As Aventuras do Bom Soldado Švejk
3 - As aventuras de Švejk em Királyhida
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Švejk fez cara de mártir.
— Como se alguma vez eu o tivesse envergonhado! O tenente Lukáš suspirou.
— Tenho certeza — insistiu Švejk — de que nunca o envergonhei e se
alguma vez aconteceu alguma coisa foi por acaso, por pura determinação divina, como dizia o velho Vaníček de Pelhřimov quando estava cumprindo sua trigésima sexta pena. Eu nunca fiz nada que o prejudicasse, pelo menos conscientemente, meu tenente. Sempre quis fazer tudo para o seu bem e não é minha culpa se nem o senhor nem eu tiramos nunca nenhum proveito de nada, mas só tormento e tortura.
— Não choramingue tanto, Švejk — disse o tenente Lukáš com ternura
quando estavam se aproximando do vagão do Estado-Maior —, eu tomarei as devidas providências para que possa voltar a trabalhar comigo.
— Humildemente, senhor, não estou choramingando. É que lamento de fato
que ambos sejamos as pessoas mais desgraçadas desta guerra e que nenhum de nós tenha culpa de nada. Que destino mais horrível o nosso, e com mais motivo ainda quando penso que sou sempre solícito!
— Se acalme, Švejk!
— Humildemente, senhor. Se não fosse uma insubordinação, diria que é
impossível me tranquilizar; mas como cumpro ordens, sou obrigado a dizer que já estou absolutamente tranquilo.
— Então suba no vagão, Švejk. — Humildemente, senhor tenente, já estou subindo.
No acampamento militar de Most nad Litavou reinava o silêncio da noite. Nos barracões da tropa os soldados tremiam de frio, enquanto nos alojamentos dos oficiais era necessário abrir as janelas porque os quartos estavam superaquecidos.
De tempos em tempos se ouviam os passos dos patrulheiros que combatiam
o sono caminhando para cima e para baixo no meio dos vários objetos que estavam sob sua guarda.
Lá embaixo, em Most nad Litavou, brilhavam as luzes da imperial e real
fábrica de conservas de carne, onde se trabalhava noite e dia, aproveitando todo tipo de sobras. O vento que soprava em direção às aleias do acampamento militar arrastava toda a pestilência dos tendões podres, cascos e ossos que eram usados na preparação de sopas em conserva.
De um pavilhão abandonado, onde em tempos de paz algum fotógrafo havia
retratado os soldados que passavam sua juventude nos barracões de tiro ao alvo do vale do Litava, era possível ver a luz vermelha do bordel U Kukuřičného Klasu, que o arquiduque Štěpán honrara com sua visita no ano de 1908, durante as grandes manobras de Sopron. Considerado o melhor prostíbulo da região, era lá que os oficiais se reuniam todos os dias. Os soldados rasos e os voluntários, proibidos de frequentá-lo, iam ao Růžového Domu, cujas luzes verdes também eram vistas do estúdio fotográfico abandonado.
Na verdade, ali já se manifestava uma diferenciação de classes semelhante a
que haveria depois no front, onde a monarquia não podia oferecer a suas tropas nada além de bordéis móveis, os denominados “pufes”. Havia, pois, um pufe imperial e real para os oficiais e um pufe imperial e real para a tropa.
Most nad Litavou resplandecia tanto como, no outro lado da ponte,
Királyhida, Cisleitânia e Transleitânia.37 Nestas duas cidades, na austríaca e na húngara, se apresentavam orquestras de ciganos, as janelas dos cafés e dos restaurantes brilhavam, a gente cantava e bebia. A burguesia local e os funcionários dos escritórios levavam suas mulheres e filhas adultas aos cafés e restaurantes, e Most nad Litavou e Királyhida não eram mais do que um grande bordel.
No campo, em um barracão destinado aos oficiais, Švejk esperava o tenente
Lukáš, que à noite fora ao teatro e ainda não voltara. Švejk estava sentado na cama preparada para o tenente e diante dele estava sentado, em cima da mesa, o ordenança do major Wenzl.
O major havia voltado ao seu regimento depois que ficara patente sua
absoluta inaptidão nas batalhas do Drina, na Sérvia. Diziam que mandara destruir uma ponte flutuante quando a metade de seu batalhão ainda estava na outra margem. Depois foi designado para comandar o campo de tiro de Királyhida, onde também se encarregava dos assuntos financeiros do acampamento. Entre os oficiais corriam boatos de que agora o major Wenzl se recuperaria. Os quartos de Lukáš e de Wenzl ficavam no mesmo corredor.
Mikulášek, o ordenança do major Wenzl, um homem de baixa estatura com
o rosto marcado pela varíola, balançava as pernas e xingava:
— Acho estranho que o bastardo do meu velho ainda não tenha voltado.
Gostaria de saber por onde meu velhinho andou a noite inteira. Se pelo menos tivesse me deixado a chave do quarto, me deitaria na cama e fumaria. Tem vinho de sobra.
— Dizem que rouba — disse Švejk, fumando calmamente os cigarros do
tenente, porque Lukáš o proibira de fumar cachimbo no quarto. — Você deve saber alguma coisa a respeito de onde consegue vinho.
— Eu vou aonde me manda — disse Mikulášek com voz débil. — Quando
me entrega a autorização para pegar o rancho destinado ao hospital, eu vou e levo tudo para sua casa.
— E se lhe ordenasse que roubasse a caixa do regimento, o que você faria?
