A Metade Sombria
O tipo com o est£pido bigodezinho afilado…
Catorze
RECHEIO DOS TOLOS
1
O tipo com o est£pido bigodezinho afilado era muito mais r pido do que Stark pensava.
Stark estivera … espera de Michael Donaldson no corredor do nono andar do edifício onde ele vivia, mais exactamente no canto que se seguia … porta do apartamento de Donaldson. Teria sido tudo muito mais f cil se Stark tivesse conseguido entrar no apartamento, como fizera com a cabra, mas um £nico relance foi o suficiente para o convencer de que estas fechaduras, ao contr rio das delas, não tinham sido montadas pelo "Zé da Esquina". Ainda assim, tudo deveria correr pelo melhor. Era tarde, e todos os coelhos da coelheira j deviam estar ferrados a dormir e a sonhar com trevo. O próprio Donaldson deveria estar lento e embriagado. Quando se chega a casa … uma e um quarto da manhã, não se vem propriamente da biblioteca p£blica.
Donaldson parecia estar realmente um pouco embriagado, embora não estivesse de modo algum lento.
Quando Stark dobrou a esquina e golpeou Donaldson com a navalha enquanto este brincava com o porta-chaves, era sua esperança cegar o homem de forma r pida e eficaz.
Nesse momento, antes que Donaldson pudesse sequer fazer menção de soltar um grito, Stark abrir-lhe-ia a garganta, cortando-lhe a canalização ao mesmo tempo que rasgava as cordas vocais.
Stark não tentou mover-se sem fazer qualquer barulho.
Ele queria que Donaldson o escutasse, queria que Donaldson virasse o rosto na sua direcção. Tornaria tudo muito mais f cil.
Donaldson fez aquilo que era suposto começar por fazer: com a navalha, Stark, descrevendo um arco curto e firme, golpeou-lhe o rosto. Contudo, Donaldson conseguiu desviar-se um pouco: não muito mas demasiado para o propósito de Stark. Em vez de apanhar os olhos, a navalha abriu a testa até ao osso. Uma aba de pele descaiu enroscada sobre as sobrancelhas de Donaldson, como uma tira solta de papel de parede.
- SOCORRO! - baliu Donaldson numa voz estrangulada e semelhante … de um cordeiro, e l se foi a discrição. Merda.
Stark deu um passo em frente, segurando a navalha diante dos seus olhos com a lƒmina ligeiramente virada para cima, como um matador a saudar o touro antes da primeira corrida. Muito bem; nem sempre tudo corria de acordo com a nossa vontade. Não cegara o bufo, mas jorrava sangue em profusão do corte na testa sob a forma de grossas gotículas, e o pouco que Donaldson conseguia ver era filtrado por uma névoa vermelha pegajosa.
Stark tentou golpear a garganta de Donaldson mas, com uma rapidez espantosa, o filho da mãe puxou a cabeça para tr s quase tão depressa como uma cascavel a recuar de um ataque, e Stark deu por si a admirar um pouco o homem, com ou sem o ridículo bigode afilado.
A navalha cortou o ar apenas a dois dedos de distƒncia da garganta do homem, tendo este gritado por socorro mais uma vez. Os coelhos, que nunca dormiam profundamente nesta cidade, nesta velha Big Apple carunchosa, iriam acordar.
Stark inverteu a direcção, recuando de novo a navalha, ao mesmo tempo que se punha em bicos de pés e lançava o corpo para a frente. Foi um gracioso movimento de ballet, que deveria ter posto um fim a tudo isto. No entanto, de alguma forma, Donaldson conseguiu erguer uma mão em frente da garganta; em vez de o matar, Stark limitou-se a infligir uma série de feridas compridas e superficiais, a que os patologistas da Polícia chamariam cortes de defesa.
Donaldson ergueu a mão com a palma virada para fora, tendo a navalha passado por entre a base de todos os quatro dedos.
Como usava um anel bastante pesado no terceiro, esse dedo ficou incólume. Ouviu-se um breve som agudo e met lico - brinnk! - quando a lƒmina passou através do anel, deixando uma min£scula cicatriz na liga de ouro.
A navalha cortou bem fundo os outros três dedos, deslizando sem esforço algum na carne, como uma faca quente desliza na manteiga. Com os tendões cortados, os dedos caíram bruscamente para a frente como fantoches adormecidos, deixando apenas bem direito o dedo com o anel como se, na sua confusão e horror, Donaldson tivesse esquecido qual o dedo que se usa quando se pretende mandar alguém ir dar uma volta.
Desta vez, quando Donaldson abriu a boca, chegou mesmo a uivar. Foi então que Stark concluiu que não valia a pena pensar sequer em sair desta história sem ser visto ou ouvido. Dado que não era sua intenção dar a Donaldson o tempo suficiente para fazer quaisquer chamadas telefónicas, Stark acalentara a esperança de poder sair desta história sem ser notado, mas, infelizmente, tal não iria acontecer.
