Bilionário Destemido: Zane

J. S. Scott · Capítulo 3 de 22

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Bilionário Destemido: Zane

Capítulo 2

Ela suspirou de leve. Em seguida, sua respiração ficou regular e profunda. Zane percebeu que ela estava dormindo e não em um estado inconsciente. O alívio o invadiu quando seu corpo relaxou. Ele colocou os dois braços protetoramente em volta de Ellie, embalando o corpo dela de forma gentil em um esforço de reconfortá-la. Mas talvez também fosse para reconfortar a si mesmo. Ele estava muito grato por tê-la encontrado com vida.

Finalmente, com Ellie aconchegada em segurança e aquecida contra ele, Zane adormeceu.

 

Ellie abriu os olhos, confusa.

Onde estou? O que aconteceu? James!

O pânico a invadiu ao olhar em volta, aterrorizada pelo retorno de James à cabana que a acordara. O medo e o terror a deixaram com a garganta apertada, mas ela notou que a boca não estava mais seca como o deserto.

Com o coração batendo depressa e a respiração irregular, a reação de Ellie foi de puro terror. Freneticamente, ela olhou ao redor da cabana, torcendo para que não houvesse ninguém lá.

Exceto... que ela não estava mais na cabana. A parte racional de sua mente começou a funcionar e ela lentamente tentou absorver os arredores.

Não demorou muito para perceber que estava no hospital, com enfermeiros e médicos passando rapidamente no corredor em um ritmo que a deixou tonta.

Os lençóis e cobertores brancos que a cobriam ajudaram a confirmar sua localização, bem como a agulha em seu braço e todos os fios presos em seu corpo.

Ela começou a sentir o terror aumentando, sem entender por que estava lá nem como chegara a um hospital, quando ouviu a voz dele.

— Graças a Deus! Você acordou.

Ela virou a cabeça rapidamente e viu um Zane Colter com aparência exausta ao lado da cama. As roupas dele estavam amarrotadas e os cabelos desgrenhados, como se ele tivesse passado a mão neles repetidamente.

As suspeitas dela foram confirmadas quando ele passou a mão pelos cabelos novamente, em alívio ou frustração. Algumas vezes, em se tratando de Zane, era difícil saber o que ele estava pensando. Mas, estoico ou não, ela estava feliz com a presença dele e sentiu o corpo relaxar pela primeira vez em muito tempo. — O que aconteceu? — A voz dela estava tão fraca quanto o corpo. — Como cheguei aqui?

— Você não se lembra de nada? — perguntou Zane com a testa franzida.

Ellie vasculhou o cérebro, lembrando-se vagamente de ouvir a voz de Zane dizendo que tudo ficaria bem. — Achei que você fosse um sonho.

— Não acho que eu seja o sonho de ninguém — retrucou Zane em tom seco.

Ellie subitamente se lembrou de como chegara àquela situação, para começo de conversa. Lembranças horríveis surgiram em seu cérebro enquanto ela se esforçava para se sentar na cama. — Ai, meu Deus. Preciso falar com Chloe. James...

Ele a empurrou de volta gentilmente. Ela não tinha forças para se mexer, muito menos para se sentar.

— Está morto — terminou Zane. — Ele se matou, Ellie. Antes disso, ficou no hospital porque foi idiota o suficiente para machucar nossa irmã.

Foi por isso que você não recebeu comida nem água. Você estava muito mal quando finalmente a encontrei naquela cabana.

— Chloe...

— Minha irmãzinha está em lua de mel. Ela se casou com Gabe Walker, um homem que cuidará muito bem dela.

A cabeça de Ellie girava quando ele terminou de contar o que acontecera com Chloe e como ela fora chantageada. Ellie perdera tanta coisa, e muito acontecera desde que fora aprisionada por James.

— Graças a Deus — sussurrou Ellie, deixando a cabeça cair sobre o travesseiro. — Depois que vi aqueles vídeos, fiquei com muito medo por ela.

— Ele sabia que você sabia sobre os vídeos?

Ellie assentiu. — Ele me pegou com o notebook dele. Eu estava indo procurar Chloe quando ele me sequestrou no escritório e jogou-me no porta-malas do carro.

