Bilionário Destemido: Zane
Capítulo 1
— Cale a boca, caralho — rosnou ele ameaçadoramente, agarrando o rabo de cavalo loiro longo e puxando-o com tanta força que os olhos de Ellie se encheram de lágrimas.
Ela não parou de lutar, mesmo quando ele a levantou e tentou jogá-la para dentro do espaço confinado.
Dane-se, não vou facilitar as coisas para ele.
A bunda dela bateu na superfície dura do porta-malas, mas ela jogou os braços para fora, tentando impedi-lo de fechar a tampa, o que a confinaria em um caixão improvisado.
Ele nunca vai me deixar viver.
— Nãããão! Alguém me ajude! Por favor! — Ellie continuou a gritar, sem se importar mais com os avisos de James, mas ninguém apareceu para resgatá-la.
Um último soco violento na cabeça dela a silenciou, deixando seu mundo escuro.
Com Ellie inconsciente e incapaz de continuar lutando, James fechou o porta-malas e entrou no carro, partindo na noite com o corpo inerte dela confinado na escuridão.
O Presente...
—Onde diabos ela está? — murmurou Zane Colter furiosamente ao dirigir o SUV Bentley em mais uma estrada de terra íngreme que levaria para mais uma cabana nas montanhas desoladas.
Durante quantos dias ele estivera procurando? Um dia se transformara em outro, mas Zane estivera tão concentrado em sua missão que não se importara em fazer muito além de se manter hidratado.
Ele estava feliz por ter comprado o novo SUV apenas um mês antes.
Estava nevando pesadamente naquela altitude e ele dirigira em velocidades muito ousadas nas estradas escorregadias das montanhas. Ele sabia que estava dirigindo depressa demais para as condições climáticas que ficavam cada vez piores. O problema era que ele estava ficando desesperado. Ele sabia em que área Ellie estava por causa das amostras de solo que tirara de um velho par de sapatos de James e dos sulcos dos pneus da caminhonete na garagem dele. Depois de encontrar um pedaço pequeno de uma flor rara na casa do imbecil, ele tivera a ideia de obter aquelas amostras de terra, uma intuição que dera certo depois de intensas análises, destacando as únicas áreas em que aquele tipo de flor crescia e o solo de que precisava para isso. A terra que ele coletara confirmara suas suspeitas. Ele duvidava de que James dirigisse aquela caminhonete mais velha em qualquer outro lugar que não nas montanhas. Os sapatos eram velhos e gastos, e um filho da puta superficial como James não os usaria, exceto em áreas lamacentas onde não seria visto. Depois de juntar a terra e a flor, Zane tinha uma ideia
muito boa da área onde Ellie estaria escondida. Mas uma busca nas cabanas e nas propriedades nos arredores não mostrou nada que fosse de James.
Portanto, Zane tinha que supor que era um lugar que não estivesse no nome real dele.
— Onde ele a escondeu, caralho? Puta que o pariu! — rosnou ele ao bater a mão no volante, sentindo-se frustrado e sabendo que estava ficando sem tempo. As chances eram de que recuperaria um cadáver, em vez de resgatar Ellie.
Nem. Pensar.
Ele afastou a possibilidade de que Ellie estivesse morta e continuou a dirigir em direção a uma cabana pequena, um pouco acima na estrada de terra quase inexistente que subia.
Limpando o suor da testa com a mão e passando os dedos pelos cabelos com irritação, ele dominou o carro agilmente ao deslizar no gelo e na neve com uma mão só até estar novamente subindo a estrada.
Logo vou ter que enfrentar a realidade. Verifiquei praticamente todas as cabanas e casas desta área sem sorte nenhuma, porra.
Zane não fazia ideia de quanto tempo fazia desde que dormira pela última vez. Ele estivera fazendo pesquisas sobre o solo que encontrara e depois trabalhara em marcar áreas para investigar. Ele estava exausto, mas um relógio continuava a avançar em sua cabeça. Se James mantivera Ellie viva, ela provavelmente não tinha mais água nem comida. James estava morto e ficara incapacitado antes de se suicidar. Ela ficara sozinha por tempo demais.
Não posso parar de procurar. Prometi a Chloe que não desistiria. Não vou parar até encontrá-la.
Ele balançou a cabeça de forma distraída, sabendo que era uma boa desculpa para estar procurando. Mas sua persistência feroz não era apenas porque Ellie era a melhor amiga de sua irmã. O instinto o cutucava sem parar.
