A Psicologia da Dor
7 A Resiliência Familiar e a Equipe Multiprofissional de Dor
Rosane Raffaini Palma
A crise em novo enfoque
Na China, a palavra crise é formada por dois ideogramas, que
simbolizam perigo e oportunidade. Uma crise, portanto, pode trazer como
possibilidade a atenção ao que de fato importa na vida e alavancar direções
anteriormente impensadas. A doença vista como crise leva à
descontinuidade no curso de desenvolvimento, acarretando mudanças
qualitativas no funcionamento familiar. A mudança dependerá da
capacidade de transformação, tendo por base o significado atribuído à
situação vivida, buscando adaptação.
Novos horizontes para a pesquisa nas áreas de ciências humanas e
sociais têm sido privilegiados, diante do enfoque que a psicologia vem adotando ao estudar processos e percepções das experiências da vida e de
desenvolvimento, com ênfase na compreensão do que seja saudável no ser
humano, em oposição à psicologia tradicional com enfoque nos desajustes e
conflitos. Na perspectiva sistêmica, o conceito de resiliência traz o desafio
do conhecimento que justifique os aspectos da saúde familiar.
Resiliência
O termo resiliência, originário da física, significa propriedade pela qual
a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a
tensão causadora de uma deformação elástica. O mesmo termo foi adaptado
ao campo da psicologia e, em particular, da saúde, relacionado com a
capacidade de regeneração, adaptação e flexibilidade. Lidar com sua dor e
tomar as rédeas da própria vida torna alguém resiliente e a colaboração
entre os membros de uma família lhes possibilita uma competência nova e
uma confiança compartilhada. Fica facilitado assim um clima capacitador.
Os sintomas devem ser avaliados em um contexto longitudinal levando em
conta seus significados e as reações de enfrentamento da família, podendo
esta desfrutar de sentimentos de orgulho e sensação de eficiência pelas
experiências de sucesso compartilhado. A abordagem vai além da resolução
de problemas, na medida em que a resiliência familiar proporciona estrutura
positiva e pragmática que orienta as intervenções, não apenas para reparar a
família, mas também para fortalecê-la em desafios futuros. Os sistemas de
processos familiares saudáveis têm valorizado a identificação de
potencialidades e vulnerabilidades, além de intervenções para construir e
reforçar elementos fundamentais do processo no funcionamento eficiente da
família em crise.
Walsh1 construiu uma estrutura conceitual que denominou
funcionamento familiar efetivo para avaliação das práticas em resiliência
familiar. Essa estrutura é um valioso instrumento de investigação a ser
utilizado por uma equipe multiprofissional no tratamento da dor crônica. Os
três domínios utilizados são descritos a seguir.
Sistemas de crença familiar
Quando uma família compartilha seus pensamentos e sentimentos sobre
uma determinada situação, ela constrói um novo significado. Partindo da
crença de que o significado da adversidade é socialmente construído, ela
poderá enfrentar uma doença, tendo em vista um desafio compartilhado e
contando com a colaboração mútua. A aceitação dos limites facilita que
esforços sejam concentrados no que é possível e estimulem a esperança
como convicção projetada no futuro, independentemente da situação atual.
Extrair significado da adversidade
As famílias mais resilientes são mais habilitadas a aceitar a passagem do
tempo, os ritmos e o fluxo da vida familiar. Os fundamentos de uma família
saudável são a valorização dos familiares e o orgulho da identidade familiar.
As transições do ciclo de vida, embora sentidas como perturbadoras e
muitas vezes dolorosas, podem catalisar crescimento e transformação e,
portanto, normalização e contextualização da adversidade e da angústia.
A mesma experiência pode ser percebida como facilitadora ou restritiva.
Famílias resilientes costumam buscar ajuda em seu grupo de apoio familiar,
social, religioso ou profissional, quando sentem necessidade. Buscar ajuda,
nesses casos, mostra força diante de obstáculos aparentemente insuperáveis.
O êxito pode ser alcançado, possibilitando um enfrentamento mais efetivo e
subsequentes adaptações necessárias à vida e ampliando o repertório com
novas possibilidades.
