A Psicologia da Dor

Andréa G. Portnoi · Capítulo 11 de 23

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A Psicologia da Dor

7 A Resiliência Familiar e a Equipe Multiprofissional de Dor

Rosane Raffaini Palma

 

A crise em novo enfoque

 

Na China, a palavra crise é formada por dois ideogramas, que

simbolizam perigo e oportunidade. Uma crise, portanto, pode trazer como

possibilidade a atenção ao que de fato importa na vida e alavancar direções

anteriormente impensadas. A doença vista como crise leva à

descontinuidade no curso de desenvolvimento, acarretando mudanças

qualitativas no funcionamento familiar. A mudança dependerá da

capacidade de transformação, tendo por base o significado atribuído à

situação vivida, buscando adaptação.

Novos horizontes para a pesquisa nas áreas de ciências humanas e

sociais têm sido privilegiados, diante do enfoque que a psicologia vem adotando ao estudar processos e percepções das experiências da vida e de

desenvolvimento, com ênfase na compreensão do que seja saudável no ser

humano, em oposição à psicologia tradicional com enfoque nos desajustes e

conflitos. Na perspectiva sistêmica, o conceito de resiliência traz o desafio

do conhecimento que justifique os aspectos da saúde familiar.

 

Resiliência

 

O termo resiliência, originário da física, significa propriedade pela qual

a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a

tensão causadora de uma deformação elástica. O mesmo termo foi adaptado

ao campo da psicologia e, em particular, da saúde, relacionado com a

capacidade de regeneração, adaptação e flexibilidade. Lidar com sua dor e

tomar as rédeas da própria vida torna alguém resiliente e a colaboração

entre os membros de uma família lhes possibilita uma competência nova e

uma confiança compartilhada. Fica facilitado assim um clima capacitador.

Os sintomas devem ser avaliados em um contexto longitudinal levando em

conta seus significados e as reações de enfrentamento da família, podendo

esta desfrutar de sentimentos de orgulho e sensação de eficiência pelas

experiências de sucesso compartilhado. A abordagem vai além da resolução

de problemas, na medida em que a resiliência familiar proporciona estrutura

positiva e pragmática que orienta as intervenções, não apenas para reparar a

família, mas também para fortalecê-la em desafios futuros. Os sistemas de

processos familiares saudáveis têm valorizado a identificação de

potencialidades e vulnerabilidades, além de intervenções para construir e

reforçar elementos fundamentais do processo no funcionamento eficiente da

família em crise.

Walsh1 construiu uma estrutura conceitual que denominou

funcionamento familiar efetivo para avaliação das práticas em resiliência

familiar. Essa estrutura é um valioso instrumento de investigação a ser

utilizado por uma equipe multiprofissional no tratamento da dor crônica. Os

três domínios utilizados são descritos a seguir.

 

Sistemas de crença familiar

Quando uma família compartilha seus pensamentos e sentimentos sobre

uma determinada situação, ela constrói um novo significado. Partindo da

crença de que o significado da adversidade é socialmente construído, ela

poderá enfrentar uma doença, tendo em vista um desafio compartilhado e

contando com a colaboração mútua. A aceitação dos limites facilita que

esforços sejam concentrados no que é possível e estimulem a esperança

como convicção projetada no futuro, independentemente da situação atual.

 

Extrair significado da adversidade

 

As famílias mais resilientes são mais habilitadas a aceitar a passagem do

tempo, os ritmos e o fluxo da vida familiar. Os fundamentos de uma família

saudável são a valorização dos familiares e o orgulho da identidade familiar.

As transições do ciclo de vida, embora sentidas como perturbadoras e

muitas vezes dolorosas, podem catalisar crescimento e transformação e,

portanto, normalização e contextualização da adversidade e da angústia.

A mesma experiência pode ser percebida como facilitadora ou restritiva.

Famílias resilientes costumam buscar ajuda em seu grupo de apoio familiar,

social, religioso ou profissional, quando sentem necessidade. Buscar ajuda,

nesses casos, mostra força diante de obstáculos aparentemente insuperáveis.

O êxito pode ser alcançado, possibilitando um enfrentamento mais efetivo e

subsequentes adaptações necessárias à vida e ampliando o repertório com

novas possibilidades.

