A Psicologia da Dor
14 Reconhecimento e Avaliação da Dor no Câncer
Catarina Nívea Bezerra
Câncer e dor oncológica
Em 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou que a dor
associada à neoplasia é uma emergência médica mundial. No entanto, Melo
e Pinto-Filho1 asseguram que a melhora ocorrida no controle da dor do
câncer ao longo dos últimos 15 anos não foi o suficiente para que esta
deixasse de ser considerada um sério problema de saúde pública.
De acordo com a International Association for the Study of Pain
(IASP)2 e com o Instituto Nacional de Câncer (INCA),3 o câncer é uma das
doenças mais desafiadoras deste século, em razão da ausência de cura e
tratamento eficaz, bem como do efeito devastador que causa dor no doente.
Ele é definido como um grupo de doenças caracterizadas pela perda do controle da divisão celular e pela capacidade de invadir outras estruturas
orgânicas (metástase).
De acordo com a Union Internationale Contre le Cancer (UICC), a cada
ano são diagnosticados mundialmente 11 milhões de novos casos. Segundo
o INCA,4 o câncer é uma doença que apresenta alta morbidade e elevada
mortalidade no Brasil. Estimase que, em 2020, 16 milhões de pessoas serão
diagnosticadas com câncer, sendo mais da metade em países
industrializados e em desenvolvimento.
De acordo com os dados epidemiológicos, 6 milhões de novos casos de
câncer surgem por ano no mundo, em uma proporção média de 98% nos
adultos.5 No Brasil, as estimativas para 2009 e 2010 eram de
aproximadamente 466.730 (0,25%) casos novos de câncer, levando em
consideração sobretudo o ambiente, cujo impacto é o fator
socioeconômico.3Alberts et al.5 e o Ministério da Saúde do Brasil definem o
câncer como um conjunto de cerca de 100 doenças que podem variar em
diferentes aspectos, relativos a etiologia, órgãos e modalidades de
tratamento especificamente requeridas, o que justifica esse agrupamento
sob uma mesma designação. Todavia, é uma característica essencial do
câncer ser um distúrbio inserido na regra mais fundamental dos seres
multicelulares – a cooperação. Isso significa que algumas células, chamadas
cancerosas, passam a apresentar um crescimento rápido e desordenado em
relação às células normais, o que origina um tumor ou neoplasma. Esse
tumor é conhecido como tumor maligno (ou câncer), ou seja, estas células
têm o poder de migrar para tecidos vizinhos, formando tumores
secundários, designados metástases.
As células cancerosas dividem-se rapidamente de maneira agressiva e
incontrolável na formação dos tumores, podendo formar diferentes tipos de
câncer, classificados principalmente em: carcinomas (quando têm início em
tecidos epiteliais) ou sarcomas (começam em tecidos conjuntivos, como
ossos, músculos ou cartilagem).
O câncer não tem causas bem definidas, e atualmente existem duas
hipóteses para o aparecimento dessa enfermidade: fatores externos ou
fatores internos do organismo que podem estar inter-relacionados.
Segundo o INCA,3 a maioria dos casos de câncer foi associada a fatores
ambientais, hábitos, costumes e cultura. Então, o surgimento do câncer depende da intensidade e da duração da exposição das células aos agentes
causadores da patologia. Existem, no entanto, tumores como o
retinoblastoma, que podem ser causados por fatores hereditários.
Yamaguchi6 apontou a experiência de uma série de métodos
diagnósticos para a detecção do câncer, entre eles o exame de sangue, a
ultrassonografia e a ressonância nuclear magnética. O laudo final era feito
com base no procedimento de biopsia ou punção. Quanto mais precoce
fosse realizado o diagnóstico, melhores seriam as perspectivas e os
prognósticos do tratamento.
Segundo o INCA,3 cada tipo de dor de câncer pode ser avaliada e
reavaliada por meio do tratamento e progresso da doença, no entanto,
muitos países em desenvolvimento têm um pequeno número de
profissionais que trabalham com a dor oncológica e não podem, assim, dar
a atenção necessária para essa enfermidade que traz tanto sofrimento para a
população mundial.
A IASP2 desenvolve atualmente projetos em alguns países com suporte
para treinar atividades que melhorem o gerenciamento da dor de câncer, por
objetivar uma melhora na vida das pessoas que sofrem com este mal.
Especialistas de países centrais observam que a manifestação da dor de
câncer é inevitável, por isso, encorajam as pessoas a viverem com ela. Por
sua vez, a IASP2 desenvolveu uma classificação da dor de câncer que
consiste em um catálogo de lesões e doenças que podem causá-la.
