As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Jaroslav Hašek · Capítulo 24 de 30 · parte 3/3

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Terceira Parte – A surra gloriosa

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O outro postal provinha do Reich alemão: era um presente dos alemães aos

soldados austro-húngaros.

Na parte de cima estava escrito: Viribus unitis, e embaixo havia um desenho

que representava sir Edward Grey pendurado na forca; embaixo dele, um soldado alemão e outro austríaco batiam continência, felicíssimos.

Um pequeno poema, tirado do livro O punho de aço de Greinz,

acompanhava o desenho. Os versos de Greinz eram piadas dirigidas aos nossos inimigos, “chibatadas de um humor desenfreado e de um engenho inigualável”, conforme diziam os jornais alemães. Esta é a tradução do texto que estava sob o desenho:

 

GREY

Na forca está pendurado

sir Edward Grey, bem apertado.

Chegou a hora da execução,

mas antes prestem atenção:

nenhuma árvore alemã forneceu a madeira

para esta pena justa e merecida.

A forca no ar estendida

provém da república francesa.

O capitão Ságner ainda não terminara de ler estes versos de “um humor

desenfreado e de um engenho inigualável” quando o ordenança do batalhão Matušič irrompeu no vagão.

O capitão Ságner o enviara à central telefônica do comando da estação para

perguntar se haviam chegado novas determinações e o ordenança estava voltando com um telegrama da brigada. Mas não era necessário procurar nenhuma senha para decodificá-lo. O telegrama não estava cifrado e dizia simplesmente: “Cozinhar rapidamente e ato contínuo marchar para Sokal.” O capitão Ságner balançou a cabeça, com ar perplexo.

— Humildemente — disse Matušič —, o comandante da estação quer falar

com o senhor. Há outro telegrama.

Então teve lugar uma conversa estritamente confidencial entre o comandante

da estação e o capitão Ságner.

O primeiro telegrama teria que ser transmitido quando o batalhão estivesse

na estação de Raab. Seu conteúdo era surpreendente: “Cozinhar rapidamente e ato contínuo marchar para Sokal.” Era dirigido ao batalhão do 91º Regimento com cópia para o 75º Batalhão, que ficara ainda mais para trás. A assinatura era autêntica: comandante de brigada Ritter von Herbert.

— Tudo é estritamente confidencial, capitão — disse o comandante da

estação, misteriosamente. — Temos aqui um telegrama secreto de sua divisão. O comandante de sua brigada enlouqueceu. Foi levado a Viena depois de ter enviado a todos os lugares algumas dúzias de telegramas parecidos. Em Budapeste, certamente o senhor encontrará outro telegrama como esse. Naturalmente, todos esses telegramas devem ser desconsiderados, mas ainda não recebemos nenhuma orientação neste sentido. Eu tenho, como lhe disse, apenas uma ordem da divisão que diz que não se deve levar em conta nenhum telegrama que não esteja cifrado. Eu tenho que encaminhá-los porque até agora não recebi orientação contrária de meus superiores. Pedi, através de meus superiores, informações ao comando do exército e, como resultado, os procedimentos estão se virando contra mim... Sou oficial da ativa, um velho servidor da Engenharia — acrescentou. — Participei da construção da nossa ferrovia estratégica na Galícia...

“Senhor capitão”, continuou, depois de uma pausa, “a única coisa que fazem

conosco, os velhos que conhecemos o trabalho de cor e salteado, é nos enviar ao front! Hoje em dia, no Ministério da Guerra, há uma quantidade impressionante de engenheiros ferroviários inexperientes trabalhando como voluntários! De qualquer maneira, o senhor partirá dentro de um quarto de hora... Só recordo que uma vez, na escola de cadetes de Praga, eu, que era da turma dos mais velhos, o ajudei nas barras horizontais. Naquele dia estávamos todos detidos. O senhor havia brigado com os

alemães da classe.64 Lukáš também estava presente. Na época os senhores eram grandes amigos. Ao receber o telegrama com a lista dos oficiais que passam pela estação com o batalhão que vai ao front, recordei tudo isso muito claramente... Isso foi há muitos anos... Naquela época o senhor achava o cadete Lukáš muito simpático...

O capitão Ságner teve uma péssima impressão daquela conversa.

Reconhecera perfeitamente o interlocutor: na escola de cadetes, ele liderara a oposição ao “espírito austríaco”, da qual depois se afastara porque queria fazer carreira. O mais desagradável foi a observação sobre o tenente Lukáš, que, por todo tipo de motivos, sempre se considerara desfavorecido quando se comparava com ele, Ságner.

— O tenente Lukáš é um excelente oficial — disse, enfaticamente. —

Quando sai o trem?

O comandante da estação olhou o relógio:

— Dentro de seis minutos.

— Estou indo — disse Ságner.

— Achava que me diria alguma coisa, Ságner.

— Então nazdar!65 — disse Ságner em tcheco, e saiu do edifício do

comando da estação.

 

Quando o capitão Ságner voltou ao vagão do alto-comando antes da partida do trem encontrou todos os oficiais em seus lugares. Estavam jogando em grupos frische viere, o jogo de cartas de alto risco. O cadete Biegler era o único que não jogava.

