A Psicologia da Dor

Andréa G. Portnoi · Capítulo 23 de 23

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A Psicologia da Dor

19 Novos Caminhos no Tratamento da Síndrome de Fibromialgia e Método Rolfing®

Paula Stall

 

A dor crônica generalizada, característica da síndrome de fibromialgia,

relaciona-se com a história de vida de seus portadores. Há indícios de que

os fibromiálgicos sejam mais sensíveis ao estresse psicológico e menos

aptos a lidar com os conflitos do cotidiano. Apesar dos recentes avanços da

medicina, o tratamento da dor crônica ainda não proporciona resultados

totalmente satisfatórios, sobretudo quando sua natureza é neuropática ou

musculoesquelética.

 

Saúde, dor e fibromialgia

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “bem-estar

físico, psíquico e social”, e o não reconhecimento do dualismo físico e

emocional pode comprometer a eficácia do tratamento proposto.

Atualmente, a dor é sintoma considerado como o “quinto sinal vital”. O

doente com dor deve ser ouvido e o componente afetivo expresso com a dor

deve ser valorizado, uma vez que pode remeter a tempos precedentes às

manifestações dolorosas e indicar sua origem.1

A força de vida que mobiliza o indivíduo sadio a encarar sua existência

de modo prazeroso, considerando a força anímica que permeia o somático e

adquire poder para mudar situações desfavoráveis, não ocorre com os

fibromiálgicos. A dor bloqueia sua musculatura e todas as forças contidas

nela. Ao longo de suas respectivas biografias, esses pacientes relatam que a

força de vontade também se foi anulando e que a relação com o mundo

ficou perdida. É comum negarem o próprio corpo e não sentirem a força de

superação e de transformação da dor, pois o contato consigo mesmos é feito

por intermédio dela; desestruturados e sem recursos para lidarem com isso,

deprimem-se, aprisionados na própria dor.

Nesse estágio, a doença crônica não tende à autocura, e sim, cada vez

mais, à piora. Esses pacientes precisam de um trabalho de transformação,

autoconhecimento e auto-educação que vise e estimule o desabrochar de

seus potenciais internos. A fibromialgia, que já é a expressão da “alma

paralisada”, vem como o fim de um processo, haja vista a dificuldade em se

visualizar um recomeço pela criação de novos caminhos.

 

Superação da dor em atitude de vida positiva

 

As pesquisas que originaram o presente texto foram motivadas pela

convicção de que a dor pode ser superada ou transformada em atitude de

vida mais positiva, quando entendida como sistema sensorial de alarme,

sinal ou alerta do organismo, uma vez que conduz a atenção ao estado de

desarmonia dos processos vitais ou fisiológicos e conscientiza o indivíduo

de que algo nele não vai bem.

Antes de iniciar o tratamento, algumas pacientes avaliadas nestes

estudos almejavam a tranquilidade e o equilíbrio; outras, a diminuição da

ansiedade, a perda do medo, a recuperação da independência e das atividades diárias, a retomada das amizades. Diziam: “Quero melhorar as

dores e relaxar os nervos” (sic, S.A., 47 anos de idade); “Quero qualquer

coisa que ajude” (sic, M.G., 56 anos de idade); “Quero voltar a ser feliz”

(sic, L.S., 40 anos de idade).

Nas situações crônicas de dor, a representação que o paciente faz de si

mesmo fica prejudicada, uma vez que sua atenção está voltada para seu

constante e infindável estado doloroso. É comum surgirem sentimentos de

inferioridade, de baixa autoestima e de desinteresse pelo mundo; o padrão

postural fica enfatizado e distorcido, e a estrutura psíquica, alterada.

“Quando a dor invade, tentamos nos livrar do corpo e nos desconectamos

de nós mesmas” (sic, R.M., 51 anos de idade).

As principais alterações psíquicas dos fibromiálgicos são os sintomas

depressivos e ansiosos. Há mudanças nos estados de ânimo e humor,

ressentimento com o passado e com a perda do corpo saudável.

