e, de seguida, para um murm£rio esganiçado (como se, no espaço de uma frase ou duas, as cordas vocais tivessem deixado totalmente de funcionar) e de novo para o zumbido. - Nada do que est a acontecer comigo te diz respeito. Para ti, camarada, isso não passa de uma distracção. Tu só queres é começar a trabalhar logo … noite ou vais arrepender-te, fiLho da mãe. E não ir s ser o £nico.

- Eu não...

Click! Stark fora-se. Por uns segundos, Thad olhou concentrado para o auscultador do telefone, após o que o colocou de novo no gancho. Quando se virou, Harrison e Manchester estavam … porta.

5

- Quem era? - perguntou Manchester.

- Um aluno - respondeu Thad. Nesta altura, não estava muito certo de que estivesse a mentir. A £nica coisa de que tinha realmente certeza era de que fora invadido por uma sensação horrível nas entranhas. - Apenas um aluno, como pensei.

- Como é que ele sabia que o senhor estaria aqui? - perguntou Harrison. - E por que raio é que telefonou para o telefone deste senhor?

- Desisto - replicou Thad de modo humilde. - Sou um agente russo infiltrado. Na verdade, era o meu contacto.

Entrego-me sem mais delongas.

Harrison não ficou zangado - ou, pelo menos, não pareceu ficar zangado. O olhar perpassado por uma censura ligeiramente cansada foi muito mais eficaz do que a raiva.

- Senhor Beaumont, estamos a tentar ajud -lo a si e … sua esposa. Sei que, passado um certo tempo, ter dois tipos atr s de nós para onde quer que se v acaba por ser uma grande chatice, mas, nós estamos realmente a tentar dar-Lhe uma ajuda.

Thad sentiu-se envergonhado... mas não sufícientemente envergonhado para contar a verdade. Aquela sensação m perdurava, a sensação de que as coisas iam correr mal, de que talvez j tivessem corrido mal. E algo mais também:

uma sensação leve e palpitante percorria a sua pele. Uma sensação de formigueiro dentro da pele. Pressão nas têmporas.

Não eram os pardais" pelo menos, não acreditava que fossem. Ainda assim, um qualquer barómetro mental de que ele nunca tivera consciência estava a descer. Também não era a primeira vez que se sentia assim. H oito dias atr s, a caminho do Mercado do Dave, tivera uma sensação semelhante a esta, embora não tão forte. Sentira-se assim quando se encontrava no seu gabinete a recolher os dossiers.

Uma sensação ligeira e irrequieta.

"É Stark. De algum modo, ele est contigo, dentro de ti. Est a observar-te. Se disseres a coisa errada, ele vai saber. E então alguém ir sofrer."

- Peço desculpa - disse. Thad estava ciente de que, neste momento, Rawlie DeLesseps se encontrava por detr s dos dois polícias, a observar Thad com uns olhos serenos e curiosos. Agora, teria de começar a mentir, e as mentiras iriam sair de um modo tremendamente natural e suave. Mas Thad também não conhecia a razão, por que, pelo que sabia, eles bem que podiam ter sido ali colocados pelo próprio George Stark.

Apesar de não ter a certeza absoluta de Rawlie ir engolir as patranhas, agora j era um pouco tarde de mais para se preocupar com isso. - Estou com os nervos … flor da pele, é tudo.

- Totalmente compreensível - disse Harrison. - Mas só quero que perceba, senhor Beaumont, que nós não somos o inimigo.

- O mi£do que telefonou sabia que eu me encontrava aqui porque estava a sair da livraria quando passei com o carro pela porta - esclareceu Thad. - Queria saber se eu iria ensinar no curso de escrita do Verão. A lista telefónica da faculdade est dividida em departamentos, estando os membros de cada departamento registados por ordem alfabética.

As folhas são muito finas, como qualquer pessoa que j a tenha utilizado poder comprovar.

- Nesse aspecto, é uma publicação muito inconveniente - concordou Rawlie em redor do cachimbo. Os dois polícias viraram-se e olharam para ele por um instante, espantados.

Rawlie obsequiou-os com um aceno solene e bastante temeroso.

- Rawlie vem a seguir a mim na lista telefónica - disse Thad.

- Este ano, por acaso não temos nenhum membro da faculdade cujo apelido começe por cê. - Thad olhou de relance para Rawlie, mas este tirara o cachimbo da boca e parecia estar a inspeccionar a concavidade enegrecida pelo lume com uma enorme atenção. - Em resultado disto - rematou Thad - estou sempre a receber chamadas dele e ele est sempre a receber as minhas. Disse ao mi£do que não estava com sorte", vou estar fora até ao Outono.

Bem, era tudo. Thad tinha a sensação de que talvez tivesse dado explicações a mais sobre a situação, mas a verdadeira questão punha-se quanto … altura em que Harrisont e Manchester tinham chegado … entrada da porta do gabinete de Rawlie e o quanto podiam ter ouvido da conversa. Geralmente, não se dizia a um aluno que se candidatava a um curso de escrita que ele era biodegrad vel e que, em breve, se iria desfazer aos bocados.

- Bem que gostava de estar fora até ao Outono - suspirou Manchester. - J acabou o que tinha a fazer, senhor L Beaumont?

Thad soltou um suspiro de alívio interno e disse:

- Falta-me apenas guardar de volta os dossiers que não irei precisar - ("e um bilhete, tens de escrever um bilhete … secret ria").

"E, est claro, tenho de escrever um bilhete … senhora Fenton - ouviu-se a si próprio afirmar. Thad não fazia a mais pequena ideia porque é que estava a dizer isso" só sabia que tinha de o dizer. - Ela é a secret ria do Departamento de Inglês.

