Como Ser Antirracista
Biologia
CAPÍTULO 4
BIOLOGIA
RACISTA BIOLÓGICO: Aquele que manifesta a ideia de que
as raças têm diferenças biológicas significativas e que essas
diferenças criam uma hierarquia de valor.
ANTIRRACISTA BIOLÓGICO: Aquele que manifesta a ideia
de que as raças têm semelhanças biológicas significativas e
que não há diferenças raciais genéticas.
N nome dela. Posso enumerar os nomes de minhas professoras negras do quinto, sexto e
sétimo anos. Mas o nome de minha professora branca do
quarto ano se perdeu em minha memória, como os nomes de
tantos brancos racistas ao longo dos anos que interromperam
minha paz com suas reprimendas. Esquecê-la pode ser um
mecanismo de enfrentamento. Às vezes, pessoas não brancas
lidam com o abuso de indivíduos brancos escondendo-os atrás
da bandeira generalizada da branquidade. “Ela agiu assim”,
dizemos, “porque é branca”.
Contudo, generalizar o comportamento de indivíduos brancos
racistas para todos os brancos é tão perigoso quanto generalizar
as falhas individuais das pessoas não brancas a toda uma etnia.
“Ele agiu assim porque é negro. Ela agiu assim porque é
asiática.” Muitas vezes, enxergamos e nos lembramos da etnia e
não do indivíduo. Encher nossas experiências com indivíduos em
armários raciais demarcados pela cor é uma categorização
racista. Um antirracista trata e se lembra de indivíduos como
indivíduos. “Ela agiu assim” deveríamos dizer, “porque ela é
racista”.
Hoje eu sei disso, mas esse conhecimento não me fará lembrar
daquela professora em especial. Meus pais também não se lembram do nome dela. Nós só nos lembramos do que ela fez.
Minha classe do quarto ano era composta principalmente de
crianças negras, além de umas poucas asiáticas e latinas. Três
crianças brancas — duas meninas e um menino — não se
integravam às demais e sentavam-se na frente da classe. Eu me
sentava no fundo, perto da porta, de onde podia ver tudo. Via
quando a professora branca ignorava as mãos não brancas
erguidas e chamava as mãos brancas. Via quando ela punia
alunos não brancos por algo que não punia os alunos brancos
por fazer.
Esse não era um problema específico de minha escola ou
minha infância — é um problema que se estende de escolas
privadas a públicas e ao longo do tempo. Segundo dados do
Departamento de Educação, durante o ano letivo de 2013-14,
alunos negros tiveram quatro vezes mais probabilidade de serem
suspensos das escolas públicas do que alunos brancos.
De volta à minha classe do quarto ano, aparentemente os
castigos injustos e o desdém não incomodavam os outros alunos
negros, então não deixei que me incomodassem. Mas um dia,
antes das férias de Natal, em 1990, foi inevitável.
Uma garota pequena e quieta — menor e mais quieta que eu —
sentava-se no fundo no outro lado da classe. A professora fez
uma pergunta e eu a vi erguer a mão de pele retinta devagar, o
que era um acontecimento incomum. Sua timidez, ou alguma
outra coisa, geralmente mantinha sua boca fechada e a mão
abaixada. Mas algo a encorajou naquele dia. Eu sorri quando vi
sua pequena mão se erguer para chamar a atenção da
professora.
A professora olhou para ela, desviou o olhar e chamou outra
mão branca assim que foi erguida. Quando o braço da menina
negra desceu, vi sua cabeça se abaixar. Enquanto eu via sua
cabeça se abaixar, vi seu ânimo se arrefecer. Eu me virei e olhei
para a professora que, naturalmente, não estava olhando para
mim. Estava ocupada demais dando atenção ao aluno branco
favorito para notar o que estava acontecendo na última fileira —
nem a minha fúria, nem a tristeza da menina foram registradas
por ela.
Estudiosos chamam o que eu vi de “microagressão”, um termo
cunhado pelo eminente psiquiatra de Harvard Chester Pierce, em
1970. Pierce empregou o termo para descrever o constante
abuso racista verbal e não verbal que os brancos dirigem aos
negros onde quer que estejam, todos os dias. Uma mulher
branca agarra a bolsa se um negro se senta ao seu lado. O
assento ao lado de um negro fica vazio em um ônibus lotado.
Uma mulher branca chama a polícia ao ver negros fazendo um
churrasco no parque. Os brancos nos dizem que nossa
determinação é ódio ou que os talentos que praticamos são
naturais. Confundem-nos com o único negro das proximidades.
