A Psicologia da Dor
19 Novos Caminhos no Tratamento da Síndrome de Fibromialgia e Método Rolfing®
Paula Stall
A dor crônica generalizada, característica da síndrome de fibromialgia,
relaciona-se com a história de vida de seus portadores. Há indícios de que
os fibromiálgicos sejam mais sensíveis ao estresse psicológico e menos
aptos a lidar com os conflitos do cotidiano. Apesar dos recentes avanços da
medicina, o tratamento da dor crônica ainda não proporciona resultados
totalmente satisfatórios, sobretudo quando sua natureza é neuropática ou
musculoesquelética.
Saúde, dor e fibromialgia
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “bem-estar
físico, psíquico e social”, e o não reconhecimento do dualismo físico e
emocional pode comprometer a eficácia do tratamento proposto.
Atualmente, a dor é sintoma considerado como o “quinto sinal vital”. O
doente com dor deve ser ouvido e o componente afetivo expresso com a dor
deve ser valorizado, uma vez que pode remeter a tempos precedentes às
manifestações dolorosas e indicar sua origem.1
A força de vida que mobiliza o indivíduo sadio a encarar sua existência
de modo prazeroso, considerando a força anímica que permeia o somático e
adquire poder para mudar situações desfavoráveis, não ocorre com os
fibromiálgicos. A dor bloqueia sua musculatura e todas as forças contidas
nela. Ao longo de suas respectivas biografias, esses pacientes relatam que a
força de vontade também se foi anulando e que a relação com o mundo
ficou perdida. É comum negarem o próprio corpo e não sentirem a força de
superação e de transformação da dor, pois o contato consigo mesmos é feito
por intermédio dela; desestruturados e sem recursos para lidarem com isso,
deprimem-se, aprisionados na própria dor.
Nesse estágio, a doença crônica não tende à autocura, e sim, cada vez
mais, à piora. Esses pacientes precisam de um trabalho de transformação,
autoconhecimento e auto-educação que vise e estimule o desabrochar de
seus potenciais internos. A fibromialgia, que já é a expressão da “alma
paralisada”, vem como o fim de um processo, haja vista a dificuldade em se
visualizar um recomeço pela criação de novos caminhos.
Superação da dor em atitude de vida positiva
As pesquisas que originaram o presente texto foram motivadas pela
convicção de que a dor pode ser superada ou transformada em atitude de
vida mais positiva, quando entendida como sistema sensorial de alarme,
sinal ou alerta do organismo, uma vez que conduz a atenção ao estado de
desarmonia dos processos vitais ou fisiológicos e conscientiza o indivíduo
de que algo nele não vai bem.
Antes de iniciar o tratamento, algumas pacientes avaliadas nestes
estudos almejavam a tranquilidade e o equilíbrio; outras, a diminuição da
ansiedade, a perda do medo, a recuperação da independência e das atividades diárias, a retomada das amizades. Diziam: “Quero melhorar as
dores e relaxar os nervos” (sic, S.A., 47 anos de idade); “Quero qualquer
coisa que ajude” (sic, M.G., 56 anos de idade); “Quero voltar a ser feliz”
(sic, L.S., 40 anos de idade).
Nas situações crônicas de dor, a representação que o paciente faz de si
mesmo fica prejudicada, uma vez que sua atenção está voltada para seu
constante e infindável estado doloroso. É comum surgirem sentimentos de
inferioridade, de baixa autoestima e de desinteresse pelo mundo; o padrão
postural fica enfatizado e distorcido, e a estrutura psíquica, alterada.
“Quando a dor invade, tentamos nos livrar do corpo e nos desconectamos
de nós mesmas” (sic, R.M., 51 anos de idade).
As principais alterações psíquicas dos fibromiálgicos são os sintomas
depressivos e ansiosos. Há mudanças nos estados de ânimo e humor,
ressentimento com o passado e com a perda do corpo saudável.
Consequentemente, estabelecem relação com o corpo doente, estragado e
inválido, que só lhes oferece restrições, espaço para o sofrimento e para a
sensação de vazio profundo, como referiram alguns pacientes.
