A Psicologia da Dor
2 Dor | Visão Comportamental
Luc Vandenberghe
O que significa a dor do paciente para o terapeuta comportamental?
Compreende-se a dor como sinal de algo prejudicial que precisa ser sanado.
A dor aguda pode sinalizar dano nos tecidos ou perigo imediato de danos. A
pessoa deve agir para tirar um espinho do pé ou cuidar de um corte na mão,
por exemplo. Precisa preservar a parte do corpo que foi machucada,
cuidando para que ela sare. O primeiro comportamento (tirar o espinho) é
fuga; o segundo (preservar-se, tomar cuidados) é esquiva. Mas quando a dor
se torna crônica, é mais difícil saber o que fazer. Por isso, a pessoa procura
o terapeuta, e, a partir desse momento, a dor crônica pertence aos dois, ao
terapeuta e ao paciente. Torna-se um estímulo que demanda ação dos dois.
Mas o que precisa ser sanado?
A terapia comportamental nunca constituiu uma escola clínica
unificada. Por isso, não deve causar estranheza o fato de as abordagens comportamentais para a dor crônica se fundamentarem em um leque de
escolas de pensamento, entre as quais se destacam como as mais
importantes: o modelo do condicionamento clássico, que sustenta a prática
da exposição ao vivo; a teoria operante, que subjaz à análise funcional; e,
finalmente, o modelo cognitivo. Antes de descrever os diferentes modelos
de tratamento para a dor crônica, é necessário apresentar essas três escolas
teóricas.
O condicionamento clássico consiste na relação entre estímulos e
respostas; baseiase na exposição graduada, proposta para o tratamento de
problemas de ansiedade. É relevante para a clínica da dor porque os
indivíduos com dor crônica tendem a evitar situações (estímulos) em que já
sentiram dor. Como resultado dessa evitação, levam uma vida passiva e
vazia, que os deixa mais sensíveis à dor. Durante a exposição graduada, o
paciente enfrenta intencionalmente as situações que eliciam a ansiedade por
terem relação com vivências dolorosas ou traumáticas do seu passado. A
exposição à situação aversiva promove a diminuição da ansiedade.
Diminuindo o medo das situações, a pessoa pode voltar a realizar as
atividades que tinha abandonado por medo da dor.1
O modelo operante enfatiza a relação entre o comportamento e suas
consequências. Distingue reforço positivo (quando a consequência que faz
aumentar a frequência do comportamento consiste no acréscimo de algo
reforçador, por exemplo, aprovação social, ou obtenção de um resultado
desejado) de reforço negativo (quando a consequência que faz aumentar a
frequência do comportamento consiste na retirada de algo aversivo).
Fordyce2 descreveu como, em quadros de dor crônica, uma consequência a
curto prazo (p. ex., evitar ou retirar situações potencialmente dolorosas)
pode manter elevada a frequência do comportamento, apesar de este afastar
consequências a longo prazo muito mais importantes (realizar projetos,
desenvolver trabalhos, participar da vida em família, por exemplo). Nestes
casos, o reforço negativo a curto prazo apoia um comportamento de esquiva
que é prejudicial a longo prazo.
A análise funcional do comportamento ligado à da dor crônica destaca a
preponderância de reforçamento negativo na vida do paciente. Esta tende a
ser dominada por esquiva (a pessoa age para evitar uma situação aversiva) e
por fuga (a pessoa age para terminar ou diminuir estimulação aversiva). Porém, o reforçamento positivo também está envolvido na manutenção da
dor. Pessoas que convivem com o indivíduo que apresenta dor crônica
tendem a oferecer reforço quando o paciente emite expressões faciais de
sofrimento, tem comportamentos evitativos e outras maneiras de reagir à
dor. Geralmente, o reforço positivo não costuma ocorrer, pois o paciente
com dor crônica reduz suas atividades diárias em função da dor. Isso torna
os reforçadores ainda acessíveis mais eficientes, mesmo quando são de
qualidade inferior. Como resultado, o comportamento de dor, apesar do
sofrimento que causa, é facilmente mantido devido a suas consequências.2
No modelo operante também se presta atenção ao papel do contexto em
que as interações ocorrem. Esse modelo defende que o contexto pode
modificar as relações funcionais. A dor muda o contexto dos
comportamentos interpessoais de tal maneira que as pessoas que convivem
com o indivíduo que apresenta dor crônica começam a reforçar as condutas
dele que, normalmente, não reforçariam. Por exemplo, atitudes rígidas ou
imposição da vontade dele sobre a dos outros podem ser aceitas pelas
pessoas por causa do quadro de dor. Assim, o reforço social no ambiente do
paciente pode manter comportamentos disfuncionais, que criam novos
problemas em sua vida.3
Outra vertente do modelo operante diz respeito ao controle por regras.
Uma regra é um comportamento verbal que especifica uma relação
funcional. Por exemplo: “Se eu trabalhar com tanta dor, ninguém
acreditará no quanto estou sofrendo” ou “Para uma pessoa que sofre tanto,
a vida não tem mais nada a oferecer”. A pessoa que segue regras pode
parecer insensível às consequências reais do seu comportamento. É possível
que as contingências reais sejam bem diferentes das especificadas na regra.
