A Metade Sombria
Thad esperou até Liz ir para a…
Dezoito
ESCRITA AUTOM TICA
1
Thad esperou até Liz ir para a cama antes de subir ao escritório. Durante cerca de um minuto, deteve-se … porta do quarto, escutando o fluxo e refluxo regulares da sua respiração, assegurando-se assim de que ela estava a dormir.
Ele não tinha certeza alguma de que aquilo que ia tentar fazer fosse funcionar, mas, caso desse certo, podia ser perigoso. Extremamente perigoso.
O seu escritório era uma sala grande nas guas-furtadas reformuladas que fora dividida em duas zonas: a "sala de leitura", uma zona com um sofã, rodeada de livros e uma cadeira de recosto, e um candeeiro regul vel e, na ponta da sala comprida, a zona de trabalho. Esta parte do escritório era dominada por uma secret ria antiquada que não apresentava um £nico traço que a pudesse redimir da sua fealdade fora do vulgar. Era uma utilit ria peça de mobili rio marcada, desgastada e sólida. Thad tinha-a desde os seus vinte e seis anos e, por vezes, Liz dizia …s pessoas que ele não a largava porque, secretamente, acreditava que se tratava da sua "Fonte das Palavras". Quando ela dizia isto, ambos sorriam, como se realmente acreditassem que se tratava de uma piada.
Três candeeiros de vidro opaco pendiam sobre este dinossaurio e, sempre que Thad acendia apenas estas luzes, como o fazia neste momento, os círculos de luz ferozes e sobrepostos que lançavam sobre a paisagem suja da secret ria davam a sensação de que Thad iria aí jogar uma qualquer versão estranha de bilhar: era impossível dizer quais seriam as regras do jogo numa superfície tão complexa, mas, na noite após o acidente de Wendy, a tensão do seu rosto teria convencido qualquer observador de que o jogo seria levado a cabo com paradas altas, quaisquer que fossem as regras.
Thad não podia estar mais de acordo com esta ideia.
Afinal de contas, precisara de mais de vinte e quatro horas para se encher de coragem para o que ia fazer.
Por um instante, Thad deteve-se diante da Remington Standard: um ligeiro alto sob a capa de resguardo com a alavanca de retorno de aço inoxid vel a sobressair do lado esquerdo como o dedo de um homem a pedir boleia. Depois de se sentar … sua frente, tamborilando inquieto os dedos … beira da secret ria durante alguns momentos, Thad acabou por abrir a gaveta que se encontrava … esquerda da m quina de escrever.
Esta gaveta era tão larga quanto profunda. Após tirar o seu di rio para fora, Thad abriu a gaveta até ao fim.
O frasco onde guardava os Berol Black Beauty rolara bem até ao fundo da gaveta, entornando os l pis ao girar. Thad pegou no frasco, colocou-o no lugar habitual e reuniu os l pis, enfiando-os de novo l dentro.
Fechou a gaveta e olhou para o frasco. Este fora arremessado para dentro da gaveta após aquele primeiro estado de transe, durante o qual ele utilizara um dos Black Beauty para escrever "OS PARDAIS ESTãO A VOAR DE NOVO" no manuscrito de O cão Dourado. Era sua intenção nunca mais utilizar nenhum... no entanto, apenas h duas noites atr s, estivera a brincar com um deles e, agora, c estavam eles, colocados onde tinham estado colocados durante cerca de uma d£zia de anos, quando Stark vivera com ele, vivera dentro dele. Durante longos períodos, Stark permanecia silencioso, praticamente inexistente. Era então que uma ideia surgia e o velho George matreiro saltava para fora da sua cabeça como um boneco louco de dentro de uma caixa: "Aqui estou eu, Thad! Vamos l , velha carcaça! Vamos l cavalgar!"
E todos os dias, ao longo dos três meses seguintes, Stark saltava c para fora pontualmente …s dez da manhã fins-de-semana incluídos. Saía c para fora, agarrava num dos l pis Berol e começava a escrever todos aqueles disparates loucos e sem sentido: os disparates loucos e sem sentido que pagavam as contas que o trabalho do próprio Thad não conseguia pagar. O livro acabava por ficar pronto e George desaparecia de novo, como o velho louco que fiara palha em ouro para Rapunzell.
Thad pegou num dos l pis, olhou para as marcas dos dentes ligeiramente gravadas no cilindro de madeira e deixou-o cair de novo no frasco, fazendo um ligeiro clink sonoro.
- A minha metade sombria - murmurou ele.
Mas ser que George Stark era dele? ser que alguma vez fora dele? Com excepção do estado de transe, ou o que quer que aquilo tivesse sido, ele não usara um destes l pis, nem sequer para fazer anotações, desde que escrevera "Fim" no fundo da £ltima p gina do £ltimo romance de Stark, A Caminho da Babilónia.
Afinal de contas, não houvera razão nenhuma para os utilizar" aqueles eram os l pis de George Stark e Stark estava morto... ou pelo menos era isso que Thad supusera. Era sua convicção de que, a seu devido tempo, acabaria por deit -los fora.
Mas agora parecia que, afinal de contas, eles iriam ter algum uso.
Thad esticou a mão na direcção do frasco de boca larga, puxando-a de imediato para tr s, como se a afastasse de uma fornalha que brilha com o próprio calor intenso.
Do bolso da camisa, Thad tirou a caneta, abriu o di rio, retirou a tampa da caneta, hesitou, e depois escreveu:
"Se William chora, Wendy chora. Mas descobri que o elo que existe entre eles é muito mais profundo e forte do que isso. Ontem, Wendy caiu das escadas abaixo e ficou com uma nódoa negra que se assemelha a um grande cogumelo roxo. Quando os gémeos acordaram da sesta, William também tinha uma. No mesmo local, com a mesma forma."
Aos poucos, Thad foi-se deixando cair no estilo da auto-entrevista que caracterizava uma boa parte do seu di rio.
… medida que o ia fazendo, apercebeu-se de que este modo de descobrir um caminho para aquilo em que realmente pensava, sugeria mais uma outra forma de dualidade... ou talvez fosse apenas um outro aspecto de uma £nica divisão na sua mente e espírito, algo que era tanto essêncial como misterioso.
"Pergunta: se tirasses fotografias …s nódoas negras dos meus filhos e, de seguida, sobrepusesses uma … outra, acabarias por ter em mãos aquilo que se assemelharia a uma só imagem?
Resposta: Sim, penso que sim. Creio que é como a história das impressões digitais. Creio que é como a história das impressões vocais."
