A Psicologia da Dor
Parte 4 - Intervenções Psicoterapêuticas na Dor
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Martha Moreira Cavalcante Castro
O controle da dor tem sido um dos maiores desafios ao longo da história
da humanidade. A interpretação do fenômeno doloroso varia de uma cultura
para outra, e a intensidade e o caráter da dor sentida são mais que uma
sensação; são influenciados por fatores emocionais, cognitivos e
psicossociais.1,2
Os componentes emocionais e comportamentais envolvidos na
experiência dolorosa crônica são muito significativos. Cada indivíduo lida
com seu sofrimento conforme a idade, sexo, maturidade emocional,
contexto cultural e experiências anteriores. Todo ser humano emite reações
quando se depara com a dor.3,4
Neste sentido, quando a dor se cronifica, deixa de ser apenas um
sintoma e passa a ser definida como doença, levando o portador de dor
crônica, afastado do seu cotidiano, a se relacionar consigo próprio e com o
mundo a partir de seu sofrimento.
Deste modo, nos quadros dolorosos, é frequente ocorrer aumento das
reações ansiosas acompanhados de sentimentos de medo e insegurança
diante do desconhecimento diagnóstico. Por outro lado, quando a causa do
fenômeno doloroso não é superada, tornando-se um processo crônico,
sentimentos como desesperança, impotência e desespero podem ceder lugar
a outros sintomas depressivos ou a própria depressão maior.5,6
Observa-se que o paciente com dor aguda demonstra facilmente
sofrimento e busca alívio imediato para seu mal, enquanto aquele que sofre
de dor crônica adapta-se a ela sem perceber, pois a dor passa a fazer parte
do seu cotidiano e de sua família. Por meio da acomodação à dor, o
indivíduo consegue lidar no meio social sem aparentar a intensidade
dolorosa, o que resulta, muitas vezes, no questionamento da autenticidade
do sofrimento.7
Apesar da depressão e da ansiedade serem os transtornos mais
diagnosticados nos pacientes com dor crônica, existe uma correlação entre
emoções negativas (principalmente aquelas relacionadas com somatização,
catastrofização, fatores interpessoais e sociais) e o aumento do nível de dor
que afeta a vida diária.8 Dentre as interferências da dor na vida diária dos
indivíduos, encontram-se especialmente aquelas relacionadas com as
alterações na qualidade de vida (QV). A Organização Mundial da Saúde
(OMS) definiu QV como “[...] percepção do indivíduo de sua posição na
vida, no contexto da cultura e do sistema de valores em que vive e em
relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”. A partir
desta definição, ficou estabelecido que a QV contempla seis domínios:
saúde física, estado psicológico, níveis de independência, relacionamento
social, características ambientais e padrão espiritual.9
A família inserida no adoecimento crônico também é alvo das
dificuldades do sofredor crônico e, como frequentemente exerce a função
de cuidador, sintoniza-se com o paciente e, muitas vezes, adoece com ele.
Também há a necessidade de comunicação aberta e assertiva entre os
membros da família, o paciente e a equipe de profissionais de saúde, para a
obtenção de resultado satisfatório no tratamento.10,11 O tratamento para o
controle da dor crônica pode ser desenvolvido a partir de inúmeras
intervenções: farmacológicas; bloqueios anestésicos; fisioterapia;
acupuntura; analgesia por hiperestimulação;12 biofeedback;13 hipnose,
relaxamento e psicoterapias que podem ser individuais ou em grupo.14
A terapia cognitiva é uma abordagem ativa (terapeuta e paciente agem
cooperativamente); diretiva (dirigida aos problemas apresentados aqui e
agora, embora utilize história de vida para melhor compreensão das
crenças); psicoeducativa (o terapeuta ensina ao paciente o modelo
cognitivo, a natureza do problema, o processo terapêutico e a prevenção de
recaídas); estruturada (constrói uma sequência de sessões pré-
estabelecidas); breve (geralmente entre 16 e 20 sessões); utiliza tarefas de
casa como atividades integradas ao processo terapêutico, assim como
técnicas cognitivas e comportamentais para a modificação das crenças
disfuncionais.15-17
O atendimento a pacientes em grupo terapêutico na abordagem