Se a conduta do paciente seguir a lógica contida na regra, perderá os
reforçadores que estão disponíveis para ela no seu ambiente, mas não
especificados nas regras. E o comportamento de dor pode continuar em
função dessas regras, apesar da disponibilidade de reforçadores importantes
para comportamentos mais adequados.4
A introdução do modelo cognitivo com ênfase no papel causal de
crenças e distorções cognitivas (como o pensamento catastrófico) trouxe um
estilo clínico que é intuitivamente aceitável para muitos pacientes com
quadros de dor. Aborda o problema de diferentes ângulos, visto que a dor é uma experiência subjetiva que envolve uma variedade de componentes
afetivos e cognitivos negativos, que podem ser consequências da dor
crônica, mas também podem intensificar a percepção da dor. A depressão, o
medo e a raiva podem ocorrer em função do que a pessoa acredita sobre a
dor (e não somente pela percepção atual da dor), mas podem também ser
promovidos por crenças relacionadas com outros aspectos da vida: a
inabilidade física decorrente da dor, os familiares que não compreendem o
paciente e as suposições que ele faz a respeito dessas experiências
adversas.5
Terapia de aceitação e compromisso
O modelo operante entende a esquiva da dor como resultado de
reforçamento negativo. Ao evitar certas situações ou atividades, a pessoa
aprende que pode evitar um pico de dor. Porém, o padrão de esquiva tende a
manter-se e a expandir-se quando a situação evitada, na realidade, não é tão
dolorosa quanto a pessoa teme. Uma vez que padrões de esquiva estejam
bem enraizados no repertório da pessoa, eles se tornam muito resistentes à
extinção, na medida em que impedem a pessoa de entrar em contato com a
situação temida, mesmo que esta já não seja aversiva. A pessoa continua
evitando atividades inofensivas, porque a própria esquiva a impede de sentir
que a atividade não é mais (tão) dolorosa. O tratamento deve, então,
consistir em promover as atividades que o paciente abandonou. Por meio de
um treino gradual para retomar essas atividades, o paciente pode novamente
ter contato com grande variedade de fontes de reforço positivo das quais
tinha se afastado.2
Dahl et al.,4 McCracken,6 Robinson et al.7 e Vowles e Thompson8
expandiram esse raciocínio clínico para incluir a esquiva de sentimentos e
sensações. Postulam que as pessoas se esquivam também de partes da sua
vivência interna e não somente de situações externas. Esses autores
consideram a esquiva de conteúdos psicológicos difíceis como o problema
maior. Basearam-se na terapia de aceitação e compromisso, desenvolvida
por Steven Hayes, conhecida pela sigla inglesa ACT (Acceptance and
Commitment Therapy). Para uma introdução a essa abordagem, veja
Saban.9 Trata-se de uma terapia comportamental que busca enfraquecer a esquiva de sentimentos difíceis. Essa esquiva da vivência interna é
responsável por diversos problemas psicológicos. A ACT baseia-se na
noção de que o progresso terapêutico ocorre quando o paciente consegue
aceitar seus conteúdos psicológicos difíceis (em vez de fugir deles) e
assume um compromisso firme com seus valores e objetivos de vida
(orientando seu comportamento em função de reforço positivo). Como as
quatro publicações citadas anteriormente traçam abordagens muito
semelhantes para a dor crônica, resumimos, aqui, o núcleo comum que as
une.
A premissa fundamental proposta nos trabalhos de Dahl et al.,4
McCracken,6 Robinson et al.7 e Vowels e Tompson8 é de que, mais do que a
dor em si, a luta contra a dor causa sofrimento e ameaça a qualidade de
vida. A dor aguda tem como função nos alertar sobre possíveis danos nos
tecidos e, por isso, apesar de desagradável, é um fenômeno adaptativo.
Contudo, quando se torna crônica, e, principalmente, quando as causas da
dor não são bem definidas, as tentativas contínuas de controlá-la podem se
tornar ineficazes. Os mesmos comportamentos que seriam funcionais se a
dor fosse aguda são contraprodutivos quando a dor já se tornou crônica.
Atrapalham o engajamento em atividades valorizadas pela pessoa na
família, no trabalho ou na comunidade. Esses comportamentos se
manifestam em forma de regras como “uma pessoa com dor não deve sair
de casa, precisa descansar e evitar atividades físicas” ou “precisa resolver
primeiro a dor antes de ocupar-se de qualquer outro assunto”.
O paciente que segue essas regras, como se constituíssem um script a
ser obedecido, se enclausura em um estilo de vida rígido e pobre. A ACT
propõe uma atitude chamada mindfulness, que consiste em observar
pensamentos, sensações e sentimentos da maneira como se apresentam no
momento atual, sem julgá-los, tomá-los como literalmente verdadeiros ou
intelectualizá-los, possibilitando que entrem e saiam do nosso campo de
atenção, sem tentativas da nossa parte de influenciá-los ou elaborá-los (para
uma exploração mais profunda deste conceito, leia Vandenberghe e
Souza10). Podem-se considerar as regras citadas no parágrafo anterior como
exemplos. Elas são respostas automáticas às sensações de dor, pensamentos,
fenômenos passageiros da mente, que não deveriam ser tomados como
guias ou scripts a serem seguidos. Mas este fato somente se elucida quando o paciente consegue observar essas regras a uma distância psicológica ideal
para poder situá-las no contexto que as criou. Observá-las desse modo,
como pensamentos e não como fatos, é muitas vezes uma experiência
libertadora para o paciente.
Construir essa perspectiva de mindfulness não elimina as regras, mas
mostra ao paciente que elas são apenas produtos verbais do seu próprio
comportamento e ele tem a opção de não obedecê-las. Quando se restringe a
vida pela imposição de regras, a dor pode tomar cada vez mais espaço no
dia a dia da pessoa. O isolamento social é uma das consequências mais
comuns e mais lamentáveis da dor crônica. A luta interna com o medo da
dor estabelece obstáculos à criação de laços interpessoais autênticos e
profundos com outras pessoas. Não raro, esta luta toma tanto espaço no
cotidiano do paciente, que as pessoas mais próximas não sabem mais como
conectar-se com ele. Em outros casos, o paciente fica preso a
relacionamentos interpessoais pobres, não recíprocos de cuidado, ou de
exploração, nos quais a dor se tornou pretexto para desqualificar suas
necessidades emocionais, ou para evitar discutir e resolver assuntos difíceis.
A esquiva de sentimentos difíceis, geralmente, tem papel importante no
quadro clínico. Quando a pessoa reduz o campo de sua vivência para evitar
sentir o que sente, provoca efeitos aversivos sobre as outras pessoas que se
relacionam com ela. Muitas vezes, o paciente luta contra aspectos da sua
vida interior que não são visíveis para os outros, inclusive para o terapeuta.