Ao tentarem entender o porquê de terem sido afetados por adversidades,
os indivíduos procuram respostas em suas culturas para tanto. Convidadas a
refletir sobre suas crenças, famílias resilientes em crises demandam uma
investigação para considerarem outras possibilidades, que não a má sorte.
Perspectiva positiva
Iniciativa ativa e de perseverança pode ser pensada sob um prisma da
tenacidade, e encarada como rigidez ou obstinação ou pensada sob o prisma
da experiência de sobrevivência e persistência diante da adversidade,
podendo ser em si uma fonte de orgulho.
A coragem de um indivíduo pode contaminar os outros membros do
grupo e servir de inspiração. Em situações opressivas, este recurso de construção e manutenção da coragem, torna maior a força por meio dos elos
vitais.
O conceito de otimismo aprendido, introduzido por Seligman,2 tem
grande relevância na estimulação de uma família resiliente. O pensamento
positivo deve ser reforçado por experiências bem-sucedidas e um contexto
estimulante. Seligman3 concluiu também que crianças que aprendem
habilidades como contestar seus pensamentos negativos e negociar com
seus pares ganham fortalecimento das habilidades de comunicação familiar,
favorecendo a resiliência.
Famílias que atribuem o sucesso, em grande parte, a seus esforços,
recursos e competências têm um senso de controle do que lhes acontece na
vida. Diante de erros ou fracasso, familiares podem vivenciar a experiência
da aprendizagem, ponderando sobre esforço insuficiente ou objetivo
irrealista e não a uma experiência de derrota.
A resiliência não acontece observando-se apenas o lado bom das coisas.
A preocupação e as realidades dolorosas são experimentadas e precisam ser
reconhecidas em situação de crise. As ilusões positivas diferem da negação
defensiva, pois informações sobre uma ameaça são incorporadas e suas
implicações absorvidas.
A confiança de que cada membro da família fará o melhor que puder
reforça resultados individuais. A busca incessante por soluções estimula o
otimismo e torna cada familiar participante ativo do processo de resolução
dos problemas.
A resiliência necessita que se faça um balanço da situação colocada.
Uma avaliação de recursos, desafios e restrições se impõe. Com isso, a
iniciativa deve ser ligada a aceitar o que não pode ser modificado, buscando
adaptação e direcionamento dos esforços ao que se pode dominar ou
modificar. Como exemplo, podese destacar a situação de proximidade da
morte. Quando um paciente está fora da perspectiva de cura, membros da
família podem escolher participar do processo de preparação para a morte,
focando o alívio de sintomas, procurando conforto e fechando laços
afetivos.
Transcendência e espiritualidade
A espiritualidade pode ser cultivada dentro ou fora de uma estrutura
religiosa. Ela tem o poder de trazer conforto ao se conviver com incertezas,
auxiliando na esperança da perspectiva de futuro. Essa experiência de crise
pode trazer consigo uma experiência de transcendência. É comum ouvirmos
que pessoas ressignificaram suas vidas por meio de uma experiência
adversa. É importante, portanto, que uma família possa reconhecer o
sentido positivo nas situações difíceis, para o desenvolvimento da
resiliência. Diante de uma imagem religiosa de um Deus todo-poderoso e
punitivo, profissionais orientados e preocupados em conceituar as pessoas
como seres biopsicossociais-espirituais podem suscitar experiências
espirituais vividas que tenham trazido paz interior, conforto e comunhão.
Famílias incentivadas a enfrentar e se recuperar das adversidades
procuram recursos inventivos nas experiências vividas anteriormente, mitos
e histórias familiares ou têm necessidade de atitude de improvisação,
implementando soluções ainda não tentadas. Outras fontes de inspiração
além dos limites do cotidiano são personalidades de coragem e heróis que
incorporaram muitas das melhores qualidades da resiliência, conservando a
vontade de vencer e superar dificuldades, de perseverar mesmo contundido
e de se recuperar do fracasso e da perda.
