As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 21 de 30 · parte 2/3

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

3 - As aventuras de Švejk em Királyhida

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Vou mandar prendê-lo! — gritou, desesperado, o cabo. O voluntário sorriu:

— Suponho que queira mandar me prender porque acha que o ofendi. Mas

aí estaria mentindo, porque seu nível espiritual não é capaz de entender nenhuma ofensa. Além disso, aposto o que quiser que o senhor não se lembra mais de nenhuma palavra de toda nossa conversa. Se lhe disser que é um feto, certamente esquecerá a palavra, não quando chegarmos à próxima estação, mas antes de passarmos ao largo do primeiro poste telegráfico. Seu cérebro está completamente atrofiado. Não posso imaginar de nenhuma maneira que seja capaz de resumir com um mínimo de coerência o que acabou de me ouvir dizer. Afora isso, pode perguntar a quem quiser se em minhas palavras houve a menor alusão ao seu horizonte espiritual e se o ofendi de alguma maneira.

— Com certeza — confirmou Švejk. — Aqui ninguém lhe disse uma única

palavra que possa ser mal interpretada. Sentir-se ofendido sempre dá maus resultados. Uma vez fui ao café noturno Tunel e ficamos falando de orangotangos. Também estava lá um marinheiro que dizia que muitas vezes é difícil distinguir um orangotango de um cidadão barbudo, que o queixo dos orangotangos é peludo como... “como, como...”, disse, “digamos, o daquele senhor da mesa ao lado”. Todos se viraram, mas o senhor do queixo peludo foi até o marinheiro e lhe deu um bom murro e o agredido respondeu quebrando a cabeça do agressor com uma garrafa de cerveja. O senhor queixudo caiu e ficou inconsciente. Tivemos que nos despedir do marinheiro porque, depois de ter visto que por pouco não matara o homem, foi embora. Então ressuscitamos o sujeito, coisa que, definitivamente, não deveríamos ter feito, porque assim que recuperou a consciência chamou a polícia, que levou todo mundo para a delegacia, embora não tivéssemos culpa de nada. Uma vez ali, ficou insistindo que o havíamos tomado por um orangotango, que só falávamos dele. E nós dissemos que não, que não era um orangotango. E ele que sim, que ouvira a gente dizer aquilo. Pedi ao senhor comissário que lhe explicasse, por favor, do que se tratava. Então este começou a explicar com toda sua boa-fé que se tratava de um equívoco, mas o senhor não aceitou sua versão e disse ao comissário que ele não o entendia e que havia se aliado conosco. De maneira que o comissário ordenou que o prendessem para que se acalmasse. Nós queríamos voltar ao Tunel, mas não pudemos porque também fomos presos. Então você está vendo, senhor cabo, que escândalo pode ser armado a partir de um pequeno e insignificante mal-entendido. Em Okrouhlice havia um homem que se ofendeu quando em Nĕmecky Brod lhe disseram que era um píton. Há palavras que não são puníveis. Por exemplo, se lhe disséssemos que é uma ratazana, ficaria zangado com a gente?

O cabo berrou. Não se pode dizer que tivesse gritado. O ódio, a raiva, o

desespero, tudo se fundia em uma série de sons estridentes, em um concerto improvisado acompanhado pelos silvos emitidos pelo nariz do capelão adormecido.

Depois do berro, o cabo foi tomado por uma depressão absoluta. Sentou-se

no banco com seus olhos aguados e inexpressivos e fixou-os nas florestas e nas montanhas distantes.

— Senhor cabo — disse o voluntário —, agora que está seguindo com os

olhos os profusos e aromáticos bosques, me leva a pensar na figura de Dante. O mesmo rosto nobre do poeta e do homem de coração suave e de alma generosa, aberta a qualquer impulso de gentileza. Continue sentado, por favor. Esta pose lhe favorece tanto! Com que espiritualidade, sem rigidez nem disfarce, seus olhos observam a natureza! Certamente está pensando na beleza da primavera, quando no lugar deste cenário desolado estiver se estendendo por todos os lugares um tapete de flores silvestres...

— ... em torno do qual flui um riacho — acrescentou Švejk —, e o cabo,

sentado em um tronco, umedece um lápis com a saliva e escreve um poema para a revista O pequeno leitor.

O cabo permanecia em um estado de absoluta apatia enquanto o voluntário

afirmava que havia visto a escultura de sua cabeça numa exposição.

— Desculpe, cabo, o senhor não foi modelo do escultor Štursa? O cabo olhou para o voluntário e disse com tristeza: — Não.

O voluntário se esticou no banco e não disse mais nada. Os soldados da escolta jogavam cartas com Švejk; o cabo, por puro

desespero, xeretava o jogo de tempos em tempos e acabou se permitindo observar que Š vejk se equivocara ao comprar o ás de espadas e que isso era um erro. Se não o tivesse feito, teria ficado com um sete na última das mãos.

— Nas tavernas tinham o hábito de pendurar cartazes contra os

bisbilhoteiros — disse Švejk. — Recordo um: “Abelhudo, segure a boca se não quiser levar um soco.”

O trem entrou na estação, onde a inspeção devia passar pelos vagões. Parou. — Bem — disse o desapiedado voluntário olhando para o cabo com

picardia —, eis a inspeção...

E os inspetores entraram no vagão.

 

O estado-maior designara um oficial da reserva, o doutor Mráz, para comandar o trem militar.

