Como Ser Antirracista
Corpo
CAPÍTULO 6
CORPO
RACISTA CORPORAL: Aquele que percebe certos corpos
racializados como mais animalescos e violentos que outros.
ANTIRRACISTA CORPORAL: Aquele que humaniza,
desracializa e individualiza o comportamento violento e não
violento.
P . . Basta de cultos na capela. Quanto mais eu crescia, mais desprezava a
conformidade entre a escola particular e a igreja. Depois do
nono ano, finalmente estava livre delas. Eu me matriculei na John
Bowne High School, uma escola pública que Gil, meu vizinho
haitiano, frequentava. Ela ficava em Flushing, no centro de
Queens, em frente ao Queens College. Éramos cercados pelo
som ambiente da via expressa de Long Island.
Em meados dos anos de 1950, as autoridades de habitação
social permitiram que minha avó se mudasse para o Pomonok
Houses, um empreendimento mobiliário ocupado
predominantemente por brancos, bem ao sul da escola John
Bowne. Papai passou por todo o ensino fundamental no final dos
anos de 1950 sem ver outro aluno negro, só os filhos de famílias
brancas da classe operária, que já naquela época se preparavam
para fugir para o subúrbio de Long Island. Em 1996, praticamente
todos tinham se mudado.
Depois da aula, os alunos da John Bowne abarrotavam os
ônibus públicos como roupas entulhando uma gaveta. O meu
ônibus se esvaziava lentamente à medida que se dirigia para a
parte sul do Queens. Nesse dia, eu estava perto da porta
traseira, de frente para um adolescente chamado Smurf, apelido
que ganhara por causa da baixa estatura e magreza, a pele negra azulada, as orelhas grandes e grandes olhos redondos que
quase se encontravam no meio do rosto.
Enquanto eu estava ao seu lado, Smurf pôs a mão no bolso da
calça e tirou uma pistola preta. Ele olhou para ela fixamente, e eu
também. Todo mundo olhou. Smurf ergueu a cabeça e apontou a
arma — carregada ou não? — diretamente para mim. “Com
medo, cara?”, perguntou com um carinho quase fraternal, um
risinho de satisfação brincando em seu rosto.
“ e reconhecer as raízes do
temor branco nos Estados Unidos”, disse o presidente Bill Clinton
em um discurso em 16 de outubro de 1995, o dia da Marcha de
Um Milhão de Homens. Ele tinha escapado da marcha e dos
homens negros reunidos praticamente no jardim da Casa Branca
para o campus da Universidade do Texas. “Existe um temor
legítimo da violência tão prevalente em nossas áreas urbanas”,
acrescentou. “Por experiência ou, pelo menos, pelo que as
pessoas veem no noticiário da noite, a violência para essas
pessoas brancas muitas vezes tem um rosto negro.”
A história conta os mesmos fatos: a violência, para os brancos,
de fato muitas vezes tem um rosto negro — e as consequências
aterrissaram nos corpos negros ao longo de toda a história norte-
americana. Em 1631, o capitão John Smith advertiu os primeiros
colonizadores ingleses na Nova Inglaterra de que os corpos
negros eram tão demoníacos quanto qualquer pessoa no mundo.
O pastor de Boston, Cotton Mather, pregava obediência à
escravidão em 1696: não se façam “infinitamente mais negros do
que já são”. Hugh Crysdale, tenente governador da Virgínia, falou
sobre “a Cruel disposição dessas Criaturas” que planejaram uma
rebelião pela liberdade em 1723. Em 1861, legisladores
secessionistas do Texas se queixaram de não receber mais
“recursos federais para se proteger… contra os selvagens
cruéis”. Benjamin Tillman, senador dos Estados Unidos, disse
aos colegas em 1903: “O pobre africano se tornou um demônio,
uma besta selvagem, à procura de quem devorar.” Dois
importantes criminologistas sugeriram em 1967 que a “grande…
exibição criminal de violência entre grupos minoritários como os negros”, se origina de sua “subcultura de violência”. Heather Mac
Donald, membro do Manhattan Institute, escreveu: “A principal
população envolvida no sistema de justiça penal são negros
pertencentes a uma classe inferior” em The War on Cops [“A
Guerra contra os Policiais”, em tradução livre], em 2016.