As crenças fundamentais da família emergem diante da incerteza e do
sofrimento. Aceitando o fato ocorrido e quaisquer cicatrizes que persistam,
a família tenta incorporar o que aprendeu e se esforça para que outros
possam aprender com sua experiência. À medida que o evento vai sendo
assimilado, o sofrimento pode passar a ser encarado como algo que os
tornou melhores e lhes abriu novas oportunidades. Essas crenças
compreendem, portanto, a capacidade de uma família extrair significado da
adversidade e, dentro de uma perspectiva positiva, observar potencialidades
e possibilidades ratificadoras.
Padrões organizacionais
São os padrões de interação e regras consistentes, com alguma
estabilidade e rotina, que garantem confiabilidade e a sensação de
continuidade no tempo. A ideia de coesão não parte de um modelo rígido e
inflexível de uma relação fusionada. Ao contrário, a conexão refere-se à
manutenção da unidade familiar, com respeito a autonomia dos membros da família, flexíveis o bastante para manter relação de troca e suporte com a
comunidade e a família estendida e papéis alterados em novos arranjos,
caso seja preciso.
Flexibilidade
A coesão e a flexibilidade sofrem influência da cultura na qual esta
família se insere do ponto de vista do desenvolvimento do ciclo vital
familiar, do contexto histórico e social e suas tradições. Uma estrutura
estável, porém flexível, mantém uma família em bom funcionamento.
Estabilidade de papéis, regras e padrões de interação previsíveis e
consistentes criam uma confiabilidade mútua crucial, além de senso de
continuidade. A resiliência familiar requer a capacidade de contrabalançar
estabilidade estrutural e alterações imperativas quando os membros da
família enfrentam crises e desafios.
A mudança pode ser entendida como ameaçadora se considerarmos que
o medo do desconhecido pode suplantar a angústia presente na crise, que é
dolorosa, porém familiar. Essa experiência pode vir acompanhada de uma
sensação aguda de desamparo e falta de controle. Urge, então, explorar o
que é necessário e valorizado, construir habilidades e confiança em
incrementos pequenos e fáceis de administrar, além de aprender a errar com
segurança, tentar novamente até alcançar o êxito, bem como criar uma
estrutura forte para conter reações e tolerar incertezas.
Conexão
Para observação do equilíbrio, deve-se examinar na unidade familiar o
funcionamento da autonomia individual, tolerância com relação à
separação, proximidade saudável, colaboração e compromisso. Seus
membros podem estar profundamente conectados e unidos em uma crise e,
ao mesmo tempo, respeitar-se em suas diferenças.
Uma família resiliente tem seus membros em um contexto de segurança
e proteção, apoiando-se no crescimento e desenvolvimentos individuais. O
conforto e a segurança proporcionados por relacionamentos afetivos são
especialmente fundamentais no enfrentamento de eventos catastróficos. Recursos sociais e econômicos
Os vínculos com o mundo social são de vital importância na resiliência
familiar. Membros ativamente engajados e envolvidos com o que acontece
no seu meio relacionam-se com ele com mais esperança, recebem mais
apoio, serviços concretos e informações. Não é apenas o tamanho da rede
ou a frequência dos contatos que podem surtir tal efeito, mas a qualidade
dos relacionamentos, que devem identificar os conflitos e os rompimentos a
serem reparados.
O funcionamento familiar fica fortalecido se forem considerados os
recursos financeiros e examinarem os apoios e os equilíbrios estruturais que
vinculam o sistema familiar e profissional. Cuidadores que trabalham muito
têm sua energia drenada para a demanda do cuidado ou, se trabalharem
menos, têm sua remuneração diminuída e a renda familiar cai.
Processos de comunicação
Para lidar com situações de estresse e manter opções de enfrentamento
estratégico, a família necessita buscar e compartilhar informações. Essa
atitude ajuda na construção do significado da situação de maneira
compartilhada e consciente.
O compartilhamento de sentimentos mantém um clima de confiança e
empatia. Compartilhar sucessos, mesmo que pequenos, estimula a confiança
familiar para enfrentar desafios maiores, enquanto compartilhar erros pode
reformular objetivo e estratégia na resolução dos problemas. Portanto,
solucionar problemas de modo colaborativo pressupõe reconhecer o
problema, observar a importância e possibilidade de resolução, trocar ideias
e finalmente tomar decisão.