Diante da impossibilidade de se eliminar o sofrimento da vida, o
cuidado desta terapêutica consiste em acolher a dor e admitir que ela venha
trazer alguma mensagem ou ensinamento, e chamar para um caminho de
desenvolvimento; nesse caso, o paciente pode modificar, em liberdade, a
sua atitude diante da dor e optar pelo seu fortalecimento em vez do
enfraquecimento. Assim, a experiência dolorosa possibilita o despertar de
sentimentos mais dignos, como coragem, perdão, amor e compaixão, e não
alimenta as forças destrutivas. “Aprendi muito, principalmente a dar valor à
minha vida. Tenho um potencial que antes não via” (sic, L.S., 40 anos de
idade).
Entretanto, nem todos se conscientizam da dor emocional, o que faz
essa percepção se estabelecer no seu físico, ao passo que, quando adquirem
consciência desse processo e encaram a dor sem suprimi-la, podem
conduzir-se à sua superação. Suprimir é impedir que o organismo manifeste
seus sintomas por meio de qualquer procedimento que comprometa o
equilíbrio homeostático. A supressão pode causar a recidiva dos sintomas e
resultar na cronicidade de doenças.2
Além de a dor crônica geralmente se relacionar à história de vida de
cada um, também se refere ao estresse desencadeado mesmo por eventos
mínimos, porém suficientes para provocá-la e magnificar sua intensidade.3
São frequentes os relatos de impedimento, inibição ou frustração, que
podem ser sensações decorrentes de exclusão e privação física ou mental.
“Tudo cai em cima de mim e as dores só aumentam” (sic, C.B., 41 anos de
idade).
A vivência da dor dá origem a outras emoções, sentimentos e humores
e, com frequência, leva a sofrimento, dificuldades e tristeza. Quando não há
mais prazer a ser buscado e parece que nada mais tem valor ou importância
na vida, é o momento em que o estresse, acumulado e mal manejado, pode
causar dor e outros danos à saúde. Por outro lado, preservar-se e não correr
os riscos que a vida impõe é um convite à patogênese,2 o que dá chance
para os sintomas aparecerem e para a doença se instalar. Querer protegerse
para evitar tudo o que leva ao estresse impossibilita viver a vida plena e
intensamente. Segundo o filósofo Soren Kierkegaard, “aventurar-se causa
ansiedade, mas não se arriscar é perder a si mesmo... Aventurar-se, no
sentido mais elevado, é tomar consciência de si”.
Ansiedade e medo são emoções naturais relacionadas com a presença de
uma ameaça que, quando persistente e exagerada, pode tornar-se patológica,
pois altera as estratégias defensivas e os mecanismos de homeostase do
organismo. Assim, o evento percebido como ameaçador ao equilíbrio e ao
fluxo vital desencadeia transtorno de ansiedade, pânico ou depressão. A dor
crônica, presente nos quadros fibromiálgicos, causa também sentimentos de
desesperança, raiva, negação e dependência. “Ninguém tem tempo para
mim” (sic, R.M., 51 anos de idade).
A sensação, a emoção e o pensar sobre o que se sente criam fluxo
natural que deve ser livre; assim, a vida flui em um processo dinâmico. O
organismo vivo, delimitado pela pele, é percebido como uma unidade. A
dor alerta para alguma disfunção em sua vitalidade. Suprimir o sintoma sem
fazer essa reflexão interrompe o processo natural e pode anular a sensação
subjetiva de bem-estar. Por esse prisma, o sintoma é a matéria-prima que
proporciona à pessoa se conscientizar de si mesma para, então, criar novas
possibilidades.
O modo como o indivíduo se vê vem dos aspectos fisiológicos,
psíquicos e sociais que se inter-relacionam, além das próprias sensações e
gestos. Os processos emocionais dão força e direção para a construção da
autoimagem e estão intimamente relacionados com a singularidade das
experiências. Contudo, o estado de tensão muscular provocado pelo estresse
pode bloquear ou dificultar a comunicação e a percepção de si mesmo.
O padrão postural tem traços característicos da vida inteira; a relação
entre movimento e atitude psíquica é tão íntima que toda sequência de
tensão e relaxamento desencadeia atitudes particulares. Quanto mais livre
for a motricidade, mais eficaz será a manutenção e a adaptação das forças
dos equilíbrios corporal e emocional. Pela sua expressão corporal e gestual,
é possível afinar a tensão muscular, obter mais dinâmica e harmonia da
estrutura humana e conduzir o indivíduo a atitudes psíquicas mais genuínas
e adequadas. O equilíbrio compõe o quadro do bem-estar. O bom
alinhamento postural e a flexibilidade podem facilitar o equilíbrio e a
adaptação da instabilidade provocados pelos movimentos e oscilações,
inclusive emocionais.