Por um instante, Thad permaneceu sentado e imóvel, batendo ao de leve com a extremidade da caneta na p gina do di rio, reflectindo naquilo que escrevera. De seguida, inclinando-se de novo para a frente, começou a escrever mais depressa.
"Pergunta: O William SABE que tem uma nódoa negra?
Resposta: não, penso que não sabe.
Pergunta: ser que eu sei o que são os pardais, ou o que é que eles significam?
Resposta: não.
Pergunta: Mas eu sei que EXISTEM pardais. até aí tudo bem, não é? Independentemente daquilo em que Alan Pangborn ou outra pessoa qualquer possam acreditar, eu sei que EXISTEM pardais, e eu sei que eles estão a voar de novo, não sei?
Resposta: Sim."
Nesta altura, a caneta deslizava a toda a velocidade sobre a p gina. H meses que não escrevia de um modo tão r pido ou de uma forma tão inconsciente de si próprio.
"Pergunta: O Stark sabe que existem pardais?
Resposta: não. Ele diz que não sabe e eu acredito nele.
Pergunta: ser que tenho a CERTEZA que acredito nele?"
Mais uma vez, por breves momentos, parou, escrevendo de seguida:
"O Stark sabe que h ALGUMA COISA. Mas o William também deve saber que h alguma coisa: se a perna tem uma nódoa negra, deve doer. Mas a Wendy deu-lhe a nódoa negra quando caiu das escadas abaixo. O William só sabe que tem um sítio que Lhe dói.
Pergunta: O Stark sabe que tem um ponto fraco? Um ponto vulner vel?
Resposta: Sim, penso que sabe.
Pergunta: Os p ssaros são meus?
Resposta: Sim.
Pergunta: Isso quer dizer que quando ele escreveu "OS P†ssaroS ESTãO A VOAR DE NOVO" na parede de Clawson e na parede de Miriam, não estava consciente do que estava a fazer e, por isso, não se lembra de o ter feito?
Resposta: Sim.
Pergunta: Quem é que escreveu aquelas coisas sobre os pardais? Quem é que escreveu aquilo com sangue?
Resposta: Aquele que sabe. Aquele a quem os pardais pertencem.
Pergunta: Quem é aquele que sabe? Quem é aquele que possui os p ssaros?
Resposta: Eu sou aquele que sabe. Eu sou aquele que possui.
Pergunta: Eu estava l ? Eu estava l quando ele os assassinou?"
Thad fez uma outra pausa por breves segundos. "Sim", escreveu ele, e de seguida: "Não. As duas. Eu não tive um estado de transe quando Stark matou o Homer Gamache ou o Clawson, pelo menos que me lembre. Creio que aquilo que sei... aquilo que VEJO... talvez esteja a aumentar.
Pergunta: Ele vê-te?
Resposta: não sei. Mas..."
Thad escreveu: "Ele tem de me conhecer. Ele tem de me ver. Se foi REALMENTE ele quem escreveu aqueles romances, j me conhece h muito tempo. E esse seu conhecimento, essa sua visão, est também a aumentar. Todo aquele equipamento de localização e escuta de chamadas não desconcertou nem um bocadinho o velho George matreiro, pois não? não, claro que não. Porque o velho George matreiro sabia que o equipamento estaria l . não se passam praticamente dez anos a escrever ficção polícial sem se ter conhecimento deste tipo de coisas. Essa foi uma das razões pela qual ele não ficou desconcertado. Mas a outra é inda melhor, não é? Quando ele quis falar comigo, falar comigo em particular, soube exactamente onde me encontrar e como me apanhar, não soube?"
Sim. Stark telefonara para casa quando quisera ser ouvido por todos e telefonara para o Mercado do Dave quando não quisera. Porque é que, no primeiro caso, quisera ser ouvido por todos? Porque tinha uma mensagem a enviar … Polícia, que ele sabia estar a ouvir: que não era o George Stark e de que estava consciente de que não o era... e que não iria matar mais ninguém, que não iria atr s de Thad e da família de Thad. E havia ainda mais outra razão: ele quisera que Thad visse as impressões vocais que sabia irem ser feitas. Ele sabia que a Polícia não acreditaria naquilo que elas mostravam, por muito incontroversas que fossem... mas que Thad acreditaria.
"Pergunta: Como é que ele sabia onde eu me encontrava?"
E essa era uma pergunta bastante boa, não era? até então, Thad só se saíra com perguntas do género como é que dois homens diferentes podem partilhar das mesmas impressões digitais e impressões vocais e como é que dois bebés diferentes têm exactamente a mesma nódoa negra... sobretudo quando apenas um dos bebés em questão é que magoa a perna.
Só que Thad estava ciente que mistérios semelhantes estavam bem documentados e eram aceites, pelo menos em casos que envolviam gémeos o laço entre gémeos idênticos era ainda mais estranho. h mais ou menos um ano atr s, uma revista de informação trouxera um artigo sobre este assunto. Por causa dos gémeos na sua própria vida, Thad lera o artigo com atenção.
Havia o caso de dois gémeos idênticos que se encontravam separados por um continente inteiro, mas quando um deles partiu a perna esquerda, o outro teve dores horríveis na própria perna esquerda sem sequer saber que algo acontecera ao irmão. Havia ainda o caso de duas raparigas idênticas que tinham desenvolvido uma linguagem especial muito própria, uma linguagem conhecida e entendida apenas por elas em todo o mundo. Apesar dos Qis elevados e idênticos, estas duas gémeas nunca tinham aprendido a falar inglês. O que é que o inglês Lhes traria? Tinham-se uma … outra... e isso era tudo aquilo que bastava. E, contava ainda o artigo, havia o caso de dois gémeos que, separados … nascença, se tinham encontrado de novo em adultos e descoberto que se tinham casado no mesmo dia do mesmo ano, com mulheres que tinham um primeiro nome idêntico e que eram de uma semelhança espantosa. Além disso, ambos os casais haviam dado aos primeiros filhos o nome de Robert. Os dois Robert tinham nascido no mesmo mês e no mesmo ano.
- Uma parte e a outra parte. Uma metade e a outra metade. Um lado e o outro lado. As duas metades da mesma laranja - murmurou Thad, que se debruçou e desenhou um círculo em redor da £ltima linha que escrevera.
"Pergunta: Como é que ele sabia onde eu me encontrava?"
Por debaixo, escreveu:
"Resposta: Porque os pardais estão a voar de novo.
E porque somos gémeos."