Ao tentarem entender o porquê de terem sido afetados por adversidades,

os indivíduos procuram respostas em suas culturas para tanto. Convidadas a

refletir sobre suas crenças, famílias resilientes em crises demandam uma

investigação para considerarem outras possibilidades, que não a má sorte.

 

Perspectiva positiva

 

Iniciativa ativa e de perseverança pode ser pensada sob um prisma da

tenacidade, e encarada como rigidez ou obstinação ou pensada sob o prisma

da experiência de sobrevivência e persistência diante da adversidade,

podendo ser em si uma fonte de orgulho.

A coragem de um indivíduo pode contaminar os outros membros do

grupo e servir de inspiração. Em situações opressivas, este recurso de construção e manutenção da coragem, torna maior a força por meio dos elos

vitais.

O conceito de otimismo aprendido, introduzido por Seligman,2 tem

grande relevância na estimulação de uma família resiliente. O pensamento

positivo deve ser reforçado por experiências bem-sucedidas e um contexto

estimulante. Seligman3 concluiu também que crianças que aprendem

habilidades como contestar seus pensamentos negativos e negociar com

seus pares ganham fortalecimento das habilidades de comunicação familiar,

favorecendo a resiliência.

Famílias que atribuem o sucesso, em grande parte, a seus esforços,

recursos e competências têm um senso de controle do que lhes acontece na

vida. Diante de erros ou fracasso, familiares podem vivenciar a experiência

da aprendizagem, ponderando sobre esforço insuficiente ou objetivo

irrealista e não a uma experiência de derrota.

A resiliência não acontece observando-se apenas o lado bom das coisas.

A preocupação e as realidades dolorosas são experimentadas e precisam ser

reconhecidas em situação de crise. As ilusões positivas diferem da negação

defensiva, pois informações sobre uma ameaça são incorporadas e suas

implicações absorvidas.

A confiança de que cada membro da família fará o melhor que puder

reforça resultados individuais. A busca incessante por soluções estimula o

otimismo e torna cada familiar participante ativo do processo de resolução

dos problemas.

A resiliência necessita que se faça um balanço da situação colocada.

Uma avaliação de recursos, desafios e restrições se impõe. Com isso, a

iniciativa deve ser ligada a aceitar o que não pode ser modificado, buscando

adaptação e direcionamento dos esforços ao que se pode dominar ou

modificar. Como exemplo, podese destacar a situação de proximidade da

morte. Quando um paciente está fora da perspectiva de cura, membros da

família podem escolher participar do processo de preparação para a morte,

focando o alívio de sintomas, procurando conforto e fechando laços

afetivos.

 

Transcendência e espiritualidade

A espiritualidade pode ser cultivada dentro ou fora de uma estrutura

religiosa. Ela tem o poder de trazer conforto ao se conviver com incertezas,

auxiliando na esperança da perspectiva de futuro. Essa experiência de crise

pode trazer consigo uma experiência de transcendência. É comum ouvirmos

que pessoas ressignificaram suas vidas por meio de uma experiência

adversa. É importante, portanto, que uma família possa reconhecer o

sentido positivo nas situações difíceis, para o desenvolvimento da

resiliência. Diante de uma imagem religiosa de um Deus todo-poderoso e

punitivo, profissionais orientados e preocupados em conceituar as pessoas

como seres biopsicossociais-espirituais podem suscitar experiências

espirituais vividas que tenham trazido paz interior, conforto e comunhão.

Famílias incentivadas a enfrentar e se recuperar das adversidades

procuram recursos inventivos nas experiências vividas anteriormente, mitos

e histórias familiares ou têm necessidade de atitude de improvisação,

implementando soluções ainda não tentadas. Outras fontes de inspiração

além dos limites do cotidiano são personalidades de coragem e heróis que

incorporaram muitas das melhores qualidades da resiliência, conservando a

vontade de vencer e superar dificuldades, de perseverar mesmo contundido

e de se recuperar do fracasso e da perda.