Mecanismos e elementos desencadeantes da dor
O mecanismo responsável pela dor é incerto. A dor pode desencadear
espasmo muscular reflexo protetor que causa mais dor e resulta em
limitação progressiva dos movimentos, rigidez e adoção de postura
inadequada.4 Fisiologicamente, o sono, quando insatisfatório, não recupera
os tecidos, fenômeno que pode causar cansaço e indisposição e desencadear
um círculo vicioso – a reação à dor é o enrijecimento muscular, o que tende
a intensificá-la.5
É dessa maneira que se instalam os vícios de movimento, de postura e
de atitude que conduzem à conhecida “zona de conforto” e, assim,
sustentam e alimentam a própria dor. Na tentativa de se proteger da dor, é
comum paralisar o movimento em vez de fazê-lo com fluência. Este pode
ser um dos mecanismos responsáveis pelo mau funcionamento do
organismo e pelos sintomas dolorosos, ansiosos e depressivos.
De modo geral, os doentes com depressão temem mudanças, não se
movimentam e, portanto, tendem ao enrijecimento. Seus quadros podem agravar-se com fatores traumáticos, como perda de parentes próximos,
acidentes, atropelamentos, fraturas, cirurgias. Algumas pacientes estudadas
manifestaram a sensação de inutilidade e solidão por não terem ninguém
com quem contar e pelo sentimento de descrédito na sua dor e da perda da
própria identidade.
Um trauma, físico ou emocional, frequentemente desencadeia síndrome
fibromiálgica, pois provoca tensões que reverberam pelo tecido conjuntivo
e dificultam o movimento contínuo dos músculos que, comprimidos e
imobilizados, transmitem o fluxo vital de modo inapropriado. O choque
traumático ocorre quando são vivenciados acontecimentos ameaçadores que
excedem a habilidade na eficácia da resposta. Os sintomas desencadeados
são tanto fisiológicos quanto emocionais, deixam marcas na memória do
indivíduo e condicionam sua atitude.
A “energia” presa na imobilidade pode ser transformada. Em
contrapartida, o processo de transformação e de libertação acontece quando
o desbloqueio muscular se associa às sensações que trazem novo olhar para
a ansiedade e para a falta de esperança; quando o indivíduo adquire
consciência e reavalia eventos traumáticos, pode fazer novas escolhas.
Dessa maneira, a sensação de integridade física não é produto do acaso, e
sim da consciência de si mesmo. No entanto, quando tendências destrutivas
prevalecem, essa integridade se dispersa. O importante é que o paciente
perceba algo novo em si, assim como na dor, e que conquiste a perspectiva
de novos caminhos.
O movimento natural, idealmente executado de maneira suave, fácil e
confortável, sem sobrecarga e com flexibilidade, auxilia a reorganização do
aparelho locomotor e integra a manutenção do equilíbrio fisiológico. No
entanto, a recuperação da qualidade do sono e a boa alimentação são
condições essenciais para que isso ocorra naturalmente. “Não sou mais
aquela dura” (sic, M.G., 56 anos de idade).
A terapia com o movimento pretende viabilizar a coordenação motora e
facilitar a expressão dos gestos. Sua importância se dá por estimular o
paciente a executar e praticar o movimento por ele mesmo, o que lhe traz a
oportunidade de mudar. Segundo a reconhecida sabedoria de Lao Tsé:
“saber e não fazer ainda não é saber”.
Se o ser humano se expressar por atitudes decorrentes a partir de um
referencial externo incoerente com seu desejo interior, pode criar um ciclo
de frustração e insegurança, negação crônica da volição e perda do poder de
atuação no mundo. Nesse contexto, o enfrentamento, ou seja, a maneira
como se lida com as situações estressantes, enfraquece. Por outro lado,
quando o gesto é um ato da vontade, a superação dos obstáculos e das
restrições motoras traz sensação de alegria e liberdade. Assim, por meio do
movimento, pode-se transformar o cotidiano.
O estresse é produto da má confluência entre uma pessoa e o meio em
que vive. Os conflitos são fatores estressantes e influenciam os estados
físico e mental, além das relações interpessoais. Em casos de dor crônica, o
comportamento advém de estratégias inadequadas de enfrentamento; em
outras palavras, da ineficiência do indivíduo em resolver seus conflitos. A
dor, desencadeada pelo estresse acumulado, influencia os mecanismos de
sua modulação e percepção e se modifica de acordo com o modo como é
interpretada. Contudo, essa sensação de desconforto tem um componente
emocional negativo que drena a vitalidade, e sua percepção física se torna a
somatização das experiências do indivíduo. Por esse motivo, o paciente
deve entender a sua dor para que possa superá-la.
