Bilionário Destemido: Zane
Capítulo 7
Zane guardou a sacola pesada com os livros antes de atravessar a rua em busca de Ellie. Não que ele estivesse com vergonha do que comprara, mas os livros provavelmente causariam perguntas que ele não queria nem podia responder no momento.
O instinto o orientava a saber mais sobre o que Ellie passara e ele queria entender o trauma da experiência dela. Ele se sentia completamente impotente em se tratando de reconfortar a bela mulher que precisava disso.
O problema era que ele nunca fora do tipo romântico e nunca tivera amigas que tivessem passado pelo que Ellie passara.
Talvez eu devesse ter telefonado para Chloe.
Ele balançou a cabeça ao andar até a loja de roupas, sabendo que a irmã ficaria furiosa. Mas, considerando tudo, ele concordava com Ellie. Chloe tinha os próprios problemas a resolver e merecia algum tempo. Sem dúvida, ela se sentiria culpada por Ellie estar em más condições devido ao sequestro. Zane sabia que Blake provavelmente já contara a Gabe. Blake e o marido de Chloe eram melhores amigos havia muito tempo. Obviamente, Gabe achara melhor esperar até que Chloe voltasse para casa. Caso contrário, Zane sabia que a irmã já estaria de volta da viagem. Não haveria como manter Chloe longe de Rocky Springs se soubesse que Ellie fora encontrada viva.
Zane respeitava o fato de Ellie querer algum tempo antes de encontrar Chloe. A decisão era apenas dela. Ele fizera o possível para forçá-la a aceitar alguma ajuda. Entretanto, tivera que definir um limite para não ir contra a decisão dela.
Movendo-se um pouco mais depressa, Zane colocou as mãos nos bolsos do casaco. Estava escuro e frio, e começara a nevar.
Ele parou quando viu Ellie na frente da loja de roupas, sentindo como se alguém tivesse lhe dado um soco no estômago.
Mas. Que. Diabos?
Ellie parecia aterrorizada. Uma equipe de repórter e operador de câmera estavam à frente dela, com a luz diretamente em seu rosto. Ela não dizia nada, só continuava a balançar a cabeça negativamente.
Zane conseguia ver apenas as costas do repórter, mas, ao olhar para a rua, viu uma van com o logotipo de uma estação de televisão local.
Ao avançar, com o maxilar cerrado, ele sabia que tornaria fisicamente impossível que aquele repórter perturbasse Ellie em um futuro próximo.
— Merda! — resmungou ele, observando enquanto Ellie tentou abrir caminho pela multidão e correu... diretamente em sua direção.
Ele a pegou com facilidade, entrando em seu caminho para que seu corpo parasse ao bater no dele. Passando os braços em volta dela, ele a manteve cativa.
— Zane — disse ela com lágrimas nos olhos. — Desculpe. Não consigo falar com eles agora. Não quero me lembrar. Não quero falar sobre o que aconteceu. — A voz dela estava assustada e cheia de pânico, uma voz que ele nunca ouvira antes.
— Você não precisa — disse ele baixinho, passando a mão em seus cabelos. — Srta. Winters — disse a voz masculina do repórter de forma insistente.
— Só algumas perguntas. — O jovem repórter se aproximou de Ellie, com o operador de câmera e a luz logo atrás.
— Não posso — soluçou Ellie. — Não consigo fazer isto agora.
Zane sentiu a raiva aumentando, uma emoção que nunca tivera com tanta intensidade. — Desligue a merda da câmera — disse ele à equipe da televisão. — Nada de entrevistas. — A voz dele foi mais um rosnado, pois o instinto de proteger Ellie contra qualquer coisa que a chateasse foi impossível de ignorar.
Olhando para o repórter com raiva, Zane exigiu: — Vão embora.
Voltem para Denver agora mesmo ou garantirei que nunca mais consiga
fazer outra entrevista. Ellie já passou por coisas demais. — Jesus, como ele odiava aqueles sanguessugas. Os repórteres continuavam bisbilhotando até que a vítima praticamente sangrasse.
— Nós não estamos na sua propriedade — respondeu o repórter com petulância. — Temos todo o direito de informar as notícias.
Zane perdeu o controle. — Vocês não estão informando porra de notícia nenhuma. Estão assediando uma vítima, uma mulher que passou por um sofrimento horrível sem motivo, sem culpa nenhuma. O criminoso está morto. Vocês só querem uma história para entreter os curiosos que desejam saber os detalhes. — Ele parou e respirou fundo. — Deem o fora de Rocky Springs e não voltem.
— Você não pode nos obrigar a ir embora — respondeu o repórter.
— Ele parece estar com os braços ocupados. Mas, se ele não consegue obrigá-los a ir embora, eu consigo — disse uma voz atrás de Zane.
