A Psicologia da Dor
3 Dor | Visão Psicofisiológica
Sâmia Aguiar Brandão Simurro
A psicofisiologia é uma importante área de estudo que tenta relacionar a
subjetividade humana aos processos fisiológicos do corpo. No campo de
investigação científica, estuda as atividades cerebrais e sua relação com a
percepção, cognição e comportamento e os processos emocionais e de
aprendizagem. Do ponto de vista clínico, a psicofisiologia tem trazido
contribuições importantes para a compreensão e o tratamento do estresse,
de transtornos emocionais, em geral, e de doenças psicossomáticas.
A psicofisiologia tem demonstrado a interdependência entre emoção,
cognição e estados fisiológicos; revela que emoções fortes podem alterar
percepções, crenças, atitudes e expectativas e causar inflamações dos
tecidos. Com relação ao estudo da dor, sabe-se que ela é mais do que uma
informação sensorial sobre uma condição do corpo. Não se trata apenas da
sensação desagradável originada por um trauma ou inflamação nos tecidos. Qualquer profissional de saúde ao ouvir uma queixa de dor pode observar
os componentes afetivos envolvidos no discurso. Eles sabem o quanto as
emoções influenciam a dor.
Conceitos e fenômenos subjetivos, como a dor, sempre foram difíceis de
serem avaliados e tratados com precisão. No caso da dor crônica, os sujeitos
frequentemente entram em contato com os afetos, pela via somática, ou
seja, o componente emocional relaciona-se com as sensações dolorosas,
cinestésicas e corporais. Outra dificuldade é a comunicação exata da dor
que está sendo sentida, pois o ouvinte interpreta a descrição da dor do outro,
conforme seu conceito próprio de dor, adquirido por experiências pessoais e
história de vida. No entanto o doente necessita de que sua dor seja
compreendida, reconhecida, respeitada e cuidada, tanto para confiar no
profissional que o assiste, como para aderir ao tratamento proposto.
A psicofisiologia apresenta-se como importante recurso para o estudo e
a compreensão da dor crônica. Ela explica como o estresse influencia seu
surgimento, manutenção ou piora; relaciona os processos cognitivos
envolvidos (atenção, crenças, expectativas e significado) e oferece
importante contribuição para novos métodos de intervenção psicológica,
melhorando e controlando a dor. Esta é um fenômeno subjetivo, porque o
modo e a magnitude com que é sentida variam individualmente, como tal, é
mais do que informação sensorial por si só. A subjetividade do fenômeno
da dor deve-se ao fato de os aspectos sensoriais estarem intimamente
relacionados com os aspectos afetivos e cognitivos dos indivíduos.
Dentre as dimensões da dor, uma das que mais compromete o indivíduo
é a sensitivodiscriminativa. Esta dimensão, portanto, deve ser bem avaliada
e controlada. Como se sabe, a dor é sempre multifatorial. Por isso, é
necessário considerar o contexto psicofisiológico tanto na avaliação quanto
no tratamento do paciente com dor. Este capítulo pretende explorar a
dimensão afetiva da dor, associando-a ao processo em si.
Perspectiva histórica da relação mente-corpo
A visão cartesiana e dualista da interligação mente-corpo prevaleceu por
quase todo o século 20. Descartes (1596-1650), filósofo e matemático da
era moderna, localizou a mente (intelecto) no cérebro. Ele acreditava que a sede da mente seria a glândula pineal, estrutura localizada no centro do
cérebro que regula o comportamento por meio do direcionamento do fluxo
dos líquidos ventriculares para os músculos específicos. A partir dessa
descoberta, criou-se uma nova explicação para o comportamento, na qual o
cérebro tinha um papel importante. Apesar de considerar em sua teoria
mente e corpo coisas separadas, elas estavam interligadas. Descartes
afirmava que a maioria das atividades do corpo, como sensação,
movimento, digestão, respiração e sono, poderia ser explicada pelos
princípios mecânicos, mediante os quais o corpo físico e o cérebro
funcionam. A mente trabalhava por meio da glândula pineal que era
responsável pelo comportamento racional.
Sendo identificados, ainda, os componentes do arco reflexo: a sensação
de dor e sua condução pelos nervos até o sistema nervoso central. Ele já
afirmava que os nervos motores e os músculos eram responsáveis pela ação
ou resposta.
