A Psicologia da Dor
4 Dor | Visão Biopsicossocial
Jamir Sardá Júnior
Este capítulo versa sobre a compreensão da dor a partir de modelos
biopsicossociais, bem como a partir da contribuição de fatores psicossociais
para o aumento da incapacidade, do sofrimento mental e da capacidade
laboral em pacientes com dor crônica. Inicialmente, serão descritos alguns
modelos de dor e, em seguida, será analisada a contribuição dos fatores
psicossociais como mediadores de dor.a
Definições de dor
A raiz latina da palavra dor é dolor, que significa sofrimento. No
cotidiano, o termo dor está vinculado a sofrimento físico e/ou mental.
Outras definições referem-se à dor como um sofrimento moral, ou seja,
mágoa, pesar, desconforto, uma sensação desagradável. Apesar do desconforto existente, a função inicial da dor é informar sobre um perigo
potencial ou real, bem como sobre a quebra da homeostase organísmica.
Entretanto, quando se torna crônica, em geral perde sua função original de
sinalizar um dano.
A dor é a causa mais comum para que um paciente procure um médico.
Cerca de 75% das pessoas que procuram um médico fazem referência a
algum tipo de dor. Este é um sintoma frequente, presente tanto em doenças
agudas quanto crônicas. A prevalência de dor crônica na população mundial
varia entre 7 e 40%, embora mais recentemente se estime que, de modo
geral, 20% da população apresenta dor crônica.1 Esses dados ilustram a
magnitude desse problema e seus possíveis impactos socioeconômicos.
Além disso, é importante entender como esse fenômeno é compreendido.
Segundo a International Association for the Study of Pain (IASP),2 a dor
é uma experiência desagradável, sensitiva e emocional, associada a uma
lesão real ou potencial dos tecidos, ou descrita em termos dessa lesão. A
definição da IASP reflete o reconhecimento da existência de componentes
ou dimensões biológicas e psicológicas da dor, e enfatiza também a noção
de não causalidade, tanto em relação a lesões quanto ao fato de a dimensão
emocional não ser apenas uma resposta à dor.
Para compreender melhor esse conceito, é importante conhecer um
pouco da história da evolução dos modelos de dor, que será apresentada a
seguir.
Modelos de dor
Existem diversos modelos teóricos sobre a dor. Esses modelos podem
ser divididos em teorias restritivas e teorias abrangentes.3
Teorias restritivas
Entre as teorias restritivas, há a teoria cartesiana, a da especificidade, a
teoria padrão (input), a psicológica, a comportamental operante radical e a
teoria cognitiva radical, entre outras.
O modelo cartesiano, proposto por René Descartes (1596-1650), é
talvez o modelo de saúde-doença mais conhecido e propõe a compreensão do homem dividindo-o em res cogitans e res extensa. O primeiro conceito
refere-se à substância pensante, à mente, e o segundo (res extensa) é
definido como a matéria, o corpo físico. Descartes desenvolveu sua teoria
sobre o funcionamento do sistema nervoso e enfatizou a transmissão de
sinais de dor (vias aferentes), entendidos como res extensa e interpretados
pelos ventrículos e glândula pineal como res cogitans. Este modelo é bem
ilustrado na Figura 4.1.4
Figura 4.1 Modelo cartesiano de transmissão de dor.
Embora com algumas diferenças, as teorias restritivas têm em comum o
fato de propor a compreensão da dor restringindo-a a um elemento, em
geral com ênfase na relação de causalidade e na dicotomia da relação
mente-corpo. As diversas limitações desses modelos e a evolução natural da
ciência resultaram no desenvolvimento de modelos denominados teorias
abrangentes.
Teorias abrangentes
As teorias abrangentes de dor mais conhecidas são a teoria da comporta
de controle da dor (gate control theory), a comportamental-operante não
radical e a teoria da neuromatriz. Os modelos teóricos abrangentes
reconhecem a existência de diversas dimensões da experiência dolorosa e
tentam integrá-las na construção de uma teoria.