Consequentemente, estabelecem relação com o corpo doente, estragado e

inválido, que só lhes oferece restrições, espaço para o sofrimento e para a

sensação de vazio profundo, como referiram alguns pacientes.

Diante da impossibilidade de se eliminar o sofrimento da vida, o

cuidado desta terapêutica consiste em acolher a dor e admitir que ela venha

trazer alguma mensagem ou ensinamento, e chamar para um caminho de

desenvolvimento; nesse caso, o paciente pode modificar, em liberdade, a

sua atitude diante da dor e optar pelo seu fortalecimento em vez do

enfraquecimento. Assim, a experiência dolorosa possibilita o despertar de

sentimentos mais dignos, como coragem, perdão, amor e compaixão, e não

alimenta as forças destrutivas. “Aprendi muito, principalmente a dar valor à

minha vida. Tenho um potencial que antes não via” (sic, L.S., 40 anos de

idade).

Entretanto, nem todos se conscientizam da dor emocional, o que faz

essa percepção se estabelecer no seu físico, ao passo que, quando adquirem

consciência desse processo e encaram a dor sem suprimi-la, podem

conduzir-se à sua superação. Suprimir é impedir que o organismo manifeste

seus sintomas por meio de qualquer procedimento que comprometa o

equilíbrio homeostático. A supressão pode causar a recidiva dos sintomas e

resultar na cronicidade de doenças.2

Além de a dor crônica geralmente se relacionar à história de vida de

cada um, também se refere ao estresse desencadeado mesmo por eventos

mínimos, porém suficientes para provocá-la e magnificar sua intensidade.3

São frequentes os relatos de impedimento, inibição ou frustração, que

podem ser sensações decorrentes de exclusão e privação física ou mental.

“Tudo cai em cima de mim e as dores só aumentam” (sic, C.B., 41 anos de

idade).

A vivência da dor dá origem a outras emoções, sentimentos e humores

e, com frequência, leva a sofrimento, dificuldades e tristeza. Quando não há

mais prazer a ser buscado e parece que nada mais tem valor ou importância

na vida, é o momento em que o estresse, acumulado e mal manejado, pode

causar dor e outros danos à saúde. Por outro lado, preservar-se e não correr

os riscos que a vida impõe é um convite à patogênese,2 o que dá chance

para os sintomas aparecerem e para a doença se instalar. Querer protegerse

para evitar tudo o que leva ao estresse impossibilita viver a vida plena e

intensamente. Segundo o filósofo Soren Kierkegaard, “aventurar-se causa

ansiedade, mas não se arriscar é perder a si mesmo... Aventurar-se, no

sentido mais elevado, é tomar consciência de si”.

Ansiedade e medo são emoções naturais relacionadas com a presença de

uma ameaça que, quando persistente e exagerada, pode tornar-se patológica,

pois altera as estratégias defensivas e os mecanismos de homeostase do

organismo. Assim, o evento percebido como ameaçador ao equilíbrio e ao

fluxo vital desencadeia transtorno de ansiedade, pânico ou depressão. A dor

crônica, presente nos quadros fibromiálgicos, causa também sentimentos de

desesperança, raiva, negação e dependência. “Ninguém tem tempo para

mim” (sic, R.M., 51 anos de idade).

A sensação, a emoção e o pensar sobre o que se sente criam fluxo

natural que deve ser livre; assim, a vida flui em um processo dinâmico. O

organismo vivo, delimitado pela pele, é percebido como uma unidade. A

dor alerta para alguma disfunção em sua vitalidade. Suprimir o sintoma sem

fazer essa reflexão interrompe o processo natural e pode anular a sensação

subjetiva de bem-estar. Por esse prisma, o sintoma é a matéria-prima que

proporciona à pessoa se conscientizar de si mesma para, então, criar novas

possibilidades.