— perguntou Švejk. — Fica se queixando atrás das paredes, mas na frente dele treme como uma folha.
Os olhos pequenos de Mikulášek piscaram. — Iria pensar.
— Não há nada a pensar, pirralho de merda! — gritou Švejk, mas em
seguida se calou porque a porta foi aberta e o tenente Lukáš entrou. Saltava à vista que estava de excelente humor, pois seu quepe estava torto.
Mikulášek ficou tão assustado que se esqueceu de pular da mesa; bateu
continência sentado, esquecendo que não estava usando o quepe.
— Humildemente, senhor, posso dizer que está tudo em ordem — disse
Š vejk, adotando a postura militar determinada pelos regulamentos, mas com o cigarro na boca.
O tenente Lukáš não se deu conta, porque se encaminhou diretamente a
Mikulášek. Com os olhos fora de órbita, este seguia cada movimento do tenente, com as mãos nas têmporas e sem descer da mesa.
— Tenente Lukáš — apresentou-se o superior de Švejk, se aproximando de
Mikulášek com passo inseguro —, e você, como se chama?
Mikulášek continuava em silêncio. Lukáš colocou uma cadeira diante da
mesa em que Mikulášek estava sentado, sentou-se e disse, olhando para cima:
— Švejk, me traga o revólver de serviço que está na maleta. Enquanto Švejk procurava a maleta, Mikulášek continuava em silêncio e se
limitava a olhar, assustado, para o tenente. Se se deu conta naquele momento de que estava sentado na mesa, certamente esta descoberta deve ter lhe causado um espanto ainda maior, levando-se em conta, sobretudo, que seus pés tocavam os joelhos do tenente sentado.
— Porra, como você se chama, homem? — gritou o tenente, olhando para
Mikulášek.
Mas este continuou calado. Conforme explicou mais tarde, quando o tenente
entrou de repente no quarto, se viu tomado por uma espécie de paralisia. Queria descer da mesa e não conseguia, queria responder e não conseguia, queria bater continência e não conseguia.
— Humildemente, senhor — disse Švejk. — O revólver não está carregado. — Então carregue-o, Švejk! — Humildemente, senhor, não temos mais nenhuma bala e além disso terá
certo trabalho em matá-lo assim sem mais nem menos, em cima da mesa. Vou me permitir fazer uma observação: é Mikulášek, o ordenança do major Wenzl. Sempre perde a fala quando vê um oficial. Em geral tem vergonha de falar. É um pirralho de merda, sempre lhe disse. O major Wenzl costuma deixá-lo no corredor quando vai à cidade e o pirralho fica passando da barraca de um ordenança à de outro. Se tivesse algum motivo para ficar assustado, bem, mas não fez nada de errado!
Švejk cuspiu e tanto por seu tom de voz como pelo fato de que havia falado
de Mikulášek como se fosse um objeto, na terceira pessoa, pôde se perceber que tinha um desprezo absoluto pela covardia do ordenança do major Wenzl e por seu comportamento, indigno de um militar.
— Permita-me que o cheire — acrescentou Švejk. Švejk arrastou Mikulášek, que não parava de olhar, abobalhado, para o
tenente. Colocou-o no chão e cheirou suas calças.
— Ainda não, mas está começando — afirmou. — Expulso-o daqui? — Expulse-o, Švejk!
Švejk acompanhou o trêmulo Mikulášek ao corredor, fechou a porta atrás
dele e lhe disse:
— Eu salvei sua vida, seu panaca. Quando o major Wenzl voltar quero que
me traga uma garrafa de vinho. Não estou brincando. Salvei sua vida de verdade. Quando meu tenente está bêbado, fica mau. Então só eu sei lidar com ele e mais ninguém.
— Eu sou...
— Você é um merda — disse Švejk com desprezo. — Sente-se no batente e
espere pelo seu major Wenzl.
— Basta de se ausentar — com estas palavras o tenente Lukáš acolheu Švejk.
— Quero falar com você. Não fique nesta estúpida posição de sentido. Sente-se, Švejk, e pare de responder sempre “humildemente”. Cale-se e ouça bem. Sabe onde fica a Sopronyi utcza em Királyhida? E não quero ouvir “humildemente, senhor, não sei”. Se não sabe, diga que não sabe e basta. Escreva em um papel: Sopronyi utcza, número 16. Nessa casa há uma serralheria. Sabe o que é uma serralheria? Sabe? Muito bem. Pois a serralheria pertence a um húngaro chamado Kákonyi. Sabe o que significa húngaro? Sabe ou não sabe? De acordo, sabe. Na sobreloja há um apartamento e é ali que vive Kákonyi. Você sabia? Não? Pois agora já sabe, pois estou lhe dizendo. É suficiente? Bem. Se não acha suficiente, mandarei trancá-lo no cárcere. Anotou o nome? Chama-se Kákonyi. Bem. Então amanhã, antes das dez, você irá à cidade, procurará a casa, subirá ao primeiro andar e entregará em mãos esta carta à senhora Kákonyi.
O tenente Lukáš abriu a carteira e, bocejando, entregou a Švejk um envelope
branco sem endereço.
— É um assunto de extrema importância, Švejk — continuou dizendo. — A
prudência nunca é excessiva, por isso não escrevi o endereço. Confio plenamente em você e espero que entregue esta carta sem nenhum problema. Anote que a senhora se chama Etelka; escreva, então: senhora Etelka Kákonyi. Repito-lhe que, aconteça o que acontecer, terá que entregar em mãos a carta à senhora com a máxima discrição e esperar pela resposta. Na carta é dito que você esperará pela resposta. Algo mais?
