Como Ser Antirracista

Ibram X. Kendi · Capítulo 3 de 21

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Como Ser Antirracista

Minha Introdução Racista

 

E . Durante 17 anos, estive cercado pelo pessoal da igreja, de terno, gravata e chapéu.

Meu guarda-roupa de adolescente era um grito de rebeldia do

filho de um pastor.

Era 17 de janeiro de 2000. Mais de 3 mil negros — e uma

pequena quantidade de brancos — chegaram, naquela segunda-

feira de manhã, em seus melhores trajes dominicais à Hylton

Memorial Chapel, na Virgínia do Norte. Meus pais estavam em

estado de choque. De algum modo, seu desajeitado filho tinha

conseguido chegar à última etapa do concurso de oratória Martin

Luther King Jr., do condado de Prince William.

Eu não apareci com um colarinho branco debaixo de um terno

escuro e gravata escura combinando, como a maioria dos

competidores. Vestia um exuberante blazer marrom-dourado com

uma estilosa camisa preta e uma gravata com listras coloridas. A

bainha de minha calça baggy preta embolada em volta de minhas

botas creme. Eu já tinha sido reprovado no teste de

respeitabilidade antes de abrir a boca; mesmo assim, meus pais,

Carol e Larry, eram só sorrisos. Eles não se lembravam da última

vez que tinham me visto usar um blazer e uma gravata, por mais

extravagantes que fossem.

Contudo, não eram só minhas roupas que não combinavam

com o cenário. Meus concorrentes eram prodígios acadêmicos.

Eu não. Minha média geral era inferior a 3,0; a minha pontuação

do teste de aptidão escolar mal chegava a 1.000. As faculdades

estavam recrutando meus concorrentes. Eu me sentia nas

nuvens pela surpresa de ter recebido cartas de admissão das

duas faculdades nas quais me inscrevi sem muita convicção.

Algumas semanas antes, eu estava na quadra de basquete da

escola com meu time, fazendo aquecimento para um jogo,

treinando arremessos com a bola ao redor do garrafão. Meu pai,

com todo o seu 1,90m e 90 quilos, surgiu na entrada do ginásio.

Lentamente, ele caminhou pela quadra, agitando os braços para chamar minha atenção — e me constrangendo diante do que

podíamos chamar de “juiz branco”. Típico de meu pai. Ele não

dava a mínima para o que os intolerantes brancos pensavam

dele. Raramente, ou nunca, colocava uma máscara de felicidade,

fingia uma voz mais calma, ocultava uma opinião ou evitava fazer

uma cena. Eu amava e detestava meu pai por viver de acordo

com suas regras em um mundo que geralmente renega aos

negros o direito de serem eles mesmos. Era o tipo de desafio que

poderia ter causado seu linchamento por uma turba, em um

tempo e lugar diferentes — ou seu linchamento por homens com

distintivos, nos dias de hoje.

Corri até ele antes que percorresse todo o trajeto até o garrafão

agitando os braços. Estranhamente alvoroçado, ele me entregou

um envelope de papel pardo.

“Isso chegou para você hoje.”

Com um sinal, ele pediu que eu abrisse o envelope, bem ali no

meio da quadra sob os olhares dos alunos e professores

brancos.

Abri a carta e a li: eu tinha sido admitido na Hampton University,

na Virgínia do Sul. O choque que senti imediatamente explodiu

na forma de uma felicidade inexplicável. Abracei meu pai e

suspirei. Lágrimas se misturaram ao suor provocado pelo treino

de aquecimento em meu rosto. Os olhares brancos e críticos à

nossa volta se apagaram.

Eu achava que era estúpido e burro demais para frequentar a

faculdade. Claro, a inteligência é tão subjetiva quanto a beleza.

Mas eu continuava a usar padrões “objetivos”, como pontuação

em testes e boletins escolares para me julgar. Não foi surpresa

eu enviar inscrições apenas para duas universidades: uma para

Hampton e outra para a instituição que acabei por frequentar,

Florida A&M University. Menos inscrições significavam menos

rejeições — e eu realmente esperava que essas duas

universidades historicamente negras me rejeitassem. Por que

uma universidade aceitaria um idiota que não entendia

Shakespeare em seu campus? Nunca me ocorreu que talvez não

estivesse realmente tentando entender Shakespeare e que esse fosse o motivo pelo qual abandonei a aula de Literatura Inglesa II

no último ano. Por outro lado, eu não lia muito naquela época.

Talvez, se eu tivesse lido história, teria aprendido sobre o

significado histórico da nova cidade para a qual minha família se

mudou ao sair de Nova York, em 1997. Teria aprendido sobre

todos aqueles memoriais da Confederação que me cercavam em

Manassas, Virgínia, como os dos mortos do exército de Robert E.