O modo como o indivíduo se vê vem dos aspectos fisiológicos,

psíquicos e sociais que se inter-relacionam, além das próprias sensações e

gestos. Os processos emocionais dão força e direção para a construção da

autoimagem e estão intimamente relacionados com a singularidade das

experiências. Contudo, o estado de tensão muscular provocado pelo estresse

pode bloquear ou dificultar a comunicação e a percepção de si mesmo.

O padrão postural tem traços característicos da vida inteira; a relação

entre movimento e atitude psíquica é tão íntima que toda sequência de

tensão e relaxamento desencadeia atitudes particulares. Quanto mais livre

for a motricidade, mais eficaz será a manutenção e a adaptação das forças

dos equilíbrios corporal e emocional. Pela sua expressão corporal e gestual,

é possível afinar a tensão muscular, obter mais dinâmica e harmonia da

estrutura humana e conduzir o indivíduo a atitudes psíquicas mais genuínas

e adequadas. O equilíbrio compõe o quadro do bem-estar. O bom

alinhamento postural e a flexibilidade podem facilitar o equilíbrio e a

adaptação da instabilidade provocados pelos movimentos e oscilações,

inclusive emocionais.

 

Mecanismos e elementos desencadeantes da dor

 

O mecanismo responsável pela dor é incerto. A dor pode desencadear

espasmo muscular reflexo protetor que causa mais dor e resulta em

limitação progressiva dos movimentos, rigidez e adoção de postura

inadequada.4 Fisiologicamente, o sono, quando insatisfatório, não recupera

os tecidos, fenômeno que pode causar cansaço e indisposição e desencadear

um círculo vicioso – a reação à dor é o enrijecimento muscular, o que tende

a intensificá-la.5

É dessa maneira que se instalam os vícios de movimento, de postura e

de atitude que conduzem à conhecida “zona de conforto” e, assim,

sustentam e alimentam a própria dor. Na tentativa de se proteger da dor, é

comum paralisar o movimento em vez de fazê-lo com fluência. Este pode

ser um dos mecanismos responsáveis pelo mau funcionamento do

organismo e pelos sintomas dolorosos, ansiosos e depressivos.

De modo geral, os doentes com depressão temem mudanças, não se

movimentam e, portanto, tendem ao enrijecimento. Seus quadros podem agravar-se com fatores traumáticos, como perda de parentes próximos,

acidentes, atropelamentos, fraturas, cirurgias. Algumas pacientes estudadas

manifestaram a sensação de inutilidade e solidão por não terem ninguém

com quem contar e pelo sentimento de descrédito na sua dor e da perda da

própria identidade.

Um trauma, físico ou emocional, frequentemente desencadeia síndrome

fibromiálgica, pois provoca tensões que reverberam pelo tecido conjuntivo

e dificultam o movimento contínuo dos músculos que, comprimidos e

imobilizados, transmitem o fluxo vital de modo inapropriado. O choque

traumático ocorre quando são vivenciados acontecimentos ameaçadores que

excedem a habilidade na eficácia da resposta. Os sintomas desencadeados

são tanto fisiológicos quanto emocionais, deixam marcas na memória do

indivíduo e condicionam sua atitude.

A “energia” presa na imobilidade pode ser transformada. Em

contrapartida, o processo de transformação e de libertação acontece quando

o desbloqueio muscular se associa às sensações que trazem novo olhar para

a ansiedade e para a falta de esperança; quando o indivíduo adquire

consciência e reavalia eventos traumáticos, pode fazer novas escolhas.

Dessa maneira, a sensação de integridade física não é produto do acaso, e

sim da consciência de si mesmo. No entanto, quando tendências destrutivas

prevalecem, essa integridade se dispersa. O importante é que o paciente

perceba algo novo em si, assim como na dor, e que conquiste a perspectiva

de novos caminhos.

O movimento natural, idealmente executado de maneira suave, fácil e

confortável, sem sobrecarga e com flexibilidade, auxilia a reorganização do

aparelho locomotor e integra a manutenção do equilíbrio fisiológico. No

entanto, a recuperação da qualidade do sono e a boa alimentação são

condições essenciais para que isso ocorra naturalmente. “Não sou mais

aquela dura” (sic, M.G., 56 anos de idade).

