A Psicologia da Dor
17 Biofeedback no Tratamento da Migrânea
Dirce Maria Navas Perissinotti
Estudos de avaliação dos tratamentos comportamentais, como
relaxamento, biofeedback e terapia cognitiva para migrânea recorrente,
sugerem que tais medidas não farmacológicas contribuem para a redução do
estresse afetivo mesmo em indivíduos que mostram falhas no desempenho
geral, no momento da atividade da migrânea, por melhorar a resposta de
estresse afetivo relacionada com a angústia antecipatória da dor.1 Portanto,
no processo de reabilitação do migranoso ou do doente com dor crônica, o
importante é o acompanhamento associado de tratamento farmacoterápico e
psicoterápico, já que, muitas vezes, os doentes apresentariam morbidade
psicológica associada a outros transtornos, como depressão e estados de
ansiedade.
Estudo com método de biofeedback
Realizou-se estudo com o intuito de contribuir para a ampliação do uso
de métodos não farmacológicos no país que auxiliem no controle da dor e
melhorem a qualidade de vida dos doentes, por meio de modelo científico,
disponibilizando-se a oportunidade de elaboração de critérios próprios mais
adequados à população brasileira, consideradas suas características.
A pesquisa derivou-se de estudos e aplicação prática de diferentes
métodos e busca, pelo menos em parte, articular diferentes dimensões da
vida psíquica que apenas em teoria poderiam ser analisadas separadamente.
A proposta de analisar aspectos psicológicos e fisiológicos com o método
de biofeedback visou proporcionar aos doentes uma alternativa mais
apropriada às suas dores migranosas.
Com o objetivo de elucidar critérios de análise para o uso da
intervenção do biofeedback, o estudo foi delineado para que, por meio da
sistemática aplicada, venha a ser útil a outros estudiosos no avanço de
técnicas não farmacológicas.
O biofeedback é uma estratégia terapêutica em que ocorre aprendizagem
por associação de sensações com o propósito de controlá-las, levando a um
melhor enfrentamento, fornecendo novas respostas e possibilitando novos
padrões, mesmo que se mantenha a ativação dos estímulos originais
disfuncionais. Em migranosos, ocorreria inibição da expressão da angústia
relacionada com o nível fisiológico, em virtude da persistência de estados
induzidos de estresse. Pesquisas de enfrentamento da migrânea incluem
tratamento por condicionamento operante, biofeedback e outras técnicas
como tratamento psicodinâmico. Tais tratamentos apontam para a redução
do reforço do comportamento doloroso e a melhora de comportamentos
adaptativos para o enfrentamento das dificuldades.
O objetivo geral foi verificar a efetividade da técnica do biofeedback
térmico como tratamento auxiliar em migranosos, por meio do
Multidimensional Pain Inventory (MPI), antes e depois da intervenção.
A população estudada foi composta por 60 doentes (gêneros masculino
e feminino), com idade variando entre 20 e 60 anos, apresentando sintomas
a mais de 6 meses, em condições de locomoção e retorno às consultas, e
com aceite do termo de Consentimento Pós-informado da Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa (CAPPesq) do Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(HCFMUSP). O diagnóstico médico foi realizado pela equipe da Liga de
Cefaleias e Algias Craniofaciais (ALC) da Clínica Neurológica do HC-
FMUSP segundo seus critérios, e os doentes relataram 15 dias ou mais de
crise no mês com tempo de duração dos sintomas maior do que 6 meses.
Os doentes foram selecionados randomicamente, sendo observada
distribuição aleatória sequencial, em que o primeiro foi definido para
participar do grupo A (experimental), o segundo para o grupo B
(comparativo), e assim consecutivamente.
Os sujeitos distribuídos ao grupo A receberam o tratamento com a
técnica de biofeedback (n = 30) como descrito a seguir. Ao grupo B foram
encaminhados doentes (n = 30) que não se submeteram à técnica de
biofeedback, mantendo-se o esquema terapêutico padrão para a condição
médica.
O grupo B seguiu o tratamento clínico padrão estabelecido pela ALC
submetendose à sessão de avaliação psicológica com os mesmos
instrumentos e, ao final de 10 semanas, foi reaplicado o MPI.2
Tanto o grupo experimental (A) como o grupo comparativo (B)
prosseguiram, após a pesquisa, o tratamento médico padrão estabelecido
pela ALC. O processo de biofeedback objetivou levar o doente a modificar
o nível periférico de temperatura e, auxiliado pelas instruções do psicólogo,
o desenrolar da técnica, controle das crises cefalálgicas por meio do
controle térmico. A indicativa de progressiva aprendizagem e consequente
aumento do fluxo sanguíneo regional foi o objeto do treinamento.
