A Psicologia da Dor
Parte 2 - A Psicologia e a Clínica de Dor
OceanofPDF.com
Raquel Alcides dos Santos
A dor é, provavelmente, a queixa mais frequente e antiga da história da
medicina. Mas, apesar dessa estreita associação, a preocupação da medicina
com o combate à dor é um problema muito recente e sua importância ainda
é parcialmente aceita pelos médicos. Essa realidade é consequência do fato
de que a dor ainda é concebida pela maioria dos profissionais de saúde
como um sintoma, ou seja, um sinal clínico secundário que aponta para o
diagnóstico de uma doença ou lesão subjacente. Além disso, é comum que a
dor seja encarada como parte inevitável da doença ou do tratamento e que
por isso não precisa ser, por si só, alvo da intervenção terapêutica. Assim, a
maioria dos profissionais de saúde não sabe e não se interessa em aprender
a manusear técnicas de combate à dor.1
Apesar de ainda negligenciada pela medicina, a dor já pode, pelo menos
desde o final do século passado, ser considerada um objeto legítimo de
estudo e prática médica, como atesta o surgimento de um novo discurso
acerca do fenômeno doloroso na biomedicina. Tal discurso inovador
associa-se ao surgimento de um grupo ativo de profissionais dedicados
especificamente ao preenchimento de uma lacuna teórica e prática, relativa
aos problemas complexos de dor para os quais os tratamentos
convencionais falharam. Esse grupo de profissionais inaugura, assim, um
novo modelo terapêutico, o da clínica de dor. Esse novo modelo teórico e
prático propõe-se a compreender a dor, em especial a dor crônica, como um
fenômeno biopsicossocial, cuja abordagem exige equipe multiprofissional e
tratamento multimodal.1
Neste capítulo, será abordada a história da construção da modalidade
terapêutica das clínicas de dor como proposta de tratamento especializado
para os pacientes portadores de dores crônicas. Analisaremos o projeto
inicial de uma Medicina da dor, tal como foi elaborado pioneiramente pelo
médico anestesista John Bonica, o idealizador das clínicas de dor, e
principal referência nesse campo até hoje.
Este texto se baseará principalmente na obra da socióloga francesa
Isabelle Baszanger sobre o assunto, o livro Inventing pain medicine: from
the laboratory to the clinic. Nessa obra, Baszanger descreveu e refletiu
acerca do aparecimento da Medicina da Dor nos EUA, por meio da
reconstituição dos movimentos que levaram à criação e ao reconhecimento
da dor como um problema médico em si, demandando assim uma
abordagem específica e a constituição de um novo campo de saber e prática
na medicina.2
A transformação da dor em objeto específico e legítimo da prática
médica, justificando tanto a existência de locais independentes de
tratamento quanto profissionais especializados, se consolidou no final da
Segunda Guerra Mundial, em um processo de cerca de 20 anos de duração.
Esta história começou quando o anestesista John Bonica se deparou com o
problema da dor persistente e intratável durante a Segunda Guerra Mundial.