Carl Wernicke (1848-1905), neurologista alemão, propagou a ideia de
que o sistema nervoso era composto por várias sinapses interconectadas.
Para ele, a parte anterior do cérebro era responsável pelos movimentos, e a
parte posterior, pelas impressões sensoriais. Wernicke identificou que lesões
na superfície superior do lobo temporal interrompiam a fala normal. Ele e
outros pesquisadores começaram a supor possíveis interconexões entre a
área de Broca e a área de Wernicke.
Alexander Luria (1902-1977) elaborou a teoria dos sistemas funcionais
e demonstrou a organização funcional do cérebro. Ele analisou
qualitativamente o processo cognitivo, demonstrou a dinâmica do
funcionamento cerebral e contribuiu para a compreensão do funcionamento
das áreas frontais do cérebro.
No início do século 19, muitos cientistas preocuparam-se com a relação
entre a “dor mental” e a “dor física”, e graças aos avanços da neurologia e
da medicina experimental, a dor passou a ser investigada por fisiologistas e
discutida em laboratórios, sendo, então, conceituada como sensação.1
Hoje é consenso entre os profissionais de saúde que a atividade cerebral
e a mente são inseparáveis; a ideia que prevalece é a de que mente e corpo
estão intimamente relacionados e que a mente tem um grande poder sobre o
sistema imunológico. Embora atualmente ainda seja difícil abandonar o pensamento cartesiano, a interdependência entre as emoções subjetivas e a
fisiologia é inegável, mesmo que ainda não sejam totalmente
compreendidas. Aprofundaremos os conceitos de como o sistema nervoso
autônomo pode influenciar o estado emocional, como o cérebro pode
regular o corpo conscientemente e como as emoções fazem parte deste
processo.
Processos emocionais
Entender a dor pela perspectiva emocional exige que se compreendam
suas origens e seus objetivos. As emoções são estados de excitação
fisiológica, que podem ser positivos ou negativos, e surgem a partir de um
estímulo (evento) do ambiente interno ou externo. As emoções são reações
psicofisiológicas que representam modos de adaptação em conformidade
com as mudanças ambientais contextuais e/ou situacionais. Elas organizam
as respostas de muitos sistemas biológicos, com o objetivo de estabelecer
um meio interno ótimo em prol de um comportamento mais efetivo.
Sob essa ótica, as emoções apresentam um importante papel de proteção
e de sobrevivência. Sentimentos negativos não são apenas percepções
distorcidas. Eles também constituem um mecanismo de proteção que nos
ajudam na sobrevivência. No entanto, quando alguém apresenta dor
constante e sem controle, emoções igualmente sem controle podem surgir e
provocar comportamentos disfuncionais e/ou uma patologia física.
Dor, como descrita por Melzack e Torgerson,2 é a interação de três
contextos: um sensorial, um emocional e a imagem simbólica de um
fenômeno. No córtex cerebral de diferentes regiões do sistema nervoso, os
aspectos sensitivo-discriminativo, afetivoemocional e aspectos cognitivos
interagem, possibilitando ao indivíduo ter a interpretação adequada do
fenômeno da dor.3
O contexto emocional relacionado com a dor é um fenômeno bastante
complexo. A dor sentida é influenciada pela maneira como se sente sobre
si, sobre os outros, como se comporta, como se sente vulnerável ao estresse,
como a cognição funciona e a suscetibilidade para transtornos emocionais.
A dimensão afetivo-motivacional exprime o caráter desagradável da
sensação da dor com maior relação ao sofrimento que ela causa do que a apreciação sensorial de fato. Tudo isso pode estar relacionado com a
história pessoal, familiar e cultural do indivíduo e pode evoluir para estados
mais diferenciados, como ansiedade, angústia e depressão.4
O estímulo sensorial nocivo precisa ser discriminado em nível
consciente, para que as reações adequadas sejam processadas. Para que
ocorra o processo discriminativo, deve haver o registro de informações
deste estímulo, possibilitando a localização, a avaliação da magnitude, a
natureza e outros aspectos físicos do fenômeno que ativam os receptores.