Os oficiais da reserva eram sempre designados para tarefas insignificantes

Os oficiais da reserva eram sempre designados para tarefas insignificantes

como esta. O doutor Mráz estava enfurecido. Embora fosse professor de matemática do primeiro grau, não conseguia contar direito quantas pessoas ocupavam um único vagão. Fora isso, na última estação o número de soldados de cada vagão não coincidira com a cifra que fora indicada depois que todos embarcaram nos vagões na estação de Budějovice. Ao examinar os documentos, também achou, por mais que olhasse, que havia duas cozinhas a mais. Sentiu calafrios desagradáveis começarem a percorrer sua espinha ao constatar que os cavalos haviam se multiplicado como por arte de magia. Na lista dos oficiais, figuravam dois cadetes, e não conseguia encontrá-los por mais que os procurasse. No escritório do batalhão, localizado no primeiro vagão, procuraram inutilmente uma máquina de escrever. Esse caos lhe deu dor de cabeça, tomou três aspirinas e agora revistava o trem com uma expressão de dor no rosto.

Ao entrar no compartimento dos detidos acompanhado pelo guia, deu uma

olhada nos papéis e ouviu um relatório do cabo, que estava arrasado. Este o informou de que conduzia dois detidos e que tinha tantas e tantas pessoas sob sua responsabilidade. Checou de novo a autenticidade dos documentos e deu uma olhada em volta.

— Quem está levando com você? — perguntou com expressão severa,

apontando o capelão, que dormia de bruços e com o traseiro desafiando os inspetores.

— Humildemente, senhor — balbuciou o cabo —, é que nós, esta coisa... — Como esta coisa? — rosnou o inspetor Mráz. — Fale claramente. — Humildemente, senhor — disse Švejk no lugar do cabo —, este homem

que está dormindo em cima da barriga é um senhor capelão militar bêbado. Juntou-se a nós, entrou no vagão e, como é nosso superior, não pudemos expulsá-lo, pois seríamos acusados de insubordinação. Provavelmente confundiu o vagão do estado-maior com o dos detidos.

O doutor Mráz suspirou, examinou seus papéis e não encontrou nenhuma

referência a um capelão-mor militar que deveria ser levado de trem a Most nad Litavou. Piscou com nervosismo. Na última estação haviam se multiplicado, de repente, cavalos, e agora, inesperadamente, brotavam capelães-mores nos compartimentos dos detidos.

Não conseguiu fazer nada além de pedir ao cabo que virasse o dorminhoco

de barriga para cima porque na posição em que estava não era possível identificá-lo.

O cabo virou com grande esforço o inerte capelão-mor, que, ao acordar e ver

diante dele o oficial, disse em alemão:

— Olá, Fredy! O que há de novo? O jantar já está pronto? E em seguida fechou os olhos e se virou para a parede. O doutor Mráz viu logo que se tratava do glutão que participara da farra dos

oficiais na noite anterior, comera tudo e mais um pouco, e deixou escapar um leve suspiro.

— Por isto o enviaremos ao conselho de guerra — disse ao cabo. Quando já ia embora, Švejk o deteve. — Humildemente, senhor, este não é mais o meu vagão. Tinha que estar

encarcerado apenas até as onze, porque exatamente hoje termina a minha pena. Fui preso por três dias e faz muito tempo que passou das onze, por favor, senhor, gostaria de ser deixado na pista ou levado ao vagão de carga, que é o meu lugar, ou perante o tenente Lukáš.

— Como você se chama? — perguntou-lhe o doutor Mráz, voltando a

— Como você se chama? — perguntou-lhe o doutor Mráz, voltando a

examinar seus papéis.

— Josef Švejk, humildemente, senhor. — Hum... Então você é o famoso Švejk! — disse o doutor Mráz. — De

fato, você deveria ter abandonado o vagão às onze. Mas o tenente Lukáš me pediu que não o deixe sair antes de Most nad Litavou. Acha mais seguro; assim você não fará nenhuma besteira durante a viagem.

Quando a inspeção havia terminado, o cabo não conseguiu evitar uma

observação sarcástica:

— Então está vendo, Švejk, não lhe adiantou de merda nenhuma se dirigir à

autoridade máxima. Se quisesse, poderia ter afogado os dois.

— Cabo — disse o voluntário —, falar de merda nenhuma significa

recorrer a uma forma de argumentação mais ou menos compreensível. No entanto, uma pessoa inteligente não usaria esse tipo de vocabulário, por mais irritada que estivesse ou por mais que quisesse ofender alguém. E depois sua ameaça de que, se quisesse, poderia ter nos afogado... Por que diabo não o fez se teve oportunidade? Isso indica a magnanimidade de sua alma e uma delicadeza incomum.

— Estou farto! — pulou o cabo. — Posso enfiar os dois no cárcere! — E por que motivo, pombinho? — perguntou ingenuamente o voluntário. — Isso é um assunto meu — respondeu o cabo, adquirindo coragem. — Assunto seu! — replicou o voluntário com um sorriso. — Seu e nosso.

Como no jogo de cartas: “Uma para mim, outra para você.” Diria melhor: que o impressionou o fato de ter de comparecer diante do conselho de guerra, e essa é a razão pela qual começou a gritar com a gente, contrariando os regulamentos, naturalmente.

— Vocês são uns sem-vergonha! — disse o cabo e, recorrendo à coragem

que lhe restava, adotou uma expressão ameaçadora.