Segundo Bittencourt et al.7, a globalização e o acesso a novas
tecnologias possibilitaram meios mais eficientes para realizar um bom
diagnóstico e tratamento, além de proporcionar acesso a banco de dados,
melhorando, assim, o mapeamento e o registro de outros casos.
No Brasil, esse banco de dados é analisado pelo sistema de saúde que se
encontra dividido em três setores: (1) o público, representado pelo Sistema
Único de Saúde (SUS), por sinal, sendo esse o maior dos três, pois
apresenta o maior número de usuários; (2) o privado, que são as clínicas
particulares; e (3) os serviços de saúde dos ministérios.8
Ainda que todo o desenvolvimento ocorrido na oncologia tenha buscado
e obtido resultados no sentido de potencializar a cura de alguns tipos de
câncer e reduzir os efeitos colaterais do tratamento, estes ainda foram identificados como fonte de sofrimento e dor. Isso porque muitas das
descobertas relativas aos tratamentos permaneceram incompletas, de modo
que a terapia continuou sendo, em grande extensão, empírica e pouco
seletiva para células malignas e não malignas, o que agravava o problema
da toxicidade.9
Sontag10 propôs que o câncer, na década de 1980, era visto da mesma
maneira que a tuberculose no século anterior. Concluiu ainda que, enquanto
a ciência não compreender as suas causas, as prescrições médicas
continuarão ineficazes e essa enfermidade será considerada cruel e furtiva.
Beck e Falkson11 utilizaram-se de estudo feito pela OMS12 que sugeriu
aos países a inclusão de três estágios para melhorarem o tratamento da dor:
o melhoramento da política governamental, a educação e a disponibilidade
de fármacos. Os autores destacam ainda que a atividade inicial é a
implementação do Programa Nacional de Atenção ao Alívio de Dor, sendo
a instrução para a prevalência e a extinção do problema.
A OMS12 e Im et al.,13 tanto na África quanto no Brasil, asseguram que
o local de residência do paciente, principalmente quando é fora de capitais,
é um fator determinante para o tratamento da dor e da doença. Na maioria
das vezes, o governo não faz programas informativos, e os pacientes
também não têm as melhores oportunidades de fazer diagnósticos precoces
do câncer em suas cidades natais, por causa da carência de um programa de
saúde com profissionais preparados.
Outro fator importante que a OMS12 enfatiza para melhorar o tratamento
da dor de câncer é a educação dos pacientes. Verificou-se em vários estudos
que os pacientes têm níveis de escolaridade baixos, com maior risco de ter
queixas de dores por temerem relatar as suas experiências dolorosas para o
profissional da saúde, que, por sua vez, não está preocupado em escutar a
queixa do paciente.12,14,15
O último fator, não menos importante, citado pela OMS,12 é a questão
do tipo de câncer, pois já foi expresso por meio da literatura que os tipos de
câncer são semelhantes para ambos os sexos em vários países,
independentemente de ser um país desenvolvido ou em
desenvolvimento.8,12,15,16
O Brasil, por sua vez, está seguindo as normas da OMS e lançou a sua
Política Nacional de Atenção Oncológica (PNAO) em dezembro de 2005, com o objetivo de promover ações integradas do governo com a sociedade
e, assim, implementar uma nova política que reconheça o câncer como
problema de saúde pública e estruture a realização das ações para o seu
controle no país.3
Vários estudos8,11,17-19 mostram que a maior frequência da dor varia de
acordo com o tipo de tumor primário. Mais de 60% dos pacientes
apresentam dores quando têm tumores de mama, cólon e reto, pâncreas, da
esfera ginecológica, urológica, brônquios, da cabeça e pescoço e dos ossos,
principalmente quando os pacientes já tinham tumores avançados.
Caraceni e Portenoy,18 Zernikow et al.,19 Holtan et al.17 e Everdingen et
al.20 sugerem que os dados deviam incluir o diagnóstico, a fase da doença e
o modo da terapia do tumor. Assim, o entendimento da avaliação do
paciente com dor oncológica é tentar definir as características da dor,
esclarecendo a relação entre a dor e o neoplasma, classificando ambos por
meio das síndromes da dor e os mecanismos prováveis que podem ser
recebidos pela dor. Essas informações serão importantes para que o médico
possa reconhecer o progresso da doença.