Contudo, do mesmo modo, também não era sua intenção deixar Donaldson vivo. Uma vez iniciado o trabalho sujo, este não podia ser deixado a meio: ou era levado até ao fim ou a pessoa é que acabava por ir até ao fim.
Stark abriu caminho. Nesta altura, depois de se terem deslocado ao longo do corredor, j se encontravam praticamente … porta do apartamento seguinte. Despreocupado, Stark sacudiu a navalha para o lado para limpar a lƒmina.
Um leve jacto de gotas salpicou a parede cor de creme.
Mais ao fundo do corredor, uma porta abriu-se e um homem com a parte de cima de um pijama azul e o cabelo em rolos enfiou a cabeça e os ombros para fora da porta.
- Que é que se est a passar? - gritou ele numa voz mal-humorada que anunciava que Lhe era indiferente se o papa ali estivesse mas que a festa tinha acabado.
- Assassínio - retorquiu Stark informalmente e, apenas por um instante, os seus olhos deslocaram-se do homem sangrento e vociferante diante de si para o homem na soleira da porta. Mais tarde, este homem diria … Polícia que os olhos do intruso eram azuis. De um azul-claro. E totalmente dementes. - Quer experimentar?
A porta fechou-se com tamanha rapidez que foi como se nunca tivesse sido sequer aberta.
Por muito em pƒnico que estivesse e por muito ferido que indiscutivelmente estava, Donaldson viu surgir uma oportunidade quando o olhar de Stark se deslocou, embora a diversão tivesse sido apenas momentƒnea. Ele aproveitou-a. O filho damãe foi mesmo r pido. A admiração de Stark cresceu. A rapidez e o sentido de autopreservação do papalvo eram praticamente suficientes para contrabalançar o maldito incómodo que estava a criar.
Se tivesse saltado para a frente, atacado Stark com firmeza, talvez pudesse ter passado da fase do incómodo para uma outra próxima de um verdadeiro problema. Em vez disso, Donaldson virou-se e começou a correr.
Perfeitamente compreensível, mas um erro.
Com os sapatos grandes a sussurrarem no tapete, Stark correu atr s dele e deu uma facada na parte de tr s do pescoço do homem, convencido de que isto iria, por fim, dar tudo por terminado.
Contudo, no segundo mesmo antes de a navalha golpear o alvo pretendido, Donaldson atirou simultƒneamente a cabeça para a frente e, de certa forma, meteu-a para dentro, como uma tartaruga a esconder-se na carapaça. Stark começou a acreditar que Donaldson era telep tico. Desta vez, aquilo que deveria ter sido o golpe de misericórdia limitou-se a dividir o couro cabeludo acima da protuberƒncia protectora do osso na parte de tr s do pescoço. Apesar de sangrento, estava longe de ser fatal.
Isto era irritante, exasperante... e estava praticamente a resvalar para o campo do ridículo.
Donaldson cambaleou ao longo do corredor, andando aos bordos de um lado para o outro, chegando por vezes mesmo a bater com a cabeça nas paredes como uma pinball a bater num daqueles postes que se iluminam e onde o jogador faz cem mil pontos ou ganha um jogo gr tis ou a porra de uma outra coisa qualquer. … medida que cambaleava pelo corredor, Donaldson gritava. … medida que cambaleava pelo corredor, Donaldson ia derramando sangue sobre a passadeira. … medida que cambaleava pelo corredor, Donaldson ia deixando a ocasional marca sangrenta da mão que marcava a sua progressão.
Mas ainda não estava a morrer.
Apesar de mais nenhuma outra porta se ter aberto, Stark sabia que precisamente neste momento em, pelo menos, meia d£zia de apartamentos, meia d£zia de dedos estavam a ligar para o 115 (ou até j tinham ligado) em meia d£zia de telefones.
Donaldson cambaleou e caminhou aos tropeções em direcção aos elevadores.
Sem estar zangado ou assustado, mas apenas terrivelmente exasperado, Stark caminhou a passos largos atr s dele. Subitamente, ribombou:
- Porque é que não p ras com isso e TE: COMPORTAS!
Nesta altura o grito de socorro de Donaldson transformou-se num guincho de choque. Tentou olhar … sua volta. Os pés enredaram-se um no outro e Donaldson deu por si estatelado no chão a três metros de distƒncia de onde o corredor abria para dar lugar ao pequeno trio do elevador.
Stark chegara … conclusão que, até mesmo o mais gil dos indivíduos acabava por ver esgotado todos os pensamentos felizes se o retalhassem bastante.