- Ser que temos tempo para mais uma ch vena de café? - perguntou Manchester.

- Claro. Talvez até para uma ou duas bolachinhas de chocolate, se é que os bandos de b rbaros deixaram alguma - respondeu. Aquela sensação de que as coisas estavam fora de ordem, de que as coisas estavam erradas e a ficarem cada vez mais erradas, voltara e desta vez mais forte do que nunca. Deixar um bilhete para a Sra. Fenton? Céus, isso era de loucos. Rawlie devia estar a sufocar de riso com o cachimbo.

Quando Thad deixou o gabinete deste £ltimo, Rawlie perguntou:

- Posso falar contigo por um minuto, Thad?

- Claro - respondeu ele. Era seu desejo pedir a Harrison e a Manchester para os deixarem aos dois sozinhos, dizendo-lhes que j iria ter com eles num instante, mas reconheceu, ainda que com relutƒncia, que uma observação desse género não era propriamente o tipo de coisa que se dizia quando se pretendia afastar suspeitas. E pelo menos Harrison tinha as antenas de pé. Talvez ainda não exactamente até ao cimo, mas quase.

De qualquer modo, o silêncio funcionava melhor. ao virar-se para Rawlie, Harrison e Manchester caminharam vagarosamente pelo corredor acima. Harrison falou rapidamente com o parceiro, tendo ficado … entrada da porta da sala comum do departamento, enquanto Manchester procurava as bolachas. Harrison não afastava o olhar dos dois, embora Thad pensasse que estavam longe dos seus ouvidos.

- Que grande história esta sobre a lista da faculdade - retorquiu Rawlie, voltando a enfiar o tubo mastigado do cachimbo na boca. - Creio que tens muita coisa em comum com a rapariguinha no The Open Window de Saki, Thaddeus. A curto prazo, o romance pode vir a ser a tua especialidade.

- Rawlie, isto não é aquilo em que est s a pensar.

- Não faço a mais pequena ideia do que se trata - replicou Rawlie calmamente - e embora admita ter uma certa dose de curiosidade humana, não tenho bem a certeza de que queira realmente saber.

Thad lançou um pequeno sorriso.

- E, de facto, fiquei com a nítida sensação de que esqueceras o Tom Carroll Gonzo de propósito. Ele pode estar reformado, mas, da £ltima vez que olhei, ainda aparecia entre nós dois na actual lista telefónica da faculdade.

- Rawlie, é melhor eu ir andando.

- Com certeza - retorquiu Rawlie. - Tens um bilhete para escrever … senhora Fenton.

Thad sentiu as faces ficarem ligeiramente ruborizadas Althea Fenton, a secret ria do Departamento de Inglês desde 1961, morrera de cancro da garganta em Abril passado. L - A £nica razão pela qual te retive aqui - prosseguiu Rawlie - foi para te dizer que talvez tenha descoberto aquilo que procuravas. Sobre os pardais.

Thad sentiu o pulsar do coração aumentar de intensidade.

Rawlie levou Thad para dentro do gabinete e pegou no Folclore da América de Barringer.

- Os pardais, os mergulhões e sobretudo os noitibós são psicopompos - explicou, mas sem um tom de triunfo na voz. - Eu sabia que havia algo sobre os noitibós.

- Psicopompos? - perguntou Thad de modo duvidoso.

- Do grego - explicou Rawlie - que significa que são aqueles que conduzem. Neste caso, aqueles que conduzem as almas humanas para tr s e para a frente entre a terra dos vivos e a terra dos mortos. De acordo com Barringer, os mergulhões e os noitibós são as escoltas dos vivos"

diz-se que se congregam perto do local onde a morte est prestes a acontecer. Não se tratam de p ssaros de mau agoiro. A sua função é guiar as almas recentemente mortas para o local apropriado na vida depois da morte.

Rawlie olhou para Thad de modo sereno.

- Os ajuntamentos de pardais são bastante mais agoirentos, pelo menos na opinião de Barringer. Diz-se que os pardais são as escoltas dos mortos.

- O que significa. . .

- O que significa que a sua função é guiar as almas perdidas de volta para o mundo dos vivos. Por outras palavras, são os arautos dos mortos-vivos.

Rawlie tirou o cachimbo da boca e fitou Thad de modo solene.

- Não sei em que situação est s metido, Thaddeus, mas sugiro uma certa precaução. Uma extrema precaução.

Pareces um homem que est metido em grandes sarilhos. Se houver alguma coisa que eu possa fazer, por favor, dize-me.

- Muito obrigado, Rawlie. Fizeste tanto quanto eu podia esperar tendo ficado calado.

- Pelo menos, nesse ponto, tu e os meus alunos parecem estar perfeitamente de acordo. - Mas os olhos pl cidos que fitavam Thad por cima do cachimbo estavam preocupados. - Vais ter cuidado contigo?

- Sim.

- E se aqueles homens te seguem por toda a parte para te auxiliarem nessa tarefa, Thaddeus, talvez seja prudente depositar toda a confiança neles.

Seria maravilhoso se pudesse. Contudo, não era a confiança que tinha neles que estava em causa. Se, na verdade, Thad abrisse a boca, eles passariam a ter muito pouca confiança nele. E mesmo que confiasse o sufíciente em Harrison e Manchester ao ponto de Lhe contar tudo, Thad não se atrevia a contar o que quer que fosse enquanto aquela sensação de formigueiro no interior da pele não desaparecesse.

