A Psicologia da Dor

Andréa G. Portnoi · Capítulo 16 de 23

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A Psicologia da Dor

12 Habilidades Sociais na Síndrome de Fibromialgia

Maria Amélia Penido

 

Fibromialgia

 

Fibromialgia é uma síndrome crônica que acomete principalmente

mulheres, caracterizada por queixa dolorosa musculoesquelética difusa e

pela presença de pontos palpáveis hipersensíveis e dolorosos à pressão, em

regiões anatomicamente determinadas. Essas pacientes referem dores por

todo o corpo, fadiga e alteração do sono, e frequentemente apresentam

comorbidade com depressão e ansiedade.

A fibromialgia aparece também associada a transtornos psiquiátricos,

principalmente depressão e ansiedade. Para Ford (citado por D’Ávila et

al.1), esse quadro de dor crônica aparece associado a um histórico de

peregrinações médicas, uma dificuldade de abordar problemas na esfera psicossocial e uma forte tendência de fazer da condição de doente um estilo

ou “modo de vida”. Em um trabalho realizado por Baptista et al.2 com

pacientes fibromiálgicos, os autores identificaram um padrão de

comportamento comum, com as seguintes características: autoconceito de

pessoa fraca e incapaz de lidar com estresse; dificuldade de elaborar

sentimentos negativos; enfrentamento inadequado; dificuldade no vínculo

médico-paciente; foco permanente nos processos corporais que são

experimentados como perturbadores; tendência a experimentar sintomas

físicos numerosos e variados em resposta a estressores emocionais e

sociais; comportamento anormal de doente, com procura grande por

consultas médicas; ganho secundário; identificação com pessoas enfermas

na família; reforço familiar ao papel de doente e incapacidade de

reconhecer e interpretar emoções simbolicamente, além da presença de

depressão e ansiedade em muitas pacientes.

 

Dor em fibromialgia

 

De acordo com Mello Filho,3 quando uma pessoa sente dor, essa

experiência é seguida de um comportamento: reclamar, gemer, executar

determinados gestos ou assumir determinadas posições que visam a

melhorar a dor. Essa conduta comum tem como objetivo comunicar o que

está se passando e solicitar ajuda. Para Fordyce (citado por Mello Filho2), o

comportamento de dor decorre de um processo de reforço. O

comportamento de dor pode ser reforçado diretamente pela atenção familiar

e médica, ou pode ser reforçado indiretamente pela esquiva de situações

desagradáveis ou obrigações penosas. O fato de estar com dor muitas vezes

serve para evitar determinadas tarefas desagradáveis, como arrumar a casa

ou dizer não.

De acordo com Fortes,4 no grupo dos somatizadores crônicos estão

incluídas as chamadas síndromes funcionais, doenças que não apresentam

alterações anatomopatológicas conhecidas, em que os pacientes apresentam

queixas inespecíficas e adesão ao papel de doente. São pacientes crônicos

com alto grau de comprometimento do funcionamento social. Para muitos

autores, a fibromialgia é uma síndrome funcional.4-7 De acordo com Fortes,4

as síndromes funcionais, como a fibromialgia, a síndrome do colón irritável e a cefaleia tensional, representam um grupo de pacientes que

frequentemente apresentam somatização, mas cujos limites entre o

sofrimento mental e alterações orgânicas ainda estão bem pouco

compreendidas. De acordo com Baptista et al.,2 esses pacientes podem

apresentar alterações na estruturação da personalidade, reconhecendo a si

mesmos como doentes. Ocorre uma adesão à identidade de doente, com

dificuldades para lidar com conflitos e responsabilidades, criando

sentimentos de fraqueza e impotência que são expressos em queixas de dor

e cansaço. Para eles, ser doente é um modo de vida, os pacientes se

reconhecem como doentes e adotam essa identidade perante seu grupo

social e familiar. Muitas vezes, no processo de estruturação dessa

identidade, os pacientes são liberados de assumir responsabilidades e

obrigações, e esses ganhos podem se tornar reforçadores para a adesão à

identidade de doente. Os ganhos secundários podem ser os reforçadores

sociais, como atenção da família e benefícios financeiros, além da esquiva

de situações sociais conflitivas ou de impotência e submissão. Nesse caso, a

falta de algumas habilidades sociais de enfrentamento, como assertividade,

poderia funcionar como um fator que reforça a adesão à doença.