As crenças fundamentais da família emergem diante da incerteza e do

sofrimento. Aceitando o fato ocorrido e quaisquer cicatrizes que persistam,

a família tenta incorporar o que aprendeu e se esforça para que outros

possam aprender com sua experiência. À medida que o evento vai sendo

assimilado, o sofrimento pode passar a ser encarado como algo que os

tornou melhores e lhes abriu novas oportunidades. Essas crenças

compreendem, portanto, a capacidade de uma família extrair significado da

adversidade e, dentro de uma perspectiva positiva, observar potencialidades

e possibilidades ratificadoras.

 

Padrões organizacionais

 

São os padrões de interação e regras consistentes, com alguma

estabilidade e rotina, que garantem confiabilidade e a sensação de

continuidade no tempo. A ideia de coesão não parte de um modelo rígido e

inflexível de uma relação fusionada. Ao contrário, a conexão refere-se à

manutenção da unidade familiar, com respeito a autonomia dos membros da família, flexíveis o bastante para manter relação de troca e suporte com a

comunidade e a família estendida e papéis alterados em novos arranjos,

caso seja preciso.

 

Flexibilidade

 

A coesão e a flexibilidade sofrem influência da cultura na qual esta

família se insere do ponto de vista do desenvolvimento do ciclo vital

familiar, do contexto histórico e social e suas tradições. Uma estrutura

estável, porém flexível, mantém uma família em bom funcionamento.

Estabilidade de papéis, regras e padrões de interação previsíveis e

consistentes criam uma confiabilidade mútua crucial, além de senso de

continuidade. A resiliência familiar requer a capacidade de contrabalançar

estabilidade estrutural e alterações imperativas quando os membros da

família enfrentam crises e desafios.

A mudança pode ser entendida como ameaçadora se considerarmos que

o medo do desconhecido pode suplantar a angústia presente na crise, que é

dolorosa, porém familiar. Essa experiência pode vir acompanhada de uma

sensação aguda de desamparo e falta de controle. Urge, então, explorar o

que é necessário e valorizado, construir habilidades e confiança em

incrementos pequenos e fáceis de administrar, além de aprender a errar com

segurança, tentar novamente até alcançar o êxito, bem como criar uma

estrutura forte para conter reações e tolerar incertezas.

 

Conexão

 

Para observação do equilíbrio, deve-se examinar na unidade familiar o

funcionamento da autonomia individual, tolerância com relação à

separação, proximidade saudável, colaboração e compromisso. Seus

membros podem estar profundamente conectados e unidos em uma crise e,

ao mesmo tempo, respeitar-se em suas diferenças.

Uma família resiliente tem seus membros em um contexto de segurança

e proteção, apoiando-se no crescimento e desenvolvimentos individuais. O

conforto e a segurança proporcionados por relacionamentos afetivos são

especialmente fundamentais no enfrentamento de eventos catastróficos. Recursos sociais e econômicos

 

Os vínculos com o mundo social são de vital importância na resiliência

familiar. Membros ativamente engajados e envolvidos com o que acontece

no seu meio relacionam-se com ele com mais esperança, recebem mais

apoio, serviços concretos e informações. Não é apenas o tamanho da rede

ou a frequência dos contatos que podem surtir tal efeito, mas a qualidade

dos relacionamentos, que devem identificar os conflitos e os rompimentos a

serem reparados.

O funcionamento familiar fica fortalecido se forem considerados os

recursos financeiros e examinarem os apoios e os equilíbrios estruturais que

vinculam o sistema familiar e profissional. Cuidadores que trabalham muito

têm sua energia drenada para a demanda do cuidado ou, se trabalharem

menos, têm sua remuneração diminuída e a renda familiar cai.

 

Processos de comunicação

 

Para lidar com situações de estresse e manter opções de enfrentamento

estratégico, a família necessita buscar e compartilhar informações. Essa

atitude ajuda na construção do significado da situação de maneira

compartilhada e consciente.

O compartilhamento de sentimentos mantém um clima de confiança e

empatia. Compartilhar sucessos, mesmo que pequenos, estimula a confiança

familiar para enfrentar desafios maiores, enquanto compartilhar erros pode

reformular objetivo e estratégia na resolução dos problemas. Portanto,

solucionar problemas de modo colaborativo pressupõe reconhecer o

problema, observar a importância e possibilidade de resolução, trocar ideias

e finalmente tomar decisão.