Instrumentos e procedimento
Foram utilizados os seguintes instrumentos na pesquisa:
• Entrevista psicológica semidirigida para doentes com dor, por meio de
protocolo próprio3
• Primary Care Evaluation of Mental Disorders (PRIME-MD)4 completo,
incluindo o questionário do paciente (QP) e o guia clínico de avaliação
(GCA)
• Questionário da Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de
Mercado (ABIPEME)
• Multidimensional Pain Inventory (MPI)2
• ProComp, instrumento eletrônico que, acoplado ao programa BioGraph
2.1, viabiliza o treinamento comportamental.
O procedimento foi composto por triagem e direcionamento para grupo
experimental, treinamento por biofeedback e 10 sessões que objetivaram o
treino de dimensão de sensibilização discriminativa. Para o grupo
comparativo, foi adotado tratamento médico preventivo com medicação
profilática padrão para crise de migrânea.
Resultados
Os resultados evidenciaram que o biofeedback alterou o comportamento
da amostra experimental estudada, ocorrendo melhora geral da
adaptabilidade quando foram feitos os cálculos pela análise paramétrica. Na
análise pelo teste qui-quadrado para variáveis qualitativas, houve resultados
significantes para a amostra experimental quanto aos sinais e sintomas
psicopatológicos, qualidade das queixas e qualidade da saúde autorreferida.
Houve diminuição da escala de intensidade de dor com biofeedback de 5
(83,3%) no pré-tratamento para 3,15 (52,5%) no pós-tratamento.
Mostraram-se sem anormalidades mentais 20 doentes (60%) da amostra
experimental. Transtornos de ansiedade foram encontrados em 11 doentes
(36,6%) e transtorno depressivo em 9 doentes (33,3%). Para 18 doentes
(60%) da amostra experimental, o biofeedback melhorou as condições
psicológicas, e para 14 doentes (46,6%), a melhora estaria associada
exclusivamente ao relacionamento interpessoal, conjugal, afetivo e
psicocomportamental. Quatro deles (13,3%) primariamente reconheceram
melhora no enfrentamento das condições psicofisiológicas, além dos
aspectos psicológicos associados.
O grupo comparativo não obteve alteração significativa na análise de
variância (ANOVA), na estatística paramétrica, nas escalas de controle da
vida, nas respostas negativas e nas respostas solícitas, pois a atividade do biofeedback interferiu no comportamento da amostra a ele submetida,
proporcionando maior adaptabilidade geral.
Discussão
O comportamento das amostras foi influenciado pelas diferenças entre
os gêneros, pois, desde a organização cerebral original,5 admite-se que a
sexuação cerebral em períodos críticos do desenvolvimento fetal seria
sensível a amplo espectro de esteroides, muitos dos quais não são
sintetizados no corpo do feto. O que se preconiza é que a diferença entre os
gêneros não deve estar reduzida à diferenciação gonadal, pois os cérebros
desenvolvem-se de maneira diferente. “Cérebros sexualmente diferenciados
têm propriedades fisiológicas e tendências comportamentais diferentes”.5
Experimentalmente, as mulheres apresentam menor limiar para alguns
estímulos somáticos, maior habilidade discriminativa, maior índice de dor e
menor tolerância aos estímulos dolorosos que os homens. No entanto, essas
diferenças estariam sujeitas a variáveis situacionais, presença de doença,
ambiente experimental e nutricional.6
Diferenças de gênero relacionam-se à ansiedade criada pela dor evocada
no cenário experimental, pois os achados seriam coerentes com observações
clínicas do presente estudo, sugerindo que homens seriam mais
preocupados ou ficariam mais desapontados pela dor e sua cronificação do
que as mulheres.7
Indivíduos da casuística em discussão do gênero masculino mostraram
positiva correlação entre ansiedade e intensidade e desprazer relacionada
com a sensação de dor observada pelo setor experiência da dor. Os escores
iniciais no pré-teste foram 5 e no pós-teste passaram para 3,5. Em doentes
do gênero feminino, ocorreu menor deslocamento dos escores entre o pré e
pós-teste para intensidade de dor, de 3,7 para 3,5, o que apoiaria a ideia de
que homens teriam maior ansiedade relacionada com a dor.