A teoria da comporta de controle da dor4 é o modelo mais usado na
compreensão da dor e estabeleceu um novo paradigma ao enfatizar a
importância da modulação realizada pela espinha medular, pelo sistema
nervoso central e pelo hipotálamo nos processos dolorosos. Conforme
Melzack e Wall:4
A substância gelatinosa funciona como um sistema de controle de portal, modulando os padrões aferentes antes desses influenciarem as células ‘T’. Padrões aferentes na coluna dorsal atuam em parte como um controle central de disparo, que ativa determinados processos neurais, tais como: liberação de neurotransmissores e outras substâncias, influenciando as propriedades moduladoras do sistema de portal. As células “T”, por sua vez, ativam mecanismos neurais que compreendem o sistema de ação responsável por respostas e percepção de estímulos.
(1965, p. 974)
O modelo proposto por Melzack e Wall salienta que a transdução dos
estímulos dolorosos depende de um complexo processo biológico que conta
com a presença de diversas substâncias. Entretanto, esse modelo enfatiza
que essa transdução pode ser mediada por aspectos psicossociais, como
processos atencionais, memórias, crenças, afetos e aspectos sociais. A teoria
da comporta concebe o processamento de estímulos nociceptivos não
apenas como um processo ascendente, mas também por elementos
descendentes, que agem a partir do sistema nervoso central para a periferia
(p. ex., medula e órgãos do sentido).
A teoria de neuromatriz5 amplia a compreensão do modelo do controle
de portais e sugere a existência de mudanças em termos de conexões
cerebrais, substâncias e plasticidade cerebral decorrentes da presença da dor
crônica. Essas mudanças contribuiriam para o desenvolvimento desse
cérebro no sentido de ser mais apto a interpretar a dor, ou seja, uma matriz
neural mais sensível à nocicepção. Esse modelo mais recente já é
sustentado por evidências científicas e possibilita compreender com mais
clareza quadros de fibromialgia e síndrome dolorosa complexa regional.6
Nas últimas décadas, modelos mais complexos e baseados em
evidências têm contribuído significativamente para a compreensão das
relações entre diversos fatores biológicos, psicológicos e sociais nos
quadros de dor. O modelo proposto por Flor e Turk7 ilustra de maneira clara
a relação dinâmica entre esses aspectos (Figura 4.2).
De modo geral, esse modelo propõe que estímulos desencadeadores
eliciadores internos ou externos resultam em respostas psicofisiológicas (p.
ex., aumento de batimentos cardíacos), que são influenciadas por fatores
predisposicionais (p. ex., fatores genéticos e ocupacionais), que, por sua
vez, desencadeiam respostas à dor. Essas respostas são mediadas por
processos mantenedores resultantes de condicionamentos, que também
interagem com estímulos e respostas eliciadoras (p. ex., estratégias de
enfrentamento e memórias de dor). Todos esses processos dinâmicos
culminam em um padrão de resposta psicofisiológico, que em última
análise é a experiência dolorosa.
Esse modelo biopsicossocial da dor crônica, baseado em décadas de
pesquisa e evidências, tem contribuído para a compreensão dos fenômenos
dolorosos, por diversos fatores. Em primeiro lugar, tem proporcionado um
modo de integrar evidências de mudanças fisiológicas e processos
psicossociais e de estabelecer uma interação dinâmica dessas duas
dimensões. Em segundo lugar, essa perspectiva tem proporcionado uma
alternativa a explicações mais biológicas e reducionistas. Em terceiro lugar,
esse modelo também serve de base para intervenções que abordam várias
dimensões da dor, em vez daquelas apenas centradas em aspectos
fisiológicos.
