A Metade Sombria
A Incredulidade de Stark
Quinze
A INCREDULIDADE DE STARK
Cobertos por um véu de choque tão profundo e tão triste que se assemelhava a gelo, Thad e Liz sentaram-se, enquantO escutavam Alan Pangborn, que Lhes descrevia o modo como tinham decorrido as primeiras horas da manhã na cidade de Nova Iorque: Mike Donaldson, retalhado e espancado até … morte no corredor do edifício do seu apartamento;
Phyllis Myers e dois polícias mortos a tiro no condomínio da zona ocidental. O porteiro da noite do edifício de Myers fora atacado com algo pesado, tendo sofrido um traumatismo craniano. Os médicos afirmavam que só com bastante sorte é que alguma vez voltaria a acordar no lado mortal do céu. O porteiro do edifício de Donaldson fora abatido. Em todos os casos, o trabalho sujo fora levado a cabo ao estilo dos gangs do crime organizado, tendo-se o assassino limitado a ir ter com as vítimas e a acabar com elas.
… medida que Alan ia falando, referia-se continuamente ao assassino como Stark.
"Ele est a cham -lo pelo nome correcto sem sequer pensar nisso", divagou Thad. De seguida, abanou a cabeça, um pouco impaciente consigo próprio. Tinha de ser chamado de alguma forma, admitiu Thad, e Stark era talvez um bocadinho melhor do que "o criminoso" ou "Mr. X". Nesta altura do campeonato, seria um erro pensar que Pangborn estava a utilizar o nome por outro motivo qualquer que não um ponto de apoio conveniente.
- E o que h sobre Rick? - perguntou ele quando Alan terminara e ele próprio fora, por fim, capaz de soltar a língua.
- O senhor Cowley est vivo e bem sob protecção policial. - Eram dez e um quarto da manhã; a explosão que mataria Rick e um dos seus guardiões estava ainda a duas horas de distƒncia.
- Também Phyllis Myers estava sob protecção policial - retorquiu Liz. No parque de grandes dimensões, Wendy dormia ferrada e William estava a deixar-se adormecer A cabeça descaía sobre o peito, os olhos fechavam... e, de seguida, com um movimento s£bito, ele lançava a cabeça de novo para cima. Para Alan, William assemelhava-se comicamente a uma sentinela que tentava não se deixar vencer pelo sono enquanto estava de serviço. Mas cada sacudidela da cabeça para cima ia diminuindo de intensidade. Ao olhar para os gémeos, com o bloco de notas agora fechado e poisado sobre o colo, Alan reparou numa coisa interessante:
sempre que William sacudia a cabeça para cima num esforço para permanecer acordado, Wendy dava um esticão enquanto dormia.
"Ser que os pais j repararam nisto?", perguntou-se a si mesmo, tendo pensado de seguida: "Claro que j repararam."
- Isso é verdade, Liz. Ele surpreendeu-os. Sabe, a Polícia é tão propensa a ser surpreendida como qualquer um de nós; apenas é suposto que reaja melhor. No andar onde Phyllis Myers vivia, diversas pessoas ao longo do corredor abriram a porta para ver o que se estava a passar depois de os tiros terem sido disparados. Assim, temos uma noção bastante boa daquilo que aconteceu a partir das declarações dessas pessoas e daquilo que a Polícia encontrou na cena do crime. Stark fingiu que era cego. Não mudou de roupa após os assassínios de Miriam Cowley e Michael Donaldson, que foram... peço que os dois me desculpem, mas ficou tudo numa grande porcaria. Ele sai do elevador, de óculos escuros que provavelmente comprou em Times Square ou a um vendedor ambulante de carrinho de mão, e a brandir uma bengala coberta de sangue. Deus sabe onde ele ter arranjado a bengala, mas o DPNI pensa que ele também a utilizou para deitar os porteiros abaixo.
- é óbvio que a roubou a um cego verdadeiro - disse Thad calmamente. - Alan, não se pode dizer que o tipo seja um santo. Est claro que não. Provavelmente vinha a gritar que fora assaltado, ou talvez até que fora atacado por ladrões no apartamento dele. Seja como for, avançou na direcção deles com tamanha rapidez que os polícias nem tiveram muito tempo para reagir. Afinal de contas, eram apenas um par de polícias de carros-patrulha, afastados do seu giro habitual e enfiados … porta desta mulher sem grandes explicações.
- Mas eles sabiam certamente que Donaldson também tinha sido assassinado - protestou Liz. - Se uma coisa como essa não os conseguiu alertar para o facto de o homem ser perigoso...
- Eles também sabiam que a protecção policial de Donaldson chegara após o tipo ter sido assassinado - disse Thad. - Estavam demasiado confiantes.
- Talvez até estivessem, um pouco - admitiu Alan.
Não tenho forma alguma de saber isso. Mas os homens que estão com Cowley sabem que este homem, para além de destemido e bastante esperto, é também homicida. Estão com os olhos abertos. Não, Thad, o seu agente est seguro. Pode contar com isso.
- Disse que havia testemunhas - inquiriu Thad.
- Oh, sim. Imensas testemunhas. Na casa de Miriam Cowley, de Donaldson e da Myers. Ele parecia estar-se a cagar para elas. - Alan olhou para Liz e disse: - Peço desculpa.
Esta lançou um sorriso lacónico.
- J ouvi essa expressão uma ou duas vezes antes, Alan.
Este acenou a cabeça, sorriu-lhe por um instante e virou-se para Thad.