A dimensão cognitiva engloba um conjunto de processos capazes de
modular a dor: fenômenos de atenção-distração, significado e interpretação
da situação dolorosa, sugestão, antecipação da dor, fatos estes referentes às
experiências vividas ou aprendidas. As avaliações cognitivas também
podem ser influenciadas por fatores pessoais e situacionais do indivíduo,
como a visão que o indivíduo tem de si mesmo, do mundo e de sua doença.5
Assim, a dor não pode e não deve ser compreendida e tratada apenas
como um evento sensorial. Dor é um estado físico e emocional
desagradável ao indivíduo, que tem como principais características a
consciência e o ajuste de adaptação a um trauma no tecido.
As emoções humanas, incluindo as provocadas pela experiência da dor,
apresentam importante papel adaptativo. Como visto, elas atuam
intensamente na percepção e tomada de consciência da situação,
produzindo informações importantes para se que se escolha a melhor
alternativa para os comportamentos de resposta. Chapman4 descreve que as
emoções negativas, como o medo, facilitam a adaptação e a sobrevivência
do indivíduo. Segundo ele, as emoções têm um papel defensivo na espécie
porque, à medida que vivemos a experiência do medo na hora da dor ou do
ferimento, buscamos proteção.
Na espécie humana, situações de dano podem parecer ameaçadoras,
mesmo que elas não existam de fato. Isso porque a percepção e a tomada de
consciência ocorrem principalmente em função das imagens que vemos
“somatossensoriais e emocionalmente coloridas”. As cognições e a tomada
de consciência ocorrem em geral por meio de imagens e exercem
importante papel na experiência dos sintomas.
Pessoas podem reagir emocionalmente a uma imagem mental da dor,
antes que ela aconteça. A intensidade desse sentimento determina a significância da experiência para aquele que a vivencia. A magnitude
emocional da dor é uma representação interna da ameaça associada ao
evento que produziu a dor.
As emoções negativas direcionam as pessoas para a ação de luta ou
fuga, com expressões como verbalização, postura, variações faciais,
padrões musculares e alterações da atividade. Essas expressões representam
a comunicação e suscitam o suporte social. Algumas dessas expressões
emocionais básicas são consideradas inatas aos animais e aos seres
humanos.
A comunicação é um importante fator adaptativo da expressão
emocional. Os seres humanos, assim como outros mamíferos, têm seus
grupos sociais e buscam apoio neles para sua adaptação e sobrevivência.4
Neuroanatomia das emoções
Estudos e investigações do cérebro fizeram os pesquisadores associarem
o cérebro límbico às emoções. O desenvolvimento de novas técnicas de
pesquisa tanto em neurofisiologia como em neuroimagem têm contribuído
para a compreensão da profunda interdependência que existe entre
cognições, emoções e os processos homeostáticos na espécie humana.
Como já mencionado, emoções como alegria, raiva, tristeza e medo são
normalmente expressas em forma de comportamentos. As estruturas
límbicas têm como principal função a regulação desses processos
emocionais e impulsos motivacionais.
Ainda não existe um consenso sobre todas as estruturas que devem fazer
parte do sistema límbico. Três tipos de estruturas, descritas por MacLean,6
compõem o sistema límbico e suas funções: amígdala, área septal, tálamo
cingulado.
Essas estruturas recebem informações do ambiente externo e interno por
meio dos extraceptores e intraceptores. As áreas corticais relacionadas com
as funções do sistema límbico são:
• Córtex frontal
• Córtex pré-frontal, responsável por funções mentais complexas como fala, pensamento,
aprendizagem, emoções e movimentos
• Córtex para-hipocampal e córtex entorrinal, importantes nos processos da memória • Córtex insular, importante na integração emocional-motivacional e • Córtex cingulado anterior, relacionado com estados de atenção.
O hipotálamo, juntamente com o sistema límbico e os lobos frontais,
abrigam o circuito que controla os comportamentos motivados. O
hipotálamo fornece o controle mais simples, que é basicamente
homeostático. O sistema límbico é responsável pela emoção, e os lobos
frontais produzem o comportamento adaptado, depois a análise dos
ambientes externos e interno.