— Se não me derem a resposta, meu tenente, o que devo fazer? — Então lhe recordará que tem de responder a qualquer custo — disse o
tenente, voltando a bocejar com a boca completamente aberta. — Mas agora vou para a cama, hoje estou de fato cansado. Bebi muito. Suponho que, depois de uma tarde e de uma noite como estas, qualquer pessoa também estaria cansada.
A princípio o tenente Lukáš não tivera a intenção de se demorar em nenhum
lugar. Ao entardecer havia saído do acampamento apenas para ir a Királyhida, ao teatro húngaro da cidade, onde estava sendo representada uma opereta húngara protagonizada por atrizes judias gordinhas, cujo maior atrativo era que quando dançavam levantavam as pernas e se via que não usavam nem anáguas nem calcinhas; e além disso, ainda para maior prazer dos oficiais, estavam raspadas como as tártaras. Os do poleiro não tiravam nenhum proveito desta vista; no entanto, os oficiais de artilharia sentados na plateia lambiam os beiços e ainda com mais motivo porque para seu maior deleite observavam o espetáculo com binóculos.
Toda aquela interessante porcaria, no entanto, deixou o tenente Lukáš
indiferente, porque o binóculo que havia pedido emprestado não era acromático, de modo que, em lugar das coxas via umas quantas manchas violetas em movimento.
Mais que o espetáculo em si, seu interesse se concentrou em uma mulher
que havia visto durante o primeiro entreato. Ela arrastou seu acompanhante, um indivíduo de meia-idade, até a chapelaria enquanto afirmava que iriam imediatamente para casa, que ela se recusava a ficar vendo coisas como aquela. Disse-o em alemão, em voz alta, mas seu acompanhante respondeu em húngaro:
— Sim, meu anjo, vamos embora, concordo que é um espetáculo
repugnante.
— Uma porcaria! — exclamou ela em alemão quando o homem a estava
ajudando a vestir o casaco que costumava usar para ir ao teatro.
Os olhos da mulher ardiam de desprezo; grandes olhos negros que se
harmonizavam com sua bela figura. Enquanto dizia isso olhou para o tenente Lukáš e voltou a exclamar com indignação: “Que nojo!” Isso fora suficiente para dar início a um breve romance.
Depois de perguntar à funcionária da chapelaria, o tenente Lukáš ficou
sabendo que se tratava do casal Kákonyi e que o senhor tinha no número 16 da Sopronyi utcza uma loja de ferragem.
— Vive com a senhora Etelka no primeiro andar — acrescentou a
funcionária com a exatidão de uma experiente alcaguete. — Ela é austríaca de Šopron e ele é húngaro, aqui tudo se mistura.
O tenente Lukáš pegou seu casaco na chapelaria e se dirigiu à cidade. No
grande café U Arcivévody Albrechta encontrou alguns oficiais do 91º Regimento.
Mal conversou, mas bebeu alguns copos enquanto pensava o que escreveria
àquela preciosa moralista que, decididamente, o atraía mais do que todas aquelas macacas de palco, como as chamavam os outros oficiais.
Tomado por um humor excelente mudou-se para o pequeno café U Křiže sv.
Š těpána, onde se acomodou em uma chambre separée de onde expulsou uma romena que se ofereceu para se despir e disse que podia fazer com ela o que quisesse. Pediu uma pena, tinta, papel de carta e uma garrafa de conhaque e, depois de refletir um pouco, escreveu a seguinte missiva que, uma vez terminada, considerou a carta mais graciosa que jamais escrevera:
Prezada senhora!
Ontem, no Teatro Municipal, assisti ao espetáculo que a deixou indignada com razão. Durante todo o primeiro ato, observei a senhora e seu marido. Dei-me conta de que...
“Vamos ao ponto” disse, para si o tenente Lukáš. “Como um homem como
esse pode ter o direito de ter uma mulher tão bonita! Parece um babuíno careca!”
Continuou escrevendo:
... seu marido contemplava com grande complacência as obscenidades apresentadas no palco e que tanto repugnaram a senhora. Certamente o que se via naquele teatro não era arte e sim uma asquerosa exploração dos mais íntimos sentimentos humanos.
“Que peitos tem essa mulher!”, disse para si mesmo o tenente Lukáš. “Vamos
ao ponto!”
Desculpe que me dirija à senhora com tanta sinceridade, mesmo sem conhecê-la. Em minha vida vi muitas mulheres, mas nenhuma delas me causou uma impressão tão profunda como a senhora, porque suas opiniões e sua escala de valores coincidem plenamente com as minhas. Estou convencido de que seu marido é um egoísta que a arrasta...
“Não, isto não funciona”, pensou o tenente Lukáš. Riscou a palavra “arrastar”
“Não, isto não funciona”, pensou o tenente Lukáš. Riscou a palavra “arrastar”
e escreveu:
... a leva, por capricho próprio, para ver espetáculos que atendem exclusivamente ao seu próprio gosto. Sou partidário da franqueza, querida senhora. Com isto não quero interferir em sua vida privada. Só gostaria de poder conversar com a senhora confidencialmente sobre a arte pura...
“Nos hotéis daqui não será possível”, pensou o tenente Lukáš. “Terei de levá-
la a Viena. Pedirei permissão.”
