A Psicologia da Dor

Andréa G. Portnoi · Capítulo 20 de 23

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A Psicologia da Dor

16 Grupos Operativos no Enfrentamento da Síndrome de Fibromialgia

Andréa G. Portnoi

 

 

A síndrome de fibromialgia

 

A síndrome de fibromialgia (SFM) se caracteriza por dores

musculoesqueléticas generalizadas, rigidez articular e dor à palpação em

locais anatômicos conhecidos como pontos dolorosos,1 além de outros

sintomas como transtornos do sono, fadiga e sofrimento psíquico.2 Embora

sua incidência independa de sexo, idade e nível socioeconômico e cultural,

ela tende a ocorrer principalmente em mulheres (89%) entre os 20 e 60 anos

de idade.3

Apesar dos inúmeros estudos e pesquisas que vêm sendo realizados, a

etiologia e a fisiopatologia da SFM não estão determinadas, o que torna

tanto os tratamentos farmacológicos quanto os não farmacológicos

essencialmente paliativos. Como as hipóteses psicogênicas também não

estão confirmadas,4,5 a maioria das intervenções psicológicas se propõe a

melhorar o funcionamento do indivíduo e auxiliá-lo na adaptação à sua

condição.

 

Enfrentamento da dor na síndrome de fibromialgia

 

Pessoas com SFM vivem em esforço contínuo de adaptação. Adaptação

à sensação desagradável, aos sintomas inusitados e variáveis, às diversas

limitações físicas, à desestruturação da vida cotidiana e da vida social, à

paralização dos planos de futuro.

Adaptação é um conceito amplo que abrange rotinas, pensamentos e

comportamentos automáticos, além do processo de enfrentamento

propriamente dito. Segundo Lazarus e Folkman,6 enfrentamento envolve

“todos os esforços cognitivos e comportamentais que mudam

constantemente, para lidar com exigências (...) avaliadas como

sobrecarregando ou excedendo os recursos do indivíduo” e tem duas

funções principais: o planejamento de ações para mudar ou controlar a

situação estressora atuando sobre o ambiente ou sobre si mesmo,

denominado enfrentamento centrado no problema; e a tentativa de reduzir a

perturbação ou o desconforto associado à situação estressora, chamado de

enfrentamento centrado na emoção.

Em geral, o enfrentamento centrado na emoção tem maior possibilidade

de ocorrer quando a situação é avaliada como não sendo passível de

mudança, e o enfrentamento centrado no problema, tem maior

probabilidade de ocorrer quando a situação é avaliada como passível de

mudança. A continuidade da dor e de outros sintomas na SFM costuma ser

avaliada como não passível de mudança e implica, geralmente, maior

utilização de estratégias centradas no controle das emoções.7

A função do enfrentamento é administrar as relações entre o indivíduo e

seu ambiente para aperfeiçoar o processo de adaptação e a sobrevivência do

organismo; para isso, recorre a diversos recursos conhecidos como estratégias de enfrentamento. É necessário fazer uma distinção entre

estratégias de enfrentamento e comportamentos adaptativos: estratégias de

enfrentamento exigem “esforços cognitivos e comportamentais”, enquanto

comportamentos adaptativos são muitas vezes automáticos, por exemplo,

deitar-se, evitar movimentos, proteger a área de dor, entre outros.

Estratégias de enfrentamento da dor foram especialmente estudadas por

Rosenstiel e Keefe8 que criaram o Coping Strategies Questionnaire (CSQ),

que avalia sete estratégias básicas:

 

• Distração da atenção, quando as pessoas procuram pensar em coisas diferentes para não pensar na

dor

• Reinterpretação das sensações dolorosas, quando procuram imaginar que a dor é outra sensação

ou que se encontra fora do seu corpo

• Autoafirmações de enfrentamento, quando dizem para si mesmas que podem controlar e superar a

dor para que não perturbe suas atividades

• Ignorar as sensações dolorosas, quando tentam não pensar na dor fingindo que ela não existe ou

que realmente não está doendo

• Rezar/esperar, que inclui a prática de orações e imaginar a vida sem dor alimentando expectativas

de novos tratamentos

• Catastrofização, quando se dedicam a pensamentos essencialmente negativos de que a dor é

insuportável e de que não é possível conviver com ela

• Aumento das atividades comportamentais, quando procuram se envolver, de maneira consciente,

na execução de tarefas ou aproximar-se de outras pessoas para não pensar na dor.