cognitivo-comportamental envolve uma preparação cuidadosa que inclui
treinamento do terapeuta e do coterapeuta, realização de grupo piloto para a
adequação do modelo a ser seguido e seleção dos pacientes que farão parte
do trabalho. Apesar de, inicialmente, a terapia cognitivo-comportamental
(TCC) ter sido desenvolvida como terapia individual da depressão, ela se
adéqua bem ao formato grupal.18
Em geral, o terapeuta principal conduz o grupo e um coterapeuta
oferece suporte e fica atento às interações grupais. Os grupos costumam ter
formato fechado e as sessões podem durar de 1 h 30 min a 2 h. A estrutura
da sessão envolve a ponte com a sessão anterior, a agenda, os resumos após
a explicação dos conceitos e as tarefas, habitualmente reservadas aos 10
min finais das sessões.19-21
A terapia em grupo para pacientes com dor crônica apresenta muitas
vantagens: contato com pessoas que têm problemas similares; aprendizado
decorrente desse contato; o trabalho ajuda o paciente a compreender o papel
que a dor exerce sobre seu comportamento e pensamento; e, no contato com
o outro, o paciente aprende a lidar com seus próprios recursos de
enfrentamento.22 A terapia em grupo pode reduzir a dor e possibilitar que os
pacientes tenham funcionamento satisfatório na vida diária, mesmo com a permanência do quadro álgico. As vantagens da TCC em grupo incluem as
interações entre os indivíduos e a função encorajadora, propiciando a
revelação de sentimentos e pensamentos a outras pessoas que compartilham
circunstâncias de vida semelhantes.23
Há 17 anos foi criado o primeiro centro de dor da Bahia no Complexo
Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos (Complexo
HUPES)/Universidade Federal da Bahia (UFBA) denominado Programa
Interdisciplinar Docente, Assistencial de Pesquisa e Extensão em Dor. A
partir daí, ao longo de todos esses anos, foram desenvolvidos protocolos e
intervenções terapêuticas para atender a uma demanda sempre crescente.
Após avaliações individuais com anamneses, questionários, escalas e
entrevistas diagnósticas, os pacientes são encaminhados para especialistas
ou atendimento psicoterapêutico individual ou em grupo.
Para compreender e validar as práticas do trabalho do psicólogo neste
centro, foi realizado um desenho de estudo do tipo ensaio clínico
randomizado e controlado. O objetivo foi comparar se os pacientes
submetidos à TCC em grupo apresentavam mudanças no escore de dor
quando comparados com pacientes submetidos a tratamentos não
psicoterápicos disponíveis para pacientes com dor crônica, assim como
verificar se havia alteração dos sintomas ansiosos e depressivos nos
pacientes submetidos aos grupos de tratamento e se os escores da escala de
qualidade de vida se modificariam após os tratamentos. Posteriormente,
foram analisados os grupos terapêuticos com base na análise de conteúdo
das falas dos sujeitos.
Para o ensaio clínico, partiu-se de um banco de 400 pacientes, mas, após
exclusão da presença de qualquer doença mental de acordo com o Mini
International Neuropsychiatric Interview (M.I.N.I.), versão Plus, entrevista
clínica estruturada para a escala breve de avaliação psiquiátrica compatível
com os critérios do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders,
Fourth Edition (DSM-IV) e Classificação Internacional de Doenças (CID-
10), para obtenção de diagnósticos de transtornos psiquiátricos no momento
da aplicação, assim como no passado, restaram 146 pacientes. Destes, 51
não preenchiam o critério de inclusão para a terapia; escolaridade de pelo
menos 5 anos de estudo; disponibilidade para frequentar o grupo
terapêutico durante as 11 semanas, pois um dos critérios para a retirada do estudo era a ausência a duas sessões de grupo consecutivas ou a quatro
sessões alternadas. Os 95 pacientes selecionados para o estudo foram
avaliados e randomicamente alocados em dois grupos: 48 pessoas no grupo
de acompanhamento psicoterápico na modalidade cognitivo-
comportamental e 47 pacientes no grupo de tratamentos não psicoterápicos
(chamado de grupo-controle), do qual 2 retiraram o termo de consentimento
livre e esclarecido (TCLE), sendo, assim, o trabalho concluído com 45
pessoas.
