A Psicologia da Dor
11 Gênero e Enfrentamento da Dor Central
Mariana Nogueira
Este capítulo inicialmente apresenta definições de gênero; em seguida,
com o subtítulo de “Gênero e Dor”, o leitor terá informações sobre a relação
entre gênero e dor em vários aspectos (biológicos, sociais, culturais, afetivos,
cognitivos e comportamentais) e, posteriormente, aprofundar-se-á no processo
de enfrentamento. Primeiramente, conceituar-se-á enfrentamento, depois serão
abordadas as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos pacientes com dor
crônica e serão relatados estudos sobre gênero e enfrentamento da dor.
Finalmente, será apresentada uma pesquisa realizada no Brasil em que um dos
objetivos foi investigar as estratégias de enfrentamento entre homens e
mulheres com dor central decorrente de acidente vascular encefálico (AVE).
Gênero
A concepção de gênero surgiu inicialmente nos trabalhos feministas como
modo de evidenciar a dominação masculina e a consequente exclusão e
opressão feminina. Atualmente, o conceito de gênero é amplamente utilizado
para refletir-se sobre as representações construídas referentes às relações
sociais sobre masculino e feminino.1
De acordo com Scott,2 gênero é um elemento constitutivo das relações
sociais, baseado nas diferenças percebidas entre os sexos. Para Olinto,3 o
termo gênero transcende a diferença biológica. De acordo com Albuquerque et
al.4 e Alves e Coura-Filho,5 significa a distinção entre atributos culturais
alocados a cada um dos sexos. De acordo com Victora e Knauth,6 gênero é a
construção social e cultural do sexo e se constitui de acordo com o tempo e a
sociedade, sendo responsável por uma série de comportamentos sociais.
Gênero e dor
Pesquisas sobre gênero e dor revelam diferenças quanto a homens e
mulheres em relação a aspectos sensoriais, fisiológicos, sociais, culturais,
afetivos, cognitivos e comportamentais. De acordo com alguns estudos, as
mulheres têm maior prevalência de dor crônica e apresentam menor limiar e
tolerância a dor do que os homens.7-9
Homens e mulheres apresentam diferenças nos processos fisiológicos que
interferem no mecanismo da dor e na atuação das medicações. Alguns estudos
verificaram diferentes níveis de cortisol em homens e mulheres e constataram
que o cortisol influencia as respostas de dor.10,11 Verificou-se que alterações
hormonais podem influenciar a experiência da dor, especialmente as
flutuações de estrogênio.12-14
Quanto aos aspectos socioculturais, desde o nascimento os indivíduos são
criados a partir de estereótipos de gênero. Na cultura ocidental, espera-se dos
meninos e das meninas uma série de características e comportamentos
específicos. Os meninos devem ser fortes, corajosos e não devem expressar as
emoções e a dor; já as meninas devem ser delicadas, frágeis e a elas é
permitida e até reforçada a expressão das emoções e da dor.15 Nas culturas
orientais, a expressão das emoções e da dor não é socialmente reforçada e é
menos aceita do que na cultura ocidental.16,17
Pesquisas revelaram que o gênero do experimentador também interfere nas
respostas dos sujeitos à dor. Os homens apresentam maior limiar e tolerância à
dor quando o experimentador é do gênero feminino.18,19 Em um estudo
realizado por Marquie et al.,20 os médicos homens atribuíram a pacientes
homens menor intensidade de dor em relação às mulheres, e as médicas
atribuíram maior valor à dor dos homens do que das mulheres quando a causa
não era conhecida. Este resultado revelou que o gênero do médico e do
paciente interfere na avaliação da dor.
O modelo familiar também está relacionado com o gênero e a queixa de
dor. Koutantji et al.21 e Fillingim et al.22 observaram que havia correlação entre
o número de modelos de dor na família e a queixa de dor. Sujeitos com pelo
menos um modelo de dor na família relataram mais dor do que aqueles sem
história de dor na família. Alguns estudos revelaram que a relação entre a
história familiar e a dor é mais forte nas mulheres do que nos homens.23,24
Entretanto, outros autores revelaram que a história de dor na família associa-
se igualmente ao aumento de percepção da dor nos homens e nas mulheres.21,25
Algumas pesquisas investigaram a percepção de homens e mulheres em
relação à causa da dor e constataram que as mulheres atribuem mais fatores
internos, por exemplo, o fator emocional, como causa da dor; já os homens
atribuem mais eventos externos como causa da dor.26,27
Quanto aos aspectos afetivos, alguns estudos mostraram que a prevalência
de depressão nas mulheres é maior;9,28 no entanto, não são todos os estudos
que indicam maiores níveis de depressão em mulheres com dor. Buckelew et
al.29 constataram que homens com dores variadas apresentaram maiores níveis
de depressão. Em relação à ansiedade, alguns estudos revelaram que homens
com dor apresentam maior ansiedade se comparados às mulheres.8,30,31
Entretanto, Edwards et al.32 constataram níveis equivalentes de ansiedade em
homens e mulheres.