Donaldson ficou de joelhos. Agora que os pés o haviam traído, ele tinha, aparentemente, a intenção de se arrastar até ao trio do elevador. Com o seu não rosto sangrento, olhou em volta para ver onde estava o atacante, tendo Stark pontapeado a cana do nariz ensopada em sangue. Stark calçava uns mocassins castanhos e pontapeou a maldita protuberƒncia com toda a força que tinha. Com as mãos de lado, deu um ligeiro impulso para tr s para manter o equilíbrio, ergueu o pé esquerdo e, de seguida, levantou-o o mais possível em arco até … altura da testa. Qualquer pessoa que j tivesse visto um jogo de futebol ter-se-ia, certamente, lembrado de um pontapé muito bom e muito forte.
A cabeça de Donaldson voou para tr s, esmagando-se contra a parede com força suficiente para, nesse ponto, formar uma depressão em forma de taça no gesso, e fez ricochete.
- Finalmente desliguei-te as pilhas, não foi? - murmurou Stark, ouvindo uma porta abrir-se por detr s de si. Virou-se e viu uma mulher de cabelo preto desgrenhado e uns enormes olhos escuros a olharem para fora da porta de um apartamento praticamente ao fim do corredor. - VOLTA PARA DEeNTRO, SUA CABRA! - gritou ele. A porta fechou-se violentamente como se estivesse segura por uma mola.
Stark dobrou-se, agarrou no cabelo ordin rio e horrível de Donaldson, virou a cabeça para tr s e cortou-lhe a garganta. Acreditava que Donaldson j estava provavelmente morto até mesmo antes de a cabeça ter batido contra a parede, e com quase toda a certeza depois, mas, ainda assim.
era melhor assegurar-se. E, além disso, quando se começava a cortar, acabava-se de cortar.
Lestamente, Stark deu um passo para tr s, mas Donaldson não esguichou como a mulher fizera. O seu coração j o tinha abandonado ou estava a dar as £ltimas. Stark caminhou rapidamente em direcção aos elevadores, tendo dobrado a navalha e enfiando-a de novo no bolso.
Um elevador a subir parou lentamente no patamar.
Podia ser um inquilino; na cidade grande, chegar … uma da manhã a casa não era uma hora verdadeiramente tardia, mesmo para uma noite de segunda-feira. Ainda assim.
Stark deslocou-se rapidamente para perto da planta dentro de um grande vaso que ocupava o canto do trio do elevador, juntamente com um quadro abstracto totalmente sem valor. Stark escondeu-se por detr s da planta. Todo o seu radar estava a sibilar alto. Podia ser alguém que estivesse a voltar de um ataque pós-fim-de-semana de febre de discotecas ou o resultado bíbulo de um jantar de negócios, embora ele não acreditasse que fosse qualquer um destes casos.
Stark acreditava que seria a Polícia. Na verdade, ele sabia que seria a Polícia.
- Um carro-patrulha que, por mero acaso, se encontrava na vizinhança do edifício quando um dos habitantes desta ala telefonou a informar que estava a ser cometido um assassínio no corredor? Era possível, mas Stark tinha as suas d£vidas. Parecia mais prov vel que Beaumont tivesse levantado a lebre, que a maninha tivesse sido descoberta, e esta fosse a protecção policial de Donaldson a chegar. Mais vale tarde do que nunca.
Com as costas contra a parede, Stark deslizou lentamente ao longo da mesma, com o blusão que ele vestia manchado de sangue a roçagar e a produzir um som rouco, semeLhante a um murm£rio. Não se tratou propriamente de se esconder, ele submergiu como um submarino até … profundidade do periscópio, e o esconderijo proporcionado pelo vaso da planta era, na melhor das hipóteses, diminuto. Se olhassem … sua volta iriam vê-lo. No entanto, Stark apostava que toda a atenção dos dois seria atraída para a Prova ali estendida, a meio do corredor. Pelo menos durante alguns instantes - e isso seria o suficiente.
As folhas largas e entrecortadas de veios da planta estamparam sombras em forma de dentes de serra sobre o seu rosto. Como um tigre de olho azul, Stark p“s-se … coca por entre elas.
As portas do elevador abriram-se. Ouviu-se uma exclamação abafada, santa qualquer coisa ou outra, e dois polícias em uniforme precipitaram-se para a frente. Foram seguidos por um tipo negro num par de jeans largos em cima e apertados em baixo e uns velhos e grandes ténis típicos de preto com fecho em velcro. O tipo negro vestia ainda uma t-shirt de mangas cortadas, tendo impresso na parte da frente a inscrição PROPRIEDADE DOS N. Y. YANKEES. Usava ainda um par de óculos de sol … chulo atados … volta da cabeça, e se ele não era um detective, Stark era São Francisco de Assis.
