A Psicologia da Dor

Andréa G. Portnoi · Capítulo 3 de 23

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A Psicologia da Dor

Prefácio

A dor se mantém como um dos maiores flagelos que acometem a

Humanidade. Apesar dos numerosos progressos observados em sua

conceituação, avaliação, quantificação, determinações etiológica e

nosológica, e procedimentos terapêuticos, reabilitacionais e

reintegracionais, a dor ainda é compreendida, prevenida e tratada de

maneira insatisfatória, especialmente quanto aos mecanismos que justificam

sua ocorrência, quando se torna crônica ou de natureza essencialmente

funcional.

Clama-se por linhas mestras que nos guiem para o entendimento mais

bem elaborado sobre dor e suas peculiaridades e que possibilitem o seu

tratamento, adequando-o às individualidades do ser humano. Torna-se

necessário que sejamos mentores da divulgação de nossas experiências e

percepções, assim como da de outros, visando ao aprimoramento de nossos

conhecimentos e preservando as questões centradas no doente. Há uma

crescente coletânea e sobrecarga de informações – sobre custos,

funcionalidade física, uso de fármacos, abuso, vício, diversificação de uso

de fármacos e de métodos intervencionistas para tratar as dores aguda e crônica –, assim como um explosivo número de publicações sobre a

fisiologia da nocicepção nas últimas décadas, sem que o tema central do

sofrimento e da dor propriamente dita seja de fato considerado em sua

integralidade. Sabe-se pouquíssimo sobre o que de fato significam

nocicepção, dor e sofrimento, em parte por causa da materialidade com que

os sentimentos são presentemente contemplados na esfera acadêmica e da

pouca ênfase atribuída às razões das inúmeras dimensões das sensibilidades

e percepções no repertório dos currículos na formação dos profissionais

dedicados às ciências básicas e aplicadas.

Pesquisadores e profissionais que atuam na assistência à saúde

reconhecem há séculos que a dor apresenta numerosas dimensões quanto ao

seu processamento, suas expressões e suas repercussões, tal como atestado

nos estudos observacionais, nas investigações em laboratórios dedicados a

experimentações com animais ou seres humanos e na prática clínica. De

acordo com as evidências experimentais e clínicas e as conclusões de

numerosos consensos organizados que visam à determinação dos conceitos

e à adequação de consensos sobre sua ocorrência, modelos de avaliação e

de quantificação e uso de procedimentos terapêuticos, a dor, assim como

outras modalidades de sensibilidade consciente, apresenta, pelo menos, três

dimensões essenciais: a sensitiva ou nociceptiva, que possibilita identificá-

la no tempo e no espaço, sua natureza, sua magnitude e seu significado no

contexto temporal em relação a outras qualidades e modalidades sensitivas

e a realidades momentâneas; a emocional, que lhe atribui conotações

aversivas; e a cognitiva, que evoca lembranças, percepções e experiências

passadas que marcadamente interagem com sua interpretação. Portanto,

nocicepção, dor e sofrimento são entidades que apresentam sua

individualidade, como também inter-relações profundas, intrincadas e

indissociáveis. Não há dúvida de que a dimensão emocional é a que mais

contribui para o sofrimento e para a incapacidade, mas só recentemente

tornou-se razão da maciça atração pelo tema por parte dos investigadores e

profissionais dedicados ao tratamento da dor, assim como de sua

epidemiologia, fatores predisponentes, mecanismos de ocorrência,

prevenção, reabilitação, reinserção e realocação dos doentes nos seus

ambientes ou em ambientes mais apreciáveis.

No Brasil, como na maioria dos países, os conhecimentos sobre a

interface nocicepção e dor, propriamente dita, é mal entendida e ainda não

muito divulgada. Existe um enorme abismo, em especial entre aqueles que

oferecem tratamento para pacientes que padecem de dor, em entender que

nocicepção é apenas o passo inicial para a fenomenologia dolorosa. Estudos

realizados em seres humanos identificaram modificações expressivas em

regiões do encéfalo comuns entre aquelas ativadas e estruturalmente

modificadas de modo temporário ou permanente quando o processamento

nociceptivo e emocional é desencadeado e mantido. Descobriu-se também

que não há regiões que processam exclusivamente a nocicepção, mas sim

que concomitantemente elaboram ou modulam a fisiologia de ambos. Além

disso, há evidências de que a mesma fenomenologia é evocada quando

outras qualidades e modalidades sensitivas, especialmente as conscientes,

são processadas.

É, portanto, oportuna a divulgação das recentes aquisições no campo da

fenomenologia psicológica relacionada à nocicepção, à dor e ao sofrimento.

Nesse contexto, esta obra cumpre uma lacuna existente em nosso meio e

traz atualizações sobre o esclarecimento de questões biológicas e clínicas

essenciais e avançadas sobre razões de ocorrência, análise, orientação e

condução daqueles que padecem com a nocicepção, a dor e o sofrimento.

Os capítulos que a compõem foram elaborados e revisados com esmero

pelos seus autores, personagens consagrados na área de investigação básica

e aplicada na área de dor em nosso meio, e que, em seus memoriais,

demonstram dotar de conhecimentos profundos sobre os temas que

desenvolveram e de sabedoria para analisá-los, acrescentando a essência de

suas contribuições pessoais sobre essa temática tão complexa. O

desenvolvimento deste livro prima pela clareza, exatidão, retidão e

objetividade, de modo a oferecer aos leitores visão avançada, ampla e com

evidenciação de perspectivas futuras sobre a dor em toda a sua magnitude

de significado. Torna-se, assim, referência destacada para profissionais

dedicados às ciências da saúde, que atuam em laboratórios de investigação,

nas áreas de políticas de saúde e, especialmente, no árduo campo dos

cuidados destinados aos que sentem dor. Tenho a certeza de que todos os

leitores absorverão conhecimentos que deverão reformular o modo de como

interpretar melhor nossos semelhantes que sentem dor.

Manoel Jacobsen Teixeira

Professor Titular da disciplina de Neurocirurgia do Departamento de

Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Chefe e Fundador do Centro de Dor do Hospital das Clínicas

da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Diretor da Divisão de Clínica Neurocirúrgica do Instituto Central e

da Divisão de Neurocirurgia Funcional do Hospital das Clínicas

da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

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