As Aventuras do Bom Soldado Švejk
Terceira Parte – A surra gloriosa
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Todos os presentes examinaram em silêncio as desventuradas páginas;
pareciam inquietos. Durante um momento ficaram em silêncio, até que, de repente, o cadete Biegler, preocupado, soltou uma exclamação:
— Humildemente, senhor, as letras não correspondem! Isto aqui não está
certo!
De fato, o assunto era enigmático. Por mais que se esforçassem, afora o
capitão Ságner nenhum deles encontrava na página 160 as palavras que correspondessem às letras da página 161, onde estava a senha.
— Meus senhores — balbuciou o capitão Ságner depois de se convencer de
que a desesperada exclamação do cadete Biegler tinha fundamento —, o que pode ter acontecido? No meu exemplar de Die Sünden der Väter aparece tudo isso e no seu não?
— Permita-me observar, senhor — voltou a tomar a palavra o cadete Biegler
—, que o romance de Ludwig Ganghofer tem dois volumes. É possível constatar isso na capa, onde está escrito: “Romance em dois volumes.” Recebemos o primeiro volume e o senhor, o segundo — continuou o escrupuloso Biegler —; é claríssimo: nossas páginas 160 e 161 não correspondem às suas. São diferentes. A primeira palavra da mensagem cifrada de seu livro é “abrir” e no nosso é “feno”.
Naquele momento, todos tiveram a impressão de que talvez Biegler não fosse
completamente estúpido.
— O estado-maior da brigada me entregou o segundo volume — disse o
capitão Ságner — e deve se tratar de um equívoco. O coronel encomendou a primeira parte para vocês. Certamente os homens do estado-maior se equivocaram — continuou, como se tivesse tudo sob controle e já soubesse de tudo aquilo antes de começar seu discurso sobre o simplíssimo sistema de mensagens cifradas. — Não indicaram ao regimento que se tratava do segundo volume e, em consequência, aconteceu isto.
O cadete Biegler olhou para todo mundo com ar vitorioso e o subtenente
Dub disse ao ouvido do tenente Lukáš que “asa de cegonha com rabo de peixe” acabara de irritar o capitão.
— É um caso estranho, senhores — continuou o capitão Ságner, como se
precisasse dizer alguma coisa porque o silêncio estava se tornando penoso para ele. — Os caras do estado-maior são uns imbecis.
— Me permito fazer uma observação — voltou a dizer o incansável cadete
Biegler, que queria exibir mais uma vez seus conhecimentos. Este tipo de assunto de caráter confidencial, estritamente confidencial, não deveria passar da divisão ao escritório da brigada. Os temas relativos às questões mais confidenciais do exército poderiam ser comunicados mediante uma circular secreta destinada apenas aos comandantes das divisões, das brigadas e dos regimentos. Conheço um sistema de cifras que foi usado nas guerras da Sardenha e de Savoy, na campanha anglo-francesa de Sebastopol, na insubordinação dos boxers da China e durante a última guerra russo-japonesa. Este sistema foi transmitido...
— Nada disso tem a menor importância, cadete Biegler — disse o capitão
Ságner com expressão de menosprezo e desaprovação. — Não há nenhuma dúvida de que o sistema que lhes expliquei não apenas é o melhor, mas que também é, por assim dizer, inviolável. Não há nada que a espionagem inimiga possa fazer contra ele. Nossas mensagens não podem ser lidas, por mais que a pessoa se esforce. É uma coisa inteiramente nova. Estas cifras não têm precedentes.
O diligente cadete Biegler tossiu de maneira significativa. — Senhor, me permito dirigir sua atenção ao livro de Kerickhoff sobre
sistemas de criptografia militar — disse. — Quem quiser pode encomendar este livro aos editores da Enciclopédia das Ciências Marciais. Ali poderá encontrar, senhor, descrito com todos os detalhes, o método que acaba de nos explicar. Foi idealizado pelo coronel Kirchner, que serviu no exército da Saxônia na época de Napoleão I. Palavras cifradas de Kirchner, senhor. Todos os termos de um telegrama são interpretados na página oposta à senha. Este método foi aperfeiçoado pelo tenente Fleissner no Handbuch der militärischen Kryptographie, que pode ser comprado pelos interessados na editora da Academia Militar, em Wiener Neustadt. Permita-me, senhor. — O cadete Biegler procurou alguma coisa em sua maleta de mão, tirou o livro que acabara de mencionar e continuou: Fleissner usa o mesmo exemplo, como todo mundo poderá comprovar. O mesmo que o senhor acabou de usar: “Mensagem: Abrir fogo de metralhadora à esquerda cota 228. Senha: Ludwig Ganghofer, Die Sünden der Väter, segundo volume.” E agora, vejam: “Cifra: Coisa — com — nós — que — olhamos — em — as — prometemos — que — Marta” etc. O mesmo que acabamos de ouvir.
Não havia nada a objetar. Aquele imberbe, o “asa de cegonha com rabo de
peixe”, tinha razão.