Thad voltou a p gina do di rio e p“s a caneta de lado.
Com o coração a bater descompassadamente e a pele arrepiada de medo, esticou uma trémula mão direita e tirou um dos l pis Berol de dentro do frasco. Era como se estivesse a queimar a mão com um ardor lento e desagrad vel.
Altura de p“r mãos … obra.
Thad Beaumont curvou-se sobre a p gina em branco, fez uma pausa e, de seguida, escreveu "OS P†ssaroS ESTãO A VOAR DE NOVO" em grandes letras de imprensa no cimo da folha.
2
Que é que, exactamente, pretendia fazer com o l pis?
Também isso ele sabia. Thad ia tentar dar uma resposta … £ltima pergunta, aquela que era tão óbvia que nem sequer se dera ao trabalho de a p“r por escrito. ser que ele conseguia induzir de modo consciente o estado de transe?
Ser que ele conseguia fazer com que os pardais voassem?
A ideia tomou a forma de um contacto psíquico sobre o qual ele lera mas que nunca vira ser demonstrado: a escrita autom tica. A pessoa que tenta contactar com uma alma morta (ou viva) por meio deste método segura uma caneta ou um l pis na mão, sem apertar, com a ponta sobre uma folha de papel em branco e limita-se a esperar que o espírito trocadilho o mais intencional possívelo ponha em movimento. Thad lera que a escrita autom tica, que podia ser praticada com o auxílio de uma t bua Ouija, era normalmente considerada uma espécie de brincadeira, até mesmo um jogo, o que podia acabar por ser extremamente perigoso: que, com efeito, podia expor o praticante a uma forma qualquer de possessão.
Quando lera o artigo, Thad não acreditara nem deixara de acreditar em tudo isto" parecia ser algo tão estranho … sua vida como a adoração de ídolos pagãos ou a pr tica do tripano para acabar com as dores de cabeça. Neste momento, parecia ter a sua própria lógica fatal. Mas ele teria de chamar os pardais.
Pensou neles. Tentou invocar a imagem de todos aqueles p ssaros, de todos aqueles milhares de p ssaros, empoleirados nos telhados e nos fios de telefone sob um ameno céu primaveril, … espera do sinal telep tico para levantarem voo.
E a imagem veio... mas era insípida e irreal, uma espécie de quadro mental sem qualquer tipo de vida. Geralmente, quando começava a escrever, era assim que se passava:
um exercício seco e estéril. não, era pior do que isso. Para Thad, começar um livro sempre lhe parecera um pouco obsceno: era como beijar um cad ver na boca.
Contudo, ele aprendera que, se se esforçasse, se continuasse simplesmente a obrigar as palavras a sair ao longo das p ginas, havia algo que entrava, algo que era simultaneamente maravilhoso e terrível. As palavras como unidades individuais começavam a desaparecer. As personagens, até então trabalhadas e sem vida, começavam a adquirir agilidade, como se Thad as tivesse mantido num arm riozinho qualquer durante a noite e elas tivessem de desentorpecer as pernas antes de poderem iníciar aqueles passos de dança complicados. Algo começava a acontecer no cérebro dele" Thad conseguia praticamente sentir a forma das ondas eléctricas a alterarem-se, a perderem aquela disciplina terrivelmente formalista de passo de ganso, e a transformarem-se nas flexíveis e suaves ondas delta do sono.
Thad sentou-se, então, curvado sobre o seu di rio, com o l pis na mão, e tentou fazer com que isto acontecesse.
… medida que os minutos se iam desvanecendo e nada acontecia, começou a sentir-se cada vez mais tolo. E Uma fala dos antigos desenhos animados Rocky and Bullwinkle veio-lhe … cabeça e recusou-se a sair:
"Abracadabra, os espíritos estão prestes a falar!" Que raio de coisa i que diria a Liz se aparecesse e Lhe perguntasse o que é que ele estava a fazer ali com um l pis na mão e uma folha de papel em branco … frente, alguns minutos antes da meia-noite? Que estava a tentar desenhar o coelho na carteira de fósforos e ganhar uma bolsa de estudo para a Escola de Artistas Famosos em New Haven? Raios, ele nem sequer tinha uma daquelas carteiras de fósforos!
Thad fez tenção de p“r o l pis de volta no lugar, mas estacou. Como se mexera um pouco na cadeira, ficara virado para a janela, do lado esquerdo da secret ria, e agora estava a olhar para o exterior.
Havia um p ssaro l fora, pousado no peitoril da janela e a olhar para ele com uns olhos escuros brilhantes.
Era um pardal. Enquanto Thad o fitava, outro pardal veio juntar-se ao primeiro.
E outro.
- Oh, meu Deus - disse Thad numa voz trémula e fraca. Nunca se sentira tão aterrorizado em toda a sua vida...
e, subitamente, aquela sensação esquisita encheu-o de ' novo. Era a mesma sensação de quando falara ao telefone com Stark, só que agora era mais forte, muito mais forte.
Um outro pardal poisou, empurrando os outros três para o lado para arranjar lugar e, por detr s deles, Thad viu toda uma fila de p ssaros empoleirados no telhado do barracco onde guardavam o equipamento da relva e o carro de Liz. O antigo cata-vento na £nica empena da garagem estava coberto deles, balançando debaixo do seu peso.
- Oh, meu Deus - repetiu Thad, escutando a sua voz a milhares de quilómetros de distƒncia, uma voz repleta de terror e horrível espanto. - Oh, louvado seja Deus, eles são reais" os pardais são reais.
Em toda a sua imaginação, Thad nunca suspeitara disto... mas não havia tempo a perder ou até mesmo cabeça para perder tempo com eles. Subitamente, o escritório desapareceu e, em seu lugar, Thad viu a zona Ridgeway em Bergenfield, onde crescera. Encontrava-se tão silenciosa e deserta como a casa no pesadelo de Stark" Thad viu-se a si próprio a espreitar para o sub£rbio silencioso num mundo morto.
Contudo, não estava inteiramente morto porque os teLhados de todas as casas estavam cobertos por pardais chilreantes.
Todas as antenas de televisão estavam carregadas deles. Todas as rvores estavam repletas deles. Os pardais empoleiravam-se em todos os fios de telefone. Encontravam-se poisados sobre os carros estacionados, sobre a grande caixa de correio azul que estava situada na esquina da Duke Street com a Marlborough Street, e sobre a grade para as bícicletas em frente da Loja de Conveniência da Duke Street, onde ia comprar leite e pão para a mãe quando era mi£do.