Era Marcus. Apesar de Blake e Marcus terem a voz muito parecia, a declaração firme e suave era do irmão mais velho de Zane.
— Quer que eu o segure? — perguntou Blake.
— Eu ajudo — ofereceu Tate, furioso. — Merda! Achei que tinha feito tudo certinho para que ninguém a encontrasse. Desculpe, Ellie.
Zane queria desesperadamente ficar para bater o repórter insistente contra uma parede e fazer com que calasse a boca, mas Ellie tremia em seus braços. — Venha, vou levar você para o carro. — Virando-se, ele colocou o braço em volta de Ellie de forma protetora e conduziu-a até o SUV
estacionado mais adiante na rua.
— Cuidaremos do assunto — disse Marcus em tom estoico quando Zane e Ellie passaram por ele.
Zane assentiu. — Eu sei. Obrigado. — Os irmãos garantiriam que a imprensa saísse da cidade, não importava o que fosse preciso para isso.
Ellie ergueu a mão para limpar as lágrimas agressivamente. —
Desculpe. Foi uma tolice ficar tão chateada por causa de um repórter.
— Não foi tolice — retrucou Zane. — Se não está pronta, não precisa falar no assunto. Se nunca estiver pronta, nunca terá que dizer nada sobre isso.
Ellie fora até a polícia e dera seu depoimento. Mas, com a parte culpada morta, eles tinham anotado a explicação breve dela, sem os
detalhes, e arquivaram o caso. Zane ficara aliviado, apesar de saber que, algum dia, ela teria que afastar os demônios falando sobre o assunto.
Talvez ela fale com Chloe.
Zane olhou para o perfil dela ao caminharem, notando que ela parecia exausta. Ao chegarem ao veículo, ele se sentiu culpado por não carregar as sacolas dela. Em sua sede do sangue do repórter que assediara Ellie, ele não as notara. Não que parecesse que ela comprara muita coisa. Eram apenas duas sacolas pequenas.
— Deixe que eu levo. Entre no carro. — Ele pegou as sacolas e abriu a porta para ela. Em seguida, guardou as sacolas no porta-malas.
Sentando-se no banco do motorista, ele fechou a porta e ligou o carro para aquecê-lo.
Ellie tentava tirar a neve dos cabelos com os dedos gelados.
— Espero que tenha comprado mais algumas roupas quentes —
resmungou ele ao acelerar, sem nem se preocupar em olhar para trás. Zane tinha fé que os irmãos lidariam com o repórter. — Tenho algumas roupas de inverno. Só não organizei tudo ainda — respondeu ela em tom hesitante, obviamente ainda emotiva. — Tenho as coisas que você comprou para mim, mas não achei que ficaria na rua por tanto tempo. — Ela respirou fundo. —
Desculpe pela cena emotiva. — Aquelas pessoas assustaram você? —
perguntou Zane, apertando os dedos no volante, furioso por alguém ter deixado Ellie chateada.
— Não me assustaram — disse Ellie com um suspiro. — Eu só não quero revelar minha humilhação para o mundo inteiro. Não sei se algum dia estarei pronta para fazer isso.
Ellie estava com vergonha e isso quase deixou Zane fora de controle.
— Não foi culpa sua. Nada disso foi culpa sua.
— Isso não faz com que seja menos humilhante — retrucou Ellie.
Quando fez uma curva em direção à sua casa, ele xingou baixinho antes de responder. James fora um psicopata e Zane ainda se lembrava de quando ela lhe contara como ele a fizera implorar por comida e água. — Não sinta vergonha, nunca — disse ele. — James era o sociopata e você foi a vítima.
É preciso muita coragem para sobreviver ao que você sobreviveu, Ell.
— Eu deixei que ele brincasse comigo. Que mexesse com a minha cabeça — respondeu Ellie com tristeza. — Eu sabia o que James estava fazendo e dei exatamente o que ele queria.
— Que escolha você tinha? — perguntou Zane em tom ríspido.
Ela não respondeu. O silêncio longo e pesado fez com que ele percebesse que ela não tivera escolha. Toda a liberdade, o respeito e a dignidade dela tinham sido eliminados por um filho da puta louco que gostava de atormentar mulheres.
Ele ficou aliviado quando ela finalmente respondeu baixinho: —
Nenhuma. Eu não tinha nenhuma escolha. Era morrer ou permanecer viva.
A sobrevivente em mim se recusou a desistir.
— Ainda bem — disse Zane com voz rouca. — Eu teria ficado muito irritado se tivesse aparecido na cabana e você já estivesse morta.
Ellie riu, um som que bateu com força no peito de Zane. Ele não ouvira Ellie rir em muito tempo. Se o senso de humor negro dele a fazia sorrir, ele ficaria feliz em parar de tentar ser politicamente correto.