Alguns autores consideram que a aprendizagem social desempenha um

papel importante no desenvolvimento e na manutenção da dor crônica.7-10.

De acordo com essa perspectiva, os comportamentos de dor podem ser

adquiridos por meio de modelação, que é a aprendizagem decorrente da

observação de um modelo.11 O ambiente social e a cultura em que um

indivíduo está inserido influenciam a sua percepção e interpretação de

sintomas, determinando como esse indivíduo vai agir ao ficar doente. O

comportamento de outras pessoas de sentir dor é um evento que chama

atenção. Talvez a tendência de dirigir atenção à dor tenha uma relação

evolutiva com a sobrevivência, e, por esse mecanismo, crianças poderiam

aprender a evitar experiências que causam dor e poderiam aprender como

devem lidar com a dor. Um estudo realizado por Dura e Beck (citado por

Winterowd et al.12) concluiu que filhos de pacientes com dor crônica

tendem a ter um baixo nível de habilidades sociais, mais problemas de

comportamento, como faltar mais ao colégio, e ter mais dias de reclamação

de doença em comparação com filhos de pacientes diabéticos.

De acordo com Fortes,10 a maneira como um indivíduo sente dor

relaciona-se à maneira como ele comunica este sofrimento. A construção

desse padrão de sofrimento sofre influências familiares que, por sua vez,

sofre influências do sistema social e cultural em que está inserido. A

maneira como cada indivíduo elabora sua doença e expressa sua dor é

resultado de um aprendizado construído a partir da imitação de modelos e

do reforço de seu papel de doente.

 

Habilidades sociais

 

O campo de estudo das habilidades sociais é recente e vem recebendo

cada vez mais atenção, principalmente pela relação existente entre o

repertório de habilidades sociais e a saúde, a satisfação pessoal, a realização

profissional e a qualidade de vida.13

De acordo com Argyle,14 os transtornos mentais envolvem

principalmente problemas de comunicação e de relações interpessoais.

Alguns estudos identificam altas taxas de inadequação social associadas a

problemas psicológicos e psiquiátricos, embora não afirmem uma relação

de causalidade entre esses fatores.

O campo das habilidades sociais teve sua época de maior difusão em

meados da década de 1970 e continua atualmente sendo um campo

crescente de interesse e pesquisa. Iniciou-se com os estudos de Salter15

sobre desempenho social, seguido pelos estudos de Wolpe,16 primeiro autor

a empregar o termo “assertivo”, dando início a um amplo movimento

denominado treino assertivo (TA). Wolpe criou um método para tratar a

ansiedade e facilitar a expressão de sentimentos, definindo a assertividade

como a capacidade de expressar adequadamente qualquer emoção, que não

fosse ansiedade, em relação a outra pessoa.

Paralelamente ao surgimento dos estudos sobre assertividade nos EUA,

ocorria na Inglaterra o desenvolvimento de estudos sobre habilidades

sociais. Em 1967, Argyle e Kendon,17 influenciados pelo conceito de

“habilidade” aplicado às interações homemmáquina, introduziram o uso do

termo habilidades na interação homem-homem usando o termo habilidades

sociais, tendo início aí a área de treinamento em habilidades sociais (THS),

caracterizada como um conjunto de técnicas que se aplicam a todo e qualquer déficit de natureza interpessoal, sendo um campo de estudos

abrangente.