Chamam a polícia porque nossas crianças estão vendendo
limonada na rua. Detonam o ebonics 1 por diversão. Supõem que
somos os criados. Supõem que os criados não são inteligentes.
Fazem perguntas sobre toda a raça negra. Não nos concedem o
benefício da dúvida. Chamam a polícia por estarmos correndo na
rua.
Como afro-americano, Pierce sofreu e testemunhou esse tipo
de abuso cotidiano. Ele identificou esses abusos individuais
como violência racista.
Desde 1970, o conceito de microagressões se ampliou e
passou a ser aplicado a abusos interpessoais não apenas aos
negros, mas contra todos os grupos marginalizados. Na última
década, o termo se tornou popular no âmbito da justiça social por
meio do trabalho do psicólogo Derald Wing Sue. Ele define
microagressões como “breves interações diárias que enviam
mensagens depreciativas para certos indivíduos por causa da
participação em grupos específicos”.
Não acho que seja coincidência que o termo “microagressão”
tenha se tornado popular durante a assim chamada era pós-
racial, na qual algumas pessoas imaginaram que entramos com a
eleição do primeiro presidente negro. A palavra “racismo” saiu de
moda em meio à névoa liberal do progresso racial — a marca
política de Obama — e os conservadores começaram a
equiparar “racismo” à ofensiva palavra “crioulo”, um termo
maldoso pejorativo e não um termo descritivo. Com a palavra em
si gerando controvérsia para alguns, ultrapassada para outros, alguns norte-americanos bem-intencionados começaram,
conscientemente ou, talvez, inconscientemente, a procurar outros
termos para identificar o racismo. A “microagressão” tornou-se
parte de todo um vocabulário de palavras velhas e novas —
como “guerras culturais”, “estereótipo” e “preconceito implícito”,
“ansiedade econômica” e “tribalismo” — que facilitaram a tarefa
de falar sobre ou evitar a palavra com R.
Eu não uso mais “microagressão”. Detesto a plataforma pós-
racial que apoiou sua repentina popularidade. Detesto seus
componentes — “micro” e “agressão”. Um persistente burburinho
diário de abuso racista não é ‘micro’. Eu uso o termo “abuso”,
porque agressão não é um termo adequado. Abuso descreve
com exatidão o ato e seus efeitos nas pessoas: angústia, raiva,
preocupação, depressão, ansiedade, dor, fadiga e suicídio.
O que outras pessoas chamam de microagressão, eu chamo de
abuso racista. E eu chamo as políticas de tolerância zero que
evitam e punem esses abusadores pelo nome que merecem:
antirracistas. Somente racistas se negam a usar a palavra com R
— o racismo está repleto de negação.
D , precisei de algum tempo para pensar
sobre o abuso racista que presenciei. Observei minha colega de
classe desalentada, de cabeça baixa, enquanto caminhávamos
pelo longo corredor que levava à capela contígua, onde
assistiríamos ao nosso culto semanal. A tristeza dela não dava
mostras de desaparecer. Nem a minha fúria.
A capela tinha um design pós-moderno, mas seu interior era
simples: um pequeno púlpito e dezenas de fileiras de bancos
marrons, com uma cruz se elevando acima de tudo na parede ao
fundo. Quando o culto matinal terminou, a professora começou a
conduzir meus colegas de classe para fora. Eu não me mexi.
Fiquei sentado na beira do banco e olhei fixamente para a
professora que se aproximava.
“Ibram, hora de ir”, disse ela, simpática.
“Eu não vou a lugar algum!”, respondi fracamente, e olhei direto
para a cruz.
“O quê?”
Eu olhei para ela, os olhos brilhando, arregalados: “Eu não vou
a lugar algum!”
“Não! Você precisa sair, agora!”
Lembrando o ocorrido, caso eu fosse uma de suas crianças
brancas, ela teria perguntado: “O que há de errado?” Será que
lhe ocorreria que eu poderia estar passando mal? Fico
pensando… Eu me pergunto se as ideias racistas dela atribuíram
minha resistência à negritude e, consequentemente, a
categorizou como má conduta, e não sofrimento. Com
professores racistas, crianças não brancas malcomportadas não
são consultadas, não recebem empatia e legitimidade.
Recebemos ordens e castigos e “sem dar desculpas”, como se
fôssemos adultos. A criança negra é maltratada como um adulto,
e o adulto negro é maltratado como uma criança.