Enfrentamento da dor
Enfrentamento são “esforços cognitivos e comportamentais que mudam
constantemente para administrar exigências específicas, internas ou externas,
avaliadas como sobrecarregando ou excedendo os recursos do indivíduo”.33
O processo de enfrentamento, que ocorre ao longo do tempo e que tem
como função administrar as transações entre o indivíduo e seu ambiente a fim
de promover sua adaptação e sobrevivência, depende dos recursos que cada
indivíduo possui para criar e utilizar estratégias. Os recursos básicos são: saúde física, crenças e compromissos, habilidades intelectuais e sociais,
suporte social e recursos materiais. A partir deles, os indivíduos precisam criar
e executar estratégias para lidar com os eventos da vida.34 O processo de
enfrentamento destina-se a duas funções primordiais: administrar ou alterar os
problemas no ambiente visando a modificar a situação estressora
(enfrentamento centrado no problema) e controlar a perturbação ou o
desconforto associado à situação estressora sem alterar a situação em si
(enfrentamento centrado na emoção). Geralmente o processo de
enfrentamento centrado na emoção tem maior possibilidade de ocorrer em
situações avaliadas como não passíveis de mudança. Já o processo de
enfrentamento centrado no problema tem maior probabilidade de ocorrer
quando a situação é avaliada como passível de mudança.
Existem algumas estratégias de enfrentamento que são especialmente
utilizadas por doentes com dor crônica, como: evitação, minimização,
distanciamento, atenção seletiva, comparações positivas e extração de valores
positivos de eventos negativos.33
Rosenstiel e Keefe35 consideram sete estratégias básicas de enfrentamento
da dor: distração da atenção, reinterpretação da sensação dolorosa,
autoafirmação de enfrentamento, ignorar a sensação dolorosa, rezar e esperar,
catastrofização e aumento das atividades comportamentais. McCaul e
Haugtvedt36 realizaram um estudo comparando os efeitos da distração da
atenção e da focalização da atenção na sensação dolorosa e verificou que a
distração da atenção se revelou uma estratégia de enfrentamento mais eficaz.
Na pesquisa realizada por Widar et al.,37 cujo objetivo foi descrever a dor, as
estratégias de enfrentamento e a experiência de enfrentar um longo tempo de
dor após o AVE, verificou-se que diferentes estratégias de enfrentamento
foram utilizadas, mas as mais comuns foram: compreender a dor, planejar
atividades, tomar medicação, comunicar-se e distrair a atenção.
Gênero e enfrentamento da dor
Considerando que cada indivíduo desenvolve suas próprias estratégias de
enfrentamento e que homens e mulheres vivenciam a dor de maneiras
diferentes, pode-se supor que eles desenvolvam diferentes tipos de estratégias
de enfrentamento.38,39
Jensen et al.40 avaliaram as estratégias de enfrentamento utilizadas por
pacientes de ambos os gêneros com longo período de dor musculoesquelética
e suas consequências, e verificaram que as mulheres utilizaram estratégias de
enfrentamento associadas a resultados disfuncionais. Nesse mesmo estudo,
evidenciou-se que as mulheres com dor crônica tendem a catastrofizar mais do
que os homens. Segundo Jensen,41 homens e mulheres não diferem somente
nas respostas a estímulos dolorosos, mas também nos benefícios que obtêm
com a estratégia de focalização da atenção na dor. Na pesquisa realizada por
ele, observou-se que os homens se beneficiaram mais da estratégia de
concentrar a atenção na sensação dolorosa do que as mulheres, que não
tiveram benefício nenhum. Keogh e Herdenfeldt38 realizaram pesquisa em que
a estratégia de focar a atenção na sensação dolorosa foi novamente testada e
concluíram que, nas condições em que a atenção era focalizada na sensação
dolorosa, os homens apresentaram maior limiar e tolerabilidade à dor em
relação às mulheres.