Folheava uma pilha de manuscritos em que havia começado a descrever cenas

bélicas, pois não queria se destacar apenas no campo de batalha, mas também ficar conhecido como um fenômeno literário graças as suas descrições dos acontecimentos marciais. O homem das “asas de cegonha e rabo de peixe” queria vir a ser um excelente escritor bélico. Suas primeiras tentativas tinham títulos promissores nos quais se refletia o espírito militarista da época, mas ainda não terminara o texto, de maneira que anotara, na folha de um caderno, apenas os nomes das obras que um dia criaria:

Retratos dos soldados da Grande Guerra. — Quem começou a guerra? —

A política austro-húngara e as origens da Guerra Mundial. — Anotações sobre a guerra. — O império austro-húngaro e a Guerra Mundial. — Lições de guerra. — Considerações políticas sobre o desencadeamento da guerra. — Conferência popular sobre o desencadeamento da guerra. — Considerações políticas da guerra. — Um dia solene para o império austro-húngaro. — O imperialismo eslavo e a Guerra Mundial. — Documentos da guerra. — Documentos da história da Guerra Mundial. — Livro contábil da Guerra Mundial. — Panorama cotidiano da Guerra Mundial. — Nossa dinastia na Guerra Mundial. — Crônicas de campanha. — Como lutam os inimigos do império austro-húngaro. — De quem é a vitória? — Nossos oficiais e nossos soldados. — Ações memoráveis de meus soldados. — Da época da Grande Guerra. — No fogo do combate. — Livro dos heróis austro-húngaros. — A divisão de ferro. — Coletânea de minhas cartas do front. — Os heróis de nosso batalhão. — Manual do soldado na campanha. — Dias de batalha, dias de glória. — Minhas experiências no front. — Nas trincheiras. — Um oficial relata... — Guerra defensiva e ofensiva. — Sangue e ferro. — A vitória ou a morte. — Nossos heróis no cativeiro.

O capitão Ságner se aproximou do cadete Biegler e, depois de ter lido tudo,

lhe perguntou por que havia escrito aquilo e o que estava querendo fazer.

O cadete Biegler respondeu com grande entusiasmo que cada título se referia

a um livro que escreveria. Tantos títulos, tantos livros.

— Se eu tombar na batalha, gostaria de deixar uma recordação. Meu

exemplo é o professor alemão Udo Kraft. Nasceu em 1870, se envolveu voluntariamente na guerra e tombou em Anloy, em 22 de agosto de 1914. Antes de morrer publicou um

livro intitulado Manual autodidata de como morrer pelo imperador.66

O capitão levou Biegler à janela.

— Mostre-me o que tem além disso, cadete Biegler. Estou muito interessado

— disse o capitão com ironia. — O que é este caderno que você enfiou debaixo de sua jaqueta?

— Não é nada, capitão — respondeu o cadete Biegler, ficando vermelho

como um tomate. — Veja o senhor com seus próprios olhos.

O caderno tinha o seguinte título:

Esquema das batalhas mais célebres e gloriosas

das tropas do exército austro-húngaro

elaborado segundo os estudos históricos de Adolf Biegler, oficial do exército imperial e real.

(Notas e comentários de Adolf Biegler, oficial do exército imperial e real.)

Os esquemas eram extremamente simples.

Da batalha de Nördlingen, de 6 de setembro de 1634, à de Senta, de 11 de

setembro de 1697, à de Caldeiro, de 31 de outubro de 1805, à de Aspern, de 22 de maio de 1809, à batalha das nações em Leipzig em 1813, à de Santa Lúcia de maio de 1848, à batalha de Trutnov, de 27 de junho de 1866, à conquista de Sarajevo em 19 de agosto de 1878.

Nada mudava nos diagramas e desenhos dos planos dessas batalhas. O

cadete Biegler desenhara em todos os lugares retângulos, em um lado em branco e no outro listrados, representando o inimigo. Nos dois grupos havia uma ala esquerda, um centro e uma ala direita; depois, atrás, reservas e flechas aqui e acolá. Tanto a batalha de Nördlingen como a de Sarajevo levavam a pensar na posição dos jogadores antes de uma partida de futebol, e as flechas pareciam indicar o lugar ao qual uma equipe ou outra tinham que chutar a bola.

— Você joga futebol, cadete Biegler? — perguntou o capitão Ságner, que

percebera a semelhança.

Biegler ficou ainda mais vermelho e piscou nervosamente, dando a

impressão de que estava prestes a começar a chorar.

O capitão Ságner sorriu e continuou folheando o caderno; se deteve em um

comentário que acompanhava o esquema da batalha de Trutnov, da guerra austro-prussiana.

O cadete Biegler escrevera: “A guerra de Trutnov não deveria ter sido travada:

a paisagem montanhosa impedia o avanço das divisões do general Mazzucheli, que estavam ameaçadas pelas colunas prussianas; estas estavam situadas nas montanhas que cercavam a ala esquerda de nossa divisão.”