Durante todo aquele tempo o tenente Lukáš parecia tomado por uma
estranha inquietude. Mordia o lábio inferior, queria dizer alguma coisa, mas acabou falando de um assunto muito diferente daquele que imaginara inicialmente.
— Não é necessário levarmos as coisas de maneira tão trágica — disse
estranhamente perplexo. — Durante nossa permanência no acampamento de Most nad Litavou, os sistemas de transmissão de mensagens cifradas foram alterados várias vezes. Antes de chegarmos ao front, certamente terão sido adotados outros; no entanto, me parece que no campo de batalha não teremos tempo de decifrar esse tipo de criptogramas. E mesmo que alguém chegasse a consegui-lo, a companhia, o batalhão ou a brigada já teriam sido destroçados muito tempo antes. Não é nada prático.
O capitão Ságner assentiu com má vontade.
— Na prática — disse —, pelo menos no que diz respeito a minhas
experiências no campo de batalha sérvio, ninguém tinha tempo para decifrar mensagens. Não digo que as cifras não tenham importância durante uma permanência mais longa nas trincheiras, quando nos enterramos e não fazemos nada além de esperar. E também é verdade que os sistemas de mensagens cifradas vivem sendo alterados.
O capitão Ságner recuava ao longo de toda a linha: — Se agora no front as mensagens cifradas são cada vez menos usadas, boa
parte da culpa é dos telefones de campo, que não permitem que se ouça com clareza; sobretudo quando a artilharia está disparando, não se distinguem bem as sílabas. Não se ouve nada e aí se estabelece um caos inútil.
Depois de um breve silêncio, acrescentou, profeticamente: — O caos é a pior coisa que pode acontecer em um campo de batalha,
senhores.
Fez outra pausa.
— Daqui a pouco chegaremos a Raab, senhores — continuou, olhando pela
janela. — Cada soldado receberá cento e cinquenta gramas de salame húngaro. Teremos meia hora de descanso.
Examinou o programa:
— Partimos às 4h12. Às 3h58, todos nos vagões. Desceremos por
companhias: primeiro a 11ª etc. Em fila até o armazém de número 6. Controle de distribuição: cadete Biegler.
Todos olharam para o cadete Biegler, como se estivessem dizendo: “Você vai
ver o que é guerra, imberbe.”
Mas o aplicado cadete Biegler já havia tirado da maleta uma folha de papel e
uma régua; desenhou linhas a intervalos regulares, dividiu a folha de acordo com as companhias de infantaria e perguntou aos comandantes quantos homens cada uma delas tinha. Nenhum deles sabia nada de cabeça, de maneira que só puderam fornecer a Biegler informações vagas tiradas de seus cadernos.
Entretanto, o capitão Ságner, desesperado, voltara a ler o desventurado livro
Die Sünden der Väter; quando o trem parou na estação de Raab, fechou-o e observou:
— Este Ludwig Ganghofer não escreve nada mal.
O tenente Lukáš foi o primeiro a correr para a plataforma e se dirigiu ao
vagão onde estava Švejk.
Já fazia tempo que Švejk e os demais haviam parado de jogar cartas. Baloun, o ordenança do tenente Lukáš, estava com tanta fome que começou a se rebelar contra a hierarquia militar, dizendo que sabia de fonte segura que os oficiais se davam bem roubando, que aquilo era pior do que na época da escravidão. Antes não aconteciam coisas semelhantes no exército. Seu avô, já aposentado, lhe contara que na guerra de 1866 os oficiais compartilhavam galinhas e pão com os soldados. Baloun continuou se queixando até que Š vejk achou necessário elogiar as condições militares da guerra em que estavam envolvidos.
— Ora, seu avô deve ser jovem — disse amavelmente quando o trem estava
chegando a Raab. — Só se lembra da guerra de 1866. Eu conheço um tal de Ronovský cujo avô esteve na Itália na época da escravidão; passou ali doze bons anos e voltou para casa com a patente de cabo. Estava desempregado e foi trabalhar com o próprio pai. Um dia, os dois foram buscar uns troncos; um deles, segundo o avô que trabalhava para o próprio pai, era tão grande que nem conseguiram tirá-lo do lugar. E por isso disse: “Bah, dá no mesmo! Não vamos nos matar por um pedaço de madeira!” Ao ouvir aquilo, um guarda-florestal começou a berrar e a brandir a bengala, insistindo que levassem aquele tronco. E o avô de Ronovský limitou-se a dizer: “Cale-se, idiota; eu sou um velho veterano de guerra!” Mas, depois de uma semana, recebeu uma notificação para voltar à Itália e ingressar de novo no exército; passaram-se mais dez anos e, ao longo desse tempo, escreveu para casa mais de uma vez dizendo que, quando voltasse, daria uma machadada na cabeça daquele guarda-florestal. Por sorte, o guarda-florestal morreu antes de o avô voltar.
Estavam nisso quando o tenente Lukáš surgiu na porta do vagão. — Švejk, venha cá — disse. — Pare de dizer as sandices de sempre e me
explique uma coisa.
— Humildemente, senhor, é pra já.