— Caralho! — xingou Zane veementemente.

— Fiquei inconsciente por algum tempo e não sei o quanto ele dirigiu.

Nem sei exatamente onde ele me escondeu. Eu só sabia que estava em uma cabana e supus que fosse um lugar remoto. Nunca entendi por que ele simplesmente não me matou.

— Garantia — resmungou Zane. — Não tenho dúvidas de que, depois do casamento, ele não se importaria mais se você estava viva ou morta.

— Todo mundo achou que eu estava morta? — perguntou ela baixinho.

— Praticamente todo mundo — concordou ele. — Mas Chloe e eu nunca deixamos de procurar. Como seu carro tinha desaparecido, a maioria das pessoas achou que você tinha ido embora ou já estava morta.

Ellie estremeceu. O coitado do Tartaruga Azul estivera no estacionamento. Obviamente, James se livrara dele. — Acho que eu estava quase morta. Perto do fim, não sabia mais se queria que James aparecesse ou simplesmente deixasse que eu morresse. — As visitas dele não tinham sido frequentes, mas sempre eram dolorosas.

— Não diga isso — retrucou Zane. — Sei que ele bateu muito em você.

Ele a estuprou, Ellie?

— Não — respondeu ela constrangida. — Eu era gorda demais para ele no começo. E acho que ele sentia mais prazer em me torturar. Quando fiquei mais magra, ele me disse que eu era uma porca suja e nojenta.

Zane acariciou os cabelos dela distraidamente. — Lamento tanto não ter encontrado você antes.

Ela abriu um sorriso fraco para ele. — Fico grata por ter conseguido me encontrar. — Ela hesitou antes de dizer: — Eu queria saber o que ele fez com o meu carro. Pode ter levado a chave, mas queria saber onde ele escondeu meu velho Tartaruga Azul.

— Seu o quê? — perguntou Zane confuso.

Ellie suspirou. — Eu chamava o meu carro de Tartaruga Azul. Eu o tinha há muito tempo e ele não parava de funcionar. Só ficou um pouco mais lento no decorrer do tempo.

— Ele nunca foi encontrado — confirmou Zane.

— Suponho que, depois de me encontrar, você me trouxe para cá. Onde estamos?

— Denver. Era mais perto e tem instalações médicas mais bem equipadas para a condição em que você estava. Fiz o que pude na primeira noite da nevasca, mas, como você ainda não estava coerente no dia

seguinte, desci a montanha. A neve tinha diminuído um pouco e eu tinha que aproveitar a oportunidade para levar você a algum lugar para ser tratada.

— Perdi a noção do tempo. Por quanto tempo James me manteve lá? —

Ellie perdera os sentidos um pouco de cada vez. Os dias e as noites passaram a se embaralhar.

— Cerca de sete meses — respondeu Zane relutantemente.

Ellie ficou de boca aberta, chocada. Por algum tempo, ela contara os dias e as semanas que se passaram. Mas, em algum momento, ela passara a dormir durante a maior parte do tempo em que James não estava lá. Depois de tentar tudo em que conseguira pensar para se libertar, a esperança de ser resgatada desaparecera. Pouco a pouco, sua energia se esgotara e ela começara a racionar a comida e a água, sem saber quando conseguiria mais... ou se receberia mais.

— Minha mãe. Ela deve estar desesperada. — Se ela estivera desaparecida havia meses, a coitada da mãe provavelmente estava muito preocupada.

— Eu telefonei para ela. Dizer que ela ficou feliz seria pouco. Está vindo de Montana para cá. — Ele aguardou um momento e perguntou: —

Quer que eu conte a Chloe?

— Não — respondeu ela imediatamente. — Ela merece algum tempo de paz depois do que aconteceu com James. Parece que ela está em processo de cura. Posso encontrá-la quando ela voltar. Espero estar mais saudável quando finalmente a vir. — Ellie não precisava de um espelho para saber que estava com uma aparência horrível e a última coisa que queria era que Chloe se sentisse culpada. Agora que sabia de toda a história, Ellie sabia que Chloe passara por maus bocados.