Pele como caminho de acesso ao paciente
A pele é o órgão de percepção dos limites corporais e pode ser um
caminho de acesso ao paciente. A dor está dentro da pele, e tocá-la é uma
linguagem. A comunicação transmitida pelo toque é um poderoso modo de
criar relações humanas. O toque parece legitimar a existência de quem
tocou e de quem foi tocado. É antiga a crença na magia do toque de pessoas
poderosas e sagradas, seja para o bem ou para o mal. A percepção de si
mesmo é, em grande medida, uma questão de experiências táteis. O
significado que se dá a essas experiências é fundamental para o
desenvolvimento do comportamento.6
A sensação básica do tato como estímulo é vital para a sobrevivência
física do organismo. A pele dos que foram submetidos a carências táteis
fica “desligada”. Um indivíduo nessas condições pode estar tão tenso no
nível cutâneo que não se percebe mais e se “desconecta” de si mesmo. O tato é, ao mesmo tempo, o sentido mais periférico e o mais interior, e pode
favorecer a recuperação do impulso para a interação com o mundo. A
percepção tátil bem desenvolvida pode trazer segurança e despertar
sentimento de confiança em si e no mundo.6 O padrão postural mostra como
o limite interno lida com o externo, nas relações humanas. Ao diminuir a
suscetibilidade às influências externas, a saúde, ou vitalidade, pode
fortalecer-se, enquanto a consciência de si mesmo pode levar à
individualidade e à autonomia.
Um toque humano, com efeito curativo, pode intensificar as habilidades
terapêuticas e a potencialidade da recuperação do doente. Ao se estabelecer
“com-tato”, o indivíduo percebe a própria atitude corporal, o que lhe dá a
possibilidade de modificá-la. Com esta terapêutica, é possível mostrar aos
fibromiálgicos outros modos de se comunicarem com eles mesmos e com
os outros que não seja pela dor e que esta pode ser substituída por alívio,
leveza e prazer. Assim, a dor pode ser uma oportunidade de superação e de
transformação.
O trabalho corporal pode ter efeito mais profundo que o paliativo, isto é,
ir além da diminuição dos sintomas, desde que o objetivo seja não suprimir
esses sintomas, e sim trazer possibilidades de desenvolvimento ao paciente,
aliviando-lhe a dor por meio do toque, estimulando-lhe os movimentos e
conscientizando-o de que a origem e a cura da doença podem estar
relacionadas com o contato com a sua percepção interior.
Prática psicossomática e fáscias
A prática psicossomática aborda o ser humano por meio de sua estrutura
física; entende que esta é produto da experiência individual e que o
processo de conscientização é essencial para sua organização e integração.
O corpo humano tem suas partes unidas e sustentadas pelo tecido
conjuntivo, e a intervenção manipulativa deve abranger todo o organismo
de modo que seja possível reorganizá-lo, pois a fáscia é capaz de, ao mesmo
tempo, manter sua forma e ser maleável, em consequência da sua
elasticidade e plasticidade.
As fáscias têm o importante papel de fazer intermediações entre os
músculos e os ossos, percorrem toda a extensão do organismo e formam a rede fascial, matriz das atividades fisiológicas. Auxiliam o deslizamento
intramuscular e facilitam a harmonia e a dinâmica do movimento. Quando
há restrição nas fáscias, tanto o movimento quanto a função estão
comprometidos. Desse modo, qualquer deformação na rede fascial pode ser
vista como desequilíbrio e pode estar associada à dor.7
O sistema fascial, envolvido na autorregulação e na restauração
fisiológica, assim como nas ações voluntárias, reflete o equilíbrio entre
atividade e repouso do organismo. Por estar intimamente envolvido com
outros tecidos, tem ampla capacidade de adaptação e é esta característica
que oferece ambiente propício para as constantes alterações metabólicas e
para outros tecidos se restabelecerem. O toque, quando proporciona a
liberação miofascial, ajusta os tecidos moles que atuam nas estruturas
ósseas e articulares de modo que, quando o tônus muscular entra em
equilíbrio, faz o conjunto apresentar menos resistência e recuperar sua
flexibilidade.