Porque George Stark estava a observ -lo. E ele estava em cima do prazo.

- Obrigado, Rawlie.

Rawlie acenou com a cabeça, pediu-lhe mais uma vez para ter cuidado, e sentou-se atr s da secret ria.

Thad regressou ao seu gabinete.

6

"E, est claro, tenho de escrever um bilhete … senhora Fenton."

Quando estava a p“r de novo no lugar o £ltimo dos ficheiros que tirara por engano, Thad parou e fitou a sua IBM Selectric bege. – ltimamente, parecia estar quase hipnoticamente consciente de todos os instrumentos de escrita, grandes e pequenos. Em mais de uma ocasião durante a £ltima semana, Thad interrogara-se se não haveria uma versão diferente de Thad Beaumont no interior de cada um desses instrumentos, como génios do mal escondidos no interior de uma série de lƒmpadas.

"Tenho de escrever um bilhete … senhora Fenton."

Contudo, nos dias que correm, era mais prov vel uma pessoa utilizar uma t bua Ouija do que uma m quina de escrever eléctrica para entrar em contacto com a falecida Sra. Fenton, que fazia um café tão forte que este quase podia andar e falar. E, afinal de contas, porque é que ele dissera aquilo? A Sra. Fenton seria a £ltima coisa de que o seu espírito se lembraria.

Thad enfiou o derradeiro dossier no arm rio dos ficheiros, fechou a gaveta e olhou para a mão esquerda. Por debaixo da ligadura, a teia de carne por entre o polegar e o dedo indicador começara subitamente a causar ardor e comichão.

Thad esfregou a mão contra a perna das calças, mas isso só pareceu piorar a comichão. E, agora, estava igualmente a latejar. Aquela sensação de calor profundo e sufocante intensificou-se.

Olhou para fora da janela do gabinete.

Do outro lado de Bennett Boulevard, os fios do telefone estavam cobertos de pardais. Outros tantos encontravam-se sobre o telhado da enfermaria e, enquanto observava, uma fornada novinha em folha poisou num dos campos de ténis.

Todos eles pareciam estar a olhar para Thad.

"Psicopompos. Os arautos dos mortos-vivos."

Neste momento, um bando de pardais redemoinhou em direcção ao solo como um ciclone de folhas queimadas, tendo poisado no telhado de Bennett Hall.

- Não - murmurou Thad numa voz trémula. As costas estavam todas arrepanhadas como pele de galinha. A mão causava comichão e ardor.

A m quina de escrever.

Ele podia livrar-se dos pardais e da comichão ardente e enlouquecedora na mão utilizando apenas a m quina de escrever.

O instinto para se sentar … frente da m quina era demasiado forte para ser ignorado. De certa forma, fazer isso parecia ser terrivelmente natural: era como enfiar a mão em gua fria depois de ter sido queimada.

"Tenho de escrever um bilhete … Sra. Fenton."

"Tu só queres é ver-te longe daqui até … noite ou ainda te vais arrepender, seu filho da mãe. E não ir s ser o £nico .

"

Aquela sensação de formigueiro e comichão sob a pele estava a ficar progressivamente mais forte. Irradiava do buraco na mão sob a forma de ondas. Os globos oculares pareciam estar a palpitar em perfeita sintonia com aquela sensação. E no olho da sua mente, a visão dos pardais intensificou-se. Estava na zona Ridgeway de Bergenfield"

Ridgeway sob um ameno céu branco primaveril" estava-se em 1960" o mundo inteiro estava morto excepto aqueles horríveis p ssaros vulgares, aqueles psicopompos, e enquanto olhava, eles iam levantando voo. O céu ficou negro com a sua grande massa giratória. Os pardais estavam a voar de novo.

Do lado de fora da janela de Thad, os pardais nos fios eléctricos, na enfermaria e em Bennett Hall levantaram voo em conjunto num ruflar de asas. Alguns alunos que atravessavam o p tio estancaram para ver o bando inclinar-se para a esquerda, atravessar o céu e desaparecer a caminho do ocidente.

Thad não viu isto. Ele viu apenas o bairro da sua infƒncia transformado numa terra morta de um sonho. Sentou-se diante da m quina de escrever, afundando-se cada vez mais no mundo crepuscular do seu estado de transe enquanto o fazia. Ainda assim, um pensamento não se desvaneceu. O George matreiro bem que podia forç -lo a sentar-se e a brincar com as teclas da IBM, mas ele não iria escrever o livro, desse l por onde desse... e se se agarrasse a isso, o velho George matreiro acabaria por desintegrar-se ou, muito simplesmente, apagar-se da existência, como a chama de uma vela. Ele sabia isso. Ele sentia isso.

A sua mão parecia estar a latejar para fora e para dentro, e Thad tinha a sensação de que, se a pudesse ver, ela assemelhar-se-ia … pata de um personagem de desenhos animados - talvez Wile E. Coiote - após ter sido esmigalhada com um martelo. Não era propriamente dor" era mais como aquela sensação de em-breve-vou-ficar-louco que se tem quando se começa a ter comichão a meio das costas, precisamente naquele ponto onde nunca se consegue chegar. Não se tratava de um prurido superfícial, mas aquela comichão latejante e constante do nervo que leva uma pessoa a cerrar os dentes.

Mas até isso parecia distante e insignificante.

Thad sentou-se diante da m quina de escrever.

No momento em que ligou a m quina, a comichão desapareceu... e a visão dos p ssaros juntamente com ela.