 

O CSQ foi traduzido e adaptado culturalmente para a população

brasileira, sobretudo para esta pesquisa, e passou a ser chamado de

Questionário de Estratégias de Enfrentamento da Dor (QEED).7 Resultados

de pesquisas posteriores revelaram que os brasileiros tendem a utilizar com

mais frequência as estratégias de rezar e esperar, autoafirmações de

enfrentamento e distração da atenção, nesta ordem.9

 

Grupos operativos no enfrentamento da dor

 

A dor, apesar de experiência privada, geralmente ocorre dentro de um

contexto social, e é por isso que as psicoterapias grupais são especialmente

adequadas para pessoas com dor crônica.

Para os pacientes, tratamentos em grupo oferecem a oportunidade de

convivência com outras pessoas em situação semelhante e possibilitam a criação de referenciais que poderão atenuar sentimentos de isolamento e

alienação. Para o terapeuta, possibilita atuar diretamente sobre eventos que

ocorrem no contexto social do grupo e compartilhar temas relacionados

com a evolução clínica e a prevenção de dependência terapêutica. Por fim,

para as instituições, o tratamento em grupo representa um recurso

econômico, pois possibilitam que um maior número de pessoas possa ser

atendido pelo mesmo profissional ao mesmo tempo.10,11

A técnica de grupos operativos, também chamados de grupos centrados

na tarefa, foi criada em 1945, por Enrique Pichon-Rivière, um psiquiatra

argentino que iniciou seu trabalho em um hospital de Buenos Aires.

Diferente de outras abordagens psicológicas centradas exclusivamente

nos indivíduos, os grupos operativos centram-se na execução de uma

tarefa.12 Essa tarefa dos grupos tem aspectos explícitos ou observáveis, que

variam com a proposição de cada grupo, e aspectos implícitos ou

subjacentes, que se referem, essencialmente, à necessidade de adaptação

ativa à realidade. A dimensão explícita da tarefa traz à tona situações,

assuntos, sensações e sentimentos que, quando compartilhados, se

constituem nos chamados emergentes grupais. A dimensão implícita da

tarefa envolve a necessidade de mudanças e, consequentemente, a

resistência a estas mudanças, o que mobiliza dois medos básicos, que

Pichon-Rivière considerou universais: o medo da perda de conteúdos já

existentes e o medo do ataque diante de situações novas e desconhecidas.13

Do interjogo entre os aspectos explícitos e implícitos da tarefa, surge

uma série de dificuldades, obstáculos e lacunas, cuja elaboração integra a

tarefa ao mesmo tempo que vai estruturando e instrumentalizando os

participantes dos grupos, que, para tal, contam com o auxílio de pelo menos

dois terapeutas com papéis diferenciados: o coordenador e o observador. A

principal função do coordenador é auxiliar o grupo a tornar explícitos os

conteúdos que estão implícitos, e a do observador é anotar todas as falas e

comportamentos não verbais do grupo, para possibilitar a realização de

reflexões sobre o processo grupal e eventuais reajustes nas técnicas de

coordenação.

Como a realização da tarefa é o interesse central dos grupos operativos,

sua estrutura pode variar de acordo com a tarefa proposta, o que os torna

adaptáveis e extremamente adequados a situações institucionais (empresas, escolas, hospitais etc.), permitindo incluir, entre outras possibilidades, o

ensino de conteúdos práticos e/ou teóricos e o uso de diferentes recursos

dinâmicos durante sua realização.

 

A pesquisa

 

Sabendo das dificuldades dos indivíduos com SFM e da versatilidade da

técnica de grupos operativos, resta saber se tais grupos poderiam ser um

bom recurso para auxiliar pessoas com SFM no enfrentamento da sensação

dolorosa e no enfrentamento e adaptação à vida com dor.

Para responder a estas questões, foi realizado um estudo prospectivo no

Centro de Dor da Divisão de Clínica Neurológica do Hospital das Clínicas

da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Foram selecionadas 23 mulheres com idades entre 25 e 57 anos, com

dor há pelo menos 6 meses e escolaridade mínima de quarta série do ensino

fundamental. O diagnóstico de SFM foi realizado por meio dos critérios do

American College of Rheumatology,1 e a medicação se constituiu de

antidepressivos tricíclicos em baixas dosagens e analgésicos, mantidos

constantes ao longo da pesquisa. A seleção das 23 participantes incluiu,

além dos protocolos de atendimento médico, a assinatura do termo de

consentimento pós-informação; o preenchimento de um instrumento

denominado ficha de identificação para obter informações sobre as

características demográficas; e do inventário de Classificação de Classes

Socioeconômicas no Brasil desenvolvido pela Associação Brasileira de

Anunciantes e pela Associação Brasileira de Institutos de Pesquisa de

Mercado.