 

Clareza

 

Levando-se em conta as diferenças culturais, a comunicação nas

famílias resilientes é clara, específica, direta e honesta. A comunicação

acontece de maneira que os comportamentos sejam consistentes e

congruentes com a mensagem verbal. A clareza das regras familiares

organiza as interações, define e estabelece expectativas.

Diante de eventos estressantes, membros da família podem ter

percepções e entendimentos não convergentes. As experiências de crise

tornam-se mais administráveis e compreensíveis quando discutidas

abertamente e quando os significados dos eventos e suas implicações são

compartilhados.

 

Expressão emocional aberta

 

“Proteções” por meio do silêncio, do segredo ou da distorção criam

barreiras e bloqueiam a comunicação, dificultando as tomadas de decisão.

No entanto, expressões abertas de sentimentos positivos, como amor,

apreciação, respeito, têm a função de compensar interações negativas e

situações de conflito, próprios do momento de crise. O humor

compartilhado pode servir para apontar erros, diminuir a ansiedade e

facilitar conversas.

 

Resolução colaborativa dos problemas

 

Quando se enfrenta uma crise repentina ou desafios persistentes, há que

se encontrar estratégias eficazes para resolução de problemas. Identificando

os processos eficazes para resolução de problemas, os membros da família

precisam, em primeiro lugar, reconhecer o problema e se comunicar sobre

ele com o que podem constituir recursos potenciais. A partir daí, existe a

necessidade de se pensar, pesar e considerar as possíveis opções, recursos e

impedimentos e construir um plano de ação; monitorar os recursos e avaliar

o êxito, revendo esforços e cuidando que a boa comunicação permaneça

com discussões criativas. Na resolução de problemas, o processo de

negociação pode ser tão importante quanto o resultado final.

Negociações bem-sucedidas utilizando mecanismos como: aprender a

ouvir e falar com paciência; evitar ou interromper ciclos negativos de

crítica; responsabilização e retraimento; validar sentimentos confusos como

parte da experiência; reexaminar e renegociar as expectativas

periodicamente; concentrar-se em objetivos alcançáveis; dar passos

concretos; acreditar no sucesso e aprender com o fracasso pode tornar uma

família mais resiliente diante da crise.

Enfrentamento familiar e manejo da doença

 

Uma pessoa sofre ao ter seu corpo incompreendido na expressão da dor,

marcado por invasões, intervenções, sequelas e recaídas. A doença crônica

pode ser representada como um ataque à integridade física, social e psíquica

do sujeito e será partilhada com consequências imprevisíveis e realidade

desconhecida pela família. Do ponto de vista sistêmico, a família precisa

estar incluída no manejo da doença crônica, juntamente com o paciente e a

equipe de saúde. De uma maneira ou outra, o paciente e sua família

necessitarão responder às exigências avaliadas como excessivas diante dos

recursos de ajustamento que a doença impõe. A esse processo dá-se nome

de processo de enfrentamento. Reorganizar responsabilidades, lidar com

implicações financeiras, reabilitação física, agravamentos e remissões dos

sintomas são demandas que exigem um esforço adaptativo que mobiliza

recursos psicossociais para lidar com a enfermidade. Nem sempre a

adaptação possível é positiva. É possível haver uma adaptação utilizando-se

a inibição da ação ou catastrofização com ampliação dos estímulos de

sofrimento e orientação pessimista.

Parkes4 identificou uma categoria de enlutados por causas não

reconhecidas, entre elas, a doença. Quem perde a saúde perde também

independência, autonomia, o papel no mundo, seus sonhos. Frequentemente

esses enlutados expressam uma sensação de vazio, isolamento ou

mutilação, precisando passar pelo reconhecimento da perda e aceitação

para, só então, adotar uma nova postura.