A terapia com o movimento pretende viabilizar a coordenação motora e

facilitar a expressão dos gestos. Sua importância se dá por estimular o

paciente a executar e praticar o movimento por ele mesmo, o que lhe traz a

oportunidade de mudar. Segundo a reconhecida sabedoria de Lao Tsé:

“saber e não fazer ainda não é saber”.

Se o ser humano se expressar por atitudes decorrentes a partir de um

referencial externo incoerente com seu desejo interior, pode criar um ciclo

de frustração e insegurança, negação crônica da volição e perda do poder de

atuação no mundo. Nesse contexto, o enfrentamento, ou seja, a maneira

como se lida com as situações estressantes, enfraquece. Por outro lado,

quando o gesto é um ato da vontade, a superação dos obstáculos e das

restrições motoras traz sensação de alegria e liberdade. Assim, por meio do

movimento, pode-se transformar o cotidiano.

O estresse é produto da má confluência entre uma pessoa e o meio em

que vive. Os conflitos são fatores estressantes e influenciam os estados

físico e mental, além das relações interpessoais. Em casos de dor crônica, o

comportamento advém de estratégias inadequadas de enfrentamento; em

outras palavras, da ineficiência do indivíduo em resolver seus conflitos. A

dor, desencadeada pelo estresse acumulado, influencia os mecanismos de

sua modulação e percepção e se modifica de acordo com o modo como é

interpretada. Contudo, essa sensação de desconforto tem um componente

emocional negativo que drena a vitalidade, e sua percepção física se torna a

somatização das experiências do indivíduo. Por esse motivo, o paciente

deve entender a sua dor para que possa superá-la.

 

Pele como caminho de acesso ao paciente

 

A pele é o órgão de percepção dos limites corporais e pode ser um

caminho de acesso ao paciente. A dor está dentro da pele, e tocá-la é uma

linguagem. A comunicação transmitida pelo toque é um poderoso modo de

criar relações humanas. O toque parece legitimar a existência de quem

tocou e de quem foi tocado. É antiga a crença na magia do toque de pessoas

poderosas e sagradas, seja para o bem ou para o mal. A percepção de si

mesmo é, em grande medida, uma questão de experiências táteis. O

significado que se dá a essas experiências é fundamental para o

desenvolvimento do comportamento.6

A sensação básica do tato como estímulo é vital para a sobrevivência

física do organismo. A pele dos que foram submetidos a carências táteis

fica “desligada”. Um indivíduo nessas condições pode estar tão tenso no

nível cutâneo que não se percebe mais e se “desconecta” de si mesmo. O tato é, ao mesmo tempo, o sentido mais periférico e o mais interior, e pode

favorecer a recuperação do impulso para a interação com o mundo. A

percepção tátil bem desenvolvida pode trazer segurança e despertar

sentimento de confiança em si e no mundo.6 O padrão postural mostra como

o limite interno lida com o externo, nas relações humanas. Ao diminuir a

suscetibilidade às influências externas, a saúde, ou vitalidade, pode

fortalecer-se, enquanto a consciência de si mesmo pode levar à

individualidade e à autonomia.

Um toque humano, com efeito curativo, pode intensificar as habilidades

terapêuticas e a potencialidade da recuperação do doente. Ao se estabelecer

“com-tato”, o indivíduo percebe a própria atitude corporal, o que lhe dá a

possibilidade de modificá-la. Com esta terapêutica, é possível mostrar aos

fibromiálgicos outros modos de se comunicarem com eles mesmos e com

os outros que não seja pela dor e que esta pode ser substituída por alívio,

leveza e prazer. Assim, a dor pode ser uma oportunidade de superação e de

transformação.

