A Metade Sombria
Por v rios instantes - ele nunca…
Treze
P•nicO PURO
1
Por v rios instantes - ele nunca teve qualquer ideia de quanto tempo passara - Thad foi tomado por um pƒnico tão completo e absoluto que esteve literalmente incapaz de funcionar sob qualquer aspecto. Era verdadeiramente extraordin rio que tivesse sido sequer capaz de respirar. Mais tarde, Thad chegaria … conclusão que a £nica altura em que se sentira de forma mais ou menos semelhante fora quando tinha dez anos, em meados de Maio, e, juntamente com dois amigos, decidira ir nadar. Era, pelo menos, três semanas mais cedo do que o início habitual dos banhos, mas, ainda assim, pareceu uma óptima ideia. Estava um dia sem nuvens e muito quente para o mês de Maio, em Nova Jérsia, com as temperaturas acima dos trinta graus. Os três desceram até ao lago Davis, o nome jocoso que davam a um laguinho a um quilómetro e meio da casa de Thad, em IBergenfield. Ele foi o primeiro a despir as roupas e a vestir o fato de banho e o primeiro a entrar na gua. Literalmente, como uma bala lançada por um canhão, Thad lançou-se para a gua da margem do lago, e ainda hoje acredita que, nesse momento, esteve a uma unha negra da morte - quão próximo era algo que ele não desejava realmente saber.
Nesse dia, o ar podia estar como em meados de Verão, mas a gua estava como o £ltimo dia do início do Inverno, antes de o gelo deslizar sobre a superfície, cobrindo-a. O sistema nervoso entrou momentƒneamente em curto-circuito.
A respiração ficou presa nos pulmões, o coração parou precisamente no próprio acto de bater, e quando Thad furou a superfície, era como se fosse um carro com uma bataria descarregada que precisasse de um empurrão, que precisasse com a maior urgência, e não soubesse como fazê-lo.
Thad recordava-se de quão brilhante a luz do sol parecera, produzindo mil e umas centelhas douradas na superfície azul-escura da gua, recordava-se de Harry Black e Randy Wiser, de pé sobre a margem, de Harry a puxar os calções de gin stica desbotados sobre o traseiro generoso, de Randy ali parado, nu, com o fato de banho numa das mãos, e a gritar "Como é que est a gua, Thad?", quando ele irrompeu de debaixo de gua, e tudo aquilo em que conseguia pensar era: "Estou a morrer, estou neste exacto momento, aqui, ao sol, com os meus dois melhores amigos e as aulas j acabaram e não tenho trabalhos de casa e o Mr. Blandings Constrói a Sua Casa de Sonho vai aparecer esta noite no programa Early Show e a mamã disse que eu podia comer em frente ao televisor, mas nunca mais a poderei ver porque vou morrer." O que fora uma respiração f cil e sem complicações apenas h uns segundos atr s era agora uma pe£ga grossa a obstruir a garganta, algo que ele não podia puxar para fora nem empurrar para dentro. O coração permanecia sob o peito como uma min£scula pedra fria. Foi então que o gelo se quebrou: Thad aspirou uma grande golfada de ar eléctrico, pele de galinha cobriu todo o seu corpo, e ele respondeu a Randy com a alegria maliciosa e insensata que é apenas pertença dos rapazinhos: "A gua est óptima! Nada fria!" Só muitos anos mais tarde é que Lhe ocorreu que poderia ter morto um deles, ou ambos, tal como praticamente se matara a si próprio.
Era assim que Thad se sentia agora; encontrava-se exactamente debaixo do mesmo tipo de congestionamento total do corpo. Na tropa, tinham um nome para uma coisa deste género: um aperto de merda. Sim. Bom nome. Quando se tratava de terminologia, a tropa era óptima. C estava ele sentado, no meio de um grande aperto de merda. Sentou-se na cadeira, não nela mas sobre ela, debruçado para a frente, com o telefone ainda na mão, a fitar o ecrã apagado do televisor. Thad estava ciente de que Liz aparecera na entrada da porta, que Lhe perguntara primeiro quem era e, depois, o que é que se passava, e tudo decorria como naquele dia no lago Davis, exactamente como nesse dia, com a respiração como uma pe£ga de algodão suja presa na garganta, que não subia nem descia, com todas as linhas de comunicação entre o cérebro e o coração repentinamente cortadas, pedimos desculpa por esta paragem imprevista, retomaremos o serviço o mais rapidamente possível, ou talvez o serviço nunca venha a ser retomado, mas, de qualquer forma, esperemos que aprecie a sua estada na bela cidade de Endsville, o local onde todas as linhas de comboio terminam.
Foi então que o gelo se quebrou, tal como se quebrara daquela outra vez, e Thad respirou de modo entrecortado.
Sob o peito, o seu coração deu duas batidas r pidas, aleatórias e galopantes, e, de seguida, retomou o ritmo normal... apesar de a sua velocidade estar ainda acelerada, demasiado acelerada.
Aquele grito. Jesus Cristo Nosso Senhor, aquele grito.
Nesse momento, Liz atravessou a sala a correr, e Thad só se apercebeu de que ela Lhe arrancara o auscultador do telefone da mão quando o viu gritar "Al“?" e "Quem est a falar?" para dentro dele vezes sem conta. De seguida, ela ouviu o zumbido habitual de uma ligação cortada e p“s o auscultador no lugar.
- Miriam - conseguiu, por fim, dizer, quando Liz se virava para ele. - Era a Miriam e ela estava a gritar.
"Excepto nos livros, nunca matei ninguém." "Os pardais estão a voar."
"Aqui em baixo, chamamos a isso recheio dos tolos.
"Aqui em baixo, chamamos a isso Endsville."
"Vou voltar para o norte, velha carcaça. Tens de mentir quanto ao meu libi, porque eu vou voltar para o norte Vou cortar uns bons bifinhos de vaca para mim."
- A Miriam? A gritar? A Miriam Cowley? Thad, que é que se est a passar?
- é ele - afirmou Thad. - Sabia que era. Acho que sempre o soube, praticamente desde o início, e hoje... esta tarde... tive um outro.
- Um outro quê? - Os dedos dela comprimiam se contra um dos lados do pescoço, esfregando a pele com força. - Um outro branco? Um outro estado de transe?
- Ambos - retorquiu ele. - Mais uma vez, os pardais em primeiro lugar. Escrevi uma data de coisas sem nexo num pedaço de papel quando estava fora de combate. Deitei o papel fora, mas o nome dela estava l , Liz. O nome da Miriam fazia parte daquilo que escrevi esta tarde quando estava fora...
Thad parou, com os olhos cada vez mais arregalados.
- O quê? Thad, o que é que se passa? - Liz agarrou num dos braços dele e abanou-o. - O que é que se passa?
- Ela tem um poster na sala de estar - disse. Thad ouviu a própria voz como se fosse a de outra pessoa, uma voz oriunda de muito longe. Através de um intercom£nicador, talvez. - Um poster de um musical da Broadway. Cats. Vi-o da £ltima vez que l estivemos. "Cats, AGORA E SEMPRE". Também escrevi isso no papel. Escrevi isso porque ele estava l , e assim eu estava l , parte de mim estava l , parte de mim estava a ver com os olhos dele... - Olhou para Liz. Olhou para ela com os seus olhos imensamente arregalados. - Isto não é nenhum tumor, Liz. Pelo menos, não se trata de um que esteja dentro do meu corpo.
- Não sei de que é que est s a falar! - disse Liz, praticamente aos berros.
- Tenho de telefonar ao Rick - murmurou ele. Parte da sua mente parecia estar a elevar-se, movendo-se com magnificência e falando consigo própria através de imagens e reluzentes símbolos imperfeitos. Era assim que, por vezes, Thad se sentia quando escrevia, embora, tanto quanto se lembrava, esta fosse a primeira vez que se sentia desta forma na vida real: seria a escrita a vida real? indagou-se ele, subitamente. Não acreditava que fosse. Era mais como um intervalo.