Falcone18 considera que o comportamento socialmente habilidoso

abrange, além dos desempenhos verbais e não verbais em situações de

interação, aspectos cognitivos, de percepção e de processamento de

informação. Um comportamento socialmente habilidoso deve incluir a

especificação de três elementos: um elemento comportamental relacionado

com o tipo de habilidade; um elemento cognitivo das variáveis do indivíduo

e um elemento situacional referente ao contexto em que se está inserido.19

De acordo com Bendell et al. (citados por Falcone19), as habilidades sociais

incluem três elementos principais: 1) selecionar de maneira precisa

informações relevantes de um contexto interpessoal; 2) fazer uso dessas

informações para emitir comportamentos apropriados dirigidos à meta; e 3)

desempenhar tais comportamentos obtendo e mantendo a meta de boas

relações com os outros. Em Falcone,18,19 a assertividade é entendida como

um componente das habilidades sociais que, muitas vezes, não é suficiente

para produzir um comportamento socialmente habilidoso. Ressalta-se a

importância da habilidade empática e da habilidade para solucionar

problemas interpessoais.

A assertividade é definida por Lange e Jakubowski20 como a capacidade

de uma pessoa expressar seus sentimentos de uma maneira direta, honesta e

adequada. A assertividade pode ser também uma habilidade para defender

seus direitos sem violar o direito de outros. O treinamento assertivo tem

demonstrado ser útil para aumentar a autoestima e reduzir a ansiedade e

depressão, porém parece não ser suficiente para aumentar a conexão

interpessoal e estabelecer vínculos.20 Falcone18,19 aponta a empatia como

uma habilidade importante que pode complementar a assertividade,

produzindo resultados mais habilidosos.

As habilidades sociais são mais comumente aprendidas de modo não

sistemático nas relações interpessoais com as outras pessoas, com os pais, o

círculo de amigos, o cônjuge, os colegas de trabalho e a mídia em geral, que

são importantes agentes de promoção ou de restrição do repertório de

habilidades sociais; mas também de maneira sistemática, por meio de

programas de treinamento em habilidades sociais tanto terapêuticos como

preventivos.21 Desse modo, ao se identificar as deficiências no repertório de habilidades sociais de uma população, é possível criar maneiras de

desenvolvimento dessas habilidades, cujo objetivo é melhorar a qualidade

de vida.

 

Dor crônica e habilidades sociais

 

A relação entre repertório de habilidades sociais e fibromialgia ainda

não é bem especificada na literatura, porém muitos manuais de tratamento

para dor crônica incluem sessões dedicadas ao treinamento de habilidades

sociais, principalmente assertividade. Na literatura científica, muitos

estudos têm incluído o treino assertivo e de habilidades de comunicação no

tratamento de pacientes com dor crônica.12,22-25

Em um artigo de 1990, Cowan e Lovasike26 descrevem um programa de

estratégias para sobreviver à dor crônica, reunidas pela Associação

Americana de Dor Crônica. Esse programa tem como objetivo educar os

pacientes a respeito da visão multidimensional da dor crônica e ensinar

estratégias de manejo. Uma dessas estratégias é o treino assertivo, além de

técnicas de relaxamento, seleção de objetivos e discussão da importância do

foco exagerado na dor. Outro tratamento em grupo, proposto por Pfeiffer et

al.,25 inclui sessões que abordam problemas de comunicação e socialização.

Philips22 propõe um manual de tratamento psicológico para dor crônica

em grupo, em que a 6a sessão é dedicada a um treino assertivo. A autora

expõe a importância desse aspecto do tratamento ressaltando que pacientes

com dor crônica frequentemente usam a dor para obter ganhos secundários.