De acordo com alguns autores,21-25 o grande problema da dor no câncer
é que a maioria dos pacientes não recebia tratamento necessário para
controlar a dor, pois, além da ansiedade de sentir dor, havia o problema da
dosagem, geralmente prescrita em doses inferiores ao necessário para o
alívio. Em geral, o médico tinha de se preocupar em escutar o relato de seus
pacientes para poder realizar o melhor prognóstico do caso.
Nos EUA, a dor no câncer tornou-se rapidamente uma doença crônica e
estima-se que uma média de 10 milhões de habitantes viva com este
diagnóstico, por não se ter um grande número de profissionais
especializados para tratá-la.14
Shvartzman et al.26 enfatizam que, no meio médico, a maioria desses
profissionais reluta em prescrever tratamentos adequados aos seus
pacientes, pois eles não fazem um inquérito anamnésico pormenorizado em
fundamentos de Fisiopatologia, não examinam o corpo do paciente com
esmerada semiotécnica, que, por si, eram métodos propedêuticos eficientes
e suficientes em quase todas as doenças. Este vício, adquirido mediante
errôneas orientações pedagógico-didáticas das escolas de medicina, conduzia o médico a não produzir anamnese e exame físico conclusivo do
paciente.
Alguns autores19,20,24 garantem que a dor do câncer é determinada quase
exclusivamente pelo tamanho de agressividade do antitumor no tratamento
desses efeitos adversos. Alguns dos efeitos mais comuns são: alopecia,
náuseas e mucosites, aumentando a suscetibilidade a infecções em
decorrência da imunodepressão, vômitos, entre outros.
Certos pesquisadores23,26,27 compreenderam que a equipe médica está
apta a avaliar o nível da dor. Morton28 e Klepstad et al.,29 por sua vez,
expressam a ideia de que a dor se torna um componente de aproximação
holística do cliente, reduzindo os riscos da equipe que foca o seu controle.
O problema, entretanto, foi a equipe acreditar na noção sobre a prevenção
da dor, em relação a implementar a mensuração, assim podendo melhorar as
informações ensinadas pela equipe, como medidas expressas para controlar
a dor dos pacientes.
Para Morton,28 Portenoy et al.30 e Cleeland,23 a avaliação da dor só era
exata quando o paciente podia contar à equipe médica sobre sua dor,
concluindo que os pacientes não perguntavam sobre os possíveis alívios da
dor, pois não tinham coragem de interromper a equipe médica ou porque o
remédio era desagradável e ainda induzia aos diversos efeitos colaterais.
Por esse motivo, todos os pacientes deviam ser regularmente avaliados
sobre a presença da dor, em relação ao seu desprazer e a sua causa.
Holtan et al.17 acentuam que diferentes estudos populacionais e
avaliações de instrumentos podem explicar algumas das discrepâncias do
não alívio de dor dos pacientes com câncer, revelando, assim, importantes
informações dentro da qualidade do tratamento de dor oferecido.
Estudos recentes1,31,32 evidenciaram que pouco mais de um terço dos
pacientes com câncer apresentam dor leve no momento do diagnóstico –
ocorrendo em 30 a 45% dos pacientes durante os estádios iniciais ou
intermediários –, enquanto dois terços ou 75% com a doença em estádio
avançado classificam a dor com intensidades moderadas ou graves, tendo,
assim, um aspecto negativo sobre o emocional e a qualidade de vida desses
pacientes.
Beck e Falkson11 e a OMS12 propõem que a influência dos fatores da
localização do câncer sobre a intensidade da dor é inconsistente, e também que não foram encontradas, nos seus estudos, diferenças na intensidade da
dor relacionada com o sexo e a idade e se está vivendo sozinho ou não.
Outros estudos,20,26 entretanto, dão a entender que o alívio da dor no
câncer ainda não foi alcançado, pois 77% dos pacientes ao redor do mundo,
com acompanhamento médico, não só não conseguem obter o alívio
necessário como dispõem de um controle inadequado do estado doloroso.
Dessa maneira, fica evidente que o problema da dor no câncer ainda não
teve uma solução adequada.
Philip et al.33 e Cleeland et al.23 evidenciam que os problemas de
avaliação são as maiores barreiras para o controle e a melhora dos sintomas
de dor dos pacientes. É necessário utilizar instrumentos que consigam
avaliar os sintomas que ocorrem com maior frequência e os que mais
afligem o paciente, assim como sua intensidade. É preciso também que os
instrumentos sejam curtos, de fácil compreensão e aplicabilidade para
médicos e pacientes em qualquer ambiente.