- Thad, por favor!
- Tenho de avisar o Rick. Ele pode estar em perigo.
- Thad, não est s a dizer coisa com coisa!
Não, claro que não estava. E se ele parasse para explicar, iria parecer ainda mais que não estava a dizer coisa com coisa... e enquanto fizesse uma pausa para confidenciar os seus temores … esposa, provavelmente não fazendo mais do que lev -la a interrogar-se sobre o tempo que demoraria até arranjar e preencher os devidos papéis de divórcio, George Stark poderia estar a atravessar os nove quarteirões em Manhattan, que separavam o apartamento de Rick do da ex-mulher. Sentado no banco de tr s de um tfixi ou atr s do volante de um carro roubado, que raios, atr s do volante do Toronado preto do seu sonho, tanto quanto Thad sabia - j que se tinha chegado a este ponto, tendo percorrido o caminho que levava … insanidade, porque não mandar tudo … fava e ir até ao fim? Ali sentado, a fumar, a preparar-se para matar Rick, tal como fizera com Miriam...
Ser que ele a matara?
Talvez só a tivesse assustado, tendo-a deixado a chorar e em estado de choque. Ou talvez a tivesse magoado - pensando melhor, isso seria bastantte prov vel. Que dissera ela? "Não deixes que ele me corte de novo, não deixes que o homem mau me corte de novo." E, no papel, ele lera "cortes". E... não lera também "exterminar"?
Sim. Sim, lera. Mas isso tinha a ver com o sonho, não era? Isso tinha a ver com Endsville, o local onde todas as linhas de comboio terminam... não tinha?
Ele rezou para que tivesse.
Era necess rio alguém que a ajudasse, pelo menos havia que tentar, e tinha de avisar Rick. Mas se se limitasse a telefonar para este £ltimo, se Lhe telefonasse sem nenhuma razão aparente e Lhe dissesse para ter cuidado, Rick iria querer saber porquê.
"Que é que se passa, Thad? Que foi que aconteceu?"
E se chegasse a mencionar o nome de Miriam, Rick partiria para casa dela enquanto o Diabo esfrega um olho, porque ainda gostava dela. Ainda gostava muito, mas mesmo muito dela. E, depois, seria ele quem a encontraria...
talvez desfeita em pedaços (parte do pensamento de Thad tentou afastar-se dessa ideia, dessa imagem, mas o resto do seu pensamento estava inflexível, obrigando-o a ver o aspecto da bonita Miriam, retalhada como um naco de carne no balcão de um talho).
E talvez fosse precisamente com isso que Stark estivesse a contar. O est£pido do Thad a enviar Rick para uma ratoeira.
O est£pido do Thad a fazer o trabalho por Stark.
"Mas ser que, durante todo este tempo, não tenho vindo a fazer o trabalho por ele? Pelo amor de Deus, não e disso mesmo que se trata um pseudónimo?"
Thad conseguia sentir a sua mente a congestionar-se de novo, estreitando-se suavemente num nó como uma cƒimbra, num aperto de merda, e ele não podia dar-se ao luxo de se sentir assim: era precisamente neste momento que ele não podia mesmo nada dar-se ao luxo de se sentir assim.
- Thad... por favor! Diz-me o que se est a passar!
Thad respirou fundo e, com as mãos frias, segurou nos braços frios de Liz.
- Era o mesmo homem que matou o Homer Gamache e o Clawson. Ele estava com a Miriam. Ele estava... a ameaç -la. Espero que fosse só isso que estava a fazer. Não sei. Ela gritou. A ligação caiu.
- Oh, Thad! Meu Deus!
- Nenhum de nós tem tempo a perder com histerias - retorquiu ele, e pensou: "Embora Deus saiba que parte de mim quer entrar em histeria." - Vai l acima e traze-me a tua agenda dos telefones. Não tenho o n£mero de telefone e a morada da Miriam na minha. Penso que tu tens.
- O que foi que quiseste dizer com aquilo de sempre teres sabido desde o início?
- Liz, agora não h tempo para isso. Vai buscar a tua agenda dos telefones. R pido. Est bem?
Liz hesitou um momento mais.
- Ela pode estar ferida! Vai!
Liz virou-se e saiu da sala a correr. Depois de ouvir os passos r pidos e ligeiros dos pés de Liz a subirem as escadas, Thad tentou p“r de novo a cabeça a funcionar.
"Não telefones ao Rick. Se se trata de uma ratoeira, telefonar ao Rick seria uma péssima ideia.
Muito bem. J cheg mos a este ponto. Não é muito, mas é um começo. A quem, então?"
Ao Departamento de Polícia de Nova Iorque? Não; eles viriam com uma série de perguntas inuteis que levariam imenso tempo a responder: para começar, como é que um tipo no Maine estava a participar de um crime em Nova Iorque.
Não o D.P.N.I. Uma outra ideia péssima.
"Pangborn. "
A mente de Thad apoderou-se da ideia. Começaria por telefonar a Pangborn. Teria de ter cuidado com aquilo que iria dizer, pelo menos por agora. Quanto a decidir sobre aquilo que iria ou não dizer mais tarde - sobre os lapsos de memória, sobre o ruído dos pardais, sobre Stark - isso ficaria para depois. Para j , Miriam era o que importava.
Se ela estivesse ferida mas ainda viva, não valeria a pena trazer elementos novos para a situação que só poderiam atrasar o procedimento de Pangborn. Era ele quem teria de telefonar para os polícias de Nova Iorque. Estes agiriam com uma maior rapidez e fariam menos perguntas se a queixa viesse de um deles, ainda que este polícia em particular se encontrasse por acaso no Maine.
Mas a Miriam em primeiro lugar. Deus queira que ela atendesse o telefone.
Liz entrou a correr na sala, com a agenda dos telefones.
O seu rosto estava quase tão p lido como estivera depois de, finalmente, conseguir dar William e Wendy … luz.
- Aqui est - disse ela, a respirar rapidamente, ofegante.
"Vai correr tudo bem", pensou Thad em dizer-lhe, mas conteve-se. Não queria dizer nada que pudesse acabar por se transformar numa mentira com a maior das facilidades...
e os gritos de Miriam sugeriam que as coisas h muito que j tinham passado a fase de estar tudo bem. Sugeriam que, pelo menos para Miriam, as coisas podiam provavelmente nunca mais voltar a essa fase.
"Est um homem aqui, est um homem mau aqui."
Thad pensou em George Stark e teve um ligeiro arrepio.
Ele era um homem muito mau, não havia d£vida. Mais do que ninguém, Thad sabia que isso era bem verdade. Afinal de contas, fora ele quem criara George Stark do nada...
não fora?
- Estamos bem - disse ele a Liz: pelo menos isso era verdade. "Até agora", insistiu a sua mente num sussurro.
- Por favor, tenta controlar-te, amor. A respiração ofegante e um desmaio no chão não ajudarão em nada a Miriam.
Liz sentou-se, direita como uma vareta de espingarda, com o olhar fixo em Thad, enquanto os dentes roíam implacavelmente o l bio de baixo. Thad começou a marcar o n£mero de Miriam. Os seus dedos, ligeiramente trémulos.
hesitaram no segundo algarismo, marcando-o por duas vezes.
"Quem és tu para andares a dizer …s pessoas para se controlarem?" Thad inspirou mais uma longa golfada de ar.
susteve-a, carregou na patilha que desliga o telefone, e começou tudo de novo, forçando-se a si próprio a acalmar Depois de marcar o £ltimo algarismo, escutou os estalidos cautelosos da ligação a ser estabelecida.
"Deus, faz com que ela esteja bem. E se não estiver totalmente bem, se não conseguires isso, faz com que esteja, pelo menos, suficientemente boa para atender o telefone. Por favor."
