A Psicologia da Dor
Prefácio
A dor se mantém como um dos maiores flagelos que acometem a
Humanidade. Apesar dos numerosos progressos observados em sua
conceituação, avaliação, quantificação, determinações etiológica e
nosológica, e procedimentos terapêuticos, reabilitacionais e
reintegracionais, a dor ainda é compreendida, prevenida e tratada de
maneira insatisfatória, especialmente quanto aos mecanismos que justificam
sua ocorrência, quando se torna crônica ou de natureza essencialmente
funcional.
Clama-se por linhas mestras que nos guiem para o entendimento mais
bem elaborado sobre dor e suas peculiaridades e que possibilitem o seu
tratamento, adequando-o às individualidades do ser humano. Torna-se
necessário que sejamos mentores da divulgação de nossas experiências e
percepções, assim como da de outros, visando ao aprimoramento de nossos
conhecimentos e preservando as questões centradas no doente. Há uma
crescente coletânea e sobrecarga de informações – sobre custos,
funcionalidade física, uso de fármacos, abuso, vício, diversificação de uso
de fármacos e de métodos intervencionistas para tratar as dores aguda e crônica –, assim como um explosivo número de publicações sobre a
fisiologia da nocicepção nas últimas décadas, sem que o tema central do
sofrimento e da dor propriamente dita seja de fato considerado em sua
integralidade. Sabe-se pouquíssimo sobre o que de fato significam
nocicepção, dor e sofrimento, em parte por causa da materialidade com que
os sentimentos são presentemente contemplados na esfera acadêmica e da
pouca ênfase atribuída às razões das inúmeras dimensões das sensibilidades
e percepções no repertório dos currículos na formação dos profissionais
dedicados às ciências básicas e aplicadas.
Pesquisadores e profissionais que atuam na assistência à saúde
reconhecem há séculos que a dor apresenta numerosas dimensões quanto ao
seu processamento, suas expressões e suas repercussões, tal como atestado
nos estudos observacionais, nas investigações em laboratórios dedicados a
experimentações com animais ou seres humanos e na prática clínica. De
acordo com as evidências experimentais e clínicas e as conclusões de
numerosos consensos organizados que visam à determinação dos conceitos
e à adequação de consensos sobre sua ocorrência, modelos de avaliação e
de quantificação e uso de procedimentos terapêuticos, a dor, assim como
outras modalidades de sensibilidade consciente, apresenta, pelo menos, três
dimensões essenciais: a sensitiva ou nociceptiva, que possibilita identificá-
la no tempo e no espaço, sua natureza, sua magnitude e seu significado no
contexto temporal em relação a outras qualidades e modalidades sensitivas
e a realidades momentâneas; a emocional, que lhe atribui conotações
aversivas; e a cognitiva, que evoca lembranças, percepções e experiências
passadas que marcadamente interagem com sua interpretação. Portanto,
nocicepção, dor e sofrimento são entidades que apresentam sua
individualidade, como também inter-relações profundas, intrincadas e
indissociáveis. Não há dúvida de que a dimensão emocional é a que mais
contribui para o sofrimento e para a incapacidade, mas só recentemente
tornou-se razão da maciça atração pelo tema por parte dos investigadores e
profissionais dedicados ao tratamento da dor, assim como de sua
epidemiologia, fatores predisponentes, mecanismos de ocorrência,
prevenção, reabilitação, reinserção e realocação dos doentes nos seus
ambientes ou em ambientes mais apreciáveis.
No Brasil, como na maioria dos países, os conhecimentos sobre a
interface nocicepção e dor, propriamente dita, é mal entendida e ainda não
muito divulgada. Existe um enorme abismo, em especial entre aqueles que
oferecem tratamento para pacientes que padecem de dor, em entender que
nocicepção é apenas o passo inicial para a fenomenologia dolorosa. Estudos
realizados em seres humanos identificaram modificações expressivas em
regiões do encéfalo comuns entre aquelas ativadas e estruturalmente
modificadas de modo temporário ou permanente quando o processamento
nociceptivo e emocional é desencadeado e mantido. Descobriu-se também
que não há regiões que processam exclusivamente a nocicepção, mas sim
que concomitantemente elaboram ou modulam a fisiologia de ambos. Além
disso, há evidências de que a mesma fenomenologia é evocada quando
outras qualidades e modalidades sensitivas, especialmente as conscientes,
são processadas.
É, portanto, oportuna a divulgação das recentes aquisições no campo da
fenomenologia psicológica relacionada à nocicepção, à dor e ao sofrimento.
Nesse contexto, esta obra cumpre uma lacuna existente em nosso meio e
traz atualizações sobre o esclarecimento de questões biológicas e clínicas
essenciais e avançadas sobre razões de ocorrência, análise, orientação e
condução daqueles que padecem com a nocicepção, a dor e o sofrimento.
Os capítulos que a compõem foram elaborados e revisados com esmero
pelos seus autores, personagens consagrados na área de investigação básica
e aplicada na área de dor em nosso meio, e que, em seus memoriais,
demonstram dotar de conhecimentos profundos sobre os temas que
desenvolveram e de sabedoria para analisá-los, acrescentando a essência de
suas contribuições pessoais sobre essa temática tão complexa. O
desenvolvimento deste livro prima pela clareza, exatidão, retidão e
objetividade, de modo a oferecer aos leitores visão avançada, ampla e com
evidenciação de perspectivas futuras sobre a dor em toda a sua magnitude
de significado. Torna-se, assim, referência destacada para profissionais
dedicados às ciências da saúde, que atuam em laboratórios de investigação,
nas áreas de políticas de saúde e, especialmente, no árduo campo dos
cuidados destinados aos que sentem dor. Tenho a certeza de que todos os
leitores absorverão conhecimentos que deverão reformular o modo de como
interpretar melhor nossos semelhantes que sentem dor.
Manoel Jacobsen Teixeira
Professor Titular da disciplina de Neurocirurgia do Departamento de
Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Chefe e Fundador do Centro de Dor do Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Diretor da Divisão de Clínica Neurocirúrgica do Instituto Central e
da Divisão de Neurocirurgia Funcional do Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
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