A guerra criou uma grande e repentina demanda para algumas
especialidades médicas, entre elas, a anestesiologia. Assim que concluiu a
sua formação em maio de 1944, com apenas 27 anos de idade, Bonica foi nomeado chefe do Departamento de Anestesia e do Centro Cirúrgico do
Madigan Army Hospital, em Fort Lewis, Washington. Nesse hospital,
Bonica era responsável, dentre outras tarefas, pelo manejo de pacientes com
dor grave consequente de feridas de guerra. Essa experiência levou-o a
aprender e aperfeiçoar as técnicas anestésicas regionais. Bonica era um
grande entusiasta dessas técnicas, pois acreditava que elas seriam capazes
de resolver todos os quadros de dor persistente.1,2
Contudo, em muito pouco tempo, Bonica começou a se dar conta de
que, enquanto os pacientes que sofriam de algum problema específico de
dor geralmente respondiam bem a esse tipo de tratamento, outros pacientes
com quadros de dor mais complexos não melhoravam com esses
procedimentos. Ciente disso, ele começou a buscar elementos que
pudessem indicar a alternativa para esses doentes e foi assim que passou a
se interessar por um aspecto da dor que até aquele momento havia sido
negligenciado pela maioria dos médicos, qual seja, o conceito de dor
clínica, a dor que ocorre no cotidiano do paciente.1-3
Bonica passou, então, a observar mais de perto esses casos difíceis que
atendia. Percebeu que a maioria desses pacientes apresentava muitos
sintomas, tanto psíquicos como somáticos, que não estavam diretamente
relacionados com o quadro álgico inicial, mas que poderiam estar
relacionados com a perpetuação da dor nesses casos. Aproveitando o fato
de que o hospital militar em tempo de guerra concentrava uma variedade de
especialistas que propiciava a cooperação, ele começou a consultar vários
colegas de diferentes especialidades a respeito dos pacientes que estava
atendendo, na tentativa de agregar informações que possibilitassem chegar
a um diagnóstico e uma proposta terapêutica.1-4
Ao fim dessa experiência inicial no Madigan Hospital, no final de 1946,
Bonica tinha chegado à conclusão de que havia um tipo específico de dor
complexa que a Medicina ainda não conseguia tratar adequadamente, pois
as técnicas que poderiam ser utilizadas para resolver esse problema não
apenas eram ensinadas de maneira insuficiente, mas também utilizadas
inadequadamente. Estava convencido também de que a abordagem
multidisciplinar que ele tinha começado a desenvolver para esses casos
difíceis poderia ser a solução para o tratamento desses doentes.1-4
Após a guerra, em 1947, Bonica tornou-se chefe do Departamento de
Anestesia do Hospital Geral de Tacoma, no estado de Washington, onde
começou, então, a desenvolver um projeto que visava concretizar sua ideia
de tratamento da dor. Assim, criou um grupo informal que passou a
funcionar como um laboratório para pôr em prática a ideia de uma
abordagem multidisciplinar para o tratamento da dor.1,2
Em 1950, Bonica começou a sistematizar os dados de sua investigação
clínica e experiência acumulada e começou a escrever as 1.500 páginas do
livro The Management of Pain, publicado em 1953. Esta obra viria a se
tornar a principal referência em diagnóstico e terapêutica da dor e seria
posteriormente traduzida em várias línguas, com mais três edições
publicadas.1-5
Os objetivos principais da primeira edição desse livro eram: primeiro,
evidenciar o problema da dor, tirando-a do papel secundário de sintoma e
trazendo-a para o primeiro plano; em segundo lugar, identificar e
caracterizar o objeto central da medicina da dor, objeto esse no qual as
diferentes especialidades envolvidas podiam reconhecer-se; em terceiro
lugar, indicar a maneira de tratar esse objeto comum e, por último,
estabelecer os primeiros elementos de uma retórica comum para promover
o projeto de legitimação dessa nova especialidade.1,2
O livro de Bonica não se dirigia a uma especialidade médica em
particular, o que ele propunha era uma associação de esforços, de modo que
a dor se tornasse uma preocupação comum às especialidades médicas e não
médicas envolvidas nos cuidados à saúde. Além disso, seu projeto incluía
também os pesquisadores experimentais e clínicos, convidando-os a encarar
a dor sob uma nova perspectiva, como um objeto científico da medicina.
