A Psicologia da Dor
6 A Comunicação Médico-Paciente da Dor Total no Câncer
Ana Valéria Paranhos Miceli
Quando os pacientes sofrem de uma doença grave, crônica e muitas
vezes incapacitante como o câncer, não é somente seu corpo que adoece,
mas o indivíduo por inteiro, tendo de se adaptar às novas informações
(físicas, psicológicas e sociais) suscitadas pelo adoecimento e pelos
tratamentos. A dor é uma das queixas mais frequentes, trazendo desconforto
físico, emocional, espiritual e funcional, dificultando a realização das
atividades diárias, provocando mudanças ou distúrbios nos hábitos de sono
e de alimentação, prejudicando as funções cognitivas, as relações afetivas,
sexuais e familiares, as atividades laborativas, sociais e de lazer, diminuindo
a qualidade de vida.
O paciente e o médico precisam se comunicar para que a dor seja
conhecida, compreendida e tratada multidimensionalmente. Todavia, esta não é tarefa fácil, já que a dor é subjetiva e só mais recentemente começou
a ser mais bem estudada e manejada.
Compreensão histórica da dor
Segundo Miceli,1 até o século 19, por influência da Igreja, a dor era tida
como um martírio necessário à expiação dos pecados e utilizada como meio
de coerção política, social e religiosa, ameaçando e punindo os indivíduos e
a coletividade. No início do século 19, a morfina foi isolada e os opioides
foram desenvolvidos. Em 1850, a partir da identificação dos receptores
neurológicos e da transmissão dos impulsos nervosos, a dor física foi
estudada, sendo separada do sofrimento social. A anestesia cirúrgica foi
introduzida já em meados do século e, posteriormente, a anestesia local. Na
virada dos séculos 19-20, a dor pôde ser evitada também pelo povo, que
teve acesso ao ácido acetilsalicílico, e ela passou a ser cientificamente
considerada um fenômeno biológico, explicado fisiologicamente. Todavia, a
dor que não tinha um substrato físico-orgânico claramente identificável
continuava sem explicação.
No início do século 20, Sigmund Freud,2 um renomado neurologista
austríaco e pai da psicanálise, não acreditava na simplicidade cartesiana de
causa-efeito, mas sim que várias causas concorreriam para a formação de
um sintoma, por exemplo, a dor. Freud2 estudou a dor crônica
psicodinamicamente, considerando que fatores subjetivos e individuais
levariam o sujeito a ter uma predisposição à dor e a utilizar mecanismos
para a manutenção e perpetuação dessa dor.
De acordo com Miceli,3 além das contribuições da psicanálise, surgiram
outras disciplinas, como a psiconeuroimunologia e a medicina
psicossomática, trazendo o conceito de estresse, a evidência da interação
entre os sistemas nervoso e imunológico, bem como a ideia de que toda
doença afetaria o corpo físico e o psiquismo. Estudos observaram que o
estímulo sensorial frequentemente não se correlacionava com a dor,
revelando, assim, o seu caráter subjetivo. A partir de então, a dor passou a
ser vista como um fenômeno não somente biológico como também
psicológico. Nos anos 1970 e 1980, novas disciplinas como a psiconeuroendocrinologia e a psiconeuroimunoendocrinologia revelaram a
inter-relação entre os vários sistemas componentes do ser humano.
Como nos mostra Saunders,4 os anos 1950 foram particularmente
importantes para o estudo da dor devido às influências simultâneas
advindas dos avanços da farmacologia, dos estudos, registros e pesquisas
clínicas em dor, do trabalho desenvolvido pelo Tavistock Centre for Human
Relations na compreensão da dinâmica familiar e do luto, das reflexões
sobre teologia e morte, do desenvolvimento de radioterapia e oncologia
paliativas, do surgimento das clínicas de dor e dos serviços de home care
que, aliados à experiência de hospice, foram marcos também na história dos
cuidados paliativos.
Em 1973, foi fundada a International Association for the Study of Pain
(IASP),5 que postulou que “dor é uma desagradável experiência sensorial e
emocional que se relaciona a uma lesão atual ou potencial dos tecidos, ou
descrita em termos deste dano”. Segundo Fortes,6 a partir da teoria da
comporta de controle da dor, foram bem caracterizadas as conexões do
sistema nociceptivo com os sistemas cerebrais relacionados com os
aspectos emocionais e cognitivos. Cailliet7 define dor como uma complexa
síntese que engloba fatores neuro-hormono-químicos, juntamente com os
biológicos, psicológicos e comportamentais. Segundo Ingham e Portenoy,8 a
dor é uma experiência multidimensional, com características específicas e
impacto nas diferentes esferas da vida do indivíduo.