Keefe et al.42 procuraram determinar prováveis diferenças de gênero com a
avaliação diária de dor, do enfrentamento da dor e do humor em homens e
mulheres com osteoartrite e observaram que as mulheres apresentaram
aumento significativo da dor com o passar dos dias e que os homens
apresentaram menos este padrão. Eles foram mais propensos do que as
mulheres a experimentar aumento na eficácia do enfrentamento ao longo dos
dias, utilizaram mais do que elas estratégias de enfrentamento centradas na
emoção quando o humor era negativo e vivenciaram mais do que as mulheres
aumento do humor negativo e diminuição do humor positivo quando a dor
aumentava. Nos períodos de muita dor, os participantes tenderam a apresentar
altos níveis de catastrofização, enfrentamento centrado no problema e na
emoção, humor negativo e baixo nível de humor positivo. Durante os períodos
de aumento do humor negativo, homens e mulheres diferiram quanto às
escolhas das estratégias de enfrentamento: os homens utilizaram estratégias
centradas na emoção mais do que as mulheres. Este dado sugere que, nos
homens, o uso do enfrentamento focado na emoção é desencadeado pelo
humor negativo, enquanto nas mulheres o enfrentamento focado na emoção
está menos relacionado com o humor. Nesse estudo, as mulheres utilizaram
mais o enfrentamento centrado no problema, independentemente do humor.
Essa mesma pesquisa não confirmou os achados de pesquisas anteriores que
sugeriram que as mulheres catastrofizam mais do que os homens. Evidenciouse que a catastrofização está mais associada ao humor negativo nos
homens do que nas mulheres. Esse estudo também revelou que, após período
de aumento da dor, os homens apresentaram aumento maior do humor
negativo do que as mulheres, o que sugere que as mulheres são mais capazes
de limitar as consequências emocionais causadas pela dor.
Affleck et al.39 investigaram a relação entre o gênero e dor, humor e
enfrentamento de pacientes com artrite reumatoide e osteoartrite e verificaram
que as mulheres utilizaram mais estratégias focadas na emoção e no problema
se comparadas aos homens, e os pacientes com artrite reumatoide,
independentemente do gênero, utilizaram mais o conforto espiritual como
modo de enfrentamento. De acordo Affleck et al.39 e Unruh et al.,43 as
mulheres vivenciam dores mais intensas, mas conseguem limitar as
consequências emocionais melhor do que os homens e utilizam mais
estratégias de enfrentamento, especialmente aquelas que ajudam na regulação
emocional, quando há aumento na dor.
Keogh e Denford44 procuraram identificar a presença de diferenças quanto
ao uso de estratégias de enfrentamento por homens e mulheres. Solicitaram
que os sujeitos saudáveis respondessem primeiramente o questionário baseado
neles mesmos e, em seguida, baseado nos homens e nas mulheres típicos. Os
sujeitos sadios revelaram acreditar que as mulheres típicas utilizam mais do
que os homens típicos a catastrofização, a distração da atenção e o ato de rezar
como estratégias de enfrentamento. Quando se comparou a percepção que os
participantes tinham de como enfrentariam a dor e de como homens e
mulheres típicos o fariam, constataram que havia visão estereotipada de como
os homens e as mulheres enfrentam a dor e que eles não se imaginam
utilizando as mesmas estratégias de enfrentamento que atribuíram a homens e
mulheres típicos.
Os estudos, portanto, revelam que há diferenças entre os gêneros quanto às
estratégias de enfrentamento da dor e que essas diferenças, apesar de
existirem, ainda são controversas. No entanto, há alguns resultados que
parecem coincidir em várias pesquisas, como aqueles que indicam que as
mulheres utilizam maior número de estratégias de enfrentamento do que os
homens, não se beneficiam da concentração da atenção na dor e ainda
conseguem limitar melhor do que os homens as consequências emocionais
causadas pela dor. Quanto aos homens, pode-se verificar que eles se
beneficiam da concentração da atenção na dor e utilizam mais estratégias de enfrentamento focadas na emoção quando o humor está negativo. A literatura
consultada revelou que há relação entre a estratégia de enfrentamento, a
intensidade da dor e o humor. Verificou-se que, quando a dor aumenta, as
estratégias de enfrentamento também se alteram, assim como quando há piora
do humor.
Gênero e enfrentamento da dor central
A dor central foi definida por Merskey e Bogduk45 como “dor regional
causada por lesão primária ou disfunção no sistema nervoso central com
sensibilidade anormal a temperatura e a estímulos nocivos” (p. 43).
A dor central é intensa, constante e em queimor, sendo os principais
fatores agravantes as alterações da temperatura, o estresse emocional e a
movimentação.46 A região onde se localiza a dor corresponde ao local
inervado pela estrutura encefálica e onde a medula espinal está acometida.