Outro modelo de saúde-doença, proposto por Engel,8 de natureza mais
clínica, tem contribuído para a contestação do modelo biomédico e para a
superação deste em favor do modelo biopsicossocial (Figura 4.3). Esse
modelo adaptado à compreensão da dor9 trouxe grandes contribuições para
a área.
Figura 4.2 Modelo psicobiológico da dor crônica. Adaptada de Engel.
Figura 4.3 8 Modelo biopsicossocial da dor. Adaptada de Engel.
Segundo esse modelo, aspectos biológicos interagem com dimensões
psicológicas, comportamentais, sociais e espirituais, para dar forma à
experiência da dor. Fatores biológicos podem iniciar, manter ou modular
perturbações físicas. Fatores psicológicos influenciam a avaliação e a
percepção de sinais fisiológicos, e fatores sociais vão dar forma às respostas
comportamentais do paciente sobre a percepção de suas perturbações
físicas.10 Ou seja, a vivência da dor, em geral, inicia-se com estímulos
nociceptivos, mas é mediada e modulada por aspectos psicológicos e
sociais. De maneira geral, pode-se inferir que o que pensamos, sentimos,
nosso comportamento, os contextos sociais e espirituais interagem de modo
dinâmico com o estímulo nociceptivo, determinando como será vivenciada
a dor. Esse modelo contribuiu para o entendimento da dor em uma
perspectiva multidimensional, e não unicausal, transcendendo o modelo
biomédico.
Outro modelo clínico, desenvolvido por Nicholas,11 traz elementos
importantes para a compreensão da dor crônica e enfatiza principalmente as
repercussões da dor (Figura 4.4).
Figura 4.4 11 Repercussões da dor. Adaptada de Nicholas.
Esse modelo, baseado em experiência clínica e em evidências, ilustra
com bastante riqueza a relação dinâmica entre as dimensões
biopsicossociais. Neste sentido, é possível perceber que pessoas com dor,
em geral, reduzem as atividades físicas, o que, por sua vez, contribui para
seu descondicionamento físico. A redução de atividades físicas não só
contribui para a redução da produção de alguns neurotransmissores que
favorecem nosso humor, mas também para a diminuição de nossa
autoestima, que está relacionada com nossas crenças de autoimagem. Ainda
no tocante aos aspectos biológicos, pode haver falhas em tratamentos, bem
como o excesso de uso de medicação e seus efeitos colaterais. Crenças
sobre a dor, como pensamentos catastróficos e de autoeficácia, também são
elementos que podem mediar o humor e o comportamento, bem como a
percepção de sinais biológicos (p. ex., a dor). Outros elementos, como
estresse familiar, problemas laborais e financeiros, também participam
desse quadro e podem contribuir para o aumento da incapacidade física e do
sofrimento emocional. Se, no caso de alguns pacientes com dor, diversas
dessas repercussões estão presentes, e, no caso de outros pacientes, poucas
dimensões se alteram, pode-se imaginar o diferente grau de incapacidade física e sofrimento experienciado por diferentes indivíduos com patologias
semelhantes.
Os elementos ilustrados por esse modelo tornam possível compreender
a interação dinâmica e multidirecional que ocorre entre diversos fatores
biológicos, psicológicos e sociais. A participação desses diversos fatores
pode dificultar, manter, intensificar ou exacerbar a maneira como a pessoa
com dor percebe as alterações fisiológicas e como responde a essa
condição.
A seguir, serão apresentadas algumas evidências da participação de
fatores psicossociais em quadros de dor, incapacidade e sofrimento mental.