— Segundo você, a batalha de Trutnov só deveria ter sido travada se Trutnov

estivesse situada em uma planície, não é mesmo, seu Benedek67 de Budějovice — disse o capitão Ságner com um sorriso astuto, devolvendo o caderno ao cadete. E continuou: — Cadete Biegler, é muito louvável de sua parte que depois de uma passagem tão breve pelas fileiras do exército tenha tentado penetrar nos mistérios da estratégia, mas me leva a recordar os meninos pequenos que brincam de soldado e se intitulam generais. Fico maravilhado com a velocidade com que você se promoveu. Adolf Biegler, oficial imperial e real! Mas, homem, você não é nenhum oficial! É um cadete. Sua categoria está entre a de alferes e a de suboficial. Está tão longe de ser oficial como aquele cabo que se faz chamar nas tavernas de “senhor sargento do alto-comando”. Ouça, Lukáš — inclinou-se para o tenente —, o cadete Biegler pertence a sua companhia, por isso procure adestrar um pouco o rapaz. Inventou uma assinatura de oficial; então que a conquiste, mas em combate! Quando fizermos um ataque a toque de tambor, o bom garoto irá cortar arames farpados no seu pelotão. Antes que me esqueça, Zykán lhe manda lembranças. É o comandante da estação de Raab.

Ao ver que a conversa com ele havia terminado, o cadete Biegler bateu

continência e, vermelho como um tomate, caminhou pelo vagão até que chegou ao fundo do corredor lateral.

Como um sonâmbulo, abriu a porta do lavabo e, olhando a inscrição em

húngaro e alemão, “A utilização do serviço só é permitida quando o trem está em movimento”, entrou; grunhiu, soluçou e começou a chorar em silêncio. Depois tirou as calças, sentou-se e mourejou, enxugando as lágrimas. Depois usou o caderno intitulado Esquema das batalhas mais célebres e gloriosas das tropas do exército austro-húngaro elaborado segundo os estudos históricos de Adolf Biegler, oficial do exército imperial e real. (Notas e comentários de Adolf Biegler, oficial do exército imperial e real.) O caderno desapareceu, desonrado, no buraco, em direção aos trilhos, e revolteou sob o trem militar que seguia seu caminho.

No lavabo, o cadete Biegler lavou os olhos avermelhados e saiu ao corredor

com o propósito de ser forte, extraordinariamente forte. Desde cedo estava com dor de cabeça e de estômago.

Passou ao lado do compartimento traseiro, onde o ordenança do batalhão

Matušič jogava uma partida de schnapsen (sessenta e seis) com Batzer, o ordenança do comandante do batalhão.

O cadete olhou pela porta aberta e tossiu. Os dois se viraram e continuaram

jogando.

— Não sabem o que se espera de vocês? — perguntou o cadete Biegler. — Não consegui — respondeu Batzer, o ordenança do capitão Ságner, em

seu horrível alemão de Kašperské Hory. — Recebi trunfos. Deveria ter jogado folhas, folhas altas, e em seguida tirar o rei de diamantes... Sim, tinha que ter feito isso...

O cadete Biegler não disse mais nenhuma palavra e foi para seu canto.

Quando, mais tarde, o alferes Pleschner foi procurá-lo para lhe oferecer um trago da garrafa de rum que ganhara nas cartas, achou estranho que estivesse tão submerso na leitura do livro de Udo Kraft, Manual autodidata de como morrer pelo imperador.

Antes de chegar a Budapeste, o cadete Biegler estava tão bêbado que se

debruçou em uma janela e ficou gritando sem parar em uma região deserta: “Ao ataque! Ao ataque em nome de Deus!”

Depois, por ordem do capitão Ságner, o ordenança do batalhão Matušič

arrastou-o até um compartimento e com a ajuda de Batzer deitou-o em um banco onde o cadete Biegler teve o seguinte sonho:

O SONHO DO CADETE BIEGLER ANTES DE BUDAPESTE

 

Fora condecorado com a Signum Laudis e a Cruz de Ferro, agora era major

Fora condecorado com a Signum Laudis e a Cruz de Ferro, agora era major

e ia inspecionar os destacamentos da brigada que lhe fora designada. Não conseguia entender como, tendo toda a brigada sob seu comando, fosse apenas major. Suspeitava que havia sido nomeado major-general e que, com a confusão do correio, a palavra “general” se perdera.

Riu para si mesmo ao recordar que, quando estavam se dirigindo ao front, o

capitão Ságner o ameaçara de mandá-lo cortar os arames farpados que obstruíam o caminho. No entanto, já fazia tempo que, em consequência de uma sugestão que fizera à divisão, o capitão Ságner e o tenente Lukáš haviam sido transferidos para outro regimento, outra unidade do exército.

Além disso, alguém lhe contara que ambos haviam morrido de forma

miserável em terras pantanosas quando fugiam.

Quando se dirigia à linha de frente para inspecionar o destacamento, de

repente viu tudo claro. Na verdade, fora enviado pelo Estado-Maior do exército.

Viu passarem alguns soldados cantando uma canção que ele havia lido na

antologia de canções austríacas Nosso dever:

Irmãos, mostrem sua valentia

Mantenham-se unidos, esmaguem o inimigo,

Agitem as bandeiras do imperador…

A paisagem era igual à das fotografias da Wiener Illustrierte Zeitung. À direita, ao lado de um celeiro, se via a artilharia disparando contra as

trincheiras inimigas situadas ao lado da estrada pela qual avançava o carro. À esquerda, uma casa da qual alguém disparava enquanto um soldado inimigo se esforçava para derrubar a porta com a culatra de um fuzil. Perto da estrada, um avião inimigo em chamas. No horizonte, a cavalaria e uma aldeia incendiada. Havia também trincheiras do batalhão de infantaria e uma pequena colina de onde as metralhadoras disparavam contra o inimigo. Um pouco mais longe, trincheiras inimigas se estendiam ao longo da estrada. E o chofer dirigia, como se nada estivesse acontecendo, em direção aos inimigos.