Apesar de Ellie querer desesperadamente sua melhor amiga, não queria que ela a visse daquele jeito. Conhecendo Chloe, ela se sentiria culpada.

— Não contamos nada a eles. Ela nem sabe que James está morto.

Tenho a sensação de que Blake provavelmente contou a Gabe. — Zane pareceu ligeiramente desconfortável. — Mas acho que ela ficará furiosa comigo por não ter contado que encontrei você.

— Provavelmente é melhor assim, mesmo que ela fique um pouco furiosa. Direi a ela que foi ideia minha. Quando ela se sentir mais inteira,

conseguirá lidar com tudo de forma melhor. Talvez não fique tão abalada se eu estiver mais forte.

— Acho que ela se sentirá melhor se souber que você está viva —

retrucou Zane em tom seco.

— Ainda não. Por favor. — Ellie conhecia Chloe e sabia que ela ficaria muito mal se a visse naquele momento, emaciada e cheia de marcas pelas surras frequentes de James. Ela não queria que sua melhor amiga a visse como estava, não quando Chloe passara por tanta coisa.

— Pare de se preocupar com Chloe. Ela está muito melhor do que você neste momento. Você precisa de alguma coisa? — perguntou Zane em tom hesitante, parecendo impaciente, como se precisasse de algo com que se ocupar.

Ela precisaria de muitas coisas, mas recusou-se a pensar naquilo no momento. — Não. Há quanto tempo estou aqui?

— Dois dias — respondeu ele.

— Eu não me lembro — admitiu ela, incapaz de recordar o transporte até o hospital.

— É totalmente compreensível — informou Zane. — Você estava confusa por causa da desidratação. Por sorte, não deverá haver nenhum dano permanente depois de estar completamente curada. Agora que está recebendo o que precisa, tudo se ajeitará. Demorará um pouco para que ganhe peso. E você precisará de tempo para se recuperar da fraqueza. Mas tudo isso é reversível.

Ellie percebeu que Zane parecia extremamente exausto. A expressão dele era cansada, os olhos estavam vermelhos e havia olheiras profundas sobre os olhos cinzentos expressivos.

— Você chegou a dormir? Tem uma casa aqui em Denver, certo?

Talvez seja melhor ir para casa e descansar um pouco. — Enquanto dizia aquelas palavras, ela sentiu o coração apertado com a ideia de ele a deixar sozinha. Racionalmente, ela sabia que estava fora de perigo, mas, de forma egoísta, queria que Zane ficasse um pouco mais.

— Acha mesmo que vou a algum lugar? Jesus! Vasculhei a maior parte do estado do Colorado procurando você. Não vou embora — disse ele teimosamente, cruzando os braços sobre o peito largo.

— Então pelo menos durma esta noite. — Ela olhou pela janela, percebendo que estava escuro. Havia uma cama extra no quarto, ao lado da

sua.

— Não acredito que se preocupou comigo. Pelo amor de Deus, Ellie.

Você quase morreu e passou sete meses acorrentada. Meu sono não é uma merda de prioridade.

Ela sabia que, se começasse a reviver os meses anteriores, acabaria transformando-se em um desastre. — Algumas vezes, é mais fácil não pensar no assunto. Estou aqui agora. Estou viva. Tudo por sua causa. Estou sendo bem cuidada, estou acordada e falando. Não há motivo para você não descansar.

— Vou me deitar quando você dormir de novo. Tenho a sensação de que não demorará muito. — As pálpebras de Ellie já estavam pesadas, mas ela lutou contra a escuridão bem-vinda, onde sabia que se esqueceria do que acontecera momentaneamente. — Quando poderei ir para casa?

— Quando os médicos disserem que é seguro — respondeu Zane.

— Nem sei se ainda tenho casa. Não tenho carro. Não tenho emprego. — Ela começou a hiperventilar ao pensar em tudo o que perdera. Ela estivera quebrada antes de aceitar o emprego com James e não trabalhara lá o suficiente para receber o primeiro cheque. — Não se preocupe com nada disso agora — ordenou Zane em tom firme. — Tudo se resolverá. Você pode ir para casa comigo. Não terá recuperado as forças completamente ao sair daqui e ainda terá ferimentos a serem curados, bem como deficiências nutricionais.

