A Psicologia da Dor

Andréa G. Portnoi · Capítulo 15 de 23

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A Psicologia da Dor

11 Gênero e Enfrentamento da Dor Central

Mariana Nogueira

 

Este capítulo inicialmente apresenta definições de gênero; em seguida,

com o subtítulo de “Gênero e Dor”, o leitor terá informações sobre a relação

entre gênero e dor em vários aspectos (biológicos, sociais, culturais, afetivos,

cognitivos e comportamentais) e, posteriormente, aprofundar-se-á no processo

de enfrentamento. Primeiramente, conceituar-se-á enfrentamento, depois serão

abordadas as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos pacientes com dor

crônica e serão relatados estudos sobre gênero e enfrentamento da dor.

Finalmente, será apresentada uma pesquisa realizada no Brasil em que um dos

objetivos foi investigar as estratégias de enfrentamento entre homens e

mulheres com dor central decorrente de acidente vascular encefálico (AVE).

 

Gênero

A concepção de gênero surgiu inicialmente nos trabalhos feministas como

modo de evidenciar a dominação masculina e a consequente exclusão e

opressão feminina. Atualmente, o conceito de gênero é amplamente utilizado

para refletir-se sobre as representações construídas referentes às relações

sociais sobre masculino e feminino.1

De acordo com Scott,2 gênero é um elemento constitutivo das relações

sociais, baseado nas diferenças percebidas entre os sexos. Para Olinto,3 o

termo gênero transcende a diferença biológica. De acordo com Albuquerque et

al.4 e Alves e Coura-Filho,5 significa a distinção entre atributos culturais

alocados a cada um dos sexos. De acordo com Victora e Knauth,6 gênero é a

construção social e cultural do sexo e se constitui de acordo com o tempo e a

sociedade, sendo responsável por uma série de comportamentos sociais.

 

Gênero e dor

 

Pesquisas sobre gênero e dor revelam diferenças quanto a homens e

mulheres em relação a aspectos sensoriais, fisiológicos, sociais, culturais,

afetivos, cognitivos e comportamentais. De acordo com alguns estudos, as

mulheres têm maior prevalência de dor crônica e apresentam menor limiar e

tolerância a dor do que os homens.7-9

Homens e mulheres apresentam diferenças nos processos fisiológicos que

interferem no mecanismo da dor e na atuação das medicações. Alguns estudos

verificaram diferentes níveis de cortisol em homens e mulheres e constataram

que o cortisol influencia as respostas de dor.10,11 Verificou-se que alterações

hormonais podem influenciar a experiência da dor, especialmente as

flutuações de estrogênio.12-14

Quanto aos aspectos socioculturais, desde o nascimento os indivíduos são

criados a partir de estereótipos de gênero. Na cultura ocidental, espera-se dos

meninos e das meninas uma série de características e comportamentos

específicos. Os meninos devem ser fortes, corajosos e não devem expressar as

emoções e a dor; já as meninas devem ser delicadas, frágeis e a elas é

permitida e até reforçada a expressão das emoções e da dor.15 Nas culturas

orientais, a expressão das emoções e da dor não é socialmente reforçada e é

menos aceita do que na cultura ocidental.16,17

Pesquisas revelaram que o gênero do experimentador também interfere nas

respostas dos sujeitos à dor. Os homens apresentam maior limiar e tolerância à

dor quando o experimentador é do gênero feminino.18,19 Em um estudo

realizado por Marquie et al.,20 os médicos homens atribuíram a pacientes

homens menor intensidade de dor em relação às mulheres, e as médicas

atribuíram maior valor à dor dos homens do que das mulheres quando a causa

não era conhecida. Este resultado revelou que o gênero do médico e do

paciente interfere na avaliação da dor.