Meus colegas de classe já estavam quase fora da capela.
Alguns mais atentos pararam perto da porta, observando e
especulando. Furiosa e perplexa por essa interrupção, a
professora mandou que eu saísse de novo. Sem sucesso. Ela
agarrou meu ombro.
“Não me toque!”, gritei.
“Vou chamar a diretora”, disse ela, virando-se para a saída.
“Eu não ligo! Pode chamar! Pode chamar agora!”, gritei,
olhando para frente enquanto ela se afastava de mim. Senti uma
única lágrima escorrendo de cada olho.
O silêncio agora era profundo. Enxuguei as lágrimas. Comecei
a ensaiar o que diria à diretora. Quando chegou, deu mais
algumas ordens, imaginando que fariam com que eu me
movesse. Ela aprendeu a lição como sua predecessora. Eu não
me moveria até que recitasse meu primeiro discurso sobre
racismo, até ter a chance de defender nossa negritude.
. Eu sou negro. Olhei para a pele retinta da
menina e vi a cor da minha pele. Olhei seu cabelo crespo,
dividido ao meio em trancinhas presas com fivelas, e vi meu
cabelo crespo, meu pequeno afro. Olhei seu nariz largo e vi meu
nariz. Olhei seus lábios grossos e vi meus lábios. Eu a ouvi
falando e me ouvi falando. Não era uma miragem. Nós éramos iguais. Aqueles três alunos brancos favorecidos — eles eram
diferentes em minha compreensão racial de oito anos de idade.
Sua pele clara, cabelos lisos, o jeito diferente de falar, até o jeito
como usavam os uniformes — tudo indicava uma espécie
diferente para mim. A diferença não era superficial.
Ninguém me ensinou que essas diferenças eram insignificantes
para nossa humanidade fundamental — a essência do
antirracismo biológico. Os adultos me ensinaram, de várias
formas, que essas diferenças superficiais significavam diferentes
formas de humanidade — a essência do racismo biológico.
Racistas biológicos são segregacionistas. O racismo biológico
se baseia em duas ideias: que a biologia das raças é
significativamente diferente e que essas diferenças criam uma
hierarquia de valor. Cresci acreditando na primeira ideia da
diferença racial biológica. Cresci desacreditando a segunda ideia
da hierarquia racial biológica, que está em conflito com a história
bíblica da criação que aprendi por meio do estudo religioso, na
qual todos os seres humanos descendem de Adão e Eva. Ela
também entrava em conflito com o credo secular que me foi
ensinado, a história da criação norte-americana de que “todos os
homens são criados iguais”.
Minha aceitação da distinção racial biológica e a rejeição da
hierarquia racial biológica foi como aceitar a água e rejeitar que é
molhada. Mas isso foi exatamente o que eu e muitos de nós
aprendemos a fazer em nosso duelo racial de consciências.
A diferença racial biológica é uma das crenças racistas
amplamente aceitas que poucas pessoas percebem que aceitam
— tampouco percebem que essas crenças estão enraizadas em
ideias racistas. Cresci ouvindo que os negros tinham “mais
capacidade física natural”, como metade dos participantes
afirmaram em uma pesquisa de 1991. Que o “sangue negro” era
diferente do “sangue branco”. Que “uma gota de sangue negro
faz um negro” e “apaga a luz do intelecto”, como Thomas Dixon
escreveu em The Leopard’s Spots [“As Manchas do Leopardo”,
em tradução livre] de 1902. Que os negros têm o dom natural da
improvisação. Que, “se os negros têm certas habilidades inatas,
como tomadas de decisão de improviso, isso explicaria por que eles predominam em certas áreas, como jazz, rap, xadrez e
astronomia”, sugeriu Dinesh D’Souza em seu livro de 1995, com
o risível título mentiroso The End of Racism [“O Fim do Racismo”,
em tradução livre]. Que as mulheres negras têm nádegas
naturalmente grandes e homens negros têm pênis naturalmente
grandes. Que “o aumento de estupros de mulheres brancas” se
origina do “tamanho avantajado do pênis do negro” e seu “direito
de nascença” ao “desvario e excesso sexual”, como um médico
escreveu em um exemplar de 1903 da revista Medicine .