A duração das intervenções foi de 10 semanas, pois a primeira foi
destinada à apresentação da proposta terapêutica e avaliação dos pacientes.
Os 93 pacientes foram avaliados quanto à intensidade da dor, presença
ou não de sintomas ansiosos e depressivos e avaliação da qualidade de vida
antes e após 10 semanas da intervenção.
Foram utilizados os seguintes instrumentos:
• Questionário com itens para caracterização dos sujeitos: idade, gênero, estado civil, escolaridade,
religião, profissão, ocupação atual (ativos, afastados ou aposentados); e questões referentes à dor:
diagnóstico médico, duração, frequência, tempo de tratamento neste ambulatório e resposta ao
tratamento instituído
• Escala visual analógica (EVA), utilizando como pontos: 0 a 1 = sem dor; 2 a 3 = dor leve; 4 a 5 =
dor moderada; 6 a 7 = dor intensa ou grave; e 8 a 10 = dor insuportável3,24
• Escala hospitalar de ansiedade e depressão (HAD), que tem 14 itens, sendo 7 para ansiedade e 7
para depressão, tendo como ponto de corte 8 para ansiedade e 9 para depressão25
• Escala de Qualidade de Vida SF-36 (Medical Outcomes Study 36-item Short-form Health Survey),
instrumento genérico composto de 36 itens que avalia as seguintes dimensões: capacidade
funcional (capacidade de cuidar de si mesmo e de desempenhar atividades de vida diária);
aspectos físicos (impacto da saúde física para desempenhar suas atividades); dor (nível de dor
para o desempenho de suas atividades diárias); estado geral de saúde (como o indivíduo percebe
sua saúde); vitalidade (percepção de sua saúde); aspectos sociais (impacto das condições físicas
sobre sua vida social); aspectos emocionais (o emocional interferindo em suas atividades diárias);
e saúde mental (interferência do estado de humor sobre sua vida).26
Para a confecção do protocolo de acompanhamento psicoterápico em
grupo para pacientes com dor crônica, foram consultados os seguintes
manuais: Cognitive Therapy with Chronic Pain Patients;27 Terapia
cognitivo-comportamental em grupo para populações específicas28 e o
Psychological approaches to pain management: a practitioner’s
handbook.29 Isto se deu com o propósito de padronizar os critérios
referentes ao número de sessões, número de pacientes e as principais técnicas utilizadas pela TCC para os portadores de dor crônica. A lista de
randomização foi preparada por pessoa independente, sem ligação com o
tratamento ou avaliação para a alocação aleatória do paciente em um dos
dois braços do tratamento. A cada paciente, foi designado número
crescente, segundo a entrada temporal no estudo. A randomização foi
realizada com o auxílio do programa estatístico Statistical Package for the
Social Sciences (SPSS), criando dois grupos, um de TCC e o outro,
considerado grupo-controle, de pacientes submetidos às abordagens não
psicológicas que objetivavam o controle da dor, denominado tratamento
usual, como fisioterapia, acupuntura e pilates. A eficácia primária foi
avaliada pelo escore da escala EVA que mede a intensidade de dor. Como
parâmetro secundário de eficácia, foram usadas as escalas HAD e SF-36.
Para a construção do banco de dados e cálculos estatísticos, foi utilizado
o programa SPSS 16.0. O estudo seguiu a orientação da declaração de
Helsinki de 1989, assim como a resolução 196/1996 sobre pesquisas
envolvendo seres humanos do Conselho Nacional de Saúde. O projeto foi
aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Maternidade Climério de
Oliveira/UFBA, parecer/resolução no 90/2007. A participação no estudo foi
voluntária, iniciando-se somente após a assinatura do TCLE pelo paciente.
A análise dos resultados mostra que houve significativamente mais
mulheres no grupo tratado com a TCC e mais pacientes sem ocupação
foram alocados para o grupo controle. As demais variáveis (idade, estado
civil e tempo com dor) mostraram-se semelhantes em ambos os grupos.