Aprumar a estrutura humana é otimizar sua verticalidade, sua marcha e
o modo como cada parte isolada se relaciona com outra e com o conjunto.
Ao se considerar que a saúde decorre do alinhamento como um todo, a
diminuição das limitações físicas proporciona melhora na qualidade de
vida. Analogamente, Aaron Antonovsky,8 especialista em sociologia
médica, observou que algumas pessoas lidavam melhor com situações
estressantes e também desenvolviam mais condições de combater doenças
do que outras. Ao refletir sobre como uma pessoa lida com a inabilidade de
controlar a própria vida, o autor avaliou a capacidade em se perceber e
enfrentar o estresse, com enfoque na sua relação com saúde e doença.
Mostrou que há ligação entre o estresse e as estratégias de enfrentamento,
uma vez que entendia que saúde não é apenas ausência de doenças, mas sim
a habilidade em superá-las.
Antonovsky criou a teoria de salutogênese e o senso de coerência que
trouxe nova abordagem para a avaliação de doentes em condições crônicas
de saúde e formulou que coerência, ou alinhamento, entre compreensão,
significado e manejo também favorece a saúde. Recomendou que se
considerasse a história do indivíduo, inclusive sua doença. Para ele, pensar
em termos salutogênicos significava investigar o que leva à manutenção da
saúde em vez do que leva ao aparecimento das doenças; significava valorizar os recursos de enfrentamento, em vez de valorizar os fatores
estressores. Ele acreditava que essa coerência traz benefícios à qualidade de
vida e que o desenvolvimento de muitas doenças não é causado pelo
estresse em si, mas pela impossibilidade de manejá-lo. Descreveu “manejo”
como a habilidade em enfrentar e solucionar episódios estressantes; a
“compreensão” refere-se ao modo como o indivíduo entende tal situação e o
“significado” diz respeito ao sentimento despertado.9
Desse modo, quando há um elevado senso de coerência, isto é, de
compreensão de um evento estressor e do sintoma que o acompanha,
juntamente com o significado emocional que lhe é conferido, há aumento
dos recursos para lidar com tal evento e, portanto, maior possibilidade de
êxito de cura; consequentemente, há o fortalecimento da saúde.
Um elevado senso de coerência pode, por exemplo, manifestar-se tanto
em sentimento de confiança em si quanto em habilidade para ordenar a
instabilidade da doença crônica e conduzir à melhor condição física e
psicológica, além de motivação para retomar o cotidiano e minimizar o
impacto da doença na qualidade de vida e nas relações sociais. Do mesmo
modo, no quadro fibromiálgico, o aperfeiçoamento do senso de coerência
pode ajudar a assumir outra atitude em relação à doença e aos sintomas e
tornar o paciente capaz de olhar o mesmo contexto de modo diferente, com
mais criatividade, em busca de novas resoluções. “Encontrei várias
respostas que buscava e, embora não tenha ainda colocado tudo em
prática, não sofro mais por antecipação” (sic, M.A., 49 anos de idade).
O senso de coerência tem sido associado a estudos de qualidade de
vida,10 ansiedade11 e depressão12 por ter se mostrado relevante para
estabelecer estratégias de enfrentamento, o que contribui para o processo de
recuperação do doente. A mudança de padrão ou de atitude torna-se
possível quando se reconhece o que estabelece o círculo ou comportamento
vicioso e se sabe como sair dele. Para isso, é necessário conhecer o motivo
de tal mudança.13,14 De acordo com Moraes,15 a salutogênese pode ser vista
como um caminho de entendimento e compreensão do próprio ser humano,
alinhado ao significado que ele atribui aos seus sentimentos e à sua força de
vontade de realização.
Esses estudos foram realizados por se acreditar que é possível alterar o
próprio enfrentamento e, com isso, o modo como se lida com o estresse; por se acreditar que é possível superar a dor ao assumir outra postura em
relação à doença e, assim, diminuir a intensidade da dor e os níveis de
ansiedade e depressão, frequentemente apresentados pelos portadores de
fibromialgia, e melhorar sua qualidade de vida física e emocional.13,14 D.M.,
56 anos de idade, relatou que: “a dor não é mais assustadora; antes tinha
medo dela, hoje não tenho mais porque sei de onde ela vem” (sic). Desse
ponto de vista, a manutenção da saúde está em fortalecer os recursos de
enfrentamento e em minorar os fatores estressores.