Ela ergueu o queixo. — Posso cuidar de mim mesma. — A última coisa de que Ellie precisava era da pena de Zane.

— Você será teimosa depois de tudo o que aconteceu? Não pode aceitar uma ajudinha dos amigos?

— Talvez eu não tenha opção — admitiu Ellie. Ela não sabia se o apartamento ainda era seu, não tinha fonte de renda e não tinha condições de procurar um emprego.

— No que me diz respeito, você realmente não tem opção. Vou levá-la comigo para casa, nem que tenha que colocar você sobre o ombro e arrastá-la até lá. Você precisa de ajuda e, depois do que aconteceu, não quero que fique longe das minhas vistas.

Amigos? Ela e Zane eram realmente amigos? Sim, na época da escola, ela diria que eram amigos, apesar de também ter se sentido muito atraída por ele. Mas ela só o vira poucas vezes desde então e não tinham

 

conversado muito. Ele era o irmão de sua melhor amiga e apenas um cara por quem sentira atração na escola. Ele não tinha motivo para estar grudado a ela. Mesmo assim, ele obviamente se preocupava com o que acontecera com ela.

— Fico feliz por estar aqui — confessou Ellie. — Estou me sentindo um pouco perdida. — Na verdade, ela estava sentindo-se muito perdida, mas não queria admitir. Como estava fisicamente fraca, os obstáculos à frente pareciam absurdos. Psicologicamente, ela se achava praticamente incapaz de não entrar em pânico sobre o futuro.

— Algum dia, você terá que lidar com o que aconteceu. Mas esse dia não é hoje. Você precisa descansar e ficar boa. Estarei bem aqui, não vou a lugar algum — disse Zane.

Ellie estremeceu, detestando o momento em que teria que lidar com o encarceramento, as lembranças de nunca saber quando James apareceria novamente para levar suprimentos... ou simplesmente matá-la.

Sentindo as pálpebras muito pesadas, ela desistiu de lutar para ficar acordada e fechou os olhos. — Algum dia — sussurrou ela, perguntando-se se algum dia seria forte o suficiente para conseguir falar sobre as experiências que tivera. Tentar esquecer parecia muito mais fácil. —

Durma, Ellie — disse Zane com uma voz profunda e hipnótica. Ele estendeu a mão e apertou a dela firmemente.

Seu primeiro instinto foi se afastar do toque dele, pois todos os contatos humanos que tivera nos sete meses anteriores resultaram em dor. Em certo momento, a gentileza do gesto reconfortante dele a fez relaxar de novo. Ela tentou apertar os dedos dele, mas tudo exigia um esforço muito grande.

Sentindo conforto no fato de Zane estar por perto, ela dormiu.

Ellie passou muito tempo dormindo nos dias seguintes. Sua mãe foi visitá-la e as duas tiveram um encontro alegre, mas curto. A mãe tinha uma empresa que ajudava o marido a administrar em Montana.

Sabendo que a mãe passara por momentos difíceis de pobreza no passado, a última coisa que Ellie queria era que seus problemas forçassem a mãe a ter dificuldades financeiras novamente. A mãe ainda não tinha segurança financeira, sem saber quanto a empresa faturaria a cada mês. Mas Ellie estava feliz por a mãe ter uma casa aconchegante onde dormir, comida

na mesa e um marido que a amava. Finalmente, a mãe estava feliz e Ellie não queria ser responsável por acabar com essa felicidade.

Aileen, a matriarca da família Colter, era uma visitante frequente, bem como Tate e Lara Colter, o irmão mais novo de Chloe e sua esposa.

A cunhada de Chloe estava providenciando sessões de terapia para Ellie com a mesma psicóloga que recomendara a Chloe, uma certa dra.

Natalie Townson. Pelo jeito, ela era uma das melhores psicólogas do mundo para mulheres com problemas de abuso doméstico.