Para a autora, o treino assertivo pode diminuir esses comportamentos que

ajudam a manter o quadro de dor crônica. Em outro programa de tratamento

para dor crônica, Caudill23 inclui o treino assertivo como parte das

intervenções consideradas relevantes, estando incluído no tópico

comunicação eficaz. A autora justifica a inclusão desse tópico no

tratamento ao expor que pacientes que sofrem de dor crônica sentem muita

angústia, não apenas como resultado da dor, mas também pela tentativa de

se comunicar com os outros a respeito de sua dor, o que causa uma

dificuldade de comunicação que pode agravar o quadro ou funcionar como

um fator de manutenção da dor.

Em um livro sobre tratamento cognitivo-comportamental para pacientes

com dor crônica, Winterowd et al.12 ressaltam a assertividade como um

importante tópico a ser trabalhado com esses pacientes, dedicando um

capítulo do livro ao assunto; nesse capítulo, os autores não citam nenhuma

referência bibliográfica que justifique a importância desse tópico no

tratamento. Os autores consideram que pessoas com esse problema

precisam aprender a se comunicar diretamente com muitas pessoas

(cônjuge, filhos, parentes, médicos, enfermeiros) sobre a dor, suas emoções,

seus pensamentos, vontades e necessidades. Consideram que desenvolver a

assertividade pode ajudar os pacientes a lidar melhor com sua dor e

melhorar sua relação com os outros; aprender a compartilhar necessidades e

vontades sem ofender outras pessoas no processo pode melhorar a

qualidade das relações e favorecer o recebimento de suporte.

Em um estudo realizado por Williams et al.27, que investiga a eficácia de

um tratamento cognitivo-comportamental em grupo com seis sessões para

pacientes fibromiálgicos, na sessão 4 são trabalhadas habilidades de

comunicação e treino assertivo. Fortes,10 em um artigo sobre o paciente que

sofre com dor, identifica como característica desses pacientes uma

dificuldade de dizer não. Philips22 considera que os problemas psicológicos

de pacientes com dor crônica podem ser influenciados por uma variedade

de fatores que incluem a falta de habilidades sociais.

Esses estudos indicam que muitos autores consideram o treino assertivo

ou o treino em algumas habilidades sociais um fator importante no

tratamento da dor crônica.

 

Fibromialgia e habilidades sociais

 

Uma pesquisa realizada por Penido28 buscou investigar o repertório de

habilidades sociais de pacientes fibromiálgicas. Avaliou especificamente a

presença de déficits em habilidades sociais em pacientes diagnosticadas

com fibromialgia, além de avaliar se as habilidades sociais em pacientes

com fibromialgia diferenciavam-se daquelas presentes em pacientes com

outras patologias que apresentam dor crônica, no caso, artrite reumatoide.

Estudou também a prevalência de ansiedade e depressão.

Nessa pesquisa, foram selecionados 105 sujeitos divididos em três

grupos: 35 mulheres diagnosticadas com fibromialgia; 35 mulheres

diagnosticadas com artrite reumatoide; e 35 mulheres sem patologia

crônica, constituintes do grupo-controle.

Os dados foram coletados no Ambulatório de Reumatologia do Hospital

Universitário Pedro Ernesto por meio dos seguintes instrumentos: ficha de

identificação; Critério Brasil; escala hospitalar de ansiedade e depressão

(HAD); Questionário da Avaliação da Saúde; Inventário de Graduação de

Dificuldades em Situações Sociais e Inventário de Habilidades Sociais

(IHS). Para a análise dos dados, foi utilizado o pacote estatístico SPSS, que

incluiu teste t de Student, ANOVA e qui-quadrado.

É objetivo deste capítulo descrever os resultados dessa pesquisa,

refletindo sobre a relação entre habilidades sociais e fibromialgia.

Inicialmente, serão abordados os resultados que caracterizaram a amostra

do estudo. Em seguida, os resultados encontrados quanto às habilidades

sociais.