Nos anos 1970 e, sobretudo nos 1980, houve muita ênfase na
importância dos contextos social, político e cultural como coadjuvantes na
etiologia dos sintomas e das enfermidades. Herzlich9 nos lembra que, nos
anos 1980, paralelamente às reivindicações para se dar voz aos pacientes,
começou-se a dar mais atenção às doenças crônicas e degenerativas, que
requeriam um modelo (biopsicossocial) de cuidado diferente daquele
centrado nas doenças agudas, devendo incluir a perspectiva do paciente.
Assim, a dor passa a ser compreendida como um fenômeno biológico e
psicológico, coproduzido e mantido pelos contextos nos quais o indivíduo
está inserido, e também um fenômeno capaz de criar repercussões
biopsicossociais. A dor se torna objeto de crescente interesse e de
investimento científico por parte de diversos pesquisadores, propiciando
consequentemente melhor qualidade de atendimento aos pacientes, dentre eles aqueles com dor crônica associada à doença oncológica. Embora
bastante prevalente, sobretudo nos casos avançados da doença, a dor dos
doentes com câncer pode ser tratada e bem controlada.
Dor em câncer | Dor total
De acordo com Clark,10,11 o termo dor total foi utilizado pela primeira
vez em 1964 por Cicely Saunders. Com sua múltipla formação como
enfermeira, assistente social e médica, e sua experiência do final dos anos
1940 até os anos 1960 no St. Luke’s Home for the Dying Poor e no St.
Joseph’s Hospice, ambos em Londres, Saunders ouvia os pacientes em seus
contextos cultural e relacional, observava a maneira como se expressavam,
registrava e monitorava os resultados de desenvolvimento da dor e o
controle dos sintomas na tentativa de não somente entender o mundo da dor,
mas também de mudá-lo. Com tantas novas ferramentas para o alívio do
sofrimento do paciente oncológico, Saunders preconizou que toda dor
constante deveria ter um controle também constante, o que implicava a
antecipação de analgesia forte e regular, no caso da dor crônica grave em
pacientes com doença terminal, para evitar a ocorrência da dor, sendo a
morfina o medicamento mais adequado nesses casos. Dentre os resultados,
descobriu-se que o alívio adequado da dor física do paciente favorecia a
comunicação entre este e a equipe, e que este canal contínuo de
comunicação possibilitava a percepção de outros tipos de sofrimento. Isto
significava que o sofrimento do paciente terminal não era somente físico,
mas uma combinação de elementos físicos, psicológicos, sociais e
espirituais, combinação esta que Cicely Saunders4,12 chamou dor total. Em
1967, Saunders4,12 afirmou que a dor terminal era uma síndrome, uma
doença em si mesma e a escolha da palavra dor no termo dor total
objetivava estimular o olhar para as várias facetas do sofrimento do
paciente no fim da vida e para as múltiplas necessidades que ele
demandava, assim como a sua família, e que paciente e família, juntos,
deveriam ser considerados como uma unidade de cuidado (unit of care),
devendo ser a qualidade de vida até a morte o principal objetivo da equipe
que dele cuida. Na atualidade, o conceito de dor total é atribuído a todos os
pacientes com câncer e dor crônica, não necessariamente em fase terminal.
O conceito de dor total foi revolucionário nos anos 1960, com grande
impacto na educação e na prática do que viria a ser a medicina paliativa e
tornando-se um elemento central no campo dos cuidados paliativos, que
envolvem o cuidado total do corpo, da mente e do espírito.10,13 Cicely
Saunders foi uma das fundadoras, em 1967, em Londres, do St.
Christopher’s Hospice, o primeiro hospice moderno, berço do “movimento
hospice“ iniciado na Inglaterra e posteriormente expandido para o
mundo.11,12
Aspectos da dor total
Dor física
A dor física nos pacientes oncológicos pode ser aguda ou crônica e ser
causada pelo câncer, por procedimentos diagnósticos e terapêuticos, por
sequelas da doença ou dos tratamentos, ou, ainda, por outro transtorno que
pode, ou não, estar relacionado com o câncer.