Mas os efeitos colaterais da luta podem se tornar visíveis nos
comportamentos de queixa, no isolamento dos outros ou no modo
impessoal de se relacionar com eles. Desse modo, a contração da
experiência interna também faz contrair o campo da experiência
interpessoal. A diferença no comportamento do paciente pode ser sutil,
como um contato menos autêntico, mas pode também ser claramente
visível, como no desenvolvimento de uma forma rígida, submissa ou
opressora, intolerante no trato com os outros.
A ACT propõe aumentar a tolerância à dor e melhorar o convívio com
ela. Isto se dá por meio da construção de maior flexibilidade psicológica no
contexto dos valores pessoais do paciente, ajudando este a entrar em
contato com o que ocorre na sua vivência interior e interpessoal. Um dos
objetivos iniciais da terapia é ajudar o paciente a distinguir quando está mais bem conectado com o que realmente é importante na sua vida e
quando está se esquivando de sentimentos difíceis. Outro objetivo inicial é
que o paciente aprenda a discriminar bem as oportunidades e os desafios do
ambiente em torno dele que melhor explicitam seus valores, objetivos e
dificuldades pessoais. No início de cada sessão, o terapeuta pede ao
paciente que especifique os melhores e os piores momentos ocorridos
durante a semana. Estes são analisados à luz das distinções anteriormente
referidas, ajudando o paciente a decidir quais sentimentos difíceis ele quer
aceitar e tolerar para poder realizar seus valores.
As tentativas de controlar a dor geralmente acrescentam mais dor; ou
seja, além da dor “limpa”, originada, por exemplo, da lesão dos tecidos,
surge a dor “suja”, provocada pela pessoa, e que ela não precisava ter. Ao
parar de lutar contra a dor, a dor “suja” pode diminuir, e a pessoa pode criar
condições para fazer coisas mais importantes. O terapeuta deve valorizar as
tentativas passadas do paciente de controlar sua dor – em muitos casos, tem
sido uma luta heroica, mesmo se malsucedida – só depois, ele deve ajudar o
paciente a se abrir para uma nova perspectiva sobre seus problemas, para
que este possa agir novamente de acordo com os seus valores, mesmo
havendo dor. O significado da validação pelo terapeuta não é, então, ajudar
o paciente a controlar a dor, mas honrar o sentido da história vivida por ele,
para que ele possa escolher um novo caminho. O objetivo que levou o
paciente a buscar terapia pode ter sido o de aprender a lutar melhor contra a
dor; no entanto, ele é reorientado, durante o tratamento, a trabalhar a favor
do que é realmente importante para a sua vida.
Entretanto, por ter tentado fugir de sentimentos difíceis durante toda sua
vida, pode ter pouca clareza a respeito do que é realmente importante para
si. Vários exercícios são propostos para ajudar o paciente a se reconectar
com seu contexto de valores. Um deles é a construção de uma bússola da
vida. Trata-se de um resumo esquematizado que identifica os valores do
paciente e os obstáculos verbais (regras, scripts etc.) que o impedem de
andar na direção daqueles. Pautar o tratamento nos valores pessoais,
familiares, sociais, espirituais, profissionais etc., do paciente logo faz
sentido para ele, porque a eliminação da dor não é um fim em si, mas um
meio para uma vida mais valorizada.
Com a construção da bússola, o paciente aprende a distinguir entre as
oportunidades e os desafios do mundo exterior e a luta interior, entre seu
próprio comportamento direcionado à realização dos seus valores e a
evitação de sentimentos e pensamentos difíceis. A partir dessa distinção, ele
pode obter mais clareza sobre as funções do seu comportamento. As
distinções feitas ajudam a identificar diferentes aspectos de uma situação e
diferentes consequências de um comportamento. Evidenciam se a pessoa
aborda uma situação com uma postura de esquiva ou de aproximação.
Ajudam-na a escolher comportamentos que lhe possibilitarão ascender às
consequências que deseja nessa situação. As distinções ajudam o terapeuta
a identificar comportamentos-alvo que o paciente pode desenvolver no
decorrer da terapia.
Um comportamento de esquiva ou fuga de situações sociais pode ter
como consequência, a curto prazo, a diminuição da dor ou da ansiedade;
mas, a longo prazo, o paciente pode perder relações de apoio e recursos
sociais que o ajudariam a lidar com a dor. Sair de casa e se engajar em uma
atividade produtiva pode, em um primeiro momento, obrigar o paciente a
enfrentar seu medo da dor, mas logo terá consequências mais valiosas. Essa
análise funcional é a base da formulação clínica do caso, que tornará
possível ao paciente identificar melhor as consequências dos seus
comportamentos, a curto e a longo prazos, e a eficácia de suas ações,
ajudando-o a progredir nas direções valorizadas por ele.
Para que o paciente aprenda a aceitar seus sentimentos, incluindo os
difíceis, e crie mais espaço no seu campo de experiência, sobretudo para as
atividades mais importantes do que a luta contra a dor, propõem-se
exercícios de viver integralmente a experiência (VIE). Os exercícios de VIE
são tarefas de casa que o ajudam a criar condições que estimulam o
surgimento dos comportamentos-alvo. São praticados entre duas sessões e
visam aplicar e aprofundar o que o paciente aprendeu na sessão. A maioria
das sessões se articula em torno da preparação para uma vivência a ser
combinada entre terapeuta e paciente no fim dela. Os exercícios visam
desenvolver a capacidade de uma vivência mais integral do momento, a
redução da esquiva de sentimentos difíceis e o aumento da ação coerente
com os valores.
Com a atenção desviada para as partes de sua vivência que ele não tem
o hábito de observar, o paciente gradualmente aprende a expandir sua
capacidade de observação de aspectos externos e internos da sua realidade.
Como resultado, também expande suas opções de fazer escolhas com base
no que é importante na sua vida. No início de cada sessão, o terapeuta
convida o paciente a compartilhar o que ele pôde observar fazendo (ou não
fazendo) o exercício de VIE acertado na sessão anterior. O terapeuta
valoriza cada descrição das observações, inclusive quando o paciente
descreve que não conseguiu observar certos aspectos, já que isso é também
uma observação válida, que pode ajudá-lo a descobrir obstáculos internos
ou externos à construção de uma vida mais plena. O paciente que observa,
por exemplo, que teve medo de entrar em contato com certo aspecto da
vivência, também fez o exercício, mas de outro modo. Assim, trouxe
material importante para ser aprofundado na sessão, que pode ajudar a
desenvolver um próximo exercício de VIE mais útil para seu progresso.