Quanto aos resultados após a intervenção, não houve redução
significante do nível de dor nem dos sintomas ansiosos. Por outro lado, no
grupo tratado com TCC, houve importante redução dos escores da HAD
para os sintomas depressivos em relação ao grupo-controle (p = 0,03). Com
referência à qualidade de vida, as dimensões do estado geral da saúde,
limitações físicas e limitações emocionais revelaram melhores resultados
nos pacientes submetidos à TCC do que nos pacientes do grupo-controle.
Os resultados revelam melhora da dor (EVA), dos sintomas ansiosos (HAD)
e de todos os domínios da SF-36, exceto saúde mental, que demonstrou
apenas tendência (p = 0,06).
Após a análise dos resultados apresentados, observa-se que os dados
sociodemográficos observados na amostra foram compatíveis com aqueles
encontrados na literatura quanto a faixa etária e estado civil.30 Entretanto,
houve muito mais pessoas do gênero feminino alocadas para o grupo de
tratamento com TCC do que para o grupo-controle. Embora não haja
explicação segura para este desequilíbrio, é possível atribuí-lo a uma
amostra relativamente pequena. Entretanto, os parâmetros basais referentes
a dor, sintomas ansiosos e depressivos, bem como qualidade de vida,
mostraram-se semelhantes em ambos os grupos.
A literatura aponta que pessoas portadoras de doenças crônicas, que
necessitam de tratamento contínuo e por período prolongado, apresentam
importantes alterações do humor e da qualidade de vida. Há o relato de que
quanto maior a intensidade da dor, menor a percepção de controle do
indivíduo acerca de sua vida. Isto está relacionado principalmente com
prejuízos sociais, alterações das atividades da vida diária, do sono e do
apetite, entre outras.31,32
Neste estudo, os pacientes do grupo de TCC, semelhantemente aos do
grupocontrole antes da intervenção, apresentavam dor intensa, sintomas
ansiosos e depressivos e escores de qualidade de vida à SF-36 abaixo de
50% em todos os itens da escala. Os itens mais críticos foram os relativos às
limitações físicas e emocionais. O adoecimento crônico, a necessidade de
tratamento contínuo e a presença de comorbidades são fatores relevantes na
determinação da qualidade de vida da população. Neste estudo, todos os
domínios da SF-36 aumentaram nos pacientes do grupo de TCC, em
comparação com os do grupo-controle (p < 0,05). No entanto, os resultados
obtidos ainda se mostram abaixo da média esperada, confirmando alguns
trabalhos que utilizaram esta escala e demonstraram que pacientes com dor
crônica apresentam baixa qualidade de vida.33
Tanto a TCC quanto as terapias de controle mostraram melhora da dor
(EVA), dos sintomas ansiosos (HAD) e de alguns domínios da escala SF-
36, contudo, o grupo controle apresentou melhora em um número menor de
domínios da escala em relação ao grupo da TCC. Neste estudo, o grupo
controle apresentou diminuição do nível de dor demonstrado pela EVA, no
nível de ansiedade de acordo com a HAD e discreto aumento dos escores da
SF-36 na comparação entre os valores basais e os desfechos. Isto ilustra o
quanto intervenções terapêuticas em pacientes que sofrem de dores crônicas
favorecem a melhora dos sintomas. Já no grupo dos pacientes submetidos à TCC, os resultados apontam para certa diminuição do nível de dor de
intensa para moderada, diminuição dos sintomas ansiosos pela HAD
(provavelmente como resultado das técnicas de relaxamento e autocontrole
enfatizadas na maior parte das sessões do grupo terapêutico) e aumento dos
itens da SF-36, sendo estes resultados estatisticamente significantes e
semelhantes aos da literatura.34 Quanto ao escore de depressão pela HAD,
não houve alteração a partir da intervenção feita, o que corrobora a
premissa de que sintomas depressivos são a principal comorbidade em
pacientes com dor crônica. Isto pode ainda ter sido decorrente do fato de a
terapia buscar ensinar aos pacientes técnicas cognitivas e comportamentais
para que pudessem lidar melhor com a cronicidade da dor, e esta escala só
discrimina a partir de um ponto de corte se o paciente está ou não
deprimido, não valorizando a intensidade dos sintomas.