- A descrição que Lhe dei?
- Bate certa com tudo aquilo que sabemos - replicou Alan. - Ele é grande, louro, e est com um bonito bronzeado. Portanto, diga-me l quem é ele, Thad. D‰-me um nome. Agora tenho muito mais com que me preocupar para além do Homer Gamache. Tenho o maldito comiss rio da polícia de Nova Iorque … perna, Sheila Brigham (a minha telefonista-chefe) pensa que eu vou ser uma estrela da com£nicação social, mas é com o Homer que me preocupo. Ainda mais do que os dois agentes de polícia mortos na tentativa de proteger Phyllis Myers, é o Homer que me interessa. Portanto, d‰-me um nome.
- J lhe dei - replicou Thad.
Seguiu-se um longo silêncio, talvez dez segundos, apóS o qual, num tom extremamente sereno, Alan disse:
- O quê?
- George Stark é como se chama. - Thad ficou surpreendido ao verificar como soava tão calmo, e mais surpreendido ainda ao verificar que se sentia calmo... a não ser que o choque profundo e a calma transmitissem a mesma sensação. Mas o alívio de chegar a dizer aquilo ("J tem o nome dele; George Stark é como se chama"), era indizível.
- Creio que não estou a entendê-lo - afirmou Alan após uma outra longa pausa.
- Claro que est , Alan - replicou Liz. Thad olhou para ela, surpreendido pelo tom decidido e objectivo da sua voz. - O que o meu marido est a querer dizer é que, de alguma forma, o pseudónimo dele ganhou vida. A l pide na fotografia...
aquilo que, no lugar de uma homilia ou de um versinho, est escrito naquela l pide foi algo que Thad disse ao jornalista da agência noticiosa que deu a notícia em primeira mão. "Não ERA UM TIPO MUITO SIMP TICO." Lembra-se disto?
- Sim, mas Liz... - Alan fitava os dois com uma espécie de surpresa indefesa, como se só agora se tivesse dado conta de que tinha estado a manter uma conversa com pessoas que haviam perdido totalmente o juízo.
- Nem mas nem meio mas - interrompeu ela no mesmo tom decidido. - Ter imenso tempo para mas e meios mas. O senhor e toda a gente. Para j , ouça-me apenas. Thad não estava a brincar quando disse que George Stark não era um tipo muito simp tico. Ele pode até ter pensado que estava a brincar mas não estava. Mesmo que ele não soubesse, eu sempre soube.
George Stark não só não era um tipo muito simp tico: ele era, de facto, um tipo horrível. Tornei-me uma mulher mais nervosa com cada um dos quatro livros que escreveu, e quando Thad finalmente decidiu mat -lo, subi as escadas, entrei no nosso quarto e chorei de alívio. - Liz olhou para Thad, que a fitava. Antes de acenar a cabeça, ela perscrutou-o com o olhar. - Exactamente. Chorei. Chorei mesmo. Apesar de o senhor Clawsson em Washington ser um "Patifezóide" insignificante e nOjento ele fez-nos um grande favor, talvez o maior favor da nOssa vida conjunta de casados e, apenas por essa razão, dadO que não existe mais nenhuma, lamento a morte dele.
Diz, não me parece que seja isso que queiras dizer...
- Não me digas aquilo que quero dizer e não quero dizer! - vociferou ela Alan pestanejou. A voz dela manteve-se regular, não suficientemente alta para acordar Wendy ou levar William a fazer mais do que apenas erguer a cabeça uma £ltima vez anteS de se deitar sobre si mesmo e deixar-se adormecer ao lado da irmã. Contudo, Alan teve o pressentimento que, se não fosse pelos mi£dos, teria escutado uma voz mais alta. Talvez até uma voz no seu tom mais elevado.
Thad tem algumas coisas para Lhe contar agora. Tem de ouvi-lo com muita atenção, Alan, e tem de tentar acreditar nele. Caso contr rio, temo que este homem (ou o que quer que ele seja) continue a sua matança até chegar bem ao fim da sua lista de carniceiro. Tenho algumas razões muito pessoais para não desejar que isso aconteça. Sabe, Alan, creio que eu, Thad e os nossos bebés podemos perfeitamente estar nessa lista.
- Muito bem. - A voz dele soou amena, embora os seus pensamentos girassem a uma velocidade muito r pida. Alan fez um esforço consciente para colocar de lado a frustração, a raiva e até mesmo a perplexidade, e tomar em conta esta ideia louca com todas as forças que tivesse. Não se tratava de saber se era verdade ou mentira - era totalmente impossível, est claro, consider -la sequer verdadeira - , mas apenas de conhecer a razão pela qual, antes de mais, eles se davam ao trabalho de contar uma história como essa. Teria sido magicada para esconder alguma cumplicidade imaginada nos assassínios?
Uma cumplicidade real? Seria mesmo possível que eles acreditassem na história? Parecia impossível que um casal como este, constituído por pessoas instruídas e racionais - pelo menos até agora, pudesse acreditar nisso, mas era tal e qual como se tinha passado no dia em que viera para prender Thad pelo assassínio de Homer: eles pura e simplesmente não se libertavam do ténue mas inequívoco perfume das pessoas que estão a mentir. "Conscientemente a mentir", corrigiu ele para si próprio. - Comece l , Thad.