O trabalho corporal pode ter efeito mais profundo que o paliativo, isto é,

ir além da diminuição dos sintomas, desde que o objetivo seja não suprimir

esses sintomas, e sim trazer possibilidades de desenvolvimento ao paciente,

aliviando-lhe a dor por meio do toque, estimulando-lhe os movimentos e

conscientizando-o de que a origem e a cura da doença podem estar

relacionadas com o contato com a sua percepção interior.

 

Prática psicossomática e fáscias

 

A prática psicossomática aborda o ser humano por meio de sua estrutura

física; entende que esta é produto da experiência individual e que o

processo de conscientização é essencial para sua organização e integração.

O corpo humano tem suas partes unidas e sustentadas pelo tecido

conjuntivo, e a intervenção manipulativa deve abranger todo o organismo

de modo que seja possível reorganizá-lo, pois a fáscia é capaz de, ao mesmo

tempo, manter sua forma e ser maleável, em consequência da sua

elasticidade e plasticidade.

As fáscias têm o importante papel de fazer intermediações entre os

músculos e os ossos, percorrem toda a extensão do organismo e formam a rede fascial, matriz das atividades fisiológicas. Auxiliam o deslizamento

intramuscular e facilitam a harmonia e a dinâmica do movimento. Quando

há restrição nas fáscias, tanto o movimento quanto a função estão

comprometidos. Desse modo, qualquer deformação na rede fascial pode ser

vista como desequilíbrio e pode estar associada à dor.7

O sistema fascial, envolvido na autorregulação e na restauração

fisiológica, assim como nas ações voluntárias, reflete o equilíbrio entre

atividade e repouso do organismo. Por estar intimamente envolvido com

outros tecidos, tem ampla capacidade de adaptação e é esta característica

que oferece ambiente propício para as constantes alterações metabólicas e

para outros tecidos se restabelecerem. O toque, quando proporciona a

liberação miofascial, ajusta os tecidos moles que atuam nas estruturas

ósseas e articulares de modo que, quando o tônus muscular entra em

equilíbrio, faz o conjunto apresentar menos resistência e recuperar sua

flexibilidade.

Aprumar a estrutura humana é otimizar sua verticalidade, sua marcha e

o modo como cada parte isolada se relaciona com outra e com o conjunto.

Ao se considerar que a saúde decorre do alinhamento como um todo, a

diminuição das limitações físicas proporciona melhora na qualidade de

vida. Analogamente, Aaron Antonovsky,8 especialista em sociologia

médica, observou que algumas pessoas lidavam melhor com situações

estressantes e também desenvolviam mais condições de combater doenças

do que outras. Ao refletir sobre como uma pessoa lida com a inabilidade de

controlar a própria vida, o autor avaliou a capacidade em se perceber e

enfrentar o estresse, com enfoque na sua relação com saúde e doença.

Mostrou que há ligação entre o estresse e as estratégias de enfrentamento,

uma vez que entendia que saúde não é apenas ausência de doenças, mas sim

a habilidade em superá-las.

Antonovsky criou a teoria de salutogênese e o senso de coerência que

trouxe nova abordagem para a avaliação de doentes em condições crônicas

de saúde e formulou que coerência, ou alinhamento, entre compreensão,

significado e manejo também favorece a saúde. Recomendou que se

considerasse a história do indivíduo, inclusive sua doença. Para ele, pensar

em termos salutogênicos significava investigar o que leva à manutenção da

saúde em vez do que leva ao aparecimento das doenças; significava valorizar os recursos de enfrentamento, em vez de valorizar os fatores

estressores. Ele acreditava que essa coerência traz benefícios à qualidade de

vida e que o desenvolvimento de muitas doenças não é causado pelo

estresse em si, mas pela impossibilidade de manejá-lo. Descreveu “manejo”

como a habilidade em enfrentar e solucionar episódios estressantes; a

“compreensão” refere-se ao modo como o indivíduo entende tal situação e o

“significado” diz respeito ao sentimento despertado.9

Desse modo, quando há um elevado senso de coerência, isto é, de

compreensão de um evento estressor e do sintoma que o acompanha,

juntamente com o significado emocional que lhe é conferido, há aumento

dos recursos para lidar com tal evento e, portanto, maior possibilidade de

êxito de cura; consequentemente, há o fortalecimento da saúde.