O mundo estava cheio de pardais, … espera de uma ordem para voarem.
Thad Beaumont deixou-se cair para tr s na cadeira do escritório, com um fio de espuma a escorrer dos cantos da boca e os pés a contraírem-se incessantemente. Neste momento, todas as janelas do escritório estavam cobertas de pardais, que fitavam Thad como uns estranhos espectadores em forma de aves. Um som longo e gargarejante escapou da boca dele. Os olhos reviraram-se, deixando a descoberto as pupilas empoladas e brilhantes.
O l pis tocou no papel e começou a escrever. Sobre a primeira linha, Thad rabiscou - MANA.
Desceu outras duas linhas, descreveu a marca em forma de L que marcava habitualmente um novo par grafo nos livros de Stark e escreveu:
"L A mulher começou a afastar-se da porta. Fê-lo de umaforma praticamente imediata, antes mesmo de a porta ter parado de se abrir ligeiramente para dentro, mas j era tarde de mais. A minha mão disparou como uma bala por entre o espaço de seis centímetros de entre a porta e a ombreira, agarrando-lhe a mão." Os pardais levantaram voo. Num mesmo instante, todos eles levantaram voo, os que penetraram na sua cabeça daquele Bergenfield de h tanto tempo atr s, e aqueles no exterior da sua casa de Ludlow, os verdadeiros. Voaram em direcção a dois céus: um céu branco primaveril do ano de 1960, e um céu escuro de Verão do ano de 1988. Voaram e desaparecem numa explosão agitada de asas. Thad sentou-se muito direito... mas a mão estava ainda presa ao l pis e era empurrada ao longo da p gina. O l pis escrevia por si só.
"Consegui", pensou ele aturdido, limpando a saliva e a espuma na boca e no queixo com a mão esquerda. "Consegui... e agora só desejo nunca o ter feito. Que é isto?"
Thad fitou as palavras que, em baixo, fluíam do seu pulso, com o coração a bater com tanta força que sentia a pulsação, alta e r pida, na sua garganta. As frases vertidas sobre as linhas azuis estavam escritas com a sua própria letra mas, também, todos os romances de Stark tinham sido escritos com aquela mão. "Com as mesmas impressões digitais, o gosto pela mesma marca de cigarros e, exactamente, as mesmas características vocais, seria ainda mais esquisito se se tratasse da letra de uma outra pessoa", pensou ele.
A sua letra, como se verificara em todas as outras ocasiões, mas de onde é que estavam a vir as palavras? não da sua cabeça, isso era certo" neste preciso momento, esta não continha mais nada excepto um sentimento de terror a que se sobrepunha um sentimento clamoroso e ensurdecedor de confusão. E Thad deixara de sentir completamente a mão.
Era como se o braço direito terminasse a cerca de três palmos acima do pulso. Thad nem sequer tinha a mais remota sensação de estar a exercer pressão sobre os dedos, apesar de conseguir ver que estava a segurar o Berol com força suficiente para tornar brancas as pontas do polegar e dos dois primeiros dedos. Era como se se tivesse injectado com uma boa quantidade de novocaína.
Thad chegou ao fim da primeira folha. A sua mão insensível rasgou a folha pela margem e a palma da mão insensível correu ao longo da lombada do di rio, vincando uma outra folha, tendo começado a escrever de novo.
"Miriam Cowtey abriu a boca para gritar.
Mantivera-me mesmo por detr s da porta, pacientemente … espera h j quatro horas, sem beber um café ou fumar um cigarro. (Queria um cigarro, e fumaria um mal tudo isto estivesse acabado, mas, antes disso, o cheiro talvez a pudesse ter alertado). Lembrei a mim próprio que tinha de lhe fechar os olhos depois de lhe cortar a garganta. "
Com um pavor cada vez maior, Thad apercebeu-se de que estava a ler um relato do assassínio de Miriam Cowley...
e, desta vez, não se tratava de uma mistela confusa e entrecortada de palavras mas a narração coerente e brutal de um homem que era, … própria maneira terrível, um escritor extremamente eficaz: sufícientemente eficaz para levar milhões de pessoas a comprar as suas ficções.
"A estreia de George Stark no campo da não ficção", pensou ele de forma repulsiva.
Thad fizera exactamente aquilo que se propusera fazer:
entrara em contacto com Stark, de algum modo conseguira penetrar na mente de Stark tal como Stark conseguira, de alguma forma, penetrar na própria mente de Thad. Mas quem é que teria adivinhado que, ao fazê-lo, iria entrar em contacto com forças tão monstruosas e desconhecidas?
Quem é que conseguiria adivinhar? Os pardais e a percepção de que os pardais eram reais j tinham sido terríveis, mas isto era mil vezes pior. não era de espantar que Thad achasse que tanto o l pis como o bloco de notas transmitiam uma sensação de ardor quando em contacto com a pele. A mente deste homem era uma maldita fornalha.
E agora, meu Deus! Aqui estava! A descrever toda a história com o próprio punho! Pelo amor de Deus!
"Est s a pensar que me podes rebentar os miolos com essa coisa, não est s, mana? - perguntou ele. - Pois deixa-me que te diga uma coisa: esse não é um pensamento feliz. E sabes o que acontece …s pessoas que perdem os pensamentos felizes, não sabes?
Agora, as l grimas corriam-lhe pelo rosto abaixo."
"Que é que se passa, George? Est s a perder alguns dos teus pensamentos felizes?"
Não era de espantar que, por um instante, Thad tivesse feito parar o horrível filho da mãe quando fizera essa pergunta. Se este fora o modo como tudo realmente se passara, Stark utilizara então a mesma expressão antes de assassinar Miriam.
"Eu ESTAVA dentro da cabeça dele durante o assassínio.
ESTAVA. Por isso é que utilizei aquela expressão durante a conversa que tivemos no Mercado do Dave."
Aqui estava Stark a forçar Miriam a telefonar para Thad, a marcar o n£mero em vez dela j que estava demasiado aterrorizada para se lembrar do n£mero, apesar de ter havido semanas em que marcara aquele n£mero meia d£zia de vezes. Thad considerou este esquecimento e a compreensão demonstrada por Stark tanto horrível quanto convincente. E, agora, Stark estava a usar a navalha para...