Essa operação que construiu a dor como um objeto médico específico se
daria por meio de uma dupla clivagem. A primeira separava a dor sintoma,
sinal de uma patologia subjacente, da dor como doença, um problema em si
mesmo. A segunda discriminava a dor do laboratório, que poderia ser
apreendida pelo método experimental, da dor clínica, que só poderia ser
entendida em função do contexto em que ela ocorreria.1,2
Em relação à primeira distinção, Bonica defendia a ideia de que a
persistência da dor levaria à deterioração física e mental e,
consequentemente, ao agravamento do quadro, portanto, a dor deveria ser tratada o mais cedo possível para evitar que ela desencadeasse outras
manifestações patológicas. A principal mudança de perspectiva em relação
ao tratamento clássico da dor foi a ideia de que se deveria agir na dor por si
só, como se faria em qualquer outra condição patológica. Seus argumentos
para defender essa perspectiva concentravam-se em grande parte em
configurar a dor como problema de saúde legítimo e grave, que não deveria
ser avaliado simplesmente a partir de seus efeitos locais, mas sim como um
fenômeno complexo que deveria ser apreendido clinicamente como um
todo, incluindo, assim, os efeitos psíquicos e físicos decorrentes de sua
persistência. Em relação à segunda clivagem, entre a dor clínica e
experimental, Bonica defendia que a razão da medicina não conseguir
compreender a dor complexa se deve ao fato de que estudos sobre a
natureza da dor, nos quais se baseiam as intervenções, são quase
exclusivamente laboratoriais. As conclusões desses estudos efetuados no
ambiente controlado do laboratório, quando generalizados para tentar
explicar os fenômenos observados na clínica, costumam ser francamente
insuficientes.1,2
Esse raciocínio que Bonica defendia não era difícil de aceitar, porém
permanecia a questão de que o fenômeno da dor clínica parecia ser
demasiadamente subjetivo para poder tornar-se um objeto de estudo
científico. Então, ele precisava construir uma dor clínica cientificamente
viável, que não podia ser nem meramente experimental nem meramente
subjetiva, podendo assim incluir o conhecimento anatômico e fisiológico
disponível. Para isso Bonica idealizou um esquema operacional de três
vertentes.
A primeira vertente consistia em conceber a dor como um fenômeno
dual, composto de percepção e reação, ou seja, a percepção dos estímulos
nocivos daria origem à sensação de dor e a uma reação em resposta a ela.
Esses dois componentes da dor são intrinsecamente relacionados com as
condições clínicas que o paciente apresenta, portanto ambos precisariam ser
considerados na abordagem clínica do problema. A segunda vertente
sustentava que a dor poderia ser tanto um processo fisiológico normal como
patológico e o que iria fazer a passagem de uma condição para a outra seria
a duração do quadro doloroso. Deste modo, a dor na sua fase inicial seria
uma sensação fisiológica e poderia exercer uma função protetora para o organismo. Por outro lado, a dor na sua fase tardia e intratável passaria a ser
patológica em função dos efeitos físicos e mentais nocivos que ela
desencadeava, efeitos esses que não causariam prejuízos maiores caso ela
cessasse em pouco tempo. Por último, a terceira vertente referia-se à
necessidade de conceber um espaço conceitual para integrar as reações do
paciente com dor, reconhecendo assim as especificidades da abordagem
clínica da dor que marcavam a oposição entre a dor clínica e a dor
experimental.1,2
Mas ainda existia um grande obstáculo à legitimação da dor clínica
como um objeto de estudo e intervenção médica, qual seja, como avaliar a
dor sentida pelo paciente quando esta variava individualmente em função
de uma infinidade de fatores? A questão era saber se a avaliação subjetiva
do paciente poderia ser objetivamente mensurada. A resposta de Bonica a
essa questão resumiu a especificidade da abordagem clínica centrada na dor,
qual seja, o médico deveria acreditar no paciente, uma vez que a dor agora
seria definida a partir das reações que ela provoca no indivíduo. Contudo,
essa narrativa do paciente acerca de sua dor deveria ser entendida em uma
estrutura de análise clínica particular, ou seja, a narrativa do paciente viria
se somar a uma série de outros dados que o médico precisava saber coletar
e avaliar. Estes incluíam os dados clínicos objetivos oferecidos pelo exame