 

Resultados que caracterizam a amostra da pesquisa

 

Idade

 

A idade média do grupo com fibromialgia foi mais alta (50 anos), o que

vai ao encontro dos dados das pesquisas de Angelloti,9 que encontrou uma

faixa etária entre 51 e 60 anos, com toda a amostra do sexo feminino;

McCain,29 que encontrou uma média de idade de 52 anos com 90% da

amostra do sexo feminino; Turk7 et al., que encontraram uma média de

idade de 47 anos com 97% da amostra do sexo feminino; Fessbender et

al.,30 que encontraram uma média de idade de 50 anos com 98% da amostra

do sexo feminino; e Okifuji et al.,31 que encontraram uma média de idade de

48 anos com 96% da amostra do sexo feminino.

 

Sexo

 

Não existe na literatura nenhum consenso sobre o fato da prevalência

em mulheres ser maior. De acordo com D’Ávila et al.,1 uma hipótese para a

maior prevalência em mulheres seria o fato de o adoecimento ser socialmente aceito para as mulheres, e o papel de doente se ajustar melhor

aos outros papéis e responsabilidades femininas; já para os homens, esse

papel seria mais estigmatizante. Alguns autores apontam a necessidade de

mais estudos investigando essa questão.1,9,31 Embora esse estudo utilize sexo

feminino como critério de inclusão, não se observou a presença de nenhum

homem com esse diagnóstico em todo o período de trabalho de campo no

ambulatório de fibromialgia. Esse critério foi útil para garantir

homogeneidade entre os três grupos.

 

Estado civil

 

Conforme os dados obtidos na amostra, 72,2% das mulheres com

fibromialgia são casadas. Esse dado é semelhante aos dados encontrados na

pesquisa de Turk et al.,7 em que o grupo de mulheres casadas corresponde a

65% da amostra; e Okifuji et al.,31 em que esse dado corresponde a 55% da

amostra.

 

Condição de trabalho

 

No tocante à condição de trabalho da amostra, o grupo com fibromialgia

e o grupo com artrite reumatoide aparecem distribuídos de maneira

semelhante entre as categorias, com uma concentração maior na categoria

do lar. Já o grupo-controle apresenta uma concentração maior na categoria

ativo. No estudo de Angelotti,9 60% da amostra aparecem na categoria do

lar.

 

Escolaridade

 

Quanto ao grau de escolaridade, os três grupos aparecem distribuídos de

maneira semelhante, com uma concentração maior nas categorias ensino

fundamental incompleto e ensino fundamental completo. Esses dados vão

ao encontro dos dados do estudo de Angelotti,9 em que 65% da amostra

tinham o ensino fundamental incompleto. Esses dados diferem dos dados

encontrados nas pesquisas norte-americanas em que o grau de escolaridade

das amostras aparece, em sua maioria, com um nível de escolaridade mais

alto, por exemplo: no estudo de McCain, 89% dos sujeitos têm nível

superior, como também no estudo de Okifuji et al.,31 81% dos sujeitos têm nível superior. Essa diferença talvez seja em função de, no Brasil, as classes

menos privilegiadas fazerem uso dos serviços das clínicas públicas.

 

Histórico de atendimento psicológico

 

Em relação ao histórico de tratamento psicológico, o grupo com

fibromialgia, comparado aos grupos com artrite reumatoide e controle,

apresenta um número maior de sujeitos nas categorias tratamento

psicológico atual e anterior. Esses dados podem estar relacionados com os

dados encontrados por Kirmayer et al.,32 em que os pacientes

fibromiálgicos, em comparação com outros pacientes reumatológicos,

relatam níveis mais altos de dor e prejuízo social. Alguns dados na literatura

apoiam a ideia de que pacientes com fibromialgia tendem a avaliar

negativamente seu quadro, com uma tendência à catastrofização e pouca

habilidade para lidar com a doença, acarretando um prejuízo maior.1,10,33

Talvez esse prejuízo maior favoreça a procura de atendimento psicológico.

Contudo, os dados dessa amostra podem estar comprometidos em relação a

essa categoria, uma vez que as médicas do ambulatório de fibromialgia do

HUPE se mostraram inclinadas a encaminhar as pacientes para tratamento

psicológico. São necessários mais estudos que investiguem a relação entre

fibromialgia e histórico de atendimento psicológico.