Estudo de mensuração da dor oncológica em pacientes do
Ambulatório de Dor do Instituto do Câncer do Ceará
Método
O objetivo deste estudo foi mensurar a dor de pacientes do Ambulatório
de Dor do Instituto do Câncer do Ceará (ICC), hospitalizados ou não, que
tivessem queixas de dor há mais de 1 mês.
A pesquisa incorporou os referenciais básicos da Bioética, referentes à
resolução no 196/1996 (autonomia, não maleficência, beneficência e
justiça), do Conselho Nacional de Saúde – MS/Brasil, para o
desenvolvimento de pesquisas in anima nolili. O trabalho foi aprovado pelo
Comitê de Ética do ICC.
A coleta de dados foi realizada no ICC, que é uma instituição hospitalar
filantrópica, fundada em 1944, com o objetivo de atender pessoas carentes
portadoras de câncer. Atualmente, é a maior referência em cancerologia no
Norte e Nordeste do país. Realiza mais de 300 mil atendimentos e cerca de
290 mil procedimentos por ano. A maior parte de sua clientela (90%) é do SUS. O ICC se localiza na cidade de Fortaleza, a quinta maior capital do
Brasil, no estado do Ceará.
Participaram da amostra final 475 pacientes, sendo 196 homens e 279
mulheres, com idades entre 18 e 91 anos. Todos os pacientes tinham
diagnóstico de câncer, sem nenhuma restrição do tipo de neoplasia. Essa
seleção foi amplamente avaliada por variar no tipo e na intensidade da dor
entre os diferentes tipos de câncer.
Além do termo de consentimento livre e esclarecido, coletou-se sobre
cada paciente: dados demográficos, características da doença e os
tratamentos para controle da dor. Finalmente, foi aplicado o Inventário
Breve de Dor no Brasil.34
As informações levantadas foram tabuladas e tratadas por métodos
descritivos para obtenção de medidas de tendência central, utilizando o
programa estatístico SPSS.
Resultados
As características sociodemográficas dos pacientes que compuseram a
amostra são apresentadas na Tabela 14.1. Houve predominância do sexo
feminino, 58,9% do total da amostra, enquanto 41,1% era do sexo
masculino. A média de idade foi 54,37 (± 14,56) e 62,89 (± 16,88),
respectivamente (18 anos no mínimo e 95 anos no máximo). Quanto à
escolaridade, 62,1% dos pacientes tinham o ensino fundamental, 25,1%
eram analfabetos, 10,9% tinham ensino médio e 1,9% tinham certificado de
ensino superior. As faixas de escolaridade incompleta foram agrupadas nas
faixas similares, o que contribuiu com o número de respondentes com
ensino fundamental completo.
Constatou-se maior concentração de pacientes que moravam fora das
capitais, 76,8% da amostra, sendo que 23,2% viviam em capitais,
condizente com os índices reais do INCA.4
Outro dado importante foi a faixa etária dos pacientes, agrupados em
intervalos de aproximadamente 20 anos, em que o intervalo de 41 a 60 anos
de idade predominou com 44,4% dos pacientes, sendo que as faixas etárias
de 41 a 80 anos de idade representaram 81,2% dos pacientes, configurando
um perfil de pessoas da terceira idade. Não foram encontradas diferenças significativas dentro da distribuição de gênero e tipo de câncer na amostra
de participantes do estudo. Não foi significativa, no entanto, a representação
de pacientes com idade ≥ 80 anos. A descrição do potencial desse viés
selecionado foi utilizada com o mesmo peso para toda a análise.
Outro dado relevante obtido foi o tipo de câncer que tem sido mais
diagnosticado em pacientes com dor relacionada com o câncer. Dentro dos
475 casos examinados, verificou-se que os tipos de câncer mais frequentes
são colo de útero, mama, próstata, cabeça e pescoço e osso, apresentados
por cerca de 300 pacientes, em um total de 63,2%. O diagnóstico mais
predominante foi de câncer no colo de útero (18,7%).
Tabela 14.1 Características demográ cas da população avaliada.*
Participantes em no (%)
Gênero
Masculino 195 (41,1)
Feminino 280 (58,9)
Grupo de idade (anos)
18 a 40 55 (11,6)
41 a 60 212 (44,4)
61 a 80 175 (36,8)
81 33 (6,9)
Educação
Analfabeto 119 (25,1)
Ensino fundamental 295 (62,1)
Ensino médio 52 (10,9)
Ensino superior 9 (1,9)
Residência
Capital 110 (23,2)
Não capital 365 (76,8)
Tipo de câncer
Colo de útero 89 (18,7)
Mama 76 (16)
Próstata 72 (15,2)
Cabeça e pescoço 63 (13,3)
Osso 55 (11,6)
Abdome 42 (8,8)
Pulmão 29 (6,1)
Reto 17 (3,6)
Outros 32 (6,7)
Total 475 (100)
*Cálculo estatístico realizado pelo programa SPSS.