clínico e de imagem, a qualidade e a duração da dor, dados obtidos por
meio de uma cuidadosa história. Por sua vez, os elementos da descrição do
paciente acerca da sua dor serviriam de guia para o diagnóstico. De modo
geral, essa ainda é a orientação básica para a avaliação do paciente nas
clínicas da dor.1,2
Até esse momento, acompanhamos os esforços iniciais de Bonica para
fazer da dor persistente um objeto de atenção dos profissionais de saúde,
por meio da sua apresentação como um objeto independente e diferente de
um outro sintoma, mas que também não pertence ao campo das sensações
normais, cotidianas. Esse tipo de dor, para a qual Bonica buscou chamar a
atenção, merecia, em sua concepção, ser alvo da ação do médico e
precisava ser avaliada no seu contexto, qual seja, a experiência do
paciente.1,2
Outra novidade introduzida pela proposta de Bonica foi a avaliação da
dor para o estabelecimento de um diagnóstico da dor em si. O que acontecia até então na medicina, era inserir a dor como um sintoma integrante de um
quadro clínico de uma determinada enfermidade. Com efeito, a
sistematização do diagnóstico é um elemento importante para a legitimação
de uma especialidade no âmbito da medicina moderna, pois é ele que vai
embasar a prática terapêutica.1,2
Assim, um capítulo inteiro do livro de Bonica foi dedicado ao exame do
paciente. No modelo que o autor estava propondo, a avaliação do paciente
era, além de uma etapa preliminar do tratamento, uma técnica central para o
manejo terapêutico do paciente com dor persistente. Nesse sentido, Bonica
apontou para duas importantes dimensões do trabalho médico com a dor: a
existência de um tipo particular de paciente e a necessidade de se
estabelecer uma relação peculiar entre médico e paciente. Esse trabalho de
construção de uma relação terapêutica sólida, a ponto de facultar o
estabelecimento da confiança, uma comunicação efetiva que possibilitasse a
avaliação adequada da dor para efetuar um diagnóstico correto e um acordo
de cooperação que possibilitasse o tratamento, demandariam tempo e
investimento por parte do profissional.1,2
Em relação ao tratamento, baseando-se na dupla dimensão da dor,
percepção e reação, os métodos utilizados poderiam direcionar-se tanto à
diminuição ou eliminação completa da percepção dolorosa, quanto à
modificação da reação a ela. Nesse sentido, a noção básica do tratamento da
dor, postulada nessa época e que perdura até hoje, inclui o uso simultâneo
de vários métodos e a importância da psicoterapia usada em vários níveis
durante todo o tratamento.1,2
Ainda em relação ao tratamento, é dentro desse contexto que Bonica
utiliza pela primeira vez a expressão clínicas de dor, referindo-se ao fato de
que seria importante que todos os médicos, independentemente de suas
especialidades, manifestassem interesse em aprender a diagnosticar e tratar
a dor, somando seus conhecimentos. Essa foi a primeira referência à ideia
da multidisciplinaridade e a uma clínica especializada em dor. Já na
segunda edição de The Management of Pain, de 1990, dois capítulos foram
dedicados à descrição do “centro multidisciplinar para avaliação e
tratamento da dor complexa” que seria a referência oficial do mundo da
dor.1,2,5
Durante muitos anos, o trabalho de Bonica teve poucos resultados
concretos. Na primeira metade do século 20, algumas clínicas para o
tratamento da dor, orientadas por anestesiologistas, haviam se iniciado, mas
essas clínicas se baseavam exclusivamente em procedimentos de bloqueios
analgésicos. De modo geral, esses médicos não demonstraram interesse em
aderir à ideia do tratamento multidisciplinar. Em 1960, Bonica foi nomeado
chefe do recém-criado Departamento de Anestesia da Universidade de
Washington em Seattle e criou um ambulatório multidisciplinar de dor. Esse
trabalho obteve sucesso e reconhecimento, mas apenas em nível local,
atraindo profissionais de alto nível interessados em problemas relacionados
com a dor. Contudo, na segunda metade do século 20, essa realidade
começou a se modificar.1,2
Teoria da comporta de controle da dor
Em 1965, o psicólogo canadense Ronald Melzack, integrante da equipe
de Livingston, e o neurologista britânico Patrick Wall, baseando-se nas
ideias do cirurgião holandês Willem Noordenbos, publicaram seu clássico
artigo sobre a teoria da comporta de controle da dor (gate control theory of