Fisiologia da dor
A dor é o resultado de uma série de trocas elétricas e químicas que
envolvem os nervos periféricos, a medula espinal e o cérebro. Além disso,
dor implica interação de três contextos: sensorial, emocional e imagem
simbólica do fenômeno. Nas diferentes regiões do córtex cerebral, os
aspectos sensitivo-discriminativo, afetivo-emocional e cognitivos
interagem, tornando possível ao indivíduo interpretar de maneira adequada
o fenômeno da dor.3
A dor aguda, que tem função protetora, acontece quando há risco de
dano tecidual. Neste caso, a descrição da região dolorosa é clara, assim
como a da sua qualidade, frequência e duração. Ela é concomitante à
atividade autonômica e à ativação neuroendócrina excessiva (Figura 3.1).
Figura 3.1 Fatores envolvidos na dor aguda.
A dor crônica pode decorrer de dano tecidual contínuo (dor
nociceptiva), atividade neural patológica e anormal (neuropática), fatores
ambientais ou disfunção de sistemas endógenos de controle da dor
(síndrome dolorosa). Neste último caso, a descrição é vaga, sem benefício
biológico e pode causar estresse físico, emocional, social e financeiro
(Figura 3.2).
Figura 3.2 Fatores envolvidos na dor crônica.
Na medula, há neurônios que recebem as informações dolorosas e
filtram o caminho que elas seguirão até chegarem ao cérebro. A dor aguda e
grave, recebida do ambiente ou da medula espinal, segue uma via mais
rápida e direta e os nervos motores sinalizam para que o sistema nervoso
entre em ação.
Quando as mensagens chegam ao cérebro, o tálamo interpreta como dor
e envia essas informações para três regiões especializadas: córtex
somatossensorial (sensações físicas), sistema límbico (emoções) e córtex
frontal (pensamentos).
Em geral, as informações somatossensoriais são conduzidas pelas fibras
nervosas, neurônios do gânglio da raiz dorsal, até o sistema nervoso central.
O dendrito e o axônio do neurônio transportam essas informações sensoriais
da pele, do músculo e dos tendões. O processamento dessas informações
pode ser modificado quando há anormalidade na atividade neural ou lesão
tecidual. Neste caso, percebem-se as alterações ameaçadoras para o organismo, originando assim a sensação da dor. Os estímulos nocivos
podem ser químicos e/ou térmicos de intensidade e duração suficientes para
sensibilizar os receptores nociceptivos ou algioceptores que estão presentes
em quase todas as regiões do corpo.4
O estímulo sensorial nocivo é discriminado para que a resposta
adequada seja processada. Os receptores sensoriais, que são especializados
para cada estímulo, localizamse nas extremidades dos nervos periféricos.
Com base na característica do estímulo, os receptores são divididos em:
mecanorreceptores (tato, pressão, distensão ou vibração), quimiorreceptores
(lesões ou infecções) e termorreceptores (aquecimento ou resfriamento).
Os nociceptores estão classificados como um subgrupo de receptores
que codificam a sensação de dor em função de um estímulo que provoca
lesão ou ameaça de lesão. O registro das informações sobre a dor precisa
ser feito para que se estabeleça sua localização temporoespacial, dentro ou
fora do corpo.7
O processo discriminativo inclui a avaliação da magnitude do estímulo.
Tal atividade decorre da ativação do feixe espinotalâmico lateral e dos
tratos da coluna posterior da medula espinal que excitam o córtex
somatossensorial do giro pós-central, giro paracentral posterior e córtex do
opérculo parietal. As duas últimas áreas parecem estar mais envolvidas com
a dor do que a primeira.3
Os nociceptores recebem a estimulação dolorosa, transformam-na em
impulsos que, ao longo das fibras nervosas sensitivas dos nervos
periféricos, alcançam a medula pela porção lateral das raízes dorsais. Os
neurônios, conhecidos como fibras do tipo C, finas e não mielinizadas, são
responsáveis pela condução de impulsos, que dão origem à dor lenta, surda
ou crônica. As fibras tipo A-delta, mielinizadas, são responsáveis pela
condução de impulsos que produzem dor rápida ou aguda. Os neurônios A-
delta aferentes fazem sinapse na medula com neurônios de segunda ordem,
cruzando a linha mediana em frente ao canal central, para constituir o feixe
espinotalâmico lateral, pelo qual ascendem até o tálamo.