Biegler gritou pelo aparelho de comunicação:

— Você não sabe aonde estamos indo? O inimigo está ali. Mas o chofer respondeu, tranquilamente:

— Senhor general, este é o único caminho possível. A estrada está em bom

estado. Nas vias secundárias os pneus não aguentariam.

Quanto mais se aproximavam das posições inimigas, maior era a intensidade

dos disparos. As granadas explodiam em ambos os lados da estrada cercada de ameixeiras. Mas o chofer dizia com toda a calma do mundo, usando o megafone:

— Esta estrada é excelente, senhor general, estamos avançando às mil

maravilhas. Se fôssemos para o campo, os pneus arrebentariam. Veja, senhor general — gritou o chofer no megafone —, foi tão bem construída que nem os morteiros de trinta metros e meio podem nos fazer nada. É perfeitamente lisa; por sua vez, aqueles caminhos cheios de pedra estragariam nossos pneus. De qualquer maneira, não podemos voltar, meu general!

“Bzzz-dzum!”, ouviu Biegler, e o carro deu um pulo incrível.

— Não lhe disse, senhor — o chofer não parava de gritar —, que a estrada

foi muito bem construída? Justo diante da gente acaba de explodir um trinta e oito. Mas não deixou nenhum buraco, a estrada ficou como antes. Por isso é preciso abandonar a ideia de ir aos campos. Agora estão disparando contra a gente de uma distância de quatro quilômetros.

— Mas aonde estamos indo?

— Logo veremos — respondeu o chofer. — Enquanto continuarmos nesta

estrada eu me responsabilizarei por tudo.

Um pulo terrível e o carro para.

— General, o senhor está com o mapa oficial? — grita o chofer. O General Biegler aciona uma lanterna elétrica. Dá-se conta de que o mapa

oficial estava em seus joelhos, mas era um plano da costa de Heligoland datado de 1864, por ocasião da guerra austro-prussiana contra a Dinamarca pela conquista de Schleswig-Holstein.

— Aqui há uma bifurcação — diz o chofer —, os dois caminhos levam a

posições inimigas. Eu prefiro a estrada melhor para que não aconteça nada com os pneus, senhor... O automóvel do estado-maior está sob minha responsabilidade...

Depois uma explosão, uma explosão ensurdecedora e estrelas do tamanho de

rodas, uma via láctea tão espessa que parecia creme de leite.

Biegler ficou flutuando no universo do assento ao lado do chofer. O carro

fora partido em dois no sentido da largura, pelo meio, como se tivesse sido cortado por tesouras. Restara apenas a belicosa, agressiva dianteira.

— Ainda bem que o senhor estava me mostrando o mapa lá de trás — disse

o chofer. — O senhor voou para o assento dianteiro e o resto do carro arrebentou. Foi um quarenta e dois... Eu já imaginava que quando chegássemos a uma bifurcação a estrada estaria nojenta. Depois do trinta e oito, só pode ter sido um quarenta e dois. Até agora não fabricaram nada mais potente, senhor.

— Aonde vai nos levar agora?

— Estamos indo para o céu, senhor, e devemos evitar os cometas. São piores

que um quarenta e dois — disse o chofer após uma longa pausa, e depois continuou: — O que está agora debaixo da gente é Marte.

Biegler se acalmara.

— Você sabe a história da Batalha das Nações de Leipzig? — perguntou. —

Sabe quando o marechal de campo, príncipe de Schwarzenberg, marchou sobre Liebertkovice em 14 de outubro de 1813 e quando em 16 de outubro foi travada a batalha por Lindenau? Sabe das batalhas do general Merweldt, quando as tropas austríacas estavam em Wachau e quando Leipzig caiu em 19 de outubro?

— Senhor — disse então o chofer em tom sério —, estamos agora diante

dos portões do céu. Desça, senhor! Não podemos atravessar os portões do céu. Uma multidão de soldados está aglomerada diante deles.

— Atropele alguém! — Biegler ordenou aos gritos. — Vão nos deixar

passar sim. — E, enfiando a cabeça para fora do carro, exclamou: — Cuidado, bando de porcos! Animais! Veem um general e não se viram à direita!

O chofer tranquilizou-o.

— É difícil, meu general; a maioria está com a cabeça decapitada!

Só então o general Biegler se deu conta de que as pessoas que se

Só então o general Biegler se deu conta de que as pessoas que se

aglomeravam diante da porta do céu eram inválidos de todo tipo, que, durante a guerra, haviam perdido alguma parte do corpo e agora carregavam a cabeça, os braços ou as pernas em suas mochilas. Um digno artilheiro com um casaco esburacado guardara dentro da mochila todo seu ventre junto com as extremidades inferiores. De outra mochila, pertencente a um soldado da Defesa Territorial, a metade do pescoço que este perdera em Lvov fitava o general Biegler.

— É tudo em nome da ordem — dizia o chofer, passando no meio da

multidão. — Certamente deve-se à superinspeção divina.