- Muito bem - respondeu este. Depois de pigarrear nervosamente, Thad levantou-se. A mão dele procurou o bolso do peito e, com um sentimento de graça semiamargO Thad deu-se conta daquilo que estava a fazer: … procura de cigarros que j l não se encontravam h mais de três anos, Thad enfiou as mãos nos bolsos e olhou para Pangborn como olharia para um aluno aturdido que tivesse vindo dar resposta extremamente amistosa do gabinete de Thad.
- Algo de muito estranho anda a acontecer. Não: mais do que estranho. é terrível e inexplic vel, mas o facto é que est a acontecer. E tudo começou, penso eu, quando tinha apenas onze anos.
2
Thad contou tudo: as dores de cabeça em criança, os chilreios estridentes e as visões turvas dos pardais que anunciavam a chegada dessas mesmas dores de cabeça, o regresso dos pardais. Thad mostrou a Alan a p gina manuscrita com "OS PARDAIS ESTŽO A VOAR DE NOVO" rabiscado na diagonal em traços de l pis escuro. Falou-lhe sobre o estado de transe em que, no dia anterior, entrara no escritório, e aquilo que escrevera (o melhor que se podia lembrar) no verso da ordem de encomenda. Explicou-Lhe o que acontecera a essa mesma nota e tentou exprimir o medo e a perturbação que o tinham levado a destruir o papel.
O rosto de Alan manteve-se imp vido e sereno.
- Além disso - rematou Thad - , eu sei que é Stark. Aqui. - Thad fechou a mão num punho, batendo-a ao de leve no peito.
Durante alguns instantes, Alan não abriu a boca. Tinha começado a girar a aliança de casamento no terceiro dedo da mão esquerda para tr s e para a frente, e esta operação parecia atrair toda a sua atenção.
- Emagreceu desde que se casou - observou Liz discretamente. - Se não manda apertar esse anel, Alan, vai acabar por perdê-lo um dia destes. Suponho que sim. - Alan levantou a cabeça e olhou para ela. Quando falou, foi como se Thad tivesse abandonado a sala para fazer algum recado e só l se encontrassem es dois. - O seu marido levou-a até l acima, ao escritório dele. e mostrou-lhe esta primeira mensagem vinda do mundo dos espíritos depois de eu me ter ido embora...
certo?
- O £nico mundo dos espíritos que conheço é, sem qualquer sombra de d£vida, a loja das bebidas' a cerca de um quilómetro e meio estrada abaixo - disse Liz num tom sereno - , mas, realmente, ele mostrou-me a mensagem depois de você se ter ido embora, sim.
- Logo depois de eu me ter ido embora?
- Não: deit mos os gémeos na cama e foi nessa altura, enquantO nos est vamos a arranjar para nos deitarmos, que perguntei a Thad o que é que ele estava a esconder.
- Entre a altura em que me fui embora e o momento em que ele Lhe contou tudo aquilo sobre os brancos de memória e os sons dos p ssaros, houve momentos em que ele não esteve junto de si? Instantes durante os quais poderia ter ido até l acima e escrito a expressão que Lhe referi?
- Não Lhe posso responder com toda a certeza - replicou ela. - Penso que estivemos juntos durante todo o tempo, mas não Lhe posso dar a certeza. Mas também não faria qualquer diferença se Lhe dissesse que ele esteve sempre por perto, pois não?
- Que é que quer dizer com isso, Liz?
- Quero dizer que, nesse caso, você suporia que eu também estava a mentir, não era?
Alan soltou um suspiro profundo. Era a £nica resposta que qualquer um dos dois realmente precisava de ouvir.
- Thad não est a mentir sobre isto.
Alan acenou a cabeça:
- Agradeço a sua honestidade, mas dado que não pode jurar que ele nunca a deixou por alguns minutos, não posso acus -la de estar a mentir. Fico contente por isso. A Liz admite que a oportunidade pode ter existido, e creio que também admitir que a alternativa que nos resta é bastante louca.
Thad encostou-se contra a pedra da lareira, com os olhos a saltar de um lado para o outro, como os olhos de um homem a assistir a uma partida de ténis. O xerife Pangborn não estava a dizer nada que Thad j não tivesse previsto, estando a apontar para as incoerências da sua história com muito mais delicadeza do que seria necess rio, maS Thad verificou que, ainda assim, ele estava amargamente desapontado... quase com o coração destroçado. Aquele pressentimento de que Alan acreditaria - de certa forma acreditaria quase instintivamente - provou ser tão falso como um desses frascos de remédio que dizem que curam todas as maleitas.
- Sim, admito tudo isso - retorquiu Liz no mesmO tom sereno.
- Quanto …quilo que Thad afirma ter acontecido no gabinete... não temos testemunhas algumas quer do estado de transe quer daquilo que ele afirma ter rabiscado. De facto, ele só Lhe falou sobre o incidente depois de o senhor Cowley ter telefonado, não foi?
- Sim. Não falou antes.
- E então... - Alan encolheu os ombros.
- Alan, gostaria de lhe fazer uma pergunta.
- … vontade.
- Porque é que Thad mentiria? Com que finalidade?
- Não sei. - Alan olhou para ela com franqueza total.
- Ele próprio pode não saber. - Lançou um olhar de relance a Thad, tornando a virar-se e a aproximar-se de Liz.