Os tratos que processam as informações no sistema nervoso central
percorrem vias diferentes, e menos diretas, até o cérebro. Algumas fazem
sinapse com vários interneurônios da medula espinal. Outras fazem sinapse
com outros neurônios da substância cinzenta da medula espinal de onde emergem os tratos para a substância branca da região anterolateral da
medula.8
A informação nociva causada pelas sensações térmicas (calor, frio)
estimula os neurônios da formação reticular do tronco encefálico. Este
transmite a informação para as vias que se destinam ao tálamo, hipotálamo
e outras áreas cerebrais relacionadas com as atividades neurovegetativas e
às emoções. Certas áreas da substância cinzenta periaquedutal
mesencefálica, quando estimuladas, produzem sensações difusas de
queimor ou de frio na cabeça e no tronco, medo e alterações
neurovegetativas, incluindo a piloereção, o aumento da frequência cardíaca
e sudorese no lado oposto do corpo.3
No tálamo, o complexo ventrobasal é responsável pelo sistema de
condução rápida e é conhecido como neotálamo (núcleos mais recentes na
escala zoológica). As fibras deste sistema irradiam-se amplamente para o
córtex cerebral de modo difuso, para o sistema límbico e para núcleos
basais ligados ao controle do movimento.
O córtex da ilha de Reil, inserido na fissura silviana entre os lobos
frontal e temporal, relaciona-se com a experiência da dor visceral. Os
aspectos emocionais da dor e as reações associadas são produzidos no
sistema límbico.3
As fibras proprioceptivas para os músculos faciais e orbitais, da
mastigação e da língua passam para o núcleo mesencefálico, com as fibras
para dor e temperatura que se agrupam para formar o feixe espinal do nervo
trigêmeo. Essas fibras ativam a formação reticular do tronco encefálico e do
hipotálamo, nos quais são mediadas as reações neurovegetativas.3
O hipotálamo é o responsável pela integração das respostas endócrinas,
autonômicas e comportamentais que garantem a homeostase e a reprodução
da espécie. Do hipotálamo os neurônios enviam projeções para os núcleos
anterior e medial do tálamo, daí para o córtex cerebral e o sistema límbico,
possibilitando a integração das informações sobre identificação,
localização, qualidade, significado e carga emocional dos estímulos.3
As vias eferentes periféricas de conexões do sistema nervoso
neurovegetativo emergem da medula espinal torácica, nos primeiros
segmentos lombares, segundo e terceiro segmentos sacrais, como ramo
comunicante branco ou pré-ganglionar; fazem sinapses com outros neurônios nos gânglios sensitivos; dão origem aos ramos comunicantes
cinzentos que constituirão os nervos periféricos e distribuem-se nos vasos
sanguíneos, glândulas e músculos eretores dos pelos.3
A supressão da dor depende das vias descendentes localizadas no
funículo dorsolateral da medula espinal. A substância cinzenta
periaquedutal mesencefálica recebe aferências de diferentes origens, tais
como hipotálamo, mediante fibras que trafegam pela substância cinzenta
periventricular, córtices frontal e insular, amígdala, núcleo parafascicular do
tálamo, núcleo cuneiforme, núcleo da substância ferruginosa, formação
reticular ponto-bulbar e corno posterior da medula espinal (CPME). Há vias
supressoras de projeção rostral ainda pouco conhecidas.8
Bioquímica da dor
O fenômeno da dor que resulta de inflamações também pode ser
explicado pela ótica neuroquímica. As terminações nervosas que captam os
estímulos contêm substâncias neuroquímicas chamadas de
neurotransmissores (substância P, calcitonina etc.), que podem ser liberados
nos tecidos, causando processos inflamatórios que agravam a condição da
dor inicial.3
As substâncias conhecidas como algiogênicas estão presentes nos
tecidos em condições inflamatórias, como traumatismos ou isquemias, e são
liberadas no interior dos mastócitos, outros leucócitos, vasos sanguíneos e
células traumatizadas, responsáveis pela hiperalgesia.3
São substâncias algiogênicas: acetilcolina, prostaglandinas, histamina,
serotonina, bradicinina, leucotrieno, substância P, tromboxana, neutrofinas,
radicais ácidos, íons de potássio e fator de ativação plaquetária.