Clareza
Levando-se em conta as diferenças culturais, a comunicação nas
famílias resilientes é clara, específica, direta e honesta. A comunicação
acontece de maneira que os comportamentos sejam consistentes e
congruentes com a mensagem verbal. A clareza das regras familiares
organiza as interações, define e estabelece expectativas.
Diante de eventos estressantes, membros da família podem ter
percepções e entendimentos não convergentes. As experiências de crise
tornam-se mais administráveis e compreensíveis quando discutidas
abertamente e quando os significados dos eventos e suas implicações são
compartilhados.
Expressão emocional aberta
“Proteções” por meio do silêncio, do segredo ou da distorção criam
barreiras e bloqueiam a comunicação, dificultando as tomadas de decisão.
No entanto, expressões abertas de sentimentos positivos, como amor,
apreciação, respeito, têm a função de compensar interações negativas e
situações de conflito, próprios do momento de crise. O humor
compartilhado pode servir para apontar erros, diminuir a ansiedade e
facilitar conversas.
Resolução colaborativa dos problemas
Quando se enfrenta uma crise repentina ou desafios persistentes, há que
se encontrar estratégias eficazes para resolução de problemas. Identificando
os processos eficazes para resolução de problemas, os membros da família
precisam, em primeiro lugar, reconhecer o problema e se comunicar sobre
ele com o que podem constituir recursos potenciais. A partir daí, existe a
necessidade de se pensar, pesar e considerar as possíveis opções, recursos e
impedimentos e construir um plano de ação; monitorar os recursos e avaliar
o êxito, revendo esforços e cuidando que a boa comunicação permaneça
com discussões criativas. Na resolução de problemas, o processo de
negociação pode ser tão importante quanto o resultado final.
Negociações bem-sucedidas utilizando mecanismos como: aprender a
ouvir e falar com paciência; evitar ou interromper ciclos negativos de
crítica; responsabilização e retraimento; validar sentimentos confusos como
parte da experiência; reexaminar e renegociar as expectativas
periodicamente; concentrar-se em objetivos alcançáveis; dar passos
concretos; acreditar no sucesso e aprender com o fracasso pode tornar uma
família mais resiliente diante da crise.
Enfrentamento familiar e manejo da doença
Uma pessoa sofre ao ter seu corpo incompreendido na expressão da dor,
marcado por invasões, intervenções, sequelas e recaídas. A doença crônica
pode ser representada como um ataque à integridade física, social e psíquica
do sujeito e será partilhada com consequências imprevisíveis e realidade
desconhecida pela família. Do ponto de vista sistêmico, a família precisa
estar incluída no manejo da doença crônica, juntamente com o paciente e a
equipe de saúde. De uma maneira ou outra, o paciente e sua família
necessitarão responder às exigências avaliadas como excessivas diante dos
recursos de ajustamento que a doença impõe. A esse processo dá-se nome
de processo de enfrentamento. Reorganizar responsabilidades, lidar com
implicações financeiras, reabilitação física, agravamentos e remissões dos
sintomas são demandas que exigem um esforço adaptativo que mobiliza
recursos psicossociais para lidar com a enfermidade. Nem sempre a
adaptação possível é positiva. É possível haver uma adaptação utilizando-se
a inibição da ação ou catastrofização com ampliação dos estímulos de
sofrimento e orientação pessimista.
Parkes4 identificou uma categoria de enlutados por causas não
reconhecidas, entre elas, a doença. Quem perde a saúde perde também
independência, autonomia, o papel no mundo, seus sonhos. Frequentemente
esses enlutados expressam uma sensação de vazio, isolamento ou
mutilação, precisando passar pelo reconhecimento da perda e aceitação
para, só então, adotar uma nova postura.