Mas o telefone não tocou. Thad só conseguia ouvir o insistente tu-tu-tu do sinal de impedido. Talvez estivesse mesmo impedido; talvez ela estivesse a telefonar para Rick ou para o hospital. Ou talvez o auscultador estivesse fora do descanso.
Contudo, havia ainda uma outra possibilidade, pensou ele ao carregar mais uma vez na patilha para desligar o telefone. Talvez Stark tivesse arrancado o fio do telefone da ficha na parede. Ou talvez
("não deixes que o homem mau me corte de novo")
o tivesse cortado.
Tal como cortara Miriam.
"Navalha", pensou Thad, e um arrepio subiu-lhe pela espinha acima. Essa fora uma das outras coisas que ele escrevera essa tarde naquele caldo de palavras. "Navalha."
2
A meia hora que se seguiu foi um regresso ao surrealismo agoirento em que Thad se vira envolvido quando Pangborn e os dois agentes estaduais tinham aparecido na soleira da porta para lev -lo preso por um assassínio de que não sabia nada de nada. Thad não sentiu qualquer tipo de ameaça pessoal - pelo menos nenhuma ameaça pessoal imediata - mas a mesma sensação de estar a andar por uma sala escura repleta de fios delicados de teias de aranha que roçavam pelo rosto, primeiro fazendo cócegas, mas, em £ltima an lise, acabando por enlouquecer qualquer pessoa, fios que não se colavam mas que se esvaneciam antes que pudessem ser agarrados.
Thad marcou de novo o n£mero de Miriam. Quando tornou a ouvir o sinal de impedido, carregou mais uma vez na patilha para desligar o telefone e hesitou apenas por um instante, dividido entre telefonar a Pangburne ou ligar para uma telefonista em Nova Iorque para verificar o telefone de Miriam. Ser que eles não tinham um meio qualquer de distinguir entre uma linha que estava impedida por estar em com£nicação, uma outra em que o aparelho estava fora do descanso, e ainda uma outra que tinha ficado inoperacional por uma razão qualquer? Thad estava convencido que eles deveriam ter, mas o que, obviamente, importava era que a ligação estabelecida entre ele e Miriam tinha caído repentinamente, e ele deixara de conseguir entrar em contacto com ela. Ainda assim, se tivessem duas linhas em vez de apenas uma, eles poderiam descobrir o que acontecera - Liz poderia descobrir. Porque é que eles não tinham duas linhas? Era estupido não se ter duas linhas, não era?
Apesar de estes pensamentos terem atravessado o seu espirito provavelmente em dois segundos, deram a sensação de ter demorado muito mais tempo, e Thad censurou-se por estar a fazer de Hamlet enquanto Miriam Cowley podia estar a esvair-se em sangue no seu apartamento. Nos livros, as personagens - pelo menos nos livros de Stark - nunca faziam pausas como esta, nunca paravam para se interrogar sobre algo absolutamente sem sentido como por que razão nunca tinham mandado p“r uma segunda linha de telefone no caso de uma mulher, num outro Estado, poder estar a sangrar até … morte. Nos livros, as pessoas nunca precisavam de perder tempo para p“r os intestinos a funcionar e nunca perdiam as estribeiras como agora.
O mundo seria um sitio mais eficaz se todas as pessoas tivessem saído de um romance popular, pensou ele. Nos romances populares, as pessoas conseguiam sempre manter os pensamentos em ordem enquanto saltavam com ligeireza de um capitulo para outro.
Thad marcou o n£mero do serviço de assistência da central telefónica do Maine, e quando a telefonista perguntou:
- Que cidade, por favor?
Thad deixou-se ir abaixo porque Castle Rock era uma vila, não uma cidade mas uma vila pequena, sede ou não do m£nicípio. De seguida, pensou: "Isto é pƒnico, Thad.
Pƒnico puro. Tens de controlar esse pƒnico. Não podes deixar a Miriam morrer porque entraste em pƒnico." E até teve tempo, pareceu-lhe, para se perguntar por que razão é que não poderia deixar que isso acontecesse e para dar uma resposta a essa pergunta: ele era a £nica personagem real sobre a qual tinha qualquer espécie de controlo, e o pƒnico pura e simplesmente não fazia parte da imagem dessa personagem. Pelo menos como ele a via.
"Aqui em baixo chamamos a isso tretas, Thad, Aqui em baixo chamamos a isso recheio..."
- Est l ? - insistia a telefonista. - Que cidade, por favor?
"Muito bem. Controlo."
Thad respirou bem fundo, p“s os malditos pensamentos em ordem e respondeu:
- Castle City. - "Meu Deus." Fechou os olhos. E com eles ainda fechados, disse lenta e claramente: - Peço desculpa, senhora telefonista. Castle Rock. Gostaria que me desse o n£mero do gabinete do xerife.
Thad esperou um momento, após o qual ouviu uma voz rob“ recitar o n£mero. Foi então que se apercebeu de que não tinha nem l pis nem caneta. O rob“ repetiu o n£mero uma segunda vez e Thad esforçou-se o mais que p“de para o decorar, mas o n£mero atravessou a sua mente, voltando para a escuridão, não deixando sequer um ténue vestígio atr s de si.
- Se precisar de mais alguma ajuda - a voz rob"
prosseguia - por favor, continue em linha e uma telefonista...
- Liz - pediu ele. - Uma caneta. Alguma coisa para escrever.
Uma caneta Bic estava enfiada na agenda de telefones de Liz e esta entregou-lha. A telefonista - a telefonista humana - voltou a estar em linha. Thad disse-lhe que não conseguira anotar o n£mero. A telefonista chamou o rob“, que mais uma vez recitou o n£mero na sua voz cantada e vagamente feminina. Thad rabiscou o n£mero na capa de um livro e ia a desligar o telefone quando decidiu tornar a verificar se o n£mero estava correcto, escutando a segunda recapitulação programada. Esta demonstrou que ele saltara dois dos n£meros. Oh, era claro como a gua que ele estava prestes a conseguir controlar o pƒnico.
Thad carregou na patilha para desligar o telefone. Uma ligeira transpiração irrompera por todo o corpo.
- Vai com calma, Thad.
- Tu não a ouviste - retorquiu ele, severo, tendo marcado o n£mero de telefone do gabinete do xerife.
O telefone tocou quatro vezes antes de uma enfastiada voz com pron£ncia do norte responder:
- Gabinete do xerife do M£nicípio de Castle. Daqui agente Ridgewick. Em que Lhe posso ser £til?
- Sou Thad Beaumont. Estou a telefonar de Ludlow.
- Sim? - Nenhum reconhecimento. Nenhum. O que significava mais explicações. Mais teias de aranha. O nome Ridgewick não Lhe era de todo estranho. Est claro: tratava-se do agente de polícia que falara com a Sra. Arsenault e que encontrara o corpo de Gamache. Meu rico Menino Jesus, como é que ele podia ter descoberto que c o velho Thad era suspeito de ter cometido o crime e não saber quem ele era?
- Agente Ridgewick, o xerife Pangborn veio até aqui para... falar comigo sobre o assassínio de Homer Gamache Eu tenho algumas informações sobre o caso e é importante que fale imediatamente com ele.
- O xerife não se encontra aqui - respondeu Ridgewick, não soando mesmo nada impressionado pela urgência na voz de Thad.
- Então, onde é que ele est ?
- Em casa.
- Por favor, dê-me o n£mero.
E, inacreditavelmente:
- Ah, não sei se deva. –ltimamente, o xerife, isto é, o Alan, não tem tido muito tempo de folga e a patroa tem andado um bocado em baixo. Ela tem dores de cabeça.
- Eu tenho de falar com ele!
- Bem - retorquiu Ridgewick, … vontade - pelo menos é bastante claro que o senhor pensa que tem de falar com ele.
Talvez até tenha. Isto é, tenha mesmo de falar.
Pois deixe-me que Lhe diga uma coisa, senhor Bowman. Porque é que não desembucha c para fora aquilo que tem a dizer e a modos que me deixa ser o ju...