Este é o legado vivo do poder racista, construindo a raça negra
biologicamente e etnicamente, e apresentando o corpo negro
para o mundo antes de mais nada como uma “besta”, para usar o
termo de Gomes de Zurara, como violentamente perigoso, como
a personificação negra do mal. Hoje, os norte-americanos veem
o corpo negro como maior, mais ameaçador, potencialmente
mais prejudicial e com maior probabilidade de exigir força para
ser controlado do que um corpo branco de tamanho semelhante,
segundo os pesquisadores. Não é surpresa que milhares de
corpos negros tivessem que ser linchados, dezenas de milhares
deportados, milhões encarcerados e dezenas de milhões
segregados.
bola de basquete, com cerca
de oito anos, também comecei a entender os temores de meus
pais por meu corpo negro. Meu pais detestavam quando eu
jogava em parques próximos, preocupados com a possibilidade
de eu levar um tiro, e tentaram me desestimular advertindo-me
dos perigos que me esperavam lá fora. Ao espalhar
constantemente seus temores sobre traficantes de drogas,
ladrões e assassinos negros, eles alimentaram em mim o medo
de meus próprios vizinhos negros. Quando propus cimentar o
quintal dos fundos e instalar uma tabela de basquete, meu pai
construiu uma quadra mais depressa que um foguete e mais
legal que as quadras dos parques da vizinhança. Mas a nova
quadra de basquete não era capaz de me manter longe de meu
próprio corpo negro perigoso. Ou de Smurf no ônibus.
“ , ”, respondi com calma a pergunta de Smurf sobre o
meu medo. Meu olhar se fixou na arma.
“Tá certo, cara”, riu ele. “Você tá com medo, meu.” Então, ele
enfiou a arma nas minhas costelas e seu sorriso se endureceu.
Olhei diretamente para ele, morto de medo. “Não, cara”, disse,
rindo um pouco, “mas é uma máquina legal”.
“É mesmo, né?”
Satisfeito, Smurf se virou, arma na mão, e procurou outra
pessoa para assustar. Respirei aliviado, mas sabendo que
poderia ter sido ferido naquele dia, como em qualquer outro dia.
Principalmente, pensei, dentro da Escola de Ensino Médio John
Bowne, cercada por outros adolescentes negros, latinos e
asiáticos.
Andando pelos corredores da John Bowne, olhos bem atentos,
eu evitava pisar em tênis novos como se fossem minas terrestres
(apesar de que, quando pisei em um por acidente, nada tenha
explodido). Eu evitava esbarrar nas pessoas, preocupado que um
esbarrão se transformasse em um tiro em minha cabeça (apesar
de que, quando eu inevitavelmente esbarrava em alguém, minha
cabeça permanecia intacta). Eu evitava fazer contato visual,
como se meus colegas de classe fossem lobos (apesar de que,
quando eu o fazia, meu corpo não era atacado). Eu evitava
gangues, receando que ela se reunisse à minha volta a qualquer
momento (apesar de que, quando passei por uma gangue, não
fui assaltado). O que poderia acontecer com base nos meus
temores mais profundos era mais importante do que o que
aconteceu comigo. Eu acreditava que a violência estava me
perseguindo — mas, na verdade, eu estava sendo perseguido
dentro de minha cabeça por ideias racistas.
Gangues comandavam minha escola — como gangues
comandam os Estados Unidos — e eu pensei em me unir à
Nação Zulu, impressionado por sua história e seu alcance.
Testemunhar uma iniciação me fez mudar de ideia. A perversa
combinação de socos e pisões, apertos de mão e abraços, me
desanimou. Mas eu tinha uma gangue informal, ligada por uma
lealdade inflexível que nos exigia lutar uns pelos outros, caso a
ocasião surgisse.