Ele conhecia Ellie bem o suficiente para saber que, se pudesse escapar, ela teria escapado. Algumas pessoas alegavam que Ellie era quieta, mas ele vira como ela podia ser mandona quando eram crianças. Na adolescência, ela não mudara. Nunca tivera problemas em expressar suas opiniões. Não com ele.
Sinceramente, ele nunca se importara com o desejo extremo dela de organização. Na verdade, ele gostara disso, pois não era exatamente organizado em sua vida pessoal. Nunca fora. Em se tratando de seu trabalho como cientista, ele era meticuloso, mas todo o resto fora do laboratório era um caos. Ele sempre fora fascinado pela forma como Ellie conseguia lidar com tantas coisas ao mesmo tempo e de forma muito organizada. Ela sempre fora assim, mesmo na adolescência.
Zane podia admitir para si mesmo que gostara de Ellie na escola. Mas o fato de ela ser a melhor amiga de Chloe, sua irmãzinha, deixara Ellie completamente fora de questão para qualquer coisa além de amizade depois que ficaram adultos. Na época da escola, ela fora jovem demais, ligada demais à família dele. Sem falar no fato de que ele fora tão esquisito socialmente naquela época que nunca teria coragem de chamá-la para sair, mesmo que ela não fosse jovem demais. Mas ele também gostara dela como amiga e ainda tinha sentimentos por ela, apesar de tê-la encontrado muito pouco depois de terminar a escola. Ele partira para a faculdade e nunca voltara para Rocky Springs para morar lá o tempo inteiro.
Ele rosnou ao parar em frente à cabana que estivera procurando. —
Merda! Parece um local sazonal.
Apesar de a cabana estar em condições decentes, não era algo que um médico compraria. Era minúscula e parecia mais uma cabana de caça ou de pesca.
A neve estava contra a porta e parecia que ninguém estivera lá desde a primeira vez em que nevara. Os flocos brancos flutuavam e caíam em quantidades épicas quando ele saiu do carro, sem se preocupar em trancá-lo.
Ora, ninguém iria até aquela cabana isolada no meio de uma nevasca.
Ele andou com dificuldade pela neve e chutou a camada branca acumulada na porta da frente. Ao virar a maçaneta para entrar, descobriu que estava trancada. Irritado e determinado a não deixar de olhar embaixo de uma pedra sequer, ele bateu com o ombro na porta até que a fechadura cedesse. Em seguida, ele a abriu.
— Ellie! — gritou ele, apesar de o lugar ser tão pequeno que provavelmente não havia a necessidade de gritar.
Ele andou pela cabana, que tinha uma área de estar em um lado e uma cozinha pequena no lado oposto. Ele inspecionou o banheiro minúsculo e parou subitamente ao chegar à porta do único quarto da cabana. Ele ficou
tenso ao ver a figura praticamente irreconhecível algemada no canto, encolhida em posição fetal, completamente nua.
— Caralho! — O xingamento explodiu de sua boca quando ele entrou no quarto e abaixou-se ao lado da mulher, sem saber se ela estava viva ou morta.
Ele afastou os cabelos imundos do rosto dela. — Ellie? — chamou ele hesitante, colocando a mão em seu pescoço em busca de um sinal de vida.
O sangue dele ferveu ao perceber todos os ferimentos e cortes no corpo, no rosto e nos membros dela. Havia um penico perto dela, mas ela obviamente não tivera forças suficientes para usá-lo. Os braços e as pernas estavam presos com algemas pesadas, dando a ela uma mobilidade muito limitada.
Havia um jarro de água vazio no canto e um saco plástico vazio.
Zane não recebeu resposta, mas seu coração acelerou quando ele percebeu um pulso fraco.
Ele correu para a cozinha, encontrou um copo e encheu-o com água, grato pelo fato de o lugar ter encanamento interno.
Ele não prestou atenção no fedor que exalava da mulher ao colocar os braços em volta dela, forçando-a a se sentar. — Ellie? Abra os olhos para mim. Você precisa de água, está desidratada.
Ela estava mais do que só desidratada. Estava à beira da inanição. Mas ele tinha que resolver um problema de cada vez. Ellie era uma mulher cheia de curvas. Agora, não tinha carne nenhuma sobre os ossos.
Ele colocou o copo nos lábios dela, virando-o lentamente. As pálpebras dela estremeceram, mas ela não abriu os olhos. Ele torceu muito para que ela ainda tivesse o reflexo de engolir. A última coisa de que precisava era que ela aspirasse a água.