Três fios evolutivos precisam ser considerados e vinculados a um
contexto de desenvolvimento do indivíduo que é doente crônico e sua
família: o ciclo de vida do indivíduo, o ciclo de vida da família e o ciclo da
doença, que devem ser caracterizados em termos psicossociais e
longitudinais. Segundo Combrinck-Graham,5 alguns momentos no ciclo de
vida familiar requerem altos níveis de coesão familiar e vínculos intensos,
como nascimento de filhos, criação de filhos pequenos, netos, casamentos,
aumentando a aproximação entre os membros, enquanto em outros
momentos no ciclo de vida familiar a unidade familiar enfatiza o ambiente
extrafamiliar. Com a alteração do contexto de vida, é fundamental
considerar o período desenvolvimental de quando a doença acontece, para
melhor compreensão dessa dinâmica. Os momentos de transição no ciclo familiar são considerados potencialmente mais vulneráveis, pela
descontinuidade. Por exemplo: uma doença afeta um provedor de uma dada
maneira, quando seus filhos são pequenos. O grupo familiar, então,
precisará ser cuidadosamente observado, pois poderá acontecer uma
sobrecarga na demanda de recursos de enfrentamento por parte de um ou
alguns dos membros da família, implicando esforço extremo de adaptação.
O funcionamento e a estrutura da família passaram por transformações
inevitáveis nas últimas décadas. O papel de cada membro na família tem se
alterado significativamente, as fronteiras tem se afrouxado e seus contornos
se expandido, como verificamos nos recasamentos e na longevidade de seus
membros. Novas maneiras de adaptação e organização de experiências têm
sido necessárias, já que não podemos desconsiderar a tendência de que
gerações repitam comportamentos, como modo de manter o controle dos
processos relacionais. Mudar pode causar grande sofrimento e ansiedade
pela instabilidade e, com isso, algumas famílias podem apresentar maior
rigidez e sistemas inflexíveis.
Observando o momento do ciclo vital de uma família, são considerados:
suas origens étnicas, sua inserção social e cultural, tipos de rituais que
cultiva, como esta mantém vínculos, como lida com crises e conflitos. O
sentido de ciclo é associado ao processo de vida e aos fenômenos que se
sucedem com determinado ritmo da história familiar.
Uma família é marcada por ganhos e perdas. Quando um membro da
família está doente, Carter e McGoldrick et al.6 destacam, entre os
comportamentos de enfrentamento familiar funcional durante a doença:
comunicação aberta; partilha de responsabilidades; planejamento realista do
futuro; valorização das capacidades restantes do paciente; acolhimento de
um paciente nutrido de medos reais e imaginários; flexibilidade de
expectativa; desenvolvimento de novos papéis no sistema familiar;
adaptação ao desfecho do tratamento; oferecimento de apoio social ao
paciente; favorecimento do encerramento de laços; apoio e amparo à
solidão, perdas e finitude.
Famílias fusionadas, segundo Beavers e Hampson,7 tendem a reagir com
exagero e intolerância à separação, além de vivenciar transtornos
internalizados, como ansiedade e depressão. Já nas famílias desvinculadas,
a distância bloqueia a comunicação, a relação e as funções mutuamente protetoras da família. Nesses casos, pressões por consenso podem interferir
negativamente na resolução de problemas. Os autores descreveram ainda
processos de sistemas com tendências “centrípetas” (buscam conexão e
satisfação para suas vidas dentro de casa) e “centrífugas” (buscam
satisfação fora de casa).
Uma família é considerada disfuncional quando não atende às
necessidades sociais, as mudanças no ciclo vital que precisam ser realizadas
não acontecem, seus integrantes não expressam com clareza seus
sentimentos, pautam-se pelo que não é dito ou não confiam nas palavras.
No caso específico de doença, a disfunção familiar acontece quando
encontramos: negação das mudanças ocorridas; culpabilização do paciente
ou membros da família; manutenção de um modelo mental de doença;
reações tardias; medo excessivo. Com isso, torna-se comprometido o
equilíbrio e a situação familiar passa a ser vista como ameaçadora. Nesse
caso, as estratégias tornam-se pouco efetivas ou insuficientes para garantir o
bem-estar emocional e a qualidade de vida das pessoas.