- Ele veio até aqui para me prender pelo assassínio de, Homer Gamache, senhor agente, e outra coisa aconteceu, E se não me der IMEDIATAMENTE o n£mero dele...
- Oh, Jesus, Maria, José! - exclamou Ridgewic.
Thad ouviu uma ligeira pancada e conseguiu imaginar os pés de Ridgewick a caírem de cima da secret ria, ou, mais prov vel ainda, da secret ria de Pangborn, e a poisarem no chão enquanto ele se endireitava no lugar. - Beaumont, não Bowman!
- Sim, e...
- Oh, Deus! Louvado seja Deus! O xerife, o Alan, disse que se o senhor telefonasse, eu devia-me certificar de que entrava imediatamente em contacto com ele.
- óptimo. Agora...
- Louvado seja Deus! Sou um maldito imbecil!
Thad, que não podia estar mais de acordo, disse:
- Por favor, dê-me o n£mero dele. - De alguma forma, apelando para reservas que ignorava possuir, conseguiu não gritar.
- Claro. Só um minuto. Hum...
Seguiu-se uma pausa excruciante. Apenas segundos, como é evidente, embora para Thad tivesse parecido que, durante essa pausa, as pirƒmides poderiam ter sido construídas. Construídas e deitadas de novo abaixo. E durante todo esse tempo, a vida de Miriam podia estar a esvair-se no tapete da sua sala de estar, a oitocentos quilómetros de distƒncia.
"Eu posso tê-la morto", pensou ele, "simplesmente porque decidi telefonar em primeiro lugar para o Pangborn e apanhei este idiota inato em vez de ter ligado para o Departamento da Polícia de Nova Iorque. Ou para o 115. Era isso que eu provavelmente devia ter feito; marcado o 115 e passar-lhes a batata quente para as mãos."
Só que, até mesmo neste momento, aquela opção não parecia ser real. Era o estado de transe, supunha ele, e as palavras que escrevera enquanto nesse estado. Thad não acreditava ter previsto o ataque a Miriam... mas, de alguma forma obscura, ele testemunhara as preparações de Stark para o ataque. Os gritos fantasmagóricos daqueles milhares de p ssaros pareciam fazer desta coisa de loucos algo de que ele era respons vel.
Mas se Miriam morrera pura e simplesmente porque ele estava demasiado em pƒnico para ligar para o 115, como é que conseguiria olhar de novo para a cara de Rick?
Que se lixe; como é que conseguiria olhar-se de novo num espelho?
Ridgewick, o "aquele Idiota de Trazer Por Casa", regressou, dando a Thad o n£mero de telefone do xerife, soletrando cada algarismo com a lentidão suficiente para um atrasado mental o ter anotado... mas, ainda assim, Thad obrigou-o a repetir, apesar da ƒnsia incontrolada e profunda de se apressar. Ainda estava abalado pela facilidade com que se enganara a tomar nota do n£mero do gabinete do xerife, e o que acontecera uma vez podia acontecer de novo.
- Muito bem - disse ele. - Obrigado.
- Ah, senhor Beaumont? Ficaria muito agradecido se o senhor não comentasse o modo como eu...
Thad desligou-lhe o telefone na cara sem uma £nica pontada de remorso e marcou o n£mero que Ridgewick Lhe dera.
Era óbvio que Pangburm não iria atender o telefone;
isso seria, pura e simplesmente, esperar demasiado na "Noite das Teias de Aranha". E quem quer que atendesse o telefone dir-lhe-ia (ou seja, após os obrigatórios minutos iniciais de rodeios verbais) que o xerife tinha saído para comprar pão e uma garrafa de leite. Provavelmente em Laconia, New Hampshire, apesar de Phoenix não estar totalmente fora de questão.
Thad soltou uma gargalhada descontrolada, o que fez Liz olhar para ele, espantada.
- Thad? Est s bem?
Thad fez menção de responder, mas, subitamente, acenou-lhe com uma mão para mostrar que estava tudo bem dado que o telefone fora atendido do outro lado. Não era Pangborn; pelo menos quanto a esse ponto ele acertara.
Era um rapazinho que parecia ter cerca de dez anos.
- Daqui residência Pangborn - disse a voz aflautada. - Todd Pangborn ao telefone.
- Ol - retorquiu Thad, vagamente consciente de que estava a segurar o auscultador do telefone com muita força, tentando, por isso, afrouxar os dedos. Estes estalaram mas não se moveram nem um milímetro. - Chamo-me Thad...
- Pangborn, quase acabou por dizer, "oh, meu Deus, iss seria óptimo, não h d£vida de que est s a conseguir controlar a situação, Thad. Faltaste … tua chamada, devias;
ter sido um controlador de trƒfego aéreo". -... Beaumont rematou Thad, após a breve correcção de meio curso. - O xerife est ?
"Não, foi até Lodi, na Califórnia, para comprar cerveja e cigarros. "
Em vez disso, a voz do rapazinho afastou-se do bocal do telefone e chamou, num tom esganiçado:
- PAP ! TELEFONE!
O grito foi seguido por uma pancada pesada que fez doer o ouvido de Thad.
Um instante depois, Deus seja louvado, bem como Todos Seus Santos sagrados, a voz de Alan Pangborn disse:
- Est l ?
Ao som desta voz, a excitação nervosa de Thad desvaneceu-se.
- Daqui Thad Beaumont, xerife Pangborn. H uma senhora em Nova Iorque que, neste preciso momento, pode estar a precisar desesperadamente de ajuda. Tem a ver com o assunto de que fal mos na noite de s bado.
- Desembuche - disse Alan energicamente, apenas isso e o alívio, ah, meu Deus, o alívio. Thad sentiu-se como na fotografia a ser de novo focada.
- Miriam Cowley é o nome da mulher, a ex-mulher do meu agente. - Thad concluiu que, apenas um minuto mais, ele teria, sem d£vida alguma, identificado Miriam cowley. "o agente da minha ex-mulher". - Ela telefonou para liz, a chorar, extremamente perturbada. A princípio nem Squer a reconheci. Foi então que ouvi a voz de um homem no fundo. Ele mandou-a dizer-me quem ela era e o que se estava a passar. Miriam disse que estava um homem no apartamento dela e que estava a ameaçar mago -la. - Thad engoliu em seco. -... cort -la. Nessa altura j tinha reconhecido a voz dela, mas o homem gritou, dizendo-lhe que se ela não se identificasse, ele Lhe cortaria a porra da cabeça.
Foram estas as suas palavras.
"Faz o que te digo ou ainda te corto a porra da cabeça."
Depois, ela disse que era a Miriam e implorou-me... - Thad engoliu de novo em seco. Ouviu-se um estalido na garganta, tão nítido como a letra E emitida em código morse. - Ela implorou-me que não deixasse o homem mau fazer aquilo. Cort -la de novo.
Em frente dele, Liz estava a ficar cada vez mais p lida.
"Não a deixes desmaiar", desejou ou suplicou Thad. "Por favor, não a deixes desmaiar agora.
- Acho que ele cortou o fio ou que o arrancou da parede.
Só que isso eram tudo tretas. Ele não achava nada.
O fio fora cortado, sem d£vida alguma. Com navalha de barba. - Tentei telefonar-lhe de novo.
- Qual é a morada dela?
A voz de Pangborn estava ainda enérgica, ainda am vel, ainda calma. Se não fosse pelo fio vivo de desordem que a voz deixava transparecer, ele podia perfeitamente estar apenas a dar um pouco … língua com um velho amigo.
"Fiz bem em Lhe ter telefonado", pensou Thad. "Dêmos graças a Deus pelas pessoas que sabem aquilo que estão a fazer, ou, quando muito, que acreditam que sabem. Dêmos graças a Deus pelas pessoas que se comportam como personagens de romances populares. Se tivesse de lidar agora com uma personagem do Saul Bellowl, penso que enlouqueceria."