No entanto, ele não queria ler aquilo, ele não iria ler aquilo. Thad empurrou o braço para cima, erguendo a mão dormente juntamente com o braço como se de um peso bruto se tratasse. No instante em que a ponta do l pis deixou de estar em contacto com o bloco de notas, as sensações voltaram a afluir … mão. Os m£sculos estavam com cƒimbras e o lado do segundo dedo doía-lhe bastante" o cilindro do l pis deixara uma marca que, agora, estava a adquirir uma cor avermelhada.
Com horror e uma espécie de admiração aturdida, Thad olhou para baixo, para a p gina rabiscada. A £ltima coisa na terra que desejava fazer era voltar a baixar o l pis, para completar de novo aquele circuito obsceno entre ele e Stark... mas ele não entrara nisto apenas para ler o relatório de Stark em primeira mão do assassínio de Mir Cowley, pois não?
"Imagina que os p ssaros voltam?"
Mas não voltariam. Os p ssaros tinham servido os seus fins. O circuito que ele alcançara estava ainda completo e a funcionar. Thad não fazia a mais pequena ideia de como sabia isso, mas sabia.
"Onde est s, George?", pensou ele. "Por que raio é que não te sinto? ser que é porque est s tão pouco consciente da minha presença como eu estou da tua? Ou ser que é outra coisa? Onde raio é que EST S?"
Thad manteve este pensamento diante da sua mente, tentando visualiz -lo como um sinal de nion de um vermelho berrante. De seguida, com força, apertou de novo o l pis entre os dedos e começou a baix -lo em direcção ao di rio.
Mal a ponta do l pis tocou no papel, a mão ergueu-se mais uma vez e, com um movimento dos dedos, passou para uma outra folha em branco. Como j fizera uma vez, a palma da mão vincou a folha virada ao longo da lombada.
Foi então que o l pis voltou ao papel e escreveu:
"Não importa - disse Machine a Jack RangeZy. - Todos os lugares são iguais. - Fez uma pausa. - Com excepção talvez da nossa casa. E saberei isso quando l chegar.""
"Todos os lugares são iguais." Thad começou por reconhecer aquela primeira frase e, depois, a citação inteira.
Era tirada do primeiro capítulo do primeiro romance de Stark, A Vontade de Machine.
Desta vez, o l pis parara por si só. Thad levantou-o e olhou para as palavras rabiscadas, frias e incomodativas.
"Com excepção talvez da nossa casa. E saberei isso quando l chegar."
Em A Vontade de Machine, a casa fora Flatbush Avenue, onde Alexis Machine passara a sua infƒncia, varrendo a sala de snooker do pai doente e alcoólico. Nesta história onde era a casa?
"Onde é a casa?" Thad pensou no l pis e, lentamente, aproximou-o de novo do papel.
O l pis fez uma série de rabiscos em forma de m. Fez uma pausa, tendo começado a mover-se de novo.
A casa é onde era o começo. - escreveu o l pis por baixo dos p ssaros.
Um trocadilho. ser que aquilo significava alguma coisa?
O contacto ainda funcionava ou estaria ele apenas a enganar-se a si próprio? Thad não se equivocara quanto aos p ssaros e tão-pouco durante aquela primeira enxurrada frenética de escrita. Isso ele sabia, mas a sensação de ardor e compulsão parecia ter-se atenuado. A mão ainda se encontrava dormente, mas a força com que segurava o l pis e era, na verdade, com muita força, a julgar pela marca no lado do dedo podia ter alguma coisa a ver com isso.
Não lera ele naquele mesmo artigo sobre a escrita autom tica que, muitas vezes, as pessoas se enganavam a si próprias com a t bua Ouija - que, na maioria dos casos, esta era guiada não pelos espíritos mas pelos pensamentos e desejos subconscientes do indivíduo?
"A casa é onde est o começo." Se se tratava ainda de Stark, e se o trocadilho tinha algum significado, era aqui, nesta casa: porque George Stark nascera aqui.
Subitamente, uma parte do maldito artigo da revista People penetrou-lhe no espírito.
"Enfiei uma folha de papel na m quina de escrever... e, depois, tornei a tir -la logo de seguida. Escrevi todos os meus livros … m quina, mas, aparentemente, George Stark não era apologista de m quinas de escrever. Talvez porque não tivessem aulas de dactilografia em nenhum dos hotéis de pedra onde ele cumpriu uma pena de prisão."
Engraçado, muito engraçado. Mas havia apenas uma relação secund ria com os factos actuais, não havia? não era a primeira vez que Thad contava com uma história que possuía apenas uma ligação muito ténue com a verdade, e admitiu que não seria a £ltima (partindo do princípio que sobreviveria a isto, é óbvio). não se tratava propriamente de mentir" nem sequer de enfeitar a verdade, rigorosamente falando. Tratava-se do acto praticamente inconsciente de ficcionalizar a própria vida, e Thad não conhecia um £nico romancista ou escritor de contos que não o fizesse. não fazíamos aquilo para dar de nós uma melhor imagem do que aquela que realmente tivemos numa dada situação" por vezes, isso acontecia, mas est vamos igualmente predispostos a relatar uma história que nos dava uma m imagem ou nos fazia parecer comicamente est£pidos. Qual era aquele filme em que um jornalista dissera: "Quando se tem a escolha entre a verdade e a lenda, imprimam a lenda"? Talvez em O Homem que matou Liberty Valance. Talvez até funcionasse para os relatos merdosos e imorais, mas funcionava também para a ficção maravilhosa. O extravasamento da ficção para a própria vida pessoal parecia ser um efeito secund rio praticamente inevit vel do contar histórias: era como ficar com calos nas pontas dos dedos por tocar viola ou acabar por ganhar uma certa tosse após anos a fumar.
Na verdade, os factos do nascimento de Stark eram bem diferentes daqueles contados na versão da People. não houvera qualquer decisão mística de escrever os romances do Stark … mão, embora o tempo o tivesse tornado numa espécie de ritual. E quando se tratava de rituais, os escritores eram tão superstíciosos como os atletas profissionais.
Os jogadores de beisebol podiam vestir as mesmas meias dia após dia ou benzerem-se antes de subir para a caixa do batedor se estivessem a jogar bem" quando bem sucedidos, os escritores ficavam propensos a seguir os mesmos padrões até estes se transformarem em rituais, num esforço para se precaverem do equivalente liter rio de um falhanço com o bastão... que era conhecido como o bloqueio do escritor.