Um elevado senso de coerência pode, por exemplo, manifestar-se tanto

em sentimento de confiança em si quanto em habilidade para ordenar a

instabilidade da doença crônica e conduzir à melhor condição física e

psicológica, além de motivação para retomar o cotidiano e minimizar o

impacto da doença na qualidade de vida e nas relações sociais. Do mesmo

modo, no quadro fibromiálgico, o aperfeiçoamento do senso de coerência

pode ajudar a assumir outra atitude em relação à doença e aos sintomas e

tornar o paciente capaz de olhar o mesmo contexto de modo diferente, com

mais criatividade, em busca de novas resoluções. “Encontrei várias

respostas que buscava e, embora não tenha ainda colocado tudo em

prática, não sofro mais por antecipação” (sic, M.A., 49 anos de idade).

O senso de coerência tem sido associado a estudos de qualidade de

vida,10 ansiedade11 e depressão12 por ter se mostrado relevante para

estabelecer estratégias de enfrentamento, o que contribui para o processo de

recuperação do doente. A mudança de padrão ou de atitude torna-se

possível quando se reconhece o que estabelece o círculo ou comportamento

vicioso e se sabe como sair dele. Para isso, é necessário conhecer o motivo

de tal mudança.13,14 De acordo com Moraes,15 a salutogênese pode ser vista

como um caminho de entendimento e compreensão do próprio ser humano,

alinhado ao significado que ele atribui aos seus sentimentos e à sua força de

vontade de realização.

Esses estudos foram realizados por se acreditar que é possível alterar o

próprio enfrentamento e, com isso, o modo como se lida com o estresse; por se acreditar que é possível superar a dor ao assumir outra postura em

relação à doença e, assim, diminuir a intensidade da dor e os níveis de

ansiedade e depressão, frequentemente apresentados pelos portadores de

fibromialgia, e melhorar sua qualidade de vida física e emocional.13,14 D.M.,

56 anos de idade, relatou que: “a dor não é mais assustadora; antes tinha

medo dela, hoje não tenho mais porque sei de onde ela vem” (sic). Desse

ponto de vista, a manutenção da saúde está em fortalecer os recursos de

enfrentamento e em minorar os fatores estressores.

Dar significado à dor também é uma maneira de modulá-la, uma vez

que pode conduzir à nova representação e à solução de conflitos, ao

considerar que o que impede o movimento, idealmente livre e natural, deve

estar relacionado com a percepção, a coordenação neuromotora, o tecido

miofascial e o significado emocional.

 

Método Rolfing ®

 

Ida Poline Rolf criou o método Rolfing®16 com a proposta de integrar e

alinhar a estrutura física e desenvolver a percepção corporal a fim de

alcançar o equilíbrio geral do indivíduo. Esse método objetiva melhorar as

funções do organismo aprimorando o alinhamento de sua estrutura com o

auxílio da prática manipulativa e da orientação dos movimentos. Ida Rolf

acreditava que um corpo equilibrado torna o ser humano melhor.

Para Rolf, o desalinhamento postural, decorrente dos maus hábitos da

postura e da movimentação, dos estresses físicos e emocionais e das

sobrecargas de peso e forças, causa desconforto físico, vícios de

movimentos e de expressões corporais; também compromete o

funcionamento do aparelho locomotor e do sistema nervoso. Ao retomar

sua harmonia natural e equilíbrio, o organismo consome menos energia para

executar suas funções e adquire maneiras mais eficientes de se mover com

flexibilidade e integração.

O método Rolfing® baseia-se na premissa de que alinhamento postural,

bem-estar e qualidade de vida dependem da capacidade humana de

adaptação ao campo da gravidade. É uma abordagem que auxilia a viver e

atuar com maior eficiência de movimentos. A integração da postura refere-se à relação harmoniosa entre todas as partes e subsistemas que constituem

o organismo humano, bem como sua relação com o ambiente.