 

Tempo de diagnóstico

 

Um resultado interessante encontrado foi em relação à diferença de

tempo de início dos sintomas e tempo de diagnóstico entre o grupo com

fibromialgia e o grupo com artrite reumatoide. Os dois grupos não

apresentaram diferenças quanto ao tempo de início dos sintomas, com uma

média em torno de 9 anos. Já em relação ao tempo de diagnóstico, as

médias apresentaram uma diferença significativa, tendo o grupo com artrite

reumatoide uma média em torno de 2 anos, e o grupo com fibromialgia uma

média em torno de 7 anos. Isso indica que o grupo com fibromialgia espera,

em média, 7 anos para receber um diagnóstico, enquanto o grupo com

artrite reumatoide espera em torno de 2 anos. De acordo com D’Ávila et

al.,1 na fibromialgia, o quadro de dor crônica conjuga-se com um histórico

de peregrinações médicas, em que as pacientes, muitas vezes, sofrem com uma demora para receber uma explicação do seu quadro de dor. Talvez isso

tenha relação com o modo como é realizado o diagnóstico de fibromialgia,

que muitas vezes ocorre por exclusão.

 

Depressão

 

Os resultados encontrados em relação à depressão indicam que o grupo

com fibromialgia aparece mais associado à depressão do que o grupo-

controle, com uma chance oito vezes maior de ter depressão (OR = 8,682;

IC = 2,7;27,5). Esse dado corrobora os encontrados na literatura, que

indicam uma prevalência maior de depressão em pacientes com

fibromialgia. O estudo de Okifuji et al.31 encontrou uma prevalência alta de

depressão em pacientes com fibromialgia, apontando uma variação de 14 a

71%, enquanto na população geral a prevalência estimada é de 2,7 a 4,6%.

Comparando o grupo com artrite reumatoide nos subgrupos de fibromialgia

e controle, não foram encontradas diferenças significativas; embora o grupo

com artrite reumatoide apresente mais depressão que o controle, essa

diferença não é significativa. A literatura aponta que a associação entre dor

e depressão pode decorrer do prejuízo causado por um quadro de dor

crônica.7,9,10,31,32 Dessa maneira, uma prevalência maior de depressão no

grupo com artrite reumatoide em comparação ao grupo-controle pode ser

resultado dos prejuízos ocasionados pelo quadro de dor crônica. Entretanto,

os resultados encontrados são pouco conclusivos e limitados, por conta do

tamanho pequeno da amostra.

 

Ansiedade

 

Os resultados desse estudo em relação à ansiedade indicam que a

presença de ansiedade está associada à fibromialgia, e não à artrite

reumatoide, uma vez que foram encontradas diferenças significativas na

comparação dessa variável nos dois grupos. Os pacientes com fibromialgia

apresentaram cerca de 5 vezes mais chances de vir a desenvolver ansiedade

que o grupo com artrite reumatoide (OR = 5; IC = 1,8;18). Na literatura,

diversos estudos apontam uma prevalência maior de ansiedade em pacientes

com fibromialgia, comparado a outras doenças de dor crônica.9,34-38

Essa característica ansiosa presente nos pacientes com fibromialgia

pode estar associada à gravidade do quadro, uma vez que a reação ansiosa

causa aumento da tensão muscular, podendo aumentar a sensação

dolorosa.10,39 Além disso, no caso da ansiedade, ocorre a ativação de um

esquema cognitivo de vulnerabilidade quanto à saúde do indivíduo, levando

os sintomas a serem interpretados como mais perigosos e alarmantes.