O fato de não ter sido observado aumento dos escores da SF-36 em
todos os itens demonstra que esses pacientes podem, a partir da intervenção
realizada, estar aprendendo a lidar de maneira mais adaptativa com a
dinâmica do seu cotidiano, havendo, por isso, melhora do estado geral da
saúde. A elevação dos itens referentes à limitação física e emocional pode
ter se dado a partir do aprendizado de técnicas como comportamento
assertivo, relaxamento, treino em resolução de problemas e de autocontrole.
As principais conclusões deste estudo, após 10 semanas de tratamento,
são de que a TCC em grupo mostrou-se eficaz no tratamento da dor de
pacientes com dor crônica; houve significante melhora dos sintomas
ansiosos dos pacientes tratados com TCC; houve melhora significativa de
todos os domínios da escala SF-36 no grupo de TCC em comparação com o
grupo-controle; observou-se redução significantemente maior dos sintomas
ansiosos no grupo tratado com TCC do que nos controles. A partir destas
conclusões, serão analisados os conteúdos obtidos a partir dos grupos
terapêuticos, baseado na TCC, a fim de conhecer de maneira mais
aprofundada o universo deste sofredor crônico.
Quando se analisa um estudo com abordagem qualitativa, o principal
objetivo é compreender a subjetividade destes indivíduos que padecem de
dor, buscando conhecer como é sua relação com o adoecimento, a dinâmica
do trabalho e sua família.
Foram analisados os conteúdos obtidos a partir dos grupos terapêuticos
de cinco pacientes. Os grupos tiveram frequência semanal de 2 h, com 11
sessões estruturadas, e obedecia à seguinte ordem das sessões: acolhimento
e informação sobre o grupo terapêutico; psicoeducação acerca da dor e da
TCC; treino do registro de pensamentos disfuncionais (RPD) e treino de
técnicas de relaxamento; treino na técnica de resolução de problemas; treino
na técnica da assertividade; relação dor × trabalho; quem sou eu, como
percebo a minha dor; eu, minha família e a dor; e o futuro e a prevenção de
recaídas. Todos os encontros foram filmados em DVD, captando todas as
respostas e imagens. Posteriormente, as imagens e os sons foram
observados e transcritos para codificação e análise dos dados.
Na organização dos dados, foi usada a técnica de análise categorial
segundo Bardin,35 para compreender a percepção dessas mulheres sobre sua
dor, o tratamento realizado, as perdas e dificuldades encontradas no
processo de adoecimento, a fim de oferecer estratégias de enfrentamento
para seguir para além da dor. Pela leitura do material, as falas foram
agrupadas em categorias dando sequência às seguintes questões: “A dor
impõe limitações físicas e emocionais e interfere nas relações sociais e
familiares do sujeito?” e “O que entendo da dor e como posso ressignificá-
la a partir do grupo terapêutico?”, que serão expostas nos resultados deste
trabalho.
As cinco mulheres tinham idades entre 37 e 61 anos e referiam queixa
de dor há mais de 10 anos. Destas, duas tinham nível de escolaridade
superior e três possuíam o ensino médio completo. Quanto à ocupação
profissional, três estavam afastadas pela dor pelo Instituto Nacional do
Seguro Social (INSS); uma estava aposentada e uma estava desempregada.
Três tinham companheiro e filhos; uma era viúva e tinha filhos e uma era
separada com filho. Desta maneira, começou-se perguntando a estas
mulheres se a dor havia interferido nas suas relações com o mundo do
trabalho, com suas relações interpessoais e com a família. Todas
responderam que sim, como se pode identificar em seus depoimentos:
“[...] nós estamos aqui buscando qualidade de vida, e se sentir incapaz é horrível, eu que trabalhei desde cedo e hoje não posso fazer muita coisa, mas eu procuro fazer algumas coisas para não me sentir incapaz. A incapacidade incomoda. A gente tem que ir à luta, mesmo não tendo mais aquele pique, mas mesmo assim levando a vida.” (sic) (L.)