Que os negros são biologicamente diferentes por causa da
escravidão. Na Conferência da Associação Americana do
Coração, de 1988, um pesquisador negro sobre a hipertensão
disse que os afro-americanos apresentavam taxas de
hipertensão mais altas porque só aqueles capazes de reter
elevados graus de sal sobreviveram consumindo água salgada
do Oceano Atlântico durante a travessia. “Discuti esse fato com
vários colegas e… ele certamente parece plausível”, disse
Clarence Gold para os deslumbrados repórteres. A plausibilidade
se tornou prova, e a tese de escravidão/hipertensão recebeu o
tapete vermelho na comunidade cardiovascular nos anos de
1990. Grim não chegou a essa tese em seu laboratório de
pesquisas. Ele a elaborou ao ler Raízes , de Alex Haley. Quem
precisa de comprovação científica quando uma distinção racial
biológica pode ser imaginada com a leitura de ficção? Com a
leitura da Bíblia?
que me ensinou que todos os humanos
descendiam do primeiro casal também defende a diferença
humana imutável, o resultado de uma maldição divina. “As
pessoas que foram espalhadas sobre a Terra vieram dos três
filhos do Noé”, segundo a história bíblica do Grande Dilúvio no
nono capítulo de Gênesis. Noé plantou uma vinha, tomou de seu
vinho e adormeceu, nu e embriagado, em sua tenda. Cam viu a
nudez do pai e alertou os irmãos. Sem e Jafé se recusaram a
olhar a nudez de Noé, voltaram para a sua tenda e o cobriram.
Quando Noé acordou, soube que Cam, pai de Canaã, o tinha visto em toda a sua nudez. “Que Canaã seja amaldiçoado”,
encolerizou-se Noé. “Que Canaã seja escravo de Sem.”
Quem são os descendentes amaldiçoados de Canaã? Em
1578, George
Best, escritor de viagens inglês, ofereceu uma resposta que, não
coincidentemente, justificou expandir a escravidão europeia de
africanos. Deus desejou que o filho de Cam e “todos os seus
descendentes depois dele deveriam então ser negros e
repugnantes”, Best escreve: “Que isso possa ser uma exibição
de desobediência para todo o mundo.”
O poder racista imediatamente tornou a distinção racial
biológica e a hierarquia racial biológica os componentes do
racismo biológico. Essa teoria da maldição teve uma vida de
destaque nos lábios que justificavam os escravagistas até que o
comércio de escravizados negros terminou em países cristãos no
século XIX. A prova não teve importância quando a diferença
racial biológica pôde ser criada por meio da interpretação
incorreta da Bíblia.
Mas a ciência também pode ser mal interpretada. Depois que
Cristóvão Colombo descobriu um povo não mencionado na
Bíblia, surgiram especulações sobre os indígenas norte-
americanos e logo sobre africanos descendentes de um “Adão
diferente”. Porém a Europa cristã considerou a poligênese — a
teoria de que as raças são espécies separadas com criações
distintas — uma heresia. Quando Isaac La Peyrère publicou Men
Before Adam [“Os Homens Antes de Adão”, em tradução livre]
em 1655, as autoridades francesas o jogaram na prisão e
queimaram seus livros. Contudo, proprietários poderosos de
escravizados poderosos “preferiram” a crença pró-escravatura de
que existia uma “raça de Homens não descendentes de Adão” à
“maldição de Cam”.
A poligênese tornou-se fonte de debates durante todo o
Iluminismo. O debate atingiu o clímax nos anos de 1770, durante
o primeiro movimento antiescravagista transatlântico. Em 1776,
Thomas Jefferson adotou a defesa da monogênese. Todavia, nas
décadas seguintes, a poligênese passou a dominar o
pensamento racial nos Estados Unidos por meio de estudiosos como Samuel Morton e Louis Agassiz, induzindo o biólogo
Charles Darwin a escrever nas páginas de abertura de A Origem
das Espécies , em 1859: “A opinião que a maioria dos
naturalistas considera, e que depois passei a considerar — ou
seja, que cada espécie foi criada independentemente — é
incorreta.” Ele apresentou a teoria da seleção natural, que foi
logo usada como outro método para distinguir e classificar as
raças biologicamente.
A raça branca naturalmente selecionada estava vencendo a
luta, estava evoluindo, estava se dirigindo à perfeição, segundo
os darwinistas sociais. Os três únicos cenários para as raças
“mais fracas” eram extinção, escravidão ou assimilação, explicou
o darwinista social que fundou a sociologia norte-americana.
“Muitos temem a primeira possibilidade para os índios”,
coescreveu Albion Small em 1894; “o segundo destino muitas
vezes é previsto para os negros; enquanto o terceiro é previsto
para os chineses e outros povos orientais”.