Lee. Poderia ter aprendido por que tantos turistas visitam o

Parque Nacional do Campo de Batalhas de Manassas a fim de

reviver a glória das vitórias dos confederados nas Batalhas de

Bull Run durante a Guerra Civil. Foi lá que o General Thomas J.

Jackson adquiriu o apelido, “Stonewall” [Muro de Pedra], por sua

obstinada defesa da Confederação. Os habitantes da Virgínia do

Norte mantiveram o muro de pedra intacto após todos esses

anos. Alguém notou a ironia de que, nesse concurso de oratória

Martin Luther King Jr., minha vida negra livre representava a

Escola Secundária Stonewall Jackson?

 

evento da irmandade Delta

Sigma Theta, os orgulhosos dignatários e os competidores

ocupavam a tribuna. (O grupo era grande demais para dizer que

estávamos todos no púlpito.) O público sentava-se em filas que

circundavam o púlpito longo e curvo, dando espaço para os

oradores andarem até as extremidades da capela enquanto

proferiam seus discursos; cinco degraus também nos permitiam

descer até o público, se quiséssemos.

Os alunos do ensino fundamental proferiram discursos

surpreendentemente adultos. O emocionante coral infantil tinha

cantado atrás de nós. O público voltou a sentar-se e ficou em

silêncio, aguardando os três oradores do ensino médio.

Fui o primeiro, finalmente me aproximando do clímax de uma

experiência que já tinha mudado a minha vida. De vencer a

competição da escola meses antes a ganhar como “melhor,

segundo os juízes” em uma competição em todo o condado

semanas atrás — fui dominado por uma forte confiança

acadêmica. Se saí dessa experiência cheio de confiança para a

faculdade, era porque vinha de um período de extrema insegurança no ensino médio. Até hoje eu me pergunto se foi

meu baixo senso de identidade que gerou um baixo senso de

identidade em relação ao meu povo. Ou foi meu baixo senso de

identidade em relação ao meu povo que despertou um baixo

senso de identidade em mim? Como a famosa pergunta sobre o

ovo e a galinha, a resposta é menos importante do que o ciclo

que descreve. Ideias racistas fazem pessoas não brancas não se

respeitarem, o que as torna mais vulneráveis a ideias racistas.

Ideias racistas fazem os brancos terem uma boa opinião de si

mesmos, o que os atrai ainda mais para ideias racistas.

Eu me considerava um aluno medíocre e fui bombardeado por

mensagens — de negros, de brancos, da mídia — que me diziam

que o motivo estava enraizado em minha raça… o que me deixou

mais desestimulado e menos motivado a estudar… o que só

reforçou ainda mais a ideia racista de que os negros

simplesmente não eram muito estudiosos… o que me fez sentir

ainda mais desespero ou indiferença… e assim por diante. Em

nenhum ponto esse ciclo foi interrompido por uma análise mais

profunda de minhas próprias circunstâncias ou deficiências

específicas ou um olhar crítico sobre as ideias da sociedade que

me julgavam — em vez disso, o ciclo solidificou as ideias racistas

dentro de mim até eu estar preparado para pregá-las aos outros.

 

com muito carinho, mas,

quando recordo o discurso racista que fiz, enrubesço,

envergonhado.

“Qual seria a mensagem do Dr. King para o milênio? Vamos

imaginar um zangado Dr. King de 71 anos…” E eu comecei com

minha remixagem do discurso de King, “Eu Tenho um Sonho”.

Foi jubilosa, comecei, a nossa emancipação da escravatura.

Mas “hoje, 135 anos depois, o negro ainda não está livre”. Eu já

estava trovejando, o tom zangado, mais Malcolm do que Martin.

“As mentes de nossos jovens ainda estão aprisionadas!”

Eu não disse que as mentes de nossos jovens estão

aprisionadas por ideias racistas, como eu diria hoje.

“Eles acham que está tudo bem serem os mais temidos de

nossa sociedade!” disse eu, como se tivessem culpa por serem tão temidos.

“Eles acham que está tudo bem não pensar!” acusei, abordando

a clássica ideia racista de que os jovens negros não valorizam a

educação tanto quanto seus colegas não negros. Ninguém

pareceu se importar com o fato de que essa conhecida ideia foi

transmitida por histórias, mas nunca se baseou em provas.

Mesmo assim, a multidão me encorajou com seus aplausos.

Continuei a disparar ideias racistas comprovadas e não

comprovadas sobre tudo de errado que havia com os jovens

negros — ironicamente, no dia em que tudo que havia de certo

sobre os jovens negros estava bem diante de todos.

Comecei a andar impetuosamente para frente e para trás pelo

palco, ganhando força.

“Eles acham que a gravidez é um excelente plano de vida!”