Discussão
Os resultados obtidos possibilitam reflexões importantes e podem
contribuir para melhor compreensão a respeito da localização residencial,
do nível educacional, dos tipos de câncer mais frequentes para ambos os
sexos e a faixa etária. Alguns estudos11 apontam como fator significante a
localização residencial dos pacientes, por não terem melhores
oportunidades de diagnóstico precoce do câncer. Os dados deste estudo, de
certa maneira, suportam esta proposição porque a maioria da população
investigada reside fora de capitais do país (76,8%).
Os resultados deste estudo com relação ao primeiro diagnóstico da
doença foram semelhantes aos de Wang et al.35 na China; Uki et al.36 na
Itália; Uki et al.36 no Japão; Ger et al.37 em Taiwan; Radbruch et al.38 na
Alemanha; Beck e Falkson11 na África do Sul; Klepstad et al.29 na Grécia;
Borchgrevink et al. na Noruega; Aisyaturridha et al.39 na Malásia;
Everdingen et al.20 na Holanda; Holtan et al.;17 Miaskowski et al.40 nos
EUA.; Harris et al.32 no Canadá; Kalyadina et al.41 na Rússia; INCA8 e
Ferreira et al.42 no Brasil.
A probabilidade dos pacientes do sexo masculino sentirem mais dor
refere-se aos seguintes diagnósticos: próstata, cabeça e pescoço, pulmão e
reto. Para o sexo feminino, destacam-se os tumores de colo de útero, mama,
pulmão e de cólon e reto. Fica evidente que os tipos de neoplasias mais
comuns são independentes do grau de desenvolvimento do país.
O resultado sobre o nível educacional mostrou semelhanças com alguns
estudos, quando estes sugerem que pacientes com baixo nível educacional
têm maior probabilidade de não externar queixas de dor, pelo receio de
relatar as suas experiências dolorosas para o profissional da saúde,
resultando, assim, em tratamentos inadequados. Corroborando esta ideia,
Da Silva, Ribeiro-Filho e Matsushima43 propõem que um paciente típico
raramente faz um julgamento explícito sobre a intensidade de sua sensação
dolorosa, por temer descaso dos profissionais da saúde com relação à sua
demanda.
Outro dado que chama a atenção e merece reflexão reside no fato de que
a maioria dos pacientes (N = 212; 44,4%) recebeu o diagnóstico da doença
quando se encontrava na faixa etária de 41 a 60 anos de idade. Este
resultado corrobora outros estudos11,17,29,32,35-42,44 já realizados.
Em resumo, o estudo reuniu evidências de que a caracterização dos
pacientes com dor no câncer é semelhante em várias culturas e em vários
países, demonstrando que, independentemente de sexo, faixa etária, tipo de
câncer, escolaridade e moradia, a mensuração da dor oncológica está
relacionada com fatores neurofisiológicos, culturais, situacionais e
psicológicos.43
Considerações finais
A análise descritiva dos dados dos pacientes com dor no câncer
apresentou predominância em algumas características.
As características demográficas predominantes foram pacientes com
faixa etária de 40 a 60 anos, com ensino fundamental ou analfabeto.
Observou-se predominância do gênero feminino (58,9%) para os cânceres
de colo de útero e mama, representando 34,7% da amostra, que corrobora
dados estatísticos divulgados pelo INCA.4 Estes percentuais foram obtidos
em razão do controle no processo de coleta de dados do estudo. Constatou-
se que 76,8% dos pacientes não residem em capitais.
As incidências de cânceres de próstata, cabeça e pescoço, pulmão, cólon
e reto no sexo masculino continuam elevados no Brasil. Os dados deste
estudo revelam a necessidade de melhorar a educação e a informação sobre
a doença, importantes para melhorar a qualidade de vida desses pacientes, e
propõem como desafio aos governantes a realização de programas
informativos educacionais relacionados com o tipo, o tratamento e a dor no
câncer,
A presente investigação deu relevância à necessidade de elaboração e
implementação de estratégias que envolvam e mobilizem a população em
questões ligadas à saúde pública.
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