O h bito de George Stark em escrever os romances … mão começara pura e simplesmente porque Thad se esquecera de levar fitas novas para a sua Underwood no pequeno escritório da casa de Verão em Castle Rock. Dado que as ideias eram escaldantes e demasiado prometedoras para esperar, apesar de não ter fitas para a m quina, Thad vasculhou as gavetas da pequena secret ria que aí tinha até encontrar um bloco de notas e alguns l pis e... "Naquela época, tínhamos o h bito de ir para aquela casa junto ao lago numa época bastante tardia no Verão, porque eu dava aquele curso de três semanas. Como era mesmo o nome?
"Formas Criativas". Que raio de coisa tão est£pida. Nesse ano, j est vamos no fim de Junho e lembro-me de subir ao escritório e descobrir que j não tinha fitas. Raios, até me lembro de Liz se queixar de nem se quer termos café...
"A casa é onde est o começo." Ao falar com Mike Donaldóon, o tipo da revista People, e ao contar-lhe a história semificcional da génese de George Stark, Thad transferira a localização para a grande casa ali em Ludlow, sem sequer se dar ao trabalho de pensar duas vezes: porque, supunha ele, era em Ludlow que se dedicava mais … escrita, sendo perfeitamente normal localizar a cena ali, sobretudo quando se est a preparar uma cena, a pensar numa cena, tal como se faz quando se est a escrever um artigo de ficção. Mas não fora ali que George Stark fizera a sua estreia" não fora ali que usara pela primeira vez os olhos de Thad para ver o mundo, apesar de ter sido ali que escrevera a maior parte dos seus livros, tanto como Stark como quando ele próprio, fora ali que eles tinham vivido a maior parte das suas estranhas vidas duplas.
"A casa é onde est o começo."
Neste caso, casa deveria ser sinónimo de Castle Rock.
Castle Rock, que, por mero acaso, era também onde se situava o Cemitério de Homeland. O Cemitério de Homeland que era onde, no pensamento de Thad e provavelmente também no de Alan Pangborn, George Stark aparecera pela primeira vez na sua materialização física homícida, h cerca de duas semanas atr s. ]
De seguida, como se se tratasse da sequência mais natural do mundo (tanto quanto ele sabia, até que podia muito bem ser), veio-lhe … cabeça uma outra pergunta, uma que era tão b sica e que surgiu de modo tão espontƒneo que Thad só ouviu dizê-la em voz alta, como um fã tímido num ch para conhecer o autor:
Porque é que queres voltar de novo a escrever?
Thad baixou a mão até a ponta do l pis tocar no papel.
Aquele entorpecimento característico voltou a fluir para cima dela e dentro dela, dando a sensação de que a mão estava mergulhada numa corrente de gua muito fria.
Mais uma vez, o primeiro acto da mão foi erguer-se de novo e virar para uma p gina limpa no di rio. Voltou a descer, vincando a folha virada pela lombada... só que, desta vez, a escrita não começou de imediato. Thad teve tempo para pensar que, apesar do entorpecimento, o contacto, qualquer que tivesse sido, fora quebrado. Foi então que o l pis se agitou na mão, como se de uma coisa viva se tratasse... viva mas gravemente ferida. Com um sacco, rabiscou um sinal semelhante a uma vírgula na horizontal e, com um novo sacco, descreveu um travessão. Foi então que escreveu "George Stark, George Stark não h p ssaros George Stark"
antes de ficar imóvel como uma peça de maquinaria sibilante.
"Sim. Podes escrever o teu nome. E podes negar a existência dos pardais. Muito bem. Mas porque é que queres voltar de novo a escrever? Porque é que é tão importante assim? Importante o sufíciente para matar pessoas?
"Se não o fizer, morro", escreveu o l pis.
- O que queres dizer com isso? - sussurrou Thad, embora sentisse uma esperança desvairada a deflagrar na cabeça. ser que era possível ser assim tão simples? Thad admitia que podia ser assim, sobretudo para um escritor que, antes de mais nada, nem sequer tinha de existir. Meu Deus, havia muito bons escritores reais que só conseguiam viver se escrevessem, ou se sentissem que o conseguiam fazer...
e, no caso de homens como Ernest Hemingway, fora tudo dar ao mesmo, não fora?
O l pis vacilou, desenhando de seguida uma comprida linha irregular por baixo da £ltima mensagem. Peculiarmente, assemelhava-se …s impressões vocais.
- V l - sussurrou Thad.Que raio queres tu dizer com isso?
"A desintegrar-ME", escreveu o l pis. As letras eram afectadas e relutantes.
O l pis agitou-se e titubeou entre os dedos, que estavam brancos como a cal da parede. "Se exercer muito mais pressão", pensou Thad, "o l pis vai acabar por estalar." "a perder" "a perder a coesão necess ria"
""não existem quaisquer p ssaros, nãO EXISTEM QUAISQUER PORra DE P†ssaroS"
"Oh seu filho da mãe sai de dentro da minha cabeça."
Subitamente, o braço de Thad voou. ao mesmo tempo, a mão dormente sacudiu o l pis com a agilidade de um m gico a manipular uma carta e, em vez de o segurar entre os dedos junto … ponta do cilindro, agarrou o l pis como se de um punhal se tratasse.
Thad baixou o l pis, Stark baixou o l pis e, de repente, o l pis foi espetado na teia de carne entre o polegar e o primeiro dedo da mão esquerda. A ponta de grafite, de algum modo romba pela enorme quantidade de coisas que Stark escrevera, furou praticamente toda a mão, atravessando-a de um lado ao outro. O l pis estalou. Um charco vivo de sangue encheu a depressão que a haste do l pis fizera na carne. De repente, a força que o possuíra, passara.
Uma dor terrível subiu pela mão acima, que continuava sobre a secret ria com o l pis espetado e projectado para fora.
Thad lançou a cabeça para tr s e cerrou bem os dentes para calar o grito agonizante que se debatia para escapar da garganta.
3
Ao lado do escritório havia uma pequena casa de banho.
Quando Thad se sentiu capaz de andar, levou a mão monstruosamente latejante até l , tendo examinado a ferida sob o brilho ofuscante da lƒmpada fluorescente do tecto.
I Assemelhava-se a uma ferida causada por uma bala: um buraco perfeitamente redondo, orlado por uma mancha escura que se alastrava. A mancha assemelhava-se a pólvora e não a grafite. Thad virou a mão e viu um leve pontinho encarnado, do tamanho de uma alfinetada, no lado da palma da mão. Era a ponta do l pis.
"Foi o que deu por teres ido até ao fim", pensou.