Para Strang,14 o câncer por si só implica várias perdas: de saúde, de
amigos, de energia, e a experiência de dor agrava essas perdas, pois há,
entre outros problemas, redução das atividades diárias, de movimentos e de
locomoção e prejuízo do sono: 58% dos pacientes oncológicos com dor
acordam no meio da noite por causa da dor e expressam mais ansiedade e
sentimentos depressivos do que aqueles que dormem a noite toda. Segundo
Vachon,15 muitos pacientes terminais que reportam dor muito grave
apresentam problemas relacionados com o funcionamento físico (como
fadiga, locomoção, sono, apetite, visão, audição, fala) e relacionados com a
integridade física (como náuseas, dificuldade respiratória, constipação
intestinal, aparência física) que podem ser confundidos com os sintomas
físicos na depressão.
Segundo Sela et al.,16 o status emocional de pacientes com câncer e dor
pode simultaneamente representar “a consequência de” e a “contribuição
para” a presença de dor físico-sensorial. Há uma correlação entre a
sensação/intensidade da dor e as respostas afetivas de frustração, raiva,
exaustão, desamparo e desesperança.
Nasio17 diz que uma dor corporal tem sempre um fator psíquico
interveniente, e, do ponto de vista psicanalítico, não há diferença entre dor
física e psíquica, pois ela é um fenômeno misto que surge no limite entre
corpo e mente.
Dor emocional
De acordo com Vachon,15 problemas emocionais (humor deprimido e/ou
ansioso, pensamentos de morte, frustração) e psicossociais (prejuízo das
atividades conjugais e sociais, problemas relacionados com as funções
econômicas, ocupacionais e cognitivas e relacionados com a adaptação à
doença/recaída/piora) são comuns no paciente oncológico, sobretudo na
fase final da doença, devendo haver distinção entre os sintomas normais do
ajustamento à doença e os sintomas de uma desordem de depressão maior
(humor deprimido, anedonia, ansiedade, irritabilidade, desesperança,
dificuldade de concentração, culpa, ideação suicida) ou de transtorno de
ansiedade psiquiátrica (fobias, pânico) ou orgânica (devida a distúrbios
metabólicos), podendo ocorrer depressão e ansiedade juntas ou
separadamente. Contudo, como afirmam Ingham e Portenoy,8 a dor pode
induzir à depressão, exacerbar a ansiedade, interferir na vida social e
familiar, no desempenho físico e afastar do trabalho.
Segundo Miceli,1 muitos pacientes com câncer apresentam sintomas
depressivos relacionados com a perda da individualidade, da autonomia, da
privacidade, da autoimagem corporal e, infelizmente, muitas vezes de
respeito por parte de outros e até de si mesmo. A identidade pessoal do
paciente com câncer é afetada, pois ao ser inserido no sistema hospitalar ele
não tem mais reconhecidas as suas características particulares que o
diferenciavam das outras pessoas, sendo reconhecido não mais como ser
único e sim como mais um doente que será agrupado, com outros tantos, em
grupos de doenças, de estadiamentos de doença, de possibilidades e de
impossibilidades. Para Miceli,1 o paciente com câncer tem saudade de si, de
como era antes de adoecer e da vida que levava e sonhava vir a ter.
De acordo com Nasio,17 a dor psíquica é como um dilaceramento da
alma provocado pela perda. É aquela de luto pela morte, ou a de abandono,
de humilhação ou de mutilação, sendo todas elas dores de amputação brutal
de um objeto amado que regulava a harmonia do psiquismo.
Há, ainda, o fenômeno do luto antecipado, que é um luto verdadeiro
experimentado como uma preparação para a perda efetiva. A experiência de
antecipação da perda envolve respostas emocionais que incluem ansiedade
da separação, solidão existencial, tristeza, desapontamento, ressentimento,
raiva, culpa, exaustão, desespero, percepção da preciosidade da vida,
apreciação de eventos rotineiros e esperança, como aponta Rolland.18
Embora muito frequentemente associada somente à família, tanto esta como
o paciente pode viver a experiência de antecipação da perda.
Dor social
Para Freud,19 o sofrimento do homem provém de três fontes: do poder
superior da natureza, da fragilidade do corpo e da inadequação das regras
que procuram ajustar os relacionamentos mútuos na família, no Estado e na
sociedade, sendo esta última a fonte social de sofrimento. Poderíamos dizer
que uma das fontes sociais de sofrimento é o estigma. Segundo Goffman,20
o estigma é um atributo profundamente depreciativo, um tipo especial de
relação entre atributo e estereótipo. O indivíduo estigmatizado não está
habilitado para a plena aceitação social porque ele tem um atributo que não
somente chama a atenção como afasta as pessoas dele, destruindo a
possibilidade de que outras características suas sejam percebidas.