Para atravessar os portões do céu era preciso apresentar uma contrassenha,

que Biegler logo adivinhou: “Por Deus e pelo imperador.”

O carro entrou no paraíso.

— O senhor deve se apresentar ao alto-comando — disse um oficial anjo

que tinha asas quando passaram ao largo do quartel de anjos recrutas.

Continuaram andando. Atravessaram um campo de exercícios que estava

cheio de anjos recrutas que aprendiam a dizer: “Aleluia!”

Passaram ao lado de um grupo no qual um anjo cabo ruivo estava

espancando um anjo recruta. Dava-lhe socos na barriga e gritava: “Abra mais sua bocarra, porco de Belém! É assim que se diz ‘aleluia’? Você parece estar com um knedlík na boca. Eu gostaria de saber quem foi o imbecil que o deixou entrar no paraíso, animal! Tente outra vez... Hlahlehuhya? Como, sua besta? Pretende falar pelo nariz, aqui, no paraíso? Volte a tentar, cedro do Líbano!

Seguiram em frente e durante um bom tempo ainda ouviram os gritos

angustiados do anjo recruta que falava com voz fanhosa: “Hla-hle-hlu-hjá”, e as exclamações do anjo cabo: “A-le-lu-ia!, a-le-lu-ia, vaca da Jordânia!”

Depois viram um clarão deslumbrante por cima de um edifício tão grande

como o quartel de Maria de České Budějovice; eram dois aviões, um à esquerda e outro à direita, e no meio deles um enorme cartaz que anunciava em letras gigantes:

QUARTE L GE RAL IMPE RIAL E RE AL D E D E US

 

Dois anjos com uniformes da polícia militar tiraram o general Biegler do

carro, seguraram-no pelo colarinho da jaqueta e o levaram ao primeiro andar do edifício.

— Comporte-se bem diante de Deus — lhe disseram lá no alto, diante de

uma porta, e o empurraram para dentro.

No centro da sala, de cujas paredes pendiam fotografias de Franz Joseph e de

Wilhelm, do herdeiro do trono austríaco Karl Franz Joseph, do general Victor Dankel, do arquiduque Friedrich e do chefe do Estado-Maior Konrad von Hötzendorf, estava o bom Deus.

— Cadete Biegler — disse Deus enfaticamente —, você não me conhece?

Sou seu velho capitão Ságner, da 11ª Companhia de Infantaria.

Biegler ficou petrificado.

— Cadete Biegler, com que direito se apropriou do título de general? Com

que direito viajou no carro do estado-maior e passou pela estrada no meio das posições inimigas, cadete Biegler? — Deus voltou a se manifestar.

— Humildemente…

— Cadete Biegler, cale-se quando Deus está falando! — Humildemente — voltou a balbuciar Biegler.

— De maneira que não quer se calar? — Deus voltou a lhe dar uma bronca.

Abriu a porta e gritou: — Que venham os anjos, imediatamente!

Entraram dois anjos com os fuzis pendurados na asa esquerda. Biegler

reconheceu Matušič e Batzer.

E da boca de Deus saiu a ordem:

— Joguem-no na latrina!

O cadete Biegler caiu em um lugar fedorento.

 

Diante do adormecido cadete Biegler estavam sentados Matušič e Batzer, o ordenança do capitão Ságner, que continuavam jogando sessenta e seis.

— Este homem está cheirando a bacalhau — observou Batzer, que

contemplava com interesse o cadete Biegler se agitar no meio do sono —, deve ter cagado nos calções.

— Isto pode acontecer com qualquer um — disse Matušič, filosoficamente.

— Deixem-no em paz, não será você quem vai trocá-lo. É melhor dar as cartas.

Já se via o reflexo das luzes que se estendiam sobre Budapeste e um refletor

oscilando por cima do Danúbio.

O cadete Biegler teve outro sonho e, enquanto dormia, dizia em alemão: — Diga a meu valente exército que construí em meu coração um

indestrutível monumento de paz e de gratidão.

Enquanto dizia isso, voltou a se virar e Batzer percebeu outra vez uma

pestilência tão intensa que cuspiu e disse:

— Fede mais que um asqueroso comerciante de adubo! O cadete Biegler se remexia cada vez com mais inquietação; seu novo sonho

era fantástico. Defendia Linz na guerra de sucessão austríaca. Via, ao redor da cidade, fortificações, tanques e paliçadas. Seu quartel-general se transformara em um imenso hospital. Em todas as partes havia enfermos segurando a barriga. Sob as paliçadas da cidade de Linz passavam os dragões franceses de Napoleão I.

E ele, comandante da cidade, dominava toda aquela multidão e gritava a um

parlamentar francês: “Diga a seu imperador que não me dou por vencido!”

Então, achou que sua dor de estômago desaparecia. À frente de seu batalhão,

se precipitava através das paliçadas para fora da cidade, a caminho da glória e da vitória, e viu o tenente Lukáš detendo com seu peito o golpe de espada de um dragão que era destinado a ele, Biegler, defensor da assediada Linz. O tenente Lukáš morria a seus pés exclamando: “Meu coronel, um homem como o senhor é mais importante do que um tenente qualquer!” O defensor de Linz, comovido, estava virando a espada para o moribundo quando recebeu um golpe de metralhadora nas nádegas. Mecanicamente, Biegler apalpou a parte de trás das calças e sentiu uma coisa molhada e viscosa se grudando em sua mão. Exclamou: “Ambulância! Ambulância!” e caiu do cavalo...