- Ele pode até nem saber que est a mentir. O que eu estou a tentar dizer é bastante claro: isto não é o género de coisa que qualquer agente de polícia possa aceitar sem que haja fortes provas. E, neste caso, não temos nenhumas - Thad est a dizer a verdade, neste caso. Compreend° tudo aquilo que disse, mas também gostaria muito que acreditasse que ele est a dizer a verdade. Gostaria com todas as minhas forças. Sabe, eu vivi com George Stark. E sei como é que Thad se foi sentindo em relação a ele … medida que o tempo passava. Vou dizer-lhe uma coisa que não estava na revista People. Thad começou a falar em livrar-se de Stark dois livros antes do £ltimo...
- 3 - corrigiu Thad discretamente do seu lugar junto da prateleira da lareira. O desejo de fumar um cigaro transformara-se numa febre seca. - Comecei a falar nisso logo depois do primeiro.
- Muito bem, do terceiro. O artigo da revista dava a entender que se tratava de uma coisa bastante recente. Ora.
isso pura e simplesmente não é verdade. Quero deixar esse ponto bem assente. Se Frederick Clawson não tivesse aparecido e obrigado o meu marido a abrir-se, penso que Thad estaria ainda hoje a falar sobre livrar-se dele da mesma forma. Da forma como um alcoólico ou um toxicodependente diz … família e aos amigos que, amanhã, vai deixar de beber ou de se drogar... ou no dia seguinte... ou no dia depois desse.
- Não - retorquiu Thad. - Não exactamente assim.
A igreja certa mas o banco errado.
Thad fez uma pausa e franziu o sobrolho, fazendo mais do que apenas pensar. Estava a concentrar-se. De modo relutante, Alan desistiu da ideia de que estavam os dois a mentir, ou que o pretendiam enganar por alguma razão estranha.
Eles não estavam a despender todas as suas forças para tentar convencê-lo, ou para tentarem convencer-se a si próprios, mas apenas para explicarem como tudo acontecera...
do mesmo modo que as pessoas tentam descrever um incêndio muito tempo depois de este ser extinto.
- Olhe - disse Thad por fim: - vamos esquecer por um minuto o assunto dos estados de transe, dos pardais e das visões premonitórias, se é isso que elas são. Se sentir que precisa, pode falar com o meu médico, George Hume, sobre os sintomas físicos. Talvez os testes … cabeça que fiz ontem mostrem alguma coisa estranha quando estiverem prontos. Mas mesmo que não mostrem, o médico que me operou quando eu era mi£do talvez ainda esteja vivo e disponível para falar consigo sobre o caso. Talvez possa saber qualquer coisa que lance alguma luz sobre toda esta confusão Não me estou a recordar do nome dele assim de um momento para o outro, mas tenho a certeza de que est na minha ficha médica. Contudo, para j , tudo isto desta merda psíquica é secund ria.
Esta afirmação pareceu a Alan algo muito peculiar para ser dita por Thad... caso ele tivesse forjado aquela nota premonitória e mentido sobre a outra. Alguém suficientemente louco para fazer uma coisa dessas - e suficientement louco para esquecer que a fizera e chegar mesmo a acreditar que as notas eram verdadeiras manifestações de fenómenos psíquicos - não quereria falar sobre mais nada, pois não? A cabeça começou a doer-lhe.
- Muito bem - retorquiu ele num tom sereno - se diz que aquilo a que chama "esta merda psíquica" é secund rio, então qual é a linha principal?
- George Stark é a linha principal - respondeu Thad e pensou: "A linha que vai até Endsville, onde todas as linhas de comboio terminam." - Imagine que um estranho qualquer se mudava para sua casa. Alguém de quem tev sempre um pouco de medo, tal como Jim Hawkins sempr temera um pouco o Velho cão do Mar na estalagem Almirante Benbow... leu A 11ha do Tesouro, Alan?
Este acenou com a cabeça.
- O Alan conhece então o género de sentimento que estou a tentar expressar. Este tipo assusta-o bastante, e Alan não gosta nada dele, mas, ainda assim, deixa-o ficar.
Apesar de não ser dono de uma estalagem, como n'A Ilha do Tesouro, talvez até possa pensar que ele é um familiar afastado da sua esposa, ou qualquer coisa assim parecida.
Até aqui tudo bem?
Alan assentiu.
- Até que, finalmente, um dia, após este convidado terrível ter feito uma coisa parecida com o atirar o saleiro contra a parede porque o sal não saía dos buraquinhos, o Alan diz para a sua esposa: "Durante quanto mais tempo é que o idiota do teu primo em segundo grau vai ficar por aqui?" E ela olha para si e responde: "O meu primo em segundo grau? Pensei que ele fosse o teu primo em segundo grau ! "
Apesar de tudo, Alan grunhiu uma gargalhada.
- Mas ser que põe o homem fora de casa? - Thad prosseguiu. - Não. Por uma simples razão: ele encontra-se em sua casa h j algum tempo e, por muito grotesco que possa parecer para alguém que não esteja por dentro da situação, é como se ele tivesse... direitos de ocupação, ou qualquer coisa assim parecida. Mas não é isso que interessa.
Liz tinha estado a assentir. Os seus olhos reflectiam a expressão emocionada e grata de uma mulher a quem haviam acabado de dizer as palavras que tinham estado debaiso da sua língua durante todo o dia.
- O que interessa é o maldito medo que o Alan tem dele - disse ela. - Medo do que ele poderia fazer se Lhe chegasse a dizer para sair da sua casa, que pegasse na sua tralha e se pusesse a andar.
- Aqui est - afirmou Thad. - O Alan quer ser corajoso e mand -lo embora e não apenas porque teme que ele possa ser perigoso. Torna-se uma questão de dignidade.