Ainda assim, o estado de transe permaneceu e, no centro deste, estava uma espécie de ordem imperativa" havia algo que tinha de ser escrito, e Thad conseguia sentir todo o corpo a ordenar-lhe para p“r mãos ao trabalho, para fazer o que tinha de ser feito, para levar as coisas a cabo. … sua maneira, era muito pior do que a visão dos pardais ou do que a comichão na mão. Esta comichão parecia emanar de um ponto bem escondido da sua mente.

Enfiou uma folha de papel na m quina de escrever e, por um instante, deixou-se ficar, sentado, sentindo-se distante e perdido. De seguida, poisou os dedos na fila do meio das teclas, a posição típica do dactilógrafo profissional, apesar de ter deixado de escrever sem olhar para as teclas h anos atr s.

Por uns segundos, os dedos tremeram ligeiramente. De imediato, todos menos os dedos indicadores se afastaram.

Aparentemente, quando Stark acabava por ter de escrever … m quina, fazia-o do mesmo modo que o próprio Thad:

procurar a tecla com os olhos e premi-la. Também era evidente"

a m quina de escrever não era o seu instrumento de escolha.

Quando mexeu os dedos da mão esquerda, Thad sentiu, remotamente, um puxão de dor, mas nada mais. Apesar de os dedos indicadores escreverem lentamente, não demorou muito tempo até que a mensagem se formasse na folha branca. Era tão pequena que dava arrepios. Num redemoinho, a letra gótica produziu oito palavras em letras mai£sculas:

ADIVINHA DE ONDE é QUE TE TELEFONEI, THAD?

Subitamente, o mundo tornou a adquirir uma nitidez lancinante. Thad nunca sentira tal medo, um tal horror, em toda a sua vida. Meu Deus, é evidente - era tão certo, tão nítido.

"O filho da mãe telefonou de minha casa! Ele tem a Liz e os gémeos!"

Thad fez tenção de se levantar, sem a mais pequena ideia de onde pretendia ir. Só teve consciência do que estava a fazer quando a mão flamejou de dor, como uma tocha a arder que é agitada com força no ar de forma a criar uma florescência brilhante de fogo. Os ll bios afastaram-se dos dentes e Thad produziu um ruído baixo e semelhante a um gemido. Deixou-se cair de novo na cadeira em frente da IBM, e, antes de se dar conta do que estava a acontecer, as mãos tactearam o caminho de volta para as teclas e começaram a bater nelas de novo.

Desta vez, seis palavras:

DIZ A ALGU•M E ELES MORREM Aturdido, Thad fitou as palavras. Mal escreveu o £ltimo M, tudo o resto desapareceu num pice: era como se ele fosse uma lƒmpada e alguém tivesse arrancado a ficha da tomada. Não mais dores na mão. Não mais comichão. Não mais aquela sensação de formigueiro e de estar a ser observado a percorrê-lo sob a pele.

Os p ssaros tinham desaparecido. Aquela sensação indistinta de estado de transe desaparecera. E Stark havia também desaparecido.

Só que não desaparecera de vez, pois não? Não. Stark guardava a casa enquanto Thad estava fora. Apesar de terem deixado dois agentes estaduais do Maine a vigiarem o local, de nada valera. Ele fora um louco, um louco varrido, ao pensar que um par de polícias podia fazer alguma diferença.

Nem um esquadrão dos Boinas Verdes da Força Delta teria feito qualquer diferença. George Stark não era um homem" ele era algo semelhante a um tanque Tigre nazi que, por mero acaso, se assemelhava a um ser humano - Como estão as coisas? - perguntou Harrison por detr s dele.

Thad saltou como se alguém tivesse espetado um alfinete na parte de tr s do pescoço... e isso fê-lo pensar em Frederick Clawson, Frederick Clawson que metera o nariz onde não era chamado... e se suícidara ao contar aquilo que sabia.

DIZ A ALGU•M E ELES MORREM ofuscava o seu olhar vindo da folha de papel enfiada na m quina de escrever.

Thad esticou o braço, arrancou a folha do cilindro e amarrotou-a. Fez isto sem sequer se virar para ver se Harrison estava muito próximo" esse seria um grave erro. Tentou parecer descontraído. Não se sentia nada descontraído"

sentia-se demente. Esperou que Harrison Lhe perguntasse o que fora que escrevera e porque estava com tanta pressa em arrancar a folha da m quina de escrever. Quando viu que Harrison não ia dizer nada, Thad disse.

- Penso que j acabei. Para o inferno com o bilhete.

De qualquer modo, vou trazer estes dossiers de volta antes mesmo de a senhora Fenton saber que eles alguma vez saíram daqui. - Pelo menos isso era verdade... a não ser que, por acaso, Althea estivesse no céu a olhar c para baixo.

Thad levantou-se, rezando para que as pernas não o traíssem e o deixassem cair de novo sobre a cadeira. Ficou aliviado ao ver que Harrison se encontrava … entrada da porta e nem sequer estava a olhar para ele. Um minuto antes, Thad teria jurado que o homem respirava sobre a parte de tr s do seu pescoço. Contudo, Harrison estava a comer uma bolacha de chocolate e com o olhar fixo na janela por detr s de Thad, observando os poucos alunos que atravessavam ociosamente o p tio.

- Meu Deus, este lugar est mesmo morto - disse o polícia.

"A minha família também pode estar antes de eu chegar a casa."

- Vamos andando? - perguntou ele a Harrison.

- Por mim tudo bem.

Thad dirigiu-se para a porta. Harrison olhou para ele, perplexo - Macacos me mordam! - disse. - Afinal de contas, talvez sempre tenha alguma coisa daquele professor distraído.