Mesmo quando o paciente não faz as atividades combinadas, os exercícios
de VIE funcionam. Não fazer o exercício proporciona observar diferentes
funções relevantes para a terapia. O paciente terá a oportunidade de
descobrir de quais aspectos da tarefa ele se esquivou e como suas maneiras
de lidar com sua vivência inibiram sua participação.
Entrar mais em contato com o centro de sua vivência significa também,
em um primeiro momento, entrar mais intensamente em contato com sua
dor. Por isso, avalia-se, desde o início da terapia, e cada vez que um novo
exercício de VIE é contemplado, o compromisso do paciente de se engajar
em ações que contribuem para a evolução de seus valores, mesmo que isso
signifique encarar sua dor e os sentimentos difíceis ligados a ela. Neste
caso, o papel de mindfulness também é importante. O paciente aprende a
observar a totalidade da sua experiência, aprende a ver as sensações e
emoções difíceis no seu contexto mais amplo e reencontra, assim, mais
opções para se engajar em ações que sejam realmente importantes para ele.
Sistematicamente (no início ou no fim da sessão), o terapeuta pergunta
sobre o impacto que a sessão (anterior ou atual) teve sobre o paciente;
atraindo sua atenção para aspectos mais sutis do trabalho e convidando-o a
identificar, por exemplo, em que medida ele se sentiu conectado com o terapeuta, o quanto se sentiu implicado nas discussões e presente durante o
trabalho.
A mindfulness, porém, não é só uma habilidade para o paciente. O
terapeuta também deve cultivar a lentidão e não pegar carona nos seus
julgamentos e medos ou nas soluções prontas provenientes da sua formação
profissional. Quanto mais o paciente apresenta a situação como urgente e
catastrófica, mais importante será o terapeuta promover a lentidão para
favorecer a conexão com o momento atual e identificar como as coisas
funcionam no relacionamento terapêutico. A atitude de mindfulness
possibilita a emersão nas relações funcionais, o aprofundamento do vínculo
terapeuta-paciente, e a formação das bases de uma aliança sólida, que pode
oferecer ao paciente a segurança necessária para enfrentar seus medos e
rever seu projeto de vida e seu relacionamento com seu mundo interno e
externo.
Exposição ao vivo e experimentos comportamentais
O tratamento proposto por Vlaeyen et al.11 fundamenta-se no princípio
de que a exposição intencional a movimentos temidos diminui o medo da
dor associado a esses movimentos. Ao diminuir o medo, o tratamento
também aumenta a sensação de controle da dor e diminui a incapacidade
física em virtude dela. O tratamento consiste em sessões interativas em que
o paciente percorre passo a passo uma hierarquia de movimentos
previamente classificados de acordo com o grau de medo que evocam nele.
Junto com o terapeuta, elabora e executa também experimentos
comportamentais que testam suas predições sobre o quanto tal ou tal
atividade vai-lhe produzir dor.
Deve-se distinguir exposição graduada de treino gradual de atividades.
Nos programas de atividade gradual, afazeres que o paciente tinha
abandonado são gradualmente restabelecidos. Primeiro, estabelece-se uma
linha de base, especificando quais comportamentos ocorrem em uma
frequência insuficiente. A partir da linha de base e das demandas práticas
no cotidiano do paciente, monta-se um pacote de comportamentos que
precisam ser reforçados, e organiza-se um programa que coloca em uma
sequência pragmática o tipo e a quantidade (frequência) dos comportamentos-alvo a serem praticados. Durante o treino, o paciente deve
completar, a cada intervalo, uma quantidade das atividades físicas
selecionadas dentro de um tempo especificado, antes de passar para o
próximo nível do programa, aumentando a frequência e a diversidade dos
comportamentos até chegar ao nível desejado.2
O tratamento por exposição ao vivo é bem diferente. Não visa ao
aumento da frequência dos comportamentos-alvo, mas à diminuição do
medo da dor. Cinesiofobia é um medo excessivo, infundado e debilitador de
efetuar movimentos e atividades; a pessoa que sofre desse mal evita
machucar-se novamente.12 O medo de movimento pode ter diferentes graus
de importância no quadro clínico de diferentes pacientes. Lethem et al.13 e
Philips14 descreveram como a esquiva mantém e exacerba o medo da dor e
como o enfrentamento dos movimentos reduz esse medo com o tempo. O
tratamento desenvolvido pelo grupo de Vlaeyen se apoia também no
raciocínio da terapia cognitivo-comportamental. Se o medo da dor é
conceituado como o resultado de expectativas errôneas,14 é possível uma
abordagem cognitiva do comportamento de esquiva. Por meio de
experimentos comportamentais que o paciente faz entre as sessões, ele pode
verificar a veracidade de suas expectativas.
Pessoas com dor crônica, quando confrontadas com movimentos
temidos, mostram preocupação exagerada, aumentando demasiadamente a
tensão muscular pela antecipação de situações que podem causar dor.