Indivíduos de todas as idades podem ser acometidos por essa dor, que pode se
manifestar instantaneamente, mas costuma ocorrer semanas e meses depois da
instalação da lesão, podendo ocorrer até anos depois, o que é mais raro.45 Por
ser contínua e persistente, limita muito a vida dos indivíduos e causa intenso
sofrimento e prejuízo na qualidade de vida. Além disso, é uma das condições
que menos melhora com o tratamento antálgico: quando há controle da dor,
este é parcial na maioria dos casos.46
De acordo com Boivie,47 a dor central pode ser causada por lesões
vasculares encefálicas (infarto, hemorragia, malformações vasculares),
esclerose múltipla, traumatismo da medula espinal, traumatismo encefálico,
siringomielia, siringobulbia, tumores, abscessos, doenças inflamatórias,
infecciosas, sífilis, epilepsia, doença de Parkinson etc.
As doenças cerebrovasculares são responsáveis por 85 a 90% dos casos de
dor central encefálica.48 As estimativas sugerem a existência de um importante
contingente de portadores de dor central encefálica decorrente de AVE.46,49
Estudos retrospectivos revelaram presença de 168 mil portadores de dor
central encefálica nos EUA, em uma população de 250 milhões de
habitantes.50 Não existem estudos epidemiológicos para dor central encefálica
no Brasil, mas a elevada prevalência de doenças cerebrovasculares sugere
relevância epidemiológica.51 A dor central encefálica pode iniciar
concomitantemente ao AVE ou pode instalar-se anos após o evento.48
Nogueira27 realizou uma pesquisa no Centro de Dor da Divisão de Clínica
Neurológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) com doentes com dor central pós-
AVE. Alguns dos objetivos da pesquisa foram identificar os processos de
enfrentamento de homens e mulheres e comparar os processos de
enfrentamento entre ambos os gêneros.
Participaram da pesquisa 50 sujeitos, sendo 25 homens e 25 mulheres com
dor central decorrente de AVE isquêmico ou hemorrágico. Foram incluídos na
pesquisa os sujeitos com idade igual ou superior a 30 anos, escolaridade
mínima de 4 anos e presença de dor central decorrente de AVE há, pelo
menos, 3 meses. Foram excluídos os sujeitos com déficit cognitivo, de
linguagem ou com sintomas psicóticos, que não conseguiriam responder os
instrumentos. Para verificar a presença de critérios de inclusão e exclusão
foram utilizados os seguintes instrumentos: prontuários médicos, Mini Exame
do Estado Mental (MEEM), entrevista clínica estruturada para escala breve de
avaliação psiquiátrica e inquérito de dados demográficos e clínicos.
As estratégias de enfrentamento utilizadas por estes pacientes foram
identificadas a partir da Escala Modos de Enfrentamento de Problemas
(EMEP), versão desenvolvida por Seidl et al.,52 construída por Vitaliano et
al.53 e traduzida e adaptada para a língua portuguesa por Gimenes e Queiroz.54
É composta de 45 itens sobre o que as pessoas fazem, pensam ou sentem para
enfrentar problemas e por uma pergunta aberta (Você tem feito alguma outra
coisa para enfrentar ou lidar com essa dificuldade ou problema?).
Após analisar os prontuários dos sujeitos para se verificar a existência de
critérios de exclusão e de inclusão e coletar informações demográficas e
clínicas que configurassem o diagnóstico de AVE, os indivíduos que
inicialmente se enquadraram nos critérios foram avaliados cognitivamente
com o MEEM; os que apresentaram pontuação igual ou superior a 24 pontos e
não apresentaram sintomas de transtorno psicótico após responderem as
perguntas referentes aos quatro itens da entrevista clínica estruturada para
escala breve de avaliação psiquiátrica responderam a EMEP.
O teste estatístico que possibilitou a comparação dos gêneros em relação
às variáveis quantitativas foi o teste t para amostras independentes. Para as
análises estatísticas das variáveis qualitativas, foi utilizado o teste Qui-
quadrado. O nível de significância foi de 0,05.
A Tabela 11.1 mostra as médias, medianas, desvios padrão e níveis de
significância de homens e mulheres e do total da amostra referente à
frequência de uso das quatro estratégias de enfrentamentos medidas pela
EMEP: enfrentamento centrado no problema (Enfr. Prob.), enfrentamento
centrado na emoção (Enfr. Em.), busca de práticas religiosas e pensamentos
fantasiosos (Prat. Relig. Pens. Fant.) e busca de suporte social (Sup. Soc.).