— Fico feliz por não ter decepcionado você — retrucou Ellie com uma careta.
Zane sorriu de leve ao entrarem em sua propriedade. Ele levou o carro em direção à casa. — Lamento ter deixado que um repórter tivesse a oportunidade de falar com você. Eu deveria estar protegendo você.
— Você protege. E não foi culpa sua — argumentou Ellie. — Zane, você não pode me proteger do mundo para sempre, não importa o quanto eu aprecie que tente.
— Claro que posso — retrucou ele. Ele se descuidara, deixara que os irmãos o distraíssem do local onde ela estava. Dali em diante, ela seria protegida.
— Eu também tenho medo — disse Ellie baixinho.
— Do quê? — perguntou Zane, querendo saber do que ela tinha medo para que pudesse acabar com ele.
O silêncio se estendeu enquanto Zane dirigia pela propriedade. A escuridão da noite o impedia de ver a expressão de Ellie.
Finalmente, ele insistiu: — Fale comigo, Ellie. Do que você tem medo?
— Tenho medo de que aconteça de novo — admitiu ela depressa. — Sei que as chances de ser sequestrada de novo, especialmente porque James está morto, são quase inexistentes. Racionalmente, entendo isso. Mas não consigo me livrar da ansiedade que sinto quando alguém se aproxima de mim, mesmo que seja de uma forma não ameaçadora. Se é alguém que não reconheço como amigo, tenho uma reação imediata de querer correr. Até
recentemente, eu tinha a mesma reação, mesmo que fosse um amigo, só que não tão forte como com um estranho. — Ela respirou fundo e continuou. —
Eu sei que não faz sentido. Eu sabia que o cara era um repórter. Mas, quando ele chegou perto e queria que eu falasse sobre a minha experiência, foi como se tudo fosse acontecer de novo.
A frustração de Zane com o repórter voltou. — Ele foi um idiota metido, Ell. E você tem todo o direito de ser cuidadosa. Ora, acho que você foi incrivelmente corajosa em sair de casa de novo.
— Eu quero sair. Não posso viver com medo, Zane — insistiu Ellie. —
Quero me sentir normal de novo. Esta é a minha cidade. Foi aqui onde eu cresci. Nada traumático aconteceu antes comigo aqui... — A voz dela sumiu, como se estivesse com medo de mencionar o único evento arrasador que jamais tivera em Rocky Springs.
Zane estendeu a mão no escuro, procurando contato com Ellie, odiando o fato de que ela estava essencialmente sofrendo sozinha. Ele não sabia como lidar com o medo dela... nem com a própria preocupação com sua segurança.
Ele encostou na mão dela e sentiu o coração pesado quando ela a afastou por um instante. Mas, em seguida, segurou a mão dele e entrelaçou os dedos em volta dos seus de forma confiante. Zane sentiu uma ternura dolorida no peito quando Ellie apertou os dedos, mostrando sem palavras que confiava nele, que sua reação inicial fora apenas algo instintivo e momentâneo.
Depois de alguns minutos de silêncio, Ellie perguntou: — Por que não me disse que cuidou do meu apartamento? Você mentiu para mim quando me disse que ele já estava alugado.
Ele dissera a verdade porque ela merecia. — Eu queria que seu apartamento estivesse esperando você. Queria que sua vida fosse o mais normal possível quando voltasse. Eu não sabia que a encontraria quase morta. Quando começou a se recusar a ficar na minha casa para se recuperar comigo, desisti do seu apartamento. Assim, você teria que ficar comigo. Sei que foi uma coisa bem merda que fiz e desculpe por ter mentido. Mas não lamento por estar comigo, onde é o seu lugar. No momento, eu preciso de você comigo tanto quanto você precisa de alguém para que esteja segura e não fique sozinha. — Meu Deus! Ele estava desesperado para ficar de olho nela em todos os momentos.
— Por quê?
— Porque preciso estar certo de que você está realmente viva e melhorando — respondeu ele relutantemente. — Essa coisa toda... o seu desaparecimento, a longa busca, os dias infindáveis imaginando onde você estava e o que tinha acontecido, perguntando-me se estava viva ou morta.
Isso me deixou muito assustado e, apesar de saber que está viva, o medo não desapareceu. — Zane começava a se perguntar se algum desapareceria.
Ela ficou em silêncio por um momento antes de finalmente responder:
— Acho que você tem razão. Acho que, agora, preciso ficar com você. A noite de hoje provou isso. Até que eu consiga eliminar todos os meus demônios, preciso que você os mate para mim. Sei que o que fez foi por medo e Deus sabe que entendo isso. Mas, por favor, nunca mais minta para mim nem tente me manipular.