Depois de selecionadas, as 23 participantes foram divididas de maneira

sequencial em dois grupos: grupo-controle (GC) com 11 participantes e

grupo operativo (GO) com 12. As participantes do GO foram, por sua vez,

novamente divididas para compor dois grupos operativos com seis

componentes cada.

Para saber “se” os grupos operativos poderiam ter efeito sobre a dor das

participantes, foi organizada uma bateria de questionários que contemplasse

componentes sensóriodiscriminativos, afetivo-motivacionais e cognitivo-

avaliativos da dor.14 Esta bateria foi preenchida pelas próprias participantes

e incluiu:

 

• Componentes sensório-discriminativos: a intensidade da dor foi avaliada pela escala visual

analógica (EVA) de intensidade da dor,15 e as qualidades da dor foram avaliadas pelo

Questionário de Dor McGill16,17

• Componentes afetivo-motivacionais: a ansiedade foi avaliada pelo Inventário de Ansiedade

Traço-Estado,18 19,20 e a depressão pelo Inventário de Depressão de Beck (BDI)

• 7,8 Componentes cognitivo-avaliativos : o enfrentamento da dor foi avaliado pelo QEED, e as

crenças sobre as fontes de controle da dor pelo Inventário de 21,22 locus de Controle.

 

Para saber “como” os grupos operativos poderiam ajudar pessoas com

SFM na adaptação e enfrentamento de sua condição, foram avaliados os

emergentes grupais por meio das anotações do observador. As integrantes

do GO participaram de oito sessões de grupo operativo, com duração de 90

min, realizadas 1 vez/semana. Cada grupo foi composto por seis

participantes, um coordenador e um observador. Estabeleceu-se como tarefa

explícita dos grupos discutir diferentes maneiras e estratégias para enfrentar

ou lidar com a dor no dia a dia e, como tarefa implícita, a adaptação ativa à

realidade com dor crônica. Na semana seguinte à última sessão de cada

grupo, foi aplicado o primeiro pós-teste e, a partir daí, cada grupo só voltou

a reunir-se nas datas fixadas para a realização dos demais pós-testes. As

integrantes do GC compareceram ao ambulatório apenas nas datas fixadas

para a realização da testagem (Quadro 16.1).

 

Quadro 16.1 Organização das testagens dos grupos operativos e do grupo-controle.

 

Grupos operativos Grupo-controle

 

1 a Aplicação da bateria Aplicação da bateria semana

 

2 a a 8 sessões de grupo operativo - a 8 semanas

 

9 a Aplicação da bateria Aplicação da bateria semana

 

10a a - - e 11 semanas

 

12a Aplicação da bateria Aplicação da bateria semana

13a a - - a 15 semanas

 

16a Aplicação da bateria Aplicação da bateria semana

 

Grupos operativos no enfrentamento da dor na síndrome de

fibromialgia

 

Para saber se os grupos operativos tiveram algum efeito sobre a

sensação dolorosa das participantes, os resultados da bateria de avaliação da

dor aplicada em quatro momentos distintos foram comparados dentro do

próprio grupo (comparação intragrupal) e entre o GO e o GC (comparação

intergrupal). De modo geral, estas comparações não revelaram diferenças

estatisticamente significantes, com algumas exceções.

Para a comparação intergrupal das variáveis demográficas, foram

utilizados o teste t de Student e as provas U de Mann-Withney e a Exata de

Fisher. Para a comparação intergrupal das variáveis experimentais, foi

utilizada a prova U de Mann-Withney e, para a intragrupal, a prova de

Friedman. O nível de significância adotado foi de 5%.

Quando o GO e o GC foram comparados, constatou-se que os índices

quantitativos dos descritores sensitivos da dor (Questionário de Dor

McGill) do GO eram mais altos do que o do GC, além de estatisticamente

significantes. É importante lembrar que as integrantes do GO passaram 8

semanas refletindo de várias maneiras sobre sua dor, o que não aconteceu

com o GC. Segundo Burckhardt et al.,23 para descrever a dor da síndrome

de fibromialgia, são necessárias mais palavras do que as disponíveis no

Questionário de Dor McGill, portanto, é possível que a dor da SFM tenha

muitas características, ou que seja uma dor com características

“indescritíveis”, uma vez que as palavras conhecidas e disponíveis talvez

não tenham sido suficientes para descrevê-la.