Por isto me permito, distinta senhora, pedir-lhe que me conceda uma entrevista para que possa conhecê-la melhor, sempre com todo o respeito. Tenho certeza de que não negará isso a um homem a quem, em brevíssimo tempo, esperam todas as penosas peripécias bélicas e que, caso a senhora seja tão amável de lhe conceder um encontro, no alvoroço da guerra conservará a belíssima recordação da alma que tão bem o compreendeu. Sua decisão será para mim uma ordem, sua resposta será um elemento crucial em minha vida.
Assinou, terminou o conhaque e pediu outra garrafa. Enquanto ia
saboreando uma taça atrás da outra, releu a carta, e quando chegou às últimas linhas, a cada frase lágrimas brotaram de seus olhos.
* * *
Às nove da manhã, Švejk despertou o tenente Lukáš.
— Humildemente, enquanto o senhor dormia passou a hora de se
apresentar ao serviço e chegou minha hora de ir levar sua carta a Királyhida. Tentei despertá-lo às sete, depois às sete e meia, e então às oito, quando as tropas marchavam em direção ao campo de manobras, mas o senhor não deu sinais de vida, só se virou para o lado. Senhor tenente... Ei, senhor tenente!
O tenente Lukáš, resmungando, se esforçou para se virar, mas não conseguiu
porque Švejk começou a sacudi-lo sem piedade, enquanto gritava:
— Senhor tenente, vou levar a carta a Királyhida!
O tenente bocejou.
— A carta? Ah, sim, minha carta. Seja discreto, de acordo? É um segredo
entre nós. Retire-se...
O tenente se enrolou de novo na manta que Švejk acabara de lhe tomar e
continuou dormindo. Švejk se dirigiu a Királyhida.
Não teria sido tão difícil achar a Sopronyi utcza número 16 se não tivesse
Não teria sido tão difícil achar a Sopronyi utcza número 16 se não tivesse
encontrado por acaso o velho sapador Vodička, que estava servindo a um regimento da Estíria, cujo quartel ficava perto do acampamento. Há alguns anos Vodička vivera na rua Na Bojišti, em Praga, de maneira que quando se encontraram em Most nad Litavou foi natural irem tomar uma taça juntos; escolheram a taverna U Černého Beránka, onde trabalhava a famosa garçonete Růženka, uma tcheca com a qual todos os voluntários tchecos do acampamento haviam contraído dívidas.
Nos últimos tempos, o sapador Vodička, um velho espertalhão, passara a
cortejá-la. Ele tinha uma lista de todos os batalhões que abandonariam o acampamento em direção ao front e abordava, no momento adequado, os voluntários tchecos para lhes lembrar que não podiam desaparecer na voragem da guerra sem antes liquidarem suas dívidas.
— Aonde mesmo está indo? — perguntou Vodička quando acabaram de
tomar o primeiro copo de um bom vinho.
— É segredo — respondeu Švejk —, mas a você, um velho amigo, posso
confiá-lo.
E lhe contou tudo detalhadamente. Vodička afirmou que era um velho
sapador, que não podia abandonar seu amigo Švejk e que iria levar a carta com ele.
Divertiram-se muito falando dos velhos tempos e quando, depois das oito da
noite, saíram de U Černého Beránka, achavam que tudo estava correndo bem.
Além disso, tinham na alma uma firme certeza de que não tinham medo de
ninguém. A caminho do número 16 da Sopronyi utcza, Vodička disse que tinha muito ódio dos húngaros. Relatava sem parar, com riqueza de detalhes, as brigas que tivera com eles, quando e onde haviam brigado ou por qual motivo alguma coisa o impedira de se envolver em uma briga com eles.
— Uma vez, em Pausdorf, onde nós sapadores havíamos ido beber vinho,
agarramos um desses húngaros pelo pescoço. Eu quis lhe dar um soco na cabeça, no escuro, porque, quando a confusão começou, quebramos a lâmpada, e de repente ele começou a gritar: “Antón, ora, sou eu, Purkrábek, do 16º da Territorial!” Não nos enganamos por um triz! No entanto, há três semanas demos uma bela surra em um desses palhaços húngaros no lago de Neusiedler, quando fomos dar um passeio. Em uma aldeia ali perto está estacionado um destacamento de metralhadoras dos tais dos hussardos. Por azar fomos parar em um desses bares onde dançam czardas feito loucos e
estavam cantando: “Uram, uram, bíró uram” ou “Léanok, léanok, léanok a faluba”.38 Sentamos diante deles e enquanto deixávamos os cinturões na mesa na nossa frente nos dizíamos: “Já vamos lhes mostrar seu léanok, malditos!” Um tal de Mejstřík, que tem umas patas imensas, do tamanho da Bílá Hora, sim, a montanha, se ofereceu de repente para ir dançar e tirar da roda a garota de um daqueles canalhas húngaros. As garotas eram bonitas, tinham belas pernas e bundas grandes, coxas fantásticas e olhos maliciosos, e aqueles pulhas se apertavam contra elas, dava pra ver que as meninas tinham peitos fartos duros como bolas de borracha, que estavam se divertindo e sabiam com quem estavam. Então nosso Mejstřík pulou no meio da roda e tentou tomar a garota, a mais bonita, de um dos canalhas húngaros.