— Vou lhe dizer uma coisa, senhor cabo — disse Švejk. — Eu já sou um

velho soldado, servi antes da guerra, e posso garantir que esses insultos não servem para nada. Recordo que há muitos anos, quando estava fazendo o serviço militar, em nossa companhia havia um vagabundo, um tal de Schreiter. Estava no exército por causa da sopa. Como era cabo, fazia tempo que podia ter ido para casa, mas estava, como se diz, sentimental. Então esse sujeito ficava em cima dos soldados, grudava na gente como a merda na camisa, uma hora dizia que não estava direito, outra hora que era contra o regulamento, nos ameaçava como podia e dizia: “Vocês não são soldados, mas guardas ferroviários.” Um dia em que já estava farto, fui me queixar ao capitão da companhia. “O que você quer?”, me perguntou. “Humildemente, senhor capitão, venho apresentar uma queixa contra o nosso sargento, o senhor Schreiter. Nós somos soldados imperiais e não guardas ferroviários, como ele diz. Nós servimos ao senhor imperador e não somos meros guardiões de frutas.” “Olhe, seu verme”, me disse o capitão, “não quero voltar a vê-lo aqui”. Mas eu lhe pedi respeitosamente que me levasse ao tenente-coronel. Quando expus ao tenente-coronel que não éramos guardas ferroviários mas soldados imperiais, me impôs dois dias de prisão, mas eu pedi que me levasse ao coronel. Uma vez tendo escutado minha explicação, o coronel gritou que eu era um imbecil e que fosse para o inferno. E eu lhe disse: “Humildemente, senhor coronel, exijo que me levem ao general de brigada.” Isso o assustou, de maneira que mandou chamar o vagabundo do Schreiter ao escritório e o obrigou a me pedir desculpas diante de todo mundo por aquele guarda ferroviário. Então ele me alcançou no pátio e anunciou que a partir daquele dia não me insultaria nunca mais, mas me enviaria diretamente ao cárcere da guarnição.

“A partir de então passei a ser mais cuidadoso, mas não me serviu de nada.

Uma vez estava de sentinela no armazém, onde aqueles que haviam me precedido tinham escrito coisas na parede, ou, no mínimo, haviam desenhado uma genitália feminina ou escrito algum verso. Como não me ocorria nada, por puro tédio escrevi ‘O vagabundo do Schreiter é um imbecil’ e assinei embaixo. E o imbecil me denunciou em seguida, porque me espionava como se fosse um bloodhound. Por um infeliz acaso, justo em cima da minha frase havia outra: ‘Nós não iremos à guerra, a mandamos à merda.’ Corria o

ano de 1912 e tivemos que ir à Sérvia por causa daquele cônsul Procházka.36 Assim, pois, me enviaram diretamente a Terezín, ao tribunal territorial. Os instrutores do conselho de guerra tiraram não menos de quinze fotografias da parede do armazém com os desenhos, as frases e minha assinatura. Fizeram-me escrever dez vezes para comparar minha letra: ‘Nós não iremos à guerra, a mandamos à merda’ e quinze vezes ‘O vagabundo do Schreiter é um imbecil’. Por fim, um grafólogo me fez escrever: ‘Em 29 de julho de 1897, a cidade de Králův Dvůr sobre o Elba conheceu os horrores do impetuoso rio transbordado.’ ‘Isso não é suficiente’, disse o auditor, ‘o que importa é a palavra merda. Ditem-lhe palavras onde haja muitos emes e muitos dês’. Então me ditaram as palavras mandar, mordida, mandrágora, mandril, medo. O grafólogo estava soltando fumaça pelas orelhas e não parava de se virar para trás, onde estava parada uma sentinela com uma baioneta. Finalmente declarou que todo o material teria de ir a Viena e me ordenou que escrevesse três vezes: ‘O sol começa a esquentar, fará um calor magnífico.’ Enviaram tudo a Viena e finalmente chegaram à conclusão de que eu não era o autor das frases; no entanto, a assinatura sim era minha, coisa que reconheci. Por isso me condenaram a seis semanas, alegando que eu escrevera minha assinatura enquanto estava de guarda, e que, evidentemente, havia descumprido meu dever ao assinar na parede.”

— Isto demonstra que, apesar de tudo, não ficou sem castigo, pois você é

um criminoso — afirmou o cabo com satisfação. — Se eu estivesse no lugar daquele juiz, não lhe teria dado seis semanas, mas seis anos.

— Não seja tão cruel — interveio o voluntário —, e pense melhor no seu

próprio fim. Não faz muito tempo que os inspetores lhe comunicaram que terá de se apresentar perante o conselho de guerra. Para uma coisa dessas teria que se preparar seriamente e refletir sobre os últimos momentos de um cabo. Na verdade, o que é o senhor em comparação com o universo? Já pensou que a estrela fixa mais próxima deste trem militar está 275 mil vezes mais distante do que o Sol, de modo que sua paralaxe mede um segundo de círculo? Se o senhor fosse uma estrela fixa no universo, seria muito insignificante para que pudesse avistá-lo até mesmo o mais perfeito dos instrumentos astronômicos. Não há palavras que possam definir sua insignificância dentro do universo. Em meio ano descreveria no firmamento um arco diminuto, em um ano uma pequena elipse, tão pequena que seria impossível expressá-la com cifras. Seria impossível medir sua paralaxe.

