Como Ser Antirracista

Ibram X. Kendi · Capítulo 6 de 21

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Como Ser Antirracista

Poder

CAPÍTULO 3

 

PODER

 

RAÇA: Um constructo de poder da diferença inferida ou

consolidada que

vive socialmente.

 

E , procurando sinais de vida.

Mas a rotina da escola tinha terminado horas antes. Eram

perto de 16h naquele dia quente de abril em 1990, em Long

Island, Nova York.

Estacionamos o carro e notei a ansiedade no rosto de meus

pais enquanto eles se desvencilhavam dos cintos de segurança.

Talvez só estivessem tentando se resignar com o percurso de 30

minutos até Long Island, duas vezes por dia, a semana inteira,

ano após ano — além do trajeto de uma hora para seus

empregos em Manhattan. Senti o desconforto deles e o meu. O

nervosismo pela troca de escola. Desejando que a escola pública

do distrito 251 fosse além do terceiro ano. Sentindo-me mal tão

longe de casa nessa vizinhança desconhecida. Meus

sentimentos de garoto de 7 anos estavam agitados.

Várias escolas públicas de ensino fundamental se localizavam a

pequena distância de minha casa, em Queens Village. Porém

nova-iorquinos negros com meios de fazê-lo estavam separando

seus filhos dos filhos de negros pobres das vizinhanças negras

pobres, assim como nova-iorquinos brancos estavam separando

seus filhos de crianças negras. O duelo de consciência de pais

brancos fazia com que não se importassem em gastar mais com

moradias a fim de mandar seus filhos para escolas públicas

brancas — e mantê-los longe de escolas e crianças

supostamente ruins. O duelo de consciência de pais negros fazia

com que não se importassem de pagar escolas privadas negras

para manter seus filhos longe das mesmas crianças e escolas

públicas.

Uma mulher negra nos cumprimentou na porta da frente da

Grace Lutheran School. Ela nos aguardava. Era a professora do

quarto ano e, após um rápido cumprimento, nos levou por um

corredor. Havia salas de aula dos dois lados, mas eu me

concentrei nas fotos do lado de fora: todos aqueles rostos de

adultos brancos e jovens negros olhando para nós. De vez em

quando, espiamos o interior das classes bem decoradas.

Nenhum som. Nenhum aluno. Nenhum professor. Apenas

passos.

Ela nos levou para a sua classe do quarto ano, bem longe da

entrada. Pudemos ver os materiais dispostos para um projeto de

ciências, enquanto ela nos explicava os detalhes. Eu não estava

nem aí para a criação de galinhas. Então ela nos levou até uma

mesa redonda e quis saber se tínhamos alguma pergunta.

Depois de sentar-se, minha mãe perguntou sobre o currículo.

Isso também não me interessou muito. Comecei a olhar com

mais atenção ao redor da sala. Uma pausa na conversa chamou

minha atenção — meu pai tinha acabado de perguntar sobre a

composição étnica do corpo discente. Maioria negra. Tomei nota.

Minha mente vagou de novo, dessa vez pela sala de aula e pela

escola, tentando imaginar alunos e professores, lembrando

aqueles retratos no corredor. Uma pausa me chamou a atenção

outra vez. A pergunta saltou da minha boca.

“Você é a única professora negra?”

“Sim, mas…”

Eu a interrompi. “Por que você é a única professora negra?”

Confusa, ela olhou para meus pais. Meus pais trocaram olhares

curiosos. Continuei olhando para a professora, imaginando por

que ela olhava para meus pais. Minha mãe pôs fim ao silêncio

desconfortável. “Ele tem lido biografias de líderes negros”.

Minha mãe falava sobre a série Junior Black Americans of

Achievement, promovida por Coretta Scott King. Meu pai tinha

comprado várias dessas biografias, que agora já chegavam a

mais de cem. Martin Luther King Jr. Frederick Douglass. Mary

McLeod Bethune. Richard Allen. Ida B. Wells. Meu pai insistia

que eu usasse um livro da pilha para cada projeto de redação.

Essas biografias envolventes eram tão estimulantes quanto

novos jogos para o meu Sega Genesis. Quando eu começava a

ler, não conseguia parar. Descobrir por meio desses livros a

longa história do mal causado aos norte-americanos negros me

deixava furioso e trouxe à vida uma espécie de consciência racial

pela primeira vez.

“Ele tem muita consciência de ser negro”, minha mãe fez

questão de acrescentar, olhando para meu pai. Ela não pediu

confirmação. Meu pai acenou concordando, mesmo assim,

enquanto eu olhava para a professora, esperando a resposta.