Batzer e Matušič levantaram o cadete Biegler do chão e voltaram a colocá-lo

Batzer e Matušič levantaram o cadete Biegler do chão e voltaram a colocá-lo

no banco do qual havia caído.

Depois, Matušič foi ver o capitão Ságner e lhe disse que estavam

acontecendo coisas estranhas com o cadete Biegler.

— Não creio que seja por culpa do conhaque — disse. — É possível que

seja a cólera. O cadete Biegler bebeu água em todas as estações. Em Mošon vi que...

— A cólera não se desenvolve tão depressa, Matušič. Dirija-se ao

compartimento ao lado e diga ao médico que vá vê-lo.

Um médico havia sido designado para o batalhão. Era um estudante de

medicina, membro de diversas entidades estudantis alemãs, um tal de Welfer, homem de idade já avançada. Bebia e brigava com frequência, mas a medicina era seu principal interesse. Estudara em faculdades de medicina das mais variadas cidades universitárias austro-húngaras, mas não fizera o doutorado por uma razão muito simples: o testamento de seu tio determinava que seus herdeiros deviam pagar todo ano uma bolsa ao estudante de medicina Bedřich Welfer até o momento em que recebesse o diploma de médico.

A bolsa era mais ou menos quatro vezes superior ao soldo de um auxiliar de

enfermagem, e o candidato a médico Bedřich Welfer tentava com todas suas forças adiar o máximo possível sua diplomação como doutor em clínica geral.

Os herdeiros soltavam fogo pelas ventas. Inventavam todo tipo de artimanhas

para se desfazer dele: proclamaram-no idiota, tentaram casá-lo com moças ricas. Para seu maior desconforto, o aspirante a médico Bedřich Welfer, membro de cerca de doze entidades estudantis alemãs, publicou uma coletânea de poemas bastante satisfatórios em Viena, Leipzig e Berlim. Colaborava com a revista Simplissimus e estudava, como se nada estivesse acontecendo.

Até que veio a guerra e o atingiu vergonhosamente pelas costas. O estudante de medicina Bedřich Welfer, autor dos livros Cantos risíveis,

Canecas de cerveja e ciência e Fábulas e parábolas, foi chamado às fileiras, e um dos herdeiros pressionou o Ministério da Guerra para que obrigasse o genial rapaz a concluir o “doutorado de guerra”. Welfer o fez por correspondência: recebeu, para preencher, um longo formulário com perguntas e respondeu a todas de maneira estereotipada: “Vão à merda!” Depois de três dias, o coronel lhe comunicou que obtivera o título de doutor em clínica geral, que já tinha amadurecido há muito tempo para o doutorado, que o médico-chefe do estado-maior supremo o destinara ao hospital agregado, que a velocidade de sua promoção dependia de sua conduta, que as autoridades não ignoravam que se batera em duelo com oficiais em diversas cidades universitárias, mas que, de qualquer forma, como estavam em tempos de guerra, tudo seria ignorado.

O autor do livro de poemas Canecas de cerveja e ciência mordeu os lábios e

se incorporou ao exército.

Vieram à luz vários casos em que o doutor Welfer fora extremamente

indulgente em relação aos soldados enfermos; prolongava o máximo possível sua internação, contrariando o lema “Melhor morrer nas trincheiras do que tombar no hospital”. Enviaram-no, então, ao front com o 11º Batalhão de Infantaria.

Os oficiais da ativa do batalhão o consideravam um ser inferior, e os da

reserva não lhe davam atenção e não entabulavam amizade com ele para que não se aprofundasse ainda mais o abismo que havia entre eles e os oficiais da ativa.

É necessário dizer que o capitão Ságner se sentia infinitamente superior ao

velho aspirante a médico, que, durante seus anos estudantis, atravessara com o sabre o corpo de alguns oficiais. Quando o doutor Welfer, o “doutor de guerra”, passou ao seu lado, nem sequer o olhou e continuou conversando com o tenente Lukáš sobre alguma coisa sem importância, como, por exemplo, que perto de Budapeste cultivavam abóboras. O tenente Lukáš respondeu que, quando estava no terceiro ano da escola de cadetes, uma vez fora com alguns amigos, à paisana, à Eslováquia, onde haviam sido convidados para ir à casa de um pastor evangélico eslovaco. Este lhes serviu uma abóbora preparada como se fosse couve para acompanhar um assado de porco e lhes serviu vinho, ao mesmo tempo em que dizia:

Ossobuco de leitãozinho pede um bom vinhozinho.

Lukáš se sentiu extremamente ofendido.68 — Não veremos grande coisa de Budapeste. Seremos obrigados a rodear a

cidade — disse o capitão Ságner. — De acordo com o programa, deveríamos ficar aqui um par de horas.

— Estou achando que mudaram os vagões de lugar — respondeu o tenente

Lukáš. — Seremos levados à estação de transporte militar.

O “doutor de guerra” Welfer passou ao seu lado.