“O sujeito começou a protestar em sua língua incompreensível e Mejstřík lhe
deu um soco no queixo. O cara caiu e nós pulamos no meio dos húngaros com os cinturões enrolados na mão para que as baionetas não escorregassem. Eu gritei: ‘Não importa se é inocente ou culpado, batam à esquerda e à direita’, e o pau comeu. Os jovens começaram a pular pela janela, mas nós os agarrávamos pelos pés e os puxávamos de volta para o salão. Quem não era dos nossos apanhou. O prefeito e um guarda tentaram intervir, mas apanharam pelas costas. O taverneiro também apanhou porque começou a xingar em alemão, gritando que havíamos estragado a festa. Depois ainda demos uma batida na aldeia procurando os que tentavam se esconder; encontramos, por exemplo, em uma granja, na parte mais baixa da aldeia, um sargento enterrado no feno; quem o denunciou para a gente foi a namorada dele, porque havia dançado com outra. A garota ficou louca pelo nosso Mejstřík e foi embora com ele pelo caminho que leva a Királyhida, ao lado da floresta, onde havia belas pilhas de feno. Levou-o a uma delas. Depois lhe pediu cinco coroas e recebeu uma bofetada. Mejstřík nos alcançou quando já estávamos entrando no acampamento e disse que achava que as húngaras eram fogosas, mas que aquela víbora peçonhenta havia se deitado e ficado assim, como um pedaço de pau, e, não satisfeita com isso, ainda por cima falava em húngaro. Enfim, todos os húngaros são gentalha”, concluiu Vodička.
Švejk observou:
— Mas os húngaros não têm culpa de serem húngaros. — Como não! — se irritou Vodička. — Todos têm, não diga besteira.
Gostaria que tivessem puxado suas orelhas como fizeram comigo no primeiro dia em que cheguei aqui para fazer os cursinhos. Naquela mesma tarde reuniram todo mundo como se fôssemos um rebanho de gado, nos levaram à escola e um daqueles canalhas começou a desenhar e a nos explicar o que são blindagens, como se colocam alicerces, como se medem. Depois disse que quem não fizesse um desenho igual ao dele, na manhã seguinte seria preso e amarrado. Eu pensei: “Meu Deus do céu, eu me matriculei nesses cursinhos para escapar do front ou para passar a noite desenhando em um caderno com um lápis como se fosse um colegial?” Fiquei com tanta raiva que não conseguia parar sentado, não conseguia nem olhar para aquele imbecil que nos dizia todas aquelas sandices. Queria estar em Királyhida e a saudade estava prestes a me levar a quebrar tudo, tamanha era a raiva que estava sentindo. Só pensava em uma taverna tranquila de aldeia onde pudesse me embebedar e armar confusão, dar uma porrada em alguém e voltar para casa desafogado. O homem faz e Deus desfaz. A certa distância da aldeia, perto do rio, no meio de um jardim, encontrei um bar tão tranquilo que mais parecia uma igreja, como se o tivessem feito sob medida para se armar um escândalo. Havia apenas dois clientes, conversando em húngaro. Me irritei, e por isso bebi mais e fiquei bêbado mais cedo do que havia previsto. Com o porre, não vi que ali ao lado havia outra taverna e não percebi que enquanto eu estava bebendo chegaram uns oito hussardos, que se atiraram em cima de mim quando comecei a dar porrada naqueles primeiros clientes. Os malditos hussardos começaram a me atacar e a me perseguir pelos jardins. Só consegui encontrar o caminho de casa de manhã e depois tive que ir à enfermaria. Como desculpa disse que havia caído em uma olaria. Me deixaram uma semana enrolado em um lençol molhado para que as minhas costas não ficassem inflamadas. Não, meu amigo, não lhe desejo que caia nas mãos desses sem-vergonha! Não são homens, são bestas!
— Quem semeia vento colhe tempestade — disse Švejk. — Você não deve
achar estranho que tivessem se aborrecido, pois tiveram que abandonar o vinho na mesa e persegui-lo pelos jardins no escuro. Teria sido melhor se tivessem acertado as contas com você na taverna e depois o tivessem expulsado. Para eles e também para você teria sido melhor se todos tivessem acabado sentados em torno da mesa. Eu conheci, em Praga, no bairro de Libeň, um vendedor de aguardente, um tal de Paroubek, em cuja
taverna um arameiro tomou um porre descomunal de jalovcová39 e começou a protestar dizendo que a jalovcová era fraca e que mesmo que trabalhasse cem anos e gastasse todo o dinheiro que ganhasse com aquela bebida e a tomasse de um gole permaneceria bem lúcido, capaz de caminhar sobre uma corda frouxa carregando o taverneiro nos braços.
Depois ainda disse a Paroubek que era um huncút40 e uma besta de Šaščín,41 um palhaço e um monstro. Paroubek segurou-o, deu-lhe uma surra com seus arames e suas ratoeiras, expulsou-o e o perseguiu com a bengala que usava para subir e descer as persianas; correram até o hospital dos inválidos do bairro de Karlín, depois para cima, na direção de Žižkov, e, passando pelos crematórios judeus, chegaram a Malešice. Ali, finalmente, quebrou a bengala, quando ainda estava batendo nele, de modo que pôde voltar a Libeň. No entanto, no meio de toda aquela faina se esqueceu de que ainda havia clientes na taverna e imaginou que os sem-vergonha estariam se servindo à vontade. E confirmou que de fato assim havia sido. As persianas estavam semifechadas e diante delas, de guarda, dois policiais bêbados que haviam aparecido para restabelecer a ordem. A clientela bebera quase tudo, na rua havia um barril de rum vazio, e Paroubek encontrou embaixo do balcão dois homens completamente embriagados que os policiais não tinham visto. Quando os puxou dali, não quiseram lhe pagar mais de dois cêntimos cada um, porque, segundo disseram, não tinham consumido mais do que isso. Isso acontece quando o sujeito tem a cabeça oca. É como na guerra: primeiro vencemos o inimigo, depois o perseguimos e ao final não nos restam forças para bater em retirada.