Dar significado à dor também é uma maneira de modulá-la, uma vez
que pode conduzir à nova representação e à solução de conflitos, ao
considerar que o que impede o movimento, idealmente livre e natural, deve
estar relacionado com a percepção, a coordenação neuromotora, o tecido
miofascial e o significado emocional.
Método Rolfing ®
Ida Poline Rolf criou o método Rolfing®16 com a proposta de integrar e
alinhar a estrutura física e desenvolver a percepção corporal a fim de
alcançar o equilíbrio geral do indivíduo. Esse método objetiva melhorar as
funções do organismo aprimorando o alinhamento de sua estrutura com o
auxílio da prática manipulativa e da orientação dos movimentos. Ida Rolf
acreditava que um corpo equilibrado torna o ser humano melhor.
Para Rolf, o desalinhamento postural, decorrente dos maus hábitos da
postura e da movimentação, dos estresses físicos e emocionais e das
sobrecargas de peso e forças, causa desconforto físico, vícios de
movimentos e de expressões corporais; também compromete o
funcionamento do aparelho locomotor e do sistema nervoso. Ao retomar
sua harmonia natural e equilíbrio, o organismo consome menos energia para
executar suas funções e adquire maneiras mais eficientes de se mover com
flexibilidade e integração.
O método Rolfing® baseia-se na premissa de que alinhamento postural,
bem-estar e qualidade de vida dependem da capacidade humana de
adaptação ao campo da gravidade. É uma abordagem que auxilia a viver e
atuar com maior eficiência de movimentos. A integração da postura refere-se à relação harmoniosa entre todas as partes e subsistemas que constituem
o organismo humano, bem como sua relação com o ambiente.
O método Rolfing® mostrou efeitos positivos sobre a saúde, tanto na
autopercepção quanto na integridade corporal, de acordo com Maia.13,14
Para Maia, é importante que cada pessoa descubra sua maneira de relaxar,
de enfrentar seus próprios conflitos e recuperar o equilíbrio interno, pois
isso pode melhorar o enfrentamento e facilitar a resolução dos conflitos
criados pela cronicidade da doença.
À medida que o sentimento flui na expressão do gesto, a força de
vontade também se revela e pode promover novo entendimento de si
mesmo. O método Rolfing® incentiva o movimento fluido e procura criar
condições para que o indivíduo caminhe a partir de si mesmo. Dar um
impulso ou iniciar um gesto pode remover algo desagradável, bem como
dar um novo passo pode encorajar a mudança de hábito, de postura e de
atitude.
Convém enfatizar que este não é somente um processo paliativo que
pode melhorar a dor, pois, em que pese o quadro clínico não regredir
totalmente, não é supressivo. Por supressão do sintoma entende-se
melhorar, por exemplo, a dor sem alteração dos fatores intrínsecos e
profundos que a provocam. “Se você trabalha apenas no sintoma, ele pode
piorar; deve-se também trabalhar a raiz do sintoma”, afirmava Rolf.
Resultados com método Rolfing ®
Ao término do tratamento, as pacientes apresentaram, além da melhora
dos sintomas fisiológicos, como sono, cansaço, apetite e sensação de bem-
estar geral, mudanças nos sintomas emocionais, como ansiedade, tristeza,
depressão e falta de confiança. Por meio do toque físico e de novas
possibilidades de movimento, foram despertadas para uma nova realidade
delas mesmas, o que as estimulou a conquistar melhora na qualidade de
vida em direção a um novo estado de saúde.
Quando finalizaram o tratamento, as voluntárias participantes dessas
pesquisas reconheceram ter aprendido a enfrentar a dor com mais coragem
e passaram a acreditar que tinham força para vencê-la. “A dor não pode
fazer da nossa vida um pesadelo! Se você sabe lidar com ela, você acaba com ela” (sic, M.N., 55 anos de idade). Demonstraram que mudar de
postura não se restringe à mudança de forma, mas sim, de atitude.
Também aprenderam a detectar seu cansaço, a descansar e a respirar
com fluidez; como resultado, obtiveram alívio das dores. As doentes
relataram que suas posturas corporais melhoraram e suas vidas também.
Aprenderam que é possível relaxar e que um movimento pode acontecer
com menos sobrecarga. “Eu nem sabia como um movimento tão simples
resolve! Não é parar de fazer, é saber fazer” (sic, M.N. 55 anos de idade),
ao se conscientizar que o movimento pode ser mais organizado.