Nervosamente, Thad pestanejou os olhos, e olhou de seguida para baixo, apercebendo-se de que ainda estava a segurar numa das mãos a bola de papel amarrotada. Atirou-a para o cesto dos papéis mas a sua mão trémula traiu-o. A bola bateu no aro e ressaltou para fora. Antes sequer de ter tempo para se dobrar e apanhar a bola, j Harrison tinha passado por ele. Apanhou a bola de papel e começou a lanç -la de modo descontraído de uma mão para a outra.

- Vai-se embora sem os dossiers que o trouxeram até c ? - perguntou, apontando para os dossiers do curso de especialização em escrita criativa que estavam colocados ao lado da m quina de escrever com um el stico vermelho … volta a segur -los. De seguida, continuou a atirar a bola de papel que continha as duas £ltimas mensagens de Stark de uma mão para a outra, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, de tr s para a frente, sigam a bola saltitante. Numa das dobras do papel, Thad conseguia ver um pedaço incompleto das letras: "DIZ A ALGU•M E ELES MORREM".

- Ah, aqueles. Obrigado.

Thad pegou nos dossiers mas quase os deixou cair. Agora, Harrison iria desdobrar a bola de papel que tinha na mão.

Era isso que iria fazer e, embora neste preciso momento, Stark não o estivesse a ver - de qualquer forma, Thad tinha a certeza absoluta de que ele não o estava a ver - voltaria … carga muito em breve. E quando soubesse, faria alguma coisa indescritível … Liz e aos gémeos.

- De nada. - Harrison lançou a bola de papel amarrotada em direcção ao cesto dos papéis. Depois de dar praticamente uma volta completa em redor do aro, a bola acabou por cair l para dentro. - Dois pontos - exclamou ele, saindo para o corredor de forma a que Thad pudesse fechar a porta.

8

Thad desceu as escadas com a escolta polícial na sua peugada. Rawlie DeLesseps p“s a cabeça fora do gabinete e desejou a Thad um bom Verão, caso não o visse de novo.

Thad desejou-lhe o mesmo numa voz que, aos seus próprios ouvidos, soava bastante normal. Sentiu como se estivesse em piloto autom tico. Essa sensação durou até chegar ao Suburban.

ao atirar os dossiers para o assento do passageiro, o seu olhar foi atraído para a cabina p£blica do outro lado do parque de estacionamento.

- Vou telefonar … minha mulher - disse ele a Harrison. - Para ver se ela quer alguma coisa da loja.

- Devia ter feito isso l em cima - retorquiu Manchester. - Teria poupado vinte e cinco cêntimos.

- Esqueci-me - explicou Thad. - Talvez tenha realmente alguma coisa daquele professor distraído.

Os dois polícias trocaram entre si um olhar divertido e enfiaram-se no Plymouth, onde podiam ligar o ar condicionado e vê-lo através do p ra-brisas.

Thad teve a sensação de que todas as suas entranhas se tinham transformado em gelatina. Do bolso, pescou uma moeda e enfiou-a na ranhura. A mão tremia, tendo-se enganado a marcar o segundo n£mero. Desligou o telefone, esperou que a moeda saísse e tentou de novo, pensando:

"Meu Deus, é como na noite em que a Miriam morreu.

Exactamente como naquela noite."

Era uma espécie de déj… vul que ele dispensava de bom grado. … segunda tentativa, Thad marcou bem o n£mero e ficou ali, com o auscultador pressionado com tamanha força contra a orelha que até doía. Consciente desse facto, Thad tentou p“r-se mais … vontade. Não podia deixar que Harrison e Manchester se apercebessem de que algo não estava a correr bem - acima de tudo, tinha de evitar isso. No entanto, não parecia conseguir relaxar os m£sculos Stark atendeu o telefone após o primeiro toque.

- Thad?

- Que foi que Lhes fizeste? - Era como cuspir bolas secas de linho. E, ao fundo, Thad conseguia ouvir os dois gémeos a gritar em plenos pulmões, tendo concluído que os seus gritos eram estranhamente consoladores. Não eram os gritos roucos que Wendy soltara quando caíra das escadas abaixo" eram gritos desconcertantes, talvez até gritos zangados, mas não gritos de dor.

"Liz", pensou ele. Onde estaria Liz?

- Nadinha - retorquiu Stark - como podes ouvir por ti próprio. Não toquei num só fio de cabelo destas cabecinhas preciosas. Ainda não.

- Liz - disse Thad, sentindo-se subitamente dominado por um terror desolador. Era como ser submergido nas ondas de rebentação compridas e frias.

- Que h com ela? - O tom provocante era grotesco, insuport vel.

- Passa-lhe o telefone! - rugiu Thad. - Se est s … espera que eu escreva mais uma maldita palavra que seja sob o teu nome, passa-lhe o telefone! - E havia uma parte do seu espírito, aparentemente impassível perante um tal extremo de horror e espanto como este, que o acautelava:

"Toma cuidado, Thad. Est s apenas a três quartos de distƒncia dos polícias. Um homem não grita ao telefone quando est a ligar para casa para perguntar … mulher se ela tem ovos que cheguem."

- Thad! Thad, velha carcaça! - Stark pareceu ficar magoado, embora Thad soubesse com uma certeza terrível e enlouquecedora que o filho da mãe estava a sorrir. - Tens c o raio de uma m opinião sobre mim, camaradazinha. Isto é, acalma-te, filho! Segura os cavalos que aqui est ela.

- Thad? Thad, est s aí? - Liz parecia estar preocupada e assustada, mas não em pƒnico. Não propriamente.