— Nesse caso — observou Švejk —, o senhor cabo deveria estar orgulhoso

de que ninguém possa medi-lo. Mas, aconteça o que acontecer no conselho de guerra, fique tranquilo e não se aborreça, porque o aborrecimento prejudica a saúde, e em tempos de guerra não se deve adoecer, porque a guerra exige que cada um se cuide e goze de boa saúde. Se o prenderem, cabo — continuou Švejk com um sorriso plácido —, e se forem de alguma maneira injustos com o senhor, não perca o ânimo. Deixe que as pessoas digam o que quiserem e o senhor, por sua vez, também pense naquilo que tiver vontade. Conheci um carvoeiro que estava trancado comigo no começo da guerra na chefatura de Praga, um tal de Frantíšek Škvor. Havia sido detido por alta traição e mais tarde provavelmente o penduraram por causa de uma tal de Sanção Pragmática; teve azar. Quando lhe perguntaram durante o interrogatório se tinha objeções a fazer em relação à acusação, disse:

Seja como for e aconteça o que acontecer,

sempre tudo foi indo de alguma maneira,

e ainda não chegou o dia em que não possa ir indo.

“Por isto o levaram a um cubículo escuro e durante dois dias não lhe deram

nada para comer nem beber, depois voltaram a interrogá-lo e ele insistiu em sua teoria de que seja como for e aconteça o que acontecer, sempre tudo foi indo de alguma maneira, e ainda não chegou o dia em que não possa ir indo. Suponho que deve ter acabado na forca, porque fiquei sabendo que o enviaram ao tribunal militar.”

— Agora estão pendurando e fuzilando um monte de pessoas — disse um

dos soldados da escolta. — Não faz muito, no campo de manobras, nos leram um comunicado que dizia que em Motol haviam fuzilado um soldado da reserva, um tal de Kudrna; o que aconteceu foi que um oficial havia ferido com um sabre seu filho, que sua mulher carregava nos ombros quando se despediam na estação de Benešov, e Kudrna se enfureceu. Estão prendendo, sobretudo, pessoas politizadas. Também fuzilaram um jornalista na Morávia. E nosso capitão disse que esse era o destino que esperava muita gente.

— Tudo tem seu limite — disse o voluntário.

— Você tem razão — manifestou-se o cabo —, esses jornalistas, sempre

dispostos a amotinar as pessoas, merecem. No ano passado, quando eu era segundo cabo, tinha sob minhas ordens um jornalista que me chamava de ruína do exército e quando o enviava para fazer exercícios até que suasse aos jorros, protestava: “Peço-lhe que respeite o ser humano que há em mim.” Ensinei-lhe o que era um ser humano num dia em que tínhamos que fazer exercícios no chão e o pátio estava cheio de poças: levei-o a um charco cheio de barro e água e obriguei o espertalhão a cair nele até que a água o encharcou como se fosse uma piscina. E lhe disse que à tarde seu uniforme tinha de estar como se fosse novo, limpo como vidro. E ele, enquanto se limpava, não parava de grunhir e resmungar para seus botões, razão pela qual no dia seguinte visitou novamente o charco e, sob minhas ordens, teve de se chafurdar como se fosse um porco. Depois fiquei diante dele e lhe disse: “Bem, senhor jornalista, quem pode mais, a ruína do exército ou isso que você diz, o ser humano?” Era um desses intelectuais.

O cabo fitava o voluntário com ar triunfal. Depois retomou seu discurso: — Foi exatamente por culpa de tanta inteligência que perdeu os galões de

voluntário. Publicava artigos nos jornais dizendo que os soldados sofriam maus-tratos. Mas quem, em são juízo, não o maltrataria se, apesar de ser uma pessoa muito culta, não sabia desmontar o ferrolho de um fuzil nem mesmo se tivessem lhe ensinado dez vezes? Quando lhe dizia “Esquerda, volver!” ele girava a cabeça à direita e até parecia que fazia isso de propósito, como se fosse uma gralha. Durante as manobras, não sabia se tinha que pegar antes a correia ou a cartucheira. Quando lhe ensinava de que maneira tinha que fazer a mão deslizar sobre a correia quando carregasse o fuzil, batia continência como um macaco, e quando se tratava de aprender a marchar e dar voltas, não havia maneira. Tanto lhe fazia sobre que pé dava a volta, ia na dele, dava uns quantos passos, pim pam, pim pam, e só então dava a volta, e que volta! Girava como um galo preso no galinheiro e durante as marchas caminhava como alguém que tem gota ou como quando uma velha rameira dança numa festa.

O cabo cuspiu.

— Pegou de propósito um fuzil bem enferrujado para aprender a limpá-lo,

esfregou-o como faria um cachorro com uma cadela, mas nem se tivesse comprado mais dois quilos de estopa teria limpado nada. Quanto mais o esfregava, pior e mais oxidado ficava, e na inspeção o fuzil passou de mão em mão e todo mundo se perguntava, atônito, como era possível que continuasse completamente oxidado. Nosso capitão sempre lhe dizia que nunca seria um soldado, que mais lhe valia se enforcar, que estava comendo o rancho para nada. E ele ali, pestanejando atrás de seus óculos ridículos. Para ele era uma grande festa quando não ficava de castigo ou preso no quartel. Naquela época costumava escrever seus artigos para os jornais sobre o maltrato aos soldados, mas uma vez revistaram seu baú. Senhor, os livros que encontraram! Tudo eram livros sobre o desarmamento, sobre a paz entre as nações. Por causa disso o enviaram ao cárcere da guarnição e aí nos deixou em paz; no entanto, de repente voltou a aparecer no escritório, onde preferia escrever suas coisas, pois ali não tinha que se relacionar com os soldados. Foi um triste fim para um intelectual. Ele poderia ter feito carreira se, por estupidez, não tivesse perdido o direito de ser voluntário. Poderia ter chegado a tenente.