Quando andavam … paisana, iam sempre longe de mais... e, de seguida, agiam como se estivessem conscientes disso. Era como se soubessem que estavam a exagerar, mas, pura e simplesmente, não conseguissem evitar. Então, esta era - ou, de qualquer forma, tivera o propósito de ser - a protecção de Donaldson. Não haveria nenhum detective num carro-patrulha de passagem. Isso seria apenas um pouco demasiado fortuito. Este tipo viera acompanhar os guardas que iriam ficar … porta para, primeiro, interrogar Donaldson e, depois, fazer de baby-sitter.
"Desculpem l , amigos", pensou Stark. "Penso que os dias de conversa deste querido estão acabados."
Stark impeliu os pés e contornou o vaso da planta. Nem uma £nica folha se mexeu. Os seus sapatos não produziram som algum no tapete. Stark passou a menos de um metro por detr s do detective, que se encontrava debruçado, a tirar uma 32 de um coldre na canela da perna. Se estivesse para isso, Stark podia ter-lhe dado um bom pontapé no rabo.
No £ltimo segundo antes de a porta começar a deslizar e fechar-se, Stark enfiou-se no cubículo do elevador aberto.
Pelo canto do olho, um dos polícias de uniforme vislumbrou um ligeiro movimento - talvez a porta, talvez o próprio Stark, mas isso não interessava realmente - e levantou a cabeça inclinada sobre o corpo de Donaldson.
Stark levantou uma mão e, de modo solene, mexeu os dedos. Adeusinho. De seguida, a porta tapou-lhe a visão da cena do corredor.
O vestíbulo do rés-do-chão estava vazio, com excepção do porteiro, deitado moribundo por debaixo da secret ria.
Stark saiu para a rua, entrou num carro roubado e conduziu-o para longe dali.
2
Phyllis Myers vivia num dos novos edifícios de apartamentos da zona ocidental de Manhattan. A sua protecção policial (acompanhada por um detective que vestia calças de fato de treino Nike, uma sweat-shirt dos New York Islanders com as mangas cortadas, um par de óculos de sol … chulo atados … volta da cabeça) chegara …s dez e meia da noite de 8 de Junho para a encontrar pior que uma barata por causa de um encontro desmarcado. Ao princípio, estava mal-humorada, mas, quando ouviu que alguém que pensava ser George Stark talvez pudesse estar interessado em assassin -la, animou-se consideravelmente. Phyllis respondeu …s perguntas do detective sobre a entrevista a Thad Beaumont - … qual ela se referia como a reportagem a Thad Beaumont - enquanto colocava rolos novos em três m quinas e brincava com cerca de duas d£zias de lentes.
Quando o detective Lhe perguntou o que é que ela estava a fazer, ela piscou-lhe o olho e respondeu-lhe:
- Acredito no lema dos escuteiros. Quem sabe; talvez alguma coisa possa realmente acontecer.
Após o interrogatório, … porta do seu apartamento, um dos polícias de uniforme perguntou ao detective:
- Ela est a falar a sério?
- Claro - replicou o detective. - O £nico problema é que ela não acredita que mais nada seja a sério. Para ela, o mundo inteiro não passa de uma fotografia … espera de ser tirada. O que tens ali dentro é uma cabra tonta que realmente acredita que estar sempre do lado correcto das lentes.
Agora, …s três e meia da manhã do dia 7 de Junho, o detective h muito que se fora embora. Cerca de duas horas antes, os dois homens destinados a protegerem Phyllis Myers tinham recebido a notícia do assassínio de Donaldson pelos r dios da Polícia presos aos cintos. Foram aconselhados a serem extremamente cuidadosos e a estar extremamente alertas, j que o psicopata com o qual estavam a lidar demonstrara estar sedento de sangue e ser extremamente gil de espírito.
- Cauteloso é o meu apelido - retorquiu o polícia n§ 1.
- Isso é uma coincidência - disse o polícia n§ 2.
- O meu é Extremamente.
H mais de um ano que eram parceiros e davam-se bastante bem. De seguida, trocaram entre si um sorriso.
E porque não? Eram dois membros armados e uniformizados da Polícia da velha Big Apple carunchosa, de pé num corredor bem iluminado e com ar condicionado, no vigésimo sexto andar de um edifício de apartamentos novinho em folha - ou talvez fosse um condomínio, quem é que saberia, pois quando os agentes Cauteloso e Extremamente eram rapazes, um condomínio era uma coisa que um tipo com um defeito na fala usava na ponta do coiso - e ninguém iria surpreendê-los vindo do nada ou saltar do telhado sobre eles ou abatê-los com uma Uzi m gica que nunca encravava ou ficava sem m£nições. Isto era a vida real. e não a Balada de Hill Street nem um filme do Rambo. E, esta noite, a vida real consistia num deverzinho especial, muito mais agrad vel do que andar por aí a percorrer as ruas no carro-patrulha, a p“r fim a lutas nos bares até os bares fecharem, e depois a p“r fim a outras lutas, até ao Sol raiar, em nojentos apartamentos sem elevadores onde maridos e mulheres bêbedos tinham concordado em entrar em desacordo. A vida real deveria consistir em ser-se sempre Cauteloso e Extremamente em corredores com ar condicionado, nas noites quentes da cidade. Ou, pelo menos, era nisso que eles acreditavam piamente.