Nessa sala de aula, naquele dia de abril em 1990, meus pais

descobriram que eu entrava na puberdade racial. Aos sete anos

de idade, comecei a sentir a névoa furtiva do racismo dominar

meu corpo negro. Ele era grande, maior do que eu, maior do que

meus pais ou qualquer coisa em meu mundo, e ameaçador. A

raça é um constructo poderoso — poderoso o bastante para nos

consumir. E chega até nós cedo.

Mas, apesar de todo esse poder formador de vida, a raça é uma

miragem, o que não diminui a sua força. Nós somos aquilo que

vemos, não importa se o que vemos existe ou não. Somos aquilo

que as pessoas veem, não importa se o que elas veem existe ou

não. O que as pessoas veem em si mesmas e nos outros tem

significado e se manifesta em ideias, atos e políticas, mesmo que

o que veem seja uma ilusão. A raça é uma miragem boa de se

ver, mas nunca devemos esquecer que é uma miragem

produzida pela luz poderosa do poder racista.

Portanto, não tenho pena do meu eu de sete anos por se

identificar como negro. Eu ainda me identifico como negro. Não

porque acredito que a negritude, ou a raça, seja uma categoria

científica significativa, mas porque as nossas sociedades,

políticas, ideias, histórias e culturas criaram a raça e a tornaram

algo importante. Eu me encontro entre aqueles que foram

humilhados por ideias racistas, sofreram com políticas racistas e

que, mesmo assim, continuaram firmes e construíram

movimentos e culturas para resistir ou, pelo menos, persistir

nessa loucura. Eu me vejo cultural, histórica e politicamente

como uma pessoa não branca, um ser afro-americano, um africano, um membro da diáspora forçada e não forçada africana.

Eu me vejo histórica e politicamente como uma pessoa não

branca, como um membro do sul global, como um forte aliado

dos povos latinos, do Leste Asiático, do Oriente Médio, dos

indígenas e de todos os povos ultrajados do mundo, de ciganos e

de judeus da Europa aos aborígenes da Austrália, aos brancos

atacados por sua religião, classe, gênero, identidade

transgênero, etnia, sexualidade, peso, idade e deficiência. A

dádiva de me ver como negro em vez de ignorar a cor da pele é

que ela permite que eu me veja histórica e politicamente como

um antirracista, um membro de um corpo inter-racial que luta

para aceitar, igualar e empoderar a diferença racial de todos os

tipos.

Alguns brancos não se identificam como brancos pelo mesmo

motivo que se identificam como não racistas: para evitar lidar

com os meios que a branquitude — ainda que um constructo e

uma miragem — moldava suas noções em relação aos Estados

Unidos e sua identidade e lhes ofereceu privilégios, o principal

sendo o de serem inerentemente normais, comuns e legítimos. É

um crime racial ser você mesmo quando não se é branco nos

Estados Unidos. É um crime racial parecer você mesmo ou se

empoderar quando não se é branco. Acho que eu me tornei um

criminoso aos sete anos de idade.

Uma das ironias do antirracismo é termos que nos identificar

racialmente a fim de identificar privilégios e perigos raciais de

sermos quem somos. Latinos, asiáticos, africanos, europeus,

indígenas e povos do Oriente Médio: essas seis raças — pelo

menos no contexto norte-americano — são fundamentalmente

identidades de poder, porque a raça é fundamentalmente um

constructo de poder da mistura de diferenças que existe

socialmente: o poder de categorizar e julgar, elevar e rebaixar,

incluir e excluir. Os adeptos da noção de raça usam esse poder

para classificar indivíduos, etnias e nacionalidades distintas em

raças monolíticas.

 

...

construção de raça foi o

primeiro poder racista e o primeiro comerciante exclusivo dos

escravizados da recém-criada raça africana. O indivíduo que

orquestrou esse comércio de um povo inventado foi apelidado de

o “Navegador”, embora ele não tenha deixado Portugal no século

XV. A única coisa que ele navegou foram os mares político-

econômicos da Europa, a fim de criar as primeiras políticas

transatlânticas de comércio de escravos. Aclamado por algo que

não era (e ignorado pelo que era), faz sentido afirmar que Dom

Henrique, o Navegador, irmão e depois tio de reis portugueses, é

o primeiro personagem na história do poder racista.

Dom Henrique [Henry, em inglês] vivia em mim. O nome viajou

pelos séculos e atravessou o Oceano Atlântico, e acabou na

família de meu pai. Depois que minha mãe deu ao meu irmão

mais velho um segundo nome de sua família, meu pai escolheu

um segundo nome de sua família para mim. Ele escolheu o nome

de seu trisavô escravizado, Henry. Meu pai não sabia que esse

ancestral tinha o mesmo nome do Navegador, mas, quando

descobri a história, soube que tinha que me livrar dele. Meu

segundo nome hoje é Xolani, que significa paz, exatamente o

que os comerciantes de escravizados arrancaram da África (e as

Américas e a Europa), e que arrancaram de meu ancestral

Henry.