Estavam mais alinhadas e firmes, andavam com mais suavidade e
sentiam o apoio do solo. Não caíam mais nem tropeçavam com facilidade, e
até suas tonturas melhoraram: “Não preciso desanimar e ficar no chão, eu
posso levantar!” (sic, expressou L.S., 40 anos de idade). O nível de
ansiedade diminuiu: “Não sou mais estressada: se der, eu faço” (sic, M.A.,
49 anos de idade). Expressavam sua própria opinião e não precisavam mais
ficar tão caladas ou passivas, pois podiam falar sem se envergonhar.
Sentiam-se menos reprimidas e faziam planos para o futuro, como mudar de
casa, de trabalho e até mesmo de parar de fumar. Contaram que seu
relacionamento com familiares e amigos havia melhorado, o que lhes
favoreceu a reintegração social.
Sentindo-se menos doloridas, estavam mais tranquilas, decididas e
seguras; mostravam-se mais ativas, dispostas, otimistas e bem-humoradas.
Algumas acrescentaram que estavam menos gulosas e briguentas. Para R.S.,
28 anos de idade, “a dor é um sinal de alerta do meu corpo de que algo não
está bom. Ele não está aceitando o que eu estou fazendo comigo” (sic). Elas
já não se cansavam com tanta facilidade e, quando as dores recorriam, eram
mais superficiais. C.B., 40 anos de idade, indagou: “Sabe um rio poluído?
Eu estava assim... Agora despoluiu! E a água está limpinha” (sic).
Estando menos deprimidas, seus problemas tornaram-se suportáveis e
elas afastaram seus medos e melhoraram sua produtividade. Passaram a
controlar melhor sua agressividade, seu ciúme e sua impulsividade. “Me
sinto livre... Saí da jaula! Estou tão serena que nem sinto raiva” (sic, M.H.,
49 anos de idade). Aprenderam mais a respeito de si mesmas e de seu
próprio corpo, sentindo-se vitoriosas quando conseguiam dominar a dor e
controlar as tensões.
Demonstravam-se mais comunicativas, interessadas e visualizavam seus
conflitos de outro modo: L.R., 62 anos de idade, declarou: “Não sou mais
coitadinha; aprendi a viver bem e a acreditar na vida, aprendi a esperar.
(...) Tive um encontro comigo mesma e vi que a felicidade vem de dentro.
Quando a gente tem uma dor, parece que pega ela no colo e fica
embalando... Eu, não!” (sic); e ainda S.M., 39 anos de idade afirma que:
“Vi que depende de mim ser curada” (sic). Com a consciência mais
assertiva e fortalecida, essas pacientes puderam lidar melhor com o próprio
corpo, o que lhes proporcionou um estado de equilíbrio mais coerente e
adequado. À medida que a identidade se direcionou à vitalidade, houve
aceitação de si e se olharam sem repulsa.
Considerações finais
A reverência ao próprio corpo faz a integração que possibilita ao ser
humano se expressar com liberdade e sem se sentir aprisionado. A
habilidade em administrar o estresse causado por mudanças súbitas ou por
insatisfação crônica é crucial para a manutenção da saúde e para o
desenvolvimento da qualidade de vida, que está relacionada com o processo
que leva o indivíduo a gostar da própria vida e a se sentir capaz de melhorá-
la. Isso proporciona à pessoa a capacidade de identificar e realizar suas
aspirações, satisfazer suas necessidades e lidar bem com o ambiente.
Mesmo que os sintomas não tenham desaparecido totalmente, as
pacientes do tratamento mencionado foram capazes de desenvolver novas
habilidades que, provavelmente, são possibilidades iniciais de cura. É o
princípio da salutogênese, da transformação e do autodesenvolvimento.15
Então, tratar o corpo físico é essencial para a compreensão de si mesmo,
caso se considere que a compreensão da postura e do significado do gesto
facilita o entendimento do que está acontecendo e possibilita o processo de
cura; assim, o sintoma e a atitude corporal tornam-se a chave desse
processo.
Desse modo, pode-se atribuir às terapias do aparelho locomotor, do
alinhamento postural e da coordenação dos movimentos, bem como à
acupuntura, a perspectiva profilática para lidar também com a prevenção
dos desequilíbrios físicos e psíquicos. Esses tratamentos são complementares e não substituem os convencionais, mas podem fazer parte
de um amplo e novo caminho de vida para os doentes com dor.13,14
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