Três fios evolutivos precisam ser considerados e vinculados a um

contexto de desenvolvimento do indivíduo que é doente crônico e sua

família: o ciclo de vida do indivíduo, o ciclo de vida da família e o ciclo da

doença, que devem ser caracterizados em termos psicossociais e

longitudinais. Segundo Combrinck-Graham,5 alguns momentos no ciclo de

vida familiar requerem altos níveis de coesão familiar e vínculos intensos,

como nascimento de filhos, criação de filhos pequenos, netos, casamentos,

aumentando a aproximação entre os membros, enquanto em outros

momentos no ciclo de vida familiar a unidade familiar enfatiza o ambiente

extrafamiliar. Com a alteração do contexto de vida, é fundamental

considerar o período desenvolvimental de quando a doença acontece, para

melhor compreensão dessa dinâmica. Os momentos de transição no ciclo familiar são considerados potencialmente mais vulneráveis, pela

descontinuidade. Por exemplo: uma doença afeta um provedor de uma dada

maneira, quando seus filhos são pequenos. O grupo familiar, então,

precisará ser cuidadosamente observado, pois poderá acontecer uma

sobrecarga na demanda de recursos de enfrentamento por parte de um ou

alguns dos membros da família, implicando esforço extremo de adaptação.

O funcionamento e a estrutura da família passaram por transformações

inevitáveis nas últimas décadas. O papel de cada membro na família tem se

alterado significativamente, as fronteiras tem se afrouxado e seus contornos

se expandido, como verificamos nos recasamentos e na longevidade de seus

membros. Novas maneiras de adaptação e organização de experiências têm

sido necessárias, já que não podemos desconsiderar a tendência de que

gerações repitam comportamentos, como modo de manter o controle dos

processos relacionais. Mudar pode causar grande sofrimento e ansiedade

pela instabilidade e, com isso, algumas famílias podem apresentar maior

rigidez e sistemas inflexíveis.

Observando o momento do ciclo vital de uma família, são considerados:

suas origens étnicas, sua inserção social e cultural, tipos de rituais que

cultiva, como esta mantém vínculos, como lida com crises e conflitos. O

sentido de ciclo é associado ao processo de vida e aos fenômenos que se

sucedem com determinado ritmo da história familiar.

Uma família é marcada por ganhos e perdas. Quando um membro da

família está doente, Carter e McGoldrick et al.6 destacam, entre os

comportamentos de enfrentamento familiar funcional durante a doença:

comunicação aberta; partilha de responsabilidades; planejamento realista do

futuro; valorização das capacidades restantes do paciente; acolhimento de

um paciente nutrido de medos reais e imaginários; flexibilidade de

expectativa; desenvolvimento de novos papéis no sistema familiar;

adaptação ao desfecho do tratamento; oferecimento de apoio social ao

paciente; favorecimento do encerramento de laços; apoio e amparo à

solidão, perdas e finitude.

Famílias fusionadas, segundo Beavers e Hampson,7 tendem a reagir com

exagero e intolerância à separação, além de vivenciar transtornos

internalizados, como ansiedade e depressão. Já nas famílias desvinculadas,

a distância bloqueia a comunicação, a relação e as funções mutuamente protetoras da família. Nesses casos, pressões por consenso podem interferir

negativamente na resolução de problemas. Os autores descreveram ainda

processos de sistemas com tendências “centrípetas” (buscam conexão e

satisfação para suas vidas dentro de casa) e “centrífugas” (buscam

satisfação fora de casa).

Uma família é considerada disfuncional quando não atende às

necessidades sociais, as mudanças no ciclo vital que precisam ser realizadas

não acontecem, seus integrantes não expressam com clareza seus

sentimentos, pautam-se pelo que não é dito ou não confiam nas palavras.

No caso específico de doença, a disfunção familiar acontece quando

encontramos: negação das mudanças ocorridas; culpabilização do paciente

ou membros da família; manutenção de um modelo mental de doença;

reações tardias; medo excessivo. Com isso, torna-se comprometido o

equilíbrio e a situação familiar passa a ser vista como ameaçadora. Nesse

caso, as estratégias tornam-se pouco efetivas ou insuficientes para garantir o

bem-estar emocional e a qualidade de vida das pessoas.

 

Atuação da equipe multiprofissional

 

De uma equipe multiprofissional de saúde espera-se cautela, pois suas

ações envolvem grande complexidade e afetam todas as dimensões

humanas: emocional, física, cognitiva, social e espiritual. A doença exige

do paciente elaboração do luto pela perda da saúde, da autonomia, da

independência e, em consequência, o reajustamento psicossocial. Também é

prioritário que se faça uma investigação sobre a utilização de práticas

ligadas à resiliência por profissionais da saúde, nesta nova família que

rompe seu processo de vida natural pela doença de um dos seus membros.