O sistema nervoso simpático pode influenciar no agravamento da dor. A
liberação de norepinefrina no ambiente tecidual modifica a vasoatividade,
ativando os receptores α-I nociceptivos dos aferentes primários. Pode ainda
sensibilizar os nociceptores, liberando prostaglandinas nos tecidos que
podem excitar a terminação nervosa, agravando a condição de dor
neuropática, como ocorrem em muitos doentes em situação de tensão, ou
situações emocionais adversas.3
O sistema nervoso periférico, além de captar informações, ocasionando
dor, pode também receber informações que inibem sua atividade. Sabe-se
que existem receptores de morfina nas terminações nervosas. Quando há
traumatismos agudos, nem sempre a dor é percebida por causa, em parte, da
atuação das vias centrais inibitórias e à liberação da β-endorfina na corrente
sanguínea que atua nesses receptores e inibe a sensação de dor.3
A informação é transferida para as unidades no sistema nervoso central,
graças à liberação de vários neurotransmissores representados pela
substância P, somatostatina, calcitonina, pelos ácidos aspártico e glutâmico,
pela calecistoquina, entre outros, na substância cinzenta da medula espinal.
Há aumento da permeabilidade da membrana celular e segundos e terceiros
mensageiros sensibilizam os neurônios centralmente. A modificação da
biologia dos receptores (reestruturação e neuroplasticidade), proporcionada
pela excessiva estimulação da dor, é uma das razões da instalação da dor
crônica. As informações da medula espinal são veiculadas para as estruturas
subcorticais. O ácido glutâmico está envolvido neste processo.3
A sistema supressor de dor funciona pela ação das encefalinas,
endorfinas, norepinefrina, serotonina, substância P, dopamina, do ácido
gama-aminobutírico (GABA), somatostatinas etc. Os estímulos
discriminativos ativam o sistema supressor. As vias descendentes
supressoras de dor são mais conhecidas pelo funículo dorsolateral da
medula espinal e projetam-se nas lâminas superficiais do CPME. Estas vias
utilizam serotonina e norepinefrina, como neurotransmissores.
As fibras descendentes catecolinérgicas inibitórias, oriundas do núcleo e
do subnúcleo da substância ferruginosa, projetam-se nas unidades
nociceptivas nas lâminas I, II e X e atuam por meio de receptores α-2,
talvez mediante a liberação de (GABA) e glicina ou, indiretamente, pelos
tratos serotoninérgicos. A norepinefrina inibe as vias nociceptivas da
medula espinal. Do magno da rafe, emergem fibras serotoninérgicas.8
A dor pode ser causada por dois mecanismos: estímulos dolorosos
excessivos ou hipoativação do sistema supressor. Em qualquer uma das
situações há desequilíbrio entre o sistema receptivo e o supressor de dor.
Dimensão afetiva da dor
Segundo Chapman,4 a dimensão afetiva da dor envolve dois tipos de
mecanismos. O mecanismo primário produz uma experiência imediata
semelhante à hipervigilância ou ao medo. Essa resposta rápida tem o
objetivo de focar a atenção e o comportamento para essa experiência. Ao
mesmo tempo, mensagens da amígdala, do hipotálamo e de outras
estruturas límbicas excitam o sistema nervoso autônomo, modificando o
estado corporal, ou seja, aumentando os batimentos cardíacos, a tensão
muscular, a frequência respiratória, provocando alterações viscerais e
tremores. A percepção dessas reações cria intensa experiência subjetiva. A
dimensão afetiva surge a partir das mensagens recebidas e da avaliação
individual da experiência da dor, sendo o medo potencialmente confirmado
ou não.
Um evento doloroso automaticamente medeia a mudança do status do
corpo e desenvolve uma imagem somática. A percepção se dá por meio de
imagens que são representações simbólicas internas ou externas dos objetos
ou eventos. As cognições são mais eficientes quando se utiliza, além das
sensações, imagens. Essas imagens somáticas estão associadas ao tecido do
trauma e apresentam complexos padrões de excitação fisiológica; atendem à
representação simbólica da ameaça biológica à integridade da pessoa e, em
alguns casos, da psicológica. Resposta afetiva envolve imagens e símbolos
que representam as cognições e as emoções.4
Entender como a experiência da dor se processa é a chave para o melhor
tratamento tanto da dor aguda, como da dor crônica. Nossa compreensão
sobre a percepção nociceptiva está evoluindo e, como sabemos, reconhece-
se o envolvimento de fatores de origem humoral e o da transmissão neural.