pain) no qual propunham um mecanismo em nível medular que regulava a
transmissão de sensações dolorosas entre a periferia e o cérebro. O ponto de
partida da teoria era o princípio da interação sensorial entre as mensagens
transmitidas pelas fibras nociceptivas e as fibras de grande diâmetro que
transmitem sensações, como o tato. Essas fibras vindas da periferia do
sistema nervoso passariam pelo corno dorsal da medula espinal, onde
existem células de transmissão (T) que recebem informações provenientes
dessas fibras nervosas e as transmitem ao cérebro. A substância gelatinosa,
que é a segunda camada do corno dorsal da medula espinal, contém
neurônios, cuja função é controlar essa transmissão (interneurônios
localizados imediatamente antes da primeira sinapse) de informação entre
as fibras nervosas e medula espinal. O papel desses interneurônios é
minimizar a quantidade de neurotransmissores que as mensagens
nociceptivas liberam nessa sinapse, obstruindo assim a comunicação, desse
modo eles agem como telas, filtros ou portões modulando a transmissão de
informações das fibras nervosas para a medula espinal. O comportamento
desses interneurônios varia em função do tipo de fibra envolvida. Quando ocorre um estímulo doloroso, ele é transmitido pelas fibras nociceptivas A-
delta de pequeno diâmetro e pelas fibras C de médio diâmetro. Elas
provocam a inibição dos interneurônios, fazendo com que a mensagem de
dor seja transmitida corretamente. No caso de surgir uma estimulação tátil
concomitante, que é transmitida através das fibras A-alfa, fibras beta
mielinizadas e de grande diâmetro, ocorrem a ativação dos interneurônios e
o acionamento dos mecanismos inibitórios, provocando interferência na
mensagem de dor. Esse mecanismo, que possibilita a modulação dos
impulsos antes da dor ser sentida, explica a relação variável entre a lesão e a
dor.1,2
Em 1982, Melzack e Wall ampliaram a sua teoria para levar em conta os
novos dados, incluindo também mecanismos de inibição e estimulação
entre a substância gelatinosa e as células de transmissão, além de um
controle inibitório descendente decorrente dos sistemas do tronco cerebral
que mandam de volta projeções inibitórias. Essas mensagens, que se
originam no cérebro, podem agir também nesses portões e influenciar a
transferência de informação. Essa é a base para entender como certas
variáveis psicológicas, como a atenção e as experiências anteriores,
modulam a dor. Em termos de possibilidades terapêuticas, o fato de existir
um portão regulável sugere que seja possível tentar fechar o portão por
meio de várias manipulações. De acordo com Meldrum,4 a especificidade
neurofisiológica desse modelo é menos importante do que a sua
importância estratégica, ou seja, o fato de sugerir que as dores não
relacionadas ou desproporcionadas a estímulos externos podiam agora ser
explicadas por meio de mecanismos neurológicos. A teoria da comporta
despertou imediatamente um intenso interesse no meio científico. O artigo
Pain mechanisms: a new theory, publicado na Science, no qual os autores
expõem a teoria pela primeira vez, era o oitavo na lista dos 11 artigos de
neurociência mais frequentemente citados durante os anos 1960.1,2,4
O trabalho de Melzack e Wall foi o instrumento que possibilitou a
Bonica não só legitimar o seu projeto no cenário médico, mas também levá-
lo para além das fronteiras da Medicina, pois o que ele pretendia, além de
uma simples mudança técnica ou quantitativa a respeito da dor, era
introduzir uma mudança qualitativa, ou seja, uma nova maneira de encarar a
questão que ultrapassava as barreiras disciplinares para constituir um novo problema, investindo especialmente em três frentes: em direção à pesquisa,
em direção à medicina e em direção à psicologia.1,2
Em relação à pesquisa, a teoria da comporta renovou o interesse pela
investigação da dor e abriu caminho para a realização de estudos clínicos,
possibilitando a abertura de novos horizontes terapêuticos, tornando, assim,
o campo mais atraente e angariando a adesão de novos clínicos e
pesquisadores. Em relação à medicina em geral, a teoria da comporta
lançou as bases para uma nova abordagem terapêutica baseada no conceito
de “controle sensorial” da dor, despertando o interesse dos médicos que já
usavam algumas dessas técnicas nos seus respectivos campos. Por fim, em