— Me lembro muito bem daqueles homens — replicou Vodička. — Se um
daqueles hussardos caísse nas minhas mãos, eu acertaria as contas com ele direitinho. Nós, os sapadores, ficamos irracionais quando nos irritamos. Não somos como aquelas
tais moscas de ferro.42 No front, em Přemyšl, havia um capitão chamado Jetzbacher, um miserável como há poucos debaixo do sol. Esse homem tornou nossa vida impossível, até o ponto que um tal de Bitterlich, um alemão da nossa companhia, mas excelente pessoa, se suicidou com um tiro por culpa do capitão. De maneira que decidimos que, quando começassem a silvar as balas russas, a vida do capitão Jetzbacher também terminaria. Quando os russos começaram a disparar contra a gente, no meio do tiroteio lhe enfiamos cinco balas. O desgraçado continuou vivo, como se fosse um gato, e por isso tivemos que liquidá-lo com mais um par de tiros; só deixou escapar um grunhido engraçado. Foi muito divertido.
Vodička riu.
— No front coisas como essa acontecem todos os dias. Um amigo meu que
agora também está com a gente me contou que, quando estava lutando em Belgrado como soldado de infantaria, sua companhia matou seu tenente no meio da batalha. Aquele também era um desgraçado que havia matado a tiros dois soldados durante a marcha porque não conseguiam continuar caminhando. Parece que aquele homem, quando estava prestes a morrer, começou de repente a assoviar o sinal de retirada. Os soldados morreram de rir.
Conversando de maneira tão instrutiva, Švejk e Vodička chegaram a
Sopronyi utcza, 16, justo diante da loja de ferragens do senhor Kákonyi.
— Será melhor me esperar aqui — disse Švejk diante da passagem. —
Subirei correndo ao primeiro andar para entregar em mãos a carta à senhora e pegar a resposta. Volto em seguida.
— Como quer que eu o deixe? — disse Vodička surpreso. — Já cansei de
lhe dizer que você não conhece os húngaros ou não está me ouvindo? É necessário ter muito cuidado com eles. Eu darei uma boa porrada no seu húngaro.
— Ouça, Vodička — disse Švejk, muito sério. — Não se trata de nenhum
húngaro, mas de sua mulher. Eu lhe expliquei tudo na taverna, diante daquela garçonete tcheca, contei que estou levando uma carta do meu tenente e que isso é um grande segredo. Meu tenente insistiu que ninguém deve ficar sabendo, e a própria garçonete também disse que seria melhor ir com cuidado porque o assunto é muito delicado. Ninguém deve saber que meu tenente se corresponde com uma mulher casada. Você mesmo concordou com a cabeça. Eu já lhe disse, cumpro as ordens do tenente ao pé da letra, e de repente você começa a insistir que quer subir comigo!
— Você ainda não me conhece, Švejk — respondeu o velho sapador Vodička
também muito seriamente. — Eu disse que não o abandonarei, e minha palavra vale por cem. Quando são dois, é sempre mais seguro.
— Terei que arrancar essa ideia da sua cabeça, Vodička. Você sabe onde fica a
rua Neklanova em Višehrad? Ali tinha uma oficina de um tal de Voborník, um chaveiro. Era um homem honrado, mas um dia convidou um amigo com quem havia ido tomar uns tragos para dormir em sua casa. Pois bem, teve que ficar de cama por muitos dias e sua mulher repetia, cada vez que cuidava da ferida que tinha na cabeça: “Você está vendo, meu querido Tonda; se tivesse vindo sozinho, só teria ouvido quatro gritos e nada mais; eu não teria atirado a balança na sua cabeça.” E depois, quando ele já conseguia falar, respondeu: “Você tem razão, mamãe, na próxima vez, quando for a algum lugar, não arrastarei ninguém para casa.”
— Só faltava que esse húngaro quisesse atirar alguma coisa na nossa cabeça.
Se tentar, eu o agarrarei pelo pescoço e o atirarei do primeiro andar escada abaixo de tal maneira que voará como estilhaços. Com os sem-vergonha dos húngaros se deve agir com firmeza, não se pode brincar — irritou-se Vodička.
— Vodička, você não bebeu tanto assim. Eu bebi meio litro de vinho a mais
do que você. Não podemos armar nenhum escândalo. Sou responsável por isso. Trata-se de uma mulher.