Fatores psicossociais
As revisões sobre o papel de fatores psicossociais na dor crônica, em
especial dor cervical e lombalgias, têm descrito a função desses fatores na
precipitação da dor crônica, na transição da dor aguda para a dor crônica e
na incapacidade associada à dor crônica.10,12-14 Existem evidências de que
cognições, humor e interações comportamentais/ambientais estão
associadas à dor crônica. Entre os fatores cognitivos, estão crenças
relacionadas com a dor, como autoeficácia, catastrofização, medo-evitação
e aceitação.12,15 Os fatores afetivos/de humor incluem ansiedade, depressão
e estresse.13,14 As interações comportamentais/ambientais incluem processos
de aprendizagem e reforço. Fatores ambientais, como ambiente de trabalho
e litígios, também contribuem para incapacidade física e sofrimento
mental.16-18 Estudos realizados também na população brasileira confirmam
essas evidências.19-21
Os fatores descritos podem ter importante papel na instalação, no
desenvolvimento e na manutenção da dor crônica, da incapacidade física e
do sofrimento mental, e serão explorados com mais detalhes a seguir.
Embora não existam muitos modelos explicativos que elucidem como esses
diversos elementos atuam, existem alguns estudos experimentais sobre a
participação dessas variáveis.22 Partindo desses pressupostos, algumas
hipóteses e possibilidades serão apresentadas com o objetivo de elucidar
como alguns desses aspectos psicossociais participam dessa complexa
relação dinâmica entre dor, incapacidade e sofrimento mental.
Fatores afetivos
A contribuição de aspectos afetivos, estresse, ansiedade e depressão
pode ocorrer de diferentes maneiras.
A contribuição do estresse como mediador do desenvolvimento de
doenças é amplamente descrita na literatura.23-25 O modelo descrito na
Figura 4.5 possibilita compreender de modo simplificado algumas
alterações psicofisiológicas presentes em quadros de estresse.
Figura 4.5 Esquema da ativação fisiológica da resposta de estresse.
Diante de algum evento percebido como estressor, o córtex parece ativar
primeiramente o sistema nervoso autônomo e o hipotálamo. Essas
estruturas atuam sobre a hipófise, que ativa outras estruturas ou glândulas, e
estas liberam diversos hormônios, entre eles o cortisol e a epinefrina, que
atuam sobre o sistema nervoso simpático, ativando o tronco cerebral e
produzindo aumento do tônus muscular, da pressão arterial e do batimento cardíaco, e ativando os órgãos do sentido. A médio e longo prazo esse
sistema entra em fadiga e o organismo apresenta alterações fisiológicas
crônicas e imunodepressão.
A natureza aversiva dos estímulos dolorosos elicia reações emocionais
que retroalimentam a percepção da dor. Essas emoções eliciam respostas
autonômicas, endócrinas e imunes que podem amplificar a dor por meio de
diversos mecanismos psicofisiológicos (p. ex., aumento da atividade da
amígdala, do córtex cingulado anterior e da ínsula anterior).25 A dor aguda é
percebida como um evento estressante, e ocorre, desse modo, algumas
alterações fisiológicas descritas acima. No caso da dor crônica, diversas
hipóteses podem ser exploradas. Por exemplo, uma vez que o estresse
crônico pode contribuir para a imunossupressão, quadros de dor
inflamatória podem ser resultantes dessa condição, ou, ainda, diante de um
quadro de dor crônica um organismo imunodeprimido responderia pior a
essa condição, aumentando as chances de cronificação. Outra hipótese é
considerar a dor crônica como um evento estressante em si, desencadeando
assim respostas de estresse, o que contribuiria para uma cascata de
processos psicofisiológicos que podem contribuir para a imunossupressão e
a manutenção do quadro de dor. Em ambos os casos, a dor pode ser
conceituada como um evento estressor. Sua avaliação em termos de perdas,
injustiça, incompreensão ou mudanças (avaliação inicial), ou em termos de
controle (avaliação secundária), determina como o indivíduo irá responder
ou lidar com a dor.26
A natureza aversiva dos estímulos dolorosos elicia diversas reações
emocionais que medeiam e retroalimentam a percepção da dor. As
principais emoções ou sentimentos descritos na literatura são: medo, raiva,
ansiedade e tristeza.13
Estados de ansiedade podem contribuir para o aumento da tensão
muscular e da hipervigilância. Partindo desse pressuposto, pode-se
hipotetizar que esse estado de hipervigilância aumenta a atenção a
estímulos nociceptivos. É evidente que o aumento da tensão muscular
poderia contribuir para quadros de dor aguda e crônica. O modelo de medo-
ansiedade-evitação27 baseia seus pressupostos centrais nessa relação, na
qual sentimentos de ansiedade precedem sentimentos de medo. Ambos os
sentimentos contribuiriam para o desenvolvimento da dor de natureza musculoesquelética, bem como para a evitação de quaisquer atividades que
pudessem causar dor, o que contribuiria, desse modo, para a incapacidade
física. A literatura atual não estabelece uma associação entre transtornos de
ansiedade e dor crônica,27,28 e, em contrapartida, propõe o conceito de
ansiedade relacionada com a dor ou sensibilidade à ansiedade. Ambos
seriam, de certo modo, estados emocionais decorrentes da dor, presentes em
sujeitos com mais predisposição a estados ansiógenos, mas não
necessariamente com transtornos de ansiedade.