Um dia, encontramos outra gangue em um quarteirão perto da
via expressa Long Island — talvez 5 de nós e 15 deles, todos se
entreolhando ameaçadoramente enquanto nos aproximávamos.
Aquilo era novo para mim, os confrontos, os xingamentos, as crescentes demonstrações de raiva. Ameaças ferindo como
punhos. Eu estava no grupo com todos os outros — mas
motoristas que passavam e nos olhavam não podiam ver que eu
estava lutando contra meu nervosismo mais do que tudo.
Uma ameaça levou à outra. Ninguém me atacou, pequeno e
despretensioso que eu era. Eu vi o grande Gil distribuindo socos.
Eu queria ajudá-lo, mas então vi um adolescente solitário alto e
magro olhando em volta, nervoso. Ele me lembrou de mim
mesmo. Eu me esgueirei por trás dele e desferi um violento
gancho de direita. Ele caiu no chão com um baque e me afastei
depressa. Logo ouvimos sirenes e fugimos como formigas, com
medo de sermos agredidos pela polícia de Nova York.
, mas sabíamos que a negritude nos
armava, mesmo que não tivéssemos armas. A branquitude
desarmava os policiais — fazia deles assustadas vítimas em
potencial — mesmo quando se aproximavam de um grupo de
estudantes do ensino médio agitados e ansiosos. Os negros
constituem 13% da população dos EUA. E mesmo assim, em
2015, corpos negros são pelo menos 26% dos mortos pela
polícia, caindo levemente para 24% em 2016, 22% em 2017, e
21% em 2018, segundo o Washington Post . Corpos negros
desarmados — que aparentemente parecem armados para
policiais assustados — têm duas vezes mais probabilidade de
serem mortos do que corpos brancos desarmados.
Gil e eu corremos pela passarela sobre a via expressa de Long
Island e saltamos em um ônibus que partia, sentindo-nos com
sorte, recuperando o fôlego. Eu poderia ter ido para a cadeia
naquele dia, ou pior.
Mais do que as vezes em que arrisquei ser preso, eu ainda sou
assombrado pelas vezes em que não ajudei as vítimas da
violência. Minha recusa em ajudá-las me aprisionou no medo. Eu
tinha tanto medo do corpo negro quanto o corpo branco tinha
medo de mim. Não conseguia reunir força para fazer o certo.
Como na ocasião em outro ônibus lotado depois da escola. Um
pequeno adolescente indiano — menor que eu! — sentou-se
perto de mim no fundo do ônibus naquele dia. Meu assento ficava de frente para a porta traseira e o adolescente indiano
sentou-se no banco individual ao lado da porta traseira. Fiquei
olhando para ele, tentando encontrar seu olhar para poder
acenar para que ele fosse para a frente do ônibus. Vi outros
garotos negros e indianos no ônibus tentando fazer o mesmo
com o olhar. Queríamos muito que ele saísse dali. Mas ele
estava concentrado na música que tocava em seu novo
Walkman. Seus olhos estavam fechados e ele balançava a
cabeça.
Smurf e seus garotos também estavam no ônibus naquele dia.
Por um momento, os corpos dos outros estudantes bloquearam
sua visão do garoto indiano — eles não o viam sentado ali. Mas,
quando o ônibus esvaziou o bastante para que pudessem vê-lo
com clareza, Smurf, como esperado, focou o que não queríamos
que ele visse.
Ele não estava com a pistola naquele dia. Ou talvez estivesse.
Smurf fez sinal para seus garotos e se levantou. Ele deu alguns
passos e ficou na frente do adolescente indiano, de costas para
mim, a cabeça virada para olhar seus amigos.
“Mas que merda!”
Ele apontou o dedo, imitando uma arma, para a cabeça do
garoto sentado. “Olhe só esse filho da mãe!”