— Então darei umas porradas na mulher, Švejk, para mim tanto faz, você
ainda não conhece o velho Vodička. Uma vez em Záběhlice, no Růžový Ostrov, uma puta se recusou a dançar comigo, dizendo que eu estava com os beiços inchados. É verdade que estavam um pouco inchados, porque eu acabara de sair de um salão de festas de Hostivař, mas imagine como me senti insultado por aquela descarada! “Vou lhe dar então, distinta senhorita, um presentinho”, falei. E lhe dei uma bofetada tal que caiu no chão e com ela caíram os copos e a mesa do pátio à qual estavam sentados seus pais e irmãos. Mas ninguém me faz tremer, nem mesmo se todo Růžový Ostrov quisesse me pegar. Havia ali uns quantos amigos meus de Vršovice que me ajudaram. Demos uma surra em cinco famílias, crianças incluídas. A confusão deve ter sido ouvida até em Michle, o bairro vizinho, e depois saiu no jornal toda a história daquela festa que homenageava uma associação beneficente de cidadãos civis de não sei que cidade. E por isso lhe digo que assim como outros amigos me ajudaram, eu sempre ajudo um amigo quando precisa ir atrás de alguma coisa. Juro por Deus que não sairei do seu lado. Você não conhece os húngaros... Não pode fazer isso comigo, me abandonar depois de tantos anos sem nos ver e ainda mais nestas circunstâncias!
— Bem, então venha comigo — disse Švejk —, mas tenha muito cuidado,
para evitar qualquer problema.
— Não se preocupe, companheiro — disse Vodička em voz baixa quando se
dirigiam à escada —, vou lhe dar uma... — e acrescentou em voz ainda mais baixa: — Você verá que o húngaro, esse não nos dará muito trabalho!
E, se na passagem estivesse alguém que entendesse tcheco, teria ouvido a
frase predileta de Vodička: “Você não conhece os húngaros...”; Vodička havia inventado esta frase em um lugar tranquilo às margens do rio Litava, entre os jardins da famosa Királyhida, rodeada de colinas que os soldados sempre recordarão, maldizendo quando pensarem nas manobras que antes e depois da Guerra Mundial tiveram de enfrentar para se adestrar teoricamente para tantas matanças e carnificinas.
Š vejk e Vodička estavam diante da porta do apartamento do senhor Kákonyi. Antes de tocar a campainha, Švejk disse:
— Você ouviu dizer alguma vez que a prudência é a mãe da ciência, Vodička? — Isso não me interessa — respondeu Vodička. — Não podemos dar a
esse homem tempo de abrir a boca...
— Mas eu não tenho que perguntar nada a ninguém, Vodička. Švejk tocou e Vodička disse em voz alta: — Um, dois, três e sairá voando pelas escadas.
A porta foi aberta e surgiu uma criada que perguntou em húngaro o que
queriam.
— Nem tudom — disse Vodička com desprezo. — Não entendo. Aprenda
tcheco, garota.
— Verstehen Sie deutsch? — perguntou Švejk. — Sim, entendo um pouco de alemão — respondeu ela. — Pois diga à senhorra que querrer falar com ela, está aqui a carta de um
senhor — continuou Švejk com seu alemão macarrônico.
— Acho estranho que você se dirija a uma porca como essa — disse
Vodička, entrando no apartamento.
No vestíbulo, fecharam a porta. Švejk limitou-se a dizer: — Está tudo bem-arrumado. Dois guarda-chuvas no cabide... Aquele
quadro do Senhor Jesus Cristo também não é ruim.
A criada saiu de um aposento onde se ouvia o tilintar de talheres em cima de
pratos e disse a Švejk em um lamentável alemão:
— A senhorra disse que non ter tempa e que o senhor dar ou dizer o que
tem.
— Pois aqui está uma carta para a senhora — disse Švejk solenemente —,
mas não diga nem uma palavra a ninguém.
Pegou a carta do tenente Lukáš. — Eu — disse apontando o dedo para si mesmo — esperar a resposta aqui.
— Por que não se senta? — perguntou Vodička, que já estava sentado em
— Por que não se senta? — perguntou Vodička, que já estava sentado em
uma cadeira ao lado da parede. — Ali você tem uma cadeira. Não vai ficar aí em pé, parecendo um mendigo. Não se rebaixe diante desses húngaros. Você vai ver como logo teremos problemas, mas eu lhe darei uma que você vai ver!
Depois de uma pausa, continuou:
— Ouça, onde você aprendeu alemão?
— Por minha conta — respondeu Švejk. De novo um momento de silêncio. Depois se ouviram ruídos e gritos no
aposento para onde a criada levara a carta. Alguém jogou um objeto pesado no chão e ouviu-se claramente que estavam atirando pratos e copos, que tudo se quebrava e alguém gritava a plenos pulmões, em húngaro, uma ladainha de maldições e blasfêmias.
— Baszom az anyádat, baszom az istenit, baszom a Krisztus Máriát, baszom
az atyádat, baszom a világot!43
A porta voou e entrou correndo no vestíbulo um indivíduo na flor da idade
com um guardanapo no pescoço agitando a carta que Švejk entregara momentos antes.
O sapador Vodička era quem estava sentado mais perto da porta; o sujeito
enfurecido se dirigiu primeiro a ele, em alemão:
— O que isto significa? Quem é o desgraçado que enviou esta carta? — Devagar — respondeu Vodička se levantando —, não grite tanto se não
quiser sair voando. E se quer saber quem trouxe a carta, pergunte ao meu companheiro aqui. Mas fale com ele educadamente ou então vai atravessar a porta num abrir e fechar de olhos.
Dessa vez coube a Švejk se convencer da extrema determinação do senhor
enfurecido com um guardanapo no pescoço que gritava besteiras a três por quatro e repetia que estavam jantando.
— Ouvimos que estar jantando — disse Švejk em seu alemão tosco, e
acrescentou em tcheco: — Poderia ter nos ocorrido que o molestaríamos inutilmente depois da refeição.