Thad fitou os n£meros que se encontravam por debaixo do nome de Miriam na agenda de Liz.
- Querida, isto é um três ou um oito?
- Oito - respondeu ela numa voz distante.
- óptimo. Senta-te na cadeira de novo. Põe a cabeça no colo.
- Senhor Beaumont? Thad?
- Perdão. A minha mulher est muito transtornada.
Parece-me que vai desmaiar.
- Não me admira. Estão os dois transtornados. • uma situação transtornante. Mas estão a ir muito bem. Não perca as estribeiras, Thad.
- Sim. - Consternado, Thad apercebeu-se de que se Liz desmaiasse, ele teria de a deixar caída no chão para continuar em frente até Pangborn ter na mão as informações suficientes para avançar. "Por favor, não desmaies,"
pensou de novo, tornando a olhar para a agenda de telefones de Liz. - A morada é cento e nove West, Rua ()ltQ, Quatro.
- N£mero de telefone?
- J Lhe tentei dizer o telefone dela não...
- Ainda assim preciso do n£mero, Thad.
- sim é claro que sim - Apesar de não ter a mais pequena ideia do motivo. - Peço desculpa. - Thad ditou - H quanto tempO é que recebeu a chamada?
"H horas". pensou ele, e olhou para o relógio que se encontrava sobre a prateleira da lareira. O seu primeiro pensamento foi de que o relógio parara, de que tinha de ter parado.
- Thad?
- Estou aqui - retorquiu ele numa voz calma que parsia provir de uma outra pessoa qualquer. - Foi aproximadamente h seis minutos atr s. Foi nessa altura que a ligação se foi abaixo. Foi cortada.
- Muito bem, não se perdeu muito tempo. Se tivesse telelefonado para o DPNI, eles podiam muito bem tê-lo feito esperar três vezes esse espaço de tempo. J Lhe telefono de volta, Thad. O mais rapidamente que puder.
- Rick - disse ele. - Quando falar com a polícia, diga-lhe que o ex-marido dela pode ainda não saber de nada.
Se o tipo tiver... o senhor sabe, feito alguma coisa … Miriam, Rick ser o próximo da lista dele.
- Não tem d£vida alguma de que este é o mesmo tipo que matou Homer e Clawson, pois não?
- D£vida absolutamente nenhuma. - E as palavras saíram c para fora e atravessaram o fio antes mesmo de Thad ter sequer a certeza de que as queria pronunciar. - Penso que sei quem é.
Após uma brevíssima hesitação, Pangborn retorquiu:
- Muito bem. Não se afaste do telefone. Vou querer falar sobre isso consigo quando houver oportunidade. - Pangborn j desligara.
Thad olhou para Liz e reparou que ela se deixara afundar na cadeira, colocando-se de lado. Os seus olhos estavam arregalados e vidrados. Com rapidez, Thad levantou-se ao de leve e foi para junto dela. Endireitou-se e bateu-lhe na cara.
- Da Qual deles é? - perguntou ela, de voz entaramelada, proveniente do mundo cinzento da semi-inconsciência? - Stark ou Alexis Machine? Qual deles, Thad?
E, após uma longa pausa, Thad respondeu:
- Penso que não h qualquer diferença.
3
Tinha a certeza de que eles iriam falar sobre tudo aquilo. Como é que o poderiam evitar? Mas não falaram. Durante um longo período, limitaram-se a estar sentados a olhar um para o outro por cima da asa das canecas, … espera que Alan telefonasse. E … medida que os minutos intermIn veis se arrastavam, Thad começou a pensar que seria melhor não falarem - não enquanto Alan não ligasse de nOVO e Lhes dissesse se Miriam estava viva ou morta "Suponhamos", pensou ele, vendo Liz a levar a caneca do ch … boca com ambas as mãos, e ele próprio a beberriar a sua, "suponhamos que, uma destas noites, est vamos aqui sentados, cada um com um livro nas mãos (para um estranho, daríamos a sensação que est vamos a ler, e poderíamos estar, um bocadinho, mas o que estaríamos verdadeiramente a fazer seria a saborear o silêncio como se de vinho particularmente bom se tratasse, tal como só os pais das crianças pequenas o sabem saborear, porque podem usufruir de tão pouco silêncio), e suponhamos ainda que enquanto est vamos a fazer isso, um meteorito colidia contra o telhado e aterrava, fumegante e reluzente, no chão da sala de estar. Ser que algum de nós iria até … cozinha, encheria o balde de gua, despej -lo-ia por cima do meteoritO antes de este pegar fogo ao tapete e, depois, retomaria a leitura, como se nada se tivesse passado? Não falaríamoS sobre isso. Teríamos de o fazer. Tal como temos de falar sobre isto."
Talvez começassem a falar depois de Alan ligar. TalveZ até falassem através dele, com Liz a ouvir cuidadosamente … medida que Alan colocava as questões e Thad dava as respostas. Sim - talvez fosse assim que a sua conversa muito própria fosse começar. Porque, de acordo com Thadeu Alan era o catalisador. De uma certa forma, Thad tinha a sensação de que fora Alan quem começara toda esta cOisa apesar de o xerife só ter respondido …quilo que Stark j fizera.
Entretanto, eles sentaram-se e esperaram.
Thad sentiu uma necessidade premente de tentar marcar de novo o n£mero de Miriam, mas não se atreveu - Talvez Alan escolhesse precisamente aquele momento para ligar para eles. e verificaria que o n£mero de telefone dos Beaumont estava impedido. Mais uma vez, Thad deu por si próprio a desejar, de um modo desnorteado, que eles tivessem uma segunda linha. "Bem", pensou ele, "és pobre e mal agradecido".
A razão e a racionalidade disseram-lhe que Stark não podia andar por aí, que não podia andar a calcorrear o mundo como uma espécie esquisita de cancro sob a forma humana, a matar pessoas. Como o simplório do campo na rua de Oliver Goldsmithl, She Stoops to Conquer, tinha o h bito dizer, "era perfeitamente impossível, Diggory".
No entanto, era ele. Thad sabia que era ele, e Liz também o sabia. Thad perguntou-se a si próprio se Alan também estaria ciente disso quando ele Lhe contasse. Era de esperar e não; era de esperar que o tipo pura e simplesmente mandasse buscar aqueles simp ticos rapazes nas suas imanadas batas brancas. Porque George Stark não era real, e Lixis Machine também não o era, porque se tratava de ficção dentro de ficção. Nenhum dos dois alguma vez existiram, não mais do que George Eliot alguma vez existira; ou
Twain, ou Lewis Carroll, ou Tucker Coe, ou Edgar Lox. Os pseudónimos não passavam de uma forma mais elevada da personagem fictícia.
Ainda assim, Thad tinha dificuldade em acreditar que Alan Pangborn não acreditasse, mesmo que, a princípio, o quisesse.
O próprio Thad não quisera, mas, no entanto, dera por si de mãos e pés atados para pensar noutra saída. Era, desculpem a expressão, inexoravelmente plausível.
- Porque é que ele não telefona? - perguntou Liz inquieta.
- Amor, só passaram cinco minutos.
- Quase dez.
Thad resistiu a um desejo premente de Lhe responder de forma abrupta - isto não era a ronda do bónus num concurso de televisão e Alan não ganharia pontos extra e prémios valiosos por ligar para eles antes das nove da noite.
Stark não existia, continuava a insistir e a insistir parte do seu espírito. A voz era racional mas estranhamente potente, parecendo repetir esta ladainha não com base numa qualquer convicção real mas apenas maquinalmente, como um papagaio treinado para dizer "Lindo menino!" ou "D c o louro!" Ainda assim, era verdade, não era? Seria suposto ele acreditar que Stark REGRESSARA DO T£MULO, como um monstro num filme de terror? Isso seria um truque muito engraçado dado que o homem - ou não homem - nunca fora enterrado, sendo a sua placa apenas uma l pide em pasta de papel colocada sobre a superfície de um lote vazio de cemitério, tão fictício como tudo o que tinha a ver com ele...