1993, bipartidário de legisladores brancos
apresentou a Lei de Controle de Crimes Violentos e Aplicação da
Lei. Eles estavam pensando em Smurf — e em mim. O
Congressional Black Caucus [representantes afro-americanos no
Congresso dos Estados Unidos] também estava pensando em
Smurf e em mim. Eles pediram mais US$2 bilhões para a lei para
tratamento de dependentes químicos e mais US$3 bilhões para
programas de prevenção à violência. Quando os Republicanos
chamaram esses itens de “assistência para criminosos” e
exigiram que eles fossem reduzidos em troca de seus votos, os
líderes Democratas cederam. Vinte e seis dos 38 membros
votantes do Congressional Black Caucus também cederam.
Afinal, a lei refletia seu medo por meu corpo negro — e o dele. A
decisão da política refletia seu duelo de consciências — e seu desejo prático de não perder totalmente os recursos de
prevenção em uma nova redação da lei. Além das novas prisões,
crimes capitais, penas mínimas, federal three strike laws [para
criminosos condenados pela terceira vez], policiais e armamentos
para policiais, a lei me qualificou, quando completasse 13 anos,
em 1995, a ser julgado como adulto. “Nunca mais Washington
deve colocar a política e os partidos acima da lei e da ordem”,
disse o presidente Bill Clinton, ao assinar a lei bipartidária,
birracial, em 13 de setembro de 1994.
“ , , Walkman”, disse Smurf até com
gentileza. O garoto não ergueu a cabeça, ainda fascinado pelo
som que vinha dos fones de ouvido. Smurf lhe deu um tapa no
ombro. “Ei, neguinho, passe esse Walkman”, gritou.
Eu queria me levantar e gritar: “Deixa o cara em paz. Por que
você sempre quer ferrar com as pessoas, Smurf? Que raios está
errado com você?” Porém meu medo me aprisionou. Eu fiquei
sentado e calado.
O garoto finalmente olhou para cima, espantado. “O quê?” O
susto de ver Smurf se elevando sobre ele e o alto volume da
música o fez erguer o tom de voz. Sacudi a cabeça, mas sem
sacudir a cabeça. Continuei imóvel.
que tinham vencido a
guerra no território político para se apropriar do crime como uma
questão a ser resolvida — combater o corpo negro para
conquistar votos. Mas os norte-americanos racistas não
demoraram a se queixar de que até as leis mais dispendiosas
contra o crime na história da humanidade não foram suficientes
para deter a besta, o demônio, a arma, Smurf, a mim. Por volta
do feriado de Ações de Graças, em 1995, John J. Dilulio Jr., um
cientista político de Princeton, advertiu da “chegada dos
superpredadores”, principalmente corpos jovens como o meu em
“vizinhanças negras no centro das cidades”. Mais tarde, Dilulio
disse que se arrependeu de usar o termo. Mas Dilulio nunca teve
que internalizar essa ideia racista e olhar para o próprio corpo
com medo. Ele nunca teve que lidar com estar sendo caçado. Meus amigos em John Bowne, sim. Eu também. Em 1996,
completei 14 anos. Um superpredador estava crescendo em
mim, em Smurf, eles disseram. Acreditei no que ouvi.
“A maioria das crianças dos centros das cidades cresce
cercada por adolescentes e adultos degenerados, delinquentes
ou criminosos”, escreveu Dilulio. Cuidado. “Uma nova geração de
criminosos de rua está chegando — a geração mais jovem, maior
e mais nefasta que a sociedade já conheceu”, advertiu. Meu
grupo de “‘superpredadores’ juvenis” era composto de “jovens
radicalmente impulsivos, brutalmente impiedosos, incluindo cada
vez mais garotos pré-adolescentes, que matam, atacam,
estupram, roubam, invadem, traficam drogas mortais, se juntam a
gangues portadoras de armas e criam graves desordens na
comunidade”. Nós, jovens negros superpredadores,
aparentemente estávamos sendo criados com uma inclinação
para a violência sem precedentes — em uma nação que
presumivelmente não criava brancos donos de escravos,
encarceradores em massa, policiais, executivos, investidores,
financistas, motoristas embriagados e defensores da guerra
violentos.