Tendem a fazer predições exageradas sobre o nível de dor que determinado
movimento ou atividade possa provocar. A intenção é fugir do que as
machuca. Ao conseguir evitar a dor, aprende a se esquivar de movimentos e
posturas que, no passado, a aumentavam, e de atividades que possam trazer
(novas) lesões. Como deixa de ter comportamentos que associa à dor, a
pessoa não tem a oportunidade de corrigir sua expectativa de que sensações
desagradáveis significam perigo de se machucar de novo. Não tem a
oportunidade de descobrir que o incômodo é inofensivo. Se a esquiva de
movimentos continua por longos períodos, os sistemas musculoesqueléticos
e cardiovasculares deterioram-se e tornam a pessoa mais vulnerável ao
aumento da dor.1
Durante o tratamento, a pessoa enfrenta as atividades, começando com
as menos temidas e avançando para as que lhe causam mais medo. O procedimento clínico de exposição graduada ao vivo, em conjunto com
experimentos comportamentais, é indicado para pessoas com dor crônica
que relatam grau substancial de medo de movimento e de lesões. Depois da
fase psicoeducativa, em que a pessoa é orientada acerca da teoria da dor
crônica e dos mecanismos do tratamento, inicia-se a sequência de sessões
em que ela se expõe intencionalmente aos movimentos evitados por medo
de sentir dor insuportável ou de se machucar novamente. Após a repetição
de um movimento, a pessoa, tipicamente, adapta sua expectativa de acordo
com o incômodo que realmente sentiu.
passo a passo para o tratamento da dor crônica por exposição ao vivo
1. Identificam-se medos irracionais a respeito de atividades, posturas ou movimentos.
Formulam-se os objetivos para o tratamento com atividades concretas que o paciente
evita, como atividades domésticas, de lazer ou profissionais
2. Estabelecem-se hierarquias de atividades e movimentos de acordo com o grau de medo
que evocam na pessoa. Uma possibilidade para construir essa hierarquia é pedir ao
paciente que avalie posturas e movimentos representados em figuras, e que atribua
uma nota a cada um, de acordo com o grau de ameaça que representa para ele
3. Monta-se uma sequência gradual de tarefas, que deve seguir rigorosamente a
hierarquia dos medos estabelecida pelo paciente, que começa com os movimentos
menos temidos, avançando gradualmente, segundo as notas que ele deu na fase
anterior. Cada tarefa representa um teste para as expectativas a respeito do nível da dor
que ele vai sentir. Primeiro, o terapeuta demonstra a tarefa, para que o paciente possa
executá-la de modo mais ergonômico possível. Solicita-se ao paciente que realize estas
tarefas até seu nível de ansiedade baixar. Depois, solicita-se que ele dê uma nova nota,
de acordo com o grau de dor que teme sentir na próxima vez que executar o movimento
4. A sequência de tarefas é executada na sessão com o terapeuta. O paciente também é
encorajado a testar suas expectativas acerca da tarefa entre as sessões, como tarefa de
casa. Progride-se para o próximo passo somente quando o medo da tarefa anterior tiver
sido substancialmente rebaixado.
Em uma pesquisa em que se comparou a exposição graduada com o
treino gradual de atividades, Vlaeyen et al.15 monitoraram os efeitos de
ambos diariamente. Detectaram que os dois tratamentos ocasionaram
aumento do comportamento-alvo. No entanto, o medo da dor diminuiu
somente durante a exposição graduada; durante o treino gradual das
atividades não diminuiu. Identificou-se também que a redução do medo foi relacionada com a diminuição dos pensamentos catastróficos sobre a dor e
da inaptidão pela dor. Em certos pacientes, a redução do medo também foi
relacionada com a sensação que estes tiveram de ter maior controle sobre a
dor.
Terapia cognitivo-comportamental
A base da terapia cognitivo-comportamental para a dor crônica é a
relação colaborativa entre terapeuta e paciente. Ambos trabalham em nível
de igualdade, no qual o terapeuta traz sua experiência profissional, e o
paciente, sua vivência concreta. No empirismo colaborativo, tanto o
terapeuta quanto o paciente buscam as respostas, e ambos devem se dispor a
modificar suas suposições quando os fatos não os apoiam. Isso inclui
também as hipóteses teóricas do terapeuta, que devem ser examinadas
empiricamente, quando não estão produzindo resultados satisfatórios.
O terapeuta combina com o paciente examinar como suas crenças e seus
comportamentos influenciam a dor. O objetivo da terapia é substituir
padrões comportamentais e cognitivos problemáticos por padrões
adequados. O paciente colabora no sentido de adquirir as estratégias
necessárias para manejar sua dor. Para as áreas a serem melhoradas, o
terapeuta propõe uma solução ou desenvolve uma com o paciente. Nos
parágrafos seguintes são introduzidos alguns elementos propostos
frequentemente para a elaboração de tais soluções.
Desde o início do tratamento, o paciente aprende a identificar e a
interpretar as relações entre suas emoções, seus pensamentos, suas ações e
suas respostas corporais. Compreendendo bem essas relações, o paciente
pode assimilar melhor as habilidades de enfrentamento ensinadas na terapia
e desenvolver suas próprias maneiras de lidar com a dor no seu cotidiano.
Além disso, a capacidade de interpretar as relações entre emoção,
pensamento e ação facilita o desenvolvimento de autorregulação.
Habilidades de autorregulação são técnicas que o paciente aprende para
alterar suas respostas emocionais e fisiológicas. Essas habilidades podem
ajudar a diminuir a dor, por exemplo, por redução da tensão muscular e
diminuição da excitação autônoma.16
Habilidades de enfrentamento da dor incluem desvio da atenção,
relaxamento muscular e regulação das atividades físicas e de repouso.
Desviar a atenção da dor pode, para certos pacientes, modular sua
percepção. Há uma técnica que consiste no uso de imagens agradáveis; o
paciente fecha os olhos e imagina uma lembrança ou fantasia prazerosa,
desviando assim a atenção que estava sendo aplicada à sensação da dor.
Outra técnica é a concentração em um ponto focal. Nesta, o paciente
aprende a concentrar plenamente sua atenção, durante 1 ou 2 min, em um
objeto que esteja disponível no seu ambiente. No entanto, técnicas simples,
como a contagem regressiva de 100 até 0, que, eventualmente, pode ser
usada em um nível mais complexo, como pular a cada segundo número par,
podem ser usadas para privar a sensação de dor da atenção que precisa para
se impor.17
Em muitos casos, usam-se técnicas de relaxamento. Sessões de
relaxamento profundo servem para ensinar como o paciente pode adquirir
controle sobre a excitação autônoma devida a estresse, conflitos ou
dificuldades diversas. O treino de habilidades mais simples de relaxamento
imediato ensina o paciente a diminuir a tensão exacerbada em qualquer
situação; a evitar espasmos musculares e a processar emoções negativas que
aumentam a tensão muscular e a percepção da dor. Biofeedback muscular
pode ser usado para que o paciente perceba a relação entre estresse físico e
problemas emocionais. Pode também contribuir para ele aprender a detectar
melhor as sensações que sinalizam níveis elevados de tensão muscular, bem
como reduzi-los, obtendo, assim, maior controle da dor.