Para a humanização dos cuidados em saúde hoje, o grande desafio de

uma equipe multiprofissional é que esta vá além das aparências e procure

compreender o significado da vida atribuído por quem a vivencia e entender

o modo de inserção do indivíduo no mundo, enfim cuidar com competência

científica e humana, não bastando para um atendimento integrado o melhor

tratamento médico medicamentoso, nem as melhores acomodações. A

equipe multiprofissional pode iniciar um movimento de “com-fiar” (tecer

com) e “com-sentir” (sentir com), aproximando-se sem invadir os espaços íntimos familiares e distanciando-se sem causar a eles a sensação de

abandono.

A atenção da equipe às necessidades práticas, sociais, físicas e

emocionais do doente possibilita tornar efetivo o cuidado e proporciona a

elaboração e ressignificação da experiência vivida. Nesse contexto, é

importante avaliar aspectos como informações acerca da saúde física do

paciente; histórico de perdas; enlutamento por perdas relacionadas com a

doença; estratégias de enfrentamento; reações emocionais; características de

personalidade do paciente e cuidadores informais; padrões de

relacionamento na família; sistema de crenças, mitos e legados familiares;

presença de rede de apoio. A intervenção a partir daí deve contemplar o

alívio da ansiedade, abertura da comunicação entre familiares e equipe,

fortalecimento emocional para o enfrentamento adequado com relação à

crise da doença e reorganização familiar, estabelecimento de canal para

expressão e reflexão sobre a dor e sofrimento.

A formação dos profissionais de uma equipe multiprofissional deve

preparar cada integrante a considerar maneiras sistêmicas e compartilhadas

de solução de problemas. Ao focalizar a integralidade de quem é atendido e

sua família, o olhar se expande para intervenções no domínio social,

psicológico e espiritual, levando em conta também o que existe de saudável

naquele ser doente. As demandas da saúde e o crescente desenvolvimento

científico e tecnológico produziram estratégias e mecanismos para efetivar

o trabalho em equipe, sendo respeitada a capacitação e a autonomia de cada

profissional envolvido e ao mesmo tempo sendo discutidas situações de

interface. Segundo Rumen,8 a construção do conhecimento compartilhado

diz respeito à aceitação da incompletude e traz de modo inerente a abertura

para o conhecimento do outro pela escuta e troca profissional. As

interconsultas e discussões de caso tornam-se valiosos espaços de interação

enriquecidos por normas de atuação abertas aos questionamentos e devem

estar presentes em todas as áreas que formam uma equipe de saúde. Ficam

assim disponibilizados caminhos com enfoque incluindo as necessidades

associadas à doença, na busca de acolher o paciente e sua família na sua

individualidade e totalidade.

Para Rosso,9 existem ações que podem aumentar o êxito na resolução de

problemas de uma equipe que são: focar no processo e não nas pessoas; procurar delicadeza nos gestos e palavras; ser sincero e franco nas próprias

colocações; validar o que se entendeu, partindo do princípio de que nem

todas as pessoas se expressam bem. Silva10 descreveu outras atuações

eficazes na resolução de conflitos: analisar situações baseadas em fatos

concretos; aceitar as diferenças; focar interesses comuns; reconhecer os

sentimentos envolvidos; usar critérios objetivos; inovar quando soluções

não são de comum acordo; validar tudo o que foi acordado; ser respeitoso.

Uma reformulação curricular das universidades tem contemplado

treinamento para formação de equipes multiprofissionais, aperfeiçoando

habilidades específicas, como capacitação em comunicação, reflexões sobre

bioética, conceitos sobre cuidados paliativos e manejo de situações

estressantes, proporcionando articulação sobre novos saberes, práticas e

políticas. Têm sido ainda preparados profissionais mais conscientes da

importância do papel de cuidar, mesmo quando não podem curar. Kovács,

Macieira e Carvalho11 consideram que educar não é só instruir, mas também

formar pautado no conhecimento e na ética, respeitando a diversidade de

saberes e reconhecendo valores, direitos e realidades singulares. Além

disso, segundo Pessini,12 quem cuida e se deixa tocar pelo sofrimento do

outro se humaniza no processo e se transforma em um radar de alta

sensibilidade. Esta se torna uma chance preciosa para se adquirir sabedoria,

para muito além do conhecimento científico.