O método Rolfing® mostrou efeitos positivos sobre a saúde, tanto na

autopercepção quanto na integridade corporal, de acordo com Maia.13,14

Para Maia, é importante que cada pessoa descubra sua maneira de relaxar,

de enfrentar seus próprios conflitos e recuperar o equilíbrio interno, pois

isso pode melhorar o enfrentamento e facilitar a resolução dos conflitos

criados pela cronicidade da doença.

À medida que o sentimento flui na expressão do gesto, a força de

vontade também se revela e pode promover novo entendimento de si

mesmo. O método Rolfing® incentiva o movimento fluido e procura criar

condições para que o indivíduo caminhe a partir de si mesmo. Dar um

impulso ou iniciar um gesto pode remover algo desagradável, bem como

dar um novo passo pode encorajar a mudança de hábito, de postura e de

atitude.

Convém enfatizar que este não é somente um processo paliativo que

pode melhorar a dor, pois, em que pese o quadro clínico não regredir

totalmente, não é supressivo. Por supressão do sintoma entende-se

melhorar, por exemplo, a dor sem alteração dos fatores intrínsecos e

profundos que a provocam. “Se você trabalha apenas no sintoma, ele pode

piorar; deve-se também trabalhar a raiz do sintoma”, afirmava Rolf.

 

Resultados com método Rolfing ®

 

Ao término do tratamento, as pacientes apresentaram, além da melhora

dos sintomas fisiológicos, como sono, cansaço, apetite e sensação de bem-

estar geral, mudanças nos sintomas emocionais, como ansiedade, tristeza,

depressão e falta de confiança. Por meio do toque físico e de novas

possibilidades de movimento, foram despertadas para uma nova realidade

delas mesmas, o que as estimulou a conquistar melhora na qualidade de

vida em direção a um novo estado de saúde.

Quando finalizaram o tratamento, as voluntárias participantes dessas

pesquisas reconheceram ter aprendido a enfrentar a dor com mais coragem

e passaram a acreditar que tinham força para vencê-la. “A dor não pode

fazer da nossa vida um pesadelo! Se você sabe lidar com ela, você acaba com ela” (sic, M.N., 55 anos de idade). Demonstraram que mudar de

postura não se restringe à mudança de forma, mas sim, de atitude.

Também aprenderam a detectar seu cansaço, a descansar e a respirar

com fluidez; como resultado, obtiveram alívio das dores. As doentes

relataram que suas posturas corporais melhoraram e suas vidas também.

Aprenderam que é possível relaxar e que um movimento pode acontecer

com menos sobrecarga. “Eu nem sabia como um movimento tão simples

resolve! Não é parar de fazer, é saber fazer” (sic, M.N. 55 anos de idade),

ao se conscientizar que o movimento pode ser mais organizado.

Estavam mais alinhadas e firmes, andavam com mais suavidade e

sentiam o apoio do solo. Não caíam mais nem tropeçavam com facilidade, e

até suas tonturas melhoraram: “Não preciso desanimar e ficar no chão, eu

posso levantar!” (sic, expressou L.S., 40 anos de idade). O nível de

ansiedade diminuiu: “Não sou mais estressada: se der, eu faço” (sic, M.A.,

49 anos de idade). Expressavam sua própria opinião e não precisavam mais

ficar tão caladas ou passivas, pois podiam falar sem se envergonhar.

Sentiam-se menos reprimidas e faziam planos para o futuro, como mudar de

casa, de trabalho e até mesmo de parar de fumar. Contaram que seu

relacionamento com familiares e amigos havia melhorado, o que lhes

favoreceu a reintegração social.

Sentindo-se menos doloridas, estavam mais tranquilas, decididas e

seguras; mostravam-se mais ativas, dispostas, otimistas e bem-humoradas.