Tendo ido até tão longe nos seus pensamentos, a porta do elevador abriu-se e o homem cego e ferido saiu da caixa do elevador e, a cambalear, entrou no corredor.
Era alto e de ombros extremamente largos. Aparentava ter cerca de quarenta anos. Vestia um blusão rasgado e calças que não diziam com o casaco mas que, pelo menos, o completavam. Isto é, mais ou menos. O primeiro polícia, Cauteloso, teve tempo para pensar que a pessoa com visão que escolhera as roupas do cego deveria ter um gosto bastante bom. O cego usava ainda uns grandes óculos escuros que estavam colocados de lado sobre o nariz porque um dos aros fora partido. Por muitos tratos que se dessem … imaginação, não se tratavam de óculos-de-sol … chulo atados … volta da cabeça. Pareciam-se, isso sim, com os óculos de sol usados por Claude Rains no filme O Homem Invisível.
O cego tinha as duas mãos esticadas diante de si. A esquerda estava vazia e acenava continuamente sem qualquer propósito. Na direita, o homem segurava uma suja bengala branca com um punho de borracha de guiador de bicicleta na ponta. Ambas as mãos estavam cobertas de sangue seco.
Podia também ver-se manchas acastanhadas de sangue a coagular no blusão e na camisa do cego. Se os dois polícias incumbidos de protegerem Phyllis Myers tivessem, na verdade, sido Extremamente Cautelosos, tudo aquilo Lhes teria parecido peculiar. O cego estava a gritar por causa de alguma coisa que, aparentemente, tinha acabado de acontecer e, pelo seu aspecto, alguma coisa tinha-lhe de certeza acontecido e também não tinha sido uma coisa muito agrad vel, embora o sangue na pele e nas roupas j se tivesse tornado acastanhado. Isto sugeria que o sangue teria sido derramado h j algum tempo, um facto que talvez pudesse ter alertado agentes profundamente crentes no conceito de Extrema Cautela por ser um pouco invulgar. Talvez até pudesse ter içado uma bandeira vermelha nos espíritos de tais agentes.
Ainda assim, provavelmente não. As coisas aconteceram r pidas de mais, e sempre que as coisas acontecem com rapidez suficiente, deixa de ter importƒncia se se é extremamente cauteloso ou extremamente imprudente: uma pessoa tem apenas de ir com a maré.
Num momento, os dois polícias encontravam-se … porta da mulher Myers, felizes como dois miudos num dia em que a escola é fechada porque a caldeira explodira e, no momento seguinte, este cego sangrento estava sobre os seus rostos, a brandir a suja bengala branca. Não houve tempo algum para pensar, quanto mais para deduzir.
- Po-líííícia! - estava a gritar o homem cego antes mesmo de as portas do elevador estarem totalmente abertas. - O porteiro diz que os polícias estão no vinte e seis.
Po-líííícia! Estão aqui?
De seguida, j estava a abrir caminho pelo corredor, a brandir a bengala de um lado para o outro, e voc!, batia na parede … sua esquerda, e como um chicote, l ia de novo para tr s, e voc!, na parede … sua direita, e todos aqueles que no maldito andar ainda não estivessem acordados iriam, em breve, estar.
O Extremamente e o Cauteloso começaram a avançar para a frente sem sequer trocarem um olhar de relance entre si.
- Po-líííícia! Po...
- Meu senhor! - ladrou Extremamente. - Cuidado. Olhe que vai cair...!
O homem cego impeliu a cabeça na direcção da voz do Extremamente mas não parou. Lançou-se para a frente, a acenar a mão vazia e a brandir a suja bengala branca, assemelhando-se um pouco a Leonard Bernstein a tentar conduzir a Filarmónica de Nova Iorque depois de ter fumado um ou dois frasquinhos de crack.
- Po-líííícia! Eles mataram o meu cão! Eles mataram a Daisy! POLÍÍÍCIA!
- Meu senhor...
O Cauteloso aproximou-se do homem cego cambaleante. O homem cego cambaleante enfiou a mão vazia no bolso da esquerda do blusão e tirou para fora, não dois bilhetes para o Baile de Gala dos Cegos, mas um revólver.45, que apontou ao Cauteloso, tendo puxado o gatilho duas vezes.
No corredor estreito, as detonações pareceram ensurdecedoras e dissonantes. Viu-se uma enorme quantidade de fumo azul. O Cauteloso apanhou com as balas praticamente … queima-roupa. Caiu para o chão com o peito enfiado para dentro, como um cesto partido. A sua camisa estava chamuscada e ressequida.