O tenente Lukáš levou Švejk, olhando-o com ressentimento. Durante o discurso do capitão Ságner, que acabara de uma maneira
absolutamente catastrófica, o tenente Lukáš desenvolvera suas habilidades detetivescas, coisa que não lhe exigiu elucubrações muito complicadas, pois lembrou que, um dia antes de partir, Švejk lhe dissera:
— Senhor, chegaram ao batalhão alguns livros para os senhores oficiais.
Levei-os ao escritório do regimento.
Por isso, quando atravessaram o segundo trilho e se refugiaram atrás de uma
locomotiva desligada que estava havia uma semana esperando um trem qualquer com munição, o tenente Lukáš disparou sem rodeios:
— Švejk, o que aconteceu no outro dia com os livros? — Humildemente, é uma história muito comprida e o senhor sempre se
irrita comigo quando lhe conto as coisas detalhadamente. Como naquele dia em que quis me dar um cascudo porque, depois de ter rasgado o documento sobre os empréstimos para a guerra, lhe expliquei que havia lido em um livro que nas guerras de antigamente as pessoas tinham que pagar pelas janelas, vinte cêntimos por cada janela, e a mesma quantia pelos seus gansos...
— Assim não acabaremos nunca, Švejk — disse o tenente Lukáš,
continuando o interrogatório, mas tendo o cuidado de manter em segredo os fatos mais confidenciais para que o tonto do Švejk não pudesse usá-los de novo de nenhuma maneira.
— Você conhece Ganghofer?
— Quem é? — perguntou Švejk com interesse. — Um escritor alemão, seu idiota — respondeu o tenente Lukáš. — Juro pela minha alma, senhor tenente — disse Švejk com expressão de
mártir —, que não conheço pessoalmente nenhum escritor alemão. Só um tcheco, um tal de Ladislav Hájek, de Domažlice. Foi redator de O mundo dos animais e uma vez lhe vendi um pinscher fazendo-o passar por um lobo puro-sangue. Era um senhor muito alegre e muito legal. Ia sempre a uma taverna onde lia seus contos; eram tão tristes que todos riam, ele chorava e pagava a bebida de todo mundo e nós tínhamos que cantar para ele alguma coisa sobre um pintor que pintara o portão de entrada de uma aldeia com desenhos de garotas e agora, depois da guerra, jaz debaixo da terra...
— Você está gritando como um cantor de ópera. Não estamos em nenhum
teatro, Švejk — disse o tenente Lukáš, espantado, quando Švejk entoou a última frase, “jaz debaixo da terra”. — Não lhe perguntei nada disso. Quero saber se você viu se os livros dos quais me falou eram de um tal de Ganghofer — e explodiu, com raiva —, porra! O que aconteceu com os livros?
— Com aquele livro que levei do escritório do regimento ao do batalhão?
— Com aquele livro que levei do escritório do regimento ao do batalhão?
— perguntou Švejk. — Sim, foram escritos por esse mesmo sujeito pelo qual acaba de me perguntar, senhor. Recebi um telegrama diretamente do escritório do regimento. Queriam enviar os livros ao escritório do batalhão, mas ali não havia ninguém, todo mundo estava na cantina porque quem vai ao front nunca sabe se conseguirá beber alguma coisa mais tarde. Bem, como todas as companhias destinadas ao front estavam enchendo a cara, não havia ninguém em lugar nenhum. Por telefone não encontraram ninguém, só a mim, porque o senhor me ordenara que fizesse o papel de telefonista até que nos destinassem um de verdade, como já fizeram, agora Chodounský é o telefonista, e por isso fiquei esperando. Ligaram do escritório do regimento. Estavam umas feras porque não conseguiam encontrar ninguém em lugar nenhum, e me informaram que haviam recebido um telegrama que ordenava que alguém do escritório fosse pegar alguns livros para todos os oficiais do batalhão. Como eu já sei, senhor, que no exército tudo deve ser feito depressa, liguei para o escritório do regimento e lhes disse que eu mesmo iria recolher os livros e que os levaria ao escritório do batalhão. Me deram um pacote tão enorme que tive um terrível trabalho para levá-lo ao escritório da nossa companhia, e ali folheei os livros. Então pensei uma coisa que é melhor não repetir. No escritório do regimento, o intendente me dissera que, de acordo com o telegrama que haviam recebido, o pessoal do batalhão já sabia qual volume pegar. É que os livros vinham em dois volumes. O primeiro volume à parte e o segundo livro à parte. Nunca na vida ri tanto como nesse dia, porque já li na minha vida muitos livros, mas em nenhuma ocasião comecei lendo o segundo volume. E aquele homem me repetia: “Aqui estão os primeiros volumes, aqui os segundos. Os senhores oficiais já sabem qual é o volume que devem ler.” De maneira que achei que todo mundo estava bêbado, porque um livro deve ser lido do começo; um romance como Die Sünden der Väter, porque eu também sei alemão, deve ser lido começando pelo primeiro volume, porque não somos judeus e não lemos ao contrário. Por isso também lhe perguntei por telefone, senhor, quando voltou do cassino dos oficiais e lhe contei a respeito dos livros, se agora, durante a guerra, os livros estavam sendo lidos ao contrário, se se lia primeiro o segundo volume e só depois o primeiro. O senhor me chamou de burro e disse que eu só podia estar bêbado se não sabia que o pai-nosso começa com “Pai-nosso” e acaba com “amém”.