O modelo familiar também está relacionado com o gênero e a queixa de

dor. Koutantji et al.21 e Fillingim et al.22 observaram que havia correlação entre

o número de modelos de dor na família e a queixa de dor. Sujeitos com pelo

menos um modelo de dor na família relataram mais dor do que aqueles sem

história de dor na família. Alguns estudos revelaram que a relação entre a

história familiar e a dor é mais forte nas mulheres do que nos homens.23,24

Entretanto, outros autores revelaram que a história de dor na família associa-

se igualmente ao aumento de percepção da dor nos homens e nas mulheres.21,25

Algumas pesquisas investigaram a percepção de homens e mulheres em

relação à causa da dor e constataram que as mulheres atribuem mais fatores

internos, por exemplo, o fator emocional, como causa da dor; já os homens

atribuem mais eventos externos como causa da dor.26,27

Quanto aos aspectos afetivos, alguns estudos mostraram que a prevalência

de depressão nas mulheres é maior;9,28 no entanto, não são todos os estudos

que indicam maiores níveis de depressão em mulheres com dor. Buckelew et

al.29 constataram que homens com dores variadas apresentaram maiores níveis

de depressão. Em relação à ansiedade, alguns estudos revelaram que homens

com dor apresentam maior ansiedade se comparados às mulheres.8,30,31

Entretanto, Edwards et al.32 constataram níveis equivalentes de ansiedade em

homens e mulheres.

 

Enfrentamento da dor

 

Enfrentamento são “esforços cognitivos e comportamentais que mudam

constantemente para administrar exigências específicas, internas ou externas,

avaliadas como sobrecarregando ou excedendo os recursos do indivíduo”.33

O processo de enfrentamento, que ocorre ao longo do tempo e que tem

como função administrar as transações entre o indivíduo e seu ambiente a fim

de promover sua adaptação e sobrevivência, depende dos recursos que cada

indivíduo possui para criar e utilizar estratégias. Os recursos básicos são: saúde física, crenças e compromissos, habilidades intelectuais e sociais,

suporte social e recursos materiais. A partir deles, os indivíduos precisam criar

e executar estratégias para lidar com os eventos da vida.34 O processo de

enfrentamento destina-se a duas funções primordiais: administrar ou alterar os

problemas no ambiente visando a modificar a situação estressora

(enfrentamento centrado no problema) e controlar a perturbação ou o

desconforto associado à situação estressora sem alterar a situação em si

(enfrentamento centrado na emoção). Geralmente o processo de

enfrentamento centrado na emoção tem maior possibilidade de ocorrer em

situações avaliadas como não passíveis de mudança. Já o processo de

enfrentamento centrado no problema tem maior probabilidade de ocorrer

quando a situação é avaliada como passível de mudança.

Existem algumas estratégias de enfrentamento que são especialmente

utilizadas por doentes com dor crônica, como: evitação, minimização,

distanciamento, atenção seletiva, comparações positivas e extração de valores

positivos de eventos negativos.33

Rosenstiel e Keefe35 consideram sete estratégias básicas de enfrentamento

da dor: distração da atenção, reinterpretação da sensação dolorosa,

autoafirmação de enfrentamento, ignorar a sensação dolorosa, rezar e esperar,

catastrofização e aumento das atividades comportamentais. McCaul e

Haugtvedt36 realizaram um estudo comparando os efeitos da distração da

atenção e da focalização da atenção na sensação dolorosa e verificou que a

distração da atenção se revelou uma estratégia de enfrentamento mais eficaz.

Na pesquisa realizada por Widar et al.,37 cujo objetivo foi descrever a dor, as

estratégias de enfrentamento e a experiência de enfrentar um longo tempo de

dor após o AVE, verificou-se que diferentes estratégias de enfrentamento

foram utilizadas, mas as mais comuns foram: compreender a dor, planejar

atividades, tomar medicação, comunicar-se e distrair a atenção.

 

Gênero e enfrentamento da dor

 

Considerando que cada indivíduo desenvolve suas próprias estratégias de

enfrentamento e que homens e mulheres vivenciam a dor de maneiras

diferentes, pode-se supor que eles desenvolvam diferentes tipos de estratégias

de enfrentamento.38,39

Jensen et al.40 avaliaram as estratégias de enfrentamento utilizadas por

pacientes de ambos os gêneros com longo período de dor musculoesquelética

e suas consequências, e verificaram que as mulheres utilizaram estratégias de

enfrentamento associadas a resultados disfuncionais. Nesse mesmo estudo,

evidenciou-se que as mulheres com dor crônica tendem a catastrofizar mais do

que os homens. Segundo Jensen,41 homens e mulheres não diferem somente

nas respostas a estímulos dolorosos, mas também nos benefícios que obtêm

com a estratégia de focalização da atenção na dor. Na pesquisa realizada por

ele, observou-se que os homens se beneficiaram mais da estratégia de

concentrar a atenção na sensação dolorosa do que as mulheres, que não

tiveram benefício nenhum. Keogh e Herdenfeldt38 realizaram pesquisa em que

a estratégia de focar a atenção na sensação dolorosa foi novamente testada e

concluíram que, nas condições em que a atenção era focalizada na sensação

dolorosa, os homens apresentaram maior limiar e tolerabilidade à dor em

relação às mulheres.