Atuação da equipe multiprofissional
De uma equipe multiprofissional de saúde espera-se cautela, pois suas
ações envolvem grande complexidade e afetam todas as dimensões
humanas: emocional, física, cognitiva, social e espiritual. A doença exige
do paciente elaboração do luto pela perda da saúde, da autonomia, da
independência e, em consequência, o reajustamento psicossocial. Também é
prioritário que se faça uma investigação sobre a utilização de práticas
ligadas à resiliência por profissionais da saúde, nesta nova família que
rompe seu processo de vida natural pela doença de um dos seus membros.
Para a humanização dos cuidados em saúde hoje, o grande desafio de
uma equipe multiprofissional é que esta vá além das aparências e procure
compreender o significado da vida atribuído por quem a vivencia e entender
o modo de inserção do indivíduo no mundo, enfim cuidar com competência
científica e humana, não bastando para um atendimento integrado o melhor
tratamento médico medicamentoso, nem as melhores acomodações. A
equipe multiprofissional pode iniciar um movimento de “com-fiar” (tecer
com) e “com-sentir” (sentir com), aproximando-se sem invadir os espaços íntimos familiares e distanciando-se sem causar a eles a sensação de
abandono.
A atenção da equipe às necessidades práticas, sociais, físicas e
emocionais do doente possibilita tornar efetivo o cuidado e proporciona a
elaboração e ressignificação da experiência vivida. Nesse contexto, é
importante avaliar aspectos como informações acerca da saúde física do
paciente; histórico de perdas; enlutamento por perdas relacionadas com a
doença; estratégias de enfrentamento; reações emocionais; características de
personalidade do paciente e cuidadores informais; padrões de
relacionamento na família; sistema de crenças, mitos e legados familiares;
presença de rede de apoio. A intervenção a partir daí deve contemplar o
alívio da ansiedade, abertura da comunicação entre familiares e equipe,
fortalecimento emocional para o enfrentamento adequado com relação à
crise da doença e reorganização familiar, estabelecimento de canal para
expressão e reflexão sobre a dor e sofrimento.
A formação dos profissionais de uma equipe multiprofissional deve
preparar cada integrante a considerar maneiras sistêmicas e compartilhadas
de solução de problemas. Ao focalizar a integralidade de quem é atendido e
sua família, o olhar se expande para intervenções no domínio social,
psicológico e espiritual, levando em conta também o que existe de saudável
naquele ser doente. As demandas da saúde e o crescente desenvolvimento
científico e tecnológico produziram estratégias e mecanismos para efetivar
o trabalho em equipe, sendo respeitada a capacitação e a autonomia de cada
profissional envolvido e ao mesmo tempo sendo discutidas situações de
interface. Segundo Rumen,8 a construção do conhecimento compartilhado
diz respeito à aceitação da incompletude e traz de modo inerente a abertura
para o conhecimento do outro pela escuta e troca profissional. As
interconsultas e discussões de caso tornam-se valiosos espaços de interação
enriquecidos por normas de atuação abertas aos questionamentos e devem
estar presentes em todas as áreas que formam uma equipe de saúde. Ficam
assim disponibilizados caminhos com enfoque incluindo as necessidades
associadas à doença, na busca de acolher o paciente e sua família na sua
individualidade e totalidade.
Para Rosso,9 existem ações que podem aumentar o êxito na resolução de
problemas de uma equipe que são: focar no processo e não nas pessoas; procurar delicadeza nos gestos e palavras; ser sincero e franco nas próprias
colocações; validar o que se entendeu, partindo do princípio de que nem
todas as pessoas se expressam bem. Silva10 descreveu outras atuações
eficazes na resolução de conflitos: analisar situações baseadas em fatos
concretos; aceitar as diferenças; focar interesses comuns; reconhecer os
sentimentos envolvidos; usar critérios objetivos; inovar quando soluções
não são de comum acordo; validar tudo o que foi acordado; ser respeitoso.