Nos casos estudados, observou-se diminuição dos escores da escala de
intensidade de dor em todas as submodalidades da amostra analisada.
Contudo, é um dos parâmetros mais utilizados para averiguar a efetividade
de intervenções ao longo do tempo, embora esteja sendo observado que
outros parâmetros, como interferência na vida e incapacidade para manutenção de atividades laborativas e de lazer, sejam mais fidedignas às
reais condições de comprometimento da qualidade de vida.
Nos doentes do estudo com ansiedade, a intensidade de dor passou de 5
para 3,5, possivelmente porque houve maior queda das escalas relacionadas
com a experiência da dor e participação de outrem. Nos pacientes
depressivos, a intensidade de dor passou de 4,3 para 3,3, porque ocorrera
menor contato com aspectos da experiência da dor, característica dos sinais
de transtorno depressivo.
Tal avaliação foi feita por meio da execução das tarefas de atenção
dirigida, exigindo-se que fosse focalizado o objeto de treinamento.
Possivelmente, foi o que possibilitou ativar o deslocamento do foco de
atenção da dor para o treino por meio dos sinais a serem modificados. Isso
resultou em redução da retroalimentação que a migrânea impunha,
melhorando, ao longo do treino, a atividade discriminatória entre a dor e
demais sinais corporais.8,9
O biofeedback foi técnica que auxiliou os doentes a modificarem
sentimentos, pensamentos e condutas, conforme o que foi relatado quanto a
impressões sobre os efeitos da intervenção, consideradas ao final do
tratamento; quanto ao desfecho, uma vez que afirmaram que, ao
aprenderem novas maneiras de responder e adaptaremse a sintomas
migranosos, novos esquemas plásticos poderiam ter surgido, como visto
pelos relatos dos doentes.
A queixa dolorosa vinculou-se à atribuição de sentido simbólico
associado ao seu aparecimento ou manutenção em 23 doentes (76,6%), e,
ao final do tratamento, a melhora dos sintomas de migrânea foi relacionada
com a melhora de sua condição psíquica, seja no sentido relacional,
interpessoal, conjugal e psicocomportamental.
Dor e incapacidade foram consideradas como constructos separados.
Quando conseguiram identificar separadamente queixas físicas e psíquicas,
identificando os índices de intensidade de dor, ou seja, aproximando os
fatores que induziam à incapacidade e interferiam na vida, tornou-se
possível que os doentes manejassem melhor suas vidas. Tais aspectos
devem ser ressaltados, pois sua influência deve ocorrer muito mais por
relacionar-se à dificuldade de identificar os efeitos do estresse afetivo do
que por componentes do funcionamento físico propriamente dito.2
Ao se examinar as queixas dos migranosos, na maior parte das vezes
examinase o corpo separadamente das condições mentais, pois seriam as
mentes relegadas a outra posição de avaliação. “O corpo pode ser tratado de
modo genérico, mas as mentes são únicas e individuais”.10
A tendência a dividir a atividade mental em biológica ou psicológica
induz a falsas dicotomias acerca de propedêutica clínica e armada, além do
diagnóstico. Reconhece-se, portanto, que, no presente estudo, as
intervenções psicofisiológicas produziram efeitos psíquicos mais pelo
aspecto de intercâmbio em relação à experiência que o procedimento de
biofeedback oferece, e menos pelo fato de convencimento, pois os
resultados obtidos fazem pensar que a efetividade da intervenção, segundo
o protocolo utilizado, ocorreu por promover o desenvolvimento de
habilidade para afetar a condição das emoções e atenção, modificando-as e
possibilitando que houvesse melhor conexão e comunicação entre
conteúdos conscientes e não conscientes.
Assim, é pertinente que as duas vertentes de estudo se complementem
para que a compreensão do fenômeno psicológico ocorra, ou seja, a
intersecção entre, pelo menos, dois campos de estudo: um que se ocupa do
conhecimento do processamento das informações, codificação da memória
e como a realidade externa é codificada, transformada na memória e
integrada a ela conforme nos apresenta a ciência cognitiva, e outro que se
ocupa da qualidade da estrutura interna produzida pelos relacionamentos
desde as relações mais primitivas, constituição básica mental especialmente
dos afetos e da elaboração da experiência vivida, apresentada pela
psicanálise.11
A dor é, desse modo, um estímulo físico-psíquico claramente observado
em doentes migranosos, pois ocorre evidente aumento da reatividade a
estressores, o que induz a modificações de estados atencionais e poderia
levar à distorção do processo de pensamento com interferência na
percepção da realidade externa, apresentando a faculdade para magnificar a
percepção de estados internos.