Quando o pré e pós-testes do GO foram comparados entre si, observou-

se um aumento significante no estado de ansiedade, porém não no traço de

ansiedade. Isso significa que as alterações no estado de ansiedade do GO

foram suficientes para representar uma mudança interna efetiva no grupo,

mas que não foram suficientes, a curto prazo, para refletir mudanças consistentes entre os dois grupos. O estado e o traço de ansiedade são

dimensões que se relacionam.18 O aumento do estado de ansiedade do GO

não decorreu de um aumento no traço de ansiedade, portanto, é provável

que tenha resultado da intervenção psicológica, em que as alterações

intragrupais indicam que projetos e estratégias, cuja elaboração e execução

se iniciaram durante as sessões, continuaram a ser utilizados após seu

término, e que, a médio e a longo prazo, talvez esse fato venha a se

evidenciar o suficiente para discriminar GO do GC de maneira mais

consistente. Pesquisas de laboratório têm revelado que doentes com

fibromialgia são hipervigilantes e mais sensíveis a estímulos inócuos para

outros indivíduos, e que essa sensibilidade tende a ser generalizada e

resistente aos mecanismos moduladores induzidos pela própria dor. Embora

esses estudos tenham utilizado estímulos externos e objetivos (calor, frio,

eletricidade, ruído etc.), seria possível questionar se o mesmo efeito não

poderia ser obtido com uso de estímulos internos e subjetivos, como os

mobilizados por uma intervenção psicológica. Se a dor do fibromiálgico

pode ser induzida tanto por estímulos objetivos como por estímulos

subjetivos, uma das possíveis contribuições que as intervenções

psicológicas podem oferecer a estes doentes é a elaboração e controle destes

estímulos subjetivos como um dos recursos úteis no alívio da dor e do

sofrimento.

Quando o pré e pós-testes do GC foram comparados entre si, observou-

se uma redução significante na utilização das estratégias distração da

atenção, autoafirmações de enfrentamento e rezar/esperar. Isto significa que

as alterações na frequência de utilização das estratégias de enfrentamento

do GC foram suficientes para refletir uma mudança interna no grupo, mas

insuficientes para representar, a curto prazo, mudanças efetivas entre os

dois grupos. De acordo com Lazarus e Folkman,6 as estratégias de

enfrentamento podem ser centradas no controle do problema ou centradas

no controle das emoções relacionadas com o problema. Um dos objetivos

do QEED é obter uma medida que possa prever o grau de adaptação à dor

crônica; inicialmente, poderia ser esperado que refletisse as mudanças que

deveriam ocorrer no GO, no entanto, foi o GC que as apresentou. É

provável que o GO não tenha apresentado diferenças nas estratégias de

enfrentamento porque o próprio processo terapêutico dedicou-se ao desenvolvimento de estratégias de enfrentamento da vida cotidiana com dor

crônica, e não apenas à sensação dolorosa tal como mensurada pelo QEED.

A análise dos resultados dos questionários possibilitou também

caracterizar o conjunto das participantes. Verificou-se, por exemplo, que, ao

longo do tempo, a intensidade da dor manteve-se alta porém variável, entre

6,8 e 8,5 pontos da EVA. O número de descritores utilizados para descrever

a dor também foi grande e também se manteve assim ao longo do tempo.

Os sintomas de depressão se mantiveram entre leves e moderados,

indicando que ambos os grupos apresentavam sintomas leves no pré-teste

que se tornaram moderados nos pós-testes, provavelmente em razão das

expectativas relacionadas com a participação na pesquisa. As estratégias de

enfrentamento mais utilizadas por GO foram rezar/esperar, catastrofização e

autoafirmações de enfrentamento, enquanto GC utilizou mais rezar/esperar,

autoafirmações de enfrentamento e distração da atenção. Quanto às crenças

sobre a fonte de controle da dor, constatou-se que as participantes do GC

tinham mais crenças em si mesmas, no acaso e em pessoas e entidades

como fonte de controle dos acontecimentos, o que pode decorrer de

diferenças demográficas entre os grupos. Constatou-se também que GC

tinha maior orientação interna do que GO, e ambos os grupos tendiam mais

à externalidade. Isso é compatível com os resultados de pesquisas em que,

comparados a outros indivíduos com dor crônica, fibromiálgicos tendem a

apresentar maior orientação externa e pouca percepção de controle sobre

seus sintomas.24,25

 

Grupos operativos no enfrentamento da vida com dor

 

Os registros realizados pelos observadores ao longo das 16 sessões de

grupo operativo foram a fonte da análise dos emergentes grupais, isto é, dos

temas discutidos espontaneamente pelas integrantes do GO. Embora

reduzidas em número, as sessões grupais foram extremamente ricas e

dinâmicas e, mesmo que cada grupo tenha se desenvolvido de maneira

distinta, alguns emergentes foram comuns a ambos os grupos.