Em nossa sociedade contemporânea, o câncer ainda é uma doença
estigmatizada, o que torna seus portadores igualmente estigmatizados,
afetando sua identidade social de diversas maneiras, desde suas atividades
laborativas, seu status social, ao convívio familiar e social e às atividades
de lazer que costumava exercer. Pode ocorrer uma exclusão social
voluntária (deliberada pelo paciente), involuntária (circunstancial) ou
imposta por terceiros, sendo bastante comum o isolamento social. Também
são frequentes os sentimentos de vergonha e retraimento social, de
insegurança e dependência emocional, levando o paciente a abrir mão de
seu poder decisório e enfraquecendo seus mecanismos egoicos de defesa.
Segundo Eisenberger et al.,21 estudos de neuroimagem realizados com
indivíduos em experiência de exclusão social evidenciaram que a
experiência e a regulação da dor social e da dor física dividem a mesma
base neuroanatômica, sendo a dor social, portanto, análoga em sua função
neurocognitiva à dor física, podendo-se dizer que rejeição dói.
Problemas sexuais, conjugais e familiares também estão presentes na
vida de um paciente com câncer, afetando sua identidade familiar e sua
função no sistema familiar, o que vai provocar desde alterações emocionais
e relacionais até preocupações de ordem financeira e organizacional. O
câncer é uma doença da família inteira, pois interfere na vida de todos
demandando mudanças de alguma ordem por parte de todos os membros. E
este, então fragilizado, sistema familiar ainda terá o desafio de lidar com as
informações novas advindas também do sistema hospitalar.
Dor espiritual
Para Murata,22 a dor espiritual é causada pela extinção do ser e do
sentido, do significado do self, devido à aproximação da morte, traduzindo-
se, por exemplo, em falta de sentido da vida, perda de identidade e
sentimento de inutilidade do viver. Reconhecendo a dificuldade da distinção
entre espiritualidade e religião, Murata22 cita os conceitos de Emblen de
religião como um sistema organizado de crenças e práticas de culto e de
espiritualidade com um significado mais amplo do que a religião, pois
abarcaria princípios pessoais de vida, relacionamentos e experiências
transcendentais.
Pensamos que a espiritualidade se refere àquilo que não é material e não
pode ser resolvido praticamente, que fala do significado e do propósito da
vida e da morte, das crenças espirituais, dos valores morais, do nosso lugar
no mundo e da vida que vivemos, do nosso significado para as pessoas que
nos são importantes, de reflexões sobre nosso passado, sobre nosso presente
e de nosso legado para o futuro. Se, por um lado, a dor espiritual pode ser
provocada pela ameaça à existência do ser, por outro lado, a espiritualidade
pode ser uma ferramenta em nossa tentativa de significar a vida, de
entender o que há de finito e de eterno em nós, de entender o nosso
adoecimento, as nossas dores e tudo aquilo que na vida é por nós
incontrolável, mas que é universal ao ser humano. Um dos modos de
expressão da espiritualidade é a religião.
Já dizia Nietzche23 que o que mais nos repugna não é a dor, mas a falta
de significação da dor, o que explicaria a nossa necessidade de religião.
Segundo Miceli,1 o paciente com câncer, sobretudo aquele que já recaiu
ou está em fase final de doença, tem medo do futuro, de morrer. E muitas
vezes sente solidão com a constatação de que se morre sozinho, ainda que
assistido, e de que vive uma experiência singular jamais experimentada por
nenhum daqueles com quem convive nem por ele mesmo anteriormente,
não sendo possível compartilhá-la nem compreendê-la em uma troca usual
de experiências.
Com a ajuda da espiritualidade os homens podem entender a sua dor,
lembrando que o significado da dor e da doença é variável de indivíduo
para indivíduo e no mesmo indivíduo em diferentes épocas e/ou
circunstâncias de sua vida.
Acredita-se que a dor multifacetada do paciente oncológico denuncia a
interligação dessas instâncias corpo-mente-espírito, daí a importância de se
oferecer um tratamento multiprofissional que minimize o sofrimento da
pessoa em todas as esferas de sua vida, em todas as etapas de sua doença.
Comunicação da dor oncológica
Para ser bem tratada, a dor precisa ser bem compreendida e avaliada. E
para tal, ela precisa ser bem comunicada.