A identidade laboral do indivíduo adulto é construída a partir da sua
relação com o trabalho, o local físico, as relações interpessoais com os
colegas, sua funcionalidade e produtividade. Desta maneira, ao ser afastado
das suas atividades laborais, o indivíduo se vê desconectado do mundo,
sendo comum a partir daí, o aparecimento de sintomas ansiosos e
depressivos, isolamento social e medo do futuro.36
“[...] eu estou em processo de adaptação no trabalho; por um lado eu gostei de voltar porque a gente se distrai, vê gente nova, mas por outro lado eu estou sentindo na pele o esforço de estar indo, pegando transporte todos os dias, de estar trabalhando sentada. Eu chego em casa acabada, com a cabeça estourando. Essa semana, as meninas estão tendo cuidado de poupar do serviço, mas não tem como, eu não vou ficar lá parada olhando as pessoas trabalharem, eu até estou tirando elas da atividade porque elas vão pegar coisas para mim. Estou nesse processo de adaptação, só que eu já estou sentindo muitas dores. Eu creio que estou sendo observada e lá tem câmera em todos os lugares e eu fico constrangida em não me esforçar muito, não pegar e ficar parecendo que eu sou inútil no setor; eu fico querendo fazer, mas ao mesmo tempo não dá para fazer tudo. A semana toda foi dor o tempo todo.” (sic) (M. J.)
Além de modificar as relações com o trabalho, o que se observa é que
há uma modificação nas relações familiares a partir deste adoecimento.
É importante compreender o significado que os pacientes dão à
experiência de dor como fator de adaptação. Para isso, é relevante ressaltar
o papel das crenças para o paciente com dor crônica, assim como sua
influência na percepção final da dor e nas estratégias de enfrentamento
usadas por ele. As crenças podem envolver conceitos próprios sobre o que é
dor, seu significado e a compreensão pessoal da experiência dolorosa.37
“[...] quando você começa a sentir dor, tudo muda. Porque por mais que você tente esquecer ela, tem horas que você não consegue. Tem dias que se eu pudesse não queria que ninguém pegasse em mim, então eu acho que a dor alterou o meu relacionamento. Tem lugares que se você não estiver se sentindo muito bem é melhor não ir, porque você acaba se irritando mais, não se diverte e acaba se cansando.” (sic) (M. R.)
A experiência do adoecimento é muito difícil não só para o paciente,
mas também para seus familiares, amigos, cuidadores e equipe de saúde
envolvida em seu tratamento. O sistema familiar funciona de acordo com
regras e padrões próprios, e o adoecimento de um membro “desestabiliza”
esse sistema, que precisará ser reorganizado para atender as demandas
advindas da doença e do tratamento. As adaptações feitas pelos membros da
família, mudanças de papéis, flexibilidade e cuidado integral
proporcionarão alívio do sofrimento.38
“[...] você não é mais como era antes, nenhum relacionamento é mais como era antes, nem com filho, nem com marido, nem com familiares.” (sic) (I.)
“[...] eu fiz propostas para meus filhos na divisão de tarefas, mas não deu certo. Conversei, expliquei. Pedir ajuda, a gente pede, mas não dá certo, eles não ajudam, a dor interferiu eu me tornei uma pessoa agressiva. Muitas vezes por ter coisas para fazer ou as pessoas não entenderem que a gente está sentindo dor e não pode esconder, afetou minha vida com meus filhos e a vida social. Com relação a trabalho em casa, a gente precisa de ajuda, então eu passei a cobrar e exigir, porque
quando eu não tinha ajuda eu me aborrecia muito. Passei a não sair, não deixei de conviver com a família, mas eu evitava ir às festas, reuniões. Com relação ao sexo, foi um problema, porque meu marido não entendia e a cobrança é normal. E a gente não se sente a mesma de antigamente e, no meu caso, os problemas do dia a dia acabaram em separação, não foi somente a dor, mas contribuiu.” (sic) (M. J.)
Do mesmo modo, quando o paciente acredita que pode ter controle
sobre sua vida, percebe menos a intensidade da dor, mostra maiores níveis
de atividade, utiliza estratégias de enfrentamento mais adaptativas e isto
reflete maior nível de adaptação. Ao contrário, o paciente que se vê
indefeso ante a impossibilidade de controlar a dor crônica apresenta
aumento da frequência e da intensidade dos episódios dolorosos.39
Ao analisar os conteúdos referentes às perdas sociais após o quadro de
dor, verificouse que, com o afastamento dos colegas de trabalho, o uso de
medicações e as dificuldades com a família, elas se afastaram das atividades
de lazer.