“O senhor não está se sentindo bem?”, perguntou Švejk com interesse
quando o tenente Lukáš se apoiou no estribo da caldeira da locomotiva abandonada. Não via em seu rosto nenhum sinal de irritação, apenas de desesperança e desespero.
— Continue, continue, Švejk, agora tanto faz, está tudo bem. — Como estou lhe dizendo — a voz terna de Švejk soou na via abandonada
—, eu também pensei a mesma coisa. Uma vez comprei um romance de terror sobre Sándor Rózsa da floresta de Bakony, mas estava faltando o primeiro volume e por isso tive que adivinhar o começo; ou seja, mesmo em uma história de bandoleiros como aquela você precisa, de fato, da primeira parte. De maneira que vi clarissimamente que não tinha sentido que os senhores oficiais lessem primeiro o segundo volume e depois o primeiro, e, por outro lado, que causaria uma péssima impressão se transmitisse ao batalhão o que me disseram no escritório do regimento, ou seja, que os senhores oficiais já sabem que volume têm de ler. Esta coisa dos livros, meu tenente, me parece muito curiosa e muito enigmática. Eu já sabia que os senhores oficiais em geral leem muito pouco, e com esta bagunça da guerra...
— Guarde as besteiras para você, Švejk — gemeu o tenente Lukáš. — Já lhe perguntei por telefone, senhor tenente, se queria os dois volumes e
o senhor me disse exatamente o mesmo que agora, que parasse de dizer sandices, e que não tínhamos por que carregar livros. Então achei que, se o senhor achava isso, o resto dos senhores oficiais certamente também devia achar a mesma coisa. Além disso consultei Vaněk, que é muito hábil para estas coisas; aprendeu tudo no front... Ele me disse que no começo todos os oficiais achavam que a guerra era uma brincadeira e carregavam bibliotecas inteiras como se estivessem indo veranear. As arquiduquesas lhes davam de presente obras completas de diferentes poetas para que as levassem ao campo de batalha, de modo que na hora do transporte todos os ordenanças suavam como negros e maldiziam o dia em que nasceram. Vaněk me disse que livros não servem para nada, nem para fumar, porque o papel é muito grosso, e na privada, me perdoe, com aqueles poemas a bunda ficaria toda arranhada. Não tinham tempo para ler porque não paravam de partir para outro lugar, por isso iam jogando os livros fora. Isso virou um hábito. Quando eram ouvidos os primeiros tiros de canhão, os ordenanças jogavam todos os livros fora. Depois do que o senhor me dissera, quis voltar a ouvir sua opinião e por isso lhe perguntei de novo o que devia fazer com os livros, e o senhor me respondeu que quando eu enfio uma coisa na minha cabeça oca só há uma maneira de tirá-la de lá: com uma surra. De maneira que só levei ao escritório do batalhão os primeiros volumes e deixei os segundos no escritório da nossa companhia. Fiz tudo com a melhor das intenções do mundo, achando que quando os oficiais tivessem lido a primeira parte iriam procurar a segunda como se fosse em uma biblioteca, mas de repente nos disseram que estávamos partindo e que todas as coisas supérfluas tinham que ser deixadas no armazém do regimento. Por isso perguntei ao senhor intendente Vaněk se achava que a segunda parte daquele romance era uma coisa supérflua e ele me disse que desde os tempos das tristes experiências na Sérvia, na Galícia e na Hungria não se levavam livros de entretenimento ao front e que a única coisa que servia eram os jornais velhos que se recolhiam em algumas cidades para os soldados, porque com o papel de jornal se enrola bem o tabaco ou a palha que os soldados fumam nas trincheiras. No batalhão já distribuíram a primeira parte do romance. A segunda está no armazém.
Švejk fez uma pausa e depois acrescentou: — Há muita coisa no armazém, senhor. Até a cartola do diretor do coro de
Budějovice, com a qual se apresentou ao regimento...
— Vou lhe dizer uma coisa, Švejk — disse o tenente Lukáš, suspirando
profundamente —, você não tem a menor consciência da gravidade do que fez. Depois de já ter feito isso tantas vezes eu mesmo, me sinto incomodado ao lhe dizer, de novo, que você é um bobo. Não existe um nome para sua estupidez. Quando o chamo de burro, talvez o esteja elogiando. Fez uma coisa tão horrorosa que todos os outros delitos que cometeu durante todo esse tempo que o conheço são, em comparação, música celestial. Se soubesse a confusão que armou! Mas você jamais se dará conta... Se alguém falar desses livros, não se atreva a revelar que eu lhe disse por telefone alguma coisa sobre a segunda parte. Se perguntarem o que aconteceu com a primeira e a segunda parte, não dê atenção. Você não sabe de nada. Se não quiser me meter em uma boa confusão, seu...