Tabela 11.1 Distribuição dos sujeitos de ambos os gêneros quanto às médias, medianas, desvios
padrão (DP) e nível de signi cância (p) em relação à frequência de uso das estratégias de
enfrentamento medidas pela EMEP.
Estratégias de Média Homens DP Média Mulheres DP Média Total DP Teste
enfrentamento (mediana) (mediana) (mediana) t (p)
Enfr. Prob. 3,7 3,7 0,6 3,7 3,6 0,8 3,7 3,7 0,7 0,661
Enfr. Em. 2,3 2,1 0,7 2,2 2,1 0,6 2,3 2,1 0,7 0,545
Prat. Relig. Pens. 3,4 3,6 2,9 4 4,1 0,8 3,7 3,7 0,9 0,034
Fant.
Sup. Soc. 2,9 2,8 1,1 3 3,2 0,8 2,9 3 1 0,897
Os homens e as mulheres apresentaram a mesma média de frequência de
uso (3,7) do Enfr. Prob. No Enfr. Em., os homens apresentaram a média de 2,3
e as mulheres de 2,2. A média dos homens na Sup. Soc. foi de 2,9 e das
mulheres 3. Quanto à Prat. Relig. Pens. Fant, as mulheres apresentaram média
superior (4) a dos homens (3,4). Verificou-se diferença estatisticamente
significativa entre homens e mulheres quanto ao uso desta estratégia.
Em relação à questão aberta da EMEP, as estratégias de enfrentamento
referidas pelos sujeitos foram divididas em dois grupos: centradas no
problema (buscar tratamento para a dor, fingir não sentir dor, ignorar a dor e
aceitar a incapacitação pela dor) e centradas na emoção (distrair a atenção da
dor, fazer autoafirmações de enfrentamento, controlar as emoções, realizar
atividades espirituais e religiosas e buscar suporte social).
A Tabela 11.2 revela o número total de sujeitos e de homens e mulheres
que relataram utilizar estratégias de enfrentamento centradas no problema. Tabela 11.2 Distribuição dos sujeitos de ambos os gêneros em números absolutos (n) e níveis de
signi cância (p) quanto ao uso de estratégias de enfrentamento centradas no problema em relação à
pergunta aberta da EMEP.
Estratégias de Homens (n) Mulheres (n) Total (n) Teste t (p)
enfrentamento
centradas no
problema
Buscar tratamento 10 10 20 0,613
para dor
Ignorar a dor 3 5 8 0,351
Aceitar a incapacitação 2 3 5 0,500
pela dor
Total 15 21 36
Buscar tratamento para a dor foi a estratégia de enfrentamento centrada no
problema mais utilizada, sendo referida por 10 homens e 10 mulheres; a
estratégia de ignorar a dor foi mencionada por 3 homens e 5 mulheres; fingir
não sentir dor foi estratégia relatada por 3 mulheres e nenhum dos homens, e
aceitar a incapacitação pela dor foi referida como estratégia de enfrentamento
por 2 homens e 3 mulheres. A análise estatística não revelou diferença
significativa entre homens e mulheres quanto às estratégias de enfrentamento
centradas no problema na questão aberta da EMEP, como mostrou a Tabela
11.2.
A Tabela 11.3 apresenta o número de sujeitos que referiram utilizar as
estratégias de enfrentamento centradas na emoção.
Tabela 11.3 Distribuição dos sujeitos de ambos os gêneros em números absolutos (n) e níveis de
signi cância (p) quanto ao uso de estratégias de enfrentamento centradas na emoção em relação à
questão aberta da EMEP.
Estratégias de Homens (n) Mulheres (n) Total (n) Teste t (p)
enfrentamento
centradas na
emoção
Distrair a atenção da 16 16 32 0,616
dor
Fazer autoa rmações 3 1 4 0,305
de enfrentamento
Controlar as emoções 2 2 4 0,695
Realizar atividades 0 5 5 0,025
espirituais e religiosas
Buscar suporte social 5 6 11 0,500
Total 26 30 56
Distrair a atenção da dor foi a estratégia de enfrentamento centrada na
emoção mais utilizada, referida por 16 homens e 16 mulheres. Buscar suporte
social foi mencionada por 5 homens e 6 mulheres; a estratégia de buscar
atividades espirituais e religiosas foi relatada somente por 5 mulheres, não
sendo mencionada por nenhum homem. Quatro sujeitos disseram usar as
estratégias de fazer autoafirmações de enfrentamento e controlar as emoções,
sendo que a primeira estratégia foi referida por 3 homens e 1 mulher, e a
segunda por 2 homens e 2 mulheres.