— Isso não é nada — disse, sorrindo. — Os aspirantes a oficiais do exército

que se vangloriam no cassino de Most nad Litavou de seus conhecimentos histórico-estratégicos deveriam ser convencidos de que é perigoso comer de uma só vez um pacote inteiro dos docinhos que suas mães lhes enviam. Senhor capitão, o cadete Biegler, que confessou que desde que saímos de Most nad Litavou comeu trinta rolinhos com creme e nas estações não bebeu nada além de água fervida, me faz recordar o verso de Schiller: “Quem disse que...”

— Ouça, doutor — interrompeu-o o capitão Ságner —, não se trata de

Schiller. Diga-nos o que o cadete Biegler tem.

O “doutor de guerra” sorriu:

— Seu cadete Biegler, que aspira à patente de oficial, cagou nos calções...

Não tem cólera nem tampouco disenteria, simplesmente se cagou. Seu aspirante a oficial bebeu conhaque além da conta e cagou nos calções... Provavelmente teria cagado mesmo que não tivesse bebido conhaque. Comeu uma montanha dos rolinhos cremosos que lhe enviaram de casa… É uma criança… Sei que no cassino nunca bebia mais de um quarto de litro de vinho. É abstêmio.

O doutor Welfer cuspiu.

— Costuma comprar tortas de Linz.

— Então não é nada sério? — perguntou o capitão Ságner. — Mas, de

qualquer maneira... se contagiasse...

O tenente Lukáš se levantou e disse a Ságner: — Muito obrigado por um chefe de seção como este! — Dei-lhe uma mão com suas pernas — disse Welfer, que jamais deixava de

sorrir. — O comandante do batalhão fará o resto... Enviarei o cadete Biegler ao hospital... Providenciarei um atestado de disenteria. Na pior das hipóteses, está com disenteria... Isolamento... O cadete Biegler irá à barraca de desinfecção. É muito melhor passar por um cadete com disenteria do que por um cadete que se cagou nos calções — acrescentou Welfer, com o mesmo sorriso desagradável.

O capitão Ságner se dirigiu a Lukáš em um tom estritamente oficial: — Senhor tenente, o cadete Biegler de sua companhia contraiu disenteria e

será atendido em Budapeste...

O capitão Ságner achou que Welfer ria de maneira provocativa, mas, quando

olhou para o “médico de guerra”, percebeu que estava indiferente.

— Bem, tudo em ordem, senhor capitão — disse Welfer tranquilamente. —

O aspirante a oficial... — e, encolhendo os ombros, acrescentou: — Quando está com disenteria, qualquer pessoa se caga mesmo.

E foi assim que o valente cadete Biegler foi parar no isolamento do hospital

militar de Uj Buda. Suas calças sujas de merda se perderam no fragor da Guerra Mundial.

Os sonhos de grandes vitórias do cadete Biegler ficaram trancados em uma

sala do barracão de isolamento.

Quando ficou sabendo que sofria de disenteria, o cadete Biegler ficou muito

contente. De fato, era tão importante ser ferido em nome do imperador como adoecer por ele.

Entretanto, teve um pequeno contratempo: como todos os barracões para os

doentes de disenteria estavam ocupados, foi enviado ao barracão da cólera.

Depois de banhá-lo, colocaram um termômetro embaixo de seu sovaco e um

médico militar húngaro sacudiu a cabeça:

— Trinta e sete graus!

O pior sintoma da cólera é a queda de temperatura: o doente se torna

apático.

Na verdade, o cadete Biegler não exibiu nenhum sinal de preocupação.

Estava tranquilo e repetia mentalmente que estava sofrendo pelo Imperador.

O médico militar ordenou que enfiassem o termômetro no ânus do cadete

Biegler.

“O último estágio da cólera”, pensou. “Sintomas de agonia, debilidade

extrema, o doente perde os sentidos, não reconhece aquilo que está em volta, sua consciência fica nublada e sorri durante as convulsões que anunciam a morte.”

Durante a manobra, o cadete de fato sorria como um mártir e quando

enfiaram o termômetro em seu ânus fez-se de herói e nem se mexeu.

“Sintomas da cólera que levam pouco a pouco à morte”, pensou o médico,

“em estado de passividade”.

Perguntou a um suboficial húngaro do serviço sanitário se Biegler vomitara e

tivera caganeira quando estava tomando banho. Ao receber uma resposta negativa, contemplou-o atentamente. Durante a cólera, a ausência de vômitos e diarreia é um sinal inequívoco: o paciente está vivendo suas últimas horas.

O cadete Biegler, que haviam tirado do banho quente e permanecia

completamente nu, estava deitado na cama; sentia frio, seus dentes rangiam e a pele de todo seu corpo estava eriçada.

— Já se vê — disse o médico militar em húngaro —, os dentes rangem, os

membros estão frios. É o fim.

Inclinando-se para Biegler, perguntou em alemão: — Bem, como está se sentindo?

— M... m... m... m... muito b... bem — disse o cadete Biegler batendo os

dentes —, me... me dê... uma m... m... man... t... ta.

— Consciência parcialmente alterada — disse o médico húngaro. — Muito

magro, os lábios e as unhas deveriam estar negros. É o terceiro caso de alguém que morre de cólera sem estar com os lábios e as unhas negros.

Voltou a se inclinar sobre o cadete Biegler e continuou em húngaro: — Eu não ouço o segundo tom cardíaco...

— U... u... u... uma... m... m... man... ta... — repetiu o cadete sem parar de

bater os dentes.