Esses fatores são responsáveis pela ativação e sensibilização das regiões
anteriormente citadas, envolvidas na percepção da dor, no sofrimento e nos
comportamentos de evitação. Evitar essas alterações utilizando abordagem
multidicisplinar pode ser a melhor maneira de controle e sucesso no
tratamento da dor.
Estresse e dor
Diante de uma situação avaliada como ameaçadora ou estressante,
quatro sistemas de resposta entram em ação: sistema nervoso somático, sistema nervoso autônomo, sistema neuroendócrino e sistema imunológico.
Os hormônios do sistema endócrino determinam a maneira como o
indivíduo responde ao estresse. O corpo reage às diferentes agressões
externas sofridas, por mecanismo de adaptação e defesa.9 O processo ocorre
com a estimulação da hipófise pelo hipotálamo, que provoca um aumento
na produção de cortisol. Este elevado nível de cortisol mobiliza energia
(glicose) e inibe o sistema imunológico do corpo.
Há muito se sabe que o estresse provoca, ainda, alterações fisiológicas e
psicológicas. Os componentes fisiológicos são aqueles diversos sintomas de
excitação corporal como: aumento da frequência cardíaca, aumento da
pressão arterial, respiração ofegante, boca seca, entre outros. Os
componentes psicológicos envolvem os pensamentos, as emoções e os
comportamentos. Esses componentes são determinados pelas avaliações
cognitivas que fazemos da ameaça percebida.10
Quando a experiência do estresse é aguda, ou seja, rápida, passageira e a
situação volta a ficar sob controle, o organismo pode retomar
imediatamente a sua homeostase (equilíbrio inicial). No caso do estresse
crônico, a vulnerabilidade do indivíduo na aquisição de doenças aumenta.
A reação ao estresse, assim como à dor, é comandada pelo sistema
nervoso por intermédio dos neurônios sensoriais que transmitem os
impulsos para regiões secundárias do cérebro, dando o sinal de alerta para a
ameaça. A formação reticular vai coordenar os caminhos neurais de
comunicação do corpo com o cérebro, alertando para o perigo iminente.
A informação vai para o tálamo, que direciona e classifica essa
informação, enviando-a para o hipotálamo, o sistema límbico e as regiões
do córtex cerebral que processam as informações e estas passam a ter
significado. A formação reticular recebe as informações de volta e as envia
para o sistema nervoso simpático. É a partir da ativação do sistema nervoso
simpático que os órgãos que estão envolvidos na defesa se mobilizam. O
metabolismo corporal é alterado para fornecer mais energia ao organismo,
para que este reaja (reação de luta ou fuga). As glândulas adrenais excitadas
liberam epinefrina, norepinefrina e cortisol, hormônios estimulantes do
corpo. Com isso, a frequência cardíaca aumenta, as pupilas se dilatam e os
processos de digestão diminuem, facilitando a reação do organismo sob
ameaça.
O hipotálamo exerce a importante função de controle na resposta ao
estresse. Ele secreta corticotrofina, que ativa a hipófise para liberar o
hormônio adrenocorticotrófico. A hipófise estimula o córtex adrenal, que
secreta os corticosteroides, responsáveis pelo combate às inflamações, pela
mobilização dos recursos energéticos do corpo. Os hormônios liberados são
assimilados pela medula adrenal, que secreta epinefrina e norepinefrina na
corrente sanguínea e desencadeia uma série de reações físicas como:
coração acelerado, boca seca e aumento da sudorese.10
A longa duração da situação de estresse pode trazer efeitos devastadores
para o corpo. Hipertensão, problemas cardiovasculares, tensão muscular,
fadiga crônica, distúrbios digestivos e maior risco de doenças crônicas são
alguns dos sintomas do estresse prolongado. O estresse crônico pode
também provocar problemas e comprometimentos em diversas regiões
cerebrais, alterações da memória e, em casos extremos, a perda permanente
dela.