De acordo com Watzlawick et al.,24 toda comunicação tem um aspecto
que é de conteúdo (transmissão de informações sobre acontecimentos,
sentimentos, opiniões), e outro que é de relação (expressão manifesta ou
indireta de algo sobre os interlocutores), podendo ser funcional ou
disfuncional. Segundo Miceli,1 na interação médicopaciente, as informações
recebidas virão por meio do conteúdo (manifesto ou latente) da informação,
da comunicação não verbal (expressões faciais, corporais) e da maneira
como a comunicação é realizada (comportamento dos interlocutores). As
incongruências entre as informações tornam a comunicação disfuncional. A
comunicação também pode ser inadequada (pouco clara, linguagem
inacessível) ou insatisfatória (pobreza de detalhes, distanciamento entre os
interlocutores), dependendo de seus aspectos de conteúdo e de relação.
Para Miceli1,3 são comuns alguns problemas na comunicação da dor,
como a supervalorização inconsciente da dor com o objetivo de obter ganho
secundário (mais atenção por parte dos familiares ou dos profissionais, a pronta realização de desejos, o controle dos outros e do ambiente, por meio
de chantagem emocional, o escape de situações indesejáveis). A
supervalorização premeditada é resultante da determinação consciente e
intencional de tirar proveito da situação, de conseguir benesses e privilégios
(como um tratamento diferenciado) e até de ter lucros financeiros (como a
venda dos opioides recebidos ou a obtenção de pensões). É o que
chamamos de “ganho terciário”. Estes casos são delicados, pois como o
paciente tem ou teve algum nível de dor ou tem pelo menos um substrato
orgânico que justifique a possibilidade de dor, a equipe deve fazer uma
avaliação criteriosa do caso e tomar as providências cabíveis. Pode haver a
desvalorização ou a negação da dor quando o paciente oculta do outro a
gravidade ou a existência de sua dor. Isto ocorre por medo de que a dor seja
um sinal de estar piorando ou não ter melhorado da doença, por receio de
importunar, decepcionar, ou ser abandonado pelo médico ou pelo familiar,
pelo desejo de agradar correspondendo às expectativas dos médicos ou da
família, e como maneira de evitar procedimentos desagradáveis ou
dolorosos. Pode haver, também, omissão da comunicação da dor, por
desesperança provocada por descrédito na equipe ou no familiar.
Geralmente isto ocorre quando o paciente teve a sua dor subestimada no
passado ou não percebe um real interesse do outro em tratá-lo.
A comunicação da dor por parte de crianças e idosos é particularmente
delicada, podendo haver confusão entre dor e tristeza, cansaço, chateação,
teimosia, manias e manha, por causa da nossa dificuldade de compreensão
do universo do idoso e da linguagem infantil, ou da nossa impaciência, ou,
ainda, da nossa resistência em ouvir a dor da criança, uma vez que seria
preferível acreditarmos que elas não experimentam os mesmos terríveis
sofrimentos que os adultos.
Crianças podem manifestar dor por choros e lamentos, e de maneira
lúdica, por desenhos e brincadeiras. Idosos podem manifestar dor por meio
de lamentos e resmungos. A presença de uma provável desorientação
temporal, por imaturidade ou senilidade, dificulta ainda mais a
comunicação da dor. Pessoas com dor podem tornar-se querelantes ou
buscar o isolamento. Por isso, é importante, sempre que possível, observar e
ouvir não somente o paciente, mas também seus familiares, tomando o cuidado com a possibilidade de que também os familiares (assim como os
profissionais) podem supervalorizar ou desvalorizar a dor do paciente.
Compreensão, avaliação, mensuração da dor oncológica
Uma vez comunicada, a dor precisa ser compreendida, em todas as suas
dimensões, pelo doente e por quem dele cuida e trata. Para tanto, devemos
ter um olhar múltiplo e uma postura de curiosidade. O psicólogo é um
profissional que pode ajudar o paciente e o médico na compreensão
multidimensional da dor. Por ser subjetiva, a dor pode até ser presumida por
terceiros, mas só pode ser mensurada por quem a sente. Pelo mesmo
motivo, não podemos comparar dores, nem intensidades de dores entre
pessoas. Podemos, sim, comparar a variação da intensidade da dor do
próprio indivíduo consigo mesmo, em diferentes circunstâncias e épocas de
vida. Isto porque a dor precisa ser compreendida de modo dinâmico, sendo
passível de sofrer interferências e modificações devidas a diferentes causas.
Para mensurarmos a dor, é preciso que ela seja comunicada e compreendida
em seu contexto.
Em termos físicos, devemos classificar a dor quanto a sua etiologia, tipo
clínico, duração, intensidade, localização, padrão temporal e de recorrência.