Ellie não tinha certeza do quanto sua experiência fora doméstica, mas certamente fora traumática e violenta. Mesmo agora, ela ainda conseguia ver o rosto maligno de James, ouvir as palavras brutais e lembrar-se dos golpes violentos. Era difícil fechar os olhos sem vê-lo, sem se lembrar de tudo. Pouco a pouco, o tempo que passara como prisioneira voltava. Às vezes, as imagens eram vívidas, tão reais que ela tinha que se esforçar para se convencer de que estava segura.

Algumas vezes, ela queria que as lembranças permanecessem escondidas ou vagas, mas, gostasse ou não, estava lembrando.

Recentemente, os pesadelos tinham sido tão intensos que ela acordava aterrorizada e lutando para respirar. Por sorte, nunca fizera barulho demais durante os pesadelos, pois Zane nunca acordava, apesar de dormir na outra cama do quarto dela todas as noites.

Algumas noites, ela tinha vontade de chamá-lo, mas logo se detinha.

Ela sempre cuidara de si mesma. Talvez não tivesse muito dinheiro, mas conseguira se virar, emocional e fisicamente. Era importante que voltasse para o que fora antes: uma mulher autossuficiente que se virava muito bem sozinha. Isso significava que tinha que aprender a lidar com os próprios problemas, incluindo os pesadelos.

Durante os dias ocupados com visitantes e tratamentos no hospital, Ellie comeu como uma mulher que passara fome durante meses.

Começando devagar, ela finalmente passara para alimentos sólidos e estava constantemente com muita fome. Infelizmente, a comida do hospital deixava muito a desejar, mas ela comia absolutamente tudo, pois o medo de passar fome e sede ainda a assombrava.

A presença constante de Zane era a única coisa que a fazia se sentir segura. Ele estava sempre por perto, sempre presente. Dormia na cama ao lado da dela e sua companhia protetora aliviava um pouco do medo que ela

sentia ao acordar abruptamente, sentindo-se aterrorizada. Só de vê-lo na cama ao seu lado era o suficiente para acalmá-la.

Não posso me apegar a ele. Não posso me acostumar a tê-lo por perto.

Ela suspirou ao desligar o Kindle, um presente que Zane lhe dera para evitar que enlouquecesse, e colocou-o na mesinha ao lado da cama. Fora um dia quieto. A mãe dela voltara para Montana e ninguém aparecera para visitá-la ainda. Até mesmo Zane estava estranhamente ausente.

Não posso esperar que ele fique aqui de babá para sempre. É um homem importante com uma empresa muito grande para administrar.

Ao pensar naquilo, Zane entrou pela porta, fechando-a atrás dele.

— O que é isso? — perguntou ela, acenando com a cabeça para a sacola enorme nos braços dele. — Contrabando — respondeu ele com um sorriso raro. — Nós dois sabemos que a comida do hospital é horrível.

Ela prendeu a respiração ao observar a expressão maliciosa no rosto irresistivelmente bonito dele. Quando Zane sorria, era quase contagiante, pelo menos para ela. Ele era sempre tão sério que a expressão maliciosa fez com que o coração dela desse um pulo e um calor se espalhasse pelo corpo.

Ellie observou enquanto ele tirava várias caixas de comida chinesa, alguns petiscos e finalmente um saco com o chocolate favorito dela. Em seguida, ele tirou pratos de papel da sacola e serviu um deles, colocando-o à frente dela com talheres de plástico. — Coma — insistiu ele ao colocar os doces ao lado do prato dela. Logo depois, pegou um refrigerante e abriu-o para ela.

O aroma da comida oriental a deixou com água na boca. Comida chinesa era sua favorita. — Como sabia? — Ele levara seus pratos favoritos.

Ele hesitou antes de responder. — Você e Chloe iam muito a restaurantes chineses. Imaginei que você gostasse.

— E os doces? — Eram seus favoritos, mas ela não os comprava com frequência porque eram caros.

Ele deu de ombros. — É chocolate, certo? Você gosta de chocolate.

Pelo menos, gostava quando éramos mais jovens.

Ellie estava convencida de que fora a mente científica dele que resultara em alguns palpites muito bons.