— Engula, Ellie. Vamos! — Ele a observou enquanto derramava a água lentamente em sua boca, aliviado ao perceber que os músculos do pescoço dela se mexeram fracamente para engolir a água.
Ela precisava de comida, mas ele continuou tentando hidratá-la primeiro. Finalmente, ele foi para a cozinha procurar alguma coisa, qualquer coisa, que ela pudesse engolir. Antes de começar a vasculhar os armários, ele se lembrou de que tinha isotônicos no SUV que a ajudariam a repor os eletrólitos que ela já não tinha.
— Fluidos são melhores — disse ele distraidamente para si mesmo ao voltar para a cabana com os suprimentos e ferramentas de que precisava.
Em seguida, começou a missão de hidratar e nutrir Ellie.
Ele tinha que ir devagar, o que o deixou muito irritado. Ele queria dar a Ellie tudo que ela não tinha. Queria que a forma quase sem vida voltasse rapidamente à vida.
Ele queria Ellie de volta e, não importava o que fosse necessário, Zane a veria sorrindo e inteira novamente, nem que isso o matasse.
Não vou desistir. Nunca desisto.
Ele demorou um pouco para livrá-la das algemas de aço com as ferramentas que tinha no carro. E continuou a xingar violentamente enquanto a libertava.
Se James já não estivesse morto, Zane teria assassinado o filho da puta sem um pingo de remorso.
Depois de dar a Ellie tudo o que teve coragem de dar de uma vez só, ele a tirou do chão frio. Jesus! Ela estava tão leve que ele ficou muito assustado. Abaixando-se para passar, ele foi para o banheiro, torcendo para que a água quente funcionasse. Virando os registros do chuveiro, ele ficou aliviado quando a água morna começou a sair.
Colocando-a gentilmente no chão, ele rapidamente tirou a própria roupa. Em seguida, segurou-a novamente e levou-a para baixo do chuveiro com ele. A cabana tinha um pouco de calor, mas ainda assim estava gelada.
Ellie não tinha carne alguma nos ossos para protegê-la ao ficar deitada em um chão frio. Ele precisava ir devagar e de forma gentil, aumentando o calor do corpo dela com cuidado.
Ele usou um frasco de sabão líquido que encontrara no banheiro, esfregando o corpo e os cabelos dela até que estivesse limpa novamente.
Um gemido fraco escapou dos lábios dela, o que deu a ele ainda mais esperança de que ficaria bem. Ela estremeceu nos braços dele, outro bom sinal. O aquecimento lento do corpo dela começava a aumentar a temperatura interna.
Frustrado, Zane sabia que não teria como levá-la a um hospital por causa da nevasca que rugia no lado de fora das paredes da cabana. Se alguma coisa acontecesse no caminho de volta, ela nunca sobreviveria. Ele era médico. Sim, era dedicado à pesquisa, mas frequentara a escola de medicina. Como era academicamente muito bom, ele terminara rapidamente os cursos e concentrara-se em biotecnologia. Mas ele sabia o que precisava fazer, quais eram as necessidades dela naquele momento.
Infelizmente, ele tinha muito poucos recursos e equipamentos para ajudá-la da forma como precisava.
Ele desligou a água e secou os dois da melhor forma possível com as toalhas em farrapos que achou no banheiro. Em seguida, carregou Ellie para a única cama da cabana, a que lhe fora negada por causa de seu confinamento. Puxando a colcha, ele ficou aliviado ao ver que o lençol estava relativamente limpo. Ele a colocou sob o cobertor. Sentando-se ao seu lado, ele se sentiu tentado a pentear os longos cabelos dela com os dedos. Ellie tinha cabelos loiros lindos e ele começava a ver os cachos de novo agora que estavam limpos. Afastando os cabelos do rosto dela, ele estava praticamente pronto a ter um ataque de fúria ao perceber os machucados e os cortes em sua pele.
Ele a examinara atentamente enquanto a lavava e não vira ferimento algum que pudesse ameaçar a vida de Ellie, mas estava furioso pelo fato de James ter encostado nela.
Zane se levantou e começou a limpar a bagunça do canto, lavando o chão e jogando fora o penico e as algemas. Ao terminar, ele enrolou o corpo em um cobertor, calçou as botas e correu até o SUV para buscar a mochila com roupas que sempre deixava no bagageiro.
Ele vestiu as roupas sobressalentes que tinha, desejando ter mais para colocar em Ellie além das camisas de flanela que tinha na mochila.
Depois de vestir a camisa nela, ele lhe deu um pouco mais de líquido.