Essa multidão de superpredadores nunca se materializou no
final dos anos 1990. Os crimes violentos já tinham iniciado uma
queda drástica quando eu assistia a Smurf exigindo aquele
Walkman em 1996. Os homicídios tinham atingido seu nível mais
baixo desde a era Reagan, quando a intensa concorrência no
mercado de crack e o tráfico ilegal de armas elevou o índice.
Contudo, leis referentes à criminalidade nunca estiveram
relacionadas ao crime mais do que o medo esteve relacionado à
violência em si. Não se espera que tenhamos medo de ternos
com políticas que matam. Não se espera que tenhamos medo de
bons homens brancos armados com AR-15s. Não, devemos
temer os corpos latinos exaustos e desarmados da América
Latina. O corpo árabe ajoelhado para Alá deve ser temido. O
corpo negro do inferno deve ser temido. Políticos hábeis e
empresários do crime fabricam o medo e ficam diante dos
eleitores para libertá-los — messias que os livrarão do medo de
todos esses outros corpos.
“ , está me ouvindo!” tornou Smurf, furioso.
“Eu disse para passar essa droga de Walkman!”
Em minha mente, tentei pensar em uma estratégia para o pobre
garoto, imaginando a mim mesmo em seu lugar. Eu tinha um
pouco de habilidade para me manter calmo e neutralizar
situações potencialmente instáveis, o que era útil ao lidar com os
violentamente insistentes Smurfs do mundo ou policiais
imprevisivelmente violentos. Aprendi a desarmar ou evitar os
Smurfs pela cidade — garotos subjugados pelo caos. Mas eu
também via que estranhos faziam os mesmos cálculos quando
me viam chegando — eu via o medo em seu olhar. Eles me viam
e decidiam que estavam olhando para Smurf. Nós os
assustávamos da mesma forma — tudo que viam eram os
nossos corpos negros perigosos. Os policiais pareciam
especialmente receosos. Assim como eu aprendi a evitar os
Smurfs do mundo, tive que aprender a evitar que policiais
racistas ficassem nervosos. Negros aparentemente são
responsáveis por acalmar os temores de policiais violentos do
mesmo modo que mulheres são supostamente responsáveis por
acalmar os desejos sexuais de estupradores. Se não o fizermos,
então somos responsabilizados por nossas próprias agressões
ou nossas mortes.
Mas, nesse ponto, o garoto à minha frente não tinha opções —
provavelmente não havia como neutralizar a situação. “Passe
esse maldito Walkman!”, gritou Smurf, agora com cabeças se
voltando na frente do ônibus e, provavelmente, fazendo o
motorista ficar sobressaltado. O adolescente assustado começou
a se levantar, calado, apenas balançando a cabeça.
Provavelmente, ele pretendia ir para a frente, perto da segurança
do motorista. Mas, assim que ele endireitou o corpo, Smurf
desferiu um soco em sua têmpora — sua cabeça bateu no vidro
e depois no chão. Smurf agarrou o Walkman e então sua turma
se aproximou. O garoto cobriu o rosto quando os pisões com as
botas Timberland o atingiram com violência. Tudo ocorreu na
minha frente. Eu não fiz nada. Eu não fiz nada.