O cabo suspirou.

— Não sabia fazer nem as dobras do capote, mandava trazer de Praga

unguentos e diferentes líquidos para limpar os botões, e no entanto seus botões eram mais oxidados do que Esaú. Mas sabia falar e quando estava no escritório sempre filosofava. Já antes tinha predileção por isso. Como já disse, era o próprio “ser humano”. Uma vez, quando hesitava em que charco devia se atirar depois de ter ouvido a ordem “para baixo!”, eu lhe disse: “Como você vive falando do ser humano, até mesmo quando está no barro, lhe recordo que o ser humano foi criado a partir do barro e por isso não vejo que haja nada de ruim nele.”

Ao terminar seu discurso, o cabo parecia satisfeito e esperou para ver qual

seria a reação do voluntário. Mas foi Švejk quem tomou a palavra:

— Por esse mesmo tipo de coisa, por uma pressão como essa, há alguns

anos um soldado do 35 º Regimento, um tal de Koníček, apunhalou um cabo e depois a si mesmo. Saiu no Kurýr. O cabo tinha no corpo perto de trinta feridas, das quais mais de uma dúzia eram mortais. E como se fosse pouco, depois daquele ataque de fúria o soldado se sentou no cabo morto e apunhalou a si mesmo. Houve outro caso há muitos anos na Dalmácia, onde um cabo foi degolado e até hoje ninguém sabe quem fez aquilo. É um mistério. Só se sabe que o cabo degolado se chamava Fiala e era de Drábovna, aquela cidade perto de Turnov. Também sei de um cabo do 75º Regimento chamado Rejmánek...

Neste momento, um grande gemido procedente do banco onde o capelão

Lacina estava dormindo interrompeu o agradável relato.

O capelão despertou em toda sua magnificência e dignidade. Seu despertar

veio acompanhado pelas mesmas manifestações do despertar do jovem gigante Gargântua, segundo a descrição do velho e engraçado Rabelais.

O capelão-mor soltou um peido, arrotou e bocejou ruidosamente abrindo a

boca de orelha a orelha. Finalmente se sentou e perguntou surpreso:

— Pelo amor de Deus, onde estou?

O cabo, vendo seu superior militar acordar, respondeu com todo respeito: — Humildemente, senhor capelão, informo que está no vagão dos detidos. Um lampejo de espanto atravessou o rosto do capelão, que permaneceu por

alguns instantes sentado em silêncio, fazendo um grande esforço para pensar. Em vão. Entre o que vivera durante a noite e a manhã e o despertar no vagão, cujas janelas estavam providas de grades, havia um oceano de incerteza.

Por fim perguntou ao cabo, que continuava em pé diante dele, em atitude de

respeito:

— E por ordem de quem eu...

— Humildemente, senhor capelão, sem nenhuma ordem. O padre se levantou e começou a caminhar entre os bancos, sussurrando que

nada estava claro.

Voltou a se sentar e disse:

— Aonde estamos indo, então?

— Humildemente, a Most nad Litavou.

— E por que estamos indo a Most nad Litavou?

— Humildemente, nosso 91º Regimento foi transferido para lá. O padre começou a pensar de novo com intensidade no que acontecera:

como havia chegado ao vagão, por que estava indo para Most nad Litavou precisamente com o 91º Regimento e acompanhado por uma escolta.

Olhou ao redor, já tão recuperado de sua bebedeira que conseguiu

reconhecer o voluntário, a quem se dirigiu com uma pergunta:

— Você é uma pessoa inteligente. Pode me explicar sem rodeios e com

absoluta sinceridade como cheguei aqui?

— Com imenso prazer — disse em tom amistoso o voluntário. — De

manhã, na estação, no momento de embarcar no trem, o senhor se uniu a nós porque estava com a cabeça cheia.

O cabo fitou-o com severidade.

— Entrou em nosso vagão — continuou o voluntário — e a partir daí tudo

correu bem. Deitou-se no banco e então Švejk colocou o próprio capote embaixo de sua cabeça. Na última estação, durante a inspeção, seu nome foi incluído na lista dos oficiais presentes. Por assim dizer, foi descoberto oficialmente e por isso nosso cabo será submetido ao conselho de guerra.

— Bem, bem — suspirou o capelão —, na próxima estação terei de passar

para o vagão do estado-maior. Sabe se já distribuíram o almoço?

— O almoço só será distribuído quando chegarmos a Viena, senhor capelão

— interveio o cabo.

— Então você colocou seu capote embaixo da minha cabeça? — o capelão se

dirigiu a Švejk. — Agradeço-lhe de todo coração.

— Não é necessário, absolutamente — respondeu Švejk —, trabalhei como

deve trabalhar um soldado quando vê um superior sem nada sob a cabeça, sobretudo quando se trata de um religioso. Todo soldado deve respeitar seu superior, mesmo que este esteja um pouco calibrado. Eu tenho muita experiência com capelães militares, porque fui ordenança do capelão Otto Katz. É uma gente alegre, de bom coração.