Adaptando os ciclos de atividade e repouso, a pessoa pode aprender a
influenciar sua dor. O paciente combina com o terapeuta se engajar em uma
quantidade moderada de atividade e respeitar um período de repouso
limitado depois de cada fase de atividade. A atividade não pode ser tão
intensa que aumente sensivelmente o nível da dor, e o repouso não pode ser
tão duradouro que torne a retomada da atividade difícil. Por exemplo,
quando o paciente já sabe que pode caminhar durante 30 min antes de suas
costas começarem a doer, pode-se combinar que ele repouse durante 5 min
a cada 15 min. Uma vez acertado o ciclo, o paciente começa a inseri-lo,
gradualmente, no seu cotidiano. Em muitos pacientes, esta prática diminui o
nível da dor. O paciente faz anotações detalhadas do uso do ciclo em uma variedade de situações, e as discute nas sessões com o terapeuta. Uma vez
bem estabelecido o ciclo, o paciente pode adaptá-lo a seu critério,
gradualmente, a cada semana, aumentando a atividade moderada e
diminuindo o tempo de repouso, até chegar a um padrão que ele e o
terapeuta considerem adequado.18
As fontes de estresse devem ser manejadas. Dependendo das
necessidades do paciente, podem-se abordar problemas conjugais, conflitos
na família ou assertividade no trabalho, e também habilidades de
enfrentamento da própria condição crônica de saúde e das implicações desta
na vida do paciente. Para todos esses aspectos do problema, são usadas as
estratégias típicas da terapia cognitivo-comportamental, com ênfase no
empirismo colaborativo.19
É importante discutir os pensamentos e as crenças do paciente acerca
dos exercícios, corrigir distorções ou suposições irracionais que podem
interferir no tratamento. A reestruturação cognitiva tem papel coadjuvante
em todas as técnicas, possibilitando que o terapeuta e o paciente trabalhem
de maneira profunda essas crenças e suposições infundadas que dificultam
o tratamento. Contudo, tem também um papel mais central, quando é usada
para mudar a percepção que muitos pacientes têm da sua dor, de algo
inaceitável para algo que eles podem aprender a manejar; e também para
mudar sua percepção de si mesmos, de alguém desamparado para alguém
que tem como influenciar a si mesmo e o mundo à sua volta.19
Um dos problemas tipicamente abordados pela reestruturação cognitiva
é o pensamento catastrófico do paciente sobre o impacto da dor na sua vida.
A falta de previsão sobre a duração dos sintomas, a antecipação irrealista
sobre o tratamento médico e a ambiguidade das informações dadas acerca
da escolha dos tratamentos, assim como o significado particular dos
sintomas para o paciente, podem provocar reações emocionais e
impulsionar escolhas de vida problemáticas. Assim, o pensamento
catastrófico subsidia muitos comportamentos desadaptativos que tendem a
piorar a depressão, a ansiedade e o isolamento social da pessoa com dor
crônica. Tanto o comportamento quanto as cognições subjacentes são
abordados diretamente na terapia.16,17
Na terapia cognitivo-comportamental da dor crônica, o terapeuta investe
muita atenção na consolidação e manutenção das habilidades desenvolvidas nas sessões. Os pacientes continuam praticando e melhorando suas
habilidades, depois de o tratamento terminar. Eles aprendem a entender a
recaída como parte normal e manejável da sua trajetória. Quando a dor
volta a aumentar, após o paciente ter parado de praticar as habilidades
relevantes, ele estará bem preparado para examinar e desafiar os
pensamentos irracionais que o fizeram parar e estará apto para tomar as
medidas necessárias para retomar o que aprendeu na terapia.
Terapia comportamental de grupo integrativa
O modelo comportamental para dor crônica que será apresentado por
último neste capítulo nasceu da tentativa de assimilar alguns aportes das
três abordagens anteriormente descritas em um trabalho de grupo que se
baseou nos princípios da psicoterapia analítico-funcional. A integração
assimilativa consiste na adoção de contribuições de um ou mais tratamentos
em outra abordagem que forneça o quadro geral do tratamento. A
psicoterapia analítico-funcional (geralmente nomeada pela sigla inglesa
FAP) é um modelo behaviorista para a psicoterapia individual (veja, para
introdução a este modelo de terapia, Tsai et al.20), que foi posteriormente
adaptado à terapia de grupo.21
O quadro geral do tratamento foca o que ocorre durante as sessões no
microcosmo social do grupo. Tipicamente, os problemas interpessoais que
caracterizam a rotina dos participantes também ocorrem nos
relacionamentos no grupo e podem, assim, ser trabalhados ao vivo. Por isso,
o grupo não trabalha por meio de role-play ou treino formal de habilidades.
As táticas e técnicas descritas mais adiante são usadas durante a interação
espontânea dos participantes no grupo.
O trabalho é norteado por formulações de caso de cada paciente, que
especificam seus problemas do cotidiano e seus alvos terapêuticos. Essas
formulações são regularmente atualizadas pelo terapeuta em diálogo com o
paciente. A estratégia geral é organizar o grupo de tal maneira que sejam
continuamente evocadas interações relevantes que contribuam para superar
as dificuldades e alcançar os objetivos de desenvolvimento dos pacientes, e,
assim, oportunidades de aprendizagem ao vivo se tornam frequentes para
todos os participantes. Grande variedade de táticas terapêuticas21 pode ser usada para promover esses objetivos, as quais são mescladas com as
técnicas tradicionais da psicoterapia analítico-funcional.20
As táticas são definidas em termos topográficos, e as técnicas são
definidas em termos funcionais. Nessa relação, a tática pode incluir várias
técnicas, e a técnica corresponde a múltiplas táticas.21 As táticas são
intervenções usadas pelo terapeuta para promover um objetivo específico.