O ônibus parou. A porta traseira se abriu. Smurf e seus garotos
saltaram para fora e correram, despreocupados, rindo. Mas eu notei que quatro olhos da turma de Smurf continuaram fixos no
ônibus, espreitando, olhando, aparentemente esperando que
alguém ajudasse o garoto caído em agonia. Eu não fiz nada.
em segurança me seguia
como os cães abandonados no meu bairro, enchendo minha
consciência com latidos de medo. Nunca quis chegar em casa
com bolsos vazios e sem sapatos, com o corpo surrado e
sangrando como o garoto indiano. Ou pior, nunca chegar, apenas
uma carta da polícia reportando minha morte, ou uma ligação do
hospital. Convenci meus pais (ou assim pensei) de que estava
seguro. Mas não me convenci. Os atos de violência que eu
testemunhei Smurf e outros garotos cometerem, combinados
com as ideias racistas à minha volta, me convenceram de que
mais violência espreitava do que havia na realidade. Eu
acreditava que a violência não definia apenas Smurf, mas todos
os negros à minha volta, de minha escola, de minha vizinhança.
Acreditava que ela me definia — que eu deveria temer toda a
escuridão, incluindo meu próprio corpo negro.
Nós, escritores negros que crescemos em bairros negros no
centro da cidade, muitas vezes lembramos a violência que
experimentamos mais do que a não violência. Não escrevemos
sobre todos aqueles dias em que não nos defrontamos com
armas em nossas costelas. Não recontamos todos aqueles dias
em que não brigamos, os dias em que não vimos alguém ser
espancado diante de nós. Nós ficamos exatamente iguais ao
noticiário noturno local — se há sangue, há notícia — e nossas
histórias se concentram em corpos negros violentos, em vez de
na imensa maioria de corpos negros não violentos. Em 1993,
perto do auge da violenta criminalidade urbana, para cada mil
residentes da cidade, 74, ou 7,4%, relataram ter sido vítimas de
crimes violentos, uma porcentagem que caiu ainda mais depois.
Em 2016, para cada mil residentes urbanos, cerca de 30, ou 3%,
relataram ter sido vítimas de crimes violentos. Esses números
não são precisos. Pesquisadores calculam que mais da metade
de crimes violentos cometidos de 2006 a 2010 não foram
informados à polícia. E até mesmo estar perto de crimes violentos pode criar efeitos adversos. Contudo, a ideia de que a
violência experimentada diretamente é endêmica e está em todos
os lugares, afetando a todos, ou até a maioria das pessoas —
que bairros negros, como um todo, são mais perigosos do que
“zonas de guerra”, para usar o termo do presidente Trump — não
é real.
Faz todo sentido que essa seja a história que contamos com
tanta frequência — os punhos se agitando, os tiros de revólver e
as mortes precoces se agarram a nós como uma segunda pele,
enquanto os abraços, as danças e bons momentos
desaparecem. Mas o trabalho do escritor se reflete, e o leitor
absorve, essas lembranças vívidas e ardentes, não a realidade
vivida do cotidiano do corpo negro.
Por mais momentos de ansiedade e medo que tive de outros
corpos negros, provavelmente vivi muito mais momentos de
serenidade e paz. Por mais que temesse a violência que me
perseguia, minha vida diária não era organizada ao redor desse
medo. Joguei basquete durante anos com garotos brancos em
Long Island e sempre me perguntei por que eles nunca quiseram
visitar meu bairro, minha casa. Quando eu perguntava, os
olhares de horror em seus rostos, e ainda mais no rosto de seus
pais, me assustavam e confundiam. Eu sabia que havia perigos
no meu quarteirão; mas também achava que era seguro.
Eu não associei todo ou mesmo a maior parte de Southeast
Queens à violência, assim como não associei todos ou até
mesmo a maioria de meus vizinhos à violência. Eu sabia evitar
certas pessoas como Smurf, certos quarteirões e certos bairros.
Mas não porque eram negros — éramos quase todos negros. Eu
sabia vagamente que bairros negros com habitações sociais de
alta densidade populacional, como o South Jamaica Houses ou
as Casas Baisley Park, eram conhecidos como sendo mais
violentas do que bairros como o meu, Queens Village, com mais
casas unifamiliares, mas eu nunca realmente pensei no porquê.
Mas eu sabia que não era a negritude — a negritude era uma
constante.