Depressão é um transtorno mais frequente em pacientes com dor
crônica do que na população em geral.29,30 É amplamente descrita na
literatura como um fator que pode contribuir para a exacerbação ou
cronificação de dor aguda e para a transição para dores crônicas.13,31 Alguns
estudos indicam que a gravidade da dor e o estresse emocional estão
associados à presença de depressão,32 enquanto outros reportam que
depressão é um importante preditor de retorno ao trabalho.19 É importante
também lembrar que a presença de sintomas depressivos contribui para
desfechos negativos em diversas doenças.33
O papel da depressão na dor, na incapacidade e no sofrimento psíquico,
embora amplamente reconhecido na literatura, ainda carece de modelos
teóricos explicativos mais consolidados.34 Alguns estudos sugerem que a
depressão e a dor apresentam fatores genéticos, padrões biológicos e
neurotransmissores em comum,35 passíveis, assim, de amplificar a relação
dinâmica e interacional entre esses dois fenômenos. Clinicamente isso tem
sido comprovado pelo amplo uso de antidepressivos nessa população, com
relativa melhora do quadro de dor, mas nem sempre com redução dos
sintomas de depressão.
Além disso, pode-se hipotetizar que a presença de depressão pode
mediar ou interagir com processos cognitivos (p. ex., crenças de
desesperança e pensamentos catastróficos), elementos descritos na literatura
como mediadores de dor, incapacidade e sofrimento psíquico. Ou seja, a
depressão poderia, deste modo, contribuir direta e indiretamente para um
desfecho negativo em quadros de dor crônica. Uma outra abordagem
entende que sintomas depressivos são uma consequência de quadros de dor
crônica.
Fatores cognitivos
Aspectos cognitivos são amplamente descritos na literatura como
mediadores de incapacidade física, intensidade da dor e depressão10,12.
Embora estratégias passivas e reduzida aceitação da dor tenham sido
descritas pela literatura como fatores associados a piores desfechos,
pensamentos catastróficos e autoeficácia têm sido os fatores cognitivos
mais relevantes.
Diversos estudos descrevem a contribuição de pensamentos
catastróficos para o sofrimento mental (p. ex., depressão e
ansiedade),20,26,36,37 para a intensidade da dor e para a incapacidade
física.20,32,38-40 Pensamentos catastróficos podem ser definidos como crenças
de que o pior desfecho ocorreria em uma dada situação.39 As crenças de
catastrofização não são comuns apenas a pacientes com dor; qualquer
pessoa pode têlas. Alguns autores definem os pensamentos catastróficos
como crenças, outros como appraisal – avaliação, estratégias de
enfrentamento, atitudes, ou, ainda, como traços de personalidade.41
O modelo de medo-evitação (fear-avoidance)42 possibilita uma
compreensão dessa relação e ilustra como crenças de catastrofização podem
contribuir para a percepção da experiência dolorosa. Segundo esse modelo,
afetos negativos e hipervigilância ocorrem quando se percebe uma situação
como potencialmente perigosa. Essa percepção poderia contribuir para a
evitação da experiência dolorosa, o que contribuiria para o desenvolvimento
de uma síndrome do desuso, podendo levar à incapacidade física e
depressão.