O estresse tem sido mencionado como explicação do estado
psicofisiológico do organismo, continuamente exposto a diferentes
experiências ou estímulos que produzem diferentes efeitos psicológicos e
comportamentais. Seu nível é sempre proporcional à exposição e à
avaliação subjetiva que o indivíduo faz da situação.
Esse fenômeno é fundamentalmente importante para a adaptação e
sobrevivência dos indivíduos. Em virtude dele são acionados numerosos
agentes de defesa que existem no corpo. Sabe-se que o cérebro pode
influenciar nas respostas imunológicas do organismo, agenciando sua
atividade. O sistema imunológico atua de modo integrado com o cérebro e
com o sistema nervoso central.
A avaliação cognitiva da ameaça ou do evento é de suma importância e
tem relação direta com o estado de humor, saúde e estado motivacional do
indivíduo que vivencia o estresse. Este é um processo subjetivo, o que
significa que uma mesma situação pode ser interpretada de maneira
diferente por pessoas diferentes e em momentos diferentes pela mesma
pessoa. Sem dúvida, um dos aspectos mais preocupantes do estresse é o seu
impacto sobre o corpo e sobre a saúde.
Uma situação é sempre qualificada como irrelevante, positiva ou
aversiva. Esse processo de significação inicial ficou conhecido como avaliação primária. Quando o organismo percebe sua capacidade de
enfrentamento da situação ameaçadora, fala-se em avaliação secundária.
Sendo os recursos de enfrentamento percebidos como suficientes, os níveis
de estresse se estabilizam, sendo considerados leves ou nulos. Se os
recursos forem avaliados como insuficientes, é provável que o estresse seja
elevado.
O processo avaliativo é sempre contínuo, a cada nova informação que
surge. O indivíduo está a todo o momento percebendo as suas condições de
sucesso ou falha no enfrentamento da situação ameaçadora por meio da
avaliação e reavaliação cognitiva.10
A atividade mental relacionada com os estressores tem relação direta e
prejudicial, com consequências fisiológicas. O estresse e a emoção negativa
ocorrem sempre juntos e a dor é sempre afetada por esse processo. Além
disso, sabe-se que dor pode também funcionar e funciona como estressor
interno provocando resposta fisiológica e emocional. Pacientes podem
maximizar o estresse pelo processo do pensamento catastrófico que faz a
dor permanecer e aumentar.
Referências bibliográficas
1. LOBATO, O. O problema da dor. In: MELLO F. L. J. Psicossomática Hoje. Artes Médicas: Porto Alegre, 1992, p. 165-177.
2. MELZACK, R.; TORGERSON, W. S. On the language of pain. Anesthesiology, v. 34, p. 50-9, 1971.
3. TEIXEIRA, M. J.; SHIBATA, M.; PIMENTA, C. A. M.; CORREA, C. Pesquisa com pacientes. In: TEIXEIRA, M. J.; SHIBATA, M.; PIMENTA, C. A. M.; CORREA, C. Dor no Brasil: estado atual e perspectivas. São Paulo: Limay, 1995. p. 79-99.
4. CHAPMAN, R. C. The psychophysiology of pain. In: FISHMAN, S. M.; BALLANTYNE, J.; BALLANTYNE, C. J.; RATHMELL, J. P. Bonica’s Management of Pain. 4 th ed. Baltimore: Lippincott Williams & Wilkins, 2010. Chap. 24.
5. PORTNOI, A. G. Dor, stress e coping: grupos operativos em doentes com síndrome de fibromialgia. São Paulo, 1999. Tese (Doutorado). Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.
6. MACLEAN, P. D.; MACLEAN, P. D. Some psychiatric implications of physiological studies on frontotemporal portion of limbic system (visceral brain). Electroencephalogr Clin Neurophysiol., v. 4, n. 4, p. 407-418, 1952.
7. LUNDY-EKMAN, L. Neurociência: fundamentos para a reabilitação. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
8. nd MELZACK, R.; WALL, P. D. The challenge of pain. 2 ed. London: Penguin Books, 1991.
9. SELYE, H. The stress of life. New York: McGraw-Hill, 1956.
10. LAZARUS, R.; FOLKMAN, S. Stress, appraisal, and coping. New York: Springer, 1984.
OceanofPDF.com