Em termos cognitivos, devemos investigar o que o paciente sabe sobre
as causas de sua dor e possibilidades de controle desta, se as informações
que tem são corretas e suficientes para ele, se há dúvidas a serem
esclarecidas. Em termos afetivos e sociais, devemos investigar como o
paciente percebe a sua dor, o que ele pensa sobre ela a despeito das
informações recebidas, que fantasias e expectativas são tecidas a respeito da
dor e do tratamento, que mudanças ela acarretou em sua vida pessoal, social
e familiar, como ele reage à dor, como a demonstra, que variações ela
apresenta e como ele lidou com a mesma dor ou com outras dores no
passado, que recursos foram utilizados que se mostraram eficazes ou
ineficazes em seu controle. É necessário, também, que o profissional
investigue as crenças e expectativas da família, assim como as suas
próprias, quanto à dor e ao controle da dor, já que se estas forem muito
diferentes das percepções do paciente poderão resultar em sintomas de ansiedade, distúrbios afetivos, dificuldades de relacionamento familiar e de
estabelecimento de uma boa aliança terapêutica.
Miceli3 diz que dado o caráter subjetivo de qualquer dor, na sua
avaliação devemos considerar os seus aspectos físicos, emocionais, sociais
e espirituais sem, no entanto, mensurá-la a partir de apenas um parâmetro
isolado, sendo aconselhável uma mensuração combinada da dor do doente,
considerando-se o relato do paciente; sua história pessoal; seu contexto
sociofamiliar; o relato da família; as alterações comportamentais, afetivas,
familiares e sociais; o comportamento e a história de dor; a postura corporal
(rigidez muscular, agitação ou necessidade de repouso, posição de defesa);
a mímica facial e gestual (expressão ou gestos que traduzem ideia de dor);
os sinais fisiológicos; os marcadores biológicos; as escalas específicas de
mensuração de dor e qualquer outro tipo de expressão encontrado,
realizando-se, paralelamente, os diagnósticos diferenciais concernentes. A
maneira de comunicação da dor também dependerá desses diversos fatores
citados e ainda de outros: idade do paciente, gênero, sua estrutura de
personalidade, suas funções cognitivas, seu estado afetivo e suas condições
psicológicas e orgânicas do momento e, sobretudo, da qualidade do ouvinte,
isto é, da disponibilidade real e sincera de escuta.
Para possibilitar e facilitar a comunicação, as escalas de mensuração de
dor devem ser adequadas à idade, ao nível cognitivo e ao estado clínico do
paciente, devendo ser especiais principalmente no caso de crianças
(imaturidade cognitiva e emocional) e de idosos (senilidade, danos
cognitivos e sensoriais, distúrbios psiquiátricos ou metabólicos).
Segundo Thornton,25 a dor, assim como os medicamentos, pode levar a
muitos transtornos físicos e psicológicos, tais como diminuição da
capacidade de concentração e da disposição física, irritabilidade, frustração
ou disforia, perda de energia, diminuição do interesse e transtornos do sono
ou do apetite. Quando presentes por longo tempo, estes podem ser sintomas
depressivos erroneamente diagnosticados como uma reação normal à dor
grave e à incapacidade.
Para Botega,26 o sofrimento causado por dor, ameaça de morte,
incapacidade funcional ou internação já é suficiente para provocar reações
que se assemelham aos quadros depressivos. No entanto, uma vez que os
sintomas depressivos podem ser confundidos com tristeza e com sintomas da doença clínica, muitas vezes não é feito o diagnóstico correto da
depressão adjacente. Sintomas como perda do interesse nas pessoas,
pessimismo, indecisão, irritabilidade e anedonia são encontrados em
pacientes internados por doença física que apresentam transtornos
depressivos moderados e graves, havendo, nesses casos, uma maior
importância de fatores estressantes (gravidade da doença clínica,
incapacidade, dor, desconforto e impacto do diagnóstico) no
desencadeamento e na gravidade da depressão.
Barreiras na comunicação da dor
Segundo Miceli,1 ainda hoje os médicos têm uma formação
essencialmente biológica, técnica e voltada para a cura, e não para o
cuidado. Eles têm dificuldades em lidar com as emoções dos pacientes e
também com as suas próprias emoções (como ansiedade, culpa, medo e
raiva) despertadas na relação com cada paciente. Assim como os pacientes,
os médicos mobilizam mecanismos de defesa (como a intelectualização, a
racionalização, a negação e a projeção) para se protegerem dessas emoções,
mecanismos que podem provocar dificuldades de comunicação e na relação
entre eles. Essas dificuldades também podem ser aumentadas se o paciente
tem dor, devido ao forte componente emocional da dor que pode torná-la
inexplicável para o médico quanto à sua apresentação, o seu curso e a
resposta ao tratamento, provocando também intervenções inadequadas.