Estudos atuais sobre o modelo de controle inibitório difuso de estímulos
nocivos (DNIC, do inglês diffuse noxious inhibitory controls)38,43 também
contribuem para a compreensão do papel das crenças catastróficas no
processamento de estímulos nociceptivos. Segundo esse modelo, a
hipervigilância decorrente de crenças catastróficas contribuiria não só para
o aumento da atenção a estímulos nociceptivos, como também para a
valência atribuída a essa experiência. Ou seja, o processamento de
informações sofreria alterações que mediariam a percepção da experiência
dolorosa, reduzindo o DNIC, o que resultaria em uma resposta endógena
reduzida à dor.
Outra hipótese sobre a contribuição de pensamentos catastróficos para a
depressão pode ser fundamentada pelo fato de que pensamentos
catastróficos têm uma dimensão em comum com a depressão: o fator
desesperança.39 Ou seja, essa comunalidade faz com que a presença de
pensamentos catastróficos seja um importante mediador de depressão.
Outra crença importante na interação entre aspectos biopsicossociais é a
de autoeficácia. Segundo Bandura,44 “expectativas de eficácia irão
determinar quanto esforço e tempo as pessoas irão persistir diante de
obstáculos” (p. 141). Esse conceito vem sendo bastante aplicado na dor
crônica e está associado principalmente ao aumento de incapacidade física,
embora algumas evidências também apontem relação com a depressão e até
com a intensidade da dor.12,20,45
Os pressupostos cognitivos-comportamentais de que crenças medeiam
atitudes, afetos e comportamentos sustentam a compreensão da relação
entre crenças de autoeficácia, incapacidade física e depressão. Pode-se
hipotetizar que a redução de crenças de autoeficácia contribuiria para o não
engajamento em comportamentos ou atividades na presença de dor. De
certa maneira, pode-se inferir que crenças de autoeficácia mediariam
estratégias de enfrentamento ativas/passivas. Na prática clínica, pode-se
observar que pacientes que deixam de realizar suas atividades baseados nas
crenças de que não podem realizá-las quando estão com dor, por
impossibilidade ou com receio de que suas dores aumentem, acabam por
abandonar diversas atividades, o que contribui para o aumento da
incapacidade física (p. ex., engajamento em trabalhos domésticos ou
atividades sociais). O não engajamento em atividades físicas contribuiria
para a redução do condicionamento físico e, posteriormente, para a
incapacidade física.
De certo modo, essa redução no engajamento em atividades poderia
contribuir para uma percepção negativa de si e para o desenvolvimento de
afetos negativos. Isso indiretamente poderia realimentar esse ciclo de
crenças-evitação-incapacidadeafetos negativos.
Fatores ambientais
As interações comportamentais/ambientais incluem processos de
aprendizagem e reforço, e também podem contribuir para a intensidade da
dor, a incapacidade física e o sofrimento mental de maneiras bastante
diferentes.16-18 Em primeiro lugar, é importante salientar que crenças
nucleares e valores culturais são construídos a partir de processos de
aprendizagem, no âmbito familiar ou social.
Um exemplo bastante claro disso é a diversidade de crenças sobre dor
em diferentes culturas, o significado atribuído a experiências dolorosas em
diferentes sociedades e os reforços dados a comportamentos de dor. A
experiência do parto que, em geral, ocasiona alguma dor é um excelente
exemplo. Em diferentes culturas há expectativa negativa sobre esse
momento, inclusive com uma tendência a evitá-lo por meio da cesariana,
evitando assim a dor. Em outras culturas ou grupos, existem expectativas
positivas sobre esse momento e a presença da dor é relevada em detrimento
de outros aspectos. Outros reforçadores ambientais, como o modelo
médico-intervencionista e questões econômicas, também medeiam o
comportamento e a experiência da dor no parto.