"De qualquer modo, isso leva-me ao £ltimo ponto... ou aspecto... ou o que quer que se queira chamar. Quanto é que calça, senhor Beaumont?"
Thad tinha estado encolhido na cadeira, quase a passar pelas brasas, apesar de toda a situação. Neste momento, endireitou-se com tamanha rapidez que quase entornou o ch .
Pegadas. Pangborn dissera alguma coisa sobre...
"Que pegadas são essas?"
"Não interessa. Nem sequer temos fotografias. Penso que temos sobre a mesa praticamente tudo aquilo que pertence a este caso..."
- Thad? Que é que se passa? - perguntou Liz.
Que pegadas? Onde? Em Castle Rock, est claro, ou Alan não saberia da sua existência. Ser que tinham sido descobertas no Cemitério de Homeland, onde a fotógrafa neurasténica tirara a fotografia que ele e Liz tinham achado tão divertida?
- Não é um tipo muito simp tico - murmurou ele.
- Thad?
Foi então que o telefone tocou, e ambos entornaram o ch .
A mão de Thad mergulhou … procura do auscultador...
Tendo estacado por um instante e permanecido suspensa no ar sobre o aparelho.
"E se for ele?"
"Ainda não acabei contigo, Thad. Não te queiras meter comigo porque quando se metem comigo, estão a meter-se cOm o melhor "
Thad obrigou a mão a descer, até próximo do telefone, e a trazê-lo para perto do ouvido.
- Est l ?
- Thad? - era a voz de Alan Pangborn. Subitamente, Thad sentiu-se muito lasso, como se o corpo se tivesse mantido unido por meio de pequenos arames duros que tinham acabado de ser retirados.
- Sim - respondeu. A palavra saiu sibilante, numa espécie de suspiro. Thad engoliu uma outra golfada de ar.
- Miriam est bem?
- Não sei - retorquiu Alan. - Dei ao DPNI a morada dela.
Devemos estar a ter notícias muito em breve, embora o queira advertir que, esta noite, quinze minutos ou meia hora podem não parecer suficientemente breves para si e para a sua esposa.
- Não, não vão parecer.
- ELla est bem? - perguntou Liz. Thad tapou o bocal do telefone o tempo necess rio para Lhe dizer que Pangborn ainda não sabia. Liz acenou a cabeça e recostou-se para tr s, ainda demasiado p lida, mas aparentando mais calma e controlo do que antes. Pelo menos agora as pessoas estavam a mexer-se, e deixara de ser apenas responsabilidades deles.
- Eles também arranjaram a morada de Mister Cowley através da companhia dos telefones...
- Ora! Eles não vão...
- Thad, eles não vão fazer nada enquanto não souberem o que aconteceu … ex-mulher deste senhor. Contei-lhes que est vamos a braços com uma situação em que um homem mentalmente desequilibrado podia andar atr s de uma pessoa ou pessoas citadas no artigo da revista People, sobre o pseudónimo Stark, e expliquei-lhes a ligação que os Cowley tinham consigo. Espero que me tenha feito entender. Não percebo l grande coisa sobre escritores e muito menos sobre agentes. Mas eles perceberam que não seria mesmo nada aconselh vel se o ex-marido da senhora fosse a correr para l antes de eles chegarem.
- Muito obrigado. Muito obrigado por tudo, Alan.
- Thad, o DPNI est demasiado ocupado com isto tudo para agora querer ou precisar de mais explicações, mas eles irão querê-las. E eu também. Qomo é que acha que pode ser este tipo?
- Não quero falar consigo ao telefone sobre isto. Eu até iria ter consigo, Alan, mas não quero deixar a minha mulher e os meus filhos neste preciso momento. Creio que consegue compreender. Ter de vir até c .
- Não posso fazer isso - respondeu Alan pacientemente. - Tenho o meu próprio trabalho e...
- A sua mulher est doente, Alan?
- Esta noite ela parece estar bastante bem. Mas um dos meus delegados ficou doente e eu tenho de o substituir.
É o procedimento habitual nas pequenas cidades. Estava a preparar-me para sair. O que estou a querer dizer é que esta é uma péssima altura para você p“r-se com rodeios Thad. Diga-me.
Thad reflectiu no que acabara de ouvir. Até então, sentira-se estranhamente confiante de que Pangborn iria na conversa quando a contasse. Mas talvez não ao telefone.
- Não pode dar um salto até c amanhã?
- Claro que amanhã teremos de nos encontrar - disse Alan, com uma voz modulada e francamente insistente. - Mas preciso de ter na minha mão esta noite tudo aquilo que você sabe. O facto de os tipos em Nova Iorque irem querer uma explicação é secund rio, pelo menos no que me diz respeito. Tenho o meu próprio jardim para cuidar. H imensas pessoas aqui na vila que querem ver o assassino de Homer Gamache imediatamente atr s das grades. Acontece que eu sou uma delas. Por isso, não me obrigue a perguntar-lhe de novo. Não é assim tão tarde quanto isso para telefonar para o procurador-geral do Município de Penobscot e pedir-lhe para o prender como testemunha de um homicídio no Município de Castle. Ele j sabe pela Polícia Estadual que você é um suspeito, com ou sem libi.
- Faria isso? - perguntou Thad, perplexo e fascinado.
- Faria se você me obrigasse a tal, mas penso que não o far .
Neste momento, a cabeça de Thad pareceu estar mais ordenada;
na verdade, os seus pensamentos pareciam estar a ir para algum lado. Quer para Pangborn quer para o o DPNI não Lhes interessava realmente saber se o homem que eles procuravam era um psicopata que pensava ser o Stark, ou o próprio Stark...
pois não? Thad estava convencido que não, tal como pensava que, quer fosse um ou outro, eles não conseguiriam apanh -lo.
- Tenho a certeza absoluta que se trata de um psicopata, tal como disse a minha mulher - acabou por contar a Alan. Os olhos de Thad fitaram os de Liz, tentando enviar -Lhe uma mensagem. E deve ter conseguido enviar-lhe alguma coisa porque Liz acenou ligeiramente a cabeça. - Faz bastante sentido, ainda que estranho. Lembra-se de me ter falado em pegadas?
- Sim.
- Foram encontradas em Homeland, não foram? - Do outro lado da sala, Liz arregalou os olhos.
- Como é que sabe? - Pela primeira vez, Alan soou desnorteado. - Eu não Lhe contei isso.
- J leu o artigo? Aquele na revista People?
- Sim.
- Foi aí que a mulher colocou a l pide falsa. Foi aí que George Stark foi enterrado.
Silêncio no outro lado da linha. De seguida.
- Oh, merda.
- Est a perceber?
- Penso que sim - respondeu Alan. - Se este tipo pensa que é Stark e se ele é louco, a ideia de começar pelo t£mulo do Stark faz até algum sentido, não faz?
Essa fotógrafa vive em Nova Iorque?
Thad começou.
- Sim.
- Então, talvez ela também esteja em perigo.
- Sim, eu... bem, nunca pensei nisso, mas suponho que sim.
- Nome? Morada?
- Não tenho a morada dela. - Thad recordava-se que ela Lhe dera um cartão, provavelmente a pensar no livro em que tinha esperanças que ele colaborasse, mas deitara fora.
"Merda." Tudo o que podia dar a Alan era o nome.
- Phyllis Myers.
- E o tipo que escreveu a história?
- Mike Donaldson.
- Também em Nova Iorque?
Subitamente, Thad deu-se conta de que não sabia responder a essa pergunta, pelo menos com toda a certeza, tendo, por isso, recuado um pouco.
- Bem, acho que limitei-me a supor que eles os dois eram de... - É uma suposição bastante razo vel. Se os escritórios da revista são em Nova Iorque, eles estarão por perto, não é?
- Talvez. Mas se um deles, ou mesmo ambos, trabalharem em regime de freelance...