Aplausos. “Acham que está tudo bem limitar seus sonhos aos

esportes e à música!” Aplausos.

Será que tinha esquecido que eu — não os “jovens negros” —

limitara meus sonhos aos esportes? E eu estava chamando os

jovens negros de “eles”? Quem eu pensava que era?

Aparentemente, estar naquele palco ilustre me tirou do campo do

ordinário — e, portanto, inferior — dos jovens negros e me

colocou no campo do incomum e extraordinário.

Em meus esforços de oratória entremeados de aplausos

entusiasmados, não me dei conta de que dizer que algo está

errado em um grupo racial é dizer que algo nesse grupo racial é

inferior. Não me dei conta de que dizer que um grupo racial é

inferior é expressar uma ideia racista. Achei que estava servindo

ao meu povo quando, na verdade, estava propagando ideias

racistas sobre meu povo para o meu povo. O juiz negro parecia

estar aceitando tudo e dando tapinhas nas minhas costas

pedindo mais. E eu dei mais.

“Suas mentes estão sendo mantidas prisioneiras, e as mentes

de nossos adultos estão logo atrás delas,” disse eu, gesticulando

para o chão. “Porque, de algum modo, eles acham que a

revolução cultural que começou no dia do nascimento do sonho

no famoso discurso acabou.

“Como pode ter acabado quando, muitas vezes, não somos

bem-sucedidos porque nos falta coragem e perseverança?”

Aplausos.

“Como pode ter acabado, se nossos filhos deixam suas casas

sem saber que rumo tomar na vida, sabendo apenas que rumo

não tomar na vida?” Aplausos.

“Como pode ter acabado, se tudo isso está acontecendo em

nossa comunidade?” perguntei, baixando a voz. “Então, eu lhes

digo, meus amigos, que mesmo que talvez essa revolução

cultural nunca termine, eu ainda tenho um sonho…”

 

— a recordação desse discurso

sempre que reúno coragem para relembrá-lo se renova. É difícil

acreditar que terminei o ensino médio em 2000 promovendo

tantas ideias racistas. Uma cultura racista me entregou a

munição para atirar no povo negro, atirar em mim mesmo, e eu a

aceitei e usei. O racismo internalizado é o verdadeiro crime de

negros contra negros.

Fui um crédulo e ingênuo que viu as lutas contínuas do povo

negro no Dia de MLK de 2000 e decidiu que os próprios negros

eram o problema. Esta é a função consistente das ideias racistas

— e de qualquer tipo de intolerância mais ampla: manipular-nos

para ver as pessoas como o problema, e não as políticas que as

ludibriam.

A linguagem usada pelo 45o presidente dos Estados Unidos

oferece um exemplo claro de como esse tipo de linguagem e

pensamento racista funciona. Muito antes de se tornar

presidente, Donald Trump gostava de dizer: “A preguiça é uma

característica dos negros.” Quando ele decidiu candidatar-se à

presidência, seu plano para tornar a América grande outra vez foi

difamar imigrantes latinos como uma maioria de criminosos e

estupradores, e exigir bilhões para um muro na fronteira para

impedir sua entrada. Ele prometeu “impedir total e

completamente a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos”.

Quando se tornou presidente, chamou sistematicamente seus

críticos negros de “estúpidos”. Declarou que “todos os imigrantes do Haiti têm AIDS”, enquanto enaltecia supremacistas brancos

como “pessoas ótimas”, no verão de 2017.

O tempo todo, sempre que alguém ressaltava o óbvio, Trump

respondia com variações do conhecido refrão: “Não, não. Eu não

sou racista. Sou a pessoa menos racista que você já entrevistou”,

que “você já conheceu”, que “já viu”. O comportamento de Trump

pode ser incomum, mas suas negativas são normais. Quando

políticas racistas repercutem, também são seguidas por

negações de que são racistas.

A negação é o batimento cardíaco do racismo, pulsando em

ideologias, raças e nações. Ela bate dentro de nós. Muitos de

nós que rebatemos firmemente as ideias racistas de Trump

negamos as nossas próprias com firmeza. Quantas vezes

assumimos automaticamente uma postura defensiva quando

alguém chama de racista algo que fizemos ou dissemos?

Quantos de nós concordaríamos com essa declaração: “Racista

não é uma palavra descritiva. É uma palavra pejorativa. É o

mesmo que dizer: ‘Eu não gosto de você.’” Essas são, na

verdade, as palavras do supremacista branco Richard Spencer,

que, como Trump, se identifica como “não racista”. Quantos de

nós que desprezam os Trumps e supremacistas brancos do

mundo partilham essa autodefinição de “não racista”?