Mas... passa o tempo a adiar. O Alan encontra razões para adiar essa decisão. Por exemplo, est a chover, e ele far com certeza menor escarcéu se for posto na rua num dia soalheiro. Ou talvez depois de ter tido uma boa noite de sono. Pensamos em mil e uma razões para adiar. O Alan acaba por descobrir que, se as razões soarem suficientemente credíveis aos seus ouvidos, conseguir conservar pelo menos algum resquício de dignidade. e alguma j é melhor do que nada. Alguma também j é melhor do que tê-la toda, se é que tê-la toda significa ter de acabar ferido, ou morto.
- E talvez não apenas o Alan.
Liz intrometeu-se de novo na conversa, falando com a voz calma e agrad vel de uma mulher a dirigir-se a um clube de horticultores - talvez sobre quando plantar milho, ou de como saber quando é que se deve colher os tomates.
- Quando estava... a viver connosco... ele era um homem feio e perigoso, e agora continua a ser um homem feio e perigoso. As provas sugerem que, se alguma coisa aConteceu ele ficou muito pior. é obvio que est louco, mas, segundo a sua consciência. o que ele est a fazer é uma coisa perfeitamente razo vel: ir no encalço das pessoas que conspiram para o matar e apag -las da face da terra, uma a uma.
- J acabou?
Espantada, Liz olhou para Alan, como se a voz dele a tivesse acordado de um profundo devaneio pessoal.
- O quê?
- Perguntei-lhe se j tinha acabado. A Liz queria dizer alguma coisa, e eu queria certificar-me de que dissera tudo.
A calma de Liz quebrou-se. Ela soltou um longo sUspiro e, ansiosamente, passou as mãos pelo cabelo.
- Não acredita nisto, pois não? Nem uma só palavra - Liz - replicou Alan - , isto é... de loucos. Peço desculpa por usar esta expressão, mas, tendo em conta as circunstƒncias, penso que posso dizer que se trata da mais delicada possível. Daqui a pouco, chegarão outros polícias. O FBI, imagino eu; a partir de agora, este homem pode ser considerado um fugitivo interestadual, e isso vai metê-los ao barulho. Se Lhes contarem toda esta história, com os es tados de transe e a escrita fantasma, ouvirão certamente in£meras expressões muito menos delicadas. Se me dissesse que toda esta gente tinha sido morta por um fantasma também não acreditaria.
- Thad fez menção deacrescentar algo mais, mas Alan ergueu uma mão, tendo o primeiro aquietado, pelo menos por então. - Mas até seria mais f cil para mim acreditar numa história de fantasmas do que nesta. Não estamos apenas aqui a falar sobre um fantasma: estamos a falar sobre um homem que nunca existiu.
- Como é que explica a minha descrição? - perguntou Thad subitamente. - Aquilo que Lhe forneci foi a minha imagem particular do modo como George Stark se parecia, se parece. Alguns pormenores estão na nota do perfil do autor que a Darwin Press tem nos ficheiros. Outros eram apenas coisas que tinha na minha cabeça. Sabe, nunca me sentei e vizualizei deliberadamente o tipo; limitei-me a formar uma espécie de imagem mental ao longo de uma série de anos, tal como se forma uma imagem mental do locutor de r dio que se ouve todas as manhãs no caminho para o trabalho. No entanto, na maioria dos casos, se, por mero acaso, alguma vez se chega a conhecer o locutor, essa mesma imagem acaba por estar completamente errada. Parece que acertei praticamente em tudo. Como é que explica isso?
- Não consigo - respondeu Alan. - A não ser, est claro, que esteja a mentir sobre a fonte de descrição.
- Sabe que não estou.
- Não esteja assim tão convencido disso - retorquiu Alan, levantando-se e dirigindo-se até … lareira, onde bateu impacientemente com o atiçador na lenha de vidoeiro ali empilhada. - Nem todas as mentiras têm origem numa de Consciente Se um homem se persuadir a si próprio de que eSt a dizer a verdade, consegue até passar com a maiOr das facilidades num detector de mentiras. Foi assim que Ted Bundy fez.
- V l - falou Thad com brusquidão. - Pare de se esforçar assim tanto. Isto é exactamente como aquela história das impressões digitais. A £nica diferença é que, desta vez nã° Lhe posso indicar um monte de testemunhas que corroborem. A propósito, o que h sobre as impressões digitais? Quando se acrescenta uma coisa destas, ser que, ao menos, isso não sugere que estamos a contar a verdade?
Alan virou-se. Subitamente, sentiu-se zangado com thad... com os dois. Era como se estivesse a ser colocado dum modo inexor vel entre a espada e a parede, e eles não tinham direito algum de o fazerem sentir assim. Era como se fosse a £nica pessoa na reunião da Sociedade da Terra Plana que acredita que a Terra é redonda.
- Não consigo explicar nenhuma dessas coisas... por enquanto - retorquiu ele. - Entretanto, talvez me queira dizer com toda a exactidão de onde é que este tipo verdadeiro)
veio, Thad. Ser que o deu … luz numa destas noites? Ser que ele saiu de um maldito ovo de pardal? Parecia-se com ele quando escrevia os livros que acabavam por ser lançados sob o nome dele? Como é que foi, exactamente?