O movimento eugênico transatlântico, impulsionado por Francis
Galton, meio-primo de Darwin, visava acelerar a seleção natural
com políticas que encorajavam a reprodução entre pessoas com
genes superiores e tornar a escravizar ou matar as
geneticamente inferiores. A indignação global depois das
políticas voltadas para a eugenia genocida da Alemanha nazista
em meados do século XX levou à marginalização do racismo
biológico no pensamento acadêmico pela primeira vez em 400
anos O racismo biológico — teoria da maldição, poligênese e
eugenia — foram fortes durante todo esse tempo. E, no entanto,
a marginalização no pensamento acadêmico não significou
marginalização no pensamento comum, incluindo o tipo de
pensamento comum que me rodeava quando criança.
acompanharam o presidente dos
Estados Unidos quando ele entrou Salão Leste da Casa Branca,
em 26 de junho de 2000. Bill Clinton se postou atrás do pódio
entre duas telas que mostravam este título:
/ . Geneticistas tinham começado a decodificar o livro da vida em 1990, o mesmo
ano em que me identifiquei neste livro como negro.
Depois de agradecer a políticos e cientistas de todo o mundo,
Clinton
recuou 200 anos, para o dia em que Thomas Jefferson “abriu um
mapa magnífico” do continente dos Estados Unidos “nesta sala,
neste chão”.
“Hoje, o mundo está se unindo a nós aqui, no Salão Leste, para
mostrar um mapa ainda mais importante”, anunciou Clinton.
“Estamos aqui para comemorar a conclusão da primeira pesquisa
de todo o genoma humano. Sem dúvida, este é o mapa mais
importante, mais impressionante já produzido pela humanidade.”
Quando os cientistas terminaram de desenhar o mapa de “nosso
milagroso código genético”, quando recuaram e olharam para o
mapa, uma das “grandes verdades” que viram foi “que, em
termos genéticos, todos os seres humanos, independentemente
de raça, são mais do que 99,9% iguais”, declarou Clinton. “Isso
significa que a ciência moderna confirmou o que já aprendemos
com as religiões antigas. O fato mais importante da vida nesta
Terra é nossa humanidade comum.”
Ninguém me disse que uma investigação determinante na
história humana moderna estava se desenrolando atrás das
guerras raciais dos anos de 1990. Provavelmente foi um dos
anúncios científicos mais importantes já feitos por um chefe de
Estado no poder — talvez tão importante para os humanos
quanto a chegada à Lua —, mas a novidade sobre nossa
igualdade fundamental foi rapidamente superada por discussões
mais familiares.
“Os cientistas que planejam a próxima fase do projeto genoma
humano estão sendo obrigados a confrontar uma questão
traiçoeira: as diferenças genéticas entre as raças humanas”,
relatou Nicholas Wade, jornalista especializado em ciência, no
New York Times não muito tempo depois do anúncio de Clinton.
Em seu best-seller de 2014, Uma Herança Incômoda , Wade
afirmou que “existe um componente genético no comportamento
social humano”. Essa ligação da biologia ao comportamento é o
berço do racismo biológico — ela leva à classificação biológica das raças e à suposição de que a biologia de certas raças gera
características comportamentais superiores, como a inteligência.
Contudo, não existe algo como ancestralidade racial. Existe
uma ancestralidade étnica. Camara Jones, um proeminente
pesquisador médico de disparidades de saúde, explicou-a desta
forma à estudiosa de bioética, Dorothy Roberts: “As pessoas
nascem com uma ascendência que vem dos pais, mas é
atribuída à raça.” Pessoas de mesmos grupos étnicos nativos de
determinadas regiões geográficas costumam partilhar o mesmo
perfil genético. Os geneticistas os chamam de “populações”.
Quando os geneticistas comparam essas populações étnicas,
eles constatam que há mais diversidade genética entre
populações dentro da África do que entre a África e o resto do
mundo. Grupos étnicos na África Ocidental são mais parecidos
geneticamente com grupos étnicos na Europa Ocidental do que
com grupos étnicos na África Oriental. A raça é uma miragem
genética.
Segregacionistas como Nicholas Wade calculam que, se os
humanos são 99,9% geneticamente semelhantes, então eles
devem ser 0,1% diferentes. E essa diferença deve ser racial. E
esse 0,1% de diferença racial cresceu exponencialmente ao
longo dos milênios. E é sua função vasculhar céu e Terra em
busca dessas raças exponencialmente diferentes.