A habilidade de comunicação estudada, melhorada e treinada torna-se

um recurso importante na assistência à saúde. Considerar aspectos como

escolaridade, gênero e cultura melhora a expressão e fortalece a

comunicação a ser estabelecida entre paciente, sua família e uma equipe de

saúde.

Segundo Perdicaris,13 não existe neutralidade na interação das pessoas.

O tom da voz, as palavras escolhidas, o silêncio, um olhar, um gesto, a

ênfase dada e a postura corporal informam tudo o que é dito. É necessário

reconhecer as diferenças entre gêneros e sua interferência na boa

comunicação.

Considera-se que a comunicação não verbal tenha extrema relevância na

relação entre o profissional de saúde e o paciente, oferecendo informações

mais ricas do que é expresso pela fala. Enquanto comunica ao profissional o

que sente, o paciente identifica no cuidador emoções, sinais de empatia, distanciamento e sensações obtidas pelo toque. O profissional também pode

ser informado pelo paciente sobre sua cultura, gênero, classe social e

qualidade das relações familiares, enquanto fala sobre suas dores. A

interpretação do significado do silêncio pode desvendar raiva, vergonha,

confusão ou depressão. Portanto, ao transmitir uma mensagem, é necessário

haver simetria entre todas as maneiras de expressão, para assim transmitir

confiança. Coerência no que é dito pelos profissionais da equipe, com a

possibilidade de informações serem repetidas quantas vezes forem

necessárias, oferece continência e diminui o nível de estresse vivido pelos

outros membros da equipe ou unidade de cuidado.

O nosso país consiste em uma população heterogênea e, neste enfoque,

Souza14 reconheceu que expressões regionais, crenças e ditos se apresentam

como códigos de linguagens, que espelham significações singulares, o que

pode dificultar a comunicação entre os integrantes de uma equipe ou da

equipe com o paciente e sua família. A utilização de uma linguagem

comum nas reuniões clínicas, que facilite o intercâmbio de saberes, resulta

geralmente em atuações não parciais ou fragmentadas.

Uma equipe multiprofissional tem o desafio de interpretar de maneira

responsável o que é exposto pelos seus membros, incentivando o diálogo

para uma aproximação correta e pacientemente construída. Segundo

Rumen,8 durante a criação de equipes os fatores de risco mais encontrados

são dificuldade de comunicação entre os profissionais, disputas de poder,

conflitos não resolvidos, divisão rígida e imposta no trabalho.

A condução de uma conferência familiar (reunião entre família e equipe

multiprofissional) pode constituir-se em valiosa ferramenta interdisciplinar,

por propiciar espaço para discussão, orientação e catarse no grupo familiar

e tem regras como: valorizar a manifestação familiar; reconhecer emoções

(como negação, raiva, culpa); ouvir a família; entender as necessidades do

paciente; perguntar ativamente assuntos pendentes.

Quanto mais coesa for a comunicação entre os membros da equipe,

mais as famílias terão a oportunidade de interação e o resultado do encontro

será facilitado. Forte15 entende que os pacientes têm necessidades práticas e

de informação muito diferentes. Alguns pacientes e suas famílias optam por

compartilhar as decisões tomadas e assumem a responsabilidade pelo

tratamento juntamente com a equipe, enquanto outros preferem manter-se conduzidos no tratamento. As decisões do paciente identificadas e

consideradas proporcionam autonomia, um princípio ético a ser respeitado.

Qualquer membro da equipe pode e deve assumir o cuidado do paciente e

seus familiares, quando solicitado por afinidade.

Lidar com a experiência do adoecimento, da dor, da impotência, da

revolta e do estresse como obstáculo à vida plena pode causar sobrecarga

aos profissionais da saúde, portanto, é importante que a equipe, para

desenvolver um bom trabalho, seja também bem cuidada. Frustrações são

inerentes a esse processo de cuidar e os membros da equipe precisam saber

pedir auxílio, reconhecer seus limites e ter a possibilidade de apoio,

acolhimento e supervisão para lidar com questões internas que as demandas

mobilizam. A desconstrução do modelo hierárquico dentro da equipe, a

capacitação técnica constante e o respeito mútuo são necessidades

imprescindíveis para o sucesso de uma equipe bem-sucedida. Em bases

menos autoritárias, adota-se, portanto, uma postura menos burocrática em

que se valoriza mais o processo do que o resultado final.