A voz do tenente dava a impressão de que estava com febre. Švejk aproveitou
a pausa para lhe perguntar, com inocência:
— Desculpe, senhor, mas por que nunca saberei o que fiz de tão terrível?
Atrevo-me a perguntar só para poder evitar que uma coisa dessas se repita, porque, como dizem, o ser humano aprende com seus erros. Foi uma coisa que aconteceu com o fundidor Adamec, de Daňkovka, que bebeu ácido clorídrico por engano...
Mal havia começado sua história exemplar quando o tenente Lukáš o
interrompeu com as seguintes palavras:
— Seu grandessíssimo estúpido! Não tenho motivos para lhe explicar nada.
Volte para seu lugar e diga a Baloun que, quando chegarmos em Budapeste, me leve ao vagão do estado-maior o pãozinho e o pedaço de patê de fígado que estão no fundo da minha mala, embrulhados em papel-alumínio. Depois diga a Vaněk que ele é um grande idiota. Pedi-lhe três vezes que me fizesse um informe sobre o efetivo da companhia. E hoje, quando precisei dele, só encontrei os números da semana passada.
— Humildemente, senhor! — latiu Švejk, e pouco a pouco foi se afastando
em direção ao seu vagão.
O tenente Lukáš caminhou pelos trilhos pensando: “Devia ter lhe dado um
par de bofetadas em lugar de conversar como se fôssemos amigos.”
Švejk subiu no vagão com ar sério. Sentia respeito por si mesmo. Não
acontece todos os dias que uma pessoa faça uma coisa tão grave que nem possa chegar a saber qual foi seu delito.
***
— Senhor intendente — disse Švejk quando já estava sentado no seu lugar —, achei que hoje o tenente Lukáš está de excelente humor. Me pediu para lhe dizer que o senhor é um grande idiota porque já lhe pediu três vezes que fizesse um informe sobre o efetivo.
— Porra! — irritou-se Vaněk. — Vou puxar as orelhas dos chefes de seção!
É culpa minha que esses destrambelhados fiquem coçando a barriga e não me enviem o efetivo? Tenho que tirá-lo da manga? Que companhia! É digna de se ver! Uma coisa dessas só pode acontecer na 11 ª Companhia. Eu já achava isso no começo. Não duvidei nem por um momento que estávamos metidos em confusão. Um dia, na cozinha, faltam quatro rações, outro dia sobram três. Se pelo menos esses estúpidos me informassem se alguém está na enfermaria! No mês passado constava que estava ali um tal de Nikodem e eu não soube disso até a hora de ser informado de que havia morrido em Budějovice de uma tuberculose galopante. E nós recebendo suas rações! Também pegamos um uniforme para ele. Só o diabo sabe aonde foi parar! E depois o tenente me diz que sou um grande idiota quando ele mesmo não sabe pôr ordem em sua companhia.
O intendente Vaněk andava, inquieto, para cima e para baixo. — Se eu fosse o comandante da companhia! Então as coisas seriam como
uma seda. Saberiam onde estão todos, até o último homem. Os suboficiais teriam que apresentar o informe sobre o efetivo duas vezes por dia. Mas os suboficiais não servem para nada! O pior de todos é o chefe de seção Zyka. Muita brincadeira, muita sacanagem, mas quando lhe comunico que Kolařik foi transferido de sua seção ao trem, no dia seguinte volta e me entrega o mesmo efetivo, como se Kolařik ainda estivesse se contorcendo em sua companhia e em sua seção. Isto acontece todos os dias, e depois o filhinho de papai vem e me diz que sou um grande idiota... Desse modo o tenente não fará muitos amigos. O intendente da companhia não é um pedaço de m... que qualquer um possa ignorar...
Baloun, que ouvia boquiaberto, pronunciou em lugar de Vaněk aquela bela
palavra que este não queria dizer. Era sua maneira de participar da conversa.
— Cale-se, porra! — exclamou o intendente, irritado. — Ouça, Baloun — disse Švejk —, me encarregaram de lhe dizer que
quando chegarmos a Budapeste você tem que levar ao senhor tenente o pãozinho e o patê de fígado que estão guardados no fundo da mala dele, embrulhados em papel-alumínio.
O gigante deixou cair seus longos braços de chimpanzé, encurvou as costas e
ficou durante um bom tempo nessa postura.
— Não resta nada — disse com voz desesperada, olhando para o chão sujo
do vagão. — Não resta nada — repetiu, e começou a falar aos trancos e barrancos —; eu achava... Eu o desembrulhei antes de partir... Cheirei... para ver se estava estragado... Provei! — exclamou com um desespero tão sincero que todos compreenderam o que havia acontecido.