- Não sei como é que ele surgiu - respondeu Thad zangado. - Não acha que se soubesse eu Lhe diria? Tanto quanto sei, ou tanto quanto me consigo lembrar, era eu quando escrevi A Vontade de Machine, A Melancolia de xford, Tarte de Tubarão e A Caminho da Babilónia. Não .dÇO a mais pequena ideia de quando é que ele se tornou numa. numa pessoa autónoma. Para mim, quando estava a escrever como ele, ele parecia real, mas apenas da mesma forma como todas as histórias que escrevo me parecem iguais na altura em que estou a escrevê-las. O que é o mesmo que dizer que as levo a sério mas que não acredito nelas, só que acredito... nessa altura... - Thad fez uma pausa e rosnou uma gargalhadinha desconcertante. Toda a minha vida tenho falado sobre o acto de escrever - disse ele. - Centenas de palestras, milhares de aulas, e creiO que nunca proferi uma só palavra sobre a compreensão que um escritor de ficção tem das duas realidades que existem para si: a realidade do mundo real e a outra do mundo manuscrito. Creio que nunca sequer pensei sobre isso. E agora dou-me conta de que... bem... parece-me que nem sequer sei como pensar nisso.
- Não interessa - retorquiu Liz. - Ele não tinha de ser uma pessoa autónoma até Thad ter tentado mat -lo.
Alan virou-se para ela.
- Bem, Liz, você conhece Thad melhor do que ninguém.
Quando ele estava a trabalhar nos romances policiais, passava de doutor Beaumont para senhor Stark? Batia-lhe? Ameaçava as pessoas nas festas com uma navalha?
- O sarcasmo não vai facilitar a conversa sobre este assunto - disse ela, olhando para ele com firmeza.
Alan ergueu as mãos num acto de desespero - apesar de não ter a certeza se eram eles, se era ele próprio ou até mesmo os três que o estavam a exasperar.
- Não estou a ser sarc stico; estou apenas a recorrer a um pouco de choque verbal para fazê-los ver como parecem dois loucos! Vocês estão a falar de um maldito pseudónimo que ganhou vida! Se contarem ao FBI nem que seja metade desta história, eles irão procurar as leis de Encarceramento Involunt rio do Estado do Maine!
- A resposta … sua pergunta é "não" - disse Liz. - Ele não me espancava ou brandia uma navalha pelas festas e cocktails. Mas quando estava a escrever como George Stark (e, sobretudo, quando estava a escrever sobre Alexis Machine), Thad não era o mesmo. Quando ele (abria a porta, talvez seja a melhor maneira de traduzir a ideia), quando ele fazia isso e convidava Stark a entrar, tornava-se distante. Não frio, nem sequer impassível, mas apenas distante Interessava-se menos em sair, em estar com pessoas. por vezes faltava …s reuniões da faculdade, até mesmo aos enContros com os alunos... apesar de isso ser muito raro.
Deitava-se tarde … noite e, de quando em vez, ainda se encontrava a virar de um lado para o outro na cama uma hora depois de se ter deitado. Quando finalmente adormecia, passava o tempo inteiro a dar esticões e a murmurar coisas, como se estivesse a ter pesadelos. Houve alturas em que lhe perguntei se era isso que acontecia e ele respondeu-me que Lhe doía a cabeça e se sentia inquieto, mas se tivesse tido pesadelos, não se conseguia lembrar de como eles eram.
"Não havia uma grande alteração de personalidade...
mas ele não era o mesmo. Alan, o meu marido deixou de beber lcool h j algum tempo. Não vai aos Alcoólicos Anónimos ou qualquer coisa assim, mas deixou de beber.
Com uma £nica excepção. Quando acabava um dos romances de Stark, apanhava uma piela. Então, era como se estivesse a livrar-se de tudo, e dizia para ele próprio. "O filho da mãe foi-se embora. Pelo menos por uns tempos, ele foi-se embora. George voltou para a sua quinta no Mississípi. Viva."
- Ela disse bem - afirmou Thad. - Viva!: era exactamente assim que eu me sentia. Deixe-me resumir aquilo que temos se deixarmos de lado os estados de transe e a escrita autom tica. O homem que procuram anda a matar pessoas que eu conheço, pessoas que foram, … excepção de Homer Gamache, respons veis pela "execução" de George Stark... em conspiração comigo, est claro. Ele tem o meu tipo de sangue, que nem é um daqueles verdadeiramente raros, mas que, ainda assim, continua a ser um daqueles que só seis pessoas em cada cem apresentam. Bate certo com a descrição que Lhe forneci, que era um apanhado da minha própria imagem daquilo a que George Stark se assemelharia se existisse. Fuma os cigarros que eu costumava fumar. E, por £ltimo, e o mais interessante de tudo, parece ter impressões digitais que são idênticas …s minhas. Talvez seis em cada cem pessoas tenham sangue tipo A com um factor Rh negativo, mas, pelo que sabemos, mais ninguém em todo este mundo de Deus tem as minhas impressões digitais Apesar de tudo isto, o Alan recusa-se a considerar sequer a minha afirmação de que Stark est , de alguma forma, vivo. Agora, xerife Alan Pangborn, diga-me uma coisa: quem é que est a trabalhar no escuro, se é que assim se pode dizer?
Alan sentiu o rochedo que, outrora, acreditara estar firme e sólido, mover-se um bocadinho. Não era verdadeira mente possível, pois não? Porém... se não tivesse mais nada para fazer durante o dia, iria falar com o médico de Thad e começaria a investigar a sua história clínica. Ocorreu-lhe que seria realmente maravilhoso descobrir que Thad não tivera nenhum tumor cerebral, que Thad mentira sobre isso...
ou sonhara com isso. Se ao menos ele pudesse provar que o homem era um psicopata, seria tudo muitO mais f cil. Talvez...