Qual é o problema em ser “não racista”? É uma declaração que

mostra neutralidade: “Não sou racista, mas também não sou

agressivamente contra o racismo.” Todavia, não existe

neutralidade na luta contra o racismo. O contrário de “racista” não

é “não racista”. É “antirracista”. Qual é a diferença? As pessoas

podem ser racistas, endossando uma ideia de hierarquia racial,

ou antirracistas, defendendo a igualdade racial. Podem defender

que os problemas nascem nos grupos de pessoas, uma ideia

racista, ou identificar as raízes dos problemas no poder e nas

políticas, uma ideia antirracista. Uma pessoa pode permitir que

as desigualdades raciais persistam, uma atitude racista, ou

confrontar as desigualdades raciais, uma atitude antirracista. Não

há uma posição intermediária segura de “não racista”. A

alegação de uma neutralidade “não racista” é uma máscara para

o racismo. Isso pode parecer radical, mas é importante que apliquemos um dos princípios essenciais do antirracismo desde o

início, que é devolver o uso adequado ao termo “racista”.

“Racista” não é — como argumenta Richard Spencer — um

termo pejorativo. Não é o pior termo no idioma inglês; não é o

equivalente a um insulto. Ele é descritivo, e o único modo de

desfazer o racismo é identificá-lo e descrevê-lo consistentemente

e, então, derrubá-lo. A tentativa de transformar esse termo

descritivo em um insulto quase inutilizável é, claro, destinado a

fazer o oposto: paralisar nossas ações.

 

...

 

“cegueira para a cor de pele” é

semelhante à noção de ser “não racista” — assim como o “não

racista”, o indivíduo que se diz incapaz de ver a cor da pele,

deliberadamente ignorando raças, não enxerga o racismo e

acaba caindo no racismo passivo. A linguagem da “cegueira para

cor de pele” — assim como a de “não racista” — é uma máscara

que esconde o racismo. “Nossa Constituição não vê cor da pele”,

declarou o juiz John Harlan, da Suprema Corte dos EUA, em seu

voto discordante na ação Plessy versus Ferguson , que

sancionou as leis segregacionistas de Jim Crow em 1896. “Os

brancos se consideram dominantes neste país”, prosseguiu o juiz

Harlan. “Eu não duvido que continuará sendo assim para sempre,

se permanecer fiel ao seu grande legado.” Uma Constituição

daltônica em um país supremacista branco.

 

o racista e o antirracista não são

identidades definitivas. Podemos ser racistas em um momento e

antirracistas em outro. O que falamos e fazemos em relação à

raça em cada momento determina o que — e não quem —

somos.

Eu costumava ser racista quase o tempo todo. Estou mudando.

Não estou mais me identificando com racistas declarando ser

“não racista”. Não estou mais falando por trás da máscara da

neutralidade racial. Não estou mais sendo manipulado por ideias

racistas que veem grupos raciais como problemas. Não acredito mais que uma pessoa negra não possa ser racista. Não policio

mais todas as minhas ações com base nas palavras de um

suposto juiz branco ou negro, tentando convencer brancos de

minha humanidade igualitária, tentando convencer negros de que

sou um bom representante da raça. Não me importo mais com os

efeitos que as ações de outros negros exercem em mim, já que

nenhum de nós é representante da raça, nenhum de nós é

responsável pelas ideias racistas dos outros. E constatei que o

movimento do racismo para o antirracismo é sempre contínuo —

ele exige que se compreenda e ignore o racismo baseado em

biologia, etnicidade, corpo, cultura, comportamento, cor, espaço e

classe. E, além disso, significa estar pronto para lutar nas

intersecções do racismo com outras intolerâncias.

 

...

 

, sobre a luta principal de que todos

participamos, a luta para sermos integralmente humanos e para

ver que os outros são integralmente humanos. Partilho minha

jornada de ter crescido no duelo da consciência racial da classe

média negra da era Reagan, ter feito uma conversão à direita na

estrada de dez faixas do racismo antinegro — uma estrada

misteriosamente livre de policiais e com combustível à vontade

— e depois ter dado uma guinada para a estrada de duas faixas

do racismo antibranco, onde o combustível é raro e há polícia em

todos os lugares, antes de encontrar e finalmente tomar a

estrada de terra sem iluminação do antirracismo.

Depois dessa jornada extenuante até a estrada de terra do

antirracismo, a humanidade pode chegar à clareira de um futuro

em potencial: um mundo antirracista em toda sua imperfeita

beleza. Ele pode se tornar real se focarmos o poder, e não as

pessoas; se focarmos a mudança de políticas e não de grupos de

pessoas. Ele é possível, se superarmos nosso cinismo sobre a

persistência do racismo.

Nós sabemos ser racistas. Sabemos como fingir não ser

racistas. Agora, vamos aprender a ser antirracistas.