Keefe et al.42 procuraram determinar prováveis diferenças de gênero com a

avaliação diária de dor, do enfrentamento da dor e do humor em homens e

mulheres com osteoartrite e observaram que as mulheres apresentaram

aumento significativo da dor com o passar dos dias e que os homens

apresentaram menos este padrão. Eles foram mais propensos do que as

mulheres a experimentar aumento na eficácia do enfrentamento ao longo dos

dias, utilizaram mais do que elas estratégias de enfrentamento centradas na

emoção quando o humor era negativo e vivenciaram mais do que as mulheres

aumento do humor negativo e diminuição do humor positivo quando a dor

aumentava. Nos períodos de muita dor, os participantes tenderam a apresentar

altos níveis de catastrofização, enfrentamento centrado no problema e na

emoção, humor negativo e baixo nível de humor positivo. Durante os períodos

de aumento do humor negativo, homens e mulheres diferiram quanto às

escolhas das estratégias de enfrentamento: os homens utilizaram estratégias

centradas na emoção mais do que as mulheres. Este dado sugere que, nos

homens, o uso do enfrentamento focado na emoção é desencadeado pelo

humor negativo, enquanto nas mulheres o enfrentamento focado na emoção

está menos relacionado com o humor. Nesse estudo, as mulheres utilizaram

mais o enfrentamento centrado no problema, independentemente do humor.

Essa mesma pesquisa não confirmou os achados de pesquisas anteriores que

sugeriram que as mulheres catastrofizam mais do que os homens. Evidenciouse que a catastrofização está mais associada ao humor negativo nos

homens do que nas mulheres. Esse estudo também revelou que, após período

de aumento da dor, os homens apresentaram aumento maior do humor

negativo do que as mulheres, o que sugere que as mulheres são mais capazes

de limitar as consequências emocionais causadas pela dor.

Affleck et al.39 investigaram a relação entre o gênero e dor, humor e

enfrentamento de pacientes com artrite reumatoide e osteoartrite e verificaram

que as mulheres utilizaram mais estratégias focadas na emoção e no problema

se comparadas aos homens, e os pacientes com artrite reumatoide,

independentemente do gênero, utilizaram mais o conforto espiritual como

modo de enfrentamento. De acordo Affleck et al.39 e Unruh et al.,43 as

mulheres vivenciam dores mais intensas, mas conseguem limitar as

consequências emocionais melhor do que os homens e utilizam mais

estratégias de enfrentamento, especialmente aquelas que ajudam na regulação

emocional, quando há aumento na dor.

Keogh e Denford44 procuraram identificar a presença de diferenças quanto

ao uso de estratégias de enfrentamento por homens e mulheres. Solicitaram

que os sujeitos saudáveis respondessem primeiramente o questionário baseado

neles mesmos e, em seguida, baseado nos homens e nas mulheres típicos. Os

sujeitos sadios revelaram acreditar que as mulheres típicas utilizam mais do

que os homens típicos a catastrofização, a distração da atenção e o ato de rezar

como estratégias de enfrentamento. Quando se comparou a percepção que os

participantes tinham de como enfrentariam a dor e de como homens e

mulheres típicos o fariam, constataram que havia visão estereotipada de como

os homens e as mulheres enfrentam a dor e que eles não se imaginam

utilizando as mesmas estratégias de enfrentamento que atribuíram a homens e

mulheres típicos.

Os estudos, portanto, revelam que há diferenças entre os gêneros quanto às

estratégias de enfrentamento da dor e que essas diferenças, apesar de

existirem, ainda são controversas. No entanto, há alguns resultados que

parecem coincidir em várias pesquisas, como aqueles que indicam que as

mulheres utilizam maior número de estratégias de enfrentamento do que os

homens, não se beneficiam da concentração da atenção na dor e ainda

conseguem limitar melhor do que os homens as consequências emocionais

causadas pela dor. Quanto aos homens, pode-se verificar que eles se

beneficiam da concentração da atenção na dor e utilizam mais estratégias de enfrentamento focadas na emoção quando o humor está negativo. A literatura

consultada revelou que há relação entre a estratégia de enfrentamento, a

intensidade da dor e o humor. Verificou-se que, quando a dor aumenta, as

estratégias de enfrentamento também se alteram, assim como quando há piora

do humor.