relação à psicologia, o fato de a teoria da comporta ressaltar o papel das
atividades cognitivas na dor e legitimar isto por meio de uma teoria
científica maior valorizou a ideia da possibilidade de controle psicológico
da dor. Isso tornou possível reunir dois mundos, até então muito apartados,
em um projeto comum, quais sejam, a medicina e a psicologia.1,2
Depois do grande interesse causado pela teoria da comporta, Bonica,
que há quase 20 anos vinha tentando desenvolver o seu projeto de
estabelecer um novo modelo de pesquisa e tratamento da dor, ganhou uma
nova motivação. A clínica de dor que ele estava estruturando desde 1953
ganhou um grande impulso após a divulgação da teoria da comporta. Ele
conseguiu, em 1967, apoio do National Institute of General Medical
Sciences para montar um centro de pesquisa em anestesia na Universidade
de Washington. Parte da atividade desse centro voltava-se para a dor,
particularmente para a dor crônica. A clínica de Bonica foi o primeiro nicho
institucional do mundo da dor, reunindo em um só lugar pesquisa, atividade
clínica e ensino, tornando-se uma base para a disseminação mais ampla de
suas metas e princípios de operação. Essencialmente, é esse modelo que
ainda funciona até hoje.1,2
A International Association for the Study of Pain (IASP) foi lançada
oficialmente em 9 de maio de 1974 e o periódico oficial da IASP, o Pain,
foi publicado pela primeira vez em 1975, tendo Patrick Wall como editor. O
número de membros subiu de 350, em 1974, para 1.575 membros, em 1975,
contando com representantes de 55 países e 80 domínios de investigação
clínica ou disciplinas. O Primeiro Congresso Mundial de Dor aconteceu em Florença, Itália. Ainda na primeira década de existência da IASP, foram
criados 11 capítulos (filiais) nacionais e regionais.1,2
O desenvolvimento da medicina da dor foi acelerado nas décadas de
1970 e 1980. Em função das pesquisas clínicas estimuladas pelo
desenvolvimento da medicina da dor, novas perspectivas para o alívio da
dor foram surgindo e técnicas já consagradas ganharam reconhecimento e
se desenvolveram. É o caso da estimulação nervosa transcutânea e o uso da
acupuntura para alívio da dor, com a evidência de que sua analgesia estaria
ligada à liberação de peptídios opioides endógenos, além de funcionarem
como métodos de contraestimulação, de acordo com a teoria da
comporta.1,2,6
Segundo pesquisa de Le Roy, na década de 1970 havia 18 centros de
dor em operação nos EUA. Na década de 1980 houve grande expansão,
aumentando de 273, em 2004, para 1.500 centros, em 1987.7 Esse
desenvolvimento teoricamente seguia as orientações apresentadas no
simpósio de Seattle, as quais se baseavam nas propostas de Bonica e nas
novas possibilidades abertas pela teoria da comporta.
Em 1986, a subcomissão de taxonomia da IASP lançou um suplemento
da revista Pain de 226 páginas chamado Classificação da dor crônica:
descrição das síndromes de dor crônica e definição de termos de dor. A
definição adotada nessa publicação foi a adaptação de uma definição do
psiquiatra canadense Harold Merskey, que fazia parte da comissão de
taxonomia. Após as modificações, a definição de dor ficou assim: “Dor é
uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano de
tecido atual ou potencial, ou descrita em termos de tal dano”. Essa definição
apresentava a dor mais como uma experiência do que uma sensação,
colocando assim o indivíduo em primeiro plano, o que legitimava um lugar
para as abordagens psicocomportamentais ao lado da abordagem
fisiológica.1,2
Em 1987, a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez o
reconhecimento público da IASP como uma organização não
governamental. Uma das principais realizações dessa parceria com a OMS
foi o desenvolvimento da Escada analgésica da OMS para o tratamento da
dor do câncer. Após mais de duas décadas de sua elaboração, alguns ajustes
foram realizados e novos conceitos, medicamentos e tecnologias foram incorporados, mas a estrutura elementar e a lógica desse instrumento ainda
permanecem a mesma.1,2,8
Clínicas de dor
Em relação à sistematização das regras de organização das clínicas de
dor, na década de 1990, a IASP nomeou uma comissão composta por 21
membros de diversos países, com a finalidade de estabelecer normas,
diretrizes e características desejáveis para as diversas modalidades de
clínicas de dor, bem como criar uma nomenclatura para a sua classificação.