- Sim. Est s bem, amor? Os mi£dos estão bem?

- Sim, estamos bem. Nós... - a £ltima palavra dissipou-se um pouco. Thad conseguia ouvir o filho da mãe a dizer-lhe alguma coisa, embora não conseguisse decifrar as palavras. Ela disse "sim, est bem" e voltou de novo ao telefone. Neste momento, parecia estar prestes a chorar.

- Thad, tens de fazer aquilo que ele quer.

- Sim, eu sei.

- Mas ele quer que eu te diga que não o podes fazer aqui. A Polícia ir chegar em breve. Ele... Thad, ele diz que matou os dois polícias que estavam a vigiar a casa.

Thad cerrou os olhos.

- Não sei como foi que o fez, mas ele diz que o fez...

e eu... eu acredito nele. - Agora ela estava a chorar A tentar não chorar, sabendo que isso iria preocupar Thad e sabendo que se ficasse preocupado, ele poderia fazer algo perigoso. Thad segurou bem no auscultador, encostou-o ao ouvido e tentou parecer descontraído.

Stark, de novo a sussurrar coisas ao fundo. E Thad conseguiu apanhar uma das palavras. "Colaboração." Incrível.

Verdadeiramente incrível.

- Ele vai levar-nos daqui - disse ela. - Diz que sabes para onde vamos. Lembras-te da tia Martha? Diz que deves despistar os homens que estão contigo. Diz que sabe que tu consegues fazer isso, porque ele conseguiu. Quer que tu v s ter connosco esta noite. Ele diz... - Liz soltou um soluço assustado. Um outro começou a caminho, mas ela conseguiu trav -lo. - Diz que vais colaborar com ele, que com ambos a trabalharem em conjunto, vai ser o melhor livro de sempre. Ele...

Sussurro, sussurro, sussurro.

Oh, como ele desejava lançar os dedos ao pescoço do perverso George Stark e sufoc -lo até os dedos perfurarem a pele e esmigalharem a garganta do maldito filho da mãe.

- Ele diz que Alexis Machine regressou do mundo dos mortos e mais forte do que nunca. - De seguida, de modo esganiçado. - Por favor, faz o que ele pede, Thad! Ele tem armas! E tem um maçarico! Um maçarico pequeno! Ele diz que se tentares alguma graça... Por favor, Thad, faz o que ele pede!

As palavras dela dissiparam-se quando Stark afastou o telefone dela. - Diz-me uma coisa, Thad - disse Stark de novo, e agora sem nenhum som provocatório na voz. Estava terrivelmente sério. - Diz-me uma coisa e f -lo de modo credível e sincero, camarada, ou eles vão pagar por isso. Percebes o que eu quero dizer?

- Sim.

- Tens a certeza? Porque ela estava a dizer a verdade sobre o maçarico.

- Sim! Sim, raios te partam!

- O que é que ela quis dizer quando te pediu para te lembrares da tia Martha? Que porra de coisa é? Era alguma espécie de código, Thad? Ser que ela estava a tentar passar-me a perna?

Subitamente, Thad viu a vida da mulher e dos filhos presa por um ténue fio. Não se tratava de uma met fora"

era uma coisa que conseguia realmente ver. O fio era de um azul frio, transparente, praticamente invisível no meio de toda a eternidade que pudesse existir. Agora, resumia-se tudo a duas coisas: o que ele dizia e aquilo em que George Stark acreditava.

- O equipamento de gravação est desligado?

- Claro que est ! - exclamou Stark. - Por quem é que me tomas, Thad?

- Liz sabia isso quando Lhe passaste o telefone?

Seguiu-se uma pausa, após a qual Stark disse:

- Bastava-lhe ter olhado. Os fios estão todos espalhados pelo raio do chão.

- Mas ela olhou? Olhou?

- Deixa-te de rodeios e vamos ao que interessa, Thad.

- Ela estava a tentar dizer-me para onde é que vocês vão sem dizer as palavras - explicou-lhe Thad, esforçando- -se por aparentar um tom paciente e admoestador, paciente mas um pouco paternalista. Thad não sabia dizer se estava a conseguir convencer Stark ou não, mas tinha a sensação de que, de uma forma ou de outra, este £ltimo Lhe daria a conhecer a sua decisão, e muito em breve. - Ela estava a referir-se … casa de Verão. O poiso em Castle Rock. Martha Tellford é a tia de Liz. Não gostamos dela. Sempre que telefonava a dizer que ia a caminho para nos visitar, imagin vamos que fugíamos para Castle Rock e que nos escondíamos na casa de Verão até ela morrer. Pronto, j disse tudo, e se eles puseram equipamento de gravação sem fios no nosso telefone, George, vai cair tudo em cima de ti.

Thad esperou, a transpirar, para ver se Stark caía nesta... ou se o fio ténue, a £nica coisa que separava os seus queridos da eternidade, seria cortado.

- Não puseram - disse Stark, por fim. A sua voz parecia estar de novo mais descontraída. Thad lutou contra a necessidade de se encostar ao lado da cabina telefónica e fechou os olhos em sinal de alívio. "Se te vir mais alguma vez, Liz", pensou ele, "torço-te o pescoço por te arriscares tanto." Só que supunha que aquilo que realmente faria quando e se a visse de novo seria beij -la até ela perder o f“lego.

- Não Lhes faças mal - disse ele para o telefone. - Por favor, não Lhes faças mal. Faço tudo aquilo que quiseres. - Oh, eu sei. Eu sei que far s, Thad. E vamos fazê-lo juntos. Pelo menos para começar. Põe-te a mexer. Livra-te dos teus cães de guarda e traz-me esse cu até Castle Rock.