 

Gênero e enfrentamento da dor central

 

A dor central foi definida por Merskey e Bogduk45 como “dor regional

causada por lesão primária ou disfunção no sistema nervoso central com

sensibilidade anormal a temperatura e a estímulos nocivos” (p. 43).

A dor central é intensa, constante e em queimor, sendo os principais

fatores agravantes as alterações da temperatura, o estresse emocional e a

movimentação.46 A região onde se localiza a dor corresponde ao local

inervado pela estrutura encefálica e onde a medula espinal está acometida.

Indivíduos de todas as idades podem ser acometidos por essa dor, que pode se

manifestar instantaneamente, mas costuma ocorrer semanas e meses depois da

instalação da lesão, podendo ocorrer até anos depois, o que é mais raro.45 Por

ser contínua e persistente, limita muito a vida dos indivíduos e causa intenso

sofrimento e prejuízo na qualidade de vida. Além disso, é uma das condições

que menos melhora com o tratamento antálgico: quando há controle da dor,

este é parcial na maioria dos casos.46

De acordo com Boivie,47 a dor central pode ser causada por lesões

vasculares encefálicas (infarto, hemorragia, malformações vasculares),

esclerose múltipla, traumatismo da medula espinal, traumatismo encefálico,

siringomielia, siringobulbia, tumores, abscessos, doenças inflamatórias,

infecciosas, sífilis, epilepsia, doença de Parkinson etc.

As doenças cerebrovasculares são responsáveis por 85 a 90% dos casos de

dor central encefálica.48 As estimativas sugerem a existência de um importante

contingente de portadores de dor central encefálica decorrente de AVE.46,49

Estudos retrospectivos revelaram presença de 168 mil portadores de dor

central encefálica nos EUA, em uma população de 250 milhões de

habitantes.50 Não existem estudos epidemiológicos para dor central encefálica

no Brasil, mas a elevada prevalência de doenças cerebrovasculares sugere

relevância epidemiológica.51 A dor central encefálica pode iniciar

concomitantemente ao AVE ou pode instalar-se anos após o evento.48

Nogueira27 realizou uma pesquisa no Centro de Dor da Divisão de Clínica

Neurológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da

Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) com doentes com dor central pós-

AVE. Alguns dos objetivos da pesquisa foram identificar os processos de

enfrentamento de homens e mulheres e comparar os processos de

enfrentamento entre ambos os gêneros.

Participaram da pesquisa 50 sujeitos, sendo 25 homens e 25 mulheres com

dor central decorrente de AVE isquêmico ou hemorrágico. Foram incluídos na

pesquisa os sujeitos com idade igual ou superior a 30 anos, escolaridade

mínima de 4 anos e presença de dor central decorrente de AVE há, pelo

menos, 3 meses. Foram excluídos os sujeitos com déficit cognitivo, de

linguagem ou com sintomas psicóticos, que não conseguiriam responder os

instrumentos. Para verificar a presença de critérios de inclusão e exclusão

foram utilizados os seguintes instrumentos: prontuários médicos, Mini Exame

do Estado Mental (MEEM), entrevista clínica estruturada para escala breve de

avaliação psiquiátrica e inquérito de dados demográficos e clínicos.

As estratégias de enfrentamento utilizadas por estes pacientes foram

identificadas a partir da Escala Modos de Enfrentamento de Problemas

(EMEP), versão desenvolvida por Seidl et al.,52 construída por Vitaliano et

al.53 e traduzida e adaptada para a língua portuguesa por Gimenes e Queiroz.54

É composta de 45 itens sobre o que as pessoas fazem, pensam ou sentem para

enfrentar problemas e por uma pergunta aberta (Você tem feito alguma outra

coisa para enfrentar ou lidar com essa dificuldade ou problema?).

Após analisar os prontuários dos sujeitos para se verificar a existência de

critérios de exclusão e de inclusão e coletar informações demográficas e

clínicas que configurassem o diagnóstico de AVE, os indivíduos que

inicialmente se enquadraram nos critérios foram avaliados cognitivamente

com o MEEM; os que apresentaram pontuação igual ou superior a 24 pontos e

não apresentaram sintomas de transtorno psicótico após responderem as

perguntas referentes aos quatro itens da entrevista clínica estruturada para

escala breve de avaliação psiquiátrica responderam a EMEP.