Somente as mulheres (5) revelaram usar a estratégia de buscar atividades
espirituais e religiosas como modo de enfrentamento da dor. A análise
estatística realizada por meio do teste t mostrou haver diferença
estatisticamente significativa entre homens e mulheres quanto ao uso desta
estratégia de enfrentamento.
Os dados explicitados revelaram que houve diferença estatisticamente
significativa entre homens e mulheres em relação à frequência do uso da
estratégia Prat. Relig. Pens. Fant da EMEP, em que as mulheres revelaram
utilizar mais do que os homens. Na questão aberta desta mesma escala, em
que foram criadas categorias de enfrentamento, constatou-se diferença
estatisticamente significativa entre homens e mulheres quanto à estratégia de
realizar atividades espirituais e religiosas. Com base nestes dados, é possível
constatar que as mulheres da amostra utilizam atividades espirituais e
religiosas com mais frequência do que os homens.
Na questão aberta pertencente à EMEP, as mulheres apresentaram 51
respostas de estratégias de enfrentamento somando as centradas no problema e
na emoção, e os homens, 41. Comparando o número de respostas, verificou-se que as mulheres apresentaram um número maior de respostas referentes às
estratégias de enfrentamento do que os homens. Diante disso, pôde-se levantar
a hipótese de que as mulheres que participaram da pesquisa utilizam um
número maior de estratégias de enfrentamento do que os homens. Este dado é
condizente com o de Affleck et al.,39 que constataram que as mulheres
utilizam mais estratégias de enfrentamento do que os homens.
A estratégia de enfrentamento mais referida pelos sujeitos foi distrair a
atenção da dor. Esta é uma das sete estratégias básicas de enfrentamento da
dor consideradas por Rosenstiel e Keefe.35 Em uma pesquisa em que um dos
objetivos foi identificar as estratégias de enfrentamento utilizadas por
indivíduos com um longo tempo de dor, também se verificou que a distração
da atenção foi uma das mais utilizadas pelos sujeitos.37 McCaul e Haugtvedt36
verificaram que esta estratégia de enfrentamento é mais eficaz para a dor se
comparada à estratégia focalização da atenção na sensação dolorosa. O
resultado na presente pesquisa e os resultados das outras pesquisas
mencionadas possibilitam levantar a hipótese de que distrair a atenção da dor
é uma estratégia eficaz no enfrentamento da dor central causada por AVE.
Considerações finais
Ao longo deste capítulo, foram explicitados vários estudos sobre gênero e
dor envolvendo diversos aspectos, principalmente aspectos cognitivos e
comportamentais. Verificou-se consenso em muitos estudos em relação a
alguns resultados; no entanto, alguns estudos mostraram resultados
controversos, que precisam ser mais explorados em pesquisas futuras.
Vale ressaltar a escassez de estudos sobre a relação entre gênero e dor e
dor central no Brasil e a necessidade de se desenvolver novas pesquisas sobre
este tema, as quais podem contribuir para o tratamento dos pacientes com
dores crônicas.
Referências bibliográficas
1. AMARAL, C. C. G. Debates de gênero: a transversalidade do conceito. Fortaleza: UFC, 2005. p. 13-28.
2. SCOTT, J. W. Gender and the politics of history. New York: Columbia University, 1988.
3. OLINTO, M. T. A. Reflexões sobre o uso do conceito de gênero e/ou sexo na epidemiologia: um exemplo nos modelos hierarquizados de análise. Rev. Bras. Epidemiol, v. 1, n. 2, p. 161-169, 1998.
4. ALBUQUERQUE, R. M. et al. Mortalidade materna em Recife: avaliação da subenumeração de estatísticas oficiais. Cad. Saúde Pública, v. 13, p. 59-65, 1997.
5. ALVES, A. M.; COURA-FILHO, P. Avaliação das ações de atenção às mulheres sob violência no espaço familiar, atendidas no centro de apoio à mulher (Belo Horizonte), entre 1996 e 1998. Ciênc. Saúde Colet., v. 6, p. 243-257, 2001.
6. VICTORA, C.; KNAUTH, D. R. Corpo, gênero e saúde: a contribuição da antropologia. In: STREY, M. N.; CABEDA, S. T. L. Corpo e subjetividade em exercício interdisciplinar. Porto Alegre: Edpucrs, 2004.
7. MYERS, C. D.; RILEY, J. L.; ROBINSON, M. E. Psychosocial contributions to sex-correlated differences in pain. Clin. J. Pain, v. 19, n. 4, p. 225-232, 2003.