- Voltemos a essa história da fotografia com pose O cemitério não era especificamente identificado, quer na fotografia quer no corpo da história, como sendo Homeland.
Disso tenho a certeza. Creio que deveria ter reconhecido o cemitério devido ao pano de fundo da fotografia, mas concentrei-me apenas nos pormenores.
- Sim - replicou Thad. - Penso que não era.
- Dan Keeton, o primeiro membro do Conselho Municipal, deve ter insistido para que Homeland não fosse identificado:
essa deve ter sido uma condição incontorn vel. Ele é um tipo muito cuidadoso. Na verdade, bastante chato Estou a vê-lo a dar autorização para as fotografias serem feitas, mas julgo que deve ter impedido que se identificasse especificamente o cemitério, a pensar na hipótese de vandalismo... as pessoas … procura da l pide e tudo o mais.
Thad acenava a cabeça. Fazia sentido.
- Quer dizer, então, que o seu psicopata ou o conhece a si ou é oriundo daqui - prosseguiu Alan.
Thad chegara a uma conclusão de que agora se sentia sinceramente envergonhado: de que o xerife de um pequeno município do Maine, onde existiam mais rvores do que pessoas, devia ser um imbecil. Este não era imbecil nenhum;
ele estava, certamente, a passar a perna …quele romancista de renome mundial, Thaddeus Beaumont.
- • isso que temos de supor, pelo menos para j , dado que parece que ele teve acesso a informações exclusivas.
- Então, as pegadas de que falou estavam em Homeland?
- Claro que estavam - replicou Pangborn, praticamente ausente. - O que é que est a esconder, Thad?
- Que é que quer dizer com isso? - perguntou ele de forma cautelosa.
- Deixemo-nos de rodeios, est bem? Tenho de ligar para Nova Iorque com estes outros dois nomes, e você tem de p“r a sua cabecinha a funcionar para ver se existem mais alguns nomes. Editores... agentes... não sei. Enquanto isso, você diz-me que o tipo de quem andamos … procura pensa, na verdade, que é George Stark. Na noite de s bado, especul mos sobre isso, and mos l …s voltas, e hoje você diz-me que é um facto consumado. Então, para apoiar essa teoria, atira-me com as pegadas … cara. Das duas uma:
ou você andou a fazer umas deduções mirabolantes com base nos factos que conhecemos ou você sabe alguma coisa que eu não sei. Como é óbvio, inclino-me mais para a segunda alternativa. Portanto, desembuche.
Mas o que é que ele tinha? Estados de transe e lapsos de memória que eram anunciados por milhares de pardais a chilrear em uníssono? Palavras que podia ter escrito sobre uma folha manuscrita depois de Alan Pangborn Lhe ter dito que aquelas mesmas palavras se encontravam escritas na parede da sala de estar do apartamento de Frederick Clawson?
Mais palavras escritas numa folha de papel que fora rasgada em mil pedaços e, de seguida, deitada para o incinerador do edifício de Inglês-Matem tica? Sonhos nos quais um terrível homem nunca visto o conduzia pela sua casa em Castle Rock e tudo aquilo em que tocava, incluindo a própria mulher, se autodestruía? "Creio que poderia dizer que acredito num facto conhecido do coração e não numa intuição da mente", pensou ele, "mas não tenho ainda qualquer prova, pois não? As impressões digitais e a saliva sugerem que se est a passar algo de muito estranho - claro! - , mas tão estranho assim?"
Thad não acreditava que assim fosse.
- O Alan rir-se-ia - disse ele lentamente. - Não; retiro o que disse porque agora j o conheço melhor do que isso. O Alan não se riria, mas, ainda assim, tenho as minhas sérias d£vidas de que acreditasse em mim. Pensei nisto vezes sem conta mas cheguei sempre … mesma conclusão: com efeito, penso que não acreditaria em mim.
A voz de Alan replicou de imediato, urgente, imperativa, difícil de resistir.
- Ponha-me … prova.
Thad hesitou, olhou para Liz e, de seguida, abanou a cabeça:
- Amanhã. Quando pudermos olhar um para o outro, olhos nos olhos. Nessa altura dir-lhe-ei. Esta noite, ter de acreditar na minha palavra de que isso não interessa, de que aquilo que Lhe contei é tudo aquilo com algum valor pr tico que Lhe posso contar.
- Thad, aquilo que Lhe disse sobre mand -lo prender como testemunha material...
- Se é o que tem a fazer, faça-o. Não ficarei minimamente ressentido. Mas, independentemente daquilo que decidir, não irei mais longe do que j fui até agora.
Silêncio do lado de Pangborn, seguido por um suspiro - Est bem.
- Gostaria de Lhe dar uma descrição em traços largos do homem procurado pela Polícia. Não estou absolutamente certo de que esteja bem, mas penso que est próxima. De qualquer modo, suficientemente próxima para a transmitir aos polícias em Nova Iorque. Tem um l pis?
- Sim. Diga l .
Thad fechou os olhos que Deus lhe cravara no rosto e abriu aquele que Deus Lhe cravara na mente, o olho que persistia em ver até mesmo as coisas para as quais ele não queria olhar. Quando as pessoas que liam os seus livros o conheciam pela primeira vez, ficavam invariavelmente desapontadas. Tentavam esconder-lhe isso mas não conseguiam Thad não Lhes guardava nenhum rancor, porque compreendia a forma como elas se sentiam... pelo menos um bocadinho. Se gostavam do seu trabalho (e algumas chegavam até a confessar que o adoravam), faziam dele uma imagem de antemão, ou seja, o tipo que era o primo direito de Deus.
Em vez de um Deus, deparava-se-lhes um tipo que tinha apenas um metro e oitenta, usava óculos, estava a começar a perder cabelo, e tinha o h bito de tropeçar nas coisas.
Deparava-se-lheS um homem cujo couro cabeludo era bastante escamoso e cujo nariz tinha dois buracos, tal como os deles.
Aquilo que elas não conseguiam ver era aquele terceiro olho no interior da sua cabeça. Aquele olho, a brilhar na sua metade sombria, o lado que estava constantemente nasombra... isso era como Deus e Thad ficava feliz por não o conseguirem ver. Se pudessem, Thad acreditava que muitos deles o tentariam roubar. Sim, mesmo que isso significasse arrancar o olho da própria carne com uma faca romba.
Ao olhar para a escuridão, Thad convocou a sua imagem secreta de George Stark: o verdadeiro George Stark, que não se parecia nada com o modelo que posara para a foto no livro. Thad procurou o homem-sombra que crescera silenciosamente ao longo dos anos junto dele, encontrou-o e começou a mostr -lo a Alan Pangborn.
- • bastante alto - começou ele. - De qualquer forma, mais alto do que eu. Um metro e noventa, talvez um metro e noventa e cinco com um par de botas nos pés. Tem cabelo louro, muito curto e aparado. Olhos azuis. A visão ao longe é excelente. H cerca de cinco anos atr s, começou a usar óculos de ver ao perto. Sobretudo, para ler e escrever.
"A razão pela qual as pessoas reparam nele não é pela sua altura mas pela sua largura. Não é gordo mas é extremamente largo. O n£mero do colarinho talvez seja um quarenta e cinco, ou até um quarenta e cinco e meio. Tem a minha idade, Alan, mas não est a envelhecer como eu estou a começar ou sequer a engordar. •forte. Como o Schwarzenegger, agora que começou a diminuir um pouquinho de tamanho. Trabalha com pesos. Apesar de conseguir fazer um bíceps suficientemente duro para abrir a costura da manga da camisa, não é um homem musculado.