— Devorou até o papel-alumínio — disse o intendente Vanĕk. Parou diante de Baloun, feliz pelo fato de não ser o único grande idiota,
segundo dissera o tenente: a incógnita X, aquele efetivo oscilante, tinha raízes mais profundas, fundidas em outros idiotas. Ficou mais feliz do que uma castanhola diante do fato de que o novo acontecimento trágico do dia fosse o esfomeado Baloun. Vaněk teve muita vontade de dizer a Baloun algo desagradável e moralista, mas quem se adiantou foi o cozinheiro ocultista Jurajda, que largou seu livro preferido, a tradução dos antigos sutras indianos Pragnâ-Paramitâ, e se dirigiu ao pobre Baloun, que ainda estava encolhido sob o peso de seu destino.
— Você, Baloun, deveria ter cuidado para não perder a consciência de você
mesmo e do destino. Não deveria lançar em sua conta o que é mérito de outro. Sempre que enfrentar um problema, como este de ter devorado alguma coisa, pergunte a você mesmo: “Que relação existe entre o patê de fígado e eu?”
Švejk achou oportuno completar esta reflexão com um exemplo prático: — Baloun, você mesmo me contou, não faz muito tempo, que na sua casa
estão prestes a matar um porco e que, quando chegarmos ao nosso destino e souber o número do seu correio militar, sua família lhe enviará um presunto. Pois imagine que enviam este presunto a nossa companhia, que o senhor intendente e eu cortamos um pedacinho cada um, que o achamos saboroso, e aí cortamos mais um pouco, até que acontece com o presunto a mesma coisa que aconteceu com um amigo meu que era carteiro, um tal de Kozel. Este homem tinha câncer ósseo e primeiro lhe cortaram um pedaço da perna, abaixo do tornozelo, depois abaixo do joelho, depois da coxa e, se não tivesse morrido a tempo, teriam continuado cortando tudo como se estivessem apontando um lápis. Imagine então, Baloun, que nos tivéssemos devorado seu presunto da mesma maneira que você comeu o patê de fígado do tenente.
O gigante Baloun olhava para todos com tristeza.
— Só graças a mim — dizia o intendente a Baloun — o fizeram ordenança
do tenente. Por pouco o trasladam ao serviço sanitário, onde ficaria transportando feridos. Em Dukla, nossos enfermeiros saíram três vezes para buscar um alferes ferido que havia levado um tiro no ventre quando estava na beira dos alambrados: todos os enfermeiros tombaram com as cabeças esburacadas. Só a quarta dupla conseguiu levá-lo, mas o alferes morreu antes de chegar ao pronto-socorro.
Neste ponto, Baloun não conseguiu mais resistir e deixou escapar alguns
soluços.
— Ora, que vergonha! — disse Švejk com menosprezo. — E você quer ser
soldado?
— Eu não fui feito para a guerra — queixava-se Baloun. — É verdade que
sou um comilão, um insaciável, mas é porque me arrancaram da vida normal. Nossa família é assim. Meu falecido pai apostou em uma pensão de Protivín que comeria de uma sentada cinquenta salsichas e dois pães grandes, e ganhou. Uma vez, em uma aposta, devorei quatro gansos e duas bacias cheias de knedlík e repolho. Em casa, às vezes quero fazer uma boquinha depois da refeição: vou à despensa, corto um pedaço de carne e mando trazer uma jarra de cerveja; e assim como dois quilos de carne defumada. Em casa, havia um velho criado, Vomel, que sempre me aconselhava a não comer tanto, que não me fartasse como um comilão. Dizia que seu avô lhe falara de uma guerra na qual durante oito anos não cresceu nada e tinham que fazer pão com palha e com restos de linhaça. E quando se podia esmigalhar um pouco de ricota no leite, em lugar do pão, que não havia, era dia de festa. Havia um camponês tão comilão como eu, e quando começou aquela penúria não conseguiu suportar e morreu ao cabo de uma semana porque seu estômago não estava habituado à miséria...
Baloun levantou o rosto, pesaroso.
— Mas eu acredito que mesmo quando Deus castiga as pessoas, não as
abandona.
— Deus colocou os comilões no mundo e Deus se encarrega deles —
observou Švejk. — Já o amarraram uma vez e agora você está querendo que o mandem para a primeira linha. Quando eu era ordenança do meu tenente, ele podia confiar plenamente em mim e nunca teria passado por sua cabeça que eu fosse comer alguma coisa. Quando havia uma comida especial, sempre me dizia: “Fique com isto, Švejk”, ou “Homem, a mim isto não convence; me dê um pedacinho e faça o que quiser com o resto”. E, quando estávamos em Praga, algumas vezes me mandava buscar comida em um restaurante; se a porção não era farta, para que não achasse que estava lhe levando uma pequena e havia comido a metade no caminho, comprava outra com meu próprio dinheiro para que meu tenente comesse bem e não pensasse nada de ruim a meu respeito. Até que um dia descobriu. Sempre tinha que lhe levar o cardápio do restaurante e ele escolhia. Um dia escolheu um pombo recheado. Levei-lhe um prato tão magnífico que até o compartilhou com o tenente Šeba, que estava procurando um lugar onde pudesse comer de graça e havia aparecido na casa do meu tenente um pouco antes da hora do almoço. Mas depois de ter comido tudo disse: “Não me diga que esta é uma única porção. Em nenhum lugar do mundo conseguirá encontrar um pombo inteiro no cardápio. Se hoje conseguir algum dinheiro, farei com que me enviem este prato desse seu restaurante. Diga logo que são duas porções.” O senhor tenente me pediu que confirmasse que só havia me dado dinheiro para uma porção simples, porque não sabia que teria uma visita. “Você está vendo”, disse meu tenente, “mas isto não é nada. Outro dia Švejk me trouxe duas coxas de ganso. Imagine: sopa de cabelo-de-anjo, vitela com molho de anchovas, duas coxas de ganso, massa e repolho até o teto e crepes doces de sobremesa!”.