— Também é o meu favorito. Obrigada. — Sem conseguir esperar mais um segundo para comer a primeira refeição decente em meses, Ellie pegou

o garfo e preparou-se para atacar o prato. — Pelo menos, não vou ter que me sentir culpada por comer uma tonelada de carboidratos e chocolate.

Zane franziu a testa para ela. — Por que você se sentiria culpada?

Ela revirou os olhos. — Eu era gorda, Zane. Se continuar comendo deste jeito, vou recuperar todos aqueles quilos.

— Ótimo. Você nunca foi gorda. Coma — insistiu ele.

Ela estivera acima do peso, mas, no momento não estava. Na verdade, precisava ganhar alguns quilos, o que era uma novidade para ela que sempre fora gorducha desde a infância. Poder comer sem sentir culpa era o único aspecto bom de todo aquele pesadelo.

Ao colocar a comida na boca, ela sentiu Zane observando-a. Mas, ao olhar para ele, Zane afastou o olhar e começou a servir seu prato.

Entre uma garfada e outra, ela disse a ele: — Meu Deus, esta comida está realmente maravilhosa. Ou estou com tanta fome que qualquer coisa que não seja comida de hospital é gostosa.

— É gostosa — confirmou Zane, sentando-se em uma cadeira ao lado da cama e começando a comer. — É a melhor comida chinesa da área.

Experimentei todas elas. Também é uma das minhas favoritas.

Ellie o observou discretamente enquanto comia, sentindo o coração bater mais depressa sempre que via Zane. O fato de ser seu salvador fizera com que ela se sentisse atraída por ele novamente.

É adoração ao herói. Tem que ser. Zane foi responsável por salvar a minha vida. Eu não estou atraída de verdade por ele.

Irritantemente, Ellie tinha que reconhecer que não estava totalmente convencida de que seu desejo de devorar Zane junto com a comida não era devido apenas ao fato de ele a ter salvado.

Alguma coisa em Zane Colter sempre a atraíra como um ímã gigante.

Ela nunca entendera se era porque ele era incrivelmente inteligente ou o cara mais gostoso que já vira. Os cabelos escuros eram um pouco compridos demais e algumas vezes os cachos caíam sobre a testa, fazendo com que ele parecesse mais fácil de abordar. Ele tinha os olhos cinzentos que eram marca registrada dos Colter, sempre mudando de tom dependendo do humor.

Ela poderia dizer que Zane era simpático, mas ninguém saberia. Ela sabia porque o conhecia, entretanto, ele frequentemente era distraído ou

quieto, não porque fosse escroto, mas simplesmente porque não tinha nada a dizer.

Ellie tinha certeza de que ele não se importava com status nem com o tipo de roupa que vestia. Na maior parte do tempo, ela o vira de calça jeans e camisa de flanela. No verão, ele optava por camisetas. Os pés grandes normalmente estavam em botas de trilha e os cabelos não tinham traços de ordem nem de um corte definitivo. Não. Ele certamente não era um cara que passava muito tempo tentando parecer na moda. Nunca fora. Talvez fosse por isso que ela sempre gostara dele. Ele era naturalmente muito bonito, mas nunca agira como se soubesse disso.

Ele fora tão antissocial quanto ela na escola. Apesar de as pessoas dizerem que ele era tímido, ela nunca o vira dessa forma. O problema era que Zane era inteligente demais para ser feliz tendo uma conversa que achava irrelevante. Estivera ocupado demais tentando solucionar cada mistério científico que existia no planeta. A maior parte dos outros garotos da escola só queria fazer sexo.

— Estou cheia — disse ela ao empurrar o prato. Ele ergueu o olhar. —

Você não comeu quase nada.

— Meu estômago está menor — informou ela. — Você está muito magra — retrucou ele em tom mau humorado.

Ellie riu. — Nunca tive esse problema antes. — Ela ainda estava magra, mas, agora que recebia nutrição e hidratação completas, provavelmente não demoraria muito para ganhar peso. Nunca demorava.

Ela sorriu para Zane, gostando do fato de ele ser direto e sempre dizer o que estava pensando. As palavras dele raramente eram censuradas e ele não parecia se importar se tinha tato ou não.