 

Emergentes grupais mais elaborados

Durante a primeira sessão, participantes de ambos os grupos exibiram

comportamentos semelhantes aos das consultas médicas, listando e

descrevendo de maneira individualizada seus sintomas. O comportamento

de compartilhar informações com os outros membros do grupo teve início

apenas a partir da segunda sessão. A seguir, são listados e brevemente

discutidos os principais temas emergentes compartilhados pelos grupos:

 

A aceitação da doença. A demora para obter o diagnóstico e a falta

de efetividade dos tratamentos transformaram horários antes reservados

para outras atividades, em horários ocupados por consultas, exames,

terapias etc.: “a minha semana não é mais minha, tenho exames e preciso

fazer uma agenda...” (sic) (V.F.). A continuidade dos sintomas aumentou a

preocupação com a saúde física, modificando ou paralisando projetos de

vida, de médio e longo prazo: “a sensação que eu tenho com a fibromialgia

é que a vida é muito restrita, que a duração da gente não vai ser muito

grande” (sic) (G.T.). Em síntese, a SFM produziu uma série de mudanças

que interferiram e modificaram a organização do cotidiano das doentes. A

aceitação da doença resultou, ao longo das sessões, em esforços tanto de

aceitação como de negação da condição. Estes esforços modificaram as

perspectivas de compreensão da doença: as preocupações generalizadas

com as diversas limitações e restrições impostas pela SFM foram sendo

progressivamente substituídas pelo interesse em explorar todas as

alternativas de ação que a doença, todavia, possibilitava de acordo com as

situações e os momentos.

 

A compreensão da doença. A SFM foi percebida como ambígua,

com sintomas variáveis e difíceis de prever e controlar: “Cada dia a gente

tá de um jeito” (sic) (T.S.); “Fico insegura, não sei se vou prá frente ou prá

trás...” (sic) (I.D.). No decorrer dos encontros, entretanto, as participantes

foram aos poucos se dando conta de que a SFM era uma doença “especial”

e, com isso, iniciaram a modificação do estereótipo geral do que é uma

doença, o que fundamentou alguns projetos orientados para diferentes

estratégias de enfrentamento muito personalizadas.

 

A relação mente-corpo. A inter-relação entre fatores físicos e

emocionais e sua influência sobre os sintomas da SFM foi discutida de maneira muito fragmentada nas sessões iniciais: em algumas ocasiões, as

participantes constatavam que os sintomas da doença aumentavam seu

“nervosismo” e, em outros momentos, que o “nervosismo” piorava seus

sintomas: “Por que parece que, quando acontece algo de diferente, vem a

dor?” (sic) (S.U.); “Olha, toda vez que eu fazia faxina era aquela alegria...

mas depois, ficava na cama com dor. E hoje fico com dor também só de

pensar que não está do meu jeito” (sic) (T.S.). Ao longo das discussões,

estas duas percepções começaram a se integrar, e a progressiva elaboração

destes conteúdos, associados às mudanças na compreensão da doença,

possibilitou considerar a SFM sob um novo prisma, que levou a delinear

projetos individuais e executar pequenas estratégias baseadas na

possibilidade de evitar situações que exacerbassem os fatores emocionais e,

com isso, os sintomas.

 

O descrédito social. A falta de credibilidade social

posicionava as participantes como pessoas pouco confiáveis,

inseguras e mesmo insanas: “Minha filha perguntou: – Em qual

médico você vai? – eu falei – Na psicóloga.; aí ela falou: – Tá vendo? Seu

problema é da cabeça.” (sic) (N.T.); “Minha mãe falou: – Não sei o que

você veio fazer no hospital... é tudo mentira o que você tem! É frescura!...

isso machuca.” (sic) (G.M.). Se, por um lado, expor sentimentos de menos

valia e inferioridade tinha sido uma tarefa penosa, por outro lado, passou a

mobilizar, ao longo das sessões, uma série de estratégias de proteção da

autoimagem. Esta elaboração inicial dos problemas de credibilidade social

possibilitou às participantes desenvolverem condições suficientes para pôr

em prática alguns projetos voltados para o aumento da autonomia e diversas

estratégias de enfrentamento que visavam melhorar e aumentar os cuidados

pessoais.