Thad colocou a ferida debaixo da gua fria até a mão ficar dormente. De seguida, tirou do arm riozinho a garrafa de gua oxigenada. Como verificou que não conseguia segurar a garrafa com a mão esquerda, pressionou-a contra o corpo com o braço esquerdo para conseguir tirar a tampa.
Deste modo, despejou o desinfectante sobre o buraco da mão, observando o líquido a ficar branco e espumoso, cerrando os dentes para conter a dor.
Depois de voltar a p“r a garrafa de gua oxigenada no lugar, tirou um a um do arm riozinho os poucos frascos de medicamentos que aí se encontravam, examinando os rótulos.
Quando, h dois anos atr s, dera uma valente queda ao fazer corta-mato em esqui, sofrera de terríveis espasmos nas costas, tendo o bom velho Dr. Hume passado uma receita de Percodan. Tomara apenas alguns e verificara que os comprimidos desregulavam o seu ciclo de sono e lhe dificultavam a escrita.
Por fim, Thad l acabou por descobrir o frasco de pl stico escondido por detr s de uma lata de creme de barbear Barbasol que devia ter, pelo menos, cem anos. Com os dentes, Thad abriu a tampa do frasco e, com uma sacudidela. deitou um dos comprimidos para fora, para o lado do lavatório. Por um segundo, ponderou no que ia fazer, decidindo não o fazer. Eles eram fortes.
"E talvez até estejam estragados. Talvez até possa acabar esta noite tão divertida com uma boa convulsão e uma viagem ao hospital. Que tal?"
Mas decidiu correr o risco. Na verdade, nem sequer podia haver d£vidas: as dores eram imensas e horríveis.
Quanto ao hospital... Thad olhou de novo para a ferida na mão e pensou: "Provavelmente até devia l ir para que um médico examinasse isto, mas raios me partam se o faço. J estou farto de, nestes £ltimos dias, ver as pessoas a olharem para mim como se eu fosse um louco. j basta."
Thad atirou mais quatro Percodans para a mão em forma de concha, enfiou-os no bolso das calças e tornou a p“r o frasco na prateleira do arm rio de remédios. De seguida, colocou um penso r pido sobre a ferida. Um daqueles redondos era o sufíciente. "Ao olhar para aquele circulozinho de pl stico", pensou ele, "ninguém faz sequer a mais pequena ideia do quanto esta maldita coisa dói. Ele armou-me uma cilada. Uma armadilha na mente dele e eu caí nela que nem um patinho."
Fora realmente isso que acontecera? Thad não sabia, não com toda a certeza, mas de uma coisa estava certo: não era seu desejo repetir a proeza.
4
Quando se conseguiu controlar de novo, ou algo próximo disso, Thad voltou a colocar o di rio na gaveta da secret ria, desligou as luzes do escritório e desceu até ao segundo andar.
No patamar, deteve-se por um instante, … escuta. Os gémeos estavam silenciosos. E Liz também.
O Percodan, aparentemente ainda dentro do prazo de validade, começou a dar sinais de vida e as dores na mão de Thad começaram a diminuir um pouco. Caso, inadvertidamente, Thad dobrasse a mão, o ténue latejar transformava-se num grito. No entanto, se fosse cuidadoso, não doía assim tanto.
"Mas, caro amigo, amanhã de manhã vai doer... e o que vais dizer … Liz?"
Ainda não sabia bem. Talvez a verdade... ou parte dela, de qualquer modo. Aparentemente, ela especializara-se em apanh -lo nas mentiras.
As dores estavam a passar mas os efeitos posteriores do choque repentino de todos os choqões repentinos ainda subsistiam e Thad imaginou que levaria mais algum tempo até conseguir adormecer. Assim, desceu até ao primeiro andar e, através das cortinas corridas da grande janela da sala de estar, deu uma olhadela ao carro-patrulha da polícia estadual estacionado na entrada. Thad conseguia vislumbrar a luz bruxuleante intermitente de dois cigarros no seu interior.
"Estão para ali os dois sentados muito senhores de si", pensou ele. "Os p ssaros não incomodaram qualquer um deles. Talvez, então, não EXISTISSEM realmente nenhuns, excepto na minha cabeça. Afinal de contas, estes tipos são pagos para serem incomodados."
Era uma ideia tentadora mas o escritório situava-se no outro lado da casa. As suas janelas não eram vistas da entrada. Do mesmo modo, a garagem também estava tapada.
Consequentemente, os polícias não podiam mesmo ter visto os p ssaros. não, pelo menos, quando começaram a empoleirar-se.
"Mas, e quando todos eles levantaram voo ao mesmo tempo? não me venham dizer que eles não ouviram isso.
Tu, Thad, viste pelo menos uma centena, talvez até duzentos ou trezentos."
Thad foi até l fora. Mal abriu a porta de rede da cozinha, j os dois agentes se encontravam fora do carro, um de cada lado. Eram homens grandes que se moviam com a rapidez silenciosa dos felinos.
- Ele voltou a telefonar, senhor Beaumont? - perguntou aquele que saíra do lado do condutor. Chamava-se Stevens.
- Não, nada disso - retorquiu Thad.Estava a escrever no meu escritório quando tive a sensação de ouvir um bando inteiro de p ssaros a levantar voo. Fiquei um pouco assustado. Por acaso ouviram alguma coisa?
Thad não sabia como se chamava o polícia que saíra do outro lado do carro. Era novo e louro, com um daqueles rostos redondos e francos que irradiam de boa natureza.
- Ouvimo-los e vimo-los - afirmou. Apontou para o céu, onde a Lua, que j não estava propriamente a um quarto, se encontrava suspensa sobre a casa. - Atravessavam a Lua a voar. Pardais. Um bando até bem grande.
Quase nunca voam … noite.
- Faz alguma ideia de onde é que eles possam ter vindo? - perguntou Thad.
- Bem, deixe-me que Lhe diga uma coisa - replicou o agente de rosto redondo: - não faço a mais pequena ideia.
Chumbei na cadeira de "Vigilƒncia a P ssaros".
Riu. O outro agente não. - Sente-se um pouco nervoso esta noite, senhor Beaumont?
- inquiriu ele.
Thad olhou para ele calmamente.
- Sim - respondeu. - –ltimamente, tenho-me sentido nervoso todas as noites.
- Podemos ser-lhe £teis em alguma coisa?
- Não - replicou Thad. - Parece-me bem que não.
Estava apenas curioso com aquilo que ouvi. Passem uma boa noite.
- Boa noite - desejou o agente de rosto redondo.
Stevens limitou-se a acenar com a cabeça. Por debaixo da aba branca do chapéu do agente, os seus olhos eram brilhantes e inexpressivos.