Segundo consideração psicanalítica preliminar, poder-se-ia entender que
o procedimento da terapêutica via biofeedback proporcionaria movimento
de ab-reação em que os doentes migranosos, durante o processo, libertar-se-
iam dos afetos ligados às recordações encobridoras. A estratégia citada possibilitou dissolver o automatismo da persistência dos afetos, que são a
expressão ou tradução subjetiva e qualitativa da quantidade de energia
(afetos sem representação e representação sem afeto) que estava associada a
situações de sofrimento e de dor. O acesso ao material mnêmico, que,
segundo esta concepção, significa reprimido, pôde ser integrado à série
associativa, possibilitando a correção e a reelaboração de situações não
elaboradas, ou eventualmente nomeadas de traumáticas. Haveria, assim,
influência da memória autobiográfica no processamento da dor.
O relato das queixas com sentido psicológico associado à dor estaria
acompanhado de problemas de relacionamento sexual, afetivo ou conjugal
em 10 doentes (33,3%), que se referiram à influência da dor em funções
psíquicas ou psicológicas, como expiação, nervoso ou irritação, tensão,
“sentir-se para baixo”, em funções mentais como memória, atenção12-14 e
concentração, ou em atividades, como sentimento de inutilidade ou
inadequação.15
No momento atual, observa-se forte tendência a isentar o fator humano
das considerações dos procedimentos, seja do manejo dos tratamentos, seja
das pesquisas clínicas, pois entrariam em jogo as relações interpessoais que
interfeririam de modo nefasto, alega-se, na precisão das variáveis
intervenientes e determinação da efetividade dos tratamentos.
Da perspectiva da concepção científica, haveria a necessidade de
eliminar, o quanto possível, variáveis que não são passíveis de controle. No
entanto, quando se trabalha com o manejo de terapêutica psíquica, é muito
pouco provável, talvez impossível, que se elimine o fator humano da
relação terapêutica. Assim, no presente trabalho, considera-se que o fator
operador humano da máquina de biofeedback deve ter contribuído
sobremaneira para que a efetividade fosse obtida.
Além disso, buscaram-se os resultados da análise dos valores
qualitativos a par dos valores quantitativos, incluindo as modificações das
manifestações psicológicas ao longo das sessões.
As entrevistas desde a fase inicial, psicodiagnóstica, previram, além da
aplicação mecânica da técnica, as medidas do benefício da intervenção a
doentes migranosos crônicos, considerada a melhora da qualidade de vida e
aceitação a quem foi oferecida. Porquanto, fatores do desenvolvimento da
relação terapêutica estavam presentes na formação do profissional que manejou a técnica de biofeedback, pois exige consistentes conhecimentos
em psicofisiologia e desenvolvimento do rapport, ou, segundo a concepção
psicanalítica, transferência, o que não significa que a sistemática
estabelecida não foi obedecida.
Desde o início, a técnica de biofeedback foi desenvolvida por
psicólogos por tratar-se de processo que visa tornar conscientes funções
corporais normalmente não conscientes, por meio de seu monitoramento.
Assim, o monitoramento também diz respeito ao monitoramento relacional,
ou seja, de aspectos psicodinâmicos envolvidos no processamento da dor e
crises migranosas e relato dos doentes apresentados em suas narrativas.
O movimento de caráter intencional que se realizou, aliando-se o
relaxamento à mudança de temperatura, promoveu o aparecimento de
estados mentais que deixaram de ser automáticos, passando a ser
autorreguladores e manejados autonomamente. O acesso à mudança da
condição de automatismo para a condição de autonomia, traduzida pela
autoatribuição e pelo desenvolvimento da capacidade de reconhecer a
tendência a ser menos vulnerável a estruturas contingentes da conduta
sistemática, possibilitou discriminar as interações reguladoras de estados
internos como meio para sua própria autorregulação. A qualidade dos
estados internos ou somatopsíquicos e as reações por meio da referência
externa, ou referência relacional, pela presença do terapeuta, conjugou-se,
além do exposto anteriormente, pelo aparelho, a intencionalidade com a
manipulação voluntária da atenção sobre si e para o exterior ou outrem.