— Não se humilhe — disse Vodička. O sujeito colérico, cujo guardanapo se aguentava só por uma das pontas
depois de veementes demonstrações da arte da gesticulação, continuou dizendo que no começo havia pensado que era uma carta pedindo que hospedassem o exército naquela casa que pertencia a sua senhora.
— Aqui caber muitas soldados — disse Švejk —, mas carta não pedia isso,
como o senhor ver.
O homem segurou a cabeça com as mãos e lançou uma série de reprovações
e queixas dizendo que ele mesmo também havia sido tenente da reserva, que agora teria muito prazer em servir no exército, mas que não podia, que sofria dos rins. Que em sua época os oficiais não eram tão mal-educados a ponto de perturbar a paz de uma família e que enviaria a carta ao comando do regimento, ao Ministério da Guerra, e que a publicaria nos jornais.
— Senhor, eu mesmo escrever esta carta — disse Švejk com dignidade. —
Eu escrever, nenhum tenente. A assinatura nada, é falsa. Gosto sua mulher. Eu apaixonar dela até a medula, como disse o poeta Vrchlický. Mulher estupenda.
O homem colérico quis se atirar sobre Švejk, que continuava em pé diante
dele, tranquilo e feliz. Mas o velho sapador Vodička, que acompanhava cada um de seus movimentos, deu-lhe uma rasteira, arrancou a carta de suas mãos, que não paravam de agitar, e guardou-a no bolso. Quando o senhor Kákonyi voltou a si, Vodička o segurou, levou-o até a porta, abriu-a com uma mão e nesse momento se ouviu que alguma coisa rolava escada abaixo.
Tudo aconteceu em um instante, como quando, nos contos de fada, o diabo
carrega um homem consigo.
Do senhor enfurecido só restou o guardanapo. Švejk pegou-o e bateu
educadamente na porta do aposento do qual cinco minutos antes saíra o senhor Kákonyi e onde se ouvia o choro de uma mulher.
— Trago-lhe o guardanapo — disse Švejk com suavidade à senhora, que
chorava no sofá — para que não pisem nele. Meus respeitos.
Švejk juntou os calcanhares, bateu continência e depois saiu. Na escada não
restava nem rastro da briga. Tal como Vodička havia suposto, tudo transcorrera pacificamente. No entanto, no portão de entrada Švejk encontrou um colarinho rasgado. Dava a impressão de que ali acontecera o último ato daquela tragédia, que o senhor Kákonyi se agarrara desesperadamente à porta para que não o arrastassem para fora.
No entanto, a rua estava animada. O senhor Kákonyi fora levado à passagem
da frente, onde alguém havia refrescado seu rosto com água. No meio da rua, o velho sapador Vodička lutava como um leão com vários hussardos que defendiam seu compatriota. Vodička agitava magistralmente a baioneta atada à correia como se fosse um cutelo. E não estava sozinho. Ao seu lado lutavam uns quantos soldados tchecos de diferentes regimentos que naquele momento passavam pela rua.
Segundo afirmou mais tarde, Švejk não sabia como havia se metido na briga
e, como não tinha nenhuma arma pontiaguda, caiu nas suas mãos uma bengala de um espectador assustado.
A luta se prolongou durante um bom tempo, mas tudo o que é bom acaba.
A polícia militar chegou e levou todo mundo.
Švejk caminhava feliz ao lado de Vodička, com a bengala que o comandante
do esquadrão de prevenção declarara corpo de delito. Ia feliz, sustentando a bengala no ombro como se fosse um fuzil.
O velho sapador Vodička guardou obstinado silêncio durante todo o
caminho. Somente quando chegaram ao posto policial disse, de maneira sombria:
— Eu não lhe disse que você não conhecia os húngaros?
34 De fato, Jaroslav Hašek foi redator da revista O mundo animal (em tcheco, Svĕt zvířat). (N. do T.)
35 Čas (Tempo), editado de 1887 a 1923, foi um jornal que divulgou as ideias de T. G. Masaryk e de seu Partido Realista. Čech (Tcheco) foi um órgão da ala conservadora do Partido (Clerical) do Povo. Masaryk foi o primeiro presidente da Tchecoslováquia. Assumiu em 1918. (N. do T.)
36 Em 1912, o governo austríaco promoveu, na imprensa, uma campanha contra a Sérvia, denunciando que o cônsul honorário em Prizren, que se chamava Procházka, fora sequestrado. No entanto, não acontecera nada com ele. (N. do T.)
37 A Áustria era chamada de Cisleitânia e a Hungria, de Transleitânia, de acordo com suas posições em relação ao rio Litava. (N. do T.)
38 Canções húngaras: “Senhor, senhor, senhor Justiça” e “Garotas, garotas, garotas da aldeia”. (N. do T.)
39 Aguardente húngara de bagas de zimbro. (N. do T.)
40 “Patife” em húngaro. (N. do T.)
41 Há quem acredite que Švejk se referia à condessa Elisabeth Báthory de Čachtice (1560-1614), que assassinava virgens e se banhava em seu sangue para preservar a beleza. (N. do T.)
42 Os guardas territoriais eram conhecidos como Moscas de Ferro. (N. do T.)
43 Blasfêmias em húngaro; em tradução livre: “Foda-se a mãe, foda-se Deus, Cristo, a Virgem Maria, foda-se o pai, foda-se o mundo.” (N. do T.)