8. FILLINGIM, R. B. Sex-related influences on pain: a review of mechanisms and clinical implications. Rehabil. Psychol, v. 48, n. 3, p. 165-174, 2003.
9. UNRUH, A. M. Gender variations in clinical pain experience. Pain, v. 65, p. 123-167, 1996.
10. AL’ABSI, M.; PETERSEN, K. L.; WITTMERS, L. E. Adrenocortical and hemodynamic predictors of pain perception in men and women. Pain, v. 96, p. 197-204, 2002.
11. DIXON, K. E.; THORN, B. E.; WARD, C. An evaluation of sex differences in psychological and physiological responses to experimentally-induced pain: a path analytic description. Pain, v. 112, p. 188-196, 2004.
12. HELLSTROM, B.; ANDERBERG, U. M. Pain perception across the menstrual cycle phases in women with chronic pain. Percept. Mot. Skills, v. 96, p. 201-211, 2003. 13. KANG, S. C. et al. Association between estrogen receptor polymorphism and pain susceptibility in female temporomandibular joint osteoarthritis patients. Int. J. Oral Maxillofac. Surg., v. 36, n. 5, p. 391-394, 2007.
14. GREENSPAN, J.D. et al. Studying sex and gender differences in pain and analgesia: a consensus report. Pain, v. 132, p. 26-45, 2007.
15. GOLOMBOCK, S.; FIVUSH, R. Gender development. New York: Cambridge University, 1995. p. 1-37.
16. NAYAK, S. et al. Culture and gender effects in pain beliefs and the prediction of pain tolerance. Cross-Cult. Res., v. 34, p. 135-151, 2000.
17. HOBARA, M. Beliefs about appropriate pain behavior: cross-cultural and sex differences between Japanese and Euro-American. Eur. J. Pain, v. 9, p. 389-393, 2005.
18. ASLAKSEN, P. M. The effect of experimenter gender on autonomic and subjective responses to pain stimuli. Pain, v. 129, p. 260-268, 2007.
19. KALLAI, I.; BARKE, A.; VOSS, U. The effects of experimenter characteristic on pain reports in women and men. Pain, v. 112, p. 142-147, 2004.
20. MARQUIE, L. et al. Pain rating by patients and physicians: evidence of sistematic pain miscalibration. Pain, v. 102, p. 289-296, 2003.
21. KOUTANTJI, M.; PEARCE, S. A.; OAKLEY, D. A. The relationship between gender and family history of pain with current pain experience and awareness of pain in others. Pain, v. 77, p. 25-31, 1998.
22. FILLINGIM, R. B.; NESS, T. J. Sex-related hormonal influences on pain and analgesic responses. Neuroscience and Behavioral Reviews, v. 24, n. 4, p. 485-501, 2000.
23. EDWARDS, P. W. Familial pain models: the relationship between family history of pain and current pain experience. Pain, v. 21, p. 379-384, 1985.
24. NEUMANN, L.; BUSKILA, D. Quality of life and physical functioning of relatives of fibromyalgia patients. Sem. Arth. Rheum., v. 26, p. 834-839, 1997.
25. LESTER, N.; LEFEBVRE, J. C.; KEEFE, F. J. Pain in young adults: relationship to gender and family pain history. Clin. J. Pain, v. 10, p. 282-289, 1994.
26. NOGUEIRA, M. As diferenças entre homens e mulheres no enfrentamento da dor. Dor, v. 9, n. 2, p. 1242-1252, 2008.
27. NOGUEIRA, M. Gênero: representação cognitiva e enfrentamento da dor central decorrente de acidente vascular encefálico. 2010. Dissertação – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
28. JUSTO, L. P.; CALIL, H. M. Depressão – o mesmo acometimento para homens e mulheres? Rev. Psiquiatr. Clín., v. 33, n. 2, p. 74-79, 2006.
29. BUCKELEW, S. P. Health locus of control, gender differences and adjustment to persistent pain. Pain, v. 42, n. 3, p. 287-294, 1990.
30. FROT, M.; FEINE, J. S.; BUSHNELL, M. C. Sex differences in pain perception and anxiety. A psychophysical study with topical capsaicina. Pain, v. 108, p. 230-236, 2004.
31. JONES, A.; ZACHARIAE, R.; ARENDT-NIELSEN, L. Dispositional anxiety and the experience of pain: gender-specific effects. Eur. J. Pain, v. 7, n. 5, p. 387-395, 2003.