Talvez uma merda. Não existia qualquer George Stark, nunca existira qualquer George Stark. Ele podia não ser nenhum menino-prodígio do FBI, mas isso não significava que fosse suficientemente crédulo para cair numa patranha destas. Talvez conseguissem capturar aquele filho da mãe maluco em Nova Iorque que ia no encalço de Cowley; talvez até o fizessem, de facto. No entanto, caso contr rio, era prov vel que aquele psicopata decidisse ir passar umas férias no Maine, este Verão. Se ele realmente regressasse, Alan queria mat -lo.
Estava convencido que acreditar nesta história da Quinta Dimensão não o ajudaria em nada se a oportunidade realmente surgisse. E, neste preciso momento, não pretendia perder mais tempo a falar sobre isto.
- O tempo o dir , suponho eu - disse ele com um ar vago.
- Para j , aconselho-o a manter-se fiel … história que me contou ontem … noite: este é um tipo que pensa ser George Stark e que é suficientemente louco para ter começado no local mais lógico, lógico para um louco, isto é, o local onde Stark foi oficialmente enterrado.
- Se não der, pelo menos, … ideia um pouco de espaço mental, vai acabar por ficar enfiado em porcaria até …s orelhas - disse Thad. - Este tipo... Alan, não é possível discutir com ele, não é possível protestar junto dele. Até seria possível implorar-lhe por misericórdia se ele Lhe desse tempo, mas não valeria de nada. Se alguma vez chegar a estar ao pé dele com as suas defesas baixas, ele far de si uma tarte de tubarão.
- Vou falar com o seu médico - retorquiu Alan - e com o médico que o operou em mi£do. Não sei se servir de alguma coisa, ou que luz poder lançar sobre tudo isto, mas é o que irei fazer. Caso contr rio, penso que terei apenas de me arriscare Thad sorriu mas sem qualquer tipo de bonomia.
- Do meu ponto de vista, vejo que h aí um problema. A minha mulher e os meus filhos estaremos a arriscar-nos juntamente consigo.
3
Quinze minutos mais tarde, um camião de caixa fechada decorada a azul e branco parou na entrada da casa de Thad atr s do carro de Alan. Era semelhante a uma carrinha dos telefones, tendo-se verificado mais tarde que era isso mesmo, apesar de as palavras "polícia do estado do maine" estarem escritas de lado em discretas letras min£sculas.
Dois técnicos dirigiram-se para a porta, apresentaram-se, pediram desculpas por terem demorado tanto tempo (uma desculpa que não tinha importƒncia alguma para Thad e Liz, dado que eles nem sequer sabiam que aqueles tipos viriam) e perguntaram a Thad se este tinha algum problema em assinar o impresso que um deles levava numa prancheta. Thad leu-o por alto e viu que o papel Lhes dava autorizaçãO para instalarem um equipamento de gravação e de localização de chamadas no seu telefone.
Contudo, não Lhes dava autorização total para utilizarem as transcrições obtidas em qualquer processo de tribunal.
Thad rabiscou a sua assinatura no lugar devido. Tanto Alan Pangborn como um dos técnicos (estupefacto, Thad reparou que, num dos lados do cinto, pendia um aparelho de verificação de telefone e, do outro, uma.45) testemunharam a sua assinatura.
- Esta coisa da localização das chamadas funciona mesmo?
- perguntou Thad alguns minutos mais tarde, depois de Alan se ter ido embora para a Esquadra da Polícia Estadual de Orono. Parecia importante dizer alguma coisa;
após o documento assinado Lhes ter sido devolvido, os técnicOs não tinham mais aberto a boca.
- Sim - respondeu um deles, que pegara no telefone da sala de estar e estava a desenroscar com rapidez o casquilho interior de pl stico do auscultador. - Conseguimos localizar uma chamada no seu ponto de origem em qualquer lugar no mundo. Não é como o antigo sistema de localização de chamadas que se vê nos filmes, onde se tem de manter o utente na linha até este ser localizado. Desde que ninguém desligue o telefone deste lado da linha - o técnico sacudiu o telefone, que agora se assemelhava ligeiramente a um andróide destruído por uma pistola de raios num épico de ficção científica - , conseguimos localizar o ponto de origem da chamada. O que, na maior parte das vezes, acaba por ser um telefone de moedas num centro comercial.
- E disseste muito bem - retorquiu o companheiro.
Este estava a mexer na ficha do telefone, que retirara da tomada do rodapé. - Os senhores têm um telefone l em cima?
- Temos dois - respondeu Thad, que começava a sentir-se como se alguém o tivesse empurrado de modo inclemente pela toca de coelho da Alice abaixo. - Um no meu escritório e um outro no quarto.
- Eles estão numa outra linha?
- Não: temos apenas uma linha. Onde é que vão colocar o gravador?
- Provavelmente na cave - respondeu o primeiro de forma absorta. Este encontrava-se a enfiar arames provenientes do telefone num bloco de lucite que se eriçava com bornes de mola e a sua voz era perpassada por um tom de ser -que-se-importa-de-nos-deixar-fazer-o-nosso-trabalho.
Thad p“s o braço … volta da cintura de Liz e afastou-a dali, interrogando-se se haveria alguém que conseguisse compreender que nem todos os gravadores e blocos de lucite da alta tecnologia mais avançada do mundo fariam parar George Stark. Stark andava por aí, talvez a descansar, talvez j a caminho.