Põe-te l o mais depressa que puderes mas não guies tão depressa a ponto de atraíres as atenções. Isso seria um erro.

Talvez possas considerar a hipótese de trocar de carro mas deixo os pormenores … tua consideração" afinal de contas, és um tipo criativo. Põe-te l antes de anoitecer, se é que os queres encontrar ainda vivos. Não faças merda. Est s a perceber-me? Não faças merda e não tentes nada de engraçado.

- Não faço.

- Exactamente. Não far s. Aquilo que far s, velha carcaça, é seguir as regras do jogo. Se deitares tudo a perder, quando aqui chegares só encontrar s os corpos e uma cassete com a tua mulher a amaldiçoar o teu nome antes de morrer.

Ouviu-se um estalido. A chamada fora cortada.

9

Enquanto Thad se encaminhava para o Suburban, Manchester baixou o vidro do lado do passageiro do Plymouth e perguntou-lhe se estava tudo bem l por casa. Pelo olhar do homem, Thad apercebeu-se de que esta não era apenas mais uma pergunta infundada. Afinal de contas, ele vira algo no rosto de Thad. Mas isso não o incomodava," Thad pensava conseguir lidar com isso. No fundo, ele era um tipo criativo e, neste momento, o seu espírito parecia deslocar-se a uma velocidade horrivelmente silenciosa muito própria, como aquele comboio de alta velocidade japonês.

Apergunta p“s-se de novo: "Minto ou digo a verdade?"

E, como anteriormente, não havia muitas alternativas.

- Est tudo bem - retorquiu. O tom de voz era natural e descontraído. - Os mi£dos estão mal-humorados, é só isso. E isso põe a Liz mal-humorada. - Thad deixou a voz aumentar um pouco de volume. - Desde que saímos de casa, vocês os dois parecem estar nervosos. Est a passar-se alguma coisa que eu deva saber?

Mesmo nesta situação desesperada, Thad tinha consciência sufíciente para sentir uma ligeira pontada de culpa ao afirmar uma coisa desse género. Algo estava a acontecer, sim - mas ele era quem sabia o que estava a acontecer e não iria contar.

- Não - respondeu Harrison por detr s do volante, debruçando-se para a frente para não ficar tapado pelo parceiro. - Não conseguimos entrar em contacto com Chatterton e Eddings em casa, é tudo. Devem ter ido l dentro.

- A Liz disse que acabou de fazer ch gelado - disse Thad, mentindo levianamente.

- Então é isso - retorquiu Harrison, lançando um sorriso a Thad, que sentiu um outro rebate de consciência, ligeiramente mais forte. - Talvez ainda haja algum ch quando l chegarmos, hem? - Tudo é possível. - Thad fechou a porta do Suburban e enfiou a chave de ignição na ranhura com uma mão que parecia não ter qualquer sensibilidade, como se de um bloco de madeira se tratasse. As perguntas rodopiavam … volta da sua cabeça, descrevendo o seu passo de dança típico, complicado e nada particularmente encantador. Ser que Stark e a sua família j tinham partido para Castle Rock? Esperava bem que sim: Thad queria que eles estivessem bem longe quando a notícia de que tinham sido seqoestrados fosse transmitida através das redes de com£nicação da Polícia.

Se fossem no carro de Liz e se alguém os visse, ou se ainda estivessem próximo de Ludlow ou em Ludlow, podia haver sarilhos. Sarilhos de morte. Era terrivelmente irónico que, acima de tudo, Thad desejasse que Stark conseguisse fugir sem levantar as atenções, mas essa era a posição exacta em que ele se encontrava.

E, a propósito de fugas, como é que iria despistar Harrison e Manchester? Essa era uma outra pergunta muito boa. De certeza que não seria ultrapassando-os com o Suburban. Com a pintura coberta de poeira e os pneus negros como o bréu, o Plymouth que estavam a guiar assemelhava-se a um cão, embora o ronco spero do motor sugerisse que, debaixo desse disfarce, se tratava de um autêntico perna-longa. Thad imaginava que conseguiria ver-se livre deles - j tinha uma ideia de como e onde isso seria feito - mas como é que iria impedir que fosse descoberto de novo enquanto percorria os duzentos e cinquenta quilómetros que o separavam de Castle Rock?

Thad não tinha a mais pequena ideia... apenas sabia que, de uma forma ou de outra, teria de o fazer.

"Lembras-te da tia Martha?"

Thad contara a Stark uma série de tretas sobre o que isso significava e ele caíra que nem um patinho. O acesso do filho da mãe … sua mente não era, pois, total. Martha Tellford era a tia de Liz, até aí tudo bem, e eles tinham pensado, a maior parte das vezes na cama, em fugir dela, só que falavam em fugir para locais exóticos como Aruba ou o Taiti...

porque a tia Martha sabia tudo sobre a casa de Verão em Castle Rock. Ela visitara-os nessa casa com muito mais frequência do que os visitara em Ludlow. E o local preferido da tia Martha Tellford em Castle Rock era a lixcira. Ela era um membro de pleno direito da NRAt, com cartão e as quotas em dia, e aquilo que gostava de fazer na lixeira era alvejar ratazanas.

- Se queres que ela se v embora - lembrava-se Thad de ter dito a Liz numa ocasião - vais ter de ser tu a dizer-Lhe isso. - Aquela conversa tivera também lugar na cama, por volta do final da intermin vel visita da tia Martha no Verão de... ter sido de 79 ou de 80? Não importava, supunha ele. - Ela é tua tia. Além disso, temo que se for eu a dizer-lhe alguma coisa ela acabe por usar aquela sua Winchester contra mim.