O teste estatístico que possibilitou a comparação dos gêneros em relação

às variáveis quantitativas foi o teste t para amostras independentes. Para as

análises estatísticas das variáveis qualitativas, foi utilizado o teste Qui-

quadrado. O nível de significância foi de 0,05.

A Tabela 11.1 mostra as médias, medianas, desvios padrão e níveis de

significância de homens e mulheres e do total da amostra referente à

frequência de uso das quatro estratégias de enfrentamentos medidas pela

EMEP: enfrentamento centrado no problema (Enfr. Prob.), enfrentamento

centrado na emoção (Enfr. Em.), busca de práticas religiosas e pensamentos

fantasiosos (Prat. Relig. Pens. Fant.) e busca de suporte social (Sup. Soc.).

 

Tabela 11.1 Distribuição dos sujeitos de ambos os gêneros quanto às médias, medianas, desvios

padrão (DP) e nível de signi cância (p) em relação à frequência de uso das estratégias de

enfrentamento medidas pela EMEP.

 

Estratégias de Média Homens DP Média Mulheres DP Média Total DP Teste

enfrentamento (mediana) (mediana) (mediana) t (p)

 

Enfr. Prob. 3,7 3,7 0,6 3,7 3,6 0,8 3,7 3,7 0,7 0,661

 

Enfr. Em. 2,3 2,1 0,7 2,2 2,1 0,6 2,3 2,1 0,7 0,545

 

Prat. Relig. Pens. 3,4 3,6 2,9 4 4,1 0,8 3,7 3,7 0,9 0,034

Fant.

 

Sup. Soc. 2,9 2,8 1,1 3 3,2 0,8 2,9 3 1 0,897

 

Os homens e as mulheres apresentaram a mesma média de frequência de

uso (3,7) do Enfr. Prob. No Enfr. Em., os homens apresentaram a média de 2,3

e as mulheres de 2,2. A média dos homens na Sup. Soc. foi de 2,9 e das

mulheres 3. Quanto à Prat. Relig. Pens. Fant, as mulheres apresentaram média

superior (4) a dos homens (3,4). Verificou-se diferença estatisticamente

significativa entre homens e mulheres quanto ao uso desta estratégia.

Em relação à questão aberta da EMEP, as estratégias de enfrentamento

referidas pelos sujeitos foram divididas em dois grupos: centradas no

problema (buscar tratamento para a dor, fingir não sentir dor, ignorar a dor e

aceitar a incapacitação pela dor) e centradas na emoção (distrair a atenção da

dor, fazer autoafirmações de enfrentamento, controlar as emoções, realizar

atividades espirituais e religiosas e buscar suporte social).

A Tabela 11.2 revela o número total de sujeitos e de homens e mulheres

que relataram utilizar estratégias de enfrentamento centradas no problema. Tabela 11.2 Distribuição dos sujeitos de ambos os gêneros em números absolutos (n) e níveis de

signi cância (p) quanto ao uso de estratégias de enfrentamento centradas no problema em relação à

pergunta aberta da EMEP.

 

Estratégias de Homens (n) Mulheres (n) Total (n) Teste t (p)

enfrentamento

centradas no

problema

 

Buscar tratamento 10 10 20 0,613

para dor

 

Ignorar a dor 3 5 8 0,351

 

Aceitar a incapacitação 2 3 5 0,500

pela dor

 

Total 15 21 36

 

Buscar tratamento para a dor foi a estratégia de enfrentamento centrada no

problema mais utilizada, sendo referida por 10 homens e 10 mulheres; a

estratégia de ignorar a dor foi mencionada por 3 homens e 5 mulheres; fingir

não sentir dor foi estratégia relatada por 3 mulheres e nenhum dos homens, e

aceitar a incapacitação pela dor foi referida como estratégia de enfrentamento

por 2 homens e 3 mulheres. A análise estatística não revelou diferença

significativa entre homens e mulheres quanto às estratégias de enfrentamento

centradas no problema na questão aberta da EMEP, como mostrou a Tabela

11.2.

A Tabela 11.3 apresenta o número de sujeitos que referiram utilizar as

estratégias de enfrentamento centradas na emoção.