 

A relação com os profissionais. Ao longo das sessões, e

paralelamente à elaboração de outros temas, a figura estereotipada dos

profissionais de saúde foi sofrendo alterações: começaram a ocorrer

mudanças nas expectativas existentes com relação ao papel desses

profissionais e dos tratamentos propostos, o que auxiliou as participantes a

começarem a considerar seu próprio papel com relação à doença. À medida

que os profissionais ficavam menos idealizados, passaram a ser considerados não apenas como ‘aqueles’ que podem tratar e curar, mas

também ‘aqueles’ que podem ensinar. Com isso, alguns fragmentos de

informações veiculadas em consultas começaram a ser lembrados e

compartilhados: “o médico ressalta a deficiência e a capacidade, sabe que

o problema é a serotonina, no cérebro...” (sic) (D.H.), e os membros dos

grupos passaram a compará-los e uni-los aos seus próprios pensamentos e

experiências individuais, criando como que “um corpo de conhecimentos”

único e personalizado.

 

A relação com os tratamentos. A cada novo tratamento, as doentes

costumavam renovar suas expectativas de cura e de retorno à ‘normalidade’

que, quando não concretizadas, resultavam muitas vezes em decepção,

frustração e desesperança. A medicação antidepressiva, em especial, foi

avaliada como muito ameaçadora, porque as participantes a associavam à

depressão e à loucura: “...é mesmo, se você diz que toma antidepressivo,

precisava estar internada...” (sic) (D.H.); “Em um hospício!” (sic) (S.U.);

“...É eu também me preocupo com isso, porque, para ficar igual aos outros,

preciso tomar estes remédios…” (sic) (D.H.). Ao longo das sessões, o tema

propiciou a troca de experiências e o confronto destas distorções cognitivas

com o efeito real da medicação e de outros tratamentos, o que resultou na

compreensão de que “remédio não cura, mas ajuda”. Isto possibilitou que os

grupos discutissem outros tratamentos complementares também capazes de

“ajudar”: massagens feitas por familiares, banhos quentes, banhos de ervas,

bolsas térmicas, aparelhos de massagem etc.

 

A incapacidade funcional. As limitações impostas pela doença se

estendiam a todo o ambiente social das doentes: elas não eram mais aquelas

pessoas que trabalhavam com regularidade, desempenhavam

adequadamente seus papéis, tinham planos estabelecidos e podiam

participar, sem restrições, de situações familiares e recreativas. Ao longo

das sessões, foram questionados os limites das expectativas pessoais, o que

possibilitou às integrantes dos grupos constatar que muitos de seus

sentimentos de culpa e menos valia resultavam de suas tentativas de

alcançar os padrões de desempenho socialmente esperados ou pessoalmente

almejados: “A gente tem vontade de fazer as coisas e não pode” (sic) (I.D.);

“Não consigo deixar de fazer as coisas, vem a culpa” (sic) (N.B.). Elas passaram a refletir sobre as relações entre a incapacidade funcional e os

sintomas da doença, e concluíram que seria necessária uma avaliação

contínua da dor e da fadiga, para que pudessem decidir o quê e quanto

poderiam realizar, de acordo com a situação. Usar a própria doença como

“termômetro de capacidade”, e não de “incapacidade”, representou uma

importante mudança de perspectiva, que tornou possível delinear projetos

envolvendo desde novas escolhas profissionais a modificações no contexto

familiar, e a criação de uma série de estratégias de enfrentamento voltadas

para compartilhar e delegar tarefas, quando necessário.

A figura materna. A figura da mãe foi uma das mais citadas pelos

grupos. O conteúdo das discussões sobre o tema incluiu, além de outras

figuras femininas familiares, considerações sobre a educação recebida e a

preparação para a vida de mulher, mãe e esposa. As discussões sobre a

figura materna fizeram emergir uma série de valores culturais, nos quais a

identidade feminina brasileira, todavia, se encontra enraizada: “eu vejo

minha mãe, com aquela idade, e faz de tudo...” (sic) (T.S.); “Minha mãe

cobra que eu tenho que fazer tudo pelos filhos, e os meus filhos reclamam

para ela... fala que a gente precisa disfarçar (a dor) senão a gente perde o

homem” (sic) (D.H.). Parte destes valores começou a ser reavaliada pelos

grupos, resultando em estratégias voltadas para a alteração de

comportamentos padronizados. Na configuração do papel materno, a

valorização do desempenho impecável de tarefas domésticas começou a ser

substituída pela valorização da compreensão e do suporte emocional

oferecido pelas mães.