Uma reformulação curricular das universidades tem contemplado
treinamento para formação de equipes multiprofissionais, aperfeiçoando
habilidades específicas, como capacitação em comunicação, reflexões sobre
bioética, conceitos sobre cuidados paliativos e manejo de situações
estressantes, proporcionando articulação sobre novos saberes, práticas e
políticas. Têm sido ainda preparados profissionais mais conscientes da
importância do papel de cuidar, mesmo quando não podem curar. Kovács,
Macieira e Carvalho11 consideram que educar não é só instruir, mas também
formar pautado no conhecimento e na ética, respeitando a diversidade de
saberes e reconhecendo valores, direitos e realidades singulares. Além
disso, segundo Pessini,12 quem cuida e se deixa tocar pelo sofrimento do
outro se humaniza no processo e se transforma em um radar de alta
sensibilidade. Esta se torna uma chance preciosa para se adquirir sabedoria,
para muito além do conhecimento científico.
A habilidade de comunicação estudada, melhorada e treinada torna-se
um recurso importante na assistência à saúde. Considerar aspectos como
escolaridade, gênero e cultura melhora a expressão e fortalece a
comunicação a ser estabelecida entre paciente, sua família e uma equipe de
saúde.
Segundo Perdicaris,13 não existe neutralidade na interação das pessoas.
O tom da voz, as palavras escolhidas, o silêncio, um olhar, um gesto, a
ênfase dada e a postura corporal informam tudo o que é dito. É necessário
reconhecer as diferenças entre gêneros e sua interferência na boa
comunicação.
Considera-se que a comunicação não verbal tenha extrema relevância na
relação entre o profissional de saúde e o paciente, oferecendo informações
mais ricas do que é expresso pela fala. Enquanto comunica ao profissional o
que sente, o paciente identifica no cuidador emoções, sinais de empatia, distanciamento e sensações obtidas pelo toque. O profissional também pode
ser informado pelo paciente sobre sua cultura, gênero, classe social e
qualidade das relações familiares, enquanto fala sobre suas dores. A
interpretação do significado do silêncio pode desvendar raiva, vergonha,
confusão ou depressão. Portanto, ao transmitir uma mensagem, é necessário
haver simetria entre todas as maneiras de expressão, para assim transmitir
confiança. Coerência no que é dito pelos profissionais da equipe, com a
possibilidade de informações serem repetidas quantas vezes forem
necessárias, oferece continência e diminui o nível de estresse vivido pelos
outros membros da equipe ou unidade de cuidado.
O nosso país consiste em uma população heterogênea e, neste enfoque,
Souza14 reconheceu que expressões regionais, crenças e ditos se apresentam
como códigos de linguagens, que espelham significações singulares, o que
pode dificultar a comunicação entre os integrantes de uma equipe ou da
equipe com o paciente e sua família. A utilização de uma linguagem
comum nas reuniões clínicas, que facilite o intercâmbio de saberes, resulta
geralmente em atuações não parciais ou fragmentadas.
Uma equipe multiprofissional tem o desafio de interpretar de maneira
responsável o que é exposto pelos seus membros, incentivando o diálogo
para uma aproximação correta e pacientemente construída. Segundo
Rumen,8 durante a criação de equipes os fatores de risco mais encontrados
são dificuldade de comunicação entre os profissionais, disputas de poder,
conflitos não resolvidos, divisão rígida e imposta no trabalho.
A condução de uma conferência familiar (reunião entre família e equipe
multiprofissional) pode constituir-se em valiosa ferramenta interdisciplinar,
por propiciar espaço para discussão, orientação e catarse no grupo familiar
e tem regras como: valorizar a manifestação familiar; reconhecer emoções
(como negação, raiva, culpa); ouvir a família; entender as necessidades do
paciente; perguntar ativamente assuntos pendentes.
Quanto mais coesa for a comunicação entre os membros da equipe,
mais as famílias terão a oportunidade de interação e o resultado do encontro
será facilitado. Forte15 entende que os pacientes têm necessidades práticas e
de informação muito diferentes. Alguns pacientes e suas famílias optam por
compartilhar as decisões tomadas e assumem a responsabilidade pelo
tratamento juntamente com a equipe, enquanto outros preferem manter-se conduzidos no tratamento. As decisões do paciente identificadas e
consideradas proporcionam autonomia, um princípio ético a ser respeitado.
Qualquer membro da equipe pode e deve assumir o cuidado do paciente e
seus familiares, quando solicitado por afinidade.