Ocorreu abandono do automatismo representacional para que pudessem
monitorar, detectar, avaliar, inibir ou modificar as reações sem que
houvesse o impacto da repetição da dor. A autonomia diante dos sintomas
dolorosos ou a tomada de consciência sobre si e seu universo de
significações, em que os mecanismos de aprendizagem subjacentes foram
os de detecção de contingências e de sua maximização16,17, intervém para a
reconstrução do processo de mentalização.18,19
O tratamento da condição médica migranosa crônica com a participação
ativa do doente é uma das principais características do biofeedback, quando
manejado por psicólogo, operador humano da técnica também por alterar a
psicofisiologia por meio da relação dinâmica (e talvez até psicodinâmica)
que o processo terapêutico, ou mais precisamente psicoterapêutico, exige.
A intervenção do psicólogo foi fundamental, à medida que se
configurou essencialmente a mudança de comportamento, proporcionando
condição relacional conveniente, em que os problemas de apreensão
consciente de processos preestabelecidos, dificuldades para o
desenvolvimento de novas condutas e problemas de contenção emocional
foram identificados, e configuraram-se como o cerne do sucesso da
efetividade do tratamento. Destarte, o psicólogo é o único profissional a
capacitar-se, pois recebe formação profissional e está preparado para o
psicodiagnóstico e o acompanhamento para o desenvolvimento da
reabilitação psicológica.
Por meio do presente estudo confirmou-se que o processo de
biofeedback deve ser aplicado por profissionais com qualificação adequada
na área psicológica; os profissionais sem formação na área devem dedicar-
se somente ao treinamento e à aplicação mecânica da técnica, lembrando-se
que o afastamento do operador humano do manejo do instrumento, bem
como a aproximação inadequada de operador não habilitado, levaria à
consequência incalculável.
Há relatos na literatura de insucesso do método ou de que sua aplicação
não objetivaria o alívio apregoado, porque, entre outras questões, pouco se
tem descrito sobre as estratégias que a acompanham e por não serem
observados os fundamentos básicos da mudança psicocomportamental, ou
aquisição de novos esquemas mentais.
O condicionamento por reforço e extinção utilizado pelas estratégias do
biofeedback envolveria mecanismos de interação que seriam acionados na
tentativa de acesso a novas experiências e criariam ativações que
contribuiriam para a formação de novos esquemas; estes, somados às
existentes, tornar-se-iam, assim, apoios para novos pontos de ativação a
partir de um substrato anterior.
A constrição provocada pelo efeito do estímulo doloroso teria o objetivo
de diminuir o tempo de reação do processamento da informação e o
conteúdo mnemônico de longo prazo deixaria de estar disponível para o
acesso. O afunilamento derivado do efeito de estresse doloroso e do
atendimento atencional eliciado exerceria ação sobre a recuperação de
eventos da memória autobiográfica.
A percepção da dualidade dos estados afetivos induziu os doentes a
reconhecerem valores que foram determinantes na mobilização do
organismo na busca das condições necessárias para suportar a dor e a
sobrevivência que se encontravam acomodadas homeostaticamente, na
posição de migranosos. Consequentemente, supõe-se que teria ocorrido o
rompimento do círculo vicioso entre dor, estresse, tensão e percepção da
dor.20
O isolamento ou afastamento afetivo acarretou efeitos na percepção do
estresse decorrentes da função do tempo de isolamento, o que levou os
doentes a magnificarem os sintomas dolorosos.
Considerações finais
O biofeedback alterou o comportamento da amostra experimental,
fornecendo maior adaptabilidade geral na análise paramétrica, por ter sido
possível a ruptura do círculo vicioso entre percepção, tensão, estresse e dor,
também pelo relacionamento estabelecido entre psicólogo e paciente. O
psicólogo como operador do método, por ter condições de calcular aspectos
psicopatológicos e psicodinâmicos, além de servir como aquele que
certifica as percepções do paciente consigo mesmo e suas expressões
psicofisiológicas, ou seja, como operador funcional, foi como um todo de
fundamental presença no manejo do tratamento.
Futuras pesquisas devem se desenvolver com o objetivo de esclarecer a
compreensão entre os mecanismos psicofisiológicos que induzem a
diferentes interpretações em distintos sintomas e as subsequentes respostas
psicofisiológicas quanto aos aspectos psicológicos dos migranosos e nas
demais patologias dolorosas.
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