 

Os filhos. As discussões sobre o relacionamento das doentes com seus

filhos centraram-se em sentimentos de culpa pela dificuldade no

desempenho do papel materno, tal como idealizado ou socialmente

esperado. As doentes se sentiam como “meia-mães” e atribuíam todos os

problemas que ocorriam com seus filhos ao “abandono” e incapacidade

maternas devidas à dor: “... com dor, a gente fica irritada e não ouve, e os

filhos falam e trazem dificuldades...” (sic) (I.D.); “Eu estou mudando,

(quando tenho dor) fico deitada no sofá... meu filho pede comida e eu falo

pra ele esquentar. Teve até murro na parede desta vez...” (sic) (D.H.). Para

as participantes, amor e temor se somaram na elaboração de uma figura

materna limitada pela doença, mas que ainda era mãe, e auxiliaram na produção de projetos de ação individualizados e estratégias bastante

objetivas e de aplicação prática imediata.

Ao longo das sessões, o processo de aprendizagem se desenvolveu por

meio das trocas e da elaboração de experiências pessoais, da veiculação de

informações adquiridas via consultas médicas e da comparação destes

conhecimentos com dados de realidade. Constatou-se, durante o processo,

que a maioria das doentes tinha uma série de informações sobre a doença, o

que não significava, necessariamente, que as aceitassem ou fizessem uso

delas.

 

Emergentes grupais menos elaborados

 

Nem todos os temas abordados espontaneamente pelos grupos foram

objeto de discussões e reflexões aprofundadas. É possível que a elaboração

destes emergentes pudesse ser beneficiada por um número maior de

sessões, entretanto, considerar o papel destes temas dentro do processo

terapêutico é essencial, não apenas para realizar ajustes na aplicação da

técnica propriamente dita, mas também para realizar reflexões clínicas

preliminares que possibilitarão aumentar o conhecimento sobre alguns dos

processos psíquicos destas doentes.

 

O companheiro e outras figuras masculinas. Este tema foi

muito pouco discutido pelas doentes, possivelmente porque apenas 5 das 12

participantes viviam com um companheiro. Nem os companheiros nem as

outras figuras masculinas que fizeram ou fazem parte do cotidiano das

doentes foram objeto de discussão pelos grupos ao longo do processo

terapêutico, emergindo apenas em meio a frases soltas, emitidas no contexto

de outros temas, em que as imagens veiculadas eram vagamente

autoritárias, jocosas, tolerantes, cépticas etc.: “… domingo, meu marido

pediu para eu cortar uma melancia; de que forma? Eu já não fazia isso

bem e agora... parece até que esqueceu!” (sic) (V.F.); “Meu marido diz que

quando eu não sentir dor é que ele vai me levar para o hospital” (sic)

(I.D.).

 

A sexualidade. Também um dos temas pouco discutidos, a

sexualidade das participantes surgiu nos grupos muito mais associada à incapacidade funcional do que à afetividade: “Às vezes atrapalha, devido à

cãibra, mas isso contradiz o que dizem de a gente ser mal amada” (sic)

(D.H.); “...às vezes dói muito devido à necessidade de tensão a fibromialgia

pode acabar com o relacionamento” (sic) (V.F.). Cada um dos grupos

abordou o tema apenas uma vez e de maneira muito rápida e superficial, o

que pode ter ocorrido por diferentes motivos: o primeiro deles diz respeito

ao fato de que poucas participantes pareciam ter vida sexual ativa; o

segundo se refere a fatores culturais, que poderiam ter induzido as doentes a

tratarem do tema de maneira reservada; por fim, é possível que o número

reduzido de sessões não tenha possibilitado a formação de um vínculo

grupal de magnitude suficiente para que tal assunto pudesse ser abordado

com mais profundidade.

 

A ansiedade. Embora tenha sido elaborada de maneira implícita, ao

longo do processo terapêutico, a ansiedade foi também abordada pelas

participantes por meio das percepções de seus sintomas e dos relatos de

episódios em que estes foram percebidos: “… minha respiração está curta,

dói o peito para respirar, sinto ansiedade. Até quando vou sentir isso?”

(sic) (V.F.). A ansiedade das participantes (“nervosismo”) que, nas sessões

iniciais, era percebida pelos sintomas, foi aos poucos sendo relacionada

com as demandas e expectativas sociais: “Todo mundo exige que a gente

relaxe, que temos que controlar a nossa ansiedade...” (sic) (V.F.). Com a

continuidade das discussões, os sintomas de ansiedade passaram a ser

também associados à prática comum de “sofrer por antecipação”. O “sofrer

por antecipação” é uma dimensão mais acessível da ansiedade, cuja

compreensão possibilitou às participantes criarem projetos voltados para o

controle ativo das emoções baseados em estratégias de modificação desta

prática, em que a percepção dos sintomas de ansiedade passou a servir

como “termômetro” do sofrimento antecipado. As estratégias iniciais

derivadas deste novo recurso envolveram a evitação de situações

estressantes desnecessárias e a prevenção e controle das necessárias.