Um estudo que usou os dados do Levantamento Nacional
Longitudinal da Juventude de 1976 a 1989 constatou que jovens negros se envolviam mais em crimes violentos do que jovens
brancos. Porém, quando os pesquisadores compararam apenas
jovens empregados do sexo masculino de ambas as raças, as
diferenças em comportamento violento desapareciam. Ou, como
o Instituto Urbano declarou em um relatório mais recente sobre
desemprego de longo prazo: “Comunidades com uma parcela
maior de trabalhadores desempregados também tendem a ter
maiores índices de crime e violência.”
Outro estudo descobriu que a queda de 2,5% no desemprego
entre 1992 e 1997 resultou na queda de 4,3% de assaltos, 2,5%
de roubos de carros, 5% de arrombamentos e 3,7% de
estelionatos. A socióloga Karen F. Parker estabeleceu uma sólida
ligação entre o crescimento de negócios de propriedade de
negros com a redução de violência entre jovens negros entre
1990 e 2000. Recentemente, o Laboratório Criminal da
Universidade de Chicago trabalhou com o programa One
Summer Chicago Plus (empregos de verão) e constatou uma
diminuição de 43% nas prisões por crimes violentos de jovens
negros que trabalharam em empregos de verão de meio período,
comparados ao grupo de controle de adolescentes que não
trabalharam.
Em outras palavras, os pesquisadores encontraram uma
correlação mais forte e clara entre níveis de crimes violentos e
níveis de desemprego do que entre crimes violentos e raça. Nem
todos os bairros negros apresentam os mesmos níveis de crimes
violentos. Se a causa de crimes violentos fosse o corpo negro, se
os negros fossem demônios violentos, então os níveis de crimes
violentos seriam relativamente os mesmos, não importa onde os
negros vivessem. Mas bairros negros de renda média e alta
tendem a ter menos crimes violentos do que bairros negros de
baixa renda — como é o caso de comunidades não negras. Mas
isso não significa que pessoas negras de baixa renda sejam mais
violentas do que pessoas negras de alta renda. Isso significa que
bairros de baixa renda lutam com desemprego e pobreza — e
seu subproduto comum, o crime violento.
Durante décadas, houve três estratégias principais para reduzir
crimes violentos em bairros negros. Segregacionistas que consideram os bairros negros como sendo zonas de guerra
pediram policiamento reforçado e encarceramento em massa de
superpredadores. Os assimilacionistas dizem que esses
superpredadores precisam de leis rígidas e muito amor por parte
de mentores e pais para civilizá-los de volta à não violência.
Antirracistas dizem que os negros, como todas as pessoas,
precisam de acesso a empregos com melhores salários,
principalmente jovens negros, que consistentemente
apresentaram os maiores índices de desemprego entre todos os
grupos demográficos, atingindo o máximo de 50% em meados
dos anos de 1990.
Não existe algo como um grupo racial perigoso. Mas há, é
claro, indivíduos perigosos como Smurf. Há a violência do
racismo — manifesto nas políticas e na polícia — que teme o
corpo negro. E há a não violência do antirracismo que não teme
o corpo negro, que teme, quando muito, a violência do racismo
que foi colocada no corpo negro.
Percepções de perigo e ameaças reais conviviam diariamente
comigo na John Bowne, de várias formas. Havia o perigoso
desinteresse de alguns professores. Ou a perigosa
superpopulação da escola: 3 mil alunos abarrotando uma escola
construída para um número muito menor. As classes eram muito
grandes — duas vezes maiores do que nas minhas escolas
privadas — e alunos desapegados como eu podiam manter
nossas próprias aulas no fundo da classe diante de professores
desapegados. Eu não me lembro de um único professor, ou
classe, ou aula, ou tarefa do primeiro ano do ensino médio. Fui
deixado de lado — seguindo o exemplo da maioria dos
professores, administradores e políticos ostensivamente
encarregados de minha educação. Eu frequentei a John Bowne
como alguém que batia o cartão no emprego sem intenção de
trabalhar. Eu só trabalhei arduamente no meu primeiro amor.