"Aquele acha que eu sou culpado", pensou Thad, a subir a pequena alameda. "De quê? não sabe. Provavelmente nem se interessa por isso. Mas tem o rosto de um homem que acredita que toda a gente é culpada de alguma coisa Quem sabe? Talvez até tenha razão."
Thad fechou a porta da cozinha trancando-a atr s de si.
Voltou para a sala de estar e olhou de novo para fora.
O agente de rosto redondo retirara-se para dentro do carro-patrulha mas Stevens encontrava-se ainda de pé do lado do condutor e, por um instante, Thad teve a sensação de que ele estava a olhar directamente para os seus olhos. não podia ser, est claro" com as cortinas corridas, Stevens conseguiria apenas vislumbrar uma mancha escura indistinta.
se é que chegava a ver alguma coisa.
Ainda assim, a sensação subsistiu.
Thad correu os cortinados sobre as cortinas e dirigiu-se ao bar. Abriu o arm rio e tirou uma garrafa de Glenlivet, que fora sempre a sua bebida favorita. Durante um longo momento, deixou-se ficar a olhar para a garrafa, tendo-a, de seguida, colocado de novo no lugar. Apesar de ter um desejo enorme de beber, esta seria a pior altura da sua vida para recomeçar a fazê-lo.
Thad dirigiu-se … cozinha e encheu um copo com leite, tendo cuidado para não dobrar a mão esquerda. A ferida transmitia uma sensação de ardor e fragilidade.
"Ele surgiu de forma imprecisa", pensou ele, beberricando o leite. "Não durou por muito tempo, irritou-se de um modo tão r pido que foi assustador, mas apareceu de forma imprecisa. Penso que devia estar a dormir. Podia estar a sonhar com Miriam, mas não me parece. Aquilo onde entrei era demasiado coerente para ser um sonho. Penso que era a memória. Penso que devia ser o "Album de Recordações" subconsciente de George Stark, onde est tudo bem anotado e enfiado no buraco correspondente. Julgo que se ele penetrasse no meu subconsciente e, pelo que sei, talvez até j o tenha feito, iria encontrar o mesmo género de coisa."
A beberricar o leite, Thad olhou para a porta da despensa.
"Ser que conseguiria entrar nos seus pensamentos ACORDADOS... nos seus pensamentos conscientes..."
Thad estava convencido que a resposta seria afirmativa...
mas pensou também que isso o tornaria vulner vel de novo. E, da próxima vez, talvez não fosse um l pis na mão.
Da próxima vez podia ser um corta-papéis no pescoço.
"Ele não pode fazer isso. Ele precisa de mim."
"Sim, mas ele é doido. E nem sempre as pessoas doidas salvaguardam os seus interesses."
Thad olhou para a porta da despensa e reflectiu sobre o modo de abri-la... e daí sair de novo para o exterior, para o outro lado da casa.
"Ser que o consigo obrigar a fazer alguma coisa? Tal como ele me obrigou a fazer?"
A esta pergunta, Thad não soube dar uma resposta. Pelo menos por ora. E uma experiência falhada poderia mat -lo.
Acabou de beber o leite, passou o copo por gua e colocou-o no escorredor da loiça. De seguida, dirigiu-se até … despensa. Ali, entre prateleiras com embalagens de comida … sua direita e prateleiras com artigos de escritório … sua esquerda, encontrava-se uma porta, semelhante …s utilizadas nas cavalariças, que dava para o extenso relvado a que chamavam o quintal das traseiras. Thad desaferrolhou a porta, empurrou as duas metades para fora e viu a mesa de piquenique e o grelhador l fora, quais sentinelas silenciosas de guarda. Saiu para o caminho de asfalto que circundava este lado da casa e acabava por ir dar ao passeio principal na entrada.
Sob a luz incerta da Lua no quarto minguante, o passeio tremeluzia como vidro escuro. Aqui e ali, a distƒncias irregulares, Thad conseguia vislumbrar umas manchas brancas "Cagadelas de pardais, para falar curto e grosso", pensou ele.
Thad caminhou lentamente pelo caminho de asfalto até se encontrar directamente por baixo das janelas do seu escritório. Um camião Orinco surgiu no horizonte e apressou-se pela Estrada 15 em direcção … casa, lançando uma momentƒnea luz clara através do relvado e do passeio de asfalto. Sob esta luz breve, Thad viu os corpos de dois pardais caídos no passeio: pequenos montículos de penas com patinhas trifurcadas a sair dos corpos min£sculos. Depois, o camião passou. ao luar, os corpos dos p ssaros mortos tornaram-se mais uma vez manchas de sombra irregulares, e nada mais do que isso.
"Eles eram reais", pensou de novo. "Os pardais eram reais." Aquele terror cego e desafiante regressou, fazendo-o, de certa forma, sentir-se imundo. Thad tentou cerrar as mãos em forma de punho, tendo a mão esquerda respondido com um bramido de dor. O pouco alívio que conseguira com o Percodan j estava a desaparecer.
"Eles estiveram aqui. Eles eram reais. Como é que isso é possível?"
Thad não sabia.
"Ser que fui eu quem os chamou ou ser que os criei a partir do nada?"
Também isto Thad não sabia. Mas de uma coisa tinha a certeza: os pardais que haviam aparecido esta noite, os pardais reais que tinham surgido antes de ter sido engolido pelo estado de transe, eram apenas uma fracção de todos os pardais possíveis. Talvez até apenas uma fracção infinitesimal. "Nunca mais", pensou ele."Por favor, nunca mais."
Todavia, Thad suspeitava que aquilo que ele desejava não tinha qualquer valor. Esse é que era o verdadeiro terror:
entrara em contacto com algum talento paranormal terrível dentro dele, mas não conseguia control -lo. A própria ideia de controlo era uma piada.
E Thad acreditava que, antes de tudo isto terminar, eles estariam de volta.
Foi percorrido por um arrepio e entrou de novo em casa.
Como se de um ladrão se tratasse, esgueirou-se para a própria despensa, tendo fechado a porta atr s de si e levado a mão a latejar para a cama. Antes de se deitar, engoliu mais um Percodan, empurrando-o pela garganta abaixo com gua da torneira da cozinha.
Liz não acordou quando Thad se deitou a seu lado. Algum tempo depois, mergulhou em três horas de sono confuso e intermitente, nas quais os pesadelos voavam e circulavam em seu redor. mas sempre fora do seu alcance.