— Mmmmmm! Caramba! — disse Baloun com inveja, estalando a língua. Švejk continuou:
— Mas foi esse o problema. No dia seguinte, o tenente Šeba mandou seu
ordenança buscar comida em nosso restaurante e ele lhe levou uma porção de frango com arroz tão pequena que parecia o cocô de um bebê de seis semanas, em outras palavras, duas colheradas. O tenente Šeba começou a gritar e acusou o ordenança de ter comido a metade. E o rapaz insistia que não, que era inocente. O tenente Šeba lhe deu um soco na boca e me usou como exemplo: dizia que eu levava porções fantásticas ao tenente Lukáš. Assim, no dia seguinte, quando foi buscar a comida, o soldado que havia apanhado informou-se naquele restaurante; contou tudo ao dono e este contou tudo ao meu tenente. À noite, quando eu estava sentado tranquilamente lendo no jornal os comunicados dos altos-comandos inimigos sobre a situação no campo de batalha, eis que se apresenta meu tenente, todo pálido, e me pede diretamente que lhe diga quantas porções duplas eu pagara do meu bolso no restaurante, que havia descoberto tudo, que não valia a pena negar, que já fazia tempo que sabia que eu era um imbecil, mas que nunca passara por sua cabeça que também tivesse enlouquecido. Insistia que eu havia causado tal escândalo que tinha vontade de me matar com um tiro, primeiro a mim e depois a si mesmo. “Senhor tenente”, eu lhe disse, “no primeiro dia que me levou para servi-lo, me disse que todos os ordenanças eram ladrões e esbanjadores. E como, no restaurante, servem porções mínimas, fiquei com medo de que o senhor achasse que eu também era um desses irresponsáveis e comia sua comida...”.
“Depois o tenente Lukáš começou a revistar seus bolsos”, continuou Švejk,
“mas nada de nada. E então tirou do paletó um relógio de prata e me entregou. Estava comovido. ‘Quando recebermos o soldo, Švejk’, disse, ‘escreva quanto lhe devo... Este relógio é um presente. E na próxima vez não faça besteiras.’ Depois passamos tanta miséria que tive de levar o relógio à casa de penhora.”
— O que você está fazendo aí atrás, Baloun? — perguntou de repente o
intendente Vanĕk.
Em vez de responder, o pobre Baloun se engasgou e tossiu. Havia aberto a
mala do tenente Lukáš e devorava o último pãozinho...
Outro trem militar passou pela estação sem parar, cheio de homens do regimento Deutschmeister que estavam sendo enviados ao front sérvio. Ainda conservavam o entusiasmo com o qual haviam se despedido de Viena, e desde a capital gritavam sem parar:
O príncipe Eugenius, nobre cavaleiro,
Quis reconquistar para o imperador
A cidade e a fortaleza de Belgrado.
Mandou construir uma ponte
Para entrar com o exército
Na cidade de Belgrado.
Um cabo com o bigode agressivamente pontiagudo se inclinava para fora;
recostado com os cotovelos sobre os soldados que balançavam os pés fora do vagão, marcava o ritmo e vociferava a plenos pulmões:
Concluída a ponte,
Atravessaram livremente o Danúbio,
Acamparam em Semlin
E foram caçar os sérvios.
Mas de repente perdeu o equilíbrio, caiu do vagão e cravou no ventre a
agulha de desvio, na qual ficou pendurado. O trem seguiu seu caminho e nos últimos vagões entoaram outra canção:
O conde Radetzky, nobre herói,
Jurou que na falsa Lombardia
Os inimigos do imperador eliminaria.
Em Verona, esperançado,
Porque outras tropas haviam chegado,
O herói se sentiu libertado.
O belicoso cabo, empalado naquela agulha inoportuna, havia morrido.
Pouco tempo depois, um jovem soldado do comando da estação que levava suas tarefas muito a sério foi fazer a guarda. Com a baioneta na mão, plantou-se ao lado da agulha com muita determinação, como se a empalação do cabo na agulha fosse obra sua.
Ele era húngaro e, quando os homens do trem do batalhão de infantaria do
91 º Regimento foram ver o que havia acontecido, começou a gritar em sua língua por toda a plataforma:
— Nem szabat!61 Nem szabat! Komision militär!62 Nem szabat! — Ele teve a sua guerra — disse Švejk, que também fazia parte do grupo de
curiosos — e tem a vantagem de ter um pouco de ferro na barriga, assim pelo menos todo mundo sabe onde está enterrado. É justamente na linha ferroviária e não é necessário procurar sua sepultura em todos os campos de batalha. Ele se enterrou nitidamente — afirmou o bom soldado, andando em volta do cabo e observando-o com um olhar profissional. — Suas entranhas estão em suas calças.