Elas podem ser muito diferentes e exigir criatividade por parte do terapeuta.
Às vezes, porém, o terapeuta pode aproveitar uma atividade que ocorre
naturalmente no tratamento e convertê-la em uma tática. A introdução do
contrato terapêutico, por exemplo, pode ser uma tática para oferecer ao
paciente a oportunidade de promover seus alvos terapêuticos. Para um
paciente, pode ser uma oportunidade de aprender a expressar críticas ou
negociar suas necessidades; e para outro, a lidar com compromissos.
Desenvolver um clima de apoio mútuo é outra tática, assim como mediar as
relações de modo que os participantes reforcem os progressos dos colegas
no grupo.
As técnicas, por sua vez, são as ferramentas para o terapeuta agir a cada
momento ao longo das sessões. As técnicas básicas são evocar, reforçar,
bloquear e extinguir comportamentos. Desse modo, são entendidas pela
função que exercem no processo. Evocar é o modo como o terapeuta age
para que o paciente emita um comportamentoalvo. Reforçar significa reagir
ao comportamento-alvo, aumentando a probabilidade de ele ocorrer com
mais frequência. A técnica oposta é a extinção, na qual o terapeuta ou o
grupo recuse reforçar um comportamento, para que a frequência dele
diminua. Bloquear significa impedir que o comportamento seja executado
de maneira suficientemente completa para acessar um reforçador.
Para ilustrar o entrelaçamento de táticas e técnicas, imagine que o
terapeuta queira reforçar uma tentativa simpática de um participante que
sofre de isolamento social (e tem dificuldade de construir relacionamentos
significativos com outras pessoas) se abrir e aumentar o grau de intimidade
com o grupo. Para reforçar (uma técnica) o novo comportamento, o
terapeuta pode usar diferentes táticas. Pode dar seguimento à abertura que o
participante demonstrou, ao identificar junto com ele quais necessidades ele
expressou, para que, futuramente, o terapeuta (ou o grupo) possa atender
melhor a essas necessidades. Pode, também, compartilhar os efeitos que o comportamento do paciente teve sobre si. Ao compartilhar os sentimentos
de proximidade que sentiu com o paciente, o terapeuta possibilita ao
participante ter acesso à informação sobre o que este pode evocar em outras
pessoas. Outra tática com a mesma função seria convidar outro membro do
grupo para falar sobre suas reações ao comportamento de outro participante.
E, em certos momentos, a simples expressão espontânea de emoção
evocada no terapeuta pelo novo comportamento do paciente, por exemplo,
um sorriso ou uma resposta sensível, é a melhor tática.
Invertendo a comparação, uma tática como compartilhar os efeitos do
comportamento de um paciente sobre o terapeuta (ou sobre o grupo) pode
assumir a função das diferentes técnicas. Essa tática pode funcionar como
reforçamento, quando o efeito revelado do comportamento é de tal natureza
que aumenta sua frequência no futuro. Pode enfraquecer o comportamento,
quando o efeito não atende às necessidades da pessoa que o emitiu. Pode
bloquear um comportamento, ao evitar que a pessoa consiga obter
reforçamento com um comportamento-problema. Ou pode ser usada para
evocar novos comportamentos, talvez mais saudáveis, que podem ser
desenvolvidos para melhorar a qualidade de vida do participante.
Um primeiro grupo que trabalhou de acordo com esses princípios foi
descrito por Vandenberghe, Cruz e Ferrro.22 Começou como iniciativa para
ajudar pessoas referidas por um centro de tratamento de dor. Essas pessoas
não tinham respondido aos tratamentos medicamentosos e físicos
dispensados ali. O grupo iniciou em agosto de 2001 como o primeiro de
uma longa série de grupos de psicoterapia analítico-funcional para dor
crônica. Com base nas três correntes terapêuticas expostas anteriormente,
este tipo de terapia de grupo integrativa tem como objetivos: reduzir a
esquiva da dor (e com isso também o medo da dor e o pensamento
catastrófico sobre a dor) e buscar maneiras mais saudáveis para se
relacionar com vivências internas e experiências no campo interpessoal. A
esquiva encoberta, o medo da dor e o pensamento catastrófico são
abordados como partes de padrões que não só ocorrem no cotidiano do
paciente, mas também na sessão.21,23
Para entender como esses alvos terapêuticos interagem com as
demandas e necessidades dos pacientes na prática da terapia de grupo,
realizou-se um estudo de gravações dos grupos.3 Identificou-se que as
maiores temáticas que permeiam este tratamento são:
• A difícil convivência com a dor
• A relação entre a dor e os problemas interpessoais do cotidiano • Os processos ao vivo no grupo, incluindo a interação entre os participantes e o relacionamento
com o terapeuta.
A convivência com a dor é em si um fator importante de estresse. De
fato, a dor crônica está intrinsecamente entrelaçada com o estresse do
cotidiano e as maneiras como a pessoa o enfrenta.24 A sensação
desagradável incessante, a fadiga. A luta da pessoa contra suas próprias
sensações e seus próprios sentimentos acaba sendo mais um fator
estressante. Além disso, a dor crônica produz um conjunto de novos
problemas sociais e interpessoais. Alguns desses se mostraram marcantes
nos grupos estudados. Os tratamentos para a dor crônica exigem do
paciente alto investimento emocional, financeiro e de tempo, pois corroem
seus recursos psicológicos, agravando a dor. A falta de êxito terapêutico é
recorrente e explica a crescente descrença quanto à possibilidade de
melhora. Atividades importantes para o desenvolvimento pessoal são
abandonadas, e os recursos de apoio social são afastados.