O capelão teve um surto democrático por causa da ressaca, puxou um

cigarro e o ofereceu a Švejk.

— Fume e sopre!

Depois se virou para o cabo:

— Pelo visto, por minha culpa você terá de ir à corte marcial. Não tema, vou

salvá-lo, não acontecerá nada com você.

Dirigiu-se de novo a Švejk: — E levarei você comigo. Vai viver comigo como se estivesse em uma cama

de penas.

Então teve um novo ataque de generosidade e garantiu que recompensaria

todo mundo: compraria chocolates para o voluntário, rum para os homens da escolta, transferiria o cabo para a seção de fotografia do Estado-Maior da 7ª Divisão de Cavalaria, daria folga para todos e que ninguém o esqueceria.

Começou a repartir os cigarros de sua cigarreira, não apenas a Švejk, e

afirmou que permitiria que todos os detidos fumassem, que faria tudo o que fosse possível para que lhes aliviassem o castigo e pudessem se reincorporar à vida militar normal.

— Não quero que guardem más lembranças de mim — disse. — Conheço

muita gente e comigo não estarão perdidos. Tenho a sensação de que são pessoas decentes, amadas por Deus. Se pecaram, estão pagando com seu castigo e vejo que suportam, felizes e subservientes, o que Deus lhes enviou. Em virtude de quê — voltou-se para Švejk — você foi castigado?

— Deus me enviou um castigo, senhor capelão — respondeu bondosamente

Š vejk —, através da corte marcial do regimento, porque me atrasei, fortuitamente, a me incorporar ao meu regimento.

— Deus é justo e misericordioso — disse com solenidade o capelão-mor.

— Ele sabe a quem deve castigar, porque com isso demonstra sua clarividência e sua onipotência. E por que você está servindo aqui, voluntário?

— Porque Deus misericordioso houve por bem enviar-me um reumatismo e

eu fiquei muito envaidecido — respondeu o voluntário. — Depois de cumprir o castigo, serei enviado à cozinha.

— O que Deus dispõe, dispõe bem — disse o padre, se entusiasmando ao

ouvir falar da cozinha. — Ali um homem honrado também pode fazer carreira. Deveriam enviar à cozinha as pessoas inteligentes, devido à mistura de ingredientes, porque não depende de como se cozinha, mas de com que amor se prepara a comida, os condimentos e o resto. Consideremos, por exemplo, um molho. Uma pessoa inteligente, quando faz um molho de cebola, pega todo tipo de verduras e as refoga na manteiga, depois acrescenta especiarias, pimenta-preta, pimenta-da-jamaica, uma pitada de noz-moscada, gengibre; mas um cozinheiro normal, comum, frita a cebola e acrescenta farinha tostada em gordura. Preferiria ver você preparando o rancho dos oficiais. Sem inteligência a pessoa pode ter um emprego comum e viver sem problemas, mas é na cozinha que os dons se revelam. Ontem à noite, em Budějovice, no cassino dos oficiais, entre outras coisas nos serviram rins ao vinho Madeira. Quem os fez, que Deus lhe perdoe todos os seus pecados, era um homem culto, e também lá, na cozinha dos oficiais, há um professor de Skuteč. E comi os mesmos rins ao vinho de Madeira em um rancho para oficiais do regimento da Guarda Nacional. Usaram cominho, como quando os fazem à pimenta em qualquer taverna. E quem os fez? A que se dedicava o cozinheiro antes de ser militar? Alimentava gado em um latifúndio.

O capelão militar ficou em silêncio e depois conduziu a conversa a outros

caminhos, ao tema dos cozinheiros mencionados no Antigo e no Novo Testamento, pois naqueles tempos se preocupavam muito com o sabor da comida ao prepará-la depois dos ofícios divinos e de outras celebrações eclesiásticas. Então instou todos a cantarem alguma coisa, e Švejk soltou, inoportuno como sempre: “Vai Marina de Hodonín pelo caminho, atrás dela corre o padre com um barril de vinho.”

Mas o capelão-mor não se aborreceu.

— Se tivéssemos aqui pelo menos um pouco de rum, não seria necessário

nenhum barril de vinho — disse, sorrindo e de bom humor —, e da tal Marina também poderíamos prescindir; de qualquer maneira, trata-se apenas de um convite ao pecado.

O cabo levou com cuidado a mão ao casaco e tirou uma garrafa achatada

cheia de rum.

— Humildemente, senhor capelão — disse em voz baixa, permitindo que se

notasse até que ponto estava se sacrificando —, se não for uma ofensa...

— Não me ofenderei, rapaz — respondeu o cura, com voz iluminada,

alegremente —; beberei pela alegria de nossa viagem.

— Jesus e Maria — suspirou para si mesmo o cabo ao ver que um

profundo gole fizera desaparecer meia garrafa.

— E você, rapaz? — disse o capelão, sorrindo e piscando com malícia um

olho para o voluntário. — Vive blasfemando. Deus o castigará por isso.

O cura voltou a beber da garrafa achatada; depois, passando-a para Švejk,

ordenou imperativamente:

— Liquide-a!

— Guerra é guerra — disse Švejk bondosamente ao cabo lhe devolvendo a

garrafa vazia, coisa que aquele constatou com um brilho nos olhos, o brilho que só pode se manifestar nos olhos de um demente.