32. EDWARDS, R.; AUGUSTSON, E.; FILLINGIM, R. Sex-specific effects of pain-related anxiety on adjustment to chronic pain. Clin. J. Pain, v. 16, p. 46-53, 2000.
33. LAZARUS, R. S.; FOLKMAN, S. Stress, appraisal, and coping. New York: Springer, 1984.
34. PORTNOI, A. G. O enfrentamento da dor. In: TEIXEIRA, M. J.; BRAUN, J. L.; MARQUEZ, J. O. Dor: contexto interdisciplinar. Curitiba: Mayo, 2003. p. 205-212.
35. ROSENSTIEL, A.; KEEFE, F. J. The use of coping strategies in chronic low back pain patients: relationship to patient characteristics and current adjustment. Pain, v. 17, p. 33-44, 1983.
36. MCCAUL, K. D.; HAUGTVEDT, C. P. Attention, distraction, and cold-pressor pain. J. Pers. Soc. Psychol, v. 43, p. 154-162, 1982.
37. WIDAR, M.; ANNA-CRISTINA, E. K.; AHLSTRO, G. Coping with long-term pain after a stroke. J. Pain Symptom Manage., v. 27, n. 3, p. 215-225, 2004.
38. KEOGH, E.; HERDENFELDT, M. Gender, coping and perception of pain. Pain, v. 97, p. 195-201, 2002.
39. AFFLECK, G. et al. Everyday life with osteoarthritis or rheumatoid arthritis: independent effects of disease and gender on daily pain, mood, and coping. Pain, v. 83, p. 601-609, 1999.
40. JENSEN, I. B. et al. Coping whit long-term musculoskeletal pain and its consequences: is gender a factor? Pain, v. 57, p. 167-172, 1994.
41. JENSEN, I. B. et al. A randomized controlled component analysis of a behavioral medicine rehabilitation program for chronic spinal pain: are de effects dependent on gender? Pain, v. 91, p. 65-78, 2001.
42. KEEFE, F. J. et al. Gender differences in pain, coping, and mood in individuals having osteoarthritic knee pain: a within-day analysis. Pain, v. 110, p. 571-577, 2004.
43. UNRUH, A. M.; RITCHIE, J.; MERSKEY, H. Does gender affect appraisal of pain and pain coping strategies? Clin. J. Pain, v. 15, p. 31-40, 1999.
44. KEOGH E, DENFORD S. Sex differences in perceptions of pain coping strategy usage. Eur. J. Pain, v. 13, n. 6, p. 629-634, 2009.
45 a . MERSKEY, H.; BOGDUK, N. Classification of chronic pain. 2 ed. Seattle: IASP Press, 1994.
46. OLIVEIRA, R. A. A. Dor central na doença vascular encefálica: caracterização de uma amostra e correlação das variáveis clínicas da expressão somática da dor com as imagens do encéfalo. Dissertação – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.
47 a . BOIVIE, J. Central Pain. In: WALL, P. D.; MELZACK, R. Text book of pain. 2 ed. New York: Raven Press, 1999. p. 879-913.
48. TASKER, R. R.; CARVALHO, G.; DOSTROVSKY, J. O. The history of central pain syndromes, with observations concerning pathophysiology and treatment. In: CASEY, K. L. Pain and central nervous system disease: the central pain syndromes. New York: Raven Press, 1991. p. 31-64.
49. AMÂNCIO, E.J. et al. Dor central devido a compressão do córtex parietal por tumor cerebral. Arq. Neuro-Psiquiatr., v. 20, n. 2, p. 487-489, 2002.
50. BONICA, J. J. Introduction: semantic, epidemiologic and educational issues. In: CASEY, K. L. Pain and central nervous system disease: the central pain syndromes. New York: Raven Press, 1991. p. 13-29.
51. OLIVEIRA, R. A. A. Dor central encefálica. In: ALVES, O. N. et al. Dor: princípios e prática. Porto Alegre: Artmed, 2009. p. 887-901.
52. SEIDL, E. M. F.; TRÓCCOLI, B. T.; ZANNON, C. M. L. C. Análise fatorial de uma medida de estratégia de enfrentamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 17, n. 3, p. 225-234, 2001.
53. VITALIANO, P. P. et al. The ways of coping checklist: revision and psychometric properties. Multivar. Behav. Res., v. 20, p. 3-26, 1985.
54. GIMENES, M. G. G.; QUEIROZ, B. As diferentes fases de enfrentamento durante o primeiro ano após a mastectomia. In: GIMENES, M. G. G.; FÁVERO, M. H. A mulher e o câncer. Campinas: Editorial Psy, 1997. p. 171-195.
OceanofPDF.com