Para inverter esse quadro, o grupo ajuda o participante a descobrir que
sua dor não é constante. Por meio de tarefas de auto-observação, descobre-
se que há dias melhores e dias piores, conforme as vivências emocionais, e
que o nível da dor varia a cada momento. Neste contexto, dá-se muita
atenção à interligação das emoções com o campo interpessoal. O tratamento
promove mudanças que contribuem para a melhora da qualidade dos
relacionamentos, ajudando a pessoa a construir uma convivência com as
pessoas importantes na sua vida que atenda melhor às suas necessidades
emocionais. Uma vez que observa a relação entre suas vivências
emocionais e os níveis da dor, a pessoa pode escolher alvos para mudar e
tornar mais valiosa sua experiência do dia a dia e se engajar em se
aproximar desses alvos. Nos grupos estudados, muitos participantes usaram
estratégias problemáticas para relacionar-se com outros e careceram de
repertórios necessários para mudar seu mundo interpessoal. Por isso, o
grupo enfatizou o desenvolvimento de habilidades para resolver problemas, lidar com situações interpessoais conflituosas ou comunicar sentimentos e
necessidades.
Os problemas do cotidiano compõem um leque abastado de fontes de
estresse para as pessoas com dor crônica, e a própria dor crônica
proporciona desvantagens no campo interpessoal. Um círculo vicioso
decorre do fato de que a dor causa problemas interpessoais e sociais, e estes
evocam respostas fisiológicas de estresse que, por sua vez, aumentam a dor.
Os participantes dos grupos trazem experiências de assédio moral. Sentem-
se culpados pelo seu problema ou desqualificados por sofrer uma condição
difícil de comprovar no trabalho, na família, e, às vezes, até pelos
profissionais de saúde que os atenderam na sua trajetória. Gradualmente,
abrem mão de papéis valiosos como cidadãos, membros da família, da
empresa, ou de associações e grupos de amizade, e constroem, assim, uma
vida menos valorizada e mais vazia.
A pesquisa identificou que muitos participantes viviam relacionamentos
nos quais tinham posições submissas, assumindo, na família, papéis que, na
verdade, não desejavam. Outros, pelo contrário, lutaram contra a frustração,
impondo suas soluções rígidas em relacionamentos com os outros. Muito
comum era o investimento excessivo em cuidados dispensados aos outros.
A dor se tornava, às vezes, um instrumento de chantagem. Certas
participantes impunham rigidamente as soluções delas, às vezes ajudando e
cuidando de maneira impositiva das outras pessoas. Outros atendiam de
modo desproporcional ao desejo do outro, com a intenção de não serem
ignorados. Os dois padrões são disfuncionais, porque, ao tentar rigidamente
evitar o que temem, os pacientes não obtêm dos relacionamentos o que
precisam. O investimento na evitação de dificuldades interpessoais pode se
tornar tão importante que a pessoa perde contato com suas necessidades
interpessoais.
O grupo ajuda nessa temática complexa de diferentes maneiras. Oferece
um lugar para o paciente aprender a processar os sentidos de
desqualificação de um modo saudável e a lidar melhor com seus
relacionamentos. Os participantes aprendem a conectarse com suas
necessidades por meio da exploração de suas emoções. O grupo promove a
vivência e a expressão de emoções e sentidos que anteriormente estavam
implícitos nas ações dos pacientes. A experiência no grupo também pode ser um primeiro passo na restauração de suas redes de apoio social. E, como
processo central, ao explorarem e assumirem plenamente suas dificuldades
nos relacionamentos, os participantes constroem novas habilidades de lidar
com as exigências do seu mundo social.
A maneira como o participante se relaciona com outras pessoas no seu
dia a dia acaba, inevitavelmente, se reproduzindo nas relações estabelecidas
pelos participantes entre si ou entre estes e o terapeuta. O grupo é uma
estrutura real na qual os participantes lidam com o terapeuta e com os
outros membros do grupo como pessoas reais, em interações e
relacionamentos reais. A complexidade dos desafios decorrentes disso
facilmente evoca os problemas da vida do cotidiano do paciente, e o
feedback obtido ao vivo torna possível reavaliar os efeitos do próprio
comportamento, o que resulta em aprendizagens valiosas. Ser parte desse
grupo de pessoas com quem o paciente interage oferece uma perspectiva
clínica privilegiada para o terapeuta observar os seus padrões de interação.
Ao mesmo tempo, oferece um instrumento de intervenção especial, porque
sendo parte dos padrões de relacionamento do participante, o terapeuta está
bem posicionado para trabalhá-los enquanto ocorrem.20,21
Reflexões
Neste capítulo, quatro diferentes abordagens comportamentais e
cognitivo-comportamentais da dor crônica foram apresentadas. Podem ser
considerados diferentes estilos clínicos com aportes específicos. A
multiplicidade abriga contradições entre as diferentes abordagens. Talvez a
oposição mais evidente seja entre a ACT e a terapia cognitivo-
comportamental. A primeira tenta promover aceitação e ajuda o paciente a
cessar suas tentativas de controlar o que sente. A terapia cognitivo-
comportamental ensina a pessoa a controlar sua dor. Do ponto de vista da
ACT, na tentativa de controlar a dor corre-se o risco de promover a luta
contra a vivência interior. Porém, outras diferenças também podem ser
apontadas. Certas abordagens enfocam o sentido social da vivência do
paciente; outras, os mecanismos cognitivos ou emocionais internos. O
tratamento por exposição graduada segue um caminho muito específico,
enfocando o medo da dor. Ele influencia o nível da dor e da inabilidade indiretamente pela extinção do medo. Enquanto isso, a terapia cognitivo-
comportamental trabalha, em uma empreitada complexa, múltiplas facetas
da qualidade de vida e das maneiras de pensar do indivíduo, e a ACT
propõe que o paciente reveja seu projeto de vida, tomando consciência dos
seus valores pessoais mais profundos e reorientando-se por eles.
Porém, também é necessário observar que essa multiplicidade de
ângulos teóricos e estilísticos tem a vantagem de oferecer ao clínico a
possibilidade de adaptar o tratamento às necessidades do indivíduo ou do
momento, privilegiando aquilo de que o paciente mais precisa. Em certos
casos, durante o processo terapêutico, é produtivo que o clínico seja capaz
de manter duas hipóteses contraditórias em mente, aproveitando da luz que
cada uma delas joga sobre diferentes aspectos do problema, das
necessidades e da vivência do paciente. E a pluralidade das abordagens
comportamentais para a dor crônica oferece esta possibilidade.
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