O paciente com câncer e dor crônica pode não receber a atenção e o
tratamento adequados pelo médico quando é considerado por este um
paciente-problema, até mesmo indesejável, pela gravidade da doença de
base, por apresentar uma dor que nem sempre é possível ser aliviada a
contento, por formular perguntas difíceis de responder e por manter
expectativas difíceis de serem atendidas.
É facilmente identificável o ciclo vicioso que envolve a dor do paciente
com câncer. O estigma da doença causa angústia, ansiedade e medo, em
decorrência da ameaça real ou imaginária de destruição e de dor. O medo da
dor (já vivida ou antecipada) leva ao comportamento de dor, que por sua
vez leva ao reforço dos sinais e sintomas. O doente cuja dor é de difícil
controle pode provocar sentimentos negativos em seus familiares (como cansaço, impaciência e raiva) e contratransferenciais na equipe (como a
raiva pela dificuldade de lidar com a própria impotência) que podem levá-la
a rejeitar o paciente, de maneira explícita ou inconsciente. Por sua vez, o
sentimento de rejeição, ou mesmo a ideia de que ela possa ocorrer, leva o
paciente a se tornar mais frágil, inseguro e dependente da atenção familiar e
profissional, formando-se um ciclo vicioso.
Segundo Miceli,1 vários autores relataram as barreiras para o controle da
dor em pacientes oncológicos, destacando a falha na avaliação
compreensiva e sistemática da dor e o tratamento inadequado ao se
desconsiderar fatores como ansiedade, depressão e suporte social e também
as preferências dos pacientes relativas ao plano de tratamento. Outras
barreiras citadas são: o não fornecimento pelos médicos de informações
escritas; a não confirmação do que foi compreendido pelo paciente; o uso
de termos e jargões clínicos; a comunicação padronizada e insensível ou o
cuidado impessoal; o longo tempo de espera para uma consulta muito curta,
sem privacidade ou com interrupções; a dificuldade comunicacional de
ambos, por embaraço, receio, culpa e limitações diversas; o regulamento
restritivo do uso de opioides; as preocupações de médicos e pacientes sobre
os efeitos colaterais da medicação ou da adicção e consequentemente da
tolerância (necessitar de mais medicação porque ela cada vez mais faz
menos efeito); a relutância do paciente em relatar a dor e em usar opioides e
a sua não concordância ou confusão quanto ao esquema da medicação; a
falta de oferecimento de tratamentos não farmacológicos; o medo dos
cuidadores familiares de não serem capazes de manejar o tratamento da dor;
a crença do doente de que os profissionais, familiares e amigos não
entendem a sua dor; o medo de progressão da doença e de distrair o médico
do tratamento do câncer; barreiras relativas a status social, idade e gênero.
Segundo Kimberlin et al.,27 os pacientes com câncer e seus familiares
perceberam alguns fatores como facilitadores da comunicação efetiva
quanto ao manejo da dor: elaborar diários (sobretudo relativos à dor) e
compartilhá-los com os médicos; ser assertivo, fazer perguntas, expressar
suas necessidades e pesquisar sobre suas condições e tratamentos
alternativos; manter um relacionamento mais próximo e amigável com o
médico, o que resultaria em maior cuidado por parte deste.
Em estudo realizado por Miceli1 com 120 pacientes da Clínica de Dor
do Instituto Nacional de Câncer (INCA), 60% dos pacientes não se
julgavam bem informados sobre a sua dor, 67,5% estavam insatisfeitos com
as informações de que dispunham e 87,5% desejavam participar ativamente
das consultas médicas. Se, por um lado, os homens foram mais privados do
que as mulheres de informações sobre o diagnóstico da dor e sobre o
encaminhamento médico à Clínica de Dor, por outro lado, as mulheres
recebiam mais informações porque perguntavam mais, porém estas eram
mais inadequadas, incompletas ou não convincentes do que as fornecidas
aos homens. A despeito da gravidade da dor, somente 57,5% dos pacientes
exigiam o seu alívio total para considerarem o tratamento bem-sucedido e
42,5% foram menos exigentes, aceitando a melhora parcial como resultado
satisfatório. Os pacientes mais instruídos, os que se julgavam bem
informados sobre a dor e as mulheres foram proporcionalmente menos
exigentes que os pacientes menos informados, os menos instruídos e os
homens quanto aos resultados esperados do tratamento, enquanto os
pacientes insatisfeitos com as informações sobre a dor foram
proporcionalmente mais exigentes que os satisfeitos. Os pacientes menos
exigentes quanto aos resultados do tratamento de dor, em termos
proporcionais, esperavam mais que o médico fosse prioritariamente
atencioso do que os mais exigentes.