— E agora vou tirar um cochilo até Viena — disse o capelão-mor —, e, por

favor, me acordem assim que chegarmos. E você — disse, dirigindo-se a Švejk —, vá à cozinha dos oficiais, pegue talheres e me traga o almoço. Diga que é para o capelão Lacina. Procure conseguir ração dupla. Se houver knedlík, não pegue os mais duros, que não fazem bem. E me traga da cozinha uma garrafa de vinho e leve também um pote para que o encham de rum.

O capelão Lacina fuçou nos bolsos.

— Ouça — disse ao cabo —, não tenho dinheiro trocado. Me empreste um

florim. Pegue, como se chama?

— Švejk.

— Aqui está um florim de gorjeta, Švejk. Cabo, me empreste outro florim.

— Aqui está um florim de gorjeta, Švejk. Cabo, me empreste outro florim.

Olhe, Švejk, eu lhe darei o segundo florim quando me trouxer tudo assim como lhe disse. Diga também que lhe deem cigarros e charutos para mim. Se tiverem chocolate, que lhe deem uma ração para duas pessoas, e se houver enlatados, peça língua defumada e patê de fígado. Se tiverem emental, não pegue a parte que fica perto da casca e, se puder conseguir um pouco de salame húngaro, evite a ponta, prefira a carne do meio, que é mais saborosa.

O capelão militar se estirou no banco e adormeceu depois de um momento. — Acho que o senhor deve estar muito tranquilo com nossa criança

abandonada. Parece estar se preparando para encarar o mundo — disse o voluntário ao cabo depois de algum tempo, quando o capelão começou a roncar.

— Está, como se diz, desmamado, senhor cabo — disse Švejk. — Já vai

pegar a mamadeira.

Durante um momento o cabo lutou com ele mesmo. De repente perdeu a

humildade e disse com dureza:

— Está domesticado.

— Com essa história de que não tem dinheiro trocado me recorda um tal de

Mlíčko, um pedreiro de Dejvice — disse Švejk. — Aquele também nunca tinha moedas, até que se endividou até as sobrancelhas e foi preso por calote. Gastava as cédulas em comida e nunca tinha trocado.

— No 75º Regimento, antes da guerra — disse um soldado da escolta —,

um capitão dilapidou em bebida todo o dinheiro do regimento, foi obrigado a renunciar mas agora recuperou os galões; um sargento que roubou do exército mais de vinte pacotes de tecido destinado à confecção de galões hoje serve no Estado-Maior. No entanto, há pouco, na Sérvia, fuzilaram um soldado porque havia comido de uma vez uma lata que deveria durar três dias.

— Isso não tem nada a ver com o que estamos dizendo — afirmou o cabo.

— Mas é verdade que pedir dois florins emprestados a um pobre cabo para a gorjeta é...

— Pegue o florim — disse Švejk —, não quero enriquecer à sua custa. E se

ele me der o outro florim, também o devolverei para que não chore. Devia ficar contente pelo fato de um superior lhe pedir dinheiro. O senhor é muito egoísta. Trata-se apenas de dois miseráveis florins. Eu gostaria de ver o que faria se tivesse que sacrificar a vida por seu superior militar quando estivesse ferido diante das posições inimigas ou se tivesse que salvá-lo carregando-o nos braços com os caras disparando projéteis e muitas outras coisa em cima de vocês.

— Você, sim, se cagaria, imbecil — defendeu-se o cabo. — Em todas as batalhas, muitos se cagam — interveio de novo o soldado da

escolta. — Não faz muito tempo, em Budějovice um companheiro ferido me contou que quando estavam avançando se cagou três vezes: a primeira quando saíram das trincheiras e se arrastaram até os alambrados, a segunda quando começaram a derrubá-los e a terceira quando os russos caíram em cima deles gritando “Hurra!”. Então recuaram até as trincheiras e no grupo não restou nenhum que não tivesse se cagado. E um dos mortos, que ficou atirado em cima da trincheira com os pés virados para baixo, teve a cabeça arrancada pela raiz por um projétil, como se a tivessem cortado com um bisturi... Bem, no último momento ele se cagou de tal maneira que a merda misturada com sangue ficou escorrendo calças abaixo, botas abaixo e trincheira abaixo. A metade de seu crânio com todo o cérebro dentro ficou a seus pés. O sujeito passa por uma coisa dessas e nem sabe como aconteceu.

— Às vezes, em plena batalha, a pessoa pode começar a se sentir mal, alguma

coisa pode lhe causar nojo — disse Švejk. — Em Praga, na cervejaria Vyhlídce, de Pohořelec, um convalescente de guerra me contou que em Přemyšl, debaixo da fortaleza, houve um ataque com baionetas e que diante dele apareceu um russo, um homem alto e forte como uma montanha, correndo ao seu encontro com uma baioneta e uma gota imensa pendendo de seu nariz. Quando olhou para aquela gota, aquela meleca, ficou tonto de asco de tal maneira que teve de correr para o posto de socorro, onde foi declarado enfermo de cólera; foi trasladado para o hospital de infecções de Pest, onde finalmente acabou contraindo a cólera.

— Era um soldado raso de infantaria ou um cabo? — perguntou o

voluntário.

— Cabo — respondeu Švejk tranquilamente. — Isso também poderia ter acontecido com qualquer voluntário — disse o

cabo enquanto olhava para o voluntário com ar vitorioso, como se quisesse dizer: “Segura essa! Vamos ver como vai devolvê-la!”