Até sua morte em 1460, Dom Henrique patrocinou viagens dos

portugueses no Atlântico para a África Ocidental, para driblar

comerciantes islâmicos de escravizados, e ao fazer isso criou um

tipo diferente de escravatura. Comerciantes de escravizados

islâmicos pré-modernos, como seus colegas cristãos na Itália

pré-moderna, não seguiam políticas racistas — eles

escravizavam igualmente quem hoje consideramos africanos,

árabes e europeus. Na aurora do mundo moderno, os

portugueses começaram a comercializar exclusivamente corpos

africanos. Os navegadores de Dom Henrique fizeram história

quando passaram o temido buraco “negro” do Cabo Bojador, na

costa do Saara Ocidental, e levaram escravizados africanos para

Portugal.

O primeiro biógrafo — e apologista — de Dom Henrique tornou-

se o primeiro criador da noção de raças e idealizador racista. O

rei Afonso V incumbiu Gomes de Zurara, cronista real e leal

comandante da Ordem Militar de Cristo de Dom Henrique, de

compor uma biografia elogiosa das aventuras africanas de seu

“amado tio”. Zurara terminou a Crônica do Descobrimento e

Conquista da Guiné em 1453, o primeiro livro europeu sobre a

África.

Uma das histórias de Zurara relatou o primeiro leilão importante

de escravizados em Lagos, Portugal, em 1444. Alguns cativos

eram “bastante brancos, de aparência agradável e bem

proporcionados”, enquanto outros eram como “mulatos” ou “tão

negros quanto etíopes e muito feios”. Apesar dos diferentes tons

de pele, idiomas e grupos étnicos, Zurara os misturou em um

único grupo de pessoas, dignas de serem escravizadas.

Ao contrário de bebês, fenômenos costumam nascer muito

antes de os humanos lhes darem nomes. Zurara não afirmou que

os negros pertenciam à raça negra. O poeta francês Jacques de

Brézéc usou o termo “raça” em um poema de caça, em 1481. Em

1606, o mesmo diplomata que levou a viciante planta de tabaco

para a França formalmente definiu raça pela primeira vez em um

importante dicionário europeu. “Raça… significa descendência”,

escreveu Jean Nicot em Trésor de la langue française [“Tesouro

da língua francesa”, em tradução livre]. “Portanto, diz-se que um

homem, um cavalo, um cão ou outro animal vem de uma raça

boa ou ruim.” Desde o início, criar a noção de raça significou criar

hierarquia racial.

Gomes de Zurara agrupou todas aquelas pessoas da África em

uma única raça pelo mesmo motivo: para criar hierarquia — a

primeira ideia racista. A concepção de raça é o ingrediente

essencial na criação de ideias racistas, a massa que envolve o

recheio da torta. Quando uma raça é criada, ela precisa ser

recheada — e Zurara a recheou com qualidades negativas que

justificariam a missão evangélica de Dom Henrique no mundo.

Essa raça negra de pessoas se perdeu, vivendo “como animais,

sem quaisquer costumes de seres aceitáveis”, Zurara escreveu. “Eles não compreendiam o que era bom, só sabiam viver em

uma indolência animal.”

Depois que colonizadores espanhóis e portugueses chegaram

às Américas no século XV, eles adotaram a noção de raças em

relação a todos os povos indígenas, designando-os como um

povo, “índios”, ou negros da terra, no Brasil do século XVI. Em

1510, o advogado espanhol Alonso de Zuazo comparou a raça

bestial de negros “fortes para o trabalho, o oposto dos nativos,

tão fracos que só podiam realizar tarefas leves”. Os dois

constructos racistas normalizaram e racionalizaram a importação

crescente de escravizados africanos supostamente “fortes” e o

progressivo genocídio dos índios supostamente “fracos” das

Américas.

As outras raças, exceto latinos e pessoas do Oriente Médio,

foram totalmente criadas e diferenciadas pela Era do Iluminismo,

no século XVIII. Começando em 1735, Carlos Lineu eternizou a

hierarquia racial da humanidade em Systema Naturae . Ele

classificou as raças em códigos de cores, como brancos,

amarelos, vermelhos e negros. Ele associou cada raça a uma

das quatro regiões do mundo e descreveu suas características. A

taxonomia de Lineu tornou-se o modelo que praticamente todos

os adeptos da noção de raças esclarecidos seguiram e ainda

seguem hoje. E, é claro, essas não eram apenas categorias

neutras, porque nunca se pretendeu que as raças fossem

categorias neutras. O poder racista as criou com um objetivo.