Lidar com a experiência do adoecimento, da dor, da impotência, da
revolta e do estresse como obstáculo à vida plena pode causar sobrecarga
aos profissionais da saúde, portanto, é importante que a equipe, para
desenvolver um bom trabalho, seja também bem cuidada. Frustrações são
inerentes a esse processo de cuidar e os membros da equipe precisam saber
pedir auxílio, reconhecer seus limites e ter a possibilidade de apoio,
acolhimento e supervisão para lidar com questões internas que as demandas
mobilizam. A desconstrução do modelo hierárquico dentro da equipe, a
capacitação técnica constante e o respeito mútuo são necessidades
imprescindíveis para o sucesso de uma equipe bem-sucedida. Em bases
menos autoritárias, adota-se, portanto, uma postura menos burocrática em
que se valoriza mais o processo do que o resultado final.
Profissionais habilitados e organizados para diagnóstico e tratamento de
dor aguda ou crônica de pacientes internados ou ambulatoriais, ligados à
pesquisa e ensino sobre dor, formam um centro multidisciplinar de dor. A
postura da equipe deve ser de reconhecimento pela necessidade de
complementação dos saberes, considerando a complexidade de cada caso e
a atuação dos profissionais acontece por consenso. O corpo clínico varia
entre os serviços existentes constando, em geral, de médicos (anestesista,
psiquiatra, ortopedista, neurologista), fisioterapeuta, psicólogo, enfermeiro.
Entre as possibilidades de compreensão e intervenção para dor crônica,
destacam-se os trabalhos psicoeducativos, instrumentos de avaliação e
técnicas de intervenção específicas.
Trabalhos psicoeducativos podem despertar uma atitude ativa no
paciente com dor, em relação à sua saúde e uma sensação de algum controle
pela percepção de que parte do seu cuidado está em suas mãos, interferindo
na adesão ao tratamento.
O quadro psiquiátrico é comumente encontrado em pacientes com dor
crônica. Por esse motivo, investigações sobre ansiedade, depressão,
estresse, transtorno do sono e diminuição de libido constam da anamnese
detalhada realizada com o doente e seus cuidadores. Por exemplo: um paciente com sono não reparador causado pela dor pode ter prejudicadas a
compreensão e a interpretação adequada da realidade e confundir os
cuidadores formais e informais a respeito das informações oferecidas e
assim instalarem-se repetidos ciclos de insucesso.
Portenoi16 sugere que sejam aplicados inventários e questionários
específicos para pacientes com dor, para explorar hipóteses levantadas na
anamnese, como recurso apenas complementar a avaliação psicológica, pois
oferecem informações destacadas do contexto psicodinâmico dos
indivíduos.
O conforto e bem-estar podem ocorrer no atendimento psicoterápico,
quando o paciente com dor crônica torna-se capaz de recuperar autonomia e
individualidade, participar de atividades no contexto familiar ou social,
aceitar e elaborar sua atual realidade, identificar gatilhos que possam
interferir na intensidade da dor.
Técnicas de acupuntura, hipnose, distração, relaxamento e imaginação
dirigida têm se mostrado muito eficientes no tratamento de dor crônica.17
Técnicas projetivas podem ser utilizadas para favorecer o reconhecimento
da própria dor e ainda sua expressão e comunicação de maneira menos
subjetiva.
A dor, portanto, não pode mais ser contextualizada como produto de
disfunção orgânica exclusivamente. Novas possibilidades de compreensão e
atuação sobre o fenômeno têm trazido resultados benéficos e efetivos,
evitando sofrimento por processos dolorosos. Tendo afetada a integridade
do corpo e ameaçada a integridade da pessoa, o paciente com dor tem sido
cada vez menos negligenciado no contexto da assistência médica no nosso
país.
Ao reconhecer a multicausalidade da experiência subjetiva que é a dor
crônica e suas significações, modificações consistentes no seu trato têm
ocorrido com êxito.
Referências bibliográficas
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a Texto baseado na dissertação em Psicologia clínica “Práticas da Equipe de Saúde ligadas à
Resiliência para a Unidade de Cuidado” pela PUC-SP, com apoio do CNPQ.
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