Foi mensurada a importância do comportamento afetivo do profissional,
que foi chamada de comportamento atencioso (gentil e voltado aos aspectos
psicossociais), em relação à importância atribuída pelo paciente à ação do
médico para a eliminação da dor. Foi surpreendente a demanda que todos os
pacientes entrevistados tinham de uma interação mais pessoal e calorosa
com os médicos, na qual pudessem perceber que eram acolhidos em sua
singularidade e que os médicos se importavam com eles. Quando
convidados a pensar se preferiam um profissional atencioso ou um
profissional que fosse um bom técnico no manejo de sua dor, a maioria dos
pacientes (67%) deu importância a ambos os fatores, mas um número
significativo (32,5%) preferia que o profissional fosse atencioso durante o
atendimento do que eliminasse a sua dor. Apenas um paciente escolheu a
opção de expectativa de um profissional que eliminasse a dor. Nenhum
paciente escolheu a opção de um profissional que eliminasse a dor ainda que não fosse atencioso. E 57,5% dos pacientes identificaram que o
atendimento por outros profissionais de saúde além do médico poderia ser
fator de melhora de sua dor, sendo o terceiro fator mais identificado, atrás
de melhora da saúde e ajuda financeira.
O estudo de Miceli1 revelou que também o médico (ou outro
profissional) pode interferir na modulação das experiências de dor do
paciente com câncer já que 84,2% dos pacientes acreditavam na influência
do comportamento do profissional na melhora da dor, sobretudo os
pacientes que não se julgavam bem informados sobre a dor e aqueles que
estavam em tratamento oncológico no período entre 1 e 5 anos, fase de
expectativa de cura e de medo de recidiva e metástase. Já 20,8%
acreditavam na influência do comportamento do profissional na piora da
dor, mais citada pelos pacientes com nível bom/ótimo de escolaridade e
pelos insatisfeitos com as informações sobre a dor.
Considerações finais
Quando a dor é bem tratada em todas as suas dimensões, ocorre não
somente a diminuição de sua intensidade, e até da frequência e da dosagem
de medicação, mas também um aumento de autoconfiança, esperança,
autoestima, sentimento de segurança, assim como uma melhora na relação
com a equipe e com a família. Contudo, o tratamento eficaz começa pela
boa qualidade da comunicação entre médico e paciente, e dela depende.
De acordo com Miceli,1 a efetiva comunicação médico-paciente,
sobretudo quando este tem câncer e dor, influencia o comportamento dos
pacientes e o seu bem-estar, como a satisfação (de ambos) com o cuidado, a
adesão ao tratamento, a compreensão e a fixação da informação médica, o
enfrentamento da doença, a qualidade de vida e o status de saúde,
reduzindo as angústias do paciente e o estresse da família e da equipe,
evitando as investigações desnecessárias, os tratamentos inadequados, o
abandono do tratamento e o litígio entre eles.
Todavia, como dizem Street Jr. et al.,28 a comunicação é interconectada,
pois a maneira como o médico se comunica com o paciente depende de suas
características, das características do paciente e do seu estilo de
comunicação. Os médicos são mais centrados nos pacientes percebidos como melhores comunicadores, mais satisfeitos e mais prováveis de
aderirem às recomendações. No entanto, os pacientes de médicos mais
informativos, respeitosos, que lhes permitem ser participativos e lhes dão
suporte, são mais satisfeitos e aderentes, além de mostrarem melhores
resultados no seguimento.
Para Miceli,1 a comunicação é um processo de troca, de mútua
influência em que cada um precisa estar disposto a abrir-se para o outro e
favorecer a abertura deste. Tanto para cuidar como para ser cuidado, é
preciso haver afeto, respeito às diferenças, curiosidade, tolerância,
humildade e negociação entre as partes. A relação médico-paciente, por sua
complexidade, é feita de laços e de “nós”. Precisamos desenvolver maneiras
de construir e apertar os laços sem que eles se transformem em nós. O medo
de falhar com o outro, a impotência, a onipotência, a cegueira às
subjetividades e aos contextos e diversos problemas na comunicação são
“nós” frequentemente trançados na relação médico-paciente, de parte a
parte. A confiança, o respeito, a franqueza e a generosidade são laços que
possibilitarão uma relação de responsabilidades, saberes, poderes e deveres
compartilhados.
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