“[...] eu achava que não conseguia sair, porque tinha que sair de ônibus e depois as dores aumentam. Eu pensava que se ficasse em casa eu ia melhorar, só que eu não melhorava. Porque quando ficava em casa, ficava deitada, se eu passasse um pano na casa me sentia mal.” (sic) (S.)
“[...] Quando a gente tá com dor, tudo cansa, eu mesmo não suporto ir à praia porque o sol me irrita.” (sic) (M. J.)
Ao se analisar os conteúdos para compreender a questão “O que
entendo da dor e como posso ressignificá-la a partir do grupo
terapêutico?”, foram destacados os seguintes depoimentos:
“Eu pareço que não vivo, sou uma pessoa que não tenho vida.” (sic) (M. J.)
“Dor é uma coisa que incomoda bastante, tira o sono, a fome, a vontade de fazer qualquer tipo de atividade.” (sic) (S.)
É muito importante saber o que a paciente sabe a respeito do seu quadro
álgico, quais as crenças acerca da dor para conseguir adesão acerca do
tratamento. No perfil destas pacientes, o que se observa é que, como têm
muito tempo de dor, já se submeteram a inúmeros tratamentos
anteriormente com poucos benefícios adquiridos, apresentam uma visão
pessimista da vida diante da dor, assim como uma atitude de passividade e
submissão diante dela.
“[...] eu venho tentando agir dessa maneira, de não deixar me jogar, se eu sei que a dor é crônica, eu tenho que aprender a conviver com ela, respeitar o meu organismo, meu corpo. Se eu puder, eu faço, se eu não puder, não faço. Se eu aguentar sair, eu saio, senão eu não saio. Tento desviar o pensamento do medo. Temos também que tentar evitar as coisas que aborrecem. Tentar resolver as preocupações fazendo um registro dos pensamentos.” (sic) (I.)
Apesar de ser singular para quem a sente, a dor traz a possibilidade de
ser compartilhada em seu significado, pois é uma realidade coletiva. Então,
esta concepção agrega significados psíquicos e culturais, pois toda
experiência individual se inscreve em um campo de significações
coletivamente elaboradas.40
Controlar a dor por meio de técnicas cognitivo-comportamentais se
baseia nos princípios de que a dor é, também, um comportamento aprendido
socialmente e reforçado pela interação do indivíduo com o meio ambiente.
Assim, o sujeito não é uma pessoa que recebe passivamente as informações;
ele pode aprender ou reaprender comportamentos mais adaptativos para
proporcionar melhor bem-estar e mais funcionalidade no seu cotidiano.
Desse modo, pensamentos, regras, atitudes e crenças podem interferir nos
processos psicológicos, influenciando no humor, nos comportamentos e nas
relações sociais, e vice-versa.41
“[...] eu estou me achando melhor do nervosismo, da dor de cabeça. Mas eu estou conseguindo controlar a dor e ficar calma, se não der eu não faço, fica lá, se minhas filhas puderem fazer elas fazem. Antes eu ficava nervosa, tremendo sem paciência. Agora não, fico calma, controlo a ansiedade conversando, vendo TV, distraindo.” (sic) (S.)
Do mesmo modo, quando o indivíduo acredita que pode ter controle
sobre sua vida, percebe menos a intensidade da dor, mostra maiores níveis
de atividade e utiliza estratégias de enfrentamento mais adaptativas, o que
reflete em um maior nível de adaptação. Aquele que se vê indefeso ante a
impossibilidade de controlar sua dor, ao contrário, apresenta aumento da
frequência e da intensidade dos episódios dolorosos.42 O paciente precisa
ressignificar sua função, reaprender novos afazeres e maneiras de lidar com
as dificuldades cotidianas impostas pela limitação da dor para que possa
restabelecer uma adequada qualidade de vida.
O trabalho com grupo terapêutico proporciona um contato estreito com
mulheres adoecidas cronicamente, com seus sofrimentos, suas histórias de
vida, medos, dificuldades, inseguranças, com a riqueza que a análise das
suas falas pode trazer para a compreensão dos dados quantitativos, que
dizem muito a respeito da frequência, mas não exprimem o verdadeiro
significado e desafio do cotidiano de quem padece de uma dor crônica.
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