Esse instrumento oficial da IASP, denominado Desirable characteristics for
pain treatment facilities, vigora até hoje. Ele classificou as clínicas de dor
em quatro grupos distintos:
• Centro multidisciplinar de dor: refere-se a uma organização complexa, dedicada ao diagnóstico e
ao tratamento da dor aguda e crônica em pacientes ambulatoriais e internados, assim como à
pesquisa e ao ensino sobre a dor. Idealmente, esse tipo de estrutura deve fazer parte de uma
instituição médica de ensino ou de um hospital de ensino. Seus programas de atividades devem
ser supervisionados por um diretor clínico apropriadamente treinado e uma grande variedade de
profissionais da área da saúde deve fazer parte desse tipo de centro. A equipe deve contar com
médicos, psicólogos, enfermeiras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e
outros profissionais, e pelo menos três especialidades médicas devem fazer parte da equipe1,2,9
• Clínica multidisciplinar de dor: inclui todas as qualidades dos centros multidisciplinares de dor,
só diferindo pelo fato de esta última não incluir a pesquisa e as atividades de ensino em seus
programas regulares1,2,9
• Clínica de dor: a rigor refere-se à entidade dedicada ao diagnóstico e ao tratamento de pacientes
com dor crônica. A clínica pode especializar-se em diagnósticos específicos ou em tratamento de
dores relacionadas com uma região específica do corpo (p. ex., clínicas de cefaleias e clínicas de
lombalgias)1,2,9
• Clínica orientada para modalidade única de tratamento da dor: trata-se de uma entidade que
oferece apenas um tipo específico de tratamento, não dispondo de tipos de avaliação clínica
pormenorizada nem de tipo abrangentes de tratamento (p. ex., clínicas de bloqueios nervosos, de
estimulação elétrica transcutânea, de acupuntura, de 1,2,9 biofeedback ).
O centro multidisciplinar de dor não é muito comum, mesmo nos países
desenvolvidos. Ainda em relação ao perfil, o estudo de Csordas e Clark7 é
um dos mais abrangentes em relação à análise do perfil das clínicas de dor.
Essa pesquisa, que envolveu 25 centros de dor em áreas urbanas dos EUA –
país onde há a maior concentração de clínicas de dor – concluiu que, apesar
da tentativa de padronização, há grande variabilidade na organização e oferta de terapêuticas dessa especialidade. Esses serviços, que incluem em
sua composição uma ampla gama de profissionais e práticas, contam com
terapêuticas convencionais e não convencionais. A maioria tem como
orientação predominante a psiquiatria e outras especialidades médicas,
especialmente a anestesiologia, fisiatria, neurologia e ortopedia, seguidas de
outras especialidades da área de saúde, como a odontologia, terapias
corporais ativas, quiropraxia, terapias alimentares e fitoterapia.1,2,7,9
A diversidade dos critérios e a variabilidade das práticas demonstram a
complexidade do objeto de estudo e intervenção do campo da dor crônica.
A multiplicidade de elementos envolvidos no fenômeno doloroso,
característica considerada por alguns como um obstáculo para a
consolidação de conhecimentos nessa área, pode também ser encarada
como um elemento que propicia o exercício de estratégias terapêuticas que
normalmente não encontram espaço em outras especialidades na área da
saúde em função da hegemonia do tratamento biomédico.1
Atualmente, o diagnóstico e tratamento das clínicas de dor obedecem a
alguns princípios gerais segundo o modelo defendido e divulgado pela
IASP. Em primeiro lugar, é necessário o estabelecimento de um diagnóstico
da dor que deve se basear nos dados coletados por meio de uma anamnese
detalhada, bem como no exame físico e psicológico do paciente. Essa
avaliação inicial deve abranger os aspectos físico, psicológico e social,
buscando a compreensão da etiologia da dor, sua progressão, os fatores
responsáveis pela sua manutenção e recrudescimento, assim como os
sintomas associados a ela. A anamnese do paciente deve explorar, em
primeiro lugar, as características da dor por meio de elementos como
história patológica (quando a dor começou e como evoluiu), localização,
intensidade, aspectos qualitativos da dor, frequência e duração, fatores de
melhora e piora. Em relação aos fatores psicossociais, devem-se explorar os
aspectos cognitivos comportamentais e emocionais associados à dor, como
sintomas de ansiedade e depressão, sentimentos de raiva e hostilidade