Profissionais habilitados e organizados para diagnóstico e tratamento de

dor aguda ou crônica de pacientes internados ou ambulatoriais, ligados à

pesquisa e ensino sobre dor, formam um centro multidisciplinar de dor. A

postura da equipe deve ser de reconhecimento pela necessidade de

complementação dos saberes, considerando a complexidade de cada caso e

a atuação dos profissionais acontece por consenso. O corpo clínico varia

entre os serviços existentes constando, em geral, de médicos (anestesista,

psiquiatra, ortopedista, neurologista), fisioterapeuta, psicólogo, enfermeiro.

Entre as possibilidades de compreensão e intervenção para dor crônica,

destacam-se os trabalhos psicoeducativos, instrumentos de avaliação e

técnicas de intervenção específicas.

Trabalhos psicoeducativos podem despertar uma atitude ativa no

paciente com dor, em relação à sua saúde e uma sensação de algum controle

pela percepção de que parte do seu cuidado está em suas mãos, interferindo

na adesão ao tratamento.

O quadro psiquiátrico é comumente encontrado em pacientes com dor

crônica. Por esse motivo, investigações sobre ansiedade, depressão,

estresse, transtorno do sono e diminuição de libido constam da anamnese

detalhada realizada com o doente e seus cuidadores. Por exemplo: um paciente com sono não reparador causado pela dor pode ter prejudicadas a

compreensão e a interpretação adequada da realidade e confundir os

cuidadores formais e informais a respeito das informações oferecidas e

assim instalarem-se repetidos ciclos de insucesso.

Portenoi16 sugere que sejam aplicados inventários e questionários

específicos para pacientes com dor, para explorar hipóteses levantadas na

anamnese, como recurso apenas complementar a avaliação psicológica, pois

oferecem informações destacadas do contexto psicodinâmico dos

indivíduos.

O conforto e bem-estar podem ocorrer no atendimento psicoterápico,

quando o paciente com dor crônica torna-se capaz de recuperar autonomia e

individualidade, participar de atividades no contexto familiar ou social,

aceitar e elaborar sua atual realidade, identificar gatilhos que possam

interferir na intensidade da dor.

Técnicas de acupuntura, hipnose, distração, relaxamento e imaginação

dirigida têm se mostrado muito eficientes no tratamento de dor crônica.17

Técnicas projetivas podem ser utilizadas para favorecer o reconhecimento

da própria dor e ainda sua expressão e comunicação de maneira menos

subjetiva.

A dor, portanto, não pode mais ser contextualizada como produto de

disfunção orgânica exclusivamente. Novas possibilidades de compreensão e

atuação sobre o fenômeno têm trazido resultados benéficos e efetivos,

evitando sofrimento por processos dolorosos. Tendo afetada a integridade

do corpo e ameaçada a integridade da pessoa, o paciente com dor tem sido

cada vez menos negligenciado no contexto da assistência médica no nosso

país.

Ao reconhecer a multicausalidade da experiência subjetiva que é a dor

crônica e suas significações, modificações consistentes no seu trato têm

ocorrido com êxito.

 

Referências bibliográficas

1. WALSH, F. Fortalecendo a resiliência familiar. São Paulo: Roca, 2005.

2. SELIGMAN, M. Learned optimism. New York: Random House, 1990.

3. SELIGMAN, M. The optimistic child. Boston: Houghton Mifflin, 1995.

4. PARKES, C. Luto: estudos sobre perda na vida adulta. São Paulo: Summus, 1998.

5. COMBRINCK-GRAHAM, L. A. Developmental model for family. Fam. Proc., v. 24, p. 139-150, 1985.

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a Texto baseado na dissertação em Psicologia clínica “Práticas da Equipe de Saúde ligadas à

Resiliência para a Unidade de Cuidado” pela PUC-SP, com apoio do CNPQ.

 

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