Mas o voluntário não disse nada e se deitou em silêncio no banco. Estavam se aproximando de Viena. Quem não dormia olhava pela janela os

alambrados e as fortificações que cercavam a cidade, visão que suscitou em todo o trem uma sensação de angústia.

Se até então se ouvia o grito dos chucrutes de Kašperské Hory, Aqui estou,

aqui estou, aqui estou de volta, agora, diante da desagradável imagem dos alambrados que cercavam Viena, o canto emudecera.

— Está tudo em ordem — observou Švejk, olhando as trincheiras. — Está

tudo na mais perfeita ordem. A única coisa que pode acontecer é os vienenses destroçarem suas calças. Aqui é preciso andar com cuidado. Viena é uma cidade importante — continuou. — Pensem nos animais que vivem no castelo de Schönbrunn. Faz alguns anos, quando passei uma temporada em Viena, o que mais me agradava era ir ver os macacos, mas quando um figurão está saindo do castelo imperial não deixam ninguém entrar. Uma vez estava comigo um alfaiate do 10 º Distrito e o enfiaram na prisão porque queria ver os macacos de qualquer maneira.

— Você também foi ao castelo? — perguntou o cabo. — É muito bonito — respondeu Švejk. — Eu não fui, mas me contou

alguém que, sim, esteve lá. O melhor é a guarda palaciana. Todos os soldados têm que medir dois metros de altura, e depois lhes dão uma tabacaria. E há um enxame de princesas.

Passaram por uma estação e às suas costas ouviram o hino austríaco tocado

por uma orquestra que devia estar ali por engano, porque só depois de muito tempo o trem parou em outra estação onde foi distribuída comida e teve lugar uma recepção solene.

Mas não era mais como no começo da guerra, quando os soldados que iam

ao front comiam até se fartar em cada estação e eram recebidos por jovenzinhas vestidas de branco, um pouco bobas, com rostos simples e ramos de flores estúpidos, e lhes davam as boas-vindas com discursos estúpidos pronunciados por damas cujos maridos faziam se passar por patriotas e republicanos.

No ato oficial e solene de recepção ao trem em Viena intervieram três

membros da Cruz Vermelha austríaca, duas sócias de uma associação bélica de senhoras e jovens vienenses, um delegado oficial da magistratura de Viena e um representante das Forças Armadas.

O cansaço era patente em todos os rostos. Os trens do exército passavam

noite e dia, os destacamentos sanitários a cada hora, na estação os vagões com os prisioneiros de guerra mudavam continuamente de trilho e os membros das diversas associações eram obrigados a estar presentes em todos os atos. Assim era dia após dia, e o entusiasmo inicial se transformou irremediavelmente em aborrecimento. Iam se alternando no serviço, mas todos os que intervinham naquelas diversas cerimônias nas estações vienenses tinham uma expressão de fadiga semelhante à daqueles que nesse dia esperavam o trem que transportava o regimento de České Budějovice.

Dos vagões de carga surgiam cabeças de soldados com expressão de

desespero, como se estivessem sendo levados ao patíbulo.

As senhoras se aproximaram rapidamente e distribuíram doces com frases

em alemão: “Vitória e vingança”, “Deus castigue a Inglaterra”, “Os austríacos têm uma pátria que amam e bons motivos para lutar por ela” e outras do mesmo estilo.

Os montanheses de Kašperské Hory não paravam de abarrotar-se de pães

com especiarias, mas aquela expressão desesperada não os abandonava.

Então chegou uma ordem para que todos os soldados se dirigissem por

companhias para pegar o rancho nas cozinhas de campo situadas atrás da estação.

Ali também ficava a cozinha dos oficiais. Švejk foi providenciar o que o

capelão lhe pedira. O voluntário esperou pela comida no trem porque dois soldados da escolta haviam ido buscar comida para todos os que estavam no vagão dos detidos.

Švejk cumpriu perfeitamente sua missão. Depois, enquanto passava de uma

gare a outra, avistou o tenente Lukáš, que caminhava pelos trilhos com a esperança de que na cozinha dos oficiais poderia encontrar alguma coisa para comer.

Sua situação era muito desagradável porque estava compartilhando

temporariamente um escudeiro com o tenente Kirschner. O ordenança só se preocupava em satisfazer seu superior de sempre e sabotava o tenente Lukáš.

— Para quem está levando isso? — perguntou o pobre tenente a Švejk

quando o bom soldado colocou no chão a enorme quantidade de alimentos que havia conseguido na cozinha e que levava envoltos no capote.

No primeiro momento Švejk ficou surpreso, mas logo recuperou seu ânimo

de sempre. Sua expressão estava radiante e tranquila quando respondeu:

— Humildemente, prezado tenente, tudo isso é para o senhor. Mas não sei

onde fica seu compartimento e tampouco sei se o comandante do trem fará alguma objeção a que eu o acompanhe. O comandante é meio filho da mãe.

O tenente Lukáš olhou para Švejk inquisitivamente e este continuou falando

em um tom confidencial e bondoso:

— Sim, o comandante é mesmo um filho da mãe, senhor. Quando veio fazer

a inspeção no trem eu lhe disse logo que já passava muito das onze horas, que eu havia cumprido a pena na íntegra e que a partir daquele momento tinha que ir para o vagão de carga ou ao seu. Mas ele me despachou com maus modos dizendo que ficasse onde estava, para evitar que o envergonhasse.

Continuar: parte 3 de 3