associados à dor, crenças e atitudes acerca da dor e do seu tratamento,
estratégias de enfrentamento da dor, relacionamentos familiares e sociais
antes e depois da dor. Devem-se explorar também os sintomas associados
pela avaliação dos prejuízos ocasionados pela dor ao longo do tempo. De
modo geral, deve-se tentar entender de que maneira a dor mudou a vida do indivíduo e como está a sua qualidade de vida atual, explorando aspectos
como sono, apetite, humor, relacionamentos interpessoais, funcionalidade,
atenção e concentração, atividades de lazer, trabalho etc.1,2,9
A partir desse diagnóstico multifatorial é que serão selecionadas as
estratégias terapêuticas a serem utilizadas naquele caso em particular. O
tratamento da dor crônica deve ser realizado pela combinação de
intervenções farmacológicas e não farmacológicas que devem ser
administradas por uma equipe interdisciplinar.1
O protocolo padrão para a intervenção farmacológica segue os
princípios gerais da escada analgésica da OMS. Apesar da escada
analgésica ter sido proposta inicialmente para o tratamento da dor
oncológica, seus princípios também se aplicam ao tratamento da dor não
oncológica. A intensidade da dor e a potência do fármaco devem ser as
principais considerações na seleção dos analgésicos. A seleção dos
fármacos deve ser realizada considerando-se três degraus da escada
relacionados com a intensidade da dor, mensurada com a escala visual
numérica ou escala visual analógica. O tratamento deve incluir o uso de
analgésicos e de fármacos adjuvantes, de diferentes grupos farmacológicos
em cada degrau da escada. As medicações adjuvantes vão variar de acordo
com o tipo de dor e podem incluir, por exemplo, antidepressivos e
anticonvulsivantes no caso de dor neuropática, corticosteroides no caso de
dores devido a edema, tumor ou inflamação, antiespasmódicos em caso de
dor em espasmos ou cólicas.1,2,9
Além disso, é preconizada a utilização de outros tratamentos, como
técnicas anestésicas, neurocirúrgicas, psiquiátricas e psicológicas, bem
como outros recursos como neuroestimulação, tratamentos não
farmacológicos (massagem, calor, frio etc.) e o tratamento primário da
causa da dor, tanto do câncer quanto dos processos infecciosos, do diabetes
etc. Da mesma maneira, os analgésicos devem ser administrados
preferencialmente por via oral, em horários padronizados, em doses e
prescrições individualizadas e associados aos adjuvantes, quando indicados.
O objetivo do tratamento farmacológico é a prevenção da dor, que é
proporcionada pela administração dos fármacos em horários fixados e
baseados na meia-vida plasmática destes, pois isso evita que o paciente
sinta dor antes do horário da próxima dose da medicação.1,2,9
As intervenções não farmacológicas incluem as medidas físicas e de
reabilitação, os procedimentos anestésicos, os procedimentos
neurocirúrgicos, medidas educativas e psicoterápicas e as terapias
complementares.1,2,9
Concluindo, o presente capítulo teve por objetivo reconstituir a história
da criação e consolidação de um corpo teórico e um modelo terapêutico que
deram origem a um grupo profissional que se propõe a diagnosticar e tratar
esse fenômeno clínico tão amplo e complexo que é a dor. Essa genealogia
foi a metodologia escolhida para apresentar e analisar a singularidade das
estratégias terapêuticas introduzidas pelo modelo terapêutico das clínicas de
dor. As clínicas de dor, desde a sua gênese, propõem-se a reconhecer a
legitimidade de uma queixa que não pode ser correlacionada com precisão a
um achado orgânico. Isso significou historicamente o reconhecimento da
dor, por si só, como um objeto de atenção da medicina. A singularidade
dessa nova medicina da dor baseia-se essencialmente no reconhecimento da
dor como um objeto de atenção médica por si só e como uma experiência,
cujos diversos aspectos envolvidos só podem ser eficazmente avaliados e
tratados a partir da interação efetiva de uma equipe interdisciplinar, o que
implica, desde o primeiro momento, uma ação integrada e o embate entre
pontos de vista, ou seja, um exame detalhado, por vários olhares distintos,
do arranjo particular de elementos que configuravam a singularidade e
especificidade de cada caso. Tal necessidade, defendida desde o nascimento
desse modelo, talvez seja o que há de mais criativo na proposta das clínicas
de dor.1
Referências bibliográficas
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