A dinâmica familiar ou interação entre membros da família também
pode ser um fator reforçador negativo ou positivo da experiência dolorosa.
Alguns estudos apontam que, quando se está diante de um familiar, nosso
limiar de percepção da dor e de tolerância é reduzido.46 Além disso, é
importante considerar que, frequentemente, quando um dos membros da
família tem algum quadro de doença crônica, isso afeta a dinâmica familiar
(p. ex., impossibilidades de realizar atividades rotineiras da casa, redução
de disponibilidade para contatos sociais, redução da frequência nas relações
sexuais).
Outros fatores ambientais, como presença de litígio, condições de
trabalho e satisfação com o ambiente de trabalho, também são importantes
mediadores de incapacidade física e sofrimento psíquico e retorno ao
trabalho.17-21,47-50 A relação entre esses aspectos é bastante dinâmica e
envolve inúmeros outros aspectos.
A relação entre litígio e não retorno ao trabalho pode ser compreendida
como uma relação de reforço ou extinção. Os reforços podem ser divididos
em dois tipos: reforço positivo e reforço negativo. Um reforço positivo
aumenta a probabilidade de um comportamento ocorrer diante de uma recompensa. Já um reforço negativo também pode aumentar a
probabilidade de um comportamento ocorrer pela retirada ou inexistência
de um estímulo aversivo. A presença de uma recompensa financeira pode,
nesse sentido, ser indiretamente um reforçador, em um nível subliminar,
para o não engajamento ou um engajamento pobre em atividades de
recuperação física e profissional. A avaliação ou percepção das condições
de trabalho, das políticas da empresa e da satisfação com o trabalho também
irá mediar crenças e atitudes para o retorno ao trabalho. Essas crenças são
centrais na redução ou no aumento da incapacidade física e sofrimento
psíquico.
É importante salientar ainda que em muitas atividades laborais o
ambiente de trabalho em si é adoecedor, dado o modo da organização do
trabalho. Contudo, este é um assunto bastante complexo e não faz parte do
escopo deste capítulo.
Outros elementos importantes na mediação da dor e em suas
repercussões psicossociais têm sido investigados mais recentemente sob o
escopo da psicologia positiva. Conceitos como resiliência, aceitação da dor,
emoções positivas, papel das redes de apoio e espiritualidade parecem
emergir como fatores de proteção à incapacidade e ao sofrimento psíquico.
Outros elementos baseados mais em uma perspectiva existencial-
fenomenológica, como trajetória de vida e significados atribuídos à dor
crônica, também têm recebido atenção. A compreensão do papel desses
fatores parece promissora, mas merece maiores investigações.
Considerações finais
É fundamental considerar os diversos fatores psicossociais que
contribuem para a dor, incapacidade física e sofrimento psíquico em
pacientes que convivem com a dor crônica. A compreensão desses aspectos
requer uma avaliação ampla e multidimensional. Estes são elementos
importantes que devem ser levados em conta para o delineamento de
intervenções efetivas no tratamento de pessoas com dor crônica. É
importante compreender a pessoa com dor em suas múltiplas dimensões e
avaliar a pessoa e não apenas a dor.
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a Mediador é uma va riá vel ou fator que intervém diretamente em um desfecho (p. ex.,
pensamentos catastróficos medeiam a intensidade da dor). O conceito de mediador difere do de
moderador, que implica uma participação mais direta em um desfecho, alterando-o, sem
contribuir com o desfecho, mas sendo uma condição facilitadora (p. ex., ser do gênero feminino é
um moderador de dor, pois está associado a maior prevalência de dor).
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