Em seguida, vasculhou a cabana pequena, tentando achar alguma coisa útil.
Ele encontrou a bolsa de Ellie em um dos armários, mas não viu sinal das roupas dela. Zane colocou suas roupas sujas na pia e lavou-as, pendurando-as no banheiro para secar. Ele não achava que precisaria delas porque pretendia descer a montanha com Ellie em breve. Era a energia inquieta que não o deixava ficar parado.
Ele encontrou alguns suprimentos básicos, na maioria enlatados, mas pelo menos era alguma coisa.
Como o sistema de aquecimento antiquado produzia muito pouco calor, ele colocou madeira dentro do velho forno que ficava contra a parede e acendeu o fogo, que logo estava forte. Ele fechou a porta de metal, feliz por aquela lata velha ainda funcionar. A cabana era tão pequena que o fogo ajudaria a manter o espaço limitado mais aquecido.
Como já vasculhara todos os armários, Zane andou de um lado para o outro, indo do banheiro à janelinha ao lado da porta, torcendo para que parasse de nevar.
Ellie precisa de muito mais do que posso fazer por ela agora. Ela precisa de fluidos e nutrientes intravenosos, raios-x e exames.
Ele sabia que ela estava mal, mas não fazia ideia se o corpo dela tinha outros problemas que não era possível ver apenas olhando para ela e fazendo um exame superficial.
Infelizmente, a nevasca continuava a rugir. Ele se sentiu frustrado por não haver muito a fazer, exceto continuar dando a Ellie o que podia em intervalos que não enchessem demais o estômago encolhido.
Ele a ajudou a engolir alguns nutrientes. Depois, andou de um lado para o outro.
Ajudou-a novamente. Depois, andou de um lado para o outro.
Ele continuou conferindo o celular, mas estava em uma área sem sinal e não queria deixar Ellie sozinha para tentar encontrar uma área onde houvesse sinal. Provavelmente, não haveria nenhuma perto dali. Ele tinha quase certeza de que aquela montanha desolada inteira estava fora do alcance.
Quando começou a escurecer, ele ligou um gerador antigo que produziria um pouco de luz. Em seguida, colocou mais lenha no fogão, percebendo que a cabana já começava a ficar mais quente.
Ao se sentar na cama para erguer Ellie e fazê-la beber um pouco mais, ele ficou muito feliz de ver que ela engoliu mais prontamente.
— Vamos, Ellie, só mais um pouco — disse ele baixinho, tentando convencê-la a tomar mais alguns goles.
Ela obedeceu e ele colocou o copo sobre uma mesinha de cabeceira rústica. — Zane? — A voz fraca era pouco mais de um sussurro.
Mas ele a ouviu.
Ele virou a cabeça rapidamente para Ellie, com o coração disparando ao perceber as pálpebras dela estremecerem e depois abrirem completamente. Uma expressão de horror cruzou seu rosto por um momento até que ela focalizou nele. — Zane? — perguntou ela de novo em tom incerto. O
sussurro foi cheio de medo e pânico.
— Sim. Sou eu, Ellie. É Zane. — Ele passou a mão gentilmente nos cabelos dela. — Você está segura. Não tenha medo. — Jesus! Ele odiou ver a expressão de terror no rosto dela.
— James — disse ela com voz rouca.
Ele colocou os dedos sobre os lábios dela. — Não tente falar. James está morto. Nunca mais vai poder machucar você. Você precisa descansar, Ellie. Estive tentando reidratar você. Está muito fraca e preciso levá-la ao hospital. O clima está uma merda. Só descanse até que eu possa tirar você daqui, ok?
Ela assentiu fracamente, como se tivesse entendido, e seus olhos se fecharam.
Zane começou a levantar da cama, mas Ellie disse em tom suave: —
Não vá, Zane. Por favor. Acho que estou tendo alucinações, mas quero que elas durem.
Tirando as botas, ele virou o corpo e deitou ao lado dela. — Você não está sonhando e eu não sou uma ilusão. James está morto e nunca mais voltará. Não posso descer a montanha com você agora. Estamos no meio de uma nevasca. Mas vou levar você para um lugar seguro assim que possível.
Ele gentilmente passou os braços em volta dela. Em seguida, apoiou a cabeça dela em seu peito, passando a mão pelos seus cabelos agora secos.
— Acho que já estou segura — disse ela em tom hesitante, aconchegando-se a ele.
— Pode ter certeza disso. Não vou deixar que nada aconteça com você, Ellie. Prometo.