— Está pronunciando suas últimas palavras — disse em húngaro o médico

militar ao suboficial do serviço sanitário. — Amanhã o enterraremos com o major Koch. Agora perderá a consciência. Seus documentos estão no escritório?

— Provavelmente — disse o suboficial com calma. — U... u... u... ma... m... man... ta — insistia o cadete Biegler, dirigindo-se

aos que se afastavam.

Na sala havia dezesseis camas e cinco pessoas. Uma era um defunto, falecido

duas horas antes. Estava coberto com um lençol e tinha o mesmo nome do descobridor do bacilo da cólera. Era o major Koch, que, segundo dissera o médico militar, seria enterrado no dia seguinte com o cadete Biegler.

O cadete se ergueu na cama e, pela primeira vez, viu como as pessoas

morriam de cólera pelo imperador, porque, dos quatro presentes, dois eram moribundos. Sufocavam-se e ficavam azuis, e pronunciavam algumas palavras difíceis de distinguir; não se entendia o que diziam nem em que língua. Era um estertor de voz estrangulada.

Os outros dois, com um impetuoso desejo de se curar que se manifestava

através de movimentos frenéticos, lembravam as vítimas do delírio tifoide. Gritavam de uma maneira desarticulada e levantavam as pernas raquíticas no ar. Eram vigiados por um soldado barbudo do serviço sanitário que falava em um dialeto da Estíria (como reconheceu o cadete Biegler) e os tranquilizava:

— Eu também padeci de cólera, senhores, e não era capaz de mexer as

pernas desta maneira. Agora vocês já estão bem. Vão entrar de licença quando... Não se agite tanto! — gritou a um deles, que havia dado uma patada tão forte que a manta caíra em cima de sua cabeça. — Aqui isso não se faz. Pode ficar feliz por estar com febre; pelo menos não será levado com acompanhamento musical. De fato, os dois já estão salvos.

Olhou ao redor.

— Ali temos mais dois mortos. Era de se esperar — disse bondosamente.

— Podem agradecer ao fato de que tudo já tenha acabado. Tenho que ir buscar lençóis.

Voltou depois de um momento. Cobriu os defuntos, que estavam com os

lábios completamente enegrecidos, afastou suas mãos de unhas pretas (no último paroxismo da asfixia haviam-nas colocado sobre o sexo ereto), tentou enfiar suas línguas na boca e depois se ajoelhou diante das camas e começou:

— Santa Maria, mãe de Deus...

E, enquanto rezava, o velho soldado do serviço sanitário da Estíria observava

os dois pacientes que convalesciam. Deliravam, o que significava que retornavam à vida.

— Santa Maria, mãe de Deus — repetiu quando, de súbito, um homem

pelado palmeou suas costas.

Era o cadete Biegler.

— Ouça — disse —, tomei banho... quero dizer... me deram banho...

Preciso de uma manta. Estou com frio.

— Que caso estranho! — disse, meia hora mais tarde, o médico militar ao

cadete Biegler, que descansava sob uma manta. — Você, cadete, está convalescendo. Amanhã será enviado ao hospital de reserva de Tarnov. É portador do bacilo da cólera (o progresso da medicina é tal que já conhecemos tudo isso), pertence ao 91º Regimento...

— Ao 13º Batalhão — respondeu o suboficial do serviço sanitário no lugar

do cadete Biegler —, 11ª Companhia.

— Escreva — ordenou o médico militar: — O cadete Biegler, 13º Batalhão,

11ª Companhia de Infantaria, 91º Regimento, é enviado para observação às barracas de cólera de Tarnov. É portador de bacilos de cólera.

E foi assim que o cadete Biegler, este guerreiro entusiasta, se transformou

em portador de bacilos de cólera.

55 Em 1848, os austríacos, comandados pelo marechal Radetzky, derrotaram os exércitos do rei Carlos Alberto da Sardenha, que foi forçado a evacuar a Lombardia. (N. do T.)

56 Napoleão foi repelido pelo exército austríaco em 1809, durante a batalha de Aspern, quando tentava atravessar o Danúbio e marchar em direção a Viena. (N. do T.)

57 Napoleão foi derrotado em 1813, na batalha de Leipzig. (N. do T.)

58 Jogo de azar proibido no império austro-húngaro, em que só se usam as cartas 7, 8, 9, 10, Valete, Dama, Rei e Ás do baralho, geralmente o francês. (N. do T.)

59 Variação mais arriscada do kaufzwick. (N. do T.)

60 Os pecados dos padres. (N. do T.)

61 Em húngaro, “proibido!” (N. do T.)

62 Em húngaro, “comandante militar”.

63 Naturalmente, os oficiais conversavam sempre em alemão. (N. do A.)

64 Em alemão, na conversa entre os dois homens: “Sie haben sich damals auch mit den deutschen Mitschüllern gerauft.” (N. do A.)

65 Saudação dos patriotas tchecos. (N. do A.)

66 Udo Kraft, Selbsterziehung zum Tod für Kaiser, C. F. Amelang’s Verlag, Leipzig. (N. do A.)

67 L. A. Benedek (1804-1881), general austríaco que esmagou insurreições na Galícia, Itália e Hungria. (N. do T.)

68 Ságner e Lukáš conversavam em tcheco. (N. do A.)