Lineu posicionou o Homo sapiens europaeus no alto da

hierarquia racial e concebeu a maioria dos traços de caráter

superiores. “Vigoroso, musculoso. Cabelos loiros lisos. Olhos

azuis. Grande inteligência, criatividade. Coberto por roupas

justas. Orientado pela lei.” Ele inventou o caráter racial mediano

do Homo sapiens asiaticus : “Melancólico, sério. Cabelos e olhos

escuros. Rígido, altivo, ganancioso. Coberto por roupas largas.

Orientado por opiniões.” Ele concedeu ao caráter racial do Homo

sapiens americanus um conjunto variado de atributos: “Mal-

humorado, indiferente. Cabelos pretos lisos; narinas largas; rosto

duro; imberbe. Obstinado, satisfeito, livre. Pinta o corpo com

linhas vermelhas. Orientado por costumes.” Na parte inferior da hierarquia racial, Lineu posicionou o Homo sapiens afer :

“Indolente, preguiçoso. Cabelos pretos crespos. Pele sedosa.

Nariz achatado. Lábios grossos. Mulheres com lábios genitais e

seios alongados. Astucioso, lento, irresponsável. Cobertos de

gordura. Orientado pela inconstância.”

 

1434 1447, Gomes de Zurara calculou que 927

escravizados africanos aportaram em Portugal, “a maioria dos

quais entrou no verdadeiro caminho da salvação.” Foi, segundo

Zurara, a principal realização de Dom Henrique, abençoada por

sucessivos papas. Nenhuma menção ao quinto real de Dom

Henrique, os cerca de 185 cativos que recebeu, uma fortuna em

corpos.

O obediente Gomes de Zurara criou a diferença racial para

convencer o mundo de que Dom Henrique (e, assim, Portugal)

não comercializava escravizados por dinheiro, mas só para

salvar almas. Os libertadores tinham chegado à África. Zurara

pessoalmente enviou uma cópia de As Crônicas do

Descobrimento e Conquista da Guiné para o rei Afonso V com

uma carta de apresentação, em 1453. Ele desejou que o livro

“mantivesse” o nome de Dom Henrique “diante” dos “olhos” do

mundo, “para grande glória de sua memória”. Gomes de Zurara

garantiu que Dom Henrique fosse lembrado, assim como Dom

Henrique garantiu a fortuna da corte real. O rei Afonso acumulou

mais capital com a venda de escravizados africanos para

estrangeiros “do que com todos os impostos arrecadados em

todo o reino”, observou um viajante em 1466. A raça serviu ao

seu propósito.

A política racista do comércio de escravos de Dom Henrique

veio em primeiro lugar — uma invenção astuciosa com o objetivo

prático de se opor aos comerciantes muçulmanos. Após quase

duas décadas de comércio de escravos, o rei Afonso pediu a

Gomes Zurara para defender o lucrativo comércio de vidas

humanas, o que ele fez com a construção de uma raça negra, um

grupo inventado ao qual ele associou ideias racistas. Essa causa

e efeito — um poder racista cria políticas racistas apenas por interesse próprio; as políticas racistas precisam que as ideias

racistas as justifiquem — persiste ao longo da vida do racismo.

 

J B Americans of Achievement para frente,

aprendi que ideias racistas geram políticas racistas. Que a

ignorância e o ódio causam ideias racistas. Que a raiz do

problema do racismo é a ignorância e o ódio.

Mas isso nos dá uma visão errada da cadeia de eventos. A raiz

do problema — de Dom Henrique ao presidente Trump —

sempre foi o interesse próprio do poder racista. Um poderoso

interesse próprio econômico, político e cultural — o acúmulo

primitivo de capital, no caso do reino de Portugal e subsequentes

comerciantes de escravizados — tem fundamentado as políticas

racistas. Intelectuais poderosos e brilhantes na tradição de

Gomes de Zurara então produziram ideias racistas para justificar

as políticas racistas de sua época, para redirecionar a

responsabilidade das desigualdades raciais de sua época para

longe dessas políticas e para as pessoas.

 

superou a surpresa de ser questionada por

um garoto de sete anos sobre a escassez de professores negros.

Depois de analisar a expressão de meus pais, ela olhou para

mim: “Por que você quer saber?”, perguntou, com delicadeza.

“Se vocês têm tantas crianças negras, deveriam ter mais

professores negros”, respondi.

“A escola não contratou mais professores negros.”

“Por quê?”

“Eu não sei.”

“Por que você não sabe?”

Meus pais podiam ver minha agitação aumentando. Meu pai

mudou de assunto. Não me incomodei. Meu pensamento já tinha

me levado para longe. Estava pensando sobre o que minha mãe

tinha acabado de falar. Eu sou negro. Eu sou negro.

Acabei frequentando uma escola luterana particular mais perto

de casa, com uma professora branca no quarto ano e tudo o

mais. Não me incomodei, até perceber.