E Liz retorquiu:

- Também não tenho muita certeza que o facto de um familiar consanguíneo me proteja de alguma coisa. Ela fica c com um olhar...

Thad lembrava-se de que, a seu lado, Liz troçara dela, imitando-a. De seguida, dera as suas risadinhas e cutucara nas costelas.

- V l . Deus odeia os cobardes. Dize-lhe que somos contra matar os animais, mesmo quando se trata de ratos da lixeira. Thad, vai ter com ela e dize-lhe, "ponha-se a andar daqui para fora, tia Martha! Acabou de matar a £ltima ratazana no esgoto. Faça as malas e ponha-se a andar daqui para fora!"

Como era evidente, nenhum dos dois dissera … tia Martha para se p“r a andar dali para fora", ela continuou com as çuas expedições di rias ao esgoto, onde matou d£zias de ratazanas (e algumas gaivotas quando as ratazanas fugiam para se abrigar, suspeitava Thad). Por fim, chegou o dia tão esperado quando Thad a levou até ao Aeródromo de Portland e a p“s no avião de volta a Albany. ao portão, ela dera-lhe um aperto de mão masculino de duas sacudidelas peculiarmente desconcertantes - como se estivesse a firmar um acordo de negócios e não a despedir-se - e dissera-lhe que talvez Lhes fosse fazer uma visita no ano seguinte.

- Uma óptima caçada - dissera ela. - Devo ter atingido aí umas seis ou sete d£zias daqueles min£sculos sacos de germes ambulantes.

Ela nunca mais voltara, embora tivesse havido uma ocasião em que tinham escapado por uma unha negra (aquela visita pendente fora evitada por um convite misericordioso de £ltima hora para ir para o Arizona onde a tia Martha os informara ao telefone, ainda havia recompensas por coiotes).

Nos anos que se seguiram … sua £ltima visita, "Lembra-te da tia Martha" tornara-se uma espécie de frase em código, como "Lembra-te do Maine". Significava que um dos dois devia ir buscar a .22 ao barracão das arrumações e alvejar um convidado particularmente aborrecido, tal como a tia Martha alvejara as ratazanas na lixeira. Agora que pensava nisso, Thad tinha a impressão de que Liz utilizara essa mesma expressão numa ocasião, durante as sessões de entrevista-e-fotografias para a revista People. Não se tinha ela virado para ele e murmurado:

- Não achas que aquela Myers faz lembrar a tiaMartha, Thad?

De seguida, tapara a boca e desatara a soltar risadinhas Muito engraçadas.

Só que agora não tinha graça nenhuma. E agora não se tratava de alvejar ratazanas no esgoto. A não ser que tivesse percebido tudo mal e que Liz estivesse a tentar dizer-lhe para vir atr s deles e matar George Stark. E se ela queria que ele fizesse isso, Liz, que chorava quando ouvia falar nos animais abandonados que eram "postos a dormir" no Abrigo para Animais Derry, era porque não deveria haver uma outra saída. Neste momento, ela devia achar que só havia duas saídas: ou a morte de Stark... ou a morte dela e dos gémeos.

Harrison e Manchester estavam a olhar para ele com curiosidade, tendo-se Thad apercebido de que permanecera sentado atr s do volante do lento Suburban, perdido nos seus pensamentos, praticamente durante todo um minuto.

Thad ergueu a mão, esboçou uma leve saudação, saiu em marcha atr s e virou em direcção … Maine Avenue, que levaria para fora dos limites do campus univers rio. Tentou começar a pensar na forma de se livrar destes dois antes que eles ouvissem no r dio da banda da Polícia a notícia de que os colegas tinham sido mortos. Tentou pensar, mas só conseguia ouvir Stark dizer que se ele estragasse tudo, as £nicas coisas que encontraria quando chegasse … casa de Verão em Castle Rock seriam os corpos e uma cassete de Liz a amaldiço -lo antes de morrer.

E só conseguia ver Martha Tellford a fazer pontaria com o cano da Winchester, que era muito, mas muito maior do que a .22 que ele mantinha guardada no barracão fechado da casa de Verão, tentando alvejar as ratazanas roliças que !

corriam em fuga por entre os montes de lixo e as fogueiras de um laranja desbotado. Subitamente, Thad apercebeu-se de que ele queria alvejar Stark, e não com uma .22.

O George matreiro merecia algo maior. Um morteiro podia ter o tamanho certo.

As ratazanas, saltando para cima da gal xia reluzente de garrafas partidas e latas esmigalhadas, com os corpos que começavam por se retorcer e depois salpicavam tudo … volta quando as tripas e a pele voavam pelo ar.

Sim, ver uma coisa dessas acontecer a George Stark seria óptimo.

Thad estava a agarrar o volante com muita força, o que causava dores na mão esquerda. Na verdade, a mão parecia doer bem l no fundo, nos ossos e nas articulações.

Thad afrouxou - ou, pelo menos, tentou - e tacteou no bolso do casaco … procura do Percodan que tinha trazido com ele, acabando por descobri-lo e engoli-lo em seco.

Começou a pensar no cruzamento na zona da escola em Veazie. Aquele com o sinal de stop para as quatro faixas.

E começou também a pensar naquilo que Rawlie DeLesseps dissera. "Psicopompos", era assim que Rawlie os chamara.

Os arautos dos mortos-vivos.