 

Tabela 11.3 Distribuição dos sujeitos de ambos os gêneros em números absolutos (n) e níveis de

signi cância (p) quanto ao uso de estratégias de enfrentamento centradas na emoção em relação à

questão aberta da EMEP.

 

Estratégias de Homens (n) Mulheres (n) Total (n) Teste t (p)

enfrentamento

centradas na

emoção

 

Distrair a atenção da 16 16 32 0,616

dor

 

Fazer autoa rmações 3 1 4 0,305

de enfrentamento

 

Controlar as emoções 2 2 4 0,695

 

Realizar atividades 0 5 5 0,025

espirituais e religiosas

 

Buscar suporte social 5 6 11 0,500

 

Total 26 30 56

 

Distrair a atenção da dor foi a estratégia de enfrentamento centrada na

emoção mais utilizada, referida por 16 homens e 16 mulheres. Buscar suporte

social foi mencionada por 5 homens e 6 mulheres; a estratégia de buscar

atividades espirituais e religiosas foi relatada somente por 5 mulheres, não

sendo mencionada por nenhum homem. Quatro sujeitos disseram usar as

estratégias de fazer autoafirmações de enfrentamento e controlar as emoções,

sendo que a primeira estratégia foi referida por 3 homens e 1 mulher, e a

segunda por 2 homens e 2 mulheres.

Somente as mulheres (5) revelaram usar a estratégia de buscar atividades

espirituais e religiosas como modo de enfrentamento da dor. A análise

estatística realizada por meio do teste t mostrou haver diferença

estatisticamente significativa entre homens e mulheres quanto ao uso desta

estratégia de enfrentamento.

Os dados explicitados revelaram que houve diferença estatisticamente

significativa entre homens e mulheres em relação à frequência do uso da

estratégia Prat. Relig. Pens. Fant da EMEP, em que as mulheres revelaram

utilizar mais do que os homens. Na questão aberta desta mesma escala, em

que foram criadas categorias de enfrentamento, constatou-se diferença

estatisticamente significativa entre homens e mulheres quanto à estratégia de

realizar atividades espirituais e religiosas. Com base nestes dados, é possível

constatar que as mulheres da amostra utilizam atividades espirituais e

religiosas com mais frequência do que os homens.

Na questão aberta pertencente à EMEP, as mulheres apresentaram 51

respostas de estratégias de enfrentamento somando as centradas no problema e

na emoção, e os homens, 41. Comparando o número de respostas, verificou-se que as mulheres apresentaram um número maior de respostas referentes às

estratégias de enfrentamento do que os homens. Diante disso, pôde-se levantar

a hipótese de que as mulheres que participaram da pesquisa utilizam um

número maior de estratégias de enfrentamento do que os homens. Este dado é

condizente com o de Affleck et al.,39 que constataram que as mulheres

utilizam mais estratégias de enfrentamento do que os homens.

A estratégia de enfrentamento mais referida pelos sujeitos foi distrair a

atenção da dor. Esta é uma das sete estratégias básicas de enfrentamento da

dor consideradas por Rosenstiel e Keefe.35 Em uma pesquisa em que um dos

objetivos foi identificar as estratégias de enfrentamento utilizadas por

indivíduos com um longo tempo de dor, também se verificou que a distração

da atenção foi uma das mais utilizadas pelos sujeitos.37 McCaul e Haugtvedt36

verificaram que esta estratégia de enfrentamento é mais eficaz para a dor se

comparada à estratégia focalização da atenção na sensação dolorosa. O

resultado na presente pesquisa e os resultados das outras pesquisas

mencionadas possibilitam levantar a hipótese de que distrair a atenção da dor

é uma estratégia eficaz no enfrentamento da dor central causada por AVE.

 

Considerações finais

 

Ao longo deste capítulo, foram explicitados vários estudos sobre gênero e

dor envolvendo diversos aspectos, principalmente aspectos cognitivos e

comportamentais. Verificou-se consenso em muitos estudos em relação a

alguns resultados; no entanto, alguns estudos mostraram resultados

controversos, que precisam ser mais explorados em pesquisas futuras.

Vale ressaltar a escassez de estudos sobre a relação entre gênero e dor e

dor central no Brasil e a necessidade de se desenvolver novas pesquisas sobre

este tema, as quais podem contribuir para o tratamento dos pacientes com

dores crônicas.

 

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