Pessoas ansiosas tendem a fazer avaliações exageradas e catastróficas das

sensações corporais, percebendo estímulos vagos e inócuos como sinais de

doença. Um estado de ansiedade também aumenta a autoconsciência,

amplificando sintomas preexistentes.40

 

Prejuí zo funcional

 

Alguns estudos indicam que pacientes com fibromialgia, em

comparação com pacientes com artrite reumatoide, tendem a fazer uma

avaliação exagerada de seu prejuízo funcional, avaliando um prejuízo maior

do que o prejuízo físico realmente presente.8,36 Os resultados dessa pesquisa

em relação ao prejuízo funcional, medido pelo Questionário da Avaliação

da Saúde, indicaram níveis altos e equivalentes de prejuízo funcional nos

grupos de artrite reumatoide e fibromialgia.

Durante a aplicação desse questionário, chamou a atenção o fato de as

pacientes com fibromialgia relatarem uma dificuldade maior do que a

apresentada em alguns dos itens investigados. Por exemplo, algumas

questões do questionário – como levantar de uma cadeira, subir 5 degraus e

andar em lugares planos – eram situações que ocorriam durante a aplicação.

As pacientes estavam sentadas em uma cadeira sem apoio para os braços,

tinham de subir 5 degraus para entrar na sala e tinham de caminhar por um

local plano. Começou-se a perceber que algumas pacientes marcavam o

item “muita dificuldade” nessas situações e, em seguida, na entrevista,

desempenhavam bem, não apresentando comportamento de dor nem

expressando dificuldade para levantar da cadeira ou subir os degraus. Isso

não foi observado no grupo com artrite reumatoide, que realmente

apresentava dificuldade nessas situações, chegando a precisar de ajuda para

levantar, sentar e subir degraus. Apesar de esses dados coincidirem com os

dados da literatura, eles devem ser considerados como resultados de

observação subjetiva. Uma das limitações desse estudo foi não ter usado nenhuma medida que avaliasse o prejuízo físico independente da avaliação

das pacientes, como utilizado na pesquisa de Turk et al.,7 em que o prejuízo

físico foi avaliado pela mobilidade cervical.

 

Resultados relacionados com as habilidades sociais

 

O resultado encontrado pela análise dos dados referentes à média do

escore total bruto no IHS indicou que, em comparação ao grupo-controle,

tanto o grupo com fibromialgia quanto o grupo com artrite reumatoide têm

médias significativamente mais baixas, referentes a um maior grau de

dificuldade. Comparando o grupo com artrite reumatoide e o grupo com

fibromialgia, não foram encontradas diferenças significativas, indicando

que a dificuldade não é específica da fibromialgia, mas sim relacionada

com dor crônica. Na avaliação por fator, apenas foram encontradas

diferenças significativas entre o grupo-controle e o grupo com artrite

reumatoide em relação aos fatores de autoafirmação com risco;

autoafirmação na expressão de sentimento positivo e autoexposição a

desconhecidos e situações novas.

Os resultados do Inventário de Graduação de Dificuldades em Situações

Sociais indicaram que o grupo com fibromialgia apresenta um grau de

dificuldade significativamente maior que os dois outros grupos nas

habilidades “dizer não” e “pedir mudanças de comportamentos”. Para

Falcone,19 a habilidade de dizer não é uma habilidade relacionada com

assertividade e empatia, e a habilidade de pedir mudanças de

comportamentos é uma habilidade relacionada com solução de problemas.

Para Del Prette et al.,21 dizer não e pedir mudanças de comportamentos são

habilidades assertivas. Para esses autores, os comportamentos assertivos

constituem uma classe de habilidades sociais em situações que envolvem

risco de consequências aversivas e costumam eliciar alta ansiedade,

podendo ser caracterizado como uma classe de comportamento de

enfrentamento. Para Wolpe,16 um comportamento assertivo envolve manejo

da ansiedade, uma vez que esse autor define a assertividade como a

expressão adequada de qualquer emoção, que não ansiedade, em relação a

outra pessoa. Esses dados são interessantes na medida em que a

fibromialgia está associada à ansiedade e apresenta dificuldades em duas habilidades sociais relacionadas com habilidade assertiva e que envolvem o

manejo de ansiedade.