"Nasceu em New Hampshire, mas após o divórcio dos pais mudou-se com a mãe para Oxford, no Mississípi, onde foi criado. Aí viveu a maior parte da sua vida. Quando era mais novo, tinha uma pron£ncia tão cerrada que parecia ter vindo do meio do mato. Na escola, muitos mi£dos faziam pouco dessa pron£ncia (no entanto, não … sua frente porque não se faz pouco de um tipo como este diante dele) e ele esforçou-se muito para se livrar dela. Agora, creio que a £nica altura em que é possível ouvir essa pron£ncia na voz é quando ele fica muito zangado, e acho que as pessoas que o irritam dessa maneira não ficam, mais tarde, disponíveis para darem o seu testemunho. Tem pouca paciência. • violento.
E perigoso. De facto, ele é um psicopata praticante.
- O que é... - começou Pangborn, tendo sido imediatamente ultrapassado por Thad.
- Est bastante queimado do sol e, como os homens louros geralmente não se queimam assim tanto, este talvez possa ser um bom ponto de identificação. Pés grandes, mãos grandes, pescoço largo, ombros largos. O rosto assemelha-se ao de uma pessoa talentosa mas esculpida … pressa a partir de uma rocha dura. "–ltima coisa: talvez esteja a guiar um Toronado preto. Não sei de que ano. De qualquer forma, é um dos antigos com muita potência. Preto. • possível que a matrícula seja do Mississípi, mas também é prov vel que a tenha trocado. - Thad fez uma pausa, acrescentando de seguida: - Oh, e tem um autocolante no p ra-choques traseiro.
Diz "FILHO DA MŽE PRETENSIOSO".
Thad abriu os olhos.
Liz estava a olhar para ele, com o rosto mais p lido do que nunca.
Seguiu-se uma longa pausa do outro lado da linha.
- Alan? Est ...
- Só um segundo. Estou a escrever. - Seguiu-se uma outra pausa, desta vez mais curta. - Tudo bem - disse ele por fim. - Apanhei tudo. O Thad pode contar-me tudo isto mas não quem o tipo é ou a relação que mantém com ele ou como o conhece?
- Não sei, mas vou tentar. Amanhã. De qualquer modo, saber o nome dele esta noite não ir ajudar em nada porque ele est a usar um outro nome.
- George Stark.
- Bem, ele é suficientemente doido para se chamar a si próprio Alexis Machine, embora tenha c as minhas d£vidas.
Sim, penso que Stark é o nome. - Thad fez tenção de piscar um olho a Liz. Apesar de não acreditar verdadeiramente que o estado de espírito pudesse ser aligeirado com a piscadela de olhos ou com outra coisa qualquer, ainda tentou. Contudo, só conseguiu piscar os dois olhos ao mesmo tempo, como um mocho sonolento.
- Não existe forma alguma de o persuadir a continuar ta conversa esta noite, pOiS não?
- Não não existe. Peço desculpa mas não existe.
- tudo bem. Ligar-lhe-ei assim que puder. - E desligoU o telefone, sem mais nem menos, sem um "obrigado" ou um "adeus". Ao reflectir sobre isso, Thad concluiu que ele não dava verdadeira importƒncia a um obrigado.
Thad pousou o telefone e foi ter com a mulher, que continuava sentada a olhar para ele como se tivesse sido transformada numa est tua. Segurou-lhe nas mãos - estavam muito frias - e disse:
- Vai ficar tudo bem, Liz. Juro-te que vai ficar tudo bem.
- Quando falares com ele amanhã, vais contar-lhe tudo sobre os estados de transe? Sobre o som dos p ssaros? Como ouvias esse som quando eras miudo e o que nessa altura significava? As coisas que escreveste?
- Vou contar-lhe tudo - replicou Thad. - Aquilo que ele decidir contar …s autoridades... - Encolheu os ombros. - Isso é l com ele.
- Ainda assim - afirmou ela, num fio de voz exaurido. Os olhos de Liz continuavam fixos nos dele, parecendo não ter forças para o deixar. - Sabes tanto sobre ele. Thad... como?
Thad só conseguia ficar ali ajoelhado, diante dela, a segurar-lhe nas mãos frias. Como é que ele podia saber tanto? As pessoas estavam sempre a fazer-lhe essa pergunta. Utilizavam palavras diferentes para exprimirem o mesmo: como é que inventaste isto? Como é que puseste isto em palavras? Como é que te lembraste disto? Como é que viste isto? - mas ia sempre tudo dar ao mesmo: como é que sabes isto?
Ele não sabia como é que sabia.
Sabia apenas.
- Ainda assim - repetiu ela, falando no tom de voz de alGuém que est a dormir e que se encontra … beira de um SEonho angUstiante. De seguida, ambos ficaram silenciosos.
Continuou … espera que os gémeos pressentissem a pertUrbação dos pais, acordassem e começassem a chorar; no entanto, o tiquetaque constante do relógio permaneceu o £nico som audível. Thad tentou arranjar uma posição mais confort vel no chão, ao pé da cadeira de Liz, continuando a segurar-lhe nas mãos, com a esperança de as conseguir aquecer. Quando, quinze minutos mais tarde, o telefone tocou, elas ainda continuavam frias.
Alan Pangborn foi categórico e afirmativo: Rick Cowley estava são e salvo no seu apartamento e sob protecção da Polícia. Em breve, iria p“r-se a caminho da ex-mulher, que, a partir de agora, seria a sua ex-mulher para sempre; a reconciliação de que ambos falavam de tempos a tempos, e com consider vel desejo, nunca iria acontecer. Miriam morrera.
Rick iria fazer a identificação formal do corpo na morgue de Manhattan na Primeira Avenida. Thad não devia esperar uma chamada de Rick esta noite nem sequer tentar ele próprio fazer uma; a ligação de Thad ao assassínio de Miriam Cowley fora escondida dos "desenvolvimentos pendentes" de que Rick fora informado. Phyllys Myers fora localizada, encontrando-se também sob protecção da Polícia. Michael Donaldson estava a ser um osso mais duro de roer, mas a Polícia esperava localiz -lo e tê-lo sob protecção até … meia-noite.
- Como é que a mataram? - perguntou Thad, sabendo perfeitamente qual seria a resposta. No entanto, por vezes, era necess rio perguntar. Só Deus sabia porquê.
- A garganta foi cortada - respondeu Alan, com um tom que Thad suspeitava ser de brutalidade intencional.
Um instante mais tarde, prosseguiu? - Tem ainda a certeza de que não h nada que me queira contar?
- De manhã. Quando pudermos olhar um para o outro.
- Muito bem. Não pensei que houvesse mal algum em perguntar.
- E não h . Mal nenhum.
- A Polícia de Nova Iorque tem um mandado de busca lançado sobre um homem com o nome de George Stark com a descrição que deu.
- óptimo. - E Thad sup“s que assim fosse, apesar de saber que isso era provavelmente in£til. Era praticamente mais do que certo que não o encontrariam se ele não quisesse ser encontrado e, se alguém o fizesse, Thad pensou que essa pessoa se iria arrepender.
- Nove horas - disse Pangborn. - Faça por estar em casa, Thad.
- Pode contar com isso.
Liz tomou um calmante e, por fim, adormeceu. Thad passou pelas brasas, adormecendo e acordando v rias vezes, tendo-se levantado …s três e um quarto para ir … casa de banho. Enquanto ali estava de pé, a urinar para a retrete, pensou ouvir os pardais. Ficou tenso, de ouvido … escuta, tendo o seu fio de gua secado de imediato. O som não aumentou nem diminuiu e, alguns segundos depois, Thad deu-se conta de que eram apenas grilos.
Olhou para fora da janela e viu um carro-patrulha da polícia estadual parado do outro lado da estrada, escuro e silencioso. Talvez até pudesse ter pensado que estava vazio se não tivesse vislumbrado a intermitente cintilação da ponta de um cigarro. Parecia que ele, Liz e os gémeos estavam também sob protecção policial.
"Ou guarda policial", pensou ele, voltando para a cama.
O que quer que fosse, parecia garantir uma certa paz de espírito. Thad adormeceu e acordou …s oito, não se lembrando de ter tido algum pesadelo. Mas, como é evidente, o verdadeiro pesadelo estava ainda por aí. Algures.