 

A depressão. Também um dos temas pouco discutidos pelas

participantes, a depressão surgiu nos grupos por meio da percepção de

alguns de seus sintomas: “Eu sei que, às vezes, eu não tenho vontade de

levantar. É... não é dor. Porque eu não posso ficar deitada com dor e eu sempre tenho vontade de levantar” (sic) (V.F.); “sinto às vezes esta vontade

de desaparecer e chegar ao fundo do túnel... isso acontece muito, não ter

vontade de enfrentar as coisas...” (sic) (S.U.). Ambos os grupos tentaram

discutir a depressão a partir da sua associação com as sensações de falta de

energia, falta de ânimo, cansaço, exaustão e com os pensamentos de

evitação e fuga. Entretanto, assim que se emitiam as primeiras falas sobre o

assunto, os demais membros dos grupos se apressavam a negá-lo ou

reinterpretá-lo como pertencente a outras temáticas. A depressão emergiu

bastante associada à perda de controle, loucura e morte, e foi tão temida

pelas doentes que adquiriu proporções míticas. Eventos extremamente

ameaçadores exigem esforços intensos e contínuos de evitação ou

prevenção, o que é bastante consistente com as sensações de falta de

energia e exaustão física e psíquica referidas pelas participantes.

 

O medo da loucura. Este tema, presente ao longo de todo o processo

terapêutico, foi pouco discutido pelos grupos. O medo da loucura expresso

pelas participantes era baseado, entre outras coisas, nas constatações

cotidianas da variabilidade e cronicidade dos sintomas da SFM, que se

assemelhavam a um “enlouquecer do corpo”, e das alterações afetivas

percebidas, que lembravam um “enlouquecer da mente”, em que o

descrédito e a dificuldade de inserção sociais tinham um papel

confirmatório: “Eu já ouvi que a dor era coisa da minha cabeça...” (sic)

(N.T.); “Tenho muito medo de estar deteriorando (psiquicamente)...” (sic)

(S.U.); “Será que estou louca?” (sic) (D.H.). O medo da loucura por parte

das doentes estava associado a expectativas de perda de controle, de

dependência de terceiros, de aniquilação da identidade e representava, na

verdade, o medo da morte psíquica, especialmente exacerbado pela

presença de psicólogos e pela participação no processo terapêutico. Este

medo esteve presente, de modo implícito, em todas as sessões, e nas raras e

breves ocasiões em que emergiu de maneira explícita, apresentou-se em

proporções tão exacerbadas que, tal como aconteceu com a depressão, os

grupos se apressavam a evitar sua discussão.

Ao longo das sessões, as participantes preferiram temas relacionados

com figura e papéis femininos, maternidade e relação com seus filhos aos

vinculados a figuras e papéis masculinos e sexualidade. Uma análise dos

processos terapêuticos possibilitou considerar que, dentro do contexto destes grupos, esta escolha pareceu atender à necessidade das integrantes de

resgatar aspectos de sua identidade acometida pela doença e pela

continuidade da dor. As fibromiálgicas, em seu cotidiano, tendem a

perseguir a imagem do que acreditam que eram antes da doença: saudáveis

de corpo e mente. Prisioneiras de seu passado perdido e fugindo de um

futuro ameaçador, a identidade de mulheres com SFM sofre profundas

perdas, transformações e tentativas frágeis de reparação, e esse sofrimento,

por vezes, transcende o da sensação dolorosa.

Os grupos operativos revelaram-se como um instrumento promissor e

de grande valor no auxílio a estas mulheres, uma vez que, para realizar a

tarefa de discutir maneiras e estratégias de enfrentamento da SFM no

cotidiano, precisaram trazer à tona, discutir, refletir e propor alternativas e

soluções para temas essenciais do dia a dia. De maneira sutil e paralela, a

tarefa implícita também foi se realizando: à medida que a vida cotidiana era

discutida, percebida por diferentes prismas e foco de ações para modificá-

la, as participantes foram se apropriando de sua realidade e de sua condição,

não apenas para adaptar-se à cronicidade da dor, mas sim para inserir-se

ativamente no processo dinâmico que é a continuidade da própria vida.

 

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