E se ninguém acreditasse nele, que raio iria fazer quanto a isso? Como é que era suposto proteger a sua família?
Ser que havia alguma forma? Thad pensou seriamente em tudo isto e, depois de a reflexão não ter levado a nada, limitou-se a escutar-se a si próprio. Por vezes - nem sempre, mas por vezes - a resposta surgia daquela forma, sempre que não surgia da outra.
No entanto, desta vez não foi isso que aconteceu.
E Thad achou graça quando, subitamente, verificou que ele próprio estava terrivelmente excitado. Pensou até em persuadir Liz a irem l para cima - mas, foi então que se lembrou de que, daqui a nada, os técnicos da Polícia Estadual estariam l em cima, a quererem fazer mais coisas misteriosas aos seus telefones obsoletos de uma só linha.
"Nem sequer posso ir para a cama", pensou ele. "Então, que é que fazemos?"
Mas a resposta era bastante simples. Esperavam, era isso que faziam.
Também não tiveram de esperar muito tempo pelo seguinte acepipe horrível: afinal de contas, Stark apanhara Cowley. De alguma forma, conseguira armadilhar a porta depois ,de ter emboscado os técnicos que tinham feito a mesma coisa ao telefone de Rick que aqueles homens na sala de estar estavam a fazer ao dos Beaumont. Quando Rick rodou a chave no trinco, a porta limitou-se a explodir.
Foi Alan quem trouxe as notícias. Não percorrera mais de cinco quilómetros estrada abaixo na direcção de Orono quando a informação da explosão foi transmitida na r dio.
Regressara, então, de imediato.
- Mas o Alan disse-nos que o Rick estava seguro - afirmou Liz, com a voz e o olhar languido. Até mesmo o cabelo parecia ter perdido o brilho. - Praticamente garantiu-nos isso.
- Enganei-me. Lamento muito.
Alan sentiu-se tão chocado quanto Liz Beaumont olhava e soava, mas estava a tentar com todas as suas forças não deixar transparecer nada. Lançou um breve olhar a Thad, que estava a fit -lo com uma espécie de tranquilidade no olhar vidrado. Um sorrisinho triste aflorou em redor dos cantos da boca de Thad.
"Ele sabe aquilo em que eu estou a pensar neste preciso momento. " Provavelmente não era verdade, mas, para Alan, era como se fosse verdade. "Bem... talvez não TUDO, mas uma parte. Talvez até mesmo uma boa parte. Até pode ser que esteja a fazer muito mal em esconder-lhe isto, mas não creio que o problema seja esse. Penso que é ele.
- Você sup“s uma coisa que acabou por estar errada, é tudo - retorquiu Thad. - Acontece aos melhores. Talvez deva voltar atr s e pensar um pouco mais em George Stark.
O que é que acha, Alan?
- Que talvez você possa ter razão - respondeu Alan, afirmando para si próprio que só estava a dizer aquilo para agradar aos dois. Mas o rosto de George Stark, ainda nunca visto excepto através da descrição de Thad Beaumont, começara a espreitar por cima do seu ombro. Apesar de ainda não o conseguir ver, Alan conseguia sentir a sua presença, a olhar.
- Quero falar com esse doutor Hurd...
- Hume - corrigiu Thad. - George Hume.
- Obrigado. Quero falar com ele, por isso vou estar por aqui. Se o FBI acabar por aparecer, gostariam que, mais tarde, desse um salto até c ?
- Nnão sei O que o Thad Densa sobre isso mas eu gostaria muito - respondeu Liz.
Thad acenou com a cabeça.
Alan disse:
- Lamento muito tudo isto, mas o que ainda lamento mais foi ter-vos prometido que tudo iria correr bem quando, afinal, acabou por assim não acontecer.
- Numa situação como esta, creio que é f cil subestimar-se tudo - disse Thad. - Contei-lhe a verdade, pelo menos a verdade como eu a vejo, por uma simples razão.
Se for Stark, penso que uma série de pessoas irão subestim -lo antes de tudo isto estar acabado.
Alan desviou o olhar de Thad para Liz e desta de novo para Thad. Após um longo espaço de tempo, durante o qual não se ouviu um £nico som excepto os guardas da protecção policial de Thad a falarem um com o outro … porta de entrada (um outro encontrava-se nas traseiras), Alan acabou por dizer:
- O raio da coisa é que vocês acreditam realmente nisso, não é verdade?
- Eu, pelo menos, acredito - confirmou Thad.
- Eu não - retorquiu Liz, tendo ambos olhado para ela, espantados. - Eu não acredito. Eu sei.
Alan suspirou e enfiou as mãos bem no fundo dos bolsos.
- H ainda mais uma coisa que eu gostaria de saber - disse ele. - Se isto que vocês dizem for verdade... eu não acredito, não consigo acreditar, presumo que se possa dizer...
mas se assim for, que raio de coisa é que este tipo quer?
Apenas vingança?
- Nada disso - respondeu Thad. - Ele quer a mesma coisa que eu ou o Alan quereríamos se estivéssemos no lugar dele. Quer deixar de estar morto. é só isso que quer.
Quer deixar de estar morto. Eu sou o £nico que talvez possa conseguir que isso aconteça. E se não conseguir, ou não quiser... bem... ele pode, pelo menos, certificar-se de que não fica sozinho.