— Vão deixar você ir para casa daqui a poucos dias. Achei que poderíamos ir para a minha casa em Denver, mas há muitos repórteres do lado de fora. Acho que você ficará mais segura em Rocky Springs. Minha propriedade lá é segura e, se alguém colocar o pé nela, será preso. Podemos decolar do heliporto no telhado do hospital.

— Zane, não posso ir para a sua casa com você. Ficarei com Aileen por algum tempo, se for preciso, para tentar descobrir o que farei. Você já perdeu tempo suficiente tentando me encontrar e depois cuidando de mim.

Tenho que resolver a minha vida bem depressa.

— Você ficará comigo, nem que eu tenha que jogá-la sobre o ombro e levá-la para a minha casa. A casa de mamãe não é segura. Ora, ela nem tem um sistema de alarme. Minha propriedade é cercada. Tenho um laboratório lá que precisa ser protegido. — Ele pegou o prato dela e começou a comer o que sobrara de comida depois de jogar o próprio prato na lata do lixo.

— Meu apartamento...

— Foi alugado. Todas as suas coisas foram mandadas para a minha casa e a mobília foi levada para um depósito.

O coração de Ellie ficou pesado. — Não achei que a dona do apartamento me despejaria.

Em uma voz mais gentil, Zane disse: — Ninguém acreditava mais que você estivesse viva, Ellie. Você ficou desaparecida por sete meses. Não foi exatamente um despejo.

Você acreditava, caso contrário, não teria parado de procurar. Ellie ainda se perguntava por que Zane continuara a procurar mesmo quando a polícia perdera a esperança de encontrá-la com vida.

Ela suspirou e começou a brincar nervosamente com o cobertor branco.

— Acho que sim. A vida continuou sem mim.

— Não para todo mundo. E nunca para mim — disse Zane em voz grave ao jogar o segundo prato vazio no lixo e abrir o pacote de doces.

— Por que você e Chloe não desistiram? Por que não simplesmente supuseram que eu estava morta? — Ellie sabia que Zane era analítico e realista. Ele era um cientista. Depois de sete meses, a probabilidade de encontrá-la viva fora praticamente nula. Um cérebro racional como o de Zane deveria ter lhe dito para parar de procurar.

Ele a encarou intensamente, com os olhos sombrios. Ele pegou um dos chocolates que desembrulhara e segurou-o perto da boca de Ellie. Foi uma sensação estranha ter um homem alimentando-a, mas ela abriu os lábios e chupou o chocolate redondo. A explosão de doçura fez com que ela reprimisse um gemido de prazer.

Finalmente, Zane respondeu: — porque eu não queria acreditar, Ell.

Até que eu tivesse provas concretas de que estava morta, eu não ia parar de procurar. Simples assim.

O uso da versão mais curta de seu nome deixou Ellie surpresa.

Ninguém a chamava assim, exceto ele, o que não acontecia desde a adolescência. Ela sempre gostara disso quando eram jovens. Ellie olhou

para ele, hipnotizada pela sua expressão feroz. Zane era um cientista.

Obviamente que desejaria encontrar o corpo para a família dela e para Chloe, mas ela achou que os motivos dele eram... diferentes. Como se fosse uma missão pessoal da qual não queria desistir. — Mas não havia esperança.

— Bobagem. Eu sempre tive esperança, Ellie. Conheço você o suficiente para saber que é guerreira. Chloe também acha o mesmo.

Nenhum de nós acreditou, nem por um minuto, na suposição imbecil de que você tinha partido com seu carro e nunca voltou. Não fazia sentido. Nós dois descartamos essa teoria assim que a polícia a mencionou.

E graças a Deus por aquilo! Se ele não tivesse sido tão persistente, ela estaria morta.

— Obrigada — sussurrou ela. — Fico grata por não ter desistido de me encontrar. — Se ele tivesse parado de procurar, ela não teria durado muito mais sozinha. Os médicos tinham lhe dito, de forma direta, que ela provavelmente não teria sobrevivido mais um dia sem água, comida ou calor.

— Eu nunca teria desistido — resmungou ele.