Assimilacionistas aceitaram uma tarefa diferente, que está em
andamento há décadas. “O que deveríamos ensinar em nossas
igrejas e além de seus muros?” Ken Ham, fundamentalista
cristão, coautor de One Race One Blood [“Mesma Raça, Mesmo
Sangue”, em tradução livre], em um artigo de 2017. “Primeiro,
mostre os pontos em comum para evolucionistas e criacionistas:
o mapeamento do genoma humano concluiu que há somente
uma raça, a raça humana.”
Criadores de uma raça única pressionam para o fim da
categorização e identificação pela raça. Eles agitam o dedo para
pessoas como eu, identificadas como negras, mas a triste
verdade é que sua estratégia pós-racial bem-intencionada não
faz sentido em nosso mundo racista. A raça é uma miragem, mas
uma miragem ao redor da qual a humanidade se organizou de modos muito reais. Deixar de imaginar a existência de raças em
um mundo racista é tão conservador e prejudicial quanto deixar
de imaginar classes em um mundo capitalista — isso permite que
as raças e classes dominantes continuem dominando.
Assimilacionistas acreditam no mito pós-racial de que falar
sobre raças é racismo, ou que, se pararmos de nos identificar por
raças, o racismo desaparecerá por milagre. Eles não percebem
que, se pararmos de usar categorias raciais, não seremos
capazes de identificar a desigualdade racial. Se não pudermos
identificar a desigualdade racial, não poderemos identificar
políticas racistas. Se não pudermos identificar políticas racistas,
não poderemos contestar políticas racistas. Se não pudermos
contestar políticas racistas, a solução final do poder racista será
atingida: um mundo de desigualdade que ninguém pode ver,
quanto mais combater. Pôr fim às categorias raciais é
potencialmente o último, não o primeiro, passo na luta
antirracista.
Segregacionistas veem seis raças biologicamente distintas. Os
assimilacionistas veem uma raça humana biológica. Contudo,
também podemos ver a questão através das lentes do
antirracismo biológico: ser antirracista é reconhecer a realidade
da igualdade biológica, que a cor da pele é tão insignificante para
a nossa humanidade fundamental quanto a roupa que usamos
sobre essa pele. Ser antirracista é reconhecer que não existe
sangue branco ou doenças negras ou atletismo latino nato. Ser
antirracista é também reconhecer a realidade dessa miragem
racial, que vive e respira, que torna a cor da pele mais
significativa que nossa individualidade. Ser antirracista é focar o
fim do racismo que molda as miragens, não ignorar as miragens
que moldam nossas vidas.
sentou-se ao meu lado. Talvez, de
repente, tenha deixado de me ver como um menino
malcomportado, mas como um menino, um aluno sob seus
cuidados, com um problema. Talvez não. Seja como for, ela
permitiu que eu falasse. Defendi meu discurso. Eu não usei
termos como “abuso racial” e “ideias racistas”. Usei termos como “justo” e “injusto”, “triste” e “feliz”. Ela ouviu e me surpreendeu
com perguntas. Meu protesto solitário terminou depois que ela
me ouviu e concordou em falar com a professora.
Eu esperava ser castigado quando a diretora convocou minha
mãe naquela tarde. Depois de descrever o ocorrido, a diretora
disse que meu comportamento era proibido na escola. Minha
mãe não disse que nunca mais aconteceria, como a diretora
esperava. Minha mãe disse que teria que conversar comigo.
“Se você quiser protestar, terá que lidar com as
consequências”, disse minha mãe à noite, como faria em outras
noites depois de minhas manifestações.
“Ok”, respondi. Mas não houve consequências dessa vez. E a
professora mudou o comportamento em relação aos alunos não
brancos.
O quarto ano pôs fim à questão. Meus pais me tiraram dessa
escola. Um ano foi suficiente. Eles procuraram uma escola
particular cristã que validasse melhor minha identidade racial.
Encontraram professores negros na St. Joseph Parish Day
School, uma escola episcopal mais perto de casa, em Queens
Village, onde cursei o quinto, sexto e sétimo anos.
No oitavo ano e em todo o ano de “humor” que manteve minha
classe do nono ano tomada por risos e mágoas, fui transferido
para uma escola luterana particular perto da St. Joseph. Quase
todos os meus colegas do nono ano gostavam de fazer piadas.
Quase todos eram alvo de piadas por algum motivo. Mas uma
delas doeu mais do que todas.
1 N. do R.T.: Linguagem atribuída a descendentes de africanos escravizados em países da África Ocidental, Caribe e América do Norte.