Algumas acrescentaram que estavam menos gulosas e briguentas. Para R.S.,

28 anos de idade, “a dor é um sinal de alerta do meu corpo de que algo não

está bom. Ele não está aceitando o que eu estou fazendo comigo” (sic). Elas

já não se cansavam com tanta facilidade e, quando as dores recorriam, eram

mais superficiais. C.B., 40 anos de idade, indagou: “Sabe um rio poluído?

Eu estava assim... Agora despoluiu! E a água está limpinha” (sic).

Estando menos deprimidas, seus problemas tornaram-se suportáveis e

elas afastaram seus medos e melhoraram sua produtividade. Passaram a

controlar melhor sua agressividade, seu ciúme e sua impulsividade. “Me

sinto livre... Saí da jaula! Estou tão serena que nem sinto raiva” (sic, M.H.,

49 anos de idade). Aprenderam mais a respeito de si mesmas e de seu

próprio corpo, sentindo-se vitoriosas quando conseguiam dominar a dor e

controlar as tensões.

Demonstravam-se mais comunicativas, interessadas e visualizavam seus

conflitos de outro modo: L.R., 62 anos de idade, declarou: “Não sou mais

coitadinha; aprendi a viver bem e a acreditar na vida, aprendi a esperar.

(...) Tive um encontro comigo mesma e vi que a felicidade vem de dentro.

Quando a gente tem uma dor, parece que pega ela no colo e fica

embalando... Eu, não!” (sic); e ainda S.M., 39 anos de idade afirma que:

“Vi que depende de mim ser curada” (sic). Com a consciência mais

assertiva e fortalecida, essas pacientes puderam lidar melhor com o próprio

corpo, o que lhes proporcionou um estado de equilíbrio mais coerente e

adequado. À medida que a identidade se direcionou à vitalidade, houve

aceitação de si e se olharam sem repulsa.

 

Considerações finais

 

A reverência ao próprio corpo faz a integração que possibilita ao ser

humano se expressar com liberdade e sem se sentir aprisionado. A

habilidade em administrar o estresse causado por mudanças súbitas ou por

insatisfação crônica é crucial para a manutenção da saúde e para o

desenvolvimento da qualidade de vida, que está relacionada com o processo

que leva o indivíduo a gostar da própria vida e a se sentir capaz de melhorá-

la. Isso proporciona à pessoa a capacidade de identificar e realizar suas

aspirações, satisfazer suas necessidades e lidar bem com o ambiente.

Mesmo que os sintomas não tenham desaparecido totalmente, as

pacientes do tratamento mencionado foram capazes de desenvolver novas

habilidades que, provavelmente, são possibilidades iniciais de cura. É o

princípio da salutogênese, da transformação e do autodesenvolvimento.15

Então, tratar o corpo físico é essencial para a compreensão de si mesmo,

caso se considere que a compreensão da postura e do significado do gesto

facilita o entendimento do que está acontecendo e possibilita o processo de

cura; assim, o sintoma e a atitude corporal tornam-se a chave desse

processo.

Desse modo, pode-se atribuir às terapias do aparelho locomotor, do

alinhamento postural e da coordenação dos movimentos, bem como à

acupuntura, a perspectiva profilática para lidar também com a prevenção

dos desequilíbrios físicos e psíquicos. Esses tratamentos são complementares e não substituem os convencionais, mas podem fazer parte

de um amplo e novo caminho de vida para os doentes com dor.13,14

 

Referências bibliográficas

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14. MAIA, P. S. C. Avaliação de pacientes com síndrome fibromiálgica tratados pelo método Rolfing® de integração estrutural e por acupuntura. Tese (Doutorado). Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

15. MORAES, W. A. Salutogênese e autocultivo: uma abordagem interdisciplinar – sanidade, educação e qualidade de vida. Rio de Janeiro: Instituto Gaia, 2006. p. 9-30.

16 ® . ROLF, I. P. Rolfing: a integração das estruturas humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

 

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