— Nem szabat! Nem szabat! Komision militär! Nem szabat! Atrás de Švejk se ouviu uma voz severa: — O que estão fazendo aqui?
Diante dele estava o cadete Biegler. Švejk bateu continência. — Humildemente, senhor, estamos olhando o defunto.
— E que agitação é essa que está promovendo aqui? O que você tem para
— E que agitação é essa que está promovendo aqui? O que você tem para
fazer aqui?
— Humildemente, senhor — respondeu Švejk com uma calma cheia de
dignidade —, não estou promovendo nenhuma agitação.
Lá atrás, alguns soldados começaram a rir e o intendente Vaněk se
aproximou do cadete.
— Senhor — disse —, o tenente enviou o ordenança Švejk até aqui para lhe
informar o que havia acontecido. Acabo de chegar do vagão do alto-comando e o ordenança do batalhão Matušič está procurando o senhor por ordem do comandante do batalhão. Deve se apresentar imediatamente ao capitão Ságner.
Ao cabo de um instante, ouviu-se um sinal determinando que todos
subissem aos vagões. O grupo se dissolveu.
Vaněk, que acompanhava Švejk, disse: — É melhor ficar calado sempre que houver mais gente, Švejk. Poderia lhe
custar caro. Uma vez que o cabo pertencia aos Deutschmeister, poderiam achar que você está achando graça do que aconteceu. Este Biegler é um matador de tchecos daqueles.
— Mas eu não disse nada — respondeu Švejk em um tom que não deixava
lugar a dúvidas —, apenas que o cabo ficou tão bem empalado que suas tripas foram parar nas calças... Podia ter...
— Está bem, Švejk, vamos parar de falar disso. O intendente Vaněk cuspiu. — Dá no mesmo — voltou a observar Švejk —, se, em nome do imperador,
as tripas devem sair por aqui ou por ali. De qualquer maneira, cumpriu com seu dever... Podia ter...
— Olhe, Švejk — interrompeu-o Vaněk —, com que determinação o
ordenança do batalhão Matušič caminha ao vagão do estado-maior. Acho estranho que ainda não tenha tropeçado nos trilhos e caído.
Naquele momento tinha lugar uma dura conversa entre o capitão Ságner e o
cadete Biegler.
— Me surpreende, cadete Biegler — começou o capitão Ságner —, que não
tenha vindo logo me comunicar que os soldados não receberam os cento e cinquenta gramas de salame húngaro. Me vi obrigado a ir verificar pessoalmente por que os soldados estavam voltando em desordem do armazém, com as mãos vazias. E os oficiais também, como se as ordens não fossem ordens. Eu disse: “Em fila, uma companhia atrás da outra.” O que significa que, embora não tenhamos recebido nada no armazém, também temos que voltar aos vagões em fila. Eu determinei a você, cadete Biegler, que mantivesse a ordem, e você os deixou fazer o que queriam. Alegrou-se de não ter de contar as rações de salame, e, conforme vi pela janela, preferiu ir ver o cabo dos Deutschmeister que ficou empalado. E depois, quando mandei chamá-lo, não soube fazer nada além de ficar dizendo disparates surgidos de sua imaginação de cadete, dizendo que tinha que ir ver se, ao redor do cabo empalado, alguém estava fomentando alguma coisa.
— Humildemente, senhor. O ordenança Švejk, da 11ª Companhia... — Me deixe em paz com essas histórias do Švejk! — exclamou o capitão
Ságner. — Não acredite, cadete Biegler, que conseguirá fazer intrigas contra o tenente Lukáš. No que diz respeito a Švejk, nós mesmos o enviamos para lá. Agora está me olhando como se quisesse me dizer que não gosto de você. Sim, não gosto, cadete Biegler. Se não sabe respeitar seu superior e tenta desacreditá-lo, eu o deixarei em tal situação, Biegler, que se lembrará pelo resto de sua vida da estação de Raab! Vangloriar-se de seus conhecimentos teóricos! Você vai ver quando estivermos no front, quando lhe ordenar que vá com a patrulha de oficiais à beira dos alambrados! Seu informe? Nem sequer me apresentou o informe quando chegou! Nem sequer em teoria, cadete Biegler!
— Humildemente, senhor,63 em vez de cento e cinquenta gramas de salame
húngaro, os soldados receberam dois cartões-postais. Por favor, senhor...
O cadete Biegler deu ao comandante do batalhão dois dos postais impressos
pela direção do arquivo militar bélico de Viena, cujo comandante era o general Wojnowich. Em um dos cartões havia uma caricatura de um soldado russo, de um mujique russo barbudo, abraçado por um esqueleto. Sob a caricatura lia-se o seguinte texto em alemão:
O dia em que a pérfida Rússia for arrebentada será o dia da salvação da nossa monarquia.