 

Considerações finais

 

O presente capítulo teve como objetivo contribuir para o entendimento

de aspectos psicológicos relacionados com a dor crônica, mais

especificamente na fibromialgia. Procurou investigar o repertório de

habilidades sociais de pacientes fibromiálgicas, identificando dificuldades

específicas.

A dificuldade encontrada em habilidades sociais, nos dois grupos com

dor crônica, indica a existência de uma associação com um quadro de dor

crônica, não especificamente com a fibromialgia. Essa dificuldade

encontrada nos dois grupos em comparação com o grupo-controle pode

ocorrer como consequência dos prejuízos que uma doença com dor crônica

apresenta, por exemplo, a diminuição do convívio social pelo problema da

dor, a dificuldade de adaptação à vida com dor crônica ou conflitos

familiares causados pela doença. De acordo com Winterowd et al.,12 os

pacientes com dor crônica precisam aprender a se comunicar diretamente

com muitas pessoas (cônjuges, filhos, médicos) sobre a sua dor, emoções,

sentimentos, vontades e necessidades.

Especificamente em relação à fibromialgia, foi encontrada uma

dificuldade maior nas habilidades sociais de dizer não e pedir mudança de

comportamento, consideradas habilidades assertivas de enfrentamento que

envolvem o manejo de ansiedade. Foi visto ao longo do trabalho que os

ganhos secundários funcionam como um fator de manutenção da doença,

em que estar doente pode funcionar para evitar algumas responsabilidades e

atividades que envolvem situações de enfrentamento. Desse modo, incluir o

treino assertivo no tratamento da fibromialgia parece ser importante. O que

não foi possível concluir é se essas dificuldades assertivas influenciam o

quadro clínico ou são decorrentes do caso clínico. Uma questão interessante

que surge a partir desse resultado é a relação entre ansiedade e

assertividade: será que as fibromiálgicas, sendo mais assertivas, ficariam

menos ansiosas e sentiriam menos dor?

O resultado encontrado não possibilita concluir que a dificuldade

assertiva em habilidades que envolvem manejo de ansiedade explique o

nível mais elevado de ansiedade na fibromialgia, uma vez que, ao longo do

trabalho, foram identificadas outras variáveis envolvidas com ansiedade,

como: supervalorização de sensações corporais, catastrofização dos

sintomas de dor, redução da qualidade de vida em relação à dor, baixa

capacidade de solucionar problemas, baixo nível de autoeficácia diante dos

problemas da vida e nível elevado de dependência.

Alguns autores têm discutido a associação da fibromialgia com

somatização, incluindo a fibromialgia entre as síndromes funcionais.2,33

Nessa pesquisa, a observação subjetiva quanto à diferença entre a dor e

prejuízo percebidos pelas pacientes com fibromialgia e o comportamento

real apresentado vai ao encontro da ideia de uma adesão ao papel de doente.

Para Batista et al.,2 transformar essa identidade perante a família e grupo

social é fundamental.

Os resultados encontrados nessa pesquisa indicam que um programa de

tratamento psicológico para fibromialgia poderia incluir informações sobre

a doença e os mecanismos da dor crônica; estratégias de manejo de

ansiedade e depressão; transformação da identidade de doente e treino

assertivo.

Rangé41 chama atenção para a necessidade de que as abordagens mais

atuais de psicoterapia devam buscar tipos de tratamento baseados nos

métodos e descobertas científicas. Deve-se salientar a importância de

estudos futuros que, além de expandir e refinar os tratamentos existentes,

busquem explorar que aspectos específicos do tratamento são preditores de

sucesso terapêutico. Dessa maneira, investigar as habilidades sociais de

pacientes com fibromialgia ajuda a identificar elementos importantes para o

seu tratamento.

 

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