Extremamente fitou o homem cego quando este Lhe apontou a 45.
- Pelo amor de Deus, não, por favor! - implorou Extremamente num fio de voz, soando a alguém que tivesse ficado sem f“lego. O homem cego disparou mais duas vezes.
Viu-se mais fumo azul. Para um homem cego, até que atirava muito bem. Extremamente voou para tr s, para longe do fumo azul, caiu na passadeira do corredor sobre as omoplatas, foi percorrido por um espasmo repentino e trémulo e deixou-se ficar quieto.
3
Em Ludlow, a oitocentos quilómetros de distƒncia, Thad Beaumont virou-se agitado sobre o seu lado.
- Fumo azul - murmurou ele. - Fumo azul.
Do lado de fora da janela da casa de banho, nove pardais empoleiraram-se sobre um fio do telefone, sendo imediatamente acompanhados por mais meia d£zia. Os p ssaros empoleiraram-se, silenciosos e invisíveis, acima dos agentes no carro da polícia estadual.
- Não vou precisar mais disto - disse Thad no seu sono.
Com uma mão, fez um movimento desajeitado como se estivesse a tocar no rosto e, com a outra, um gesto de quem est a atirar algo fora.
- Thad? - perguntou Liz, sentando-se na cama. - Thad, est s bem?
De meio do seu sono, Thad disse qualquer coisa incompreensível.
Liz olhou para baixo, para os seus braços. Estes estavam totalmente cobertos de pele de galinha.
- Thad? São os p ssaros de novo? Est s a ouvir os p ssaros?
Thad nada respondeu. Do lado de fora das janelas, os p ssaros levantaram voo em conjunto, embrenhando-se na escuridão, embora esta não fosse a altura própria para voarem.
Nem Liz nem os dois polícias no carro-patrulha da polícia estadual repararam neles.
Stark lançou os óculos escuros e a bengala para o lado.
O corredor exalava um cheiro amargo por causa do fumo da pólvora. Stark disparara quatro balas Colt Hi-Point que ele tornara extremamente potentes. Duas delas tinham atravessado os polícias e deixado buracos prateados na parede do corredor. Stark dirigiu-se para a porta de Phyllis Myers. Estava disposto a convencê-la a vir até c fora se assim tivesse de ser, mas ela estava precisamente ali do outro lado e, bastou-lhe ouvi-la para ter a certeza de que, com ela, seria f cil.
- Que é que se est a passar? - gritou ela. - Que foi que aconteceu?
- Apanh mo-lo, Miss Myers - respondeu Stark de forma animada. - Se quer tirar uma fotografia, v buscar j a m quina. Mais tarde, lembre-se apenas que eu nunca Lhe disse que podia tirar uma.
Quando abriu a porta, Phyllis manteve a corrente no ferrolho, mas não estava mal. Ao colocar um olho castanho no buraco, ele enfiou-lhe uma bala.
Fechar os olhos da mulher - ou fechar o £nico olho ainda existente - não era uma opção. Assim, Stark virou-se e começou a encaminhar-se para os elevadores. Não se demorou mas também não correu. A porta de um dos apartamentos abriu-se - parecia que, esta noite, toda a gente Lhe estava a abrir portas - e Stark ergueu a arma, apontando-a para o rosto de coelho de olhar fixo que viu.
A porta fechou-se imediatamente com um estrondo.
Stark carregou no botão do elevador. A porta do cubículo em que ele subira após ter deitado abaixo o seu segundo porteiro da noite (com a bengala que roubara ao cego na Sexagésima Rua) abriu-se de imediato, tal como esperava que se abrisse - a esta hora da noite, os três elevadores não estavam propriamente a ser alvo de grande procura.
Por cima do ombro, Stark lançou a arma para o chão. Esta caiu na passadeira com uma pancada surda.
- Aquilo correu tudo bem - retorquiu ele, enfiando-se no elevador, e descendo até ao trio de entrada.
5
Quando o telefone tocou, o Sol estava a nascer na janela da sala de estar de Rick Cowley. Rick tinha cinquenta anos, os olhos vermelhos e um ar esgazeado, e estava meio bêbedo. Com uma mão bastante trémula, atendeu o telefone. Ele mal sabia onde se encontrava, e o seu espírito cansado e magoado não parava de insistir que tudo aquilo não passava de um sonho. Ser que, h menos de três horas atr s, tinha estado na morgue distrital na Primeira Avenida, para identificar o corpo mutilado da ex-mulher a menos de um quarteirão de distƒncia do chique restaurantezinho francês onde só levavam os clientes que eram também seus amigos? Ser que os polícias que estavam do lado de fora da porta se encontravam aí porque o homem que matara Mir poderia também querer mat -lo? Ser que estas coisas eram reais? Certamente que não. Tinha, sem d£vida alguma, de ser um sonho... e talvez o telefone não fosse realmente o telefone, mas o ruído do despertador ao lado da cama. Regra geral, Rick odiava aquela maldita coisa... tinha-a lançado pelo quarto mais de uma vez. Contudo, esta manhã, ele até o beijaria. Que raios, ele até daria um beijo na boca, com língua e tudo.
Mas Rick não acordou. Em vez disso, atendeu o telefone.
- Est l ?
- Daqui fala o homem que cortou a garganta da tua mulher - disse a voz ao seu ouvido, tendo Rick ficado totalmente desperto de um momento para o outro. Qualquer esperança derradeira que pudesse ter quanto a tudo isto não passar de um sonho dissipou-se de imediato. Tratava-se do género de voz que só se deve ouvir nos sonhos... mas é precisamente aí que nunca é ouvida.
- Quem est a falar? - Rick ouviu-se a si próprio perguntar num fio de voz sem vigor.
- Pergunta a Thad Beaumont quem sou eu - respondeu o homem. - Ele sabe tudo sobre mim. Diz-lhe que te mandei dizer que vocês j estão todos mortos. E diz-lhe ainda que ainda não acabei de fazer o recheio dos tolos.
Rick ouviu um estalido no seu ouvido, a que se seguiu um instante de silêncio e, depois, o zumbido insípido de uma linha aberta.
Rick deixou cair o auscultador no colo, olhou para ele e, subitamente, desatou a chorar.
…s nove horas dessa mesma manhã, Rick telefonou para o escritório e disse a Frieda que ela e John deveriam ir para casa: não trabalhariam nem nesse dia nem durante o resto da semana. Frieda quis saber o motivo e Rick ficou estupefacto ao verificar que estava prestes a mentir-lhe, como se tivesse sido preso por algum crime grave e vergonhoso - digamos, abuso de menores - e não conseguisse admitir que o tivesse cometido enquanto o choque continuasse tão recente.
- A Miriam morreu - contou ele a Frieda. - Mataram-na ontem … noite no apartamento dela.
Frieda inspirou fundo, produzindo um breve som sibilante de comoção.
- Pelo amor de Deus, Rick! Não brinque com coisas como essas! Quando se brinca com coisas como essas, elas tornam-se verdade!
- é verdade, Frieda - retorquiu ele, verificando que, mais uma vez, estava prestes a debulhar-se em l grimas.
E estas - as que derramara na morgue, aquelas que derramara no carro quando voltava para casa, as que derramara quando aquele homem maluco telefonara, as que tentava agora não derramar - estas eram apenas o início. Pensar em todas as l grimas no seu futuro fê-lo sentir-se extremamente cansado.
Miriam fora uma cabra mas fora também, … sua maneira, uma cabra querida, e ele amara-a. Rick fechou os olhos. Quando os abriu, estava um homem a olhar para ele através da janela, apesar de a janela ser um décimo quarto andar. Rick sobressaltou-se, mas foi então que viu o uniforme. Um limpador de janelas. O limpador de janelas acenou-lhe do seu palanque. Rick ergueu a mão e retribuiu a saudação. O peso da mão pareceu-lhe estar próximo dos cem quilos, tendo-a Rick deixado cair junto da coxa, quase no mesmo instante em que a erguera.
Frieda estava a dizer-lhe de novo para não brincar, e ele sentiu-se mais cansado do que nunca. Como ele observou, as l grimas eram apenas o começo. Foi então que afirmou:
- Só um minuto, Frieda - tendo poisado o telefone. Rick dirigiu-se até … janela para correr os cortinados. Ter de chorar ao telefone com a Frieda no outro lado da linha j era suficientemente mau; só Lhe faltava ter o maldito limpador de janelas a vê-lo nesses preparos.
Ao chegar … janela, o homem no palanque enfiou a mão no bolso cortado do macacão para buscar alguma coisa. I Rick sentiu uma repentina pontada de inquietação. "Diz-Lhe que te mandei dizer que vocês j estão todos mortos."
("Meu Deus...")
O limpador de janelas tirou do bolso um pequeno autocolante. Era amarelo com letras pretas. A mensagem era rodeada por est£pidos rostos sorridentes. "TENHA UM BOM DIA!"
podia ler-se.
Rick acenou a cabeça com cansaço. Tenha um bom dia.
7
Quando finalmente conseguiu convencer Frieda de que não estava a brincar, esta desfez-se em soluços sonoros e francamente verdadeiros - todos no escritório, e todos os clientes, até mesmo aquele maldito e odioso Ollinger, que escrevia os maus romances de ficção científica e que, aparentemente, se dedicara … tarefa de apalpar todos os soutiens no mundo ocidental, gostavam da Mir - e, como não podia deixar de ser, Rick chorou com ela até conseguir, por fim, desligar o telefone. "Pelo menos", pensou ele, "fechei os cortinados."
Quinze minutos mais tarde, enquanto estava a fazer café, o telefonema do homem maluco assaltou-lhe de novo o espírito. Tinha dois polícias do lado de fora da porta, e não Lhes contara nada de nada. Que raio de coisa é que se estava a passar com ele?
"Bem", pensou ele, "a minha ex-mulher morreu, e quando a vi na morgue parecia que ela tinha deixado crescer uma segunda boca quatro dedos abaixo do queixo. Talvez isso possa explicar alguma coisa."
"Pergunta a Thad Beaumont quem sou eu. Ele sabe tudo sobre mim."
Como é evidente, Rick tivera o propósito de telefonar para Thad. Contudo, o seu espírito estava ainda em queda livre: as coisas tinham assumido novas proporções que ele parecia, pelo menos por enquanto, não ser capaz de entender.
Bem, telefonaria a Thad. Era exactamente isso que iria fazer mal se contasse aos polícias o pormenor da chamada.
Rick chegou mesmo a contar-lhes, tendo estes ficado extremamente interessados. Um deles transmitiu a informação para a Central da Polícia através do seu walkie-talkie. Depois de terminar, disse a Rick que o chefe dos detectives queria que ele fosse até … esquadra da polícia para conversar com eles sobre a chamada que recebera. Enquanto l estivesse, um tipo iria até ao apartamento e equiparia o telefone com um gravador e um aparelho de localização de chamadas. No caso de haver mais telefonemas.
- Provavelmente vão haver - disse o segundo polícia a Rick. - Estes psicopatas estão geralmente apaixonados pelo som das próprias vozes.
- Devia telefonar a Thad primeiro - retorquiu Rick;
- Ele pode estar igualmente em apuros. Pelo menos foi isso que me pareceu.
- Mister Beaumont j foi colocado sob protecção especial l no Maine, senhor Cowley. Vamos, est bem?
- Bem, continuo a achar...
- Talvez Lhe possa telefonar da esquadra. Agora, tem algum casaco?
Assim, confuso e nada seguro de que tudo isto fosse real, Rick deixou-se levar para longe dali.
8
Quando, duas horas mais tarde, regressaram, um dos escoltas de Rick franziu o sobrolho … porta do apartamento e disse:
- Não est aqui ninguém.
- E depois? - perguntou Rick com ar fatigado. Ele sentia-se fatigado, como se fosse uma vidraça de vidro transl£cido através da qual é possível ver. Tinham-lhe feito imensas perguntas, e ele respondera a todas elas o melhor que podia: uma tarefa difícil dado que só muito poucas dessas perguntas pareciam fazer algum sentido.
- Se os tipos das telecom£nicações dessem o trabalho por terminado antes de termos voltado, era suposto eles terem esperado.
- Provavelmente estão l dentro - disse Rick.
- Um deles talvez, mas o outro deveria estar c fora. é esse o procedimento habitual.
Rick pegou nas chaves, baralhou-as, encontrou aquela que queria, e enfiou-a na fechadura. Quaisquer problemas que estes tipos pudessem estar a ter com o procedimento de actuação dos colegas não tinham nada a ver com ele. Graças a Deus; ele j tinha todas as preocupações que bastassem por uma manhã.
- Devia telefonar a Thad primeiro - disse ele, suspirando e sorrindo um pouco. - Ainda nem sequer é meio-dia e j me sinto como se o dia nunca fosse aca...
- Não faça isso! - gritou de repente um dos polícias, dando um salto para a frente.
- Fazer o q... - começou Rick, a virar a chave, e a porta explodiu num clarão de luz, fumo e som. O polícia cujos instintos tinham despoletado apenas um segundo tarde de mais ficou reconhecível aos familiares; Rick Cowley praticamente vaporizou-se. O outro polícia, que se encontrava um pouco mais afastado e que, instintivamente, tapara o rosto quando o parceiro gritara, foi hospitalizado por queimaduras, concussão e lesões internas. Misericordiosamente - e magicamente - os estilhaços da porta e da parede voaram em redor dele como uma nuvem, embora não o tivessem atingido. No entanto, nunca mais trabalharia para o DPNI; a explosão ensurdecera-o num instante.
No interior do apartamento de Rick, os dois técnicos das telecom£nicações que tinham ido arranjar os telefones encontravam-se mortos sobre o tapete da sala de estar. Pregada … testa de um deles com uma tacha estava a seguinte nota:
OS PARDAIS ESTãO A VOAR DE NOVO Pregada … testa do outro estava uma segunda mensagem